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sábado, 24 de maio de 2025

Um Filme Minecraft


 A verdade é que poucas pessoas colocavam fé num projeto que almejava adaptar para o cinema o jogo “Minecraft” –uma simulação onde crianças (pois, o jogo é mais voltado para elas...) constroem casas e edificações afim a partir de cubos feitos de diferentes materiais numa dimensão onde as leis da Física são mais simplificadas –sabendo então que o projeto era dirigido por Jared Hess, diretor do cultNapoleão Dynamite” e do simplesmente esquisito “Nacho Libre”, decretava de vez a morte comercial da produção. Contudo, eis que numa ironia extraordinária do destino, “Um Filme Minecraft” sagrou-se como a grande bilheteria do primeiro semestre do ano de 2025, esmagando feito um rolo compressor as ambições financeiras de “Branca de Neve”, da Disney –que estreou no mesmo período.

A tônica, como em alguns dos filmes realizados por Hess, é difícil de ser apreendida: “Um Filme Minecraft” é, sim, uma obra estranha, e tem orgulho disso. Seus personagens são desajustados, seus intérpretes são, num primeiro momento, escolhas pouco usuais. Sua trama é non-sense, sem muito propósito ou razão de ser e, em seus melhores momentos, fragmentada. Ainda assim, “Um Filme Minecraft” é muito, muito mais que a soma de suas partes.

Essa jornada tortuosa, ainda que sempre engraçada, começa com Steve (vivido por Jack Black, colaborador de Jared Hess em “Nacho Libre”) um cara comum que, na narração cheia de intensidade e energia de Black, afirma desde criança ter sempre nutrido o sonho de... garimpar numa mina! Quando adulto ele finalmente resolve fazê-lo e, durante uma de suas garimpagens, encontra uma espécie de cubo cósmico (a lembrar, de fato o Tesseract visto em “Vingadores”) que lhe permite ir para outra dimensão! –sim, a trama é absurda e, conforme avança, equilibra uma insanidade sobre a outra e segue em frente.

Essa outra dimensão –chamada Overworld ou Mundo Superior –corresponde pois ao ambiente do jogo “Minecraft”. É ali que o protagonista descobre que, usando dos cubos à disposição (lá tudo tem o formato quadrado), pode construir tudo o que quiser, com a restrição de sua própria imaginação. É ali, também, que Steve vive por anos, até que acidentalmente acaba indo parar em outro mundo, o Mundo Inferior, este dominado por porquinhos malignos (tão fofos quanto hilários!) que almejam chegar ao Mundo Superior para dominá-lo. Prisioneiro, Steve despacha seu cachorro, Dennis (que também é quadrado, como tudo o mais naquele lugar!), para o mundo real, onde deve esconder o cubo que abre o portal para o Mundo Superior.

Anos mais tarde, o ex-campeão de videogame Garett ‘O Lixeiro’ Garrison (Jason Momoa, engraçadíssimo, vivendo um daqueles personagens presos ao passado que o diretor Jared Hess tanto ama), Dawn (Danielle Brooks, da versão musical de “A Cor Púrpura”), uma corretora de imóveis e os jovens irmãos Natalie (Emma Myers, de “Manual de Assassinato Para Boas Garotas”, a única do elenco a trazer um registro dramaticamente inapropriado) e Henry (Sebastian Eugene Hansen) acabam encontrando o cubo e vindo para o Mundo Superior, onde acham Steve e seguem para... bem, não fica bem claro qual é o objetivo deles (!). Nem o tal Mundo Superior, nem o mundo real correm qualquer perigo na trama –mesmo os porquinhos, vilões do filme, não oferecem qualquer ameaça –e durante boa parte da segunda metade de “Um Filme Minecraft”, o propósito mais sólido do grupo de protagonistas reunidos por acaso parece ser o de encontrar o cachorro de Steve (!?).

Entretanto, da forma como o filme é conduzido, isso não importa. Cada cena é simplesmente um deleite, graças à sintonia do elenco reunido em cena –sobretudo, Jack Black e Jason Momoa que formam um par imbatível na manutenção de um humor improvável e contagiante –e às cenas estranhamente curiosas engendradas pelo diretor –artesão desacostumado com produções desse porte e com efeitos digitais, Jared Hess usa de sua inadequação com o material para benefício próprio e compõe um filme onde cada cena se sustenta com um propósito distinto; ainda que, no fim das contas, o objetivo cristalino seja sempre o de divertir.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O Amor É Cego


 Os filmes dos irmãos Peter e Bobby Farrelly sempre despertaram uma certa perplexidade da parte da crítica e do público (ao menos, a parcela um pouco mais sensata do público...). Seus trabalhos embora ostentassem alguma ocasional qualidade e noção de cinema –o que acabou eventualmente rendendo até um Oscar de Melhor Filme para um deles (para Peter, por “Green Book-O Guia”) –sempre tiveram por diretriz um viés fortemente politicamente incorreto em obras que oscilavam entre o francamente hilário e o espantosamente grosseiro.

O fato de serem comédias era o que justificava a existência de tais obras e, de repente, tornava tais impropérios mais apetecíveis ao público. Ao menos durante algum tempo.

Com a patrulha do politicamente correto em voga, as obras dos Irmãos Farelly perderam muito de sua razão de ser, de seu apelo junto ao seu público-alvo (adolescentes em sua maioria) e, nesses tempos de cancelamento virtual, passaram até a oferecer certo perigo aos seus realizadores.

O último trabalho deles nesse sentido é o divertidíssimo “Passe Livre”, num já distante 2011; observe como comédias, de um modo geral, simplesmente deixaram de ser feitas.

Exemplo de um cinema de humor que certamente jamais seria praticado hoje em dia, “O Amor É Cego” foi realizado pelos Irmãos Farrelly em 2001, um ano depois do engraçadíssimo e arrebatador “Eu, Eu Mesmo & Irene” (com Jim Carrey) e seguiu as mesmas orientações de outros trabalhos que eles entregaram naquele período. Assisti-lo hoje é constatar a espantosa liberdade criativa da qual alguns autores se beneficiavam, e que não mais existe. Difícil acreditar que um filme de tal proposta e execução passou em brancas nuvens, sem gerar polêmica ou repúdio.

Ele se revela, sobretudo, diante dos valores como hoje eles são, profundamente ofensivo, agressivo e até amoral –e nesse processo flui com uma naturalidade que torna tudo ainda mais chocante e inacreditável. Entretanto, conscientes do respaldo moral ao qual se prestam mesmo as mais ultrajantes premissas, os Farrelly reservam, ao fim de seu festival de bizarrices, preconceitos e ofensas, uma certa lição de moral e uma mensagem positivista –os detratores intolerantes de hoje em dia diriam, contudo, que seu filme vai longe demais mesmo que para justificar alguma boa intenção: Para os justiceiros sociais dos tempos atuais, contrariando Shakespeare, os fins não justificam os meios.

“O Amor É Cego” conta a história de Hal Larson (Jack Black que, após uma promissora participação em “Alta Fidelidade”, começava a alçar altos voos em Hollywood), rapaz que, ainda criança, teve um inusitado episódio quando despediu-se do próprio pai: Dopado com medicamentos que lhe entorpeciam o raciocínio devido à dor, o progenitor –que era reverendo –dá ao pequeno Hal o conselho para, quando crescer, procurar sempre as mulheres mais bonitas possíveis.

Apesar do humor de porta de banheiro desempenhado –um humor esse ao qual Jack Black se encaixa com a mesma espontaneidade que Jim Carrey –o filme dos Farrelly ostenta insuspeita sofisticação na sua carpintaria psicológica do protagonista ao apresentar esse prólogo. Pois eis que, ao crescer, Hal se torna assim, um solteiro compulsivo incapaz de aprofundar o relacionamento com uma mulher justamente devido à essa superficialidade com a qual encara a relação com o sexo oposto: Para ele e para seu amigo Mauricio (Jason Alexander, da série “Seinfield” e de “Uma Linda Mulher”), as baladas noturnas nas danceterias de Nova York consistem de procurar por mulheres de um padrão existencialmente inatingível –eles se deixam desanimar com mínimos detalhes que enxergam como imperfeições determinantes –ignorantes do fato de que, como indivíduos, também eles trazem seus próprios defeitos.

São personagens desenhados de modo a ir de encontro com a comédia assim proposta, mas não deixa ser nauseante ao expectador sensato em muitos momentos –e por razões bastante erradas.

A invariável guinada na trama vem quando Hal, por acaso, fica preso num elevador com o palestrante motivacional e programador neurológico Tony Robbins, interpretando a si mesmo. Ele identifica os revezes que a superficialidade crônica acarreta nas relações de Hal e resolve ajudá-lo: Lhe faz uma espécie de ‘hipnose’ por meio da qual ele só enxergará a ‘beleza interior’ das mulheres.

Assim, na linguagem visual estabelecida sem pudores pelos Farrelly, Hal vê mulheres deslumbrantes, maquiadas e penteadas como modelos de capa de revista, em pessoas que seriam tidas por feias, esquisitas ou exóticas, mas que têm um coração humilde e amável.

Logo, esse comportamento começa a chocar Mauricio –rendendo, no processo, uma série flagrante de comentários desrespeitosos –e piora ainda mais quando Hal acaba se enamorando de Rosemary.

Aos olhos de Hal, a simpática e bem-intencionada Rosemary é linda e magra –e mesmo que sempre bela e fotogênica, em nenhum filme antes ou depois deste, Gwyneth Paltrow esteve tão incrivelmente linda e sedutora –porém, aos olhos de todos os outros –e ocasionalmente em flagras fortuitos da própria narrativa –nota-se que Rosemary é uma garota que sofre de obesidade e tem uns quase duzentos quilos (!).

Em algum momento, essa curiosa condição de Hal será revertida pelo muy amigo Mauricio, no entanto, quando descobre a verdadeira aparência (e as reais dimensões) de Rosemary, ele já está genuinamente apaixonado –e então o protagonista se defronta com o dilema, nem tão bem esboçado assim, onde a vontade de estar com a garota que ama colide com o escrutínio da opinião alheia e com os próprios preconceitos mesquinhos então expostos.

No arco narrativo claro e bem definido que tece, “O Amor É Cego”, na evidente comédia romântica que se assume, deixa clara assim sua reflexão ao público. Todavia, lhe faltam (e muito) sutilezas para oferecer essa ideia ao longo do filme sem passar por momentos de ofensivo mau gosto e, se em seus outros trabalhos, esse mau gosto foi amenizado por uma capacidade  impecável para fazer rir, aqui, os Irmãos Farrelly trocam o humor irreprimível de “Quem Vai Ficar Com Mary?” por um nem sempre apropriado clima de romantismo.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Inimigo do Estado

Thrillers de espionagem são, em geral, uma faca de dois gumes: Exigem, no mínimo, diretores hábeis e experientes capazes de administrar com eficiência os expedientes requeridos pela narrativa. No entanto, com frequência, acabam rendendo produções charmosas e sedutoras que, em sua condução envolvente, costumam ostentar o melhor do gênero suspense.
Falta pouco para “Inimigo do Estado” atingir esse objetivo.
Um diretor com experiência, ele tem. O falecido Tony Scott, afinal, fez de quase tudo: Um dos mais emblemáticos sucessos comerciais dos anos 1980 (“Top Gun”, cujo astro, Tom Cruise, era a escolha inicial para este projeto, terminando substituído por Will Smith); um dos mais formidáveis e originais filmes de vampiros da mesma década (“Fome de Viver”); uma longa parceria com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança” e tantos outros) –mas, nunca escapou de ser lembrado mesmo como o irmão mais novo de Ridley Scott.
Se não chega a ter estatura de obra-prima, “Inimigo do Estado” prova, ao menos, a capacidade de seu diretor para compor um belo e envolvente trabalho.
Tomando por base uma das realizações fundamentais desse sub-gênero –o brilhante “A Conversação”, de Francis Ford Coppola –o filme de Tony Scott faz dignamente o que poderia se esperar dele: Contextualiza o conceito da espionagem para os novos e modernosos tempos, imprime ação vertiginosa em suas cenas e tecnologia de ponta em seu argumento (não deixando de lado um molho sócio-político para valorizá-lo), e ainda se sai com uma vistosa participação especial de Gene Hackman, astro daquele filme.
Numa ponta ilustre que não vai além do prólogo, o grande Jason Robards é um senador prestes a vetar um lei que libera a vigilância eletrônica, postura que o leva a ser assassinado a mando de Reynolds (Jon Voight), um figurão da Agência de Segurança Nacional.
O assassinato ocorre em um parque bucólico, casualmente em frente a uma câmera programada para captar a migração de pássaros. O dono da câmera (Jason Lee, também ele numa breve ponta) não tarda a ser perseguido pelos homens de Reynolds e, antes de sua trágica morte, deixa uma cópia do flagrante em meio aos pertencentes de um conhecido que encontrou por puro acaso, o advogado Robert Clayton Dean (Will Smith, numa presença tão cuidadosamente descuidada na trama quanto costumam ser os protagonistas de ação).
Sem saber o que tem em mãos, Dean tem sua vida virada de pernas para ar pelos recursos tentaculares da Agência: Eles plantam escutas em suas roupas e em toda sua casa; o levam a ser demitido da firma em que trabalha; anulam todos os seus cartões de crédito e fecham o cerco em torno dele. Tudo para fazê-lo recorrer à quem eles imaginam que possa estar por trás disso tudo, o ex-agente Brill (Gene Hackman, sempre ótimo), que cai de para-quedas no meio da trama tanto quanto Dean.
Brill, cujo background lembra, não por acaso, o personagem do mesmo Gene Hackman em “A Conversação”, já trabalhou com a Agência no passado, e por isso, tem pleno conhecimento da extensão de seus recursos –e representa, para Dean, a única alternativa de como transitar por esse novo e traiçoeiro mundo da espionagem, e nele encontrar um meio de revidar.
Nessa trama recheada de reviravoltas até bem pontuadas, o diretor Scott se esbalda nas situações que se constroem às vezes num ritmo mais frenético do que o adequado. Como é comum em suas obras, o caprichado visual publicitário se revela um empecilho para que sua premissa seja por inteiro levada a sério, mas ele tem experiência o suficiente para administrar ação e suspense em quantidades necessárias que o façam envolvente até o apoteótico final: Um tiroteio orquestrado com sinergia, sangue e alta voltagem.

terça-feira, 25 de junho de 2019

King Kong

Numa revisão, o apaixonado trabalho de Peter Jackson permite transparecer as apuradas técnicas narrativas de adaptação em relação ao assombro de seus efeitos visuais que predominam na forte impressão deixada nas primeiras vezes.
Após a ressaca de bilheterias e premiações sem precedentes da “Trilogia Senhor dos Anéis”, o projeto seguinte de Peter Jackson –ao qual a mídia e o público dedicaram interessada expectativa –representava um retorno à gênese pessoal de seu próprio apreço ao cinema: O “King Kong” original, de 1933, dirigido por Merian Cooper e Ernest Schoedsack, foi uma das obras que definiram a identidade cinéfila de um ainda muito jovem Peter Jackson.
Com efeito, sua refilmagem é frequentemente uma declaração de amor.
Já havia sido feita uma refilmagem, por John Guilhermin, em 1976, e ela tomava o mesmo princípio de atualidade do original, ambientando a trama naquele tempo presente.
Ao decidir recriar com exatidão passional o filme de Merian Cooper, Jackson paradoxalmente afastou-se dele: Se o filme original trata sua época (1933) como o período presente, o “King Kong” de Peter Jackson, ao ambientá-lo no mesmo 1933 agrega elementos distintos da contemporaneidade como a atmosfera nostálgica a emular as características da Grande Depressão, as inescapáveis referências cinematográficas e a recriação de época em termos cinematográficos que, por si só, já proporciona um filtro à realidade inerente ao cinema enquanto arte e exercício de imaginação.
Assim sendo (e com as três horas de narrativa das quais se beneficia), este “King Kong” é, antes de tudo, um filme sobre Ann Darrow, vivida com a adequada noção de desamparo por Naomi Watts –nas mãos dela, a protagonista é tanto uma artista em busca de seu lugar ao sol, como também uma sonhadora romântica que, em algum lugar lá no fundo, alimenta a esperança de achar, ou ser achada, por um príncipe encantado.
Mas, a realidade é dura: Atriz de vaudeville, Ann, como todos, já beira os níveis desesperadores da pobreza. É quase uma providência divina quando o cineasta Carl Denham (Jack Black, evitando magistralmente os personagens cômicos com os quais é associado) lhe chama para estrelar um filme numa aventura imprevista.
King Kong” é também sobre Carl Denham. Visionário e entusiasta do cinema –e malandro acima de tudo –Carl vislumbra em cada projeto seu o sucesso; indiferente ao fato de que realmente nunca o encontra. O próximo, no entanto, promete: De posse de um mapa ancestral, Carl reúne uma equipe, um elenco, uma tripulação e ainda o escritor Jack Driscol (Adrien Brody, pouco aproveitado) para juntos partirem num navio a caminho da lendária Ilha da Caveira, habitada, dizem as lendas, por criaturas pré-históricas. Lá, Carl alimenta planos de fazer uma das mais singulares filmagens já feitas –e toda a primeira hora do filme de Jackson é dedicada a esmiuçar essas motivações, as dinâmicas estabelecidas entre os distintos personagens (como a afeição romântica nascida entre Ann e Jack; as intermináveis manobras de Carl que levam todos no papo; ou a hilária prepotência vaidosa do astro da película, vivido por Kyle Chandler, em sua melhor atuação no cinema), a empatia por eles nutrida e, por consequência, a elevação exponencial do suspense quando por fim estiverem em perigo.
Quando “King Kong” já está quase na metade, sua improvavelmente longa duração começa a se justificar: Jackson constrói com ela uma atmosfera que poucos realizadores hoje têm tanta paciência para fazer.
A Ilha da Caveira, portanto, enche os olhos do expectador com seus perigos inimagináveis que seus efeitos visuais de última geração convertem em momentos assombrosos.
E Kong. Quando o protagonista de fato deste filme surge, ele se mostra assombroso, personificado por uma excelência tátil por meio da computação gráfica e, sobretudo, através da performance minuciosa e abrangente de Andy Serkis que traz para o icônico primata gigante a mesma maestria que ele ostentou em Gollum, de “O Senhor dos Anéis”.
O resto é história. Falou-se muito também sobre o fato de Peter Jackson exercitar seu vasto aparato cinematográfico sobre um filme do qual todo mundo sabia o desenlace final, mas ele não o faz presumindo que o expectador não o soubesse: Em cada circunstância que leva a trama a avançar (a captura de Ann pelos nativos; sua entrega ao deus Kong; os perigos experimentados por Jack e a tribulação para reencontrá-la; a captura de Kong; e, por fim, sua apresentação e desastrosa fuga em Nova York), Jackson enfatiza não as surpresas em potencial, mas o drama de se moldar uma tragédia irreversível.
Esse primor encontra seus acordes mais elevados na construção complexa e nada verbal da relação afetiva entre Ann e Kong –e que culmina, por sua vez, numa cena inexistente em todas as outras versões, e que pode ser nomeada como a mais bela e emocionante sequência desta produção: Quando ela e Kong, pouco antes da perseguição aérea que o levará para sempre, brincam de escorregar no gelo nas águas congeladas do rio Hudson.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Margot e O Casamento

A relação entre as irmãs Margot (Nicole Kidman com sua mescla habitual de beleza ofuscante e empenho louvável) e Pauline (Jennifer Jason Leight, igualmente eficaz) não poderia ter mais tensão e sentimentos conflitantes –e esse é um terreno no qual o diretor Noah Baumbach se mostra bastante confortável em explorar.
Realizador de obras ora magníficas, ora pedantes, mas sempre impregnadas da predisposição de analisar a fundo as particularidades de seus personagens, como “Francis Ha”, “Enquanto Somos Jovens” e “A Lula e A Baleia”, Baumbach tem apreço particular pelo tipo de estudo psicológico feito na cinematografia europeia –daí a similaridade de alguns de seus filmes com obras do cinema francês –incluindo a novelle vague –em “Frances Ha” e em muitos dos diálogos de exposição cultural, intelectual e sentimental constantemente flagrados aqui.
Pauline está prestes a casar. Oposto quase perfeito da sofisticada irmã mais velha, Margot, com a qual havia anos não falava, ela a recebe vinda da cosmopolita Nova York na pequena cidadezinha onde ela e o noivo, Malcolm (Jack Black), vão se casar.
Margot chega junto do filho adolescente Claude (Zane Pais), ocultando alguns segredos –o divórcio com o marido, Jim (John Turturro) é iminente –e trazendo desconfortáveis verdades familiares que sua presença trata de tornarem irreprimíveis.
Apesar do clima pretenso de amenidade e descontração, há tensão toda vez que Margot e Pauline está juntas –e os ressentimentos com frequência se manifestam nos diálogos.
Margot não aprova Malcolm, e suas afirmações a esse respeito perdem em recato conforme o convívio aumenta. O passado das duas, ao lado do pai abusivo e intolerável, também começa a ser esmiuçado, revelando as razões para alguns desses comportamentos.
Oscilando com vibração típica de filme independente entre comédia e drama, “Margot e O Casamento” parece contentar-se em registrar duas grandes atrizes fazendo seus esforços para alcançar registros humanos brilhantemente estudados, e nisso se satisfaz.
Acontece de outros detalhes perderem assim sua importância diante desse ‘registro do banal’ que Noah Baumbach quer fazer –e que faz parte do objetivo geral de toda sua filmografia, mas que aqui, pela primeira vez, corre o risco de soar de fato irrelevante.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Waterworld - O Segredo das Águas


Astro fulgurante entre o fim dos anos 1980 e começo dos 1990 –não somente atuando em sucessos de bilheteria como também se saindo muito bem como diretor –era questão de tempo até que a estrela de Kevin Costner parasse de brilhar com tanta intensidade.
Só ninguém esperava que a queda fosse tão vertiginosa.
Projeto que ele acarinhou enquanto ao longo dos anos experimentava sua consagração junto ao Oscar, com “Dança Com Lobos”, ou via sua imagem associada do herói americano moderno em filmes como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões” e “O Guarda-Costas”, este “Waterworld” –dirigido pelo mesmo Kevin Reynolds que o comandou em “Robin Hood” –nada mais era que uma variação de “Mad Max”, ou seja, uma aventura pós-apocalíptica, ambientada em alto mar.
E começa aí as dicas do quão problemática foi a produção: Dez entre dez realizadores de cinema irão garantir que uma das maiores dores de cabeça na execução de um filme se dá quando ele se passa no mar –desde Steven Spielberg (“Tubarão”) passando pelo que talvez seja hoje o mais colossal exemplo, James Cameron e seu “Titanic”.
Durando muito mais tempo do que o seu previsto e consumindo muito mais dinheiro de seu orçamento do que inicialmente foi programado, “Waterworld” chegou aos cinemas em 1996 após quase dois anos de uma filmagem problemática e caótica. E o filme que dela emergiu sequer valia o esforço para tanto: “Waterworld” é uma aventura aquática rasteira que em momento algum condiz com todo o falatório suscitado por sua execução.
Com o derretimento das calotas polares, os oceanos dominaram o planeta Terra levando ao surgimento de hordas de piratas que se digladiavam nos mesmos moldes que os motoqueiros de “Mad Max”.
Vivendo solitariamente nesse mundo, o personagem de Kevin Costner é o primeiro de uma evolução: um homem-peixe capaz de respirar embaixo d’água e melhor se adaptar a esse novo mundo.
É nas mãos dele que vão parar uma garotinha (Tina Majorino) e sua tutora (a bela Jeanne Tripplehorn) que trazem o segredo para encontrar o único lugar de terra firme restante no planeta; um elemento que, na forma com que se apresenta no filme, é implausível.
O grande problema de “Waterworld”, não obstante o domínio que o diretor Kevin Reynolds tem do ritmo e sua real capacidade para entregar boas cenas de ação, é que, em sua execução e finalidade, ele se contenta com pouco: É uma aventura escapista somente, dessas que passados alguns anos logo se tornavam habituais na ‘sessão da tarde’.
Esse não seria pecado algum se “Waterworld” não tivesse deixado atrás de si o rastro de uma produção tumultuada que comprometeu seriamente a carreira de seus envolvidos. Se era para resultar catastrófico, então que esses percalços extremos se refletissem na tela com o mesmo assombro megalomaníaco que foi empregado atrás das câmeras, tal qual o fizeram o já citado James Cameron, com “Titanic”, Michael Cimino, com “O Portal do Paraíso” e Francis Ford Coppola, com “Apocalypse Now”.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy


“O Âncora”, no estilo que adota, é um filme quase esquizofrênico. Tem um tipo de humor muito particular e norte-americano. E, por vezes, corre o sério risco de ser mal interpretado. Ainda assim é uma das grandes comédias da década de 2000-2010.
Em meados da década de 1970 (reconstituída com inspirada percepção nos figurinos), o âncora do maior telejornal de San Diego, Ron Burgundy reina absoluto (e na atuação irreprimível do gênio da comédia Will Ferrel, essa majestade não é à toa).
Ao lado de seus companheiros de notícias, Brian Fantana (Paul Rudd), Champion Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell, genial), ocupam o primeiro lugar nos índices de audiência.
Os tempos, entretanto, estão mudando. O machismo antes impune das circunstâncias trabalhistas está dando lugar à diversidade e à oportunidade igualitária às mulheres –e a rede logo recebe uma nova e determinada jornalista, Veronica Corningstone (Christina Applegate, de afiado timing cômico).
Esperta e obstinada, Veronica está acostumada aos obstáculos corriqueiros que uma mulher enfrenta num ambiente profissional –observações estas que o roteiro hábil escrito por Ferrel e pelo diretor Adam McKay encontra estratégicas brechas no humor implacável e quase ininterrupto para se inserir –e segue em frente com seu sonho de virar uma âncora de telejornal, mesmo diante da atração (logo tornada romance) entre ela e Burgundy.
É na ascensão e queda de Burgundy que a trama se concentra, usando do romance com Veronica como ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio). O curioso, no entanto, é a forma com que o filme de Adam McKay se coloca diante dessa premissa: Tudo em cena reflete a absoluta falta de noção de seu machista personagem principal, conferindo ao filme um tom de comédia abilolada que encontra fácil correspondente naqueles exemplares de besteirol –aos quais parte do público inclusive deve relacionar Will Ferrel.
Embora tenha lá seus tópicos amparados em perspicazes observações do mundo real –a emancipação da mulher sendo o mais pertinente –o filme não faz um único esforço na direção de ser realista. Muito pelo contrário, não faltam cenas onde predomina um deliberado nonsense: Talvez as mais gritantes (em meio à tantas outras) sejam a apresentação com flauta de jazz feita pelo próprio Burngundy num clube noturno, pontuada pela canastrice saborosa de Ferrel; a batalha brutal, violenta e ridícula entre vários grupos de repórteres de emissoras rivais, a lembrar um confronto inconsequente de gangues, onde se chocam o time de Burgundy, mais os recalcados segundo colocados (liderados por Vince Vaughn), o pessoal que ficou em terceiro lugar (que têm à frente Tim Robbins), a emissora dos retardatários (com Luke Wilson) e os repórteres do canal latino (representados por Ben Stiller); além também da sequência final, contra um bando de ursos selvagens num zoológico (!).
Um peculiar exercício de humor realizado por mentes geniais incompreendidas que às vezes fingem nada compreender.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Trovão Tropical

O grande problema de Ben Stiller como diretor –função iniciada nos anos 1990, com “Caindo Na Real”, com Winona Ryder –é sua vontade de fazer demais: Ele incrementa tanto a narrativa que lhe poda a objetividade.
Dentre seus trabalhos atrás das câmeras –entre os quais existem alguns títulos consideráveis –o melhor e mais acertado talvez seja “Trovão Tropical”, sobretudo, porque seu humor se constrói sobre uma série de ocorrências inesperadas e genuinamente hilárias.
Com sacadas assim já se inicia o filme. Uma série de trailers falsos parodiam o que já era em si uma paródia, com filmes impraticáveis como “O Rei do Peidaço” (!), uma versão ainda mais esculachada e escatológica de “O Professor Aloprado”, com Eddie Murphy, estrelada pelo personagem de Jack Black (inspirado, segundo consta, no falecido Chris Farley); “O Beco de Satã”, uma sátira de todos os clichês de dramalhões sérios com o exageradamente dedicado ator vivido (brilhantemente) por Robert Downey Jr. e ainda com uma ponta de Tobey Maguire (ao lado de quem Downey Jr. fez “Garotos Incríveis”). Para finalizar, o próprio Ben Stiller aparece como o astro (remetendo à Sylvester Stallone) de uma série interminável, repetitiva e absurda de filmes de ação, “Scorcher”, que já está em sua sexta parte (!).
Mal atingiu seus primeiros quinze minutos e o filme de Stiller já se revela assim demolidor para com os contumazes reflexos involuntários da fútil Hollywood.
Muito mais virá: Todos os astros mostrados nos trailers (e mais o rapper Alpha Chino –que vive injuriado com a confusão da pronúncia de seu nome soar como Al Pacino!) cada um ao seu modo enfrentando um princípio de decadência, sem vêem reunidos num mesmo projeto de filme de guerra –que, de início, já satiriza a cena clássica de “Platoon” –inspirado nas memórias de um ex-combatente do Vietnam (Nick Nolte). Sem conseguir o realismo desejado, o perplexo diretor (vivido por Steve Coogan, de “Philomena”), pressionado pelos engravatados do estúdio –entre os quais, o executivo boca-suja, desprezível e incontrolável vivido magnificamente por um irreconhecível Tom Cruise –decide levar seu elenco para a selva a fim de promover uma experiência real.
Contudo, o diretor morre explodido por uma mina terrestre (!), deixando-os abandonados na selva com armas reais e à mercê de verdadeiros inimigos armados. E os atores, celebridades alienadas e fúteis, julgando tratar-se de um daqueles laboratórios de filmagem que simulam uma realidade, mal se dão conta da encrenca em que se meteram.
O elenco se diverte tanto quando o expectador nesta comédia destruidora sobre as engrenagens do cinema, que debocha de tudo e não perdoa absolutamente nada, nem ninguém: A tiração de sarro implacável vai desde os coadjuvantes (pena que o intratável e engraçadíssimo agente vivido por Matthew McConaughey aparece tão pouco) até os protagonistas que incluem o hilário australiano Kirk Lazarus (e Downey Jr. está realmente ótimo), cuja dedicação à arte da atuação o leva a escurecer a pele –ele que é loiro de olhos azuis! –para interpretar um negro (!) no filme dentro do filme (e sua interpretação para o modo como um negro se porta e fala é o extremo mais inacreditável de estereótipo a que se pode chegar!); Tugg Speedman o astro em busca de reconhecimento de Stiller (vítima de deboche dos colegas por cometer a ‘apelação’ de encarar um papel de retardado mental!); Jeff Portnoy (Jack Black), o ator viciado em heroína que vai passar poucas e boas com sua abstinência na selva; o rapper Alpha Chino (Brandon T. Jackson) que se ressente da atitude agressiva exigida dele devido à sua sensibilidade enrustida; e o figurante Kevin Sandusky (Jay Barruchel), que tenta manter um pouco de austeridade em meio à tanta gente desgovernada.
Como é de hábito, Ben Stiller como diretor é irrequieto e incansável: Ele incrementa cada segmento com referências, observações e detalhes. Seu filme tem citações e piadas desde as primeiras até as últimas cenas, não deixando espaço para o expectador recuperar o fôlego, e nem tampouco (no caso deste filme tão divertido quanto corajoso) para que os produtores de Hollywood, grande alvo de sua chacota, respirem aliviados.

terça-feira, 26 de abril de 2016

King Kong - As três versões

Dentre os poucos casos de refilmagem que levam um sopro de novidade ao material original, um que sempre apreciei muito foi “King Kong”. Está certo que, além do longa seminal de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, lançado em 1933, há também o remake feito em 1976 por John Guilhermin com uma estonteante Jessica Lange e apinhado de duvidosos subterfúgios psicológicos que tinham a intenção de atualizar a obra, e transpor seu contexto para aquele mundo dos anos 1970 de então. Entretanto, até mesmo aquele trabalho (recheado de elementos cinematográficos e sociais daquele período, todos passíveis de um belo estudo) guarda momentos, senão memoráveis, pelos menos francamente interessantes.

Mas, na louvável refilmagem de Peter Jackson, de 2005, não é só isso que acontece. Em tudo e por tudo, Jackson quer compreender o longa de 1933, e preservar-lhe a época e a ambientação, conferindo distinção em seu trabalho: O “King Kong” de Merian Cooper se passava no mesmo ano em que a história transcorria, com suas imagens em preto e branco e seus efeitos especiais pioneiros e jurássicos (mas, à época realmente eficientes e impressionantes).
O “King Kong” de Peter Jackson se passava igualmente em 1933, o que o obriga a assumir-se também como filme de época. E as percepções que o filme de Jackson obtém a partir disso são o grande diferencial da produção.
A trama, contudo, manteve-se intacta: A aspirante a atriz Ann Darrow, um dos membros da expedição do cineasta Carl Denhan à pré-histórica Ilha da Caveira desperta os instintos do mais poderoso ser do lugar, o gorila gigante Kong, que a toma para si. Um grupo de resgate é então montado pelo apaixonado Jack Driscol para salvá-la. No encalço de todos, Kong ataca. Ao ser capturado, ele é levado à Nova York, onde será abatido por aviões no topo do Empire State numa cena que é um dos momentos verdadeiramente emblemáticos do cinema.
PS: Acho particularmente linda a homenagem à "King Kong" feita em uma cena de "Regras da Vida", de Lasse Halstrom.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Alta Fidelidade

"O quê veio primeiro, a música ou a infelicidade?"
A frase inicial de "Alta Fidelidade" pronunciada pelo melancólico protagonista já dá um tom preciso do filme: Um trabalho afiado, na medida entre o triste e o bem-humorado, onde as angústias do comportamento -sobretudo o masculino -são avaliadas com minúcias, propriedade e insuspeito carinho.
A reunião de talentos foi das mais felizes. Diretor de bons e ocasionalmente aclamados filmes britânicos, Stephen Frears soube transpor a ação do livro de Nick Hornby (um escritor cuja verve pop e espirituosa especializou-se na análise graciosa das tristezas e alegrias de sua geração) para a Chicago -quando originalmente era em Londres. O ator John Cusack, presente em algumas das mais notáveis comédias românticas dos anos 1980, revela uma atuação objetiva e sensata de um jovem adulto dos anos 1990, às voltas com as reflexões daqueles que, segundo ele, foram os "piores foras de sua vida", provocados pelo fora que levou, à pouco, de sua namorada. Essas divagações são temperadas, ampliadas, acrescidas e transfiguradas pelo acréscimo das músicas pop que possuem relação com esta ou aquela emoção suscitada e o filme explora isso magnificamente.
Genial, no seu humor e no seu drama, esse grupo consegue criar um dos mais embriagadores filmes sobre as reflexões doloridas e até patéticas do amor, com um cativante protagonista e sua mania compulsiva de fazer lista, inclusive de músicas. Como compete à uma comédia romântica que se preze, esta tem um final feliz -e ele é luminoso a ponto de deixar qualquer um com um sorriso no rosto -mas, há uma cena a mais, um instante inesperado no fim, onde o personagem de John Cusack vislumbra um possível momento de tristeza no futuro (eles são, afinal, inevitáveis)e prepara, veja só, mais uma lista de músicas para quando esse momento chegar. E o filme acaba deixando o expectador só, reflexivo, e de bem com a vida.