Mostrando postagens com marcador Malcolm McDowell. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Malcolm McDowell. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

O Escândalo


 Se em princípio Jay Roach foi um realizador de comédias compromissadas tão somente com o objetivo de fazer rir (como atestam os hilariamente ácidos exemplares da série “Entrando Numa Fria”), aos poucos, filme após filme, ele conseguiu migrar para o cinema uma capacidade que já demonstrava em obras televisivas: Uma percepção desigual e afiada para registrar com urgência sublime e relevância maiúscula as arestas sociais e comportamentais de certos aspectos da modernidade na política norte-americana, como atestam os formidáveis “Virada de Jogo” (feito para TV) e “Trumbo” (lançado em cinema). Neste magnífico “Bombshell”, Roach mantêm suas câmeras aguçadas no panorama político da América (sua trama abrange o período das eleições presidenciais norte-americanas de 2015-16), ao mesmo tempo que joga luz sobre um tema cada vez mais necessário: A cultura do assédio.

Ainda no ano de 2015, a âncora Megyn Kelly (Charlize Theron, espetacular) foi escolhida pelo canal de notícias Fox News para mediar os debates presidenciais entre os pré-candidatos republicanos, entre eles, aquele que terminaria ganhando a preferência –e, no ano seguinte, as próprias eleições –Donald Trump. Embora ferrenha defensora dos ideais ultra-conservadores de direita, Megyn foi fiel ao perfil combativo com o qual era vista na mídia e confrontou Trump com perguntas incisivas sobre sua alardeada misoginia.

O episódio gerou um impasse delicado na Fox News: Ao mesmo tempo em que a rede jornalística representava um dos maiores apoios à candidatura republicana –e Megyn beneficiava-se de relativa confiança do todo-poderoso presidente do canal Roger Ailes (John Lithgow, sordidamente convertido por quilos de maquiagem) –a jornalista comprou uma briga informal contra o candidato que passou a retuitar em mídia nacional várias ofensas contra ela.

Essa transformação forçada de paradigmas de Megyn coincidiu com outro acontecimento, também ressonante, nos corredores da Fox News; transferida de um programa do horário nobre para outro na ingrata programação da tarde (por não suportar o sexismo predominante de seus colegas de cena), a apresentadora Gretchen Carlson (Nicole Kidman, ótima) abriu um processo por antigos abusos sexuais contra o próprio Roger Ailes tão logo é, por fim, demitida.

Hábil e astuta, Gretchen tinha algumas cartas na manga, como a previsível atitude de sua demissão por parte de seu patrão manipulador, mas contava com a aparição, logo após sua iniciativa, de outras mulheres que também foram assediadas. É Megyn, inesperadamente, uma delas, entretanto, ela estava longe de ser a única: Também ganha bastante espaço na narrativa a circunstância de Kayla Pospisil (Margot Robbie, em corajosa e brilhante atuação), jovem produtora em ascensão profissional dentro da Fox News que é coagida, naquela que é de longe a cena mais aflitiva de todo o filme, por Roger Ailes em pessoa à levantar sua saia até que sua calcinha fique visível. Dentre todas essas personagens, somente  a de Kayla não é precisamente real –trata-se de um amálgama de pelo menos duas dezenas de mulheres que prestaram depoimento ao roteirista do filme, Charles Randolph (de “A Grande Aposta”).

Impressionante, entre outras coisas, é também o retrato que o filme de Roach faz do clima que surge, logo em seguida, nos corredores da Fox News: Com seu presidente sendo acoado por questões imprevistas de natureza procedural, a rede move seus recursos tentando provar o contrário, que Ailes era respeitador e inofensivo (funcionárias são obrigadas a vestir uma camisa em apoio ao chefe processado e depoimentos positivos são exigidos de praticamente todas as mulheres da empresa), que provas para quaisquer acusações eram inexistentes (uma severa operação de pente-fino, inclusive com o uso de escutas telefônicas, é adotada), e que a ex-contratada do canal, Gretchen Carlson, não era alguém confiável (todo o arsenal midiático da Fox News é subitamente voltado contra a reputação pessoal e profissional dela).

Contudo, as trajetórias íntimas de cada uma dessas três protagonistas, Megyn, Kayla e Gretchen, haverá de expor os caminhos tortuosos por meio dos quais, felizmente, a verdade se fez prevalecer, levando Ailes, após uma avalanche repentina de inúmeras acusações de assédio, a ser demitido pelo próprio dono da corporação, o magnata Rupert Murdoch (uma ponta de Malcolm McDowell).

Realizado com um brilhantismo à toda prova, “Bombshell” parece confrontar o expectador com uma difícil questão: Por meio de quais engrenagens nocivas, uma série de mulheres empoderadas, em plena década de 2010, são levadas à compactuar com o abuso sexual? Parte efetiva e crucial de um movimento que chegou até tardiamente ao entretenimento (o de obras que registram e confrontam esse comportamento tóxico), o filme de Jay Roach oferece um panorama primorosamente cristalino e bem construído dessas circunstâncias, para deixar que a conclusão fique inteiramente à cargo do público.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Se...


O cinema inglês no fim da década de 1970 e começo da de 80 era inescapavelmente rebelde: Se por um lado ele tinha influências da Nova Hollywood que, nos EUA, dava um sabor de transgressão à algumas obras produzidas pelos próprios estúdios, por outro, a cultura inglesa, impulsionada pela acidez e pela irreverência do movimento punk se alastrava, na forma de inconformismo, para outras expressões de arte.
Realizado por Lindsay Anderson, “Se...” é um filme que reflete perfeitamente esse estado de espírito. Não há muito o quê se esperar de diferente dele quando olhamos para o seu ator principal: Malcolm McDowell lembrado pelos marcantes e audaciosos papéis em “Laranja Mecânica” e “Calígula” –colocar McDowell no papel de protagonista de um filme naquela época já era, portanto, uma declaração!
Seu personagem é Mick Travis que inicia um novo ano letivo em uma rígida escola pública para garotos. O ambiente é conservador, autoritário e rigoroso –e, no contexto, um convite à rebelião.
Claro que as manifestações de contravenção dos jovens são sufocadas de todas as maneiras; a mais contundente é a surra de varas promovida pelos alunos mais velhos durante a qual os jovens são obrigados a contar as chibatadas –a narrativa de Anderson e o modo como conduz a cena nos leva a aguardar por uma reviravolta que nunca chega, ampliando a sensação de desconforto e impotência.
Em algum momento, um certo surrealismo começa a contaminar o filme: O delírio sexual (e nada prático) do protagonista na cena de nudez com a exuberante Christine Noonan; cenas coloridas se convertem em preto & branco e, após algum tempo, voltam a serem coloridas sem maiores esclarecimentos por parte do roteiro (Anderson contou, mais tarde, que esse recurso aleatório se deve, não por estilo, mas por limitação orçamentária!); personagens que antes haviam morrido reaparecem em momentos completamente mirabolantes dando a entender que a sanidade e a seriedade foram deixadas de lado pela narrativa.
É o filme de Anderson incorporando à austeridade inabalável de sua primeira parte (onde prevalece um ritmo, uma coerência e uma compostura que reflete a rigidez acadêmica) uma dose irremediável da rebeldia de seus protagonistas –eles podem não ter saído por inteiro vitoriosos de seu embate existencial e ideológico contra as autoridades escolares, mas o filme no qual estavam sofreu uma metamorfose que o adequou à mentalidade inquieta de seus heróis revolucionários.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Jornada Nas Estrelas - A Saga

Jornada Nas Estrelas-O Filme
Com o sucesso esmagador do primeiro “Star Wars”, na década de 1970, não tardou para que cada um dos estúdios de Hollywood procurassem por sua própria saga espacial. Possivelmente a única franquia com pedigree nesses termos era “Jornada Nas Estrelas” –ou “Star Trek” –dos estúdios da Paramount, que tratou de abortar os planos da uma nova temporada para a série e expandiu o escopo e a ambição para fazer o primeiro longa-metragem para cinema adaptado da cultuada obra televisiva criada por Gene Rodenberry.
Para dirigi-lo, um suposto especialista no assunto, o veterano Robert Wise, co-diretor (e ganhador do Oscar) de “Amor, Sublime, Amor”, e realizador da clássica ficção “O Dia Em Que A Terra Parou” –certamente o crédito que o gabaritou para este trabalho.
Sua trama, bastante esquemática, sofre as pressões do sistema de produção comercial de então e da tentativa em tatear em cinema uma linguagem que antes pertencia à telinha: A nave interplanetária USS Enterprise, totalmente reformada e de volta à atividade com sua tripulação original comandada pelo almirante Kirk (William Shatner), é atraída em pleno espaço por força maligna que ameaça a Terra.
Faltou, neste primeiro filme, aos produtores a sensatez de entender que Robert Wise, por mais inspirador que tivesse sido em seus filmes anteriores, não pertencia às novas gerações de cineastas capazes de urgir conceitos e narrativas que falassem a essa nova geração de expectadores –às quais George Lucas e sua saga se conectaram com primor.

Jornada Nas Estrelas-A Ira de Khan
Ainda assim, esse novo esforço em verter “Star Trek” para os cinemas interessou o público e sensibilizou a crítica o suficiente para que um segundo filme fosse planejado e, desta vez, aos trancos e barrancos, os produtores estavam dispostos a resgatar, na tela grande, os valores que faziam da marca um fenômeno na TV e, especialmente, conceber a partir daqui, um esqueleto narrativo que não se restringisse a um filme só, sinalizando uma ampla saga estendida por vários outros filmes.
Daí o grande vilão deste segundo filme ser oriundo direto do seriado e um dos prediletos dos fãs: O inimigo jurado da Federação Galáctica, até então exilado num planeta arenoso, Khan, vivido com fulgor canhestro por Ricardo Montalban.
Passado alguns anos de seu exílio, Khan planeja um golpe brutal contra seus inimigos, sobretudo o Almirante James T. Kirk, comandante da nave Enterprise, e seu grande adversário do passado.
É neste segundo filme para cinema que se inicia uma espécie de reformulação capitaneada pelo diretor Nicholas Meyer: A de militarizar muitos dos conceitos até então pacifistas da série televisiva imaginada por Gene Rodenberry, obtendo um resultado bem superior ao filme anterior.

Jornada Nas Estrelas-À Procura de Spock
Embora houvessem declarações esporádicas inclusive do próprio Leonard Nimoy, o honorável intérprete do Dr. Spock, de que cada filme de “Star Trek” deveria ter sido o último, são inegáveis os elementos de “A Ira de Khan” que funcionam como ganchos narrativos que levam diretamente a este terceiro filme: A trágica morte do Senhor Spock. O misterioso procedimento que ele fez, pouco antes de morrer, em McCoy (DeForest Kelley) e a pouco explorada questão do planeta artificial Gênesis.
Assumindo o posto de direção deixado vago por Nicholas Meyer, o ator Leonard Nimoy conduz este trabalho com alguma cautela excessiva, mas com admirável noção de ritmo e de desempenho.
Após a perda de Spock no fim do filme anterior, a tripulação da nave Enterprise parece ligeiramente fora de rumo.
Entretanto, talvez haja uma esperança muito remota e arriscada para, de alguma forma, reaver Spock. Antes de sacrificar-se ele deixou sua consciência e suas memórias na mente do Doutor "Magro" McCoy, que desde então parece ter perdido uns parafusos. Agora, clandestinamente e sem o aval da Federação, Kirk e os outros precisam confiscar uma nave e rumar para o misterioso planeta Gênesis, onde aparentemente se encontram as respostas para o retorno de Spock.

Jornada Nas Estrelas-A Volta Para Casa
Continuando basicamente do ponto de interseção em que “À Procura de Spock” acabou (com a tripulação lidera por Kirk desobedecendo ordens oficiais numa condição de renegados), e retomando a função como diretor –desta vez, visivelmente mais a vontade ao lidar com o material –Leonard Nimoy realizou um entretenimento divertido, ágil e saboroso, dominando prodigiosamente a fórmula dos filmes da série e entregando uma mescla equilibrada de aventura, ação e humor.
É, com méritos, um dos filmes de "Jornada Nas Estrelas" mais festejado pelos fãs.
Sem saber como seus membros serão recebidos, a outrora tripulação da USS Enterprise, liderada pelo ex-almirante Kirk, retorna para a Terra a bordo de uma nave Klingon –pilotada pelos vilões derrotados no filme anterior.
Contudo, a Terra enfrenta complicações: Uma raça alienígena sitiou nosso planeta ameaçando bombardeá-lo caso não recebam uma resposta. O idioma dos alienígenas, porém, lembra a comunicação feita por baleias que a muito já estão extintas.
Sendo assim, cabe a Kirk e sua tripulação voltar no tempo, no presente (que, para todos os efeitos era a década de 1980), para encontrar as tais baleias, e levá-las ao futuro, onde poderão fazer o papel de "diplomatas da Terra".

Jornada Nas Estrelas-A Última Fronteira
O enredo iniciado em “A Ira de Khan” havia sido maravilhosamente aproveitado e ramificado nos últimos três (e ótimos) filmes da saga.
Embora não houvesse material previsto para dar continuidade, o sucesso de bilheteria e o carinho dos fãs levaram o estúdio a logo encaminhar um quinto filme, desta vez, a estréia na direção de William Shatner, o próprio capitão Kirk.
Uma pena que, ao contrário de Leonard Nimoy, Shatner não possuía maiores noções de espetáculo, ou mesmo de plausibilidade e coerência –todos são elementos essenciais que faltam à narrativa deste filme frouxo, equivocado e banal.
A bordo da USS Enterprise, o capitão Kirk e sua tripulação deparam-se com um grupo dissidente de vulcanos (a mesma raça do Senhor Spock) que não só reclamam para si o direito sobre a plenitude das emoções como querem também partir para o que seria o centro do universo, e lá encontrar Deus.
Dono da ingrata tarefa de suceder uma das mais aclamadas produções de toda a saga (porém, ineficaz e falho mesmo destituído desse fator), este novo episódio foi tido como o mais fraco dos filmes da série.

Jornada Nas Estrelas-A Terra Desconhecida
Já no início da década de 1990 –e com seu elenco cada vez mais envelhecido –o diretor de “A Ira de Khan”, Nicholas Meyer, voltou para fazer uma espécie de despedida da saga e dos seus personagens.
Uma cataclisma ameaça seriamente de extinção a raça dos Klingons –um evento histórico para o cânone da saga (cortesia do roteiro escrito pelo próprio Leonard Nimoy) que começava a conectar esta versão com acontecimentos presentes na série “Jornada Nas Estrelas-A Nova Geração”, que fez sucesso na TV nos anos 1980 e 90.
Outrora inimigos da Federação dos Planetas Unidos, a raça de guerreiros rudes agora deve se submeter às regras diplomáticas da Federação Galáctica para sobreviver uma vez que seu planeta fora destruído. Um dos oficiais requisitados para mediar o histórico encontro é o capitão James Kirk, que já tivera muitos atritos com os Klingons no passado, e se encontra a beira da aposentadoria.
No entanto, durante a ocasião, uma sabotagem na Enterprise provoca um mal-estar diplomático cuja culpa recai sobre Kirk e seu médico, o Doutor McCoy. Spock e os outros devem, portanto, salvar Kirk e McCoy, descobrir o sabotador entre a tripulação e ainda deter uma conspiração para minar o acordo de paz entre os Klingons e a Federação.
Certamente uma despedida digna e com uma cena final emocionante, contudo, apesar da sugestão a frente e atrás das câmeras de que este seria o último filme, não foi bem assim...

Jornada Nas Estrelas-Gerações
Como forma de fazer uma espécie de transição –e nada mais que isso –entre a velha geração (leia-se, Kirk e sua turma) e a nova (o Capitão Jean Luc Piccard e novos personagens que protagonizavam a nova e bem-sucedida série televisiva) foi lançado em 1994, sem maiores alardes este filme transitório dirigido pelo inexpressivo David Carson.
Isso porque, da tripulação original da Enterprise, sobrou pouco mais que o Capitão Kirk –Nimoy, como Spock, e DeForest Kelley, o McCoy, não voltaram por questões de contrato sobrando apenas os intérpretes de Scotty (James Doohan) e Chekov (Walter Koenig) –o que torna este encontro entre personagens distintos como Kirk e Piccard (separados por cerca de 100 anos, o que exige do roteiro uma explicação meio furada de viagem no tempo) um exercício de expectativa desperdiçada.
Em perseguição ao vilão Soran (Malcolm McDowell que, depois de “Laranja Mecânica” e “Calígula” só se encaixa à perfeição nesse tipo de papel), o capitão Piccard e sua tripulação chegam até o misterioso lugar denominado Nexus, uma região feita de energia onde o espaço e o tempo não estão completamente definidos –recurso narrativo que permite assim o encontro entre os dois núcleos tão cronologicamente longínquos de protagonistas.
É lógico, portanto, que a mesma região Nexus irá atrair Kirk e, em determinado ponto, ele e Piccard irão unir forças para enfrentar o vilão.
Mais: A tocha, digamos, de heroísmo da série enquanto cinema será assim passado oficialmente de um para outro. E sobram assim pouquíssimas coisas, neste filmes dos mais irregulares, que de fato peguem de surpresa o expectador: Os lances pretensamente mais importantes de seu roteiro –como a morte de Kirk –são também os mais óbvios.

Jornada Nas Estrelas-Primeiro Contato
Após o pra lá de mediano filme anterior, a equipe da nova geração, devidamente introduzida ganhou um filme para chamar de seu.
E o diretor Jonathan Frakes, um dos membros do elenco, não economizou esforços para fazer deste um trabalho de insuspeita qualidade, recorrendo inclusive ao mesmo artifício que garantiu à série de TV, da qual todos eram oriundos, uma sobrevida que o alavancou para além das comparações com a série original: Os temíveis e vilanescos Borgs, cuja peculiar característica é a da converter todos os organismos vivos em entidades similares a eles mesmos.
Responsáveis por rechaçar um ataque menor desses tenebrosos alienígenas à Terra, o capitão Jean Luc Piccard (Patrick Stewart, o Prof. Xavier de “X-Men”) e sua tripulação à bordo da nave Enterprise, vêem-se na condição de serem os únicos capazes de deter um plano muito maior de dominação da Terra: Os Borgs planejam voltar no tempo, no dia do histórico primeiro contato da raça humana com outras inteligências extra-terrestres, o que incluirá a Terra na Federação Galáctica dos Planetas Unidos, e impedir que isso aconteça, deixando a Terra muito mais suscetível a uma invasão alienígena.
Piccard conduz assim a Enterprise ao passado, a fim de frustrar os planos inimigos, bem como também acertar uma antiga richa que tem com os Borgs.
Embora passe longe do brilhantismo visto, sobretudo, em “A Ira de Khan” e “A Volta Para Casa”, este primeiro longa-metragem inteiramente pertencente à Nova Geração de "Star Trek", foi muito bem sucedido e realizado, viabilizando novos filmes protagonizados por Piccard e sua tripulação.

Jornada Nas Estrelas-Insurreição
O diretor Jonathan Frakes (e que, numa curiosa tradição de “Star Trek” vinha a ser intérprete também de um dos personagens, o oficial William T. Riker) retornar para dirigir este novo filme disposto a mudar uma outra e curiosa ‘tradição’ da série: A de que os filmes de número ímpar (este é o nono) seriam sempre ruins e os de número par são sempre bons.
E este novo filme já traz um enredo que faz referência direta a uma das principais diretrizes da Federação Galáctica, desde os tempos da antiga tripulação: A de que nenhuma tripulação de uma nave da Frota Estelar deve interferir nos rumos de uma cultura ou civilização.
É, portanto, um tremendo impasse com o qual o Capitão Piccard se defronta: Cumprir suas ordens e ignorar a ameaça aos habitantes do planeta Ba’ Ku? Ou seguir sua consciência e ajudá-los, rompendo com a própria Federação Galáctica no processo?

Jornada Nas Estrelas-Nêmesis
Neste que é o décimo longa-metragem de "Jornada Nas Estrelas", a produção lança mão de alguns elementos para se adaptar às novas fórmulas do cinema comercial, como a escalação do diretor de ação Stuart Baird (realizador de “Momento Crítico” e montador de obras como “007-Cassino Royale” e “Máquina Mortífera”), do dramaturgo John Logan como roteirista e (a mais equivocada de todas) uma campanha de marketing na qual “Nêmesis” era vendido ao público sem detalhes mais informativos de que fazia parte de “Star Trek”.
A indiferença generalizada do público nas bilheterias terminou fazendo deste o último filme desse segmento de “Star Trek”.
Em meio às festividades do casamento de William Riker e Deanna Troi (Marina Sirtis), um casal de membros da tripulação da USS Enterprise, o capitão Jean-Luc Piccard recebe uma grande notícia: seu nome foi apontado para servir de porta-voz da Federação durante o aguardado e importantíssimo acordo de paz dos Romulanos.
Os eventos, porém, como rege a cartilha do cinema comercial, não serão tão simples e nem tão tranqüilos. De tocaia nas proximidades do Império Romulano estão inimigos que têm engendrados planos para ameaçar esse acordo. Mais que isso eles têm um às na manga: Um jovem que na realidade é o próprio Piccard clonado! –repare num ainda muito jovem Tom Hardy no papel de clone.
Encerrando de forma um pouco desapercebida e não muito digna essa fase de “Star Trek” nos cinemas, “Nêmesis” foi o último filme realizado tendo por esteio todos os anteriores –partindo do princípio que eles todos se conectavam.
Só em 2009 (portanto, sete anos depois deste filme), “Star Trek” seria reiniciada com todas as letras ganhando uma nova e turbinada versão pelo diretor J.J. Abrahams, enfim atrevendo-se a trazer um novo elenco (e, por que não, uma nova abordagem) para tão icônicos personagens.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Um Século Em 43 Minutos

Das mais inventivas ficções científicas feitas no fim dos anos 1970, este “Um Século em 43 Minutos” é uma rara oportunidade de conferir o ator Malcolm McDowell interpretando um herói (e ele não leva jeito pra coisa, ficando muito melhor em papéis corrosivos e venais como o rebelde submetido à experimentos de “Laranja Mecânica” e o déspota pervertido de “Calígula”), neste caso, o ilustre escritor, cientista e inventor H.G. Wells (!).
A trama é um delírio só, colocando Wells –e uma porção de referências às suas obras –contra ninguém menos que Jack, O Estripador (papel vivido por David Warner).
Tudo começa na Inglaterra vitoriana, obscurecida pelo temor popular provocado pelos crimes perpetrados por Jack, O Estripador, crimes estes que jamais foram solucionados.
A identidade de Jack, por sinal (mistério presente em praticamente todos os filmes feitos a respeito dele), é o que menos preocupa os realizadores: Eles revelam logo de cara quem supostamente ele foi, quando flagramos o personagem John Leslie Stevenson (Warner) indo à uma reunião de aristocratas logo após seu último crime.
A reunião envolve entre outros, H.G. Wells que apresenta aos convidados sua mais nova invenção, um aparelho ainda não testado capaz de viajar no tempo –feita à imagem e semelhança do aparelho visto em “A Máquina do Tempo”, clássico com Rod Taylor, inspirado num livro de Wells.
Quando Jack, o Estripador foge das autoridades usando a invenção, resta somente à Wells seguí-lo e tentar detê-lo. O Estripador fugiu para um século no futuro –que corresponde ao ano de 1979, época do lançamento do filme –e deu continuidade às suas atrocidades na cidade de São Francisco, onde ficou exposta a criação de Wells. Seriam, portanto, os crimes atribuídos ao Zodíaco os mesmos perpetrados por Jack, o Estripador, agora no presente?
A inventividade dessa premissa nem sempre encontra correspondente na condução do diretor Nicholas Meyer (mais conhecido por “Jornada Nas Estrelas-A Ira de Khan” e por “O Dia Seguinte”) que enfatiza aspectos redundantes na relação do perplexo e inquieto Wells com a jovem e graciosa Amy (Mary Steenburgen que, após este filme, foi casada durante um tempo com McDowell) e um drama desnecessário na sua perseguição ao assassino.
Para uma ficção científica escapista e assumidamente comercial sobrou seriedade e faltou descontração.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Sangue de Pantera / A Marca da Pantera

Martin Scorsese dedica uns bons minutos de seu magnífico documentário, “Uma Viagem Pessoal Através do Cinema Americano”, a avaliar o filme “Sangue de Pantera”, de Jacques Tourneur.
Não é à toa: Tourneur e seu trabalho notável, são responsáveis pelo paradigma primordial dos bons e eficazes filmes de terror –o de que a sugestão é infinitamente mais aterrorizante do que o fato.
Em tom de crônica, a narrativa acompanha a imigrante sérvia Irena Dubrovna (Simone Simon, magnífica em sua ameaça e vulnerabilidade) que conhece o americano Oliver Reed (Ken Smith) em um zoológico e dele logo se enamora. O relacionamento leva ao casamento, mas Irena, por razões nebulosas teme em consumar a união com sexo: Ela confidencia ao seu psiquiatra (Tom Conway) que a relação carnal pode detonar um temor que carrega desde sua terra natal, onde as mulheres, por forças maléficas sobrenaturais, pertenciam à uma espécie de “povo felino”, transformando-se em panteras quando confrontadas com emoções extremas.
Entretanto, a própria Irena não conseguirá evitar sensações atrozes como o ciúme ou a raiva quando seu próprio casamento com Oliver, justamente devido à sua evasão, começar a se deteriorar, dando margem para que ele encontre o amor com Alice (Jane Rudolph), sua colega de trabalho.
Durante pelo menos uns oitenta por cento de sua narrativa, todas as facetas mais aflitivas e macabras dessa premissa são meramente sugeridas pela direção elegante de Tourneur, que conduz a trama de forma a passear por outros gêneros salientando os aspectos lúgubres por meio de um jogo magistral de luzes –toda a trajetória de Irena rumo ao âmago sombrio de sua verdadeira natureza é, do início ao fim, envolto em sombras. E elas estão lá, moldando desde o começo as mais diversas silhuetas felinas, sejam em meio à sombras projetadas nas paredes (e às vezes até na própria personagem principal), sejam em ornamentos ou penteados das figurantes (tudo no filme prevê aquilo no qual a protagonista irá se tornar).
A razão para essa genialidade estilística se encontra, em grande medida, na necessidade e não na intenção: Contratado pela RKO depois de um produtivo período como assistente de David O’ Zelsnick, o jovem produtor Val Newton tinha por incumbência realizar uma série de filmes de terror de baixo orçamento (“Sangue de Pantera”, para se ter uma idéia aproveita cenários usados por Orson Welles em “Soberba”, como a suntuosa escadaria circular) para competir com os bem-sucedidos “monstros da Universal” –leia-se o “Drácula”, de Bela Lugosi, o “Frankenstein”, de Boris Karlof, e o “Lobisomen”, de Lon Chaney. A saída foi chamar o promissor jovem diretor Jacques Tourneur e elaborar um filme que se dedicasse a ilustrar em sua maior parte, o tormento íntimo dos personagens, contraponto as expectativas de tensão com cenas calibradas à perfeição em seus enquadramentos de câmera e montagem para que tudo o que não podia ser visto fosse assim preenchido com a imaginação do público: E dessa iniciativa surgiram cenas primorosas como a perseguição no parque (um exercício de suspense que não tardou a virar referência do gênero) ou a cena da piscina (uma das mais memoráveis da produção).
Como ocorre a muitos clássicos antigos, donos de premissas brilhantes, pertinentes e atuais. “Sangue de Pantera” ganhou, em 1982, uma refilmagem.

Talvez, devido à sutileza que impera no filme e no tratamento dado às tintas sexuais, convertendo-as em subtexto, o novo filme, “A Marca da Pantera”, sintomaticamente escancarava a luxúria e a sexualidade da história tornando-se assim praticamente uma fantasia erótica de terror.
Conseqüência disso é a presença de Nastassja Kinski (um dos grandes símbolos sexuais do fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980) como Irena (o sobrenome agora foi mudado para Gallier, e sua etnia e procedência foi deixada nebulosa). No registro de Nastassja –que aqui está tão absurdamente linda quanto em “Os Amores de Maria” –a personagem adquire mais voluptuosidade e ambigüidade fazendo a protagonista Simone Simon, em comparação, soar pudica e até mesmo inocente. A Irena de Nastassja é mais do que apenas uma femme fatale: Ela é, na composição que o filme faz dela, um monstro em gestação.
Tal ambigüidade se estende também ao restante do filme –o roteiro de Alan Ormsby acrescenta novos desvios, como uma trama prólogo em que Irena descobre os segredos sobrenaturais de sua família por meio de seu irmão Paul (Malcolm McDowell, num personagem que não existe no original), com quem parece estabelecer, durante o primeiro terço de filme, uma tensão sexual incestuosa (!).
São possíveis reflexos da permissividade sexual que predominava na cultura pop do período (ainda muito longe do politicamente correto surgir) e muito provavelmente de certa misoginia por parte dos realizadores –em especial o diretor Paul Schrader e o produtor Charles Fries; Na erotização e no fetiche da nudez de suas atrizes (além de Nastassja, que fica nua durante boa parte da segunda metade do filme. a jovem Annette O’ Toole, como Alice também tem um breve momento) é que a refilmagem parece encontrar um apelo de público e algum diferencial em relação ao clássico.
A trama segue similar em vários aspectos, embora haja propriedade nesta refilmagem –muito mais do que nas refilmagens pouco imaginativas de hoje em dia, réplicas pálidas dos filmes originais nos quais se inspiram.
Em Nova Orleans, a bela estrangeira Irena (Nastassja) encontra Paul (McDowell), seu irmão, com quem pouco teve oportunidade de conviver. Aos poucos, enquanto revela a ela sua intenção em possuía-la, Paul também a deixa ciente da maldição que paira sobre sua família: Eles pertencem ao “povo felino”, que só pode relacionar-se sexualmente entre si –se dormir com outro homem, Irena (que é virgem) irá transformar-se numa pantera selvagem (o mesmo ocorre com Paul quando transa com alguma outra mulher), e a única maneira de regressar à forma humana é matando.
Entretanto, Irena conhece e se apaixona por Oliver (John Heard) que, desta vez, é funcionário do zoológico em torno do qual a história se passa, assim como Alice (Annette), que ganha menos expressão neste filme do que no original, embora a personagem preserve suas características e continue sendo protagonista da antológica cena na piscina, talvez, a única cena que aqui é recriada em minúcia.
O final, também ele diferente do desfecho do filme de Tourneur, parece um sinal daqueles novos tempos –soa mais cínico e moralmente displicente: Oliver transa uma última vez com Irena, atendendo seu pedido de deixar que ela vire definitivamente uma pantera. Na cena final, onde descobrimos que Oliver e Alice ficaram juntos, vemos que Irena é agora (com o aval possivelmente silencioso de Oliver, inclusive em relação às mortes que ela praticou) a pantera em exposição na jaula do zoológico.
Em tempo: A música-tema deste filme, cantada por David Bowie, é tocada numa cena de “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino –uma homenagem, já que a personagem da atriz alemã seria inicialmente interpretada por Nastassja Kinski.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Calígula


Uma das mais infames (e lendárias) produções cinematográficas de que se tem notícia, tinha mesmo que ser assinada pelo italiano Tinto Brass, que durante boa parte de sua carreira dedicou-se à criação de um “gênero”, por assim dizer, que harmonizasse o drama de costumes e o pornográfico, com uma aparente e claudicante influência de mestres maiores do cinema italiano como Píer Paolo Passolini e Luchino Visconti.

A história corresponde bastante às pretensões dos produtores, que almejavam um trabalho de tintas épicas e hollywoodianas: Em meio ao auge do Império Romano, o jovem Calígula (Malcow MacDowell, recém-saído de "Laranja Mecânica") aguarda seu momento de subir ao trono por sucessão. Entretanto, guiado pelos estratagemas da irmã Drusilla (Teresa Ann Savoy), com quem mantém uma relação incestuosa, ele termina por afundar Roma em intermináveis orgias e perversões.

Embora sejam perceptíveis no filme, as intenções de se fazer uma superprodução –como o elenco que reúne estrelas como MacDowell, Peter O Toole, John Gielgud e Helen Mirren (que chega a aparecer nua!) –o grande diferencial que destacou “Calígula” das produções dos anos 1970 (e que justifica talvez sua lembrança hoje, quase quatro décadas depois de sua realização), é a conturbada história de seus bastidores, que levou à mudança de abordagem do filme como um todo: Reza a lenda que Tinto Brass planejava um filme suntuoso e elegante, na medida do possível que o já decadente cinema italiano do período poderia arcar, visando, quem sabe, uma repercussão que elevasse seu nome ao dos grandes autores importados para trabalhar nos EUA, o quê, sabemos, acabou não acontecendo.
Temendo bancar as contas de um filme que corria o risco de tornar-se um projeto caro e megalomaníaco, o produtor Bob Guccione interferiu, transformando o filme na única espécie de produto vendável –sendo ele o criador da revista Penthouse! –que ele conhecia.
A montagem paralela que envolvia o elenco famoso (que já era, ela própria, bastante abundante no erotismo), recebeu assim inserções de cenas de sexo explícito, que o aproximaram muito de um filme pornográfico de fato. Tornando “Calígula” o filme que ele é até hoje: Uma produção picotada, onde suas duas diferentes facetas –o filme pornô e o filme de época no qual se acha o elenco famoso –quando muito só se harmonizam devido à pouca habilidade do diretor Tinto Brass cuja encenação visual, provavelmente de maneira involuntária, se aproxima mesmo da (pouca) elaboração cênica de um filme erótico.
Ainda que, eu admito, existam filmes eróticos muito mais bem produzidos do que aqueles realizados por Tinto Brass...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Laranja Mecânica

Quando afirmamos que tanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”, quanto “Laranja Mecânica” são obras de ficção científica dirigidas por Stanley Kubrick, o comentário pressupõe que são filmes parecidos.
Mas, na realidade, eles não poderiam ser mais diferentes.
Enquanto “2001” é um objeto de contemplação para com a reflexão imponderável da jornada humana no universo, “Laranja...” se coloca numa postura muito mais mundana, abrindo margem para Kubrick lançar seu olhar acurado e antropológico sobre as raízes da maldade perene em todos nós.
Alex DeLarge (ou mais precisamente Malcolm McDowell, o ator que o interpreta) é o próprio modelo de fetiche para a observação de Kubrick, e o ar de desafio, de cinismo e deboche, impregnado o tempo todo em seu rosto explica o porque dele ser a escolha perfeita para o papel.
Alex é um adolescente inglês, líder de uma gangue que, num futuro próximo, passa seus dias num comportamento amoral: Estupram, brigam e fazem o quê querem e quando querem. O registro de tais seqüências, movido por Kubrick na primeira parte do filme, é a um só tempo estarrecedor e hipnótico, na beleza perversa com que emoldura as imagens de tais atos e permite que essa sensação de ultraje alcance o expectador.
A segunda parte do filme leva Alex, depois de traído por seus companheiros e capturado pela polícia, à um inferno penitenciário, no qual ele será voluntário para uma experiência comportamental como forma de escapar do enfadonho sistema carcerário. É aí, contudo, que residirá o seu tormento: Alex é submetido à uma lavagem cerebral que lhe inibe os instintos agressivos, tornando-o se não um indivíduo passivo, ao menos, alguém cuja reação violenta à qualquer coisa se vê bloqueada.
Essa parte do filme mostra Kubrick acompanhando Alex, como numa espécie de julgamento moral, onde irá se deparar com suas vítimas da primeira parte, e em grande medida, será vitimizado por elas.
A cereja no topo do bolo do diretor Stanley Kubrick (e do autor Anthony Burgess) é o fato de Alex, ao fim, cair nas graças de políticos interesseiros, e a circunstância de poder que surge então é de tal forma favorável para ele que as inibições da lavagem cerebral não oferecem qualquer obstáculo para suas perversidades.


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Evilenko

   Rússia. Fim da década de 1970. Comunista convulsivo, o medíocre professor Andrzej Evilenko (Malcolm McDowell), por volta de seus quarenta e poucos anos, resolve dar vazão a um ímpeto psicopata que sempre guardou dentro de si, quando é demitido e obtêm o serviço de gerente de suprimentos numa fábrica, o quê lhe permite viajar, de estação em estação, passando por diferentes cidades.
   Ele passa a assediar e atacar crianças e adolescentes fazendo uma trilha de corpos que logo chega à casa das dezenas, e se estenderá ao longo de toda a vindoura década de 1980.
A atividade desse serial killer acirra os ânimos do serviço de polícia russo que contrata os serviços de um investigador partidário da KGB (Marton Csokas).
   Baseado no caso real de Andrei Chikatilo, assassino em série conhecido como “Açougueiro de Rostov”, este filme dirigido por David Grieco peca pela banalização dos eventos reais, revestindo-os com uma aura redundante de fábula (ressaltada na climática trilha sonora de Angelo Badalamenti, colaborador de David Lynch), o quê não se encaixa com sua proposta e ainda soa moralmente equivocado.
   No papel titulo, Malcolm McDowell (cuja referência suprema da carreira é e sempre será “Laranja Mecânica”, de Kubrick, ainda que alguns lembrem dele pelo famigerado “Calígula”) se perde em trejeitos que ele cultivou ao longo de toda carreira, povoada por vilões, em sua maioria rasos e superficiais, embora haja certo vestígio de mérito na sua tentativa de humanização desse monstro, sublinhando suas pulsões mesquinhas e covardes.
   No lado oposto, Marton Csokas está distante de qualquer empatia em seu registro estóico de homem da lei. Seu personagem é muito mais um arquétipo do que um ser humano propriamente dito, o que se torna bastante claro em inúmeras cenas, sobretudo na seqüência elíptica, bizarra e involuntariamente cômica do interrogatório de Evilenko, onde ele tenta extrair dele uma confissão e na qual os dois terminam nus (!).
  Um filme desses pedia por um realizador austero e convicto da visão que tem sobre o terrível personagem retratado, do contrário o resultado acaba sendo pedante e falho.