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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Morra, Amor


 A casa para onde o casal Jackson e Grace (Robert Pattinson e Jennifer Lawrence, ótimos) vão morar foi onde o tio dele outrora se matou. E esse elemento, o do fatalismo inerente, será um dado que irá perpassar toda a trajetória dessa vida a dois investigada com olhar aguçado pela diretora Lynne Ramsay.

Conhecedores do cinema dessa cineasta escocesa sabem que ela não se interessa por realidades felizes ou idealizadas, sabem que a autenticidade de seus personagens se revela aos poucos, gradativamente desfraldando celeumas profundas, algumas inapeláveis. E não deixa de ser algo exatamente assim que ela investiga aqui, contando desta vez com o inestimável talento da estrela Jennifer Lawrence, num papel que guarda inúmeros ecos do mesmo desempenho que ela entregou no filme “Mãe!” – como lá, temos aqui uma jovem confrontada com as difíceis e imprevistas facetas da maternidade, ao mesmo tempo que afastada de todos ao morar num local longínquo. Pois, uma vez instalados na casa – que à propósito, trata-se de uma casa isolada numa área rural de Montana – Jackson e Grace acabam tendo um filho que nasce uns meses depois, ao qual o jovem casal se decide por não dar ainda nome nenhum. Contudo, Grace aos poucos vai experimentando a negligência do marido à medida que ele se afasta cada vez mais sob a justificativa do trabalho. São pequenos, mas pertinentes, os indícios que Lynne Ramsay planta, aqui e ali, de seu distanciamento (a sequência do telefonema em que Grace percebe, pelos sons diegéticos, que ele se encontra em uma lanchonete) e de sua infidelidade (as caixas com preservativos, de existência injustificada, que ela encontra sucessivamente dentro do carro) – e é necessário também mencionar o trabalho sólido e perspicaz de Robert Pattinson numa composição despida de qualquer vaidade.

Todos esses pequenos percalços e atribulações fazem com que Grace comece a se dar conta de que ser esposa e mãe demanda alguns sentimentos de vazio, solidão e desamparo com os quais ela não estava preparada para lidar.

O isolamento – pelo menos, na ótica não muito circunspecta de Jackson – serviria para Grace, uma aspirante a romancista, escrever seu próximo livro, entretanto, o ímpeto para escrever jamais vem, substituído, em vez disso, por uma perda gradual de sua própria identidade, por um vazio que a consome nos dias e noites que se seguem.

O cinema moderno tem sido contumaz num objetivo resgate das celeumas intimistas de uma depressão pós-parto acometida às mulheres em obras mais recentes como “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” ou “Pieces Of A Woman”. A fim de executar uma sondagem de aspectos similares, Lynne Ramsay, neste seu “Die, My Love”, lança mão de circunstâncias peculiares, tão alarmantes quanto mundanas (o ambiente familiar e social onde Grace e Jackson vivem não dá muita margem para a compreensão da condição dela, sendo que os coadjuvantes mais recorrentes são sempre a mãe e o pai dele, vividos por Sissy Spacek e Nick Nolte, respectivamente), de situações incertas onde o cinema permeia aquela fronteira ambivalente entre sonho e realidade, delírio e lucidez (as sequências nebulosas e enigmáticas onde vemos um motoqueiro – a lembrar um intrigante personagem do cultMal do Século” – vivido por Lakeith Stanfield, de “Corra!”, rodeando e cercando a casa de Grace e, mais tarde, convertendo-se numa espécie de amante dela!), e de observações de ordem alegórica (o incêndio a consumir a floresta que circunda a fazenda, mostrado no início do filme e retomado já na sua cena final).

O som e a música contribuem muito para essa desestabilização dos sentidos, num reflexo do estado interior da protagonista e sua luta conta fantasmas internos – o latido de um cachorro comprado por Jackson que, ao longo dos dias, inferniza Grace sem parar; os acordes repentinos de trilha sonora, nem sempre adequada, que irrompem nas cenas apenas para remover o público de qualquer sensação de conforto.

Há um momento, quase inebriante, já perto do desfecho, em que Ramsay chega a sinalizar com a possibilidade de uma final ameno e feliz, um instante onde o amor parece capaz de prevalecer – é quando o casal, a despeito de suas crises, entoa uma mesma música que toca no rádio do carro. Poderia ser até o final do filme, e nele, os talentos de Jennifer e Robert realmente conseguem tirar leite de pedra e emocionar o expectador, mas, Ramsay (como atestam seus trabalhos contundentes e irrefreáveis) não é adepta de finais felizes abruptos. Ela conduz seu filme à já citada sequência do incêndio, justamente para que seu impacto nos faça entender que ela não está, nem de longe, brincando com coisa tão séria.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

48 Horas - Partes 1 e 2


 O cinema do diretor Walter Hill sempre primou por uma truculência que dificilmente encontraria espaço no cinema (mesmo o de ação) conciliatório e inclusivo dos dias de hoje. Herdeiro direto dos vislumbres nus e crus da natureza humana de Sam Peckinpah, o trabalho de Walter Hill era pautado por um entendimento intrínseco da violência, por código morais regidos mais pela ombridade do que pela Lei, e pela percepção de um cinema áspero, direto e sem firulas. Características essas que, somadas a um senso de observação e reflexão que, na maioria das vezes, funcionava como um brilhante diferencial, moldou algumas obras marcantes e notáveis nos anos 1980. Dentre elas, a duologia “48 Horas”.

A proposta inicial de “48 Horas”, em si, resumia aquela simplicidade, objetividade e divertimento em potencial que normalmente caracterizavam as premissas daquela década: A dinâmica, promissoramente empolgante, entre um tira casca-grossa e um malandro das ruas, unidos, como dupla, por forças maiores do destino. Em suma, um filme “de parceiros”.

O primeiro “48 Horas” inicia-se numa circunstância cheia de ironia –um campo aberto, banhado de sol –cenário completamente diferente do quadro urbano que predominará em todo restante de filme. Ali, junto de um grupo de detentos em trabalhos forçados, Walter Hill orquestrará uma fuga, não tão elaborada em termos de planejamento, mas cheia de alta voltagem e tiros para lá e para cá; o faroeste é um gênero que permeia muito das obras de Hill, mesmo as de cunho mais moderno e urbanizado.

O elemento a escapar é Albert Ganz (James Remar, de “Cotton Club”), bandidão que, logo descobriremos, é adepto de ignorar leis civis e atirar em qualquer um que lhe desagrade. Seu nêmesis é, inevitavelmente, um homem muito parecido com ele: Jack Cates, o policial igualmente sanguinário e impetuoso vivido por Nick Nolte, ator que, pela reunião instintiva e certeira de qualidades que refletem os personagens brutais de Walter Hill, acabou realizando outras obras junto dele.

Walter Hill –como aliás muitos diretores que abordaram esse tipo de conflito neste e em outros gêneros –não se preocupa muito em aprofundar a reflexão do quando o seu herói espelha assim tão perfeitamente seu vilão. Sua pressa é transformar este filme na caçada que ele será.

Sendo assim, entra em cena, o larápio Reggie Hammond, interpretado por Eddie Murphy em sua auspiciosa e bem aproveitada estréia cinematográfica. Reggie é articulado, manhoso, cheio de ginga e, por isso mesmo, pouco confiável –logo, portanto, a dualidade entre Cates e Ganz é deixada de lado pelo roteiro, em prol da dicotomia envolvente e curiosa entre o ranzinza e desconfiado detetive Cates e o ardiloso e sorridente Reggie; ainda mais interessante por não envolver o maniqueísmo da lei contra o crime, mas trazer aspectos mais ambíguos como de uma amizade surgida entre indivíduos de índole incompatível.

Durante os dois dias que Cates fornece a Reggie como prazo para ele usar de seus recursos e entrar em contato com Ganz, a fim de revelar seu paradeiro, Walter Hill conduz com profissionalismo e experiência este filme de investigação, quase como um passeio cheio de vertiginosas guinadas pelo submundo criminoso.



O que nos leva ao segundo filme que, no frigir dos ovos, resgata muitos elementos do primeiro filme, potencializando muito do que nele funcionou: A ação contínua magnificamente manuseada e calibrada pelo diretor Hill, o suspense construído com zelo a partir de realismo e verossimilhança (artigos que foram ficando cada vez mais raros no cinema de ação norte-americano) e a dupla bem ajustada e carismática, funcional em seu equilíbrio de humor e seriedade, composta por Nick Nolte e Eddie Murphy.

Após uma sequência inicial espetacular –um capotamento épico de um ônibus penitenciário –o vigarista Reggie Hammond consegue sobreviver à tentativa de assassinato de dois irmãos motoqueiros e assassinos (dois dos inúmeros vilões sensacionais que o filme enfileira). Eles o querem morto por uma razão bastante específica: Reggie é dos poucos capazes de identificar o misterioso chefe de uma quadrilha de traficantes conhecido como Iceman. Por isso mesmo, o policial Jack Cates, de Nick Nolte, também o quer sob sua asa; como no filme anterior, Reggie é quem poderá levá-lo a deixar-lhe cara a cara com seu alvo.

Tão eficiente quanto o primeiro filme –e talvez até mais divertido que ele, visto que aqui, Eddie Murphy notadamente ganhou mais liberdade e tempo de cena –“48 Horas Parte 2” é frenético, violento, truculento e delicioso de se acompanhar, especialmente por que o diretor Walter Hill, hábil que só, não apenas tira pleno proveito da dupla extremamente funcional e paradoxalmente complementar de parceiros entre o carrancudo Nick Nolte e o hilário falastrão Eddie Murphy, como também ele torna gradualmente mais intrigante a descoberta do tal Iceman, personagem sobre que se fala no roteiro inteiro, de ponta a ponta, mas que só veremos dar as caras no apoteótico desfecho.

Duas obras bastante exemplares da competência dinâmica e da execução acertada que se podia almejar durante a década de 1980 entre essa mescla um tanto desigual entre o mais austero filme policial e o mais gracioso entretenimento.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Parker


Pode-se presumir um romance entre os astros Jason Statham e Jennifer Lopez neste filme ao observá-los ostensivamente na capa, porém, não é isso que ocorre –e nem combinaria com o sisudo Stataham –e isso é um dos elementos irônicos que o diretor Taylor Hackford parece usar na tentativa de agregar algum diferencial ao filme.
A medida que foi se consolidando como um dos grandes astros de ação e pancadaria dos últimos anos (um tanto mais jovem do que os outros com os quais ombreia, como Stallone e Schwarzenegger), Statham passou a almejar mais qualidade e versatilidade em seus trabalhos; até conseguiu o primeiro (como atestam as presenças de Jennifer e de Hackford, um diretor indicado ao Oscar, neste filme), mas não o segundo –salvo uma coisa ou outra, o filme como um todo não difere da postura e da proposta de filmes como “Carga Explosiva” e “Adrenalina” que fizeram a sua fama.
Com sua expressão impassível e severa de sempre –além de uma desenvoltura prodigiosa nas cenas de luta –Statham é Parker, assaltante especializado em golpes planejados de modo impecável, onde a contagem de vítimas é mínima e os lucros, os maiores possíveis.
Sua atenção aos detalhes soa tão paranoica quanto metódica.
Todavia, uma equipe sugerida por seu quase-sogro (Nick Nolte) acaba por complicar a vida de Parker: Depois de uma série de desleixos quando tentam roubar o caixa de uma feira agropecuária, os cúmplices, liderados pelo traiçoeiro Melander (Michael Chiklis) voltam-se contra Parker, deixando-o alvejado por tiros à beira de uma estrada.
Nesse ponto, em que seu protagonista acuado e procurado pelas autoridades deve valer-se dos parcos recursos a que dispõe para fugir, esconder-se e tramar sua vingança, a narrativa de Hackford chega quase a emular o tom envolvente de “O Fugitivo”, com Harrison Ford, mas a situação-chave do enredo ainda está se construindo.
É estranho como o filme sofre algumas guinadas até que o núcleo principal dos personagens ruma para Miami onde, por fim, tomamos conhecimento de Leslie, personagem a quem Jennifer Lopez empresta uma sensualidade insuspeita e espontânea –ela se comporta quase como uma espécie de ‘Sandra Bullock para marombados’; sua personagem parece não se encaixar muito bem no filme a que pertence, soando, com sua ingenuidade meio forçada, como a protagonista de alguma comédia romântica.
Na verdade, ela é uma agente imobiliária lutando para desvencilhar-se da mediocridade na própria empresa em que trabalha. É aí que aparece Parker, supino como só Jason Statham sabe ser, disfarçado de milionário texano a fim de investigar os planos dos ex-cúmplices que fugiram para lá, e os quais ele deseja dar cabo.
Embora se construa por meio inusitados, o filme de Hackford não escapa nem do óbvio e nem do convencional –absolutamente não existem surpresas em seu enredo e a estrutura de seu roteiro segue tudo o que gênero já fez em outros exemplares; até mesmo o romance inexistente entre Jennifer e Statham parece não ocorrer simplesmente porque os realizadores não sabiam como fazê-lo, tão acostumados que estavam com cenas de pancadaria a ação.
É nesse aspecto, entretanto, que ‘Parker’ se sai muito bem: Se lhe falta sutileza para com a narrativa, sobra-lhe habilidade para torná-la envolvente, ágil e explosiva.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O Fundo do Mar


Após o sucesso de “Tubarão” houve um natural interesse por novas adaptações do escritor Peter Benchley, bem como do consequente fascínio exercido pelos mistérios do mar, que aparentemente eram centrais à criatividade desse escritor.
Consequência disso, o diretor de “Bullitt” e da fantasia oitentista “Krull”, Peter Yates comandou esta produção que, diferente do tenso e intenso suspense de Steven Spielberg, era uma aventura aquática com elementos investigativos tendo como única similaridade com o filme anteriormente adaptado de Benchley o seu ambiente marinho.
Quando “O Fundo do Mar” começa acompanhamos já em meio às profundezas a pesquisa aquática do casal David e Gail Sanders (Nick Nolte e a linda Jacqueline Bisset, ela já tendo trabalhado com Yates em “Bullitt”). As cenas registradas no filme –e que respondem pelo grande diferencial da obra –deixam claro a dificuldade da produção em filmar embaixo d’água (sempre um contratempo tortuoso em qualquer projeto), e eles não pouparam recursos.
David e Gail encontram itens supostamente valiosos e alguns perigos também –de volta à superfície, descobrimos que eles não são pesquisadores de nobre intento científico; são, na realidade, caçadores de tesouros, sobretudo, David cuja ganância e avidez recebem ocasional indiferença de sua companheira.
Entretanto, é uma simples ampola de morfina, encontrada nos destroços de um navio afundado, que representa o fio condutor para inesperados problemas: Logo, aquela descoberta atrai a atenção de Cloche (Louis Gosset Jr.), traficante haitiano que compreende muito bem que a morfina pode ser convertida facilmente em heroína –e o vultuoso carregamento afundado nos recifes descoberto pelos Sanders pode representar para ele a descoberta de um grande lote gratuito.
O casal procura pela orientação e experiência de outro famoso caçador de tesouros submersos morador do lugar, o arredio e sábio Romer Treece (Robert Shaw, que também estava no elenco de “Tubarão”). Ele interessa-se o suficiente para acompanhá-los numa outra incursão ao navio naufragado e, uma vez lá, uma nova descoberta leva a um novo plano: O conteúdo misterioso –e sob muitos aspectos, inacessível –pode ter não somente uma generosa carga de morfina, mas também pode conter um tesouro lendário que os tornaria milionários.
Sem a excelência que faria dele um clássico, mas sem também a mediocridade que o tornaria esquecível, “O Fundo do Mar” é uma realização comercial que ilustra bem o nível relativamente razoável do entretenimento produzido na época –final dos anos 1970.
Suas cenas submarinas, ainda que com certeza datadas, preservam a sensação de perseverança e cuidado técnico com as quais foram feitas no período e a trama, não obstante suas guinadas sem muito espanto, prende a atenção satisfatoriamente.
Notável, para a época e para hoje, ainda é a formidável presença de Jacqueline Bisset, que aqui sagra-se facilmente como um sex-simbol absoluto do cinema, aparecendo numa sucessão de cenas sensuais inseridas de forma meio aleatória na trama; incluindo a clássica camiseta molhada na cena inicial –uma sequência que, a despeito da ênfase em outros aspectos da cena e da trama, ficou no subconsciente do público pela sugestão dos belíssimos seios desnudos da estrela!

terça-feira, 3 de julho de 2018

Guerreiro


Neste admirável trabalho do diretor Gavin O' Connor (talvez, sua melhor realização) nunca fica determinado de fato os motivos que levaram a família dos dois irmãos Tommy (Tom Hardy) e Brendan (Joel Edgerton) ao afastamento: Em meio às ocasionais e pesarosas reaproximações que se esboçam fica implícito como agravante para isso, quando muito, o alcoolismo do pai (Nick Nolte). Há anos separados e sem se verem, Tommy e Brendan afinal se reencontram, quando o primeiro regressa de uma atribulada experiência como combatente no Oriente Médio e o segundo, que trabalha como professor, enfrenta um duro desafio familiar: Ambos estão, cada um por seu motivo particular numa disputa pelo prêmio da final de um torneio de MMA (aptidão que ambos dominam graças à influência paterna); e os rumos dramáticos tomados pelo filme não deixam dúvidas de que disputarão um contra o outro.
O tema do filme, assim talvez, careça de sutileza e originalidade, contudo, o diretor O’ Connor compensa essa obviedade com uma construção exemplar da dramaturgia, além de um requinte insuspeito na forma com que a violência e a brutalidade, quando precisam ser mostradas, revelam-se registradas magnificamente.
Nesse sentido –no do grande filme que ele consegue ser –é no elenco que seus maiores superlativos aparecem: O veterano Nick Nolte surge com uma de suas mais emocionantes atuações nos últimos anos no papel do alcoólatra assombrado pela culpa e pelo vício –grande cena é aquela em que ele recita “Moby Dick”! Joe Edgerton oferece uma belíssima interpretação com a qual conquista de pronto o público no papel do pai de família que, por necessidade, regressa às lutas de vale-tudo, mesmo que sob a condição de perder a própria vida. Mas, é no papel e na atuação de Tom Hardy que repousam os méritos mais singulares de todo o filme; um ator capaz de fazer jus ao interesse que desperta e um personagem que, a despeito do comportamento impassível e implacável, conduz o expectador com intensidade e desenvoltura à luta final, uma das mais arrebatadoras e comoventes seqüências do cinema esportivo.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Trovão Tropical

O grande problema de Ben Stiller como diretor –função iniciada nos anos 1990, com “Caindo Na Real”, com Winona Ryder –é sua vontade de fazer demais: Ele incrementa tanto a narrativa que lhe poda a objetividade.
Dentre seus trabalhos atrás das câmeras –entre os quais existem alguns títulos consideráveis –o melhor e mais acertado talvez seja “Trovão Tropical”, sobretudo, porque seu humor se constrói sobre uma série de ocorrências inesperadas e genuinamente hilárias.
Com sacadas assim já se inicia o filme. Uma série de trailers falsos parodiam o que já era em si uma paródia, com filmes impraticáveis como “O Rei do Peidaço” (!), uma versão ainda mais esculachada e escatológica de “O Professor Aloprado”, com Eddie Murphy, estrelada pelo personagem de Jack Black (inspirado, segundo consta, no falecido Chris Farley); “O Beco de Satã”, uma sátira de todos os clichês de dramalhões sérios com o exageradamente dedicado ator vivido (brilhantemente) por Robert Downey Jr. e ainda com uma ponta de Tobey Maguire (ao lado de quem Downey Jr. fez “Garotos Incríveis”). Para finalizar, o próprio Ben Stiller aparece como o astro (remetendo à Sylvester Stallone) de uma série interminável, repetitiva e absurda de filmes de ação, “Scorcher”, que já está em sua sexta parte (!).
Mal atingiu seus primeiros quinze minutos e o filme de Stiller já se revela assim demolidor para com os contumazes reflexos involuntários da fútil Hollywood.
Muito mais virá: Todos os astros mostrados nos trailers (e mais o rapper Alpha Chino –que vive injuriado com a confusão da pronúncia de seu nome soar como Al Pacino!) cada um ao seu modo enfrentando um princípio de decadência, sem vêem reunidos num mesmo projeto de filme de guerra –que, de início, já satiriza a cena clássica de “Platoon” –inspirado nas memórias de um ex-combatente do Vietnam (Nick Nolte). Sem conseguir o realismo desejado, o perplexo diretor (vivido por Steve Coogan, de “Philomena”), pressionado pelos engravatados do estúdio –entre os quais, o executivo boca-suja, desprezível e incontrolável vivido magnificamente por um irreconhecível Tom Cruise –decide levar seu elenco para a selva a fim de promover uma experiência real.
Contudo, o diretor morre explodido por uma mina terrestre (!), deixando-os abandonados na selva com armas reais e à mercê de verdadeiros inimigos armados. E os atores, celebridades alienadas e fúteis, julgando tratar-se de um daqueles laboratórios de filmagem que simulam uma realidade, mal se dão conta da encrenca em que se meteram.
O elenco se diverte tanto quando o expectador nesta comédia destruidora sobre as engrenagens do cinema, que debocha de tudo e não perdoa absolutamente nada, nem ninguém: A tiração de sarro implacável vai desde os coadjuvantes (pena que o intratável e engraçadíssimo agente vivido por Matthew McConaughey aparece tão pouco) até os protagonistas que incluem o hilário australiano Kirk Lazarus (e Downey Jr. está realmente ótimo), cuja dedicação à arte da atuação o leva a escurecer a pele –ele que é loiro de olhos azuis! –para interpretar um negro (!) no filme dentro do filme (e sua interpretação para o modo como um negro se porta e fala é o extremo mais inacreditável de estereótipo a que se pode chegar!); Tugg Speedman o astro em busca de reconhecimento de Stiller (vítima de deboche dos colegas por cometer a ‘apelação’ de encarar um papel de retardado mental!); Jeff Portnoy (Jack Black), o ator viciado em heroína que vai passar poucas e boas com sua abstinência na selva; o rapper Alpha Chino (Brandon T. Jackson) que se ressente da atitude agressiva exigida dele devido à sua sensibilidade enrustida; e o figurante Kevin Sandusky (Jay Barruchel), que tenta manter um pouco de austeridade em meio à tanta gente desgovernada.
Como é de hábito, Ben Stiller como diretor é irrequieto e incansável: Ele incrementa cada segmento com referências, observações e detalhes. Seu filme tem citações e piadas desde as primeiras até as últimas cenas, não deixando espaço para o expectador recuperar o fôlego, e nem tampouco (no caso deste filme tão divertido quanto corajoso) para que os produtores de Hollywood, grande alvo de sua chacota, respirem aliviados.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O Príncipe das Marés

“Eu me espanto com o encanto, das marés do meu recanto...”
Barbra Streisand, como diretora, nunca inspirou muita confiança. Seu egocentrismo artístico e seu narcisismo notório levavam a fazer dela –que sempre estrelava os próprios filmes –o centro obrigatório de todas as atenções. O trabalho no qual ela chegou mais perto de conter tais ímpetos foi sem dúvidas o premiado “O Príncipe das Marés”.
Durante um tempo considerável de filme, ela é bem sucedida em nos convencer de que todos os colaboradores à frente e atrás das câmeras terão suas oportunidades burocraticamente administradas para brilharem com justiça equivalente.
O protagonista do filme é Nick Nolte, naquela que é uma de suas mais elogiadas atuações –e não é à toa: No papel de Tom, um treinador de futebol americano com uma perturbadora história familiar para contar, Nolte é passional, explosivo, vulnerável e magnífico (ele só perdeu o Oscar de Melhor Ator porque naquele ano de 1991 concorria com o inigualável trabalho de Anthony Hopkins por “O Silêncio dos Inocentes”).
Tom tem lá seus próprios problemas: Seu casamento com Sally (Blythe Danner, mãe de Gwyneth Paltrow) está em crise devido à uma confissão de traição dela. Nessas condições –em que avalia o quão de felicidade conquistou em sua própria vida afetiva –ele precisa ir à Nova York onde sua irmã mais jovem, Savannah (Melinda Dillon) tentou mais uma vez suicídio.
Segundo Suzan, sua psiquiatra (vivida pela própria Barbra Streisand), Savannah estava em meio ao processo de tratamento através do qual chegariam ao âmago e às razões de suas instabilidades emocionais. Durante o período em que ficará na casa da irmã, aguardando a melhora de sua condição, Tom poderá assim relatar, nas sessões com Suzan, como foi a traumática infância dela (e, por conseqüência, a dele também) na Carolina do Sul.
Nesse ponto, “O Príncipe das Marés” engata um ritmo de tom quase bergmaniano, quando os relatos de Tom –na voz grave e hipnótica de Nolte –revelam as complicadas circunstâncias de sua família: Os dois eram os filhos mais novos, dentre os três, de um casal, Henry (Brad Sullivan), um pescador bronco, alcoólatra e rude, e Lila (Kate Nelligan, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), uma dona de casa inepta e fútil que, apesar da condição precária e periclitante de seu lar, almejava uma vida melhor, nem que fosse longe de seus filhos e seu marido.
A narrativa de Streisand, numa condução serena que ludibria o expectador, vai descortinando assim uma trama de ressentimentos poderosos, frustrações e rancores atrozes, culminando já próximo do final em uma seqüência bastante indicativa da firmeza e da coragem em abraçar um projeto de tão contundente dramaturgia.
Existem duas facetas em “O Príncipe das Marés”, e essa responde por todas as razões pelas quais ele é lembrado como um grande filme. Mas, há um outro lado...
Paralelamente, enquanto vamos tomando conhecimento da terrível história de vida de Tom e de seus irmãos, ele e Suzan, ao longo da inevitável aproximação ocasionada pelas sessões onde ele substitui a irmã, vão construindo uma espécie de vínculo propiciado pelo fato do casamento dele estar em frangalhos, e o dela –com um renomado violinista vivido pelo ator holandês Jerome Krabbé, de vários trabalhos da fase holandesa de Paul Verhoeven –não se encontrar em situação muito melhor. Resultado: Tom e Suzan têm um caso. E o filme acaba assim infectado com todos os maneirismos banais de um romance genérico (com direito à beijo apaixonado diante da lareira e tudo) onde a diretora Streisand pode explorar à vontade sua predisposição em enaltecer os atributos artísticos da atriz Streisand!
A diretora, pelo menos, consegue chegar a um final digno, coerente e poderoso deixando de lado qualquer concessão ao romantismo e tornando “O Príncipe das Marés” uma obra dotada da insuspeita capacidade de crescer –e muito –na memória.
A despeito de seus méritos psicanalíticos (os quais o roteiro escrito por Stephen Goldblatt, Pat Conroy, Becky Johnston e Ruth Morley de fato tem), o filme se sustenta pela brilhante contundência de seu relato familiar e pela inquestionável excelência de todo o seu elenco em contraponto aos seus eventuais lapsos de drama romântico.

domingo, 26 de março de 2017

Reviravolta

De vez em quando, o diretor Oliver Stone gosta de dar um tempo nas pretensas especulações políticas e históricas de suas produções e fazer um filme só para se divertir. Em 2012, quando isso lhe ocorreu, o resultado foi o mediano “Selvagens”, anos antes, em 1997, um rompante parecido com esse aconteceu, e ele realizou este um pouco esquecido “Reviravolta”.
Num ímpeto de irmanar-se ao cinema comercial norte-americano a que pertence, Stone criou uma narrativa nos moldes do film noir que sua geração apreciou, mais embutiu nele seu gosto pessoal por texturas despojadas e mundanos, seu senso de urgência e realismo, sua visão particular do próprio cinema –refletidos nas mesmas convulsões de câmera que testemunhamos no esquizofrênico “Assassinos Por Natureza”.
Diretor renomado que é, Stone atraiu um elenco dos mais notáveis para seu projeto: Billy Bob Thornton, Jon Voight, Joaquim Phoenix, Claire Danes, Nick Nolte, Jennifer Lopez, Sean Penn.
É esse último que responde pelo protagonista, um trambiqueiro que transporta uma fortuna por uma estrada poeirenta da fronteira entre os EUA e o México, a mando de algum chefão do crime.
Ele pára numa cidadezinha desolada para consertar o carro e, quando o dinheiro lhe é roubado, seus problemas começam a se acumular um a um, em ritmo e lógica quase desafiadores.
O estilo noir até que cai bem em Oliver Stone nos melhores momentos deste filme –ele se vale de sua irrestrita predileção por motivações ambíguas para narrar viradas pontuais na trama com naturalidade, sem no entanto, privar o expectador do espanto (e isso se percebe, sobretudo, na personagem de Jennifer Lopez, esposa do milionário interpretado por Nolte, que se revela a “femme fatale latina” deste filme, em sua segunda metade) –nos piores momentos, porém, tudo o que faz de Stone um diretor insuportável se faz presente em seu filme: Os atores, ainda que bem dirigidos, reagem com cacoetes desagradáveis e degradantes, característicos da visão excessivamente mundana que ele impõe aos personagens. Sua vontade de chocar o expectador e oferecer um sopro de renovação por meio do mais árido dos registros não raro exagera no teor, resultando questionável.
Tornados amantes pelas circunstâncias, mas impossibilitados de confiar um no outro pelos detalhes, os personagens de Penn e Lopez fogem com o dinheiro no desfecho do filme, mas terminam vítimas da própria tendência em querer estar em vantagem sobre o outro. Stone mescla tragédia e comédia nesse desenlace, assim busca mesclar seu cinema peculiar e ácido com um cinema de orientação mais comercial numa obra onde essas duas metades nem sempre se harmonizam –ainda que a montagem, a fotografia e a trilha sonora (de Ennio Morricone) sejam exemplares.

Como diz o personagem de Jon Voight em um determinado momento:
“Suas mentiras são velhas. Mas, você as conta muito bem.”

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Além da Linha Vermelha

Logo após a realização de seu elogiado “Cinzas do Paraíso” –também conhecido como “Dias de Paraíso” –o diretor Terence Malick, realizador excêntrico e dono de uma filmografia pequena e personalíssima, entrou em um auto-exílio que durou vinte anos sem filmar absolutamente nada, por razões que jamais vieram à público (como é normal à tudo que é ligado à sua enigmática persona). Esse lapso durou até 1999, quando Malick ressurgiu para realizar este incomum épico de guerra, tão inusitado quanto intimista.
Na trama que busca adaptar sem fidelidade estrutural, mas com fidelidade ‘espiritual’ o romance poético de James Jones, um desertor do exercito norte-americano (Jim Caviezel, que posteriormente estrelaria "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson) é recrutado por seu amigo e oficial (Sean Penn) para lutar na ofensiva americana na Ásia, em Guadalcanal, na Segunda Guerra Mundial. O pelotão todo é composto (dos soldados aos oficiais) por homens divididos por seus próprios conceitos éticos e dilemas existenciais acerca da guerra, e essa angustia se manifesta em monólogos declamados em off que aclimatizam as cenas com uma sensação original (ainda que nem sempre agradável) de estranhamento –e Malick parece valer-se do mito que esses vinte anos de reclusão criaram ao seu redor para atrair para esses papéis um dos mais assombrosos elencos masculinos do cinema norte-americano: Surgem em participações ora relevantes, ora completamente corriqueiras, rostos famosos como John Travolta, Nick Nolte, George Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, Adrien Brody, Jared Leto e muitos outros.
Muito longe de ser o filme deste diretor que mais me agradou, este “Além da Linha Vermelha” é ilustrativo do quanto o estilo contemplativo de Malick contrasta brutalmente com o de filmes como "O Resgate do Soldado Ryan" (lançado naquele mesmo ano) que abordam o conflito a partir de uma reconstituição minuciosa das cenas de guerra. Malick está mais interessado em dar voz às angústias pessoais de seus personagens, num ritmo e num tom muito particulares -ainda que seja esta uma de suas obras de aparato técnico mais vasto e meticuloso.
Se suas produções adquirem com isso uma personalidade diferencial –sempre ela inerente ao seu realizador –ao mesmo tempo isso lhes atribui um caráter de difícil acessibilidade, que o expectador menos engajado não consegue assimilar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Hulk

Após o pra lá de merecido Oscar de Melhor Filme Estrangeiro conquistado por “O Tigre e O Dragão”, o cineasta chinês, Ang Lee, viu abertas para si as portas de Hollywood (que, verdade seja dita, já o cortejava desde os premiados “Razão e Sensibilidade” e “Tempestade de Gelo”).
Foi uma mudança de tom tão ou mais brutal do que um diretor sério e respeitado migrar para os épicos de artes marciais quando foi anunciado que seu próximo projeto seria a adaptação de um dos mais famosos (e complexos) personagens da editora Marvel: O Incrível Hulk.
Paradoxalmente, era um personagem que agregava características intrínsecas ao interesse de Ang Lee, como contador de histórias, mas ele não fez por menos: Reinventou-se como cineasta para compreender a complexidade orgânica que a interação inédita de um protagonista digital como o Hulk como o restante do elenco e com o cenário à sua volta exigia; concebeu uma montagem desigual, inventiva e desafiadora de cenas quadrinizadas a fim de reproduzir a linguagem de uma história em quadrinho; e abraçou a estranheza confiante do roteiro de James Schammus, que redefiniu a origem do personagem, afastando-se das explicações dos quadrinhos, e buscando uma série de influências psico-dramáticas que remetem até mesmo à Ingmar Bergman (!),tratando o material com uma insuspeita originalidade, ainda que na opinião de muitos, isso tenha eliminado boa parte do potencial comercial do filme.
O cientista Bruce Banner (o eficiente Eric Bana) sofre um acidente de laboratório que, somado à mutação de seu DNA provocada por seu pai, David (Nick Nolte), o transforma em um monstro verde de pura fúria, reflexo de traumas e stress em seu subconsciente. A criatura é caçada pelo exército, na figura do General Ross (Sam Elliot, ótimo), pai de sua ex-namorada Betty (Jennifer Connelly, abrilhantando o filme com sua beleza e seu talento), e vira alvo da obsessão de David Banner, que continua a realizar experiências ilegais. Pai e filho, transformados em monstros pelo abuso da ciência, acabam se enfrentando.
Embora repleto de ação e efeitos especiais, “Hulk” é dramático e simbólico na abordagem do personagem, revelando assim muito da natureza de Lee como realizador.

Vale lembrar que, cinco anos depois, a Marvel, já consolidada como estúdio realizou uma nova versão do Hulk, estrelada por Edward Norton, mas essa, como se diz, é realmente uma outra história...