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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Venom - A Última Rodada


 Venom” foi o estopim de uma iniciativa um tanto estranha da parte da Sony Pictures: Proprietários dos direitos de imagem do Homem-Aranha, os executivos fizeram um acordo com a Marvel Studios até hoje um pouco nebuloso –e assolado por altos e baixos na relação entre as duas empresas –no qual a Marvel poderia usar o Homem-Aranha em seus filmes, desde que a Sony ficasse com um quinhão das gordas bilheterias. Abrindo mão de livre e espontânea vontade desse protagonista –com exceção da premiada animação “Homem-Aranha No Aranhaverso” –a Sony então dedicou-se a realizar produções envolvendo todos os demais personagens do assim chamado ‘Aranhaverso’, ou seja, os vilões, anti-heróis e coadjuvantes que compunham a variada fauna que orbitava, nos quadrinhos, o seu personagem principal (e que não era pouca, visto que a diversidade de personagens que cercam o Homem-Aranha é extremamente rica). A ideia era, portanto, fazer filmes (na realidade, fazer todo um universo!) a partir de personagens introduzidos nas histórias em quadrinhos do Homem-Aranha, só que sem o Homem-Aranha (!), fazendo deles protagonistas eventuais na falta do protagonista factual.

E as coisas até que começaram bem com “Venom”, dirigido por Ruben Fleischer e estrelado por Tom Hardy, fazendo bonito nas bilheterias, contudo, bastou muito pouco para ver que nem tudo eram flores... logo, uma sequência foi providenciada, “Venom-Tempo de Carnificina” , cujo resultados foram bastante lastimáveis; na esteira veio o achincalhado “Morbius”, estrelado por Jared Leto, ainda em 2024, tivemos a catástrofe “Madame Teia” e enquanto escrevo estas linhas, “Kraven-O Caçador” amarga uma bilheteria de cinema que faz dele o último prego no caixão desse universo malfadado. O que nos traz para este “Venom-A Última Rodada”.

Fornecendo um ponto de partida para o roteiro de uma forma um tanto intrincada –ele não continua, na verdade, de onde “Tempo de Carnificina” parou, mas sim das duas cenas pós-crédito envolvendo Venom e Eddie Brock, vistas respectivamente em “Tempo de Carnificina” e “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” –o filme dirigido por Kelly Marcel (diretora de “Walt Nos Bastidores de Mary Poppins” e uma das autoras do argumento de “Cruella”) acompanha Eddie Brock e o simbionte alienígena, unido ao qual ele se torna o poderoso Venom, numa fuga desenfreada. Fugindo do quê? Bem... não fica muito claro, mas na maioria das vezes, Eddie foge de soldados armados e equipados que desejam captura-lo, assim como a todas as pessoas expostas aos tais simbiontes alienígenas desde o primeiro filme (lembre-se este é o terceiro!). todos são levados como prisioneiros pelo oficial linha-dura Strickland (Chiwetel Ejiofor) para a secretíssima Área 55 (a Área 51 foi desativada...) para serem estudados pela Dra. Payne (Juno Temple, fraquinha, fraquinha). Logo, outras ameaças, ainda maiores, surgem no encalço de Eddie e Venom: Outros simbiontes, desta vez, oriundos do espaço sideral, mais especificamente do seu planeta-natal que serve, acima de tudo, como prisão para o vilanesco e poderoso Knull –um ser incomensurável poder, vindo –claro –dos quadrinhos da Marvel, pedido, inclusive, por muitos fãs, para ser introduzido neste derradeiro capítulo mas muito pouco aproveitado, sendo que o prólogo até faz parecer que será o grande antagonista deste filme. Ainda que tudo fique só na promessa...

Por alguma razão que nunca fica muito clara –até porque muitas coisas não ficam muito claras no corre-corre que orienta esta narrativa –o simbionte de Eddie possui o tal ‘codex’ que representa a chave para a libertação de Knull da prisão que o impede de partir para a conquista do universo; sendo assim, ele envia legiões de suas criaturas para a Terra a fim da capturar Venom.

A trama a girar em torno dessas desengonçadas motivações vai e vem entre diferentes núcleos de personagens, ostentando amadorismo em quase todos eles –nas cenas da Área 55, onde se espera suspense e um clima sci-fi que explique e justifique o plot cósmico que em algum momento este filme abraça, o ritmo se torna sôfrego, as situações forçadas e as atuações lamentáveis (nem mesmo o sempre competente Chiwetel Ejiofor escapa do vexame); nas sequências envolvendo o próprio Eddie Brock, nas quais imagina-se haverá ação e perseguição a proporcionar aos fãs do personagens aquilo que eles querem, tudo é desmazelado, realizado com uma continuidade duvidosa, adornado de um humor forçado e inapropriado, destituído de timing, e, o pior de tudo, jogado em cena com explicações tão vagas que se tem a impressão de que não existem muitas razões para acontecer aquilo que acontece em tela –salvo o fato de que o roteiro assim determinou.

“Venom-A Última Rodada” é um encerramento de trilogia que almejava ser emocionante e, pelo menos, digno, mas se vê comprometido por tantas inconsistências que chega a ser absurdo terem aparecido numa produção de estúdio, onde milhões de dólares são gastos com profissionais cujo trabalho deveria impedir que esses lapsos acontecessem.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Venom - Tempo de Carnificina


 Desde a cena pós-crédito de “Venom” já ficou claro em torno do que giraria a sua continuação: O vindouro embate entre o anti-herói Venom (originado dos quadrinhos da Marvel onde foi um antagonista do Homem-Aranha) e um inimigo ainda pior, o Carnificina (também ele oriundo dos quadrinhos). Vivido por Woody Harrelson, o Carnificina, ou melhor, Cletus Kassidy, é o típico retrato histriônico que o cinema costuma fazer de um psicopata –irrequieto, impulsivo, irradiando periculosidade.

É esse assassino –introduzido num prólogo onde descobrimos o laço que o une à jovem e igualmente perigosa Shriek (Naomi Harris, de “Moonlight” e “Piratas do Caribe-No Fim do Mundo”) possuidora de superpoderes –quem Eddie Brock (Tom Hardy) vem a visitar, seja na mencionada cena pós-crédito do filme anterior, seja no início deste filme. Eddie é jornalista, e seu ofício atrai o interesse de Cletus, então encarcerado e a caminho da pena de morte por injeção letal. O porque de Cletus ter essa, digamos, obsessão em nomear Eddie como seu confidente é um dos inúmeros lapsos sem muita justificativa que povoam o claudicante filme realizado por Andy Serkis.

Gênio da captura de performance –ele personificou Gollum, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres” e Cesar em “Planetas dos Macacos-A Origem” –Andy Serkis, é de se presumir, tinha também um intrínseco conhecimento do uso cênico da computação gráfica, o que deve tê-lo gabaritado para dirigir este trabalho –no qual, sobretudo sua dupla principal, depende dos efeitos visuais para se fazer convincente –em substituição à Ruben Fleischer, diretor do original.

Nesse quesito –dos efeitos computadorizados –ele até se sai bem (“Tempo de Carnificina” tem a fluidez, a beleza e a precisão minimamente necessárias aos grandes blockbusters, mas isso é tão lugar comum que mal consta como trunfo), entretanto, onde realmente importa (a condução narrativa) o filme encontra inúmeros obstáculos, que começam a se somar logo quando sua premissa (bem) básica inicia sua construção: Em uma das várias entrevistas que se seguem, Cletus consegue atacar Eddie, tirando um pouco de sangue dele.

O sangue de Eddie, como sabemos desde o primeiro filme, está  contaminado com o simbionte alienígena Venom e, a partir da gota ingerida por Cletus, dá origem à um novo simbionte, Carnificina que, para resumir a coisa toda, cresce, liberta Cletus da prisão e se transforma numa verdadeira máquina de matar.

Tudo que ele almeja, a partir daí, é reencontrar e libertar Shriek, presa numa instituição governamental –único lugar que comporta seu poder, um grito devastador.

Nesse ínterim, o –vamos dizer –‘relacionamento’ entre Eddie e Venom não vai bem: O alienígena, vaidoso por acreditar ser o responsável por Eddie ser quase uma espécie de superherói, reluta cada vez mais em aceitar as regras impostas por seu hospedeiro humano, como a de nunca devorar os cérebros humanos dos desafetos que encontra. Com esses atritos constantes, a compatibilidade de Eddie e Venom se vê comprometida justamente quando ambos estão a beira de enfrentar o Carnificina, cujo simbionte quer Venom (seu pai) morto; e cujo hospedeiro (Cletus) quer Eddie morto!

Essa –pasmem –é uma das poucas motivações que fazem algum sentido no filme.

Há, por exemplo, Eddie, insistentemente retratado como um fracassado, enquanto Venom, no roteiro terrivelmente simplista, surge como uma criatura exclusivamente norteada por seus instintos; um é irritante por sua repetição (pois, o primeiro filme já batia muito nessa tecla), o outro, por sua implausibilidade (ao mesmo tempo que se apresenta já inserido em hábitos da civilização, comporta-se como se houvessem outros que ele desconhece). Assim, sem um bom protagonista fica difícil para o expectador comprar seu antagonista: Embora Woody Harrelson seja sempre hábil no registro da uma vilania inconsequente, toda vez que seu personagem deixa essas áreas (em especial, ao investir na relação com Shriek) ele derrapa. O poder dela –seu grito destruidor –é exatamente o ponto fraco de ambos os simbiontes, do bem e do mal, e ainda que nas boas intenções dos realizadores, eles quisessem que essa fosse uma dinâmica intrigante e curiosa, na prática, isso não leva a lugar algum, culminando em contradições ocasionados no desfecho que desafiam a vontade do público em continuar acompanhando o filme.

Se há um mérito real em “Tempo de Carnificina”, ele está no fato de que é objetivo e enxuto com seus noventa e sete minutos de duração –isso, e a presença inebriante, segura e apaixonante da maravilhosa Michelle Williams, anos-luz melhor que todo o resto do filme: e mesmo assim sua participação é básica e mal aproveitada –no mais, a continuação do filme de 2018 (que apesar do entretenimento diverito que era já possuía preocupante inclinação para o genérico) se mostra desanimadora e pouco atrativa; é um sinal de alerta, afinal, quando sua intrigante cena pós-crédito (sim, este filme também tem uma!) chama muito mais a atenção do que todo o longa-metragem que veio antes dela.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Band Of Brothers

A experiência de realizar em conjunto o clássico “O Resgate do Soldado Ryan” havia sido tão marcante para Steven Spielberg e para o astro Tom Hanks que eles resolveram, em 2006, se aventurar por um projeto de espírito muito parecido, e escopo ainda mais ambicioso.
A minissérie “Band Of Brothers” levava para a tela da TV a mesma concepção visual e narrativa que tornava “Soldado Ryan” majestosamente cinematográfico, desta vez, contando a história muito real (e muito Impressionante) da Companhia Easy, o 506º Regimento da 101ª Divisão de paraquedistas dos EUA.
A história, oriunda do livro de Stephen E. Ambrose, detalha com minúcia espetacular o modo como as circunstâncias fizeram com que a 101 fosse uma das Divisões de desempenho definitivo na Segunda Guerra Mundial, em ocasiões assombrosamente estratégicas, inclusive sendo os primeiros a chegar ao famigerado Ninho da Águia, o Q.G. de Adolph Hitler.
Oscilando episódio a episódio em seu protagonismo –em virtude de possuir numerosos personagens –mas, ainda assim, mantendo o foco central quase sempre no destemido capitão Winters (a quem Damian Lewis confere uma interpretação à altura), a história tem início no epísodio “Currahee”, onde vemos, não a guerra, mas o treinamento submetido aos recrutas –durante o qual a tropa como um todo já demonstra sinais de que virá a ser um dos grupos de desempenho mais destacado do batalhão.
Somente a partir do segundo episódio, “O Dia dos Dias”, somos testemunhas da guerra de fato, numa reconstituição espetacular das operações aéreas do Dia D quando legiões de paraquedistas norte-americanos saltaram na França sob artilharia pesada.
Do ponto de vista do perplexo recruta Blithe (Marc Warren), vemos, no episódio “Caretan” a Companhia Easy se reagrupar e tentar repelir os invasores alemães da cidade francesa de Caretan, numa das mais fabulosas batalhas já filmadas na TV norte-americana.
É no episódio “Os Substitutos” que Winters é promovido de tenente para capitão quando toda a companhia retorna à Inglaterra para então ser encaminhada como apoio numa operação nos Países Baixos. Na Hollanda, uma ofensiva sofrida pela Easy leva o hábil soldado Denver ‘Bull’ Randleman (Michael Cudlitz) a perder-se de sua tropa durante uma tensa noite em meio à fazendeiros refugiados e soldados inimigos espreitando em cada canto.
Ainda pela região da Hollanda, em “Encruzilhadas”, a Companhia Easy frustra mais uma operação alemã, para então lançar-se a uma penosa incursão à Bélgica, no que o capitão Winters compreende ser um desafio de vida ou morte para seus soldados.
O primoroso episódio “Bastogne” chegou a ganhar o prêmio Writers Guild Award, em 2003, por seu roteiro. Nele, testemunhamos através dos olhos do médico Eugene ‘Doc’ Roe (Shane Taylor) o definhar gradativo, tétrico e desumano dos soldados da Easy, a medida que os dias gélidos se passam enquanto eles se veem entrincheirados nas redondezas da cidade belga de Bastogne, nos arredores da ocupada Vila Foy.
O episódio alterna o relacionamento hesitante, furtivo e efêmero de Roe com uma enfermeira belga nas bases aliadas e sua incapacidade em salvar a totalidade de seus companheiros de bombardeios implacáveis e devastadores perpetrados contra as trincheiras que deveriam manter.
Em “A Gota D’Água”, ao receber reforços dos aliados –alguns proporcionados pela tenacidade do General George Patton, como visto em acontecimentos paralelos mostrados em “Patton-Rebelde Ou Herói?” –a Companhia Easy enfim invade a Vila Foy, prosseguindo em seu árduo avanço rumo à Alemanha.
No que talvez seja o mais fraco dentre todos os episódios, “A Patrulha” –não pelo episódio em si, mas, provavelmente pelo nível elevadíssimo de qualidade de todos os demais –acompanhamos o soldado Webster (Eion Bailey) juntando-se à Easy na cidade de Haguenau e sofrendo uma ligeira discriminação de seus outrora companheiros: Um tiro na perna levou-o a um retiro de meses no hospital militar afastando-o de todos os trágicos acontecimentos vistos nos últimos dois episódios, o que leva seus companheiros a dispor-lhe o mesmo tratamento dado aos substitutos.
A saída? Provar seu valor, junto do destacamento do calejado soldado Malarkey (Scott Grimes), e invadir a área de Haguenau tomada por alemães, numa patrulha audaciosa (e para muitos suicida!).
Em “Por Isso Nós Lutamos”, finalmente estrelado pelo melhor amigo de Winters, o Capitão Nixon (Ron Livingston, de “Como Enlouquecer Seu Chefe”), testemunhamos o estarrecimento dos soldados americanos ao encontrarem, pela primeira vez, os terríveis campos de concentração nazista, assim como as legiões de vítimas lá confinadas.
Dessa forma, chegamos em “Pontos”, o último episódio, quando a Companhia Easy por fim chegada ao covil de Hitler, o Ninho da Águia.
A Segunda Guerra Mundial se aproxima de seu desfecho e os soldados, depois de seis longos anos lutando no conflito se preparam para voltar para casa encerrando assim uma das mais extraordinárias minisséries já realizadas.
O título “Band Of Brothers” tem uma refinada origem, William Shakespeare. Parte de uma frase presente do emocionante discurso final em “Henrique V”, quando o protagonista fala aos seus homens sujos, cansados e vitoriosos:
“Deste dia em diante, nós seremos lembrados! Nós, estes soldados entrincheirados! Nós, este bando de irmãos!”

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Venom

Projeto acalentado já há alguns anos pela Sony Pictures, “Venom” entrou na pauta da produtora a partir do momento em que público e crítica deixaram bem claro que eles não estavam sabendo o que fazer na condução da franquia de sua estrela principal, o Homem-Aranha –Venom é um dos integrantes de sua ampla galeria de vilões, chegando a aparecer em “Homem-Aranha 3”, interpretado por Topher Grace, e é um dos mais apreciados personagens surgido os quadrinhos dos anos 1990.
Com o acordo entre a Sony e a Marvel Studios permitindo a migração do herói para os filmes dos Vingadores e seu Universo Compartilhado –além de filmes solo, dentro desse Universo, cujo primeiro exemplar é “Homem-Aranha-De Volta Ao Lar” –o caminho ficou livre para que outros personagens relativos à mitologia do Homem-Aranha ganhassem o cinema em seus próprios longa-metragens; e “Venom” é só o primeiro dessa safra.
Dirigido por Ruben Fleischer, de “Zumbilândia” e “Gangstersquad”, o filme desenvolve uma história independente com referências aos quadrinhos quando muito sucintas: Afinal, o personagem e sua origem está diretamente ligado ao Homem-Aranha e, por ora, o filme fugiu completamente de maiores conexões.
Pode-se dizer que existem dois protagonistas no filme. O primeiro deles começa a ser pouco a pouco introduzido já na cena inicial; uma nave rumo à Terra que surge entre as estrelas num take que lembra bastante a cena inicial de “O Predador”. Ao cair na Terra, descobrimos que a nave traz organismos extraterrestres que a inescrupulosa Fundação Vida, empresa do vilão Carlton Drake (Riz Ahmed, de “Jason Bourne”), trata de acobertar e iniciar procedimentos para experiências ilícitas.
Os organismos, espécies de criaturas em forma de plasma chamadas ‘simbiontes’, logo é descoberto, precisam de hospedeiros para se manter. Se de início, as experiências envolviam animais para o processo de simbiose, com o tempo, Carlton autoriza o uso de cobaias humanas que vão morrendo sucessivamente.
É aí que surge o outro grande protagonista da história, seu personagem principal de fato, o repórter Eddie Brock (Tom Hardy) que persegue avidamente pelos indícios de crimes perpetrados por Carlton e sua fundação.
Como é de se esperar num embate entre um homem comum (Eddie) e outro de largos recursos (Carlton), em seis meses, Eddie tem sua vida destruída: Ele perde seu emprego, seu apartamento e até mesmo sua namorada Annie (a maravilhosa Michelle Williams).
Entretanto, sua história com a Fundação Vida não terminou, pois, uma cientista perplexa vem bater à sua porta a fim de denunciar as mortes que se seguem na empresa. Ao invadi-la, Brock encontra várias pessoas já moribundas com simbiontes e acaba sendo infectado por um deles –o que promove assim o encontro dos dois protagonistas do filme, o relutante Eddie Brock e o simbionte que lhe dará habilidades inimagináveis.
Nos dias que se seguem, enquanto é violentamente perseguido pelos homens de Carlton (desejoso de ter o alienígena de volta), Eddie descobre que o simbionte pode comunicar-se com ele (e se autodenomina Venom) e juntos, possuem poderes espantosos capazes de assumir a forma de uma criatura de massa negra e volátil extremamente forte –e, no contexto em que se descobrem tão eficientes trabalhando juntos, Eddie e o simbionte são até mesmo capazes de acabar sendo os heróis da história toda.
Até pela circunstância em que chegou ao cinema, o filme tem amplo potencial para decepcionar muitos fãs que esperam um Venom absolutamente fiel à sua fonte dos quadrinhos: A fim de omitir a presença do Homem-Aranha (essencial à sua origem, é sempre bom lembrar) muito da trama original foi modificada e das motivações do próprio personagem, como também a forma final de Venom trouxe mudanças –a grande aranha desenhada em seu peito, réplica do famoso uniforme negro do Homem-Aranha nos anos 1980, deixou de existir.
O diretor Fleischer compensa esses detalhes, contudo, com o máximo de voltagem pop que sua narrativa consegue evocar; as cenas de luta e de perseguição, que usam e abusam da boa forma do astro Tom Hardy, são em sua maioria competentes e vibrantes.
E “Venom” cumpriu sua tarefa direitinho: Se não é nenhum filmaço de qualidade inquestionável (seu trabalho, enquanto filme de ação nunca ultrapassa o trivial, e seu roteiro não hesita em empregar soluções fáceis e previsíveis), seu oportuno lançamento em cinema, ocorrido num período sem maiores concorrentes de outros estúdios, propiciou uma gorda bilheteria, muito além das expectativas modestas que a Sony Pictures alimentava para este projeto.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Guerreiro


Neste admirável trabalho do diretor Gavin O' Connor (talvez, sua melhor realização) nunca fica determinado de fato os motivos que levaram a família dos dois irmãos Tommy (Tom Hardy) e Brendan (Joel Edgerton) ao afastamento: Em meio às ocasionais e pesarosas reaproximações que se esboçam fica implícito como agravante para isso, quando muito, o alcoolismo do pai (Nick Nolte). Há anos separados e sem se verem, Tommy e Brendan afinal se reencontram, quando o primeiro regressa de uma atribulada experiência como combatente no Oriente Médio e o segundo, que trabalha como professor, enfrenta um duro desafio familiar: Ambos estão, cada um por seu motivo particular numa disputa pelo prêmio da final de um torneio de MMA (aptidão que ambos dominam graças à influência paterna); e os rumos dramáticos tomados pelo filme não deixam dúvidas de que disputarão um contra o outro.
O tema do filme, assim talvez, careça de sutileza e originalidade, contudo, o diretor O’ Connor compensa essa obviedade com uma construção exemplar da dramaturgia, além de um requinte insuspeito na forma com que a violência e a brutalidade, quando precisam ser mostradas, revelam-se registradas magnificamente.
Nesse sentido –no do grande filme que ele consegue ser –é no elenco que seus maiores superlativos aparecem: O veterano Nick Nolte surge com uma de suas mais emocionantes atuações nos últimos anos no papel do alcoólatra assombrado pela culpa e pelo vício –grande cena é aquela em que ele recita “Moby Dick”! Joe Edgerton oferece uma belíssima interpretação com a qual conquista de pronto o público no papel do pai de família que, por necessidade, regressa às lutas de vale-tudo, mesmo que sob a condição de perder a própria vida. Mas, é no papel e na atuação de Tom Hardy que repousam os méritos mais singulares de todo o filme; um ator capaz de fazer jus ao interesse que desperta e um personagem que, a despeito do comportamento impassível e implacável, conduz o expectador com intensidade e desenvoltura à luta final, uma das mais arrebatadoras e comoventes seqüências do cinema esportivo.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Jornada Nas Estrelas - A Saga

Jornada Nas Estrelas-O Filme
Com o sucesso esmagador do primeiro “Star Wars”, na década de 1970, não tardou para que cada um dos estúdios de Hollywood procurassem por sua própria saga espacial. Possivelmente a única franquia com pedigree nesses termos era “Jornada Nas Estrelas” –ou “Star Trek” –dos estúdios da Paramount, que tratou de abortar os planos da uma nova temporada para a série e expandiu o escopo e a ambição para fazer o primeiro longa-metragem para cinema adaptado da cultuada obra televisiva criada por Gene Rodenberry.
Para dirigi-lo, um suposto especialista no assunto, o veterano Robert Wise, co-diretor (e ganhador do Oscar) de “Amor, Sublime, Amor”, e realizador da clássica ficção “O Dia Em Que A Terra Parou” –certamente o crédito que o gabaritou para este trabalho.
Sua trama, bastante esquemática, sofre as pressões do sistema de produção comercial de então e da tentativa em tatear em cinema uma linguagem que antes pertencia à telinha: A nave interplanetária USS Enterprise, totalmente reformada e de volta à atividade com sua tripulação original comandada pelo almirante Kirk (William Shatner), é atraída em pleno espaço por força maligna que ameaça a Terra.
Faltou, neste primeiro filme, aos produtores a sensatez de entender que Robert Wise, por mais inspirador que tivesse sido em seus filmes anteriores, não pertencia às novas gerações de cineastas capazes de urgir conceitos e narrativas que falassem a essa nova geração de expectadores –às quais George Lucas e sua saga se conectaram com primor.

Jornada Nas Estrelas-A Ira de Khan
Ainda assim, esse novo esforço em verter “Star Trek” para os cinemas interessou o público e sensibilizou a crítica o suficiente para que um segundo filme fosse planejado e, desta vez, aos trancos e barrancos, os produtores estavam dispostos a resgatar, na tela grande, os valores que faziam da marca um fenômeno na TV e, especialmente, conceber a partir daqui, um esqueleto narrativo que não se restringisse a um filme só, sinalizando uma ampla saga estendida por vários outros filmes.
Daí o grande vilão deste segundo filme ser oriundo direto do seriado e um dos prediletos dos fãs: O inimigo jurado da Federação Galáctica, até então exilado num planeta arenoso, Khan, vivido com fulgor canhestro por Ricardo Montalban.
Passado alguns anos de seu exílio, Khan planeja um golpe brutal contra seus inimigos, sobretudo o Almirante James T. Kirk, comandante da nave Enterprise, e seu grande adversário do passado.
É neste segundo filme para cinema que se inicia uma espécie de reformulação capitaneada pelo diretor Nicholas Meyer: A de militarizar muitos dos conceitos até então pacifistas da série televisiva imaginada por Gene Rodenberry, obtendo um resultado bem superior ao filme anterior.

Jornada Nas Estrelas-À Procura de Spock
Embora houvessem declarações esporádicas inclusive do próprio Leonard Nimoy, o honorável intérprete do Dr. Spock, de que cada filme de “Star Trek” deveria ter sido o último, são inegáveis os elementos de “A Ira de Khan” que funcionam como ganchos narrativos que levam diretamente a este terceiro filme: A trágica morte do Senhor Spock. O misterioso procedimento que ele fez, pouco antes de morrer, em McCoy (DeForest Kelley) e a pouco explorada questão do planeta artificial Gênesis.
Assumindo o posto de direção deixado vago por Nicholas Meyer, o ator Leonard Nimoy conduz este trabalho com alguma cautela excessiva, mas com admirável noção de ritmo e de desempenho.
Após a perda de Spock no fim do filme anterior, a tripulação da nave Enterprise parece ligeiramente fora de rumo.
Entretanto, talvez haja uma esperança muito remota e arriscada para, de alguma forma, reaver Spock. Antes de sacrificar-se ele deixou sua consciência e suas memórias na mente do Doutor "Magro" McCoy, que desde então parece ter perdido uns parafusos. Agora, clandestinamente e sem o aval da Federação, Kirk e os outros precisam confiscar uma nave e rumar para o misterioso planeta Gênesis, onde aparentemente se encontram as respostas para o retorno de Spock.

Jornada Nas Estrelas-A Volta Para Casa
Continuando basicamente do ponto de interseção em que “À Procura de Spock” acabou (com a tripulação lidera por Kirk desobedecendo ordens oficiais numa condição de renegados), e retomando a função como diretor –desta vez, visivelmente mais a vontade ao lidar com o material –Leonard Nimoy realizou um entretenimento divertido, ágil e saboroso, dominando prodigiosamente a fórmula dos filmes da série e entregando uma mescla equilibrada de aventura, ação e humor.
É, com méritos, um dos filmes de "Jornada Nas Estrelas" mais festejado pelos fãs.
Sem saber como seus membros serão recebidos, a outrora tripulação da USS Enterprise, liderada pelo ex-almirante Kirk, retorna para a Terra a bordo de uma nave Klingon –pilotada pelos vilões derrotados no filme anterior.
Contudo, a Terra enfrenta complicações: Uma raça alienígena sitiou nosso planeta ameaçando bombardeá-lo caso não recebam uma resposta. O idioma dos alienígenas, porém, lembra a comunicação feita por baleias que a muito já estão extintas.
Sendo assim, cabe a Kirk e sua tripulação voltar no tempo, no presente (que, para todos os efeitos era a década de 1980), para encontrar as tais baleias, e levá-las ao futuro, onde poderão fazer o papel de "diplomatas da Terra".

Jornada Nas Estrelas-A Última Fronteira
O enredo iniciado em “A Ira de Khan” havia sido maravilhosamente aproveitado e ramificado nos últimos três (e ótimos) filmes da saga.
Embora não houvesse material previsto para dar continuidade, o sucesso de bilheteria e o carinho dos fãs levaram o estúdio a logo encaminhar um quinto filme, desta vez, a estréia na direção de William Shatner, o próprio capitão Kirk.
Uma pena que, ao contrário de Leonard Nimoy, Shatner não possuía maiores noções de espetáculo, ou mesmo de plausibilidade e coerência –todos são elementos essenciais que faltam à narrativa deste filme frouxo, equivocado e banal.
A bordo da USS Enterprise, o capitão Kirk e sua tripulação deparam-se com um grupo dissidente de vulcanos (a mesma raça do Senhor Spock) que não só reclamam para si o direito sobre a plenitude das emoções como querem também partir para o que seria o centro do universo, e lá encontrar Deus.
Dono da ingrata tarefa de suceder uma das mais aclamadas produções de toda a saga (porém, ineficaz e falho mesmo destituído desse fator), este novo episódio foi tido como o mais fraco dos filmes da série.

Jornada Nas Estrelas-A Terra Desconhecida
Já no início da década de 1990 –e com seu elenco cada vez mais envelhecido –o diretor de “A Ira de Khan”, Nicholas Meyer, voltou para fazer uma espécie de despedida da saga e dos seus personagens.
Uma cataclisma ameaça seriamente de extinção a raça dos Klingons –um evento histórico para o cânone da saga (cortesia do roteiro escrito pelo próprio Leonard Nimoy) que começava a conectar esta versão com acontecimentos presentes na série “Jornada Nas Estrelas-A Nova Geração”, que fez sucesso na TV nos anos 1980 e 90.
Outrora inimigos da Federação dos Planetas Unidos, a raça de guerreiros rudes agora deve se submeter às regras diplomáticas da Federação Galáctica para sobreviver uma vez que seu planeta fora destruído. Um dos oficiais requisitados para mediar o histórico encontro é o capitão James Kirk, que já tivera muitos atritos com os Klingons no passado, e se encontra a beira da aposentadoria.
No entanto, durante a ocasião, uma sabotagem na Enterprise provoca um mal-estar diplomático cuja culpa recai sobre Kirk e seu médico, o Doutor McCoy. Spock e os outros devem, portanto, salvar Kirk e McCoy, descobrir o sabotador entre a tripulação e ainda deter uma conspiração para minar o acordo de paz entre os Klingons e a Federação.
Certamente uma despedida digna e com uma cena final emocionante, contudo, apesar da sugestão a frente e atrás das câmeras de que este seria o último filme, não foi bem assim...

Jornada Nas Estrelas-Gerações
Como forma de fazer uma espécie de transição –e nada mais que isso –entre a velha geração (leia-se, Kirk e sua turma) e a nova (o Capitão Jean Luc Piccard e novos personagens que protagonizavam a nova e bem-sucedida série televisiva) foi lançado em 1994, sem maiores alardes este filme transitório dirigido pelo inexpressivo David Carson.
Isso porque, da tripulação original da Enterprise, sobrou pouco mais que o Capitão Kirk –Nimoy, como Spock, e DeForest Kelley, o McCoy, não voltaram por questões de contrato sobrando apenas os intérpretes de Scotty (James Doohan) e Chekov (Walter Koenig) –o que torna este encontro entre personagens distintos como Kirk e Piccard (separados por cerca de 100 anos, o que exige do roteiro uma explicação meio furada de viagem no tempo) um exercício de expectativa desperdiçada.
Em perseguição ao vilão Soran (Malcolm McDowell que, depois de “Laranja Mecânica” e “Calígula” só se encaixa à perfeição nesse tipo de papel), o capitão Piccard e sua tripulação chegam até o misterioso lugar denominado Nexus, uma região feita de energia onde o espaço e o tempo não estão completamente definidos –recurso narrativo que permite assim o encontro entre os dois núcleos tão cronologicamente longínquos de protagonistas.
É lógico, portanto, que a mesma região Nexus irá atrair Kirk e, em determinado ponto, ele e Piccard irão unir forças para enfrentar o vilão.
Mais: A tocha, digamos, de heroísmo da série enquanto cinema será assim passado oficialmente de um para outro. E sobram assim pouquíssimas coisas, neste filmes dos mais irregulares, que de fato peguem de surpresa o expectador: Os lances pretensamente mais importantes de seu roteiro –como a morte de Kirk –são também os mais óbvios.

Jornada Nas Estrelas-Primeiro Contato
Após o pra lá de mediano filme anterior, a equipe da nova geração, devidamente introduzida ganhou um filme para chamar de seu.
E o diretor Jonathan Frakes, um dos membros do elenco, não economizou esforços para fazer deste um trabalho de insuspeita qualidade, recorrendo inclusive ao mesmo artifício que garantiu à série de TV, da qual todos eram oriundos, uma sobrevida que o alavancou para além das comparações com a série original: Os temíveis e vilanescos Borgs, cuja peculiar característica é a da converter todos os organismos vivos em entidades similares a eles mesmos.
Responsáveis por rechaçar um ataque menor desses tenebrosos alienígenas à Terra, o capitão Jean Luc Piccard (Patrick Stewart, o Prof. Xavier de “X-Men”) e sua tripulação à bordo da nave Enterprise, vêem-se na condição de serem os únicos capazes de deter um plano muito maior de dominação da Terra: Os Borgs planejam voltar no tempo, no dia do histórico primeiro contato da raça humana com outras inteligências extra-terrestres, o que incluirá a Terra na Federação Galáctica dos Planetas Unidos, e impedir que isso aconteça, deixando a Terra muito mais suscetível a uma invasão alienígena.
Piccard conduz assim a Enterprise ao passado, a fim de frustrar os planos inimigos, bem como também acertar uma antiga richa que tem com os Borgs.
Embora passe longe do brilhantismo visto, sobretudo, em “A Ira de Khan” e “A Volta Para Casa”, este primeiro longa-metragem inteiramente pertencente à Nova Geração de "Star Trek", foi muito bem sucedido e realizado, viabilizando novos filmes protagonizados por Piccard e sua tripulação.

Jornada Nas Estrelas-Insurreição
O diretor Jonathan Frakes (e que, numa curiosa tradição de “Star Trek” vinha a ser intérprete também de um dos personagens, o oficial William T. Riker) retornar para dirigir este novo filme disposto a mudar uma outra e curiosa ‘tradição’ da série: A de que os filmes de número ímpar (este é o nono) seriam sempre ruins e os de número par são sempre bons.
E este novo filme já traz um enredo que faz referência direta a uma das principais diretrizes da Federação Galáctica, desde os tempos da antiga tripulação: A de que nenhuma tripulação de uma nave da Frota Estelar deve interferir nos rumos de uma cultura ou civilização.
É, portanto, um tremendo impasse com o qual o Capitão Piccard se defronta: Cumprir suas ordens e ignorar a ameaça aos habitantes do planeta Ba’ Ku? Ou seguir sua consciência e ajudá-los, rompendo com a própria Federação Galáctica no processo?

Jornada Nas Estrelas-Nêmesis
Neste que é o décimo longa-metragem de "Jornada Nas Estrelas", a produção lança mão de alguns elementos para se adaptar às novas fórmulas do cinema comercial, como a escalação do diretor de ação Stuart Baird (realizador de “Momento Crítico” e montador de obras como “007-Cassino Royale” e “Máquina Mortífera”), do dramaturgo John Logan como roteirista e (a mais equivocada de todas) uma campanha de marketing na qual “Nêmesis” era vendido ao público sem detalhes mais informativos de que fazia parte de “Star Trek”.
A indiferença generalizada do público nas bilheterias terminou fazendo deste o último filme desse segmento de “Star Trek”.
Em meio às festividades do casamento de William Riker e Deanna Troi (Marina Sirtis), um casal de membros da tripulação da USS Enterprise, o capitão Jean-Luc Piccard recebe uma grande notícia: seu nome foi apontado para servir de porta-voz da Federação durante o aguardado e importantíssimo acordo de paz dos Romulanos.
Os eventos, porém, como rege a cartilha do cinema comercial, não serão tão simples e nem tão tranqüilos. De tocaia nas proximidades do Império Romulano estão inimigos que têm engendrados planos para ameaçar esse acordo. Mais que isso eles têm um às na manga: Um jovem que na realidade é o próprio Piccard clonado! –repare num ainda muito jovem Tom Hardy no papel de clone.
Encerrando de forma um pouco desapercebida e não muito digna essa fase de “Star Trek” nos cinemas, “Nêmesis” foi o último filme realizado tendo por esteio todos os anteriores –partindo do princípio que eles todos se conectavam.
Só em 2009 (portanto, sete anos depois deste filme), “Star Trek” seria reiniciada com todas as letras ganhando uma nova e turbinada versão pelo diretor J.J. Abrahams, enfim atrevendo-se a trazer um novo elenco (e, por que não, uma nova abordagem) para tão icônicos personagens.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Dunkirk

Christopher Nolan, ao realizar seu primeiro filme de guerra, procurou ser inesperado; ele foi na contramão do que se pressupõe ser um dos paradigmas do cinema bélico e amparou sua obra –veja só –no silêncio: “Dunkirk” prescinde (ou, pelo menos, busca prescindir) de diálogos e efeitos sonoros mais barulhentos para trilhar uma narrativa que quase remete ao cinema mudo.
Tudo gira em torno dos acontecimentos na cidade francesa de Dunkirk –ou Dunquerque, conforme o texto –na qual um contingente considerável de soldados ingleses, franceses e belgas foi encurralado pelas forças alemãs em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial; e mais de um ano antes do ingresso dos EUA no conflito.
De 26 de maio a 4 de junho daquele ano, os soldados desarmados, desmotivados, sem recursos e sem suprimentos foram deixados a mercê dos bombardeios inimigos naquela praia cuja travessia do Canal da Mancha era a única coisa que os separava de sua Inglaterra natal.
Desse episódio dramático –e pouco explorado pelo cinema –Nolan extraí as peças que encaixadas irão compor sua narrativa.
Uma delas acompanha um soldado inglês (o jovem Fionn Whitehead) que, na seqüência inicial –silenciosa, como muitas deste filme –acaba sendo o único sobrevivente de um grupo que a duras penas conseguiu chegar ao trecho da praia, ainda sob domínio dos franceses. Ele protagonizará –ao lado de outros personagens que aparecerão como o oficial inglês vivido por Kenneth Brannagh –a árdua e penosa semana que eles passarão ali, até que algum milagroso indício de ajuda apareça.
Em outro lugar, a narrativa de Nolan irá se deter –desta vez durante um dia –no esforço dos ocupantes de um barco pesqueiro, seu dono (Mark Rylance, de “Ponte de Espiões”), seu filho (Tom Glynn Carney) e um amigo (Barry Keoghan) para irem, por conta própria, cruzar o Canal da Mancha e resgatar os desamparados soldados.
A terceira peça do quebra-cabeças é a seqüência estrelada por Tom Hardy no papel de um dos pilotos de caça britânico. Ao longo de uma hora, o filme registra os esforços dele em tentar proteger os barcos e os soldados em terra e mar da sanha impiedosa dos bombardeios alemães, ávidos por tantos alvos fáceis à sua disposição.
Dirigindo com primor inquestionável –e, não raro, exaurindo o expectador com a tensão extenuante que consegue criar –Christopher Nolan contrapõe essas três linhas narrativas (a semana toda do jovem soldado; o dia inteiro dos tripulantes do barco; toda a hora do piloto de avião) e com elas instiga e desafia o expectador a encontrar o momento e a maneira com que elas haverão de se encontrar (e elas realmente se encontram). Fundamental para o enlace hábil de todas essas pontas soltas –bem como da impressão que almeja suscitar por cada uma delas –é a trilha sonora de Hans Zimmer, tão mais fundamental, válida e inestimável quando estamos falando de um filme com falas reduzidas ao mínimo necessário.
Há uma incongruência no resultado incomum que Nolan sempre costuma obter ao trabalhar certas emoções. Em “Dunkirk” ela surge em dois extremos: A euforia emocionante e vívida ao constatar o esforço do cidadão comum quando incontáveis moradores arriscam suas vidas para salvar, a bordo de barcos de passeio e outros meios marítimos civis, a vida de milhares de jovens soldados, e a decepção profunda acompanhada de uma amarga tristeza ao perceber que este é um caso isolado de solidariedade em meio à uma guerra gigantesca, sangrenta e desumana.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Origem

E chegou então a hora de falar sobre o filme que virou um fenômeno no ano de 2011, e que na opinião de muitos é o único capaz de rivalizar com “Batman-O Cavaleiro das Trevas” como melhor filme da filmografia de Christopher Nolan.
“A Origem” guarda mesmo elementos de sobra para manter seu fascínio perene. A começar pelo notável (e, em princípio, intrigante) personagem de Leonardo Dicaprio, o torturado Dom Cobb, um ladrão de sonhos!
Sua especialidade é infiltrar-se na mente de certas pessoas enquanto dormem (através de uma tecnologia nunca, de fato, detalhada pela narrativa), e dentro de seus sonhos, roubar-lhes segredos e informações valiosas –e aí, mais do que o processo fantástico pelo qual se dá a ida para o mundo dos sonhos, é no rigoroso conjunto de fatores, regras, condições e pequenos detalhes que está o verdadeiro ponto de interesse da narrativa de Nolan.
Uma vez dentro dos sonhos existe toda uma cadeia de importâncias a ser respeitada e seguida: Se morrer no sonho, a pessoa desperta. O subconsciente pode oferecer perigo para o sonhador e seus “turistas”. Há uma forma específica de saber se você está sonhando ou não (e isso diz respeito aos “totens”). O tempo, no sonho, corresponde a um período muito breve na nossa realidade.
Tal arte, aparentemente, Dom Cobb domina como poucos.
Entretanto, em sua vida desperta Cobb é um homem torturado, afastado de seus filhos (que moram com o avô interpretado por Michael Caine) e injustamente acusado da morte da mulher que ama (Marion Cotillard, uma femme fatale extraordinária, que surge nos seus sonhos como um elemento tão sensacional quanto desestabilizador).
É quando surge então um milionário chamado Saito (o brilhante Ken Watanabe, com um personagem tão essencial à trama quanto Dicaprio), com uma proposta irrecusável: ter seu nome inocentado em troca de uma última missão. Só que desta vez, ao invés de tirar informações, ele deve inserir uma idéia numa determinada mente, o quê é muito mais difícil, talvez impossível.
Cobb monta uma nova equipe para essa arriscada tarefa –Arthur, seu braço direito, vivido por Joseph Gordon-Levitt, um “falsificador” (capaz de personificar diferentes personagens dentro do sonho) interpretado por Tom Hardy, um “arquiteto” (aquele que constrói o elaborado cenário dentro do qual o sonho irá se passar) na pele da jovem Ellen Page (de “Juno”), e um “químico” (que administra os efeitos do sedativo que fará a vítima dormir), vivido por Dileep Rao –afinal a mente humana (incluindo a do próprio Cobb) é um lugar desconhecido e cheio de armadilhas e a "inserção" requer um plano complexo.
É patente, como se pode perceber, que Nolan gosta de mesclar gênero que ele tem por inspiração –os filmes de assalto popularizados nos anos 1960, neste caso –e à eles conceder uma roupagem fantástica e, não raro, mirabolante. As influências cinematográficas de Nolan surgem quanto não se espera: Imagina-se que ele vá fazer alusão a algum grande diretor, ou grande filme, que tenha por base o mundo dos sonhos, como David Lynch, mas essas relações só aparecem por acaso; “A Origem”, em sua concepção desconcertante, busca remeter a obras como “O Golpe de John Anderson” (na sua estrutura de filme de assalto), ou “007 Na Mira dos Assassinos” (na forte referência que envolve cenas de ação na neve). Nota-se então o gênero a que “A Origem” quer realmente pertencer e aprimorar: A ação.
E a direção de Nolan dedica minucioso aparato de técnica e inventividade a fim de moldar cenas de ação singulares: Sendo a luta em gravidade zero provavelmente seu exemplo mais exuberante.
É o desfecho, contudo, que garante ao filme sua permanência na memória: Quando Cobb, redimido e prestes a reaver os filhos, tenta usar seu próprio “totem” (um pequeno peão que gira indefinidamente quanto é sonho, e para logicamente de girar quando é realidade), a fim de garantir se o que está se passando é real ou não. As crianças o chamam, e ele por fim ignora o peão que roda sem parar. A câmera de Nolan permite que seu protagonista vá embora, fixando-se no peão (e na expectativa de que ele logo caia), mas desafia o expectador, encerrando o filme antes de qualquer resposta.
Está aí o fator que fez de “A Origem” um dos filmes mais discutidos de 2011.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Espião Que Sabia Demais

Filmes como “Deixe Ela Entrar” definem a carreira de um cineasta.
Para o bem e para o mal, inclusive: Há sempre a possibilidade (injusta, até) de o público esperar por um trabalho seguinte que mantenha a mesma excelência, a mesma convergência de fatores, muitas vezes únicos, que fizeram aquele filme específico brilhar.
E “Deixe Ela Entrar”, sempre ficou bem claro, era um filme único.
Desnecessário dizer que sua refilmagem americana foi incapaz de capturar a mesma magia que pulsa, sem maiores esforços, do original.
E quanto ao seu diretor, o talentoso Thomas Alfredson?
Ironicamente, ele passou os anos seguintes à bombástica consagração de seu filme trabalhando, também, na realização de uma refilmagem.
Todavia, “O Espião Que Sabia Demais” já era um filme de espionagem antigo (e o público, como se sabe, tem memória relativamente curta), datado da década de 1970 (na realidade, condensado de uma minissérie inglesa), e esse projeto abria plenamente espaço para uma repaginação em todos os âmbitos (artísticos, políticos, cinematográficos). Enfim, havia a possibilidade de fazer todo um novo filme.
E é isso que o novo trabalho de Alfredson trás: Toda uma nova percepção, uma nova e empolgante forma de se fazer cinema, tão inebriante e fascinante quanto o magnífico filme de vampiros que o revelou.
O ano é 1973. George Smiley (Gary Oldman, hipnótico), veterano recém-despedido do Serviço Secreto Britânico deve sigilosamente voltar à ativa em face da morte de seu antigo chefe, Control. Sua missão: rastrear o traidor infiltrado no "Circo" -a cúpula dos membros do alto escalão do Serviço Secreto- que Control foi incapaz de descobrir, e que está fornecendo continuamente informações a um misterioso agente russo denominado Karla.
A falta de pressa com que a trama se desenlaça exige paciência do expectador médio habituado aos blockbusters de sempre. Esse detalhe, porém, agrega mais mérito ao filme que une, de maneira curiosa, o anacronismo (do modo como a produção trabalha seu registro este é, em todos os sentidos clássicos, um filme de época) à inovação (o tom desigual e a narrativa cheia de particularidades brilhantes que dão ar completamente renovado ao gênero).

É, com freqüência, um trabalho cheio de requinte de Alfredson onde, em meio ao extremo refinamento de seu impecável elenco inglês (com nomes como Colin Firth, Toby Jones, Benedict Cumberbath, Tom Hardy e Mark Strong) destaca-se a soberba e minuciosa composição de Gary Oldman.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Falcão Negro Em Perigo

Sempre dispostos a querer vestir a carapuça de “xerifes do mundo”, os americanos são historicamente acostumados a se envolver em assuntos que dizem respeito à ONU.
Não é incomum haver atritos e conflitos, e não é incomum que alguns desses conflitos resultem em traumas que ganham registro perene em seu histórico bélico.
É em um desses casos que se baseia a trama de “Falcão Negro em Perigo” no qual, apesar de seus inegáveis méritos, o cinema americano parece uma vez mais servir à um exercício distorcido de patriotismo e exaltação deturpada de valores.
Ridley Scott conta com ênfase e primor técnico como um grupo de soldados de elite norte-americanos, as Forças Delta e Ranger, em uma missão da ONU na Somália devastada por uma guerra civil nos anos 1990 iniciaram uma arriscada operação que os colocou em meio ao caos urbano da cidade de Mogadício, ocupada por ferozes milícias locais. A missão tornou-se catastrófica quando um dos helicópteros de apoio, o Falcão Negro, foi derrubado na praça central, logo seguido por outro.
Nesse ponto, a sucessão de cenas de combate impostas por Scott, com uma noção primorosa e particular de ritmo, já é atordoante.
Indefesos e encurralados, os soldados precisaram ser resgatados pelas tropas remanescentes antes que virassem alvos de uma carnificina, prolongando uma batalha angustiante e sangrenta por cerca de 10 horas.
Como virou uma espécie de modismo naqueles anos subseqüentes, todo diretor que se aventurava a fazer um filme de guerra seguia, à risca e descaradamente, os passos de Steven Spielberg e seu antológico “Resgate do Soldado Ryan”, e com Ridley Scott não foi muito diferente, ainda que, sempre um magnífico diretor, ele encontrou nesta brutal e espetacular história real, uma forma de entregar um trabalho, também ele, dotado de brilho e autenticidade próprios.

Pode-se assim descrever “Falcão Negro em Perigo” como a meia hora inicial de "Resgate do Soldado Ryan" potencializada num filme de duas horas de duração.

domingo, 25 de setembro de 2016

Maria Antonieta

A carreira cinematográfica de Sofia Coppola recebeu grande ajuda e incentivo de seu pai, o ilustre Francis Ford. Mesmo antes quando (ainda bem jovem) Sofia experimentou alçar vôos como atriz, seu pai a ajudou –ele deu a ela um papel fundamental em “O Poderoso Chefão Parte 3”, com resultados insatisfatórios.
Depois que ela decidiu tornar-se diretora, ele produziu todos os seus filmes, de “As Virgens Suicidas” até o mais recente “Bling Ring-A Gangue de Hollywood”, deixando bem claro, para o pai e para o mundo, o estilo que ela adotaria para contar histórias.
Em algum momento dessa filmografia notável que Sofia construiu, Coppola, o pai, tentou colocá-la num projeto que tivesse mais a sua cara.
Leia-se: Um trabalho suntuoso, com tinturas épicas. Mais clássico do que alternativo.
O resultado foi “Maria Antonieta” que, polarizado entre os estilos bastante díspares do pai (produtor) e da filha (diretora) transfigurou-se não em uma cinebiografia da célebre rainha da França, mas em um esforço de tentar entender sua personalidade, estranhamente localizado numa área nebulosa entre o intimista e o espalhafatoso.
Com uma carreira que já a gabaritava como veterana no cinema, a relativamente jovem atriz Kirsten Dunst (que ganhou muita fama como Mary Jane nos filmes do “Homem-Aranha”, de Sam Raimi, e já havia trabalhado com Sofia em “As Virgens Suicidas”) entregou uma interpretação engajada e rica em minúcias, bem ao gosto de sua diretora, para a princesa austríaca, Maria Antonieta, que num casamento arranjado, aos 14 anos, é arrancada do seu ambiente familiar e arremessada na corte francesa, como esposa do reticente e infantil rei Louis XVI (Jason Schwartzman) –que, à propósito, ela mal conhecia!
A narrativa de Sofia Coppola, assim, a acompanhará dos 14 aos 27 anos, mostrando muito do período em que ela teve de aprender a lidar com as complicadas exigências sociais e políticas de um posto de monarca, dando à trajetória de Maria Antonieta uma ótica que a aproxima das meninas sem perspectiva de “As Virgens Suicidas” e da deslocação e do vazio existencial experimentado pelos personagens de “Encontros e Desencontros”.
Uma visão que, é bom lembrar, atribui certa simpatia à ela, o quê contraria bastante a idéia que a França, em geral, faz dela, sempre lembrando-a com aversão.
Nesse ensejo, Sofia também cria um painel de afresco da própria realeza do período ao qual essa jovem rainha pertenceu, retratando-a como um grupo de pessoas sem muito que fazer a não ser mergulhar no hedonismo e na futilidade, algo possível só pela riqueza e ostentação da classe em que se encontravam. Elementos da narrativa que Sofia parece sublimar no que diz respeito à superficialidade, mas que revelam-se cruciais para os rumos que a trama toma –inclusive em termos históricos.
De quebra, ainda tirou, do cotado como favorito "Diabo Veste Prada", o Oscar de Melhor Figurino em 2007.

domingo, 17 de abril de 2016

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Christopher Nolan enfrentou dois grandes problemas ao realizar a última parte de sua cultuada trilogia.
O primeiro: como contornar a morte do insubstituível Heath Ledger como Coringa? 
E o segundo: como igualar o nível de qualidade estratosférica de um filme como “O Cavaleiro das Trevas”? 
A dura verdade é que, em ambos os casos, isso era impossível.
Entretanto, Nolan conseguiu um encerramento digno e magistral com este “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Desta vez, o tema é a dor. A dor de saber que seu corpo não é mais capaz de realizar as proezas do passado. A dor que, em última instância, deve ser superada, para que um objetivo maior seja conquistado. E o vilão Bane (interpretado pelo fantástico Tom Hardy) é a personificação da dor: ele usa, o tempo todo, uma máscara para que um gás o poupe justamente da dor que os ferimentos em seu rosto o fariam passar; e ele promete fazer o herói viver toda uma jornada de dor, ao lesionar sua coluna (na sensacional reprodução de uma das cenas mais marcantes da trajetória do Batman nos quadrinhos), para só então ressurgir, e restabelecer a justiça e a ordem, como ele almejava, desde o primeiro filme.
A ausência de Heth Ledger, e seu fenomenal Coringa, é sentida, inclusive na omissão proposital que a narrativa faz ao personagem. 
Felizmente, para Nolan, o catálogo de coadjuvantes do Batman sempre foi vasto em presenças memoráveis, de forma que aqui, ele pode lançar mão da Mulher-Gato (maravilhosamente personificada por Anne Hathaway) e de Talia Al-Ghul (Marion Cottilard, cuja personagem acaba fazendo uma interessante conexão com o primeiro filme “Batman Begins”).
Este último capítulo honra todos os predicados hiperlativos dos filmes anteriores, encerrando a história de Batman em definitivo de maneira sólida e respeitosa, fortalecendo a trilogia como um todo. Um grande e memorável trabalho de Christopher Nolan.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Regresso

 Se há algo que este filme ratifica, é o virtuosismo cada vez mais aplicado de Alejandro Gonzales Iñarritu. Ele pega uma trama de uma simplicidade gutural e a potencializa em um grande filme sobre vingança que ultrapassa as duas horas de duração. 
Não é o quê ele conta, mas como ele conta. 
A câmera de Emmanuel Lubezki elabora quadro de um esplendor inédito no cinema em 2015. Poucos foram os filmes capazes de rivalizar com esse acabamento visual: Puxando da memória, talvez, só “Mad Max-Estrada da Fúria” e “A Colina Escarlate” são capazes de lhe igualar nesses termos. Aqui, Iñarritu entrega uma obra completamente distinta de seu trabalho anterior, “Birdman”. Se o outro filme era uma dissertação sobre as diferentes percepções da arte e do processo criativo em si, “O Regresso” abandona qualquer um desses intelectualismos. Á exemplo do que Kubrick fazia, o filme de Iñarritu contraria e contradiz seu trabalho anterior pela simples mudança brusca de tema, ambientação e conceito. 
Leonardo Dicaprio (numa atuação carregada de precisão, expressividade e silêncio) é Hugo Glass, caçador e rastreador veterano da fronteira gelada dos EUA com o Canadá. Em meados do fim do século XIX, ele e seus conhecimentos soa necessários à uma empreitada que um grupo de  soldados e mercenários pagos empreendem á territórios longínquos e inóspitos, atrás de carne e couros valiosos. Lá, há muito perigo. Inclusive na forma de tribos hostis que não hesitam em atacá-los já nas espetaculares cenas iniciais do filme. Durante a árdua volta para a civilização, Glass é atacado por um urso imenso, em mais uma cena brilhantemente montada e orquestrada por Iñarritu. Seus ferimentos indicam morte iminente, e suas condições certamente atrasarão a tropa, mas o capitão (Domhnall Gleeson) não deseja deixá-lo para trás, ao contrário do rancoroso Fitzgerald (Tom Hardy, brilhante). Logo monta-se uma equipe para cuidar dele enquanto a tropa prossegue. Essa equipe inclui Fitzgerald, e dois jovens, um deles o filho metade indígena de Hugo Glass. 
Ao verem-se sozinhos, as intenções de Fitzgeral se revelam: Ele mata a sangue frio o filho de Glass, e depois enterra o próprio vivo, sob a relutante testemunha do outro jovem. Contudo, Glass não morre, e trava uma odisséia em meio à paisagem inóspita e gelada para procurar e achar Fitzgerald e consumar o desejo de vingança que queima dentro dele desde então. 
Ainda que seja a mola que impulsiona o filme e o seu protagonista, a vingança em si não é o cerne de “O Regresso”. Durante a maior parte de sua duração é o trajeto que Glass fará até atingir seu objetivo o verdadeiro mote do filme. O grande tema de “O Regresso” portanto, acaba sendo o embate do homem com a natureza. E é a partir dessas cenas que o diretor Iñarritu encontra a força de seu filme: Cada tomada é imbuída de um esforço sem igual de autenticidade e legitimidade técnica para com a ilustração da frágil condição humana perante um cenário tão lindo e tão selvagem.