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sexta-feira, 3 de julho de 2020

A Vingança dos Nerds

Vulgar, debochada e com frequência deliberadamente patética, a comédia “A Vingança dos Nerds” foi muito marcante para os jovens que cresceram assistindo aos besteiróis dos anos 1980; herança de um esforço criativo em tentar superar o escracho de comédias icônicas da década anterior –como o genial “Clube dos Cafajestes” –o filme, de 1984, dirigido por Jeff Kanew (que, um ano depois, realizou outro clássico oitentista da ‘sessão da tarde’, “Gotcha-Uma Arma do Barulho”, também com Anthony Edwards) não economiza no machismo, no estereótipo para além do tolerável e do ofensivo –e nesse balaio entram tanto os mocinhos apatetados quanto os vilões caricatos –no sexismo e no retrato politicamente incorreto do bullying –sempre usado para efeitos cômicos.
Em seu primeiro dia rumo ao campus universitário, os grandes amigos Gilbert (Anthony Edwards) e Lewis (Robert Carradine) mal são capazes de conter sua empolgação: Eles creem que o início de sua vida universitária será um caminho glorioso para o sucesso e a realização.
Ledo engano: Ao lá chegarem, eles são taxados, como tantos outros excluídos, como os nerds do lugar que, para nos ater aos personagens realmente relevantes à trama são: O porcalhão Booger (Curtis Armstrong), o ingênuo e oriental Takashi (Brian Tochi), o efeminado Lamar (Larry B. Scott), o pra lá de estranho Arn Poindexter (Timothy Busfield) e o garoto prodígio de 12 anos (!) Wormser (Andrew Cassese) –e, se você é jovem demais para saber, nos anos 1980, os nerds não eram aceitos, sobretudo, no âmbito estudantil, e sofriam desprezo e discriminação.
É lógico que o filme de Jeff Kanew, em seu humor de porta de banheiro, leva essa perseguição à um outro nível de absurdo.
Graças a uma brincadeira tremendamente imprudente (incendiando cortinas ao brincar de cuspir fogo!), os esportistas valentões da fraternidade Alpha Beta têm sua casa destruída pelo fogo. Sem terem onde dormir, o passivo diretor da universidade acata a inadmissível sugestão do treinador igualmente valentão dos Alpha Beta (interpretado por um ainda jovem John Goodman): Expulsar os nerds do dormitórios onde vivem.
Dessa forma, serão Lewis, Gilbert e sua turma quem terão de arcar com a perda de sua morada e dormir em leitos provisórios montados no ginásio local.
Os nerds, no entanto, correm atrás do prejuízo. Eles encontram uma casa no campus onde podem enfim ter um lar para morar; não têm, porém, sossego: O bullying dos Alpha Beta continua. Como o conselho estudantil é dominado por eles e pelas patricinhas Irmãs Pi, tentar denunciá-los é inútil, a menos que eles se tornem uma fraternidade também.
A única casa que os aceita é a segregada –por antiquadas questões raciais –Lambda Lambda Lambda e, para causar boa impressão, os nerds tratam de promover uma festa e, depois, provar valentia dando o troco às Irmãs Pi –colocando câmeras em seus dormitórios e roubando suas calcinhas, o que dá a deixa para as inevitáveis (e extasiantes) cenas de nudez –e aos Alpha Beta –sabotando seus calções de treinamento com produtos urticantes!
Contudo, a desforra definitiva dos nerds injustiçados será no Campeonato de Homecoming, o qual, se eles ganharem, terão a oportunidade de presidir o conselho no ano seguinte.
Quanto mais o tempo passa –e quanto mais as transformações culturais moldam os valores e os comportamentos de nossa sociedade –mais curioso se torna assistir, nos dias de hoje, filmes feitos décadas atrás, como este daqui; “A Vingança dos Nerds” é capaz de surpreender alguns expectadores mais jovens e desavisados com o tratamento despojado que dedica à dinâmica do sofrimento estudantil adolescente, aqui visto com galhofa, sarcasmo e sem um pingo de seriedade, nem mesmo por aqueles que eram vitimados –mais do que trazer predicados artísticos e técnicos (os quais deixam algumas vezes a desejar), o filme de Jeff Kanew é um perfeito exemplar daquela leveza escatológica que permeava os valores daquela época (e por isso, talvez, tenha se tornado para muitos o pseudo-clássico saudosista que é) onde nenhum drama, mal-trato ou prejuízo era demais inapropriado para ocupar o tema de uma boa piada.
E, se com esse enredo, “A Vingança dos Nerds” ainda termina num apoteótico desfecho ao som de “We Are The Champions”, tanto melhor!

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Babe - O Porquinho Atrapalhado Na Cidade

Lançado em 1996,  filme “Babe-O Porquinho Atrapalhado” surpreendeu o mundo conquistando público a crítica, e ainda fazendo uma bela campanha –algo raro para uma produção infantil –no Oscar daquele ano.
A consequência bastante natural aos olhos do cinema comercial é, portanto, a pronta realização de uma continuação e, em 1998, aportava o segundo filme estrelado pelo porquinho com pretensões de ser cão pastor, desta vez, dirigido não por Chris Noonan (que havia sido até indicado ao Oscar de Melhor Diretor), mas pelo próprio produtor George Miller, famoso pela realização da Trilogia –agora Quadrilogia –“Mad Max”.
Não obstante essa troca de diretores, pouca diferença em termos narrativos ou estilísticos se percebe neste novo filme –na verdade, não se percebe diferença nenhuma!
E isso é, deveras, algo bom: Tão natural e espontânea é a transição do final do primeiro filme para o começo deste segundo que a fluidez da narrativa já envolve de imediato o expectador.
Ainda saboreando a espetacular vitória (e fama súbita) conquistada no Torneio de Cães Pastores, o pequeno porquinho Babe e seu dono, o fazendeiro Arthur Hoggett (James Cromwell) são pegos de surpresa por um imprevisto: Um acidente durante um trabalho na fazenda que impossibilita-o de fazer as viagens de apresentação previstas no contrato do torneio.
Com a hipoteca da fazenda quase chegando ao vermelho, é a própria Sra, Hoggett (Magda Szubanski) quem tem de se prontificar para levar o porquinho aos compromissos determinados, e garantir a remuneração que pode salvar a fazenda.
George Miller, contudo, não polpa os contratempos que se abatem sobre seus protagonistas instaurando sutilmente um caos que míngua todas as prioridades: Os compromissos devem ser honrados –pois, não demora Babe e Sra. Hoggett terem complicações que os detêm ali mesmo no aeroporto.
Nem ela, nem Babe (ambos habituados à vida pacata na fazenda) desejam se aventurar demais pela cidade grande –pois, sem voos para ir ao local marcado, nem para voltar para casa, ambos terão de se virar nas dependências de um hotel muito questionável do subúrbio (o único que aceita inquilinos com animais).
A única instrução do fazendeiro Hoggett à sua esposa foi “Tome conta do porquinho!” –pois é exatamente de Babe que as circunstâncias levarão a aflita Sra. Hoggett a se perder: Primeiro, porque Babe encontra um grupo de chimpanzés cheios de segundas intenções (que trabalham para uma espécie de palhaço-ilusionista vivido pelo veterano Mickey Rooney), e depois embarca em uma jornada tortuosa que o leva a tentar proteger todo um grupo de animais desamparados; gatos, cachorros, os ratinhos cantores do filme original, o pato Ferdy (que retorna para auxiliar o seu “porco da sorte”) e os próprios chimpanzés, todos eles sofrendo o descaso reservado aos animais perdidos de uma cidade grande.
Imbuído de uma contundência admirável na condução da trama, o diretor Miller não se furta de oferecer momentos intensos, tensos e extenuantes que reforçam ainda mais as implicações morais deste segundo filme na comparação com a simplicidade lúdica do primeiro, razões que (aos olhos da crítica) podem ter servido para esta continuação não ter a mesma repercussão tão largamente positiva do original.
Não importa: “Babe-O Porquinho Atrapalhado Na Cidade” é tão genial quanto seu filme antecessor e, como sequência, acrescenta com louvor novas camadas de aventura e significado à brilhante execução técnica repetida aqui.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Jurassic World - Reino Ameaçado


Realizador dos magistrais –e eficazes em amedrontar o expectador –“O Orfanato” e “O Impossível”, dava para presumir o tipo de filme que sairia nesta primeira continuação da reinvenção de “Jurassic Park” promovida por Colin Trevorrow quando foi anunciado como diretor o espanhol J.A. Bayona.
Este segundo “Jurassic World” potencializa assim todo o suspense e a tensão presentes nas mesmas cenas que anteriormente nos outros filmes ganhavam tratamento de aventura escapista. Aqui, porém, Bayona não desperdiça um único instante para gerar sobressaltos imprevistos por meio dos quais os dinossauros representam perigo de verdade –inclusive, porque agora, no critério com que são empregados os efeitos digitais, a encenação permite que os efeitos práticos –e infinitamente mais palpáveis e verossímeis –predominem.
A sensação, por vezes, é de que os dinossauros estão bem ali; se não próximos de nós, ao menos, realmente próximos dos atores.
Passaram-se três anos desde que o então bem-sucedido parque se converteu numa zona de guerra e de matança graças ao descontrole do Indominus Rex. O que antes era o Jurassic World agora está abandonado e livre da intervenção humana. Os dinossauros assumiriam o controle do lugar.
Pessoas como o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum),presente em “Jurassic Park” e “O Mundo Perdido” em brevíssima aparição, alegam que os dinossauros devem ser lá deixados e que a natureza siga seu curso, seja mantendo-os livres, seja condenado-os a uma nova extinção, contudo, a empresa por trás do procedimento de clonagem que os trouxeram de volta não pretendem fazer isso: Há intenções tanto altruístas (de grupos querendo preservar os animais) como corporativistas de olho nos dinossauros.
Tudo se acirra quando um vulcão localizado na ilha entra em atividade: O lar dos dinossauros está com os dias contados e se nada for feito, eles serão extintos mais uma vez.
Disposta a salvar as criaturas, Claire Dearing (Bryce Dallas Howard, mais serena e agradável que no filme anterior) organiza um grupo que regressa para lá –entre eles, Owen (Chris Pratt), seu ex-namorado que tem interesses quase pessoais: Ele quer encontrar Blue, a dinossauro que ele mesmo criou e que é a última espécime viva de velociraptor; e os novos personagens do filme, a jovem bióloga Zia (a carismática Daniella Pineda), o medroso Webb (Justice Smith, divertido em sua covardia) e o truculento vilão de ocasião vivido por Ted Levine (que foi o psicopata Buffalo Bill em “O Silênciodos Inocentes”).
Como se tornou quase um reflexo filosófico da série, em dado momento, os capitães da indústria que arcam com as operações sempre revelam seus objetivos escusos, que sempre visam a indiferença aos perigos da tecnologia, a corrupção absoluta do dinheiro e a tentação arrogante de usar o poder (no caso, a genética que permite brincar com a natureza) ao seu bel-prazer –e tal personagem, aqui ganha o rosto de Rafe Spall (de “AsAventuras de Pi”), que deseja fazer um leilão multimilionário com os espécimes resgatados da ilha.
São as maquinações desse personagem que promovem assim a grande reviravolta de ambientação da trama: Da eletrizante sequência na ilha em colapso vulcânico (a qual Bayona vale-se de sua desenvoltura com diferenciados gêneros para criar um filme infinitamente melhor que o de Colin Trevorrow, seu antecessor), somos arrebatados, juntos com os protagonistas para uma mansão isolada, onde Bayona explora ainda mais a inclinação que a série sempre teve –desde o primeiro filme de Spielberg –para o terror, mas nunca antes havia sido tão vislumbrada assim.
Ao mesmo tempo que ele oferece esse novo caminho (o de um gênero, e quem sabe até outros, ainda não explorado), ele brinca de refazer pegadas que já foram dadas –à princípio, sua manobra parece lembrar a mesma que Spielberg usou em “Mundo Perdido”, de trazer os dinossauros para o mundo civilizado; mas, isso logo se revela uma distração: Bayona, a partir da metade de seu filme, trás sim, seus personagens, seu perigos e sua premissa para o contexto do mundo sem o isolamento de uma ilha, mas não é para repetir o que outros fizeram; de novo, ele está sendo fiel à si mesmo –e toda a sorte de dinossauros apavorantes que sua narrativa pode materializar estão assim inseridos num contexto quase de casa mal-assombrada.
Essa é a forte impressão na cena mais emblemática deste filme: Quando a menina Isabella Sermon, se esconde em suas cobertas, não do monstro imaginário que toda criança teme, mas do assustador dinossauro que (como o Indominus na produção anterior) representa o grande antagonista da obra.
O filme de Bayona trás novas camadas à série e leva à um final corajoso e radical que pode mudar drasticamente as característicos do vindouro terceiro.
Ao menos, uma coisa ao que tudo indica ficou bem clara: Esta nova trilogia parece ser assim a história dos laços afetivos entre Owen e Blue.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Jornada Nas Estrelas - A Saga

Jornada Nas Estrelas-O Filme
Com o sucesso esmagador do primeiro “Star Wars”, na década de 1970, não tardou para que cada um dos estúdios de Hollywood procurassem por sua própria saga espacial. Possivelmente a única franquia com pedigree nesses termos era “Jornada Nas Estrelas” –ou “Star Trek” –dos estúdios da Paramount, que tratou de abortar os planos da uma nova temporada para a série e expandiu o escopo e a ambição para fazer o primeiro longa-metragem para cinema adaptado da cultuada obra televisiva criada por Gene Rodenberry.
Para dirigi-lo, um suposto especialista no assunto, o veterano Robert Wise, co-diretor (e ganhador do Oscar) de “Amor, Sublime, Amor”, e realizador da clássica ficção “O Dia Em Que A Terra Parou” –certamente o crédito que o gabaritou para este trabalho.
Sua trama, bastante esquemática, sofre as pressões do sistema de produção comercial de então e da tentativa em tatear em cinema uma linguagem que antes pertencia à telinha: A nave interplanetária USS Enterprise, totalmente reformada e de volta à atividade com sua tripulação original comandada pelo almirante Kirk (William Shatner), é atraída em pleno espaço por força maligna que ameaça a Terra.
Faltou, neste primeiro filme, aos produtores a sensatez de entender que Robert Wise, por mais inspirador que tivesse sido em seus filmes anteriores, não pertencia às novas gerações de cineastas capazes de urgir conceitos e narrativas que falassem a essa nova geração de expectadores –às quais George Lucas e sua saga se conectaram com primor.

Jornada Nas Estrelas-A Ira de Khan
Ainda assim, esse novo esforço em verter “Star Trek” para os cinemas interessou o público e sensibilizou a crítica o suficiente para que um segundo filme fosse planejado e, desta vez, aos trancos e barrancos, os produtores estavam dispostos a resgatar, na tela grande, os valores que faziam da marca um fenômeno na TV e, especialmente, conceber a partir daqui, um esqueleto narrativo que não se restringisse a um filme só, sinalizando uma ampla saga estendida por vários outros filmes.
Daí o grande vilão deste segundo filme ser oriundo direto do seriado e um dos prediletos dos fãs: O inimigo jurado da Federação Galáctica, até então exilado num planeta arenoso, Khan, vivido com fulgor canhestro por Ricardo Montalban.
Passado alguns anos de seu exílio, Khan planeja um golpe brutal contra seus inimigos, sobretudo o Almirante James T. Kirk, comandante da nave Enterprise, e seu grande adversário do passado.
É neste segundo filme para cinema que se inicia uma espécie de reformulação capitaneada pelo diretor Nicholas Meyer: A de militarizar muitos dos conceitos até então pacifistas da série televisiva imaginada por Gene Rodenberry, obtendo um resultado bem superior ao filme anterior.

Jornada Nas Estrelas-À Procura de Spock
Embora houvessem declarações esporádicas inclusive do próprio Leonard Nimoy, o honorável intérprete do Dr. Spock, de que cada filme de “Star Trek” deveria ter sido o último, são inegáveis os elementos de “A Ira de Khan” que funcionam como ganchos narrativos que levam diretamente a este terceiro filme: A trágica morte do Senhor Spock. O misterioso procedimento que ele fez, pouco antes de morrer, em McCoy (DeForest Kelley) e a pouco explorada questão do planeta artificial Gênesis.
Assumindo o posto de direção deixado vago por Nicholas Meyer, o ator Leonard Nimoy conduz este trabalho com alguma cautela excessiva, mas com admirável noção de ritmo e de desempenho.
Após a perda de Spock no fim do filme anterior, a tripulação da nave Enterprise parece ligeiramente fora de rumo.
Entretanto, talvez haja uma esperança muito remota e arriscada para, de alguma forma, reaver Spock. Antes de sacrificar-se ele deixou sua consciência e suas memórias na mente do Doutor "Magro" McCoy, que desde então parece ter perdido uns parafusos. Agora, clandestinamente e sem o aval da Federação, Kirk e os outros precisam confiscar uma nave e rumar para o misterioso planeta Gênesis, onde aparentemente se encontram as respostas para o retorno de Spock.

Jornada Nas Estrelas-A Volta Para Casa
Continuando basicamente do ponto de interseção em que “À Procura de Spock” acabou (com a tripulação lidera por Kirk desobedecendo ordens oficiais numa condição de renegados), e retomando a função como diretor –desta vez, visivelmente mais a vontade ao lidar com o material –Leonard Nimoy realizou um entretenimento divertido, ágil e saboroso, dominando prodigiosamente a fórmula dos filmes da série e entregando uma mescla equilibrada de aventura, ação e humor.
É, com méritos, um dos filmes de "Jornada Nas Estrelas" mais festejado pelos fãs.
Sem saber como seus membros serão recebidos, a outrora tripulação da USS Enterprise, liderada pelo ex-almirante Kirk, retorna para a Terra a bordo de uma nave Klingon –pilotada pelos vilões derrotados no filme anterior.
Contudo, a Terra enfrenta complicações: Uma raça alienígena sitiou nosso planeta ameaçando bombardeá-lo caso não recebam uma resposta. O idioma dos alienígenas, porém, lembra a comunicação feita por baleias que a muito já estão extintas.
Sendo assim, cabe a Kirk e sua tripulação voltar no tempo, no presente (que, para todos os efeitos era a década de 1980), para encontrar as tais baleias, e levá-las ao futuro, onde poderão fazer o papel de "diplomatas da Terra".

Jornada Nas Estrelas-A Última Fronteira
O enredo iniciado em “A Ira de Khan” havia sido maravilhosamente aproveitado e ramificado nos últimos três (e ótimos) filmes da saga.
Embora não houvesse material previsto para dar continuidade, o sucesso de bilheteria e o carinho dos fãs levaram o estúdio a logo encaminhar um quinto filme, desta vez, a estréia na direção de William Shatner, o próprio capitão Kirk.
Uma pena que, ao contrário de Leonard Nimoy, Shatner não possuía maiores noções de espetáculo, ou mesmo de plausibilidade e coerência –todos são elementos essenciais que faltam à narrativa deste filme frouxo, equivocado e banal.
A bordo da USS Enterprise, o capitão Kirk e sua tripulação deparam-se com um grupo dissidente de vulcanos (a mesma raça do Senhor Spock) que não só reclamam para si o direito sobre a plenitude das emoções como querem também partir para o que seria o centro do universo, e lá encontrar Deus.
Dono da ingrata tarefa de suceder uma das mais aclamadas produções de toda a saga (porém, ineficaz e falho mesmo destituído desse fator), este novo episódio foi tido como o mais fraco dos filmes da série.

Jornada Nas Estrelas-A Terra Desconhecida
Já no início da década de 1990 –e com seu elenco cada vez mais envelhecido –o diretor de “A Ira de Khan”, Nicholas Meyer, voltou para fazer uma espécie de despedida da saga e dos seus personagens.
Uma cataclisma ameaça seriamente de extinção a raça dos Klingons –um evento histórico para o cânone da saga (cortesia do roteiro escrito pelo próprio Leonard Nimoy) que começava a conectar esta versão com acontecimentos presentes na série “Jornada Nas Estrelas-A Nova Geração”, que fez sucesso na TV nos anos 1980 e 90.
Outrora inimigos da Federação dos Planetas Unidos, a raça de guerreiros rudes agora deve se submeter às regras diplomáticas da Federação Galáctica para sobreviver uma vez que seu planeta fora destruído. Um dos oficiais requisitados para mediar o histórico encontro é o capitão James Kirk, que já tivera muitos atritos com os Klingons no passado, e se encontra a beira da aposentadoria.
No entanto, durante a ocasião, uma sabotagem na Enterprise provoca um mal-estar diplomático cuja culpa recai sobre Kirk e seu médico, o Doutor McCoy. Spock e os outros devem, portanto, salvar Kirk e McCoy, descobrir o sabotador entre a tripulação e ainda deter uma conspiração para minar o acordo de paz entre os Klingons e a Federação.
Certamente uma despedida digna e com uma cena final emocionante, contudo, apesar da sugestão a frente e atrás das câmeras de que este seria o último filme, não foi bem assim...

Jornada Nas Estrelas-Gerações
Como forma de fazer uma espécie de transição –e nada mais que isso –entre a velha geração (leia-se, Kirk e sua turma) e a nova (o Capitão Jean Luc Piccard e novos personagens que protagonizavam a nova e bem-sucedida série televisiva) foi lançado em 1994, sem maiores alardes este filme transitório dirigido pelo inexpressivo David Carson.
Isso porque, da tripulação original da Enterprise, sobrou pouco mais que o Capitão Kirk –Nimoy, como Spock, e DeForest Kelley, o McCoy, não voltaram por questões de contrato sobrando apenas os intérpretes de Scotty (James Doohan) e Chekov (Walter Koenig) –o que torna este encontro entre personagens distintos como Kirk e Piccard (separados por cerca de 100 anos, o que exige do roteiro uma explicação meio furada de viagem no tempo) um exercício de expectativa desperdiçada.
Em perseguição ao vilão Soran (Malcolm McDowell que, depois de “Laranja Mecânica” e “Calígula” só se encaixa à perfeição nesse tipo de papel), o capitão Piccard e sua tripulação chegam até o misterioso lugar denominado Nexus, uma região feita de energia onde o espaço e o tempo não estão completamente definidos –recurso narrativo que permite assim o encontro entre os dois núcleos tão cronologicamente longínquos de protagonistas.
É lógico, portanto, que a mesma região Nexus irá atrair Kirk e, em determinado ponto, ele e Piccard irão unir forças para enfrentar o vilão.
Mais: A tocha, digamos, de heroísmo da série enquanto cinema será assim passado oficialmente de um para outro. E sobram assim pouquíssimas coisas, neste filmes dos mais irregulares, que de fato peguem de surpresa o expectador: Os lances pretensamente mais importantes de seu roteiro –como a morte de Kirk –são também os mais óbvios.

Jornada Nas Estrelas-Primeiro Contato
Após o pra lá de mediano filme anterior, a equipe da nova geração, devidamente introduzida ganhou um filme para chamar de seu.
E o diretor Jonathan Frakes, um dos membros do elenco, não economizou esforços para fazer deste um trabalho de insuspeita qualidade, recorrendo inclusive ao mesmo artifício que garantiu à série de TV, da qual todos eram oriundos, uma sobrevida que o alavancou para além das comparações com a série original: Os temíveis e vilanescos Borgs, cuja peculiar característica é a da converter todos os organismos vivos em entidades similares a eles mesmos.
Responsáveis por rechaçar um ataque menor desses tenebrosos alienígenas à Terra, o capitão Jean Luc Piccard (Patrick Stewart, o Prof. Xavier de “X-Men”) e sua tripulação à bordo da nave Enterprise, vêem-se na condição de serem os únicos capazes de deter um plano muito maior de dominação da Terra: Os Borgs planejam voltar no tempo, no dia do histórico primeiro contato da raça humana com outras inteligências extra-terrestres, o que incluirá a Terra na Federação Galáctica dos Planetas Unidos, e impedir que isso aconteça, deixando a Terra muito mais suscetível a uma invasão alienígena.
Piccard conduz assim a Enterprise ao passado, a fim de frustrar os planos inimigos, bem como também acertar uma antiga richa que tem com os Borgs.
Embora passe longe do brilhantismo visto, sobretudo, em “A Ira de Khan” e “A Volta Para Casa”, este primeiro longa-metragem inteiramente pertencente à Nova Geração de "Star Trek", foi muito bem sucedido e realizado, viabilizando novos filmes protagonizados por Piccard e sua tripulação.

Jornada Nas Estrelas-Insurreição
O diretor Jonathan Frakes (e que, numa curiosa tradição de “Star Trek” vinha a ser intérprete também de um dos personagens, o oficial William T. Riker) retornar para dirigir este novo filme disposto a mudar uma outra e curiosa ‘tradição’ da série: A de que os filmes de número ímpar (este é o nono) seriam sempre ruins e os de número par são sempre bons.
E este novo filme já traz um enredo que faz referência direta a uma das principais diretrizes da Federação Galáctica, desde os tempos da antiga tripulação: A de que nenhuma tripulação de uma nave da Frota Estelar deve interferir nos rumos de uma cultura ou civilização.
É, portanto, um tremendo impasse com o qual o Capitão Piccard se defronta: Cumprir suas ordens e ignorar a ameaça aos habitantes do planeta Ba’ Ku? Ou seguir sua consciência e ajudá-los, rompendo com a própria Federação Galáctica no processo?

Jornada Nas Estrelas-Nêmesis
Neste que é o décimo longa-metragem de "Jornada Nas Estrelas", a produção lança mão de alguns elementos para se adaptar às novas fórmulas do cinema comercial, como a escalação do diretor de ação Stuart Baird (realizador de “Momento Crítico” e montador de obras como “007-Cassino Royale” e “Máquina Mortífera”), do dramaturgo John Logan como roteirista e (a mais equivocada de todas) uma campanha de marketing na qual “Nêmesis” era vendido ao público sem detalhes mais informativos de que fazia parte de “Star Trek”.
A indiferença generalizada do público nas bilheterias terminou fazendo deste o último filme desse segmento de “Star Trek”.
Em meio às festividades do casamento de William Riker e Deanna Troi (Marina Sirtis), um casal de membros da tripulação da USS Enterprise, o capitão Jean-Luc Piccard recebe uma grande notícia: seu nome foi apontado para servir de porta-voz da Federação durante o aguardado e importantíssimo acordo de paz dos Romulanos.
Os eventos, porém, como rege a cartilha do cinema comercial, não serão tão simples e nem tão tranqüilos. De tocaia nas proximidades do Império Romulano estão inimigos que têm engendrados planos para ameaçar esse acordo. Mais que isso eles têm um às na manga: Um jovem que na realidade é o próprio Piccard clonado! –repare num ainda muito jovem Tom Hardy no papel de clone.
Encerrando de forma um pouco desapercebida e não muito digna essa fase de “Star Trek” nos cinemas, “Nêmesis” foi o último filme realizado tendo por esteio todos os anteriores –partindo do princípio que eles todos se conectavam.
Só em 2009 (portanto, sete anos depois deste filme), “Star Trek” seria reiniciada com todas as letras ganhando uma nova e turbinada versão pelo diretor J.J. Abrahams, enfim atrevendo-se a trazer um novo elenco (e, por que não, uma nova abordagem) para tão icônicos personagens.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Babe - O Porquinho Atrapalhado

Havia pelo menos umas duas décadas que o cinema australiano pedia por algum reconhecimento: Se o florescer de um peculiar cinema na Austrália tinha fornecido uma sucessão quase interminável de filmes com um estranho apelo excessivo, malicioso e popularesco (os chamados Ozploitation), de lá havia vindo também obras como “Mad Max”, e realizadores do quilate de Peter Weir, Bruce Beresford e o próprio George Miller.
É ele quem vem a responder como produtor, deste “Babe-O Porquinho Atrapalhado”, um filme infantil –com direito a animais falantes e tudo, o quê seu sucesso transformou numa tendência em Hollywood –que fez o que muitas obras contundentes e respeitáveis da Austrália não conseguiram: Amealhar diversas indicações ao Oscar!
A razão para isso era simples; “Babe” era realizado com um brilhantismo e uma excelência incontestáveis.
Babe é o nome pelo qual atende o porquinho protagonista deste filme. No início, ele é levado à fazenda do taciturno Hodge (James Cromwell, num riquíssimo trabalho) onde se depara com um sistema vigente aparentemente imutável: Os animais possuíam funções e utilidades bem específicas que determinavam suas vidas, independente de propensões, aptidões ou sonhos.
“As coisas são o que são” é o que lhe dizem quase sempre como justificativa.
Contudo, a exemplo do hilário pato Fernando (que quer porque quer substituir o galo da fazenda, e depois o próprio relógio, como ‘despertador oficial’), Babe deseja mais do que simplesmente comer e engordar –aparentemente a única função dos porcos –ele quer ser um cão pastor!
Não lhe faltam lá seus aliados, como Flash (a cadela que o adota depois de perder todos os seus filhotes) ou a generosa ovelha Mac, que o ensina que o rebanho não lhe ouvirá se for hostil e agressivo como os cães, mas sim se for gentil e educado.
É assim, por meios inusitados, que Babe vai conquistando um lugar entre os animais da fazenda e provando que os rótulos são prisões impostas pela convenção. E tão notável se mostra a iniciativa do pequeno porquinho que o próprio fazendeiro Hodge começa lá a nutrir seus sonhos de sagrar-se campeão num torneio de cães pastores –porém, levando não seus cães, mas o habilidoso porquinho para disputá-lo!
Dirigido pelo nada famoso Chris Noonan com um primor todo especial, “Babe-O Porquinho Atrapalhado” é tão eficaz em sua capacidade de encantar adultos e crianças que sua narrativa equilibrada e enxuta deixa passar completamente despercebido o verdadeiro inferno que foi sua realização. Anos antes da predominância absoluta dos efeitos de computadores nas cenas, “Babe” contava com um batalhão de animais verdadeiros diante das câmeras, e todos eles tinham seus instrutores, suas próprias forma de serem adestrados (assobios para os cães, campainhas para os patos, sinos para as ovelhas, apitos para os porcos) e suas manhas particulares. Orquestrar a pré-produção, as filmagens e a pós-produção de um filme assim deve ter sido um calvário –e tão mais admirável ele é pelo filme maravilhoso que desse esforço resultou.
Não à toa, em 1996, “Babe” arrebatou merecidamente o Oscar de Melhores Efeitos Visuais.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

À Espera de Um Milagre

O fato de ter entregado, já em seu primeiro filme, uma das grandes obras do cinema com “Um Sonho de Liberdade” foi, de certa maneira, um fantasma que assombrou a carreira do diretor Frank Darabont: Isso estabeleceu para todos os seus trabalhos posteriores um patamar altíssimo e injusto com o qual serem comparados.
E Darabont certamente sentiu essa pressão, prova disso é que seu filme imediatamente seguinte partilhava de várias características em comum com aquela que é (e que sempre vai ser) sua obra-prima: “À Espera de Um Milagre” era, também ele, adaptado de uma obra de Stephen King –que, ao contrário de “Um Sonho de Liberdade” flerta mais abertamente com seus artifícios sobrenaturais –e também tinha como ambientação as paredes opressoras de uma prisão no Maine, desta vez, o corredor da morte ou, como os próprios presos costumam chamar “a milha verde” –como o título original “The Green Mile”.
Darabont ainda adicionou à mistura a presença protagonista de Tom Hanks, mas (embora o filme seja muito querido por uma boa parcela do público) ele não chega nem perto de se equiparar a altíssima qualidade de “Um Sonho de Liberdade”.
Mas, é um belo filme.
Desta vez, deixando o ponto de vista dos prisioneiros para adotar o dos guardas carcerários (Tom Hanks interpreta o papel de chefe deles, como logo é informado no início, quando um flashback começa a resgatar a história), o filme de Darabont registra a rotina dos guardas que trabalharam no corredor da morte nos anos 1930. Eles vivem a atroz rotina de conviver com os condenados à cadeira elétrica, uns ironicamente dóceis e afáveis, outros, psicóticos e estranhos. O grupo de guardas (que além de Hanks, inclui David Morse, Barry Peper, de “O Resgate do Soldado Ryan”, Jeffrey DeMunn, de “Cidadão X” e Doug Hutchison, ator que teve uma breve e memorável presença na série “Arquivo X”) tem uma série de comportamentos e atitudes específicas por meio das quais conseguem conviver (com os prisioneiros, inclusive) numa certa harmonia diante do peso mórbido e obscuro da natureza daquele trabalho.
Há, portanto, uma novidade desestabilizadora quando eles recebem John Coffey, um gigantesco prisioneiro (Michael Clarke Duncan, um achado) condenado à cadeira elétrica pelo brutal assassinato de duas meninas. O novo detento, entretanto (apesar do tamanho descomunal) em nada parece um criminoso; Coffey tem o comportamento amável, tímido e por vezes diz ter medo do escuro.
No entanto, o quê o chefe da carceragem, um tanto perplexo, logo descobrirá, é que Coffey é um anjo de Deus na Terra, e que tem os dons de curar os males das pessoas, incluindo o câncer que consome a vida da benevolente esposa do diretor da prisão (James Cronwell). Mas, Coffey está condenado à morte.
É então um dilema existencial e tanto que o filme de Darabont propõe ao personagem de Hanks –e, por conseqüência, devido à insuspeita capacidade do ator em obter identificação, ao expectador também: Permitir que um anjo capaz curar muitos males com suas habilidades seja morto pelas leis corruptíveis dos homens ou tentar algo para salvá-lo? Mesmo que ele próprio esteja disposto à encarar o corredor da morte; na interpretação emotiva e emocionada de Clarke Duncan, Coffey é como uma criança ferida em sua inocência, ávida por regressar para o céu onde não precisará testemunhar a crueldade diária dos homens aqui na terra.
Por isso, por sua pouco econômica carga dramática e por sua capacidade invulgar de, por vezes, levar os expectadores às lágrimas, “À Espera de Um Milagre” é, apesar do lugar secundário que ocupa na filmografia de Darabont, um melodrama celebrado.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Los Angeles - Cidade Proibida

Uma pena que na cerimônia do Oscar de 1997, este espetacular “Los Angeles-Cidade Proibida” tenha batido de frente com um rolo compressor chamado “Titanic”, que acabou levando 11 estatuetas. “Los Angeles...” terminou a cerimônia com duas estatuetas (de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger), o quê não basta para premiar sua excelência: Em outros anos certamente seria esta produção requintadíssima a grande vencedora da noite.
Três detetives de polícia na Los Angeles dos anos 1930, o truculento e determinado Bud White (Russell Crowe, tão formidável quanto em seu filme seguinte, “Gladiador”), o recém-formado e meticuloso Ed Exley (Guy Pierce) e o ponderado e bom vivant Jack Vincennes (Kevin Spacey), se vêem, de diferentes formas, às voltas com uma conspiração criminosa que se estende até os núcleos de liderança do departamento de polícia.
Uma dissertação sobre a corrupção moldada pelo diretor Curtis Henson, travestida do mais charmoso cinema que a generosidade de um estúdio pode produzir, mas ainda assim preservada em todas as suas inflexões de intimismo e questionamento –seu protagonistas são tragados por aquilo que crêem enfrentar, como Bud White, notoriamente violento com homens que agridem mulheres, mas cujos meandros tentaculares e insidiosos da intriga em que está envolvido irão levá-lo a agredir Lynn (a personagem de Kim Basinger) por quem se apaixona.
Uma referência e uma reverência ao gênero film noir, concebida por Curtis Henson, que urge aqui sua mais perfeita obra: Em tudo e por tudo, este é um trabalho de absoluto primor cinematográfico, onde a perfeição de seu ritmo e de sua condução serve aos propósitos de um roteiro (elaborado em minúcias rocambolescas por Brian Helgeland e pelo próprio diretor Hanson) escrito com equilíbrio, desenvoltura e plena noção de atmosfera, mostrando também uma das mais prodigiosas utilizações do campo e contracampo vistas no cinema.