Mostrando postagens com marcador Jeff Goldblum. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jeff Goldblum. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Wicked - Parte 2


 O Mal é um ponto de vista.

A primeira parte de “Wicked” era um filme brilhante: Ao trazer para a luz as origens não conhecidas da Bruxa Má do Oeste, Elphaba, e da Bruxa Boa, Glinda, o diretor Jon M. Chu compôs um musical arrojado, ainda mais surpreendente por oferecer um novo enfoque para uma personagem sempre vista como vilã (Elphaba) e, por meio dessa observação, trazer à tona questões um tanto profundas sobre empatia, pertencimento e manipulação midiática.

Dividido em duas partes (com a segunda tendo ganhado a ribalta um ano após a estréia da primeira), “Wicked”, agora, finalmente está completo e pode ser conferido na íntegra pelo público. O grande problema dessa segunda parte, no entanto, termina sendo a expectativa gerada justamente pela inesperada qualidade estratosférica revelada pelo filme anterior; que chegou na cerimônia do Oscar 2025 com nada menos do que 10 indicações!

Embora ainda ostente excelência técnica em todos os quesitos, esta “Parte 2” não consegue trazer de volta toda aquela magia da primeira parte –talvez, o encanto tenha um pouco se esgotado; talvez, a novidade do primeiro filme seja um adendo que não se percebe mais tanto aqui; ou talvez, nós, enquanto expectadores, sejamos difíceis de satisfazer mesmo...

Depois dos bombásticos acontecimentos do final do filme anterior, quando Elphaba é decretada inimiga pública Nº 1 em Oz e Glinda, por sua vez, se torna o rosto da propaganda através da qual os governantes (o Mágico e Madame Morrible) querem vender tranquilidade aos moradores, nós reencontramos todos os personagens após algum tempo.

O Mágico de Oz (Jeff Goldblum), que de mágico não tem nada, promoveu a construção da Estrada de Tijolos Amarelos, destinada a conectar todos os recôncavos do reino, contudo, tal empreendimento é realizado às custas de um cruel e inclemente trabalho escravo dos animais e Elphaba (Cynthia Erivo), ferrenha opositora a esses maus tratos, tem atacado sistematicamente os locais de atividade. Para a calculista Madame Morrible (Michelle Yeoh) ela é um grande problema a ser solucionado: Afinal, diferente da maioria no reino, Elphaba é genuinamente dotada de magia –outros, como o mágico e a própria Glinda, devem fingir ante a população, lançando mão de truques de ilusionismo (como aquele no qual Glinda projeta uma bolha e sai flutuando por aí).

A oportunidade para neutralizar Elphaba, logo é providenciada: Madame Morrible conjura um tornado que traz, de algum lugar muito distante, uma casa dentro da qual uma menina perdida, chamada Dorothy, chega na Aldeia dos Munchkins, soterrando a própria irmã de Elphaba, Nessarose (Marissa Bode) que àquelas alturas já vinha ganhando poderosas tintas de vilania.

Assim sendo, diferente da “Parte 1”, que se apresentava como um prequel do clássico “O Mágico de Oz”, esta “Parte 2” não só chega no ponto em que a trama do filme de 1939 se inicia, como também a adentra, dando-lhe uma perspectiva completamente nova ao entregar cenas que “ficaram faltando” e ainda se estender para além de seu já famoso desfecho. Pena que essa costura não soe nem um pouco harmoniosa: Àqueles que tiverem a memória fresca de “O Mágico de Oz” vão verificar nítidas algumas mudanças pontuais no roteiro (como o encontro protelado de Elphaba e Dorothy; a índole tão distinta do Espantalho; e as motivações do Homem de Lata; além de sequências no clássico em que realmente vemos Glinda valer-se de magia quando, aqui, ela não possui nenhuma).

Não deixa de ser surpreendente (e até indicativo de certa coragem) vermos que alguns personagens da “Parte 1” eram figuras icônicas do clássico, como os próprios Espantalho e Homem de Lata, o que dá às suas sub-tramas um viés quase trágico.

Entretanto, é às suas protagonistas que está reservado o verdadeiro esmero do roteiro e da direção: A amizade entre Elphaba e Glinda que, ao longo do filme anterior e deste aqui, luta para superar o antagonismo e os papéis opositores (nada condizentes com a realidade) que o destino lhe resguarda, sobretudo, no caso de Elphaba, cujas boas intenções e a própria retidão ao não se corromper a colocam como a grande vilã no unilateral enredo vivenciado por Dorothy.

Afinal, o Mal é um ponto de vista.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Independence Day


 Em 1993, “Jurassic Park” se sagrou como a maior bilheteria da história do cinema, mas seu reinado não durou muito, três anos depois, em 1996, a ficção científica “Independence Day” tomou esse posto, e nele ficou menos tempo ainda (!), já no ano seguinte, aportava nos cinemas um épico chamado “Titanic”, e o resto é história...

No panorama cinematográfico dos anos 1990, “Independence Day” ocupa, portanto, esse lugar de êxito transitório tanto no que diz respeito à sua notável bilheteria, como ao avanço de seus efeitos especiais –e existem uma série de razões para o sucesso que o filme de Roland Emmerich teve, e nenhuma delas está relacionada ao seu astro, Will Smith, praticamente revelado ao público por este filme (e, por ele, catapultado ao estrelato).

“Independence Day” é, em linhas gerais, e sem muita sutileza no disfarce, uma versão modernizada de “Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, tantas vezes transposta para a telona. Seu apelo fundamental está no emprego imodesto dos efeitos visuais que conceberam cenas antológicas e grandiloquentes, de tal forma impressionantes, que uma parcela extraordinária do público entendeu que teriam de ser vistas na tela do cinema.

Cenas como as imensuráveis naves extraterrestres  sobrevoando inúmeras cidades do mundo e a subsequente destruição de Nova York e de Washington por essas mesmas naves não apenas entraram diretamente para o subconsciente coletivo dos cinéfilos (a despeito de serem emolduradas numa trama bastante genérica) como foram recompensadas com o Oscar de Melhores Efeitos Especiais na cerimônia de 1997.

No início, indícios nebulosos sugerem aos especialistas que algo de extraordinário se aproxima do planeta Terra: Naves monumentais, de origem alienígenas, aos poucos se aproximam da atmosfera, alarmando as autoridades do mundo inteiro, em especial, os EUA, onde o presidente, Thomas Whitmore (Bill Pullman, na melhor fase de sua carreira), emite um alerta geral. A chegada das naves (ilustrada na primeira metade do filme, o que resulta num espetáculo verdadeiramente eletrizante) é recebida com apreensão pelos cidadãos do mundo todo: Logo, os indícios se materializam em fatos quando muitas dessas naves aparecem sobrevoando dezenas de cidades espalhadas pelo planeta.

As tentativas de comunicação se iniciam, mas, as verdadeiras intenções dos alienígenas são descobertas, talvez tarde demais, pelo cientista do MIT David Levinson (Jeff Goldblum) e seu pai, Julius (Judd Hirsch, de “Os Fabelmans”): A chegada deles à Terra é completamente hostil; pois, logo na sequência, vemos cidades como Nova York, Washington e Los Angeles serem varridas do mapa.

A humanidade sofre um impiedoso ataque extraterrestre e, agora, os seres humanos sobreviventes precisam contra-atacar.

Nessa progressão de acontecimentos até que bastante previsíveis –sabemos, claro, que a humanidade haverá de reerguer-se e, ao final apoteótico, prevalecer sobre os vilanescos invasores –o diretor Emmerich usa, como opção para valorizar as cenas, uma ênfase e uma referência à muitos obras predecessoras que funcionaram bem, sobretudo, em sua composição visual: As sequências de destruição aludindo aos grandes clássicos do cinema-catástrofe do passado (potencializadas, porém, com efeitos visuais de última geração); os escombros do mundo pós-ataque remetem à produções pós-apocalípticas como “Mad Max”; as sequências de combate aéreo subsequentes lembram “Star Wars” e afins; as aparições ocasionais dos alienígenas almejam um pavor opressivo semelhante à “Alien”. E tudo isso, configura uma trama conduzida por dezenas de personagens pretensamente carismáticos que nem sempre dizem à que vieram: Além dos já citados, temos também a assessora da Casa Branca, Constance (Margaret Colin), romanticamente envolvida com o personagem de Goldblum; o ex-piloto pinel, abduzido por alienígenas no passado, que deseja ingressar na resistência à invasão por um ingênuo sentimento de acerto de contas (Randy Quaid, de “Lua de Papel”); os militares turrões, truculentos, mas, no fim das contas, de bom coração (esses são vários, Robert Loggia, Adam Baldwin, James Rebhorn); e, finalmente, o piloto de caça vivido por Will Smith, Capitão Steven Hiller, introduzido praticamente a partir da segunda metade do filme, que haverá de protagonizar as mais expressivas incursões contra os alienígenas, com suas tiradas engraçadinhas (mais clichê impossível), inclusive a arrojada manobra final de confronto definitivo contra os alienígenas, onde poderá assim vingar a morte do melhor amigo (Harry Connick Jr., de “Memphis Belle-A Fortaleza Voadora”), morto em batalha pelos invasores (risca aquilo que eu falei, ISTO consegue, sim, ser ainda mais clichê!).

Está aí, portanto, uma fórmula não muito difícil de ser apreendida e que garantiu à “Independence Day” o largo sucesso do qual, à época, ele desfrutou: Uma trama banal, reduzida à essência e ao simplismo, contada de modo a soar inteligível ao público, povoada por personagens também de fácil compreensão e de forçosa empatia, mas adornada com elementos visuais arrebatadores, as verdadeiras estrelas principais desta produção, além de um viés patriótico, enaltecendo valores norte-americanos (a data para o contra-ataque da Humanidade, 4 de Julho, o usual feriado americano, passa a marcar, na trama do filme, uma comemoração mundial), que acabou contagiando também as plateias do resto do mundo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Wicked - Parte 1


 Dirigido por Victor Fleming, o clássico “O Mágico de Oz” é uma produção que aparentemente o cinema, e a cultura pop como um todo, são incapazes de deixar de lado: Desde que foi lançado em 1939, ele ganhou, entre outras derivações, imitações e continuações, uma bizarra sequência nos anos 1980 (“O Mundo Fantástico de Oz”, de Walter Murch), um prequel em 2013 (“Oz-Mágico e Poderoso”, de Sam Raimi), uma versão blaxploitation (“O Mágico Inesquecível”, de Sidney Lumet) e até mesmo uma versão brasileira (“Os Trapalhões e O Mágico de Oróz”), além de várias outras obras para cinema e TV (existem até mesmo alguns curtas-metragens, adaptando os demais livros do autor Frank L. Baum que remontam o período do cinema mudo). Originalmente, uma realização aclamada nos palcos teatrais da Broadway, “Wicked”, adaptado por Stephen Schwartz e Winnie Holzman do livro de Gregory Maguire, e agora vertido para cinema em um filme que consegue ser superior à todos os citados anteriormente (superior até mesmo ao ovacionado clássico de 1939) é uma obra que se atreve a imaginar uma espécie de ‘origem’ para duas de suas mais emblemáticas personagens, a Bruxa Boa do Norte, Glinda e, sobretudo, a Bruxa Má do Oeste, Elphaba –mais do que isso: Ao jogar luz sobre uma história não contada, “Wicked” surpreende com uma inesperada inversão de valores morais, a humanização de alguns estereótipos, a desmistificação de outros e o acréscimo de pautas de inclusão e representatividade tão em voga no cinema moderno.

Quando “Wicked” se inicia, o mundo fantasioso de Oz está em festa: A Bruxa Má do Oeste foi morta (como bem sabemos, no desfecho de “O Mágico de Oz”) e essa notícia corre aos quatro ventos. Na Vila dos Munchkins, a novidade é recebida com alegria (e com a execução da primeira das inúmeras sequências musicais que virão), onde os animados moradores ganham a companhia da antagonista da Bruxa Má, a Bruxa Boa, Glinda. Entretanto, com o surgimento de uma dúvida (Glinda e a Bruxa Má teriam sido amigas em outros tempos?), o filme retrocede num flashback para contar o início dessa história.

Outrora, a filha mais velha do Governador dos Munchkins (e, ao que tudo indica, fruto de um adultério cometido por sua mãe), Elphaba nasceu com a pele completamente verde (!), e jamais deixou de ser discriminada por isso, nem mesmo por seu próprio pai, cujo amor ele direcionou apenas à segunda filha, Nessarose (Marissa Bode), nascida normal, porém, paraplégica.

Quando Nessarose ingressa na Universidade de Shiz, na qual se matricula também a abastada Galinda Upland (a cantora Ariana Grande, se saindo muito bem), Elphaba acaba indo junto, movida pelo sentimento benevolente de proteger a irmã –e nesse ponto do filme, Elphaba já surge interpretada pela atriz e cantora Cynthia Erivo, uma força da natureza!

Num momento de descontrole de Elpahaba –quando ela libera habilidades sobrenaturais que a acompanhavam já desde criança –os dons dela acabam sendo notados por Madame Morrible (a premiada Michelle Yeoh), a Reitora de Feitiçaria de Shiz, que imediatamente a convida para ingressar na universidade e ser sua aluna particular –privilégio com o qual Galinda sonhava.

As duas, Elphaba e Galinda, por força das circunstâncias se tornam colegas de quarto, mas a animosidade inicial é inevitável –afinal, Galinda é popular, bajulada, vaidosa e, em última instância, fútil; enquanto que Elphaba é excluída, desajustada, introspectiva e sensata.

Apesar dos apesares, o enredo pouco a pouco engatilha uma improvável amizade entre as duas, impulsionada pelas índoles amáveis e, no fim das contas, carentes, das duas personagens –no processo, não só o filme magnificamente dirigido por Jon M. Chu entrega sucessivos números musicais exuberantes (nem tanto memoráveis pela excelência de seu repertório musical, mas pelo primor técnico com que são executadas, e pelo elenco fenomenal reunido) como também esmiúça em pequenos elementos e até subtramas paralelas, o mundo no qual as personagens vivem –e tais detalhes serão essenciais para os desdobramentos em seu clímax: Identificando-se com a exclusão dos diferentes, Elphaba apoia incondicionalmente a proteção aos animais falantes, espécimes que começam a sofrer a intolerância das pessoas em Oz (no filme original temos, quando muito, o exemplo do Leão Covarde e só) e essa convicção leva Elphaba a se opor ao célebre Mágico de Oz (Jeff Goldblum) quando, por fim, ela e Galinda (agora auto-denominada Glinda) o conhecem.

“Wicked” utiliza de todo o expediente fantasioso que cerca sua mitologia e seus personagens de ponta a ponta (recriados com pormenores técnicos e visuais que levaram às merecidas premiações na cerimônia do Oscar 2025) para construir uma alegoria sobre a necessidade humana de odiar e perseguir tudo que lhe soa e lhe parece diferente, e vale-se de um pequeno toque de transgressão para nos mostrar que, aquilo que talvez acreditássemos serem verdades absolutas (tal como a vilania da Bruxa Má do Oeste) podem ser muito mais relativo do que supúnhamos.

“Wicked” não está completo –este longa-metragem formidável é só a primeira parte da história –difícil é imaginar como a segunda parte (a chegar nos cinemas no final de 2025) será capaz de igualar, ou quem sabe superar, o brilhantismo deste filme aqui.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Asteroid City


 As obras de Wes Anderson flertam a todo o instante com o estranhamento. Um filme seu corresponde ao caminhar sobre uma corda bamba; o grande achado em seu cinema é o equilíbrio improvável entre a queda drástica rumo à incompreensão e à esquisitice que sempre o assombram e a continuidade de dinâmicas, premissas e dramas que se preservam interessantes, emocionantes e inteligíveis graças ao seu talento. Entretanto, num ou noutro caso pode haver um escorregão –e o exemplo mais patente disso é, na filmografia de Wes Anderson, “A Vida Marinha de Steve Sizou”. À ele junta-se agora este “Asteroid City”.

Como o fizera em “O Grande Hotel Budapeste”, Anderson começa explorando uma narrativa de metalinguagem na qual o filme a se desenrolar mais afrente é, na realidade, um peça de teatro –filmada em preto & branco, na intenção de diferenciar a encenação da trama principal –cujo autor Conrad Earp (Edward Norton) e todo seu séquito de intérpretes são introduzidos ao público pela narração algo irônica e vintage do ator Bryan Cranston.

Quando a peça se iniciar –e o filme, por conta disso, adquirir cores –irá se iniciar também sua trama principal; que, numa das ironias do projeto, tem muito pouco, ou quase nada, de teatral: Asteroid City é o nome de um lugarejo que mal pode ser definido como cidade; um apanhado de instalações (um hotelzinho; uma oficina; um restaurante; um posto militar e pouco mais que isso) que, em meados da década de 1950, cercam o local onde, anos antes, um asteróide lendário caiu. E sua cratera, com todas as ênfases turísticas, se encontra lá. A câmera de Anderson explora –com sua típica observação fria e simétrica –todo esse ambiente aberto num dos primeiros takes, indicando a propriedade hiperlativa da direção de arte e da direção de fotografia, criando juntas, em conjugação, um cenário a um só tempo irreal, impressionante e paradoxalmente autêntico que se enquadraria bem numa narrativa de Federico Fellini, não fosse a pontual e infalível modernidade de suas inserções digitais.

O elenco reunido em “Asteroid City” é vasto e espetacular, daqueles que pouquíssimos diretores tem gabarito capaz de reunir num único projeto, e eles defendem, todos, personagens capturados em suas excentricidades, perplexos diante de uma tristeza a brotar de lugares inesperados. Há, por exemplo, Augie Steenbeck, vivido por Jason Schartzman, que levou os quatro filhos (um rapazinho e três garotinhas trigêmeas) para Asteroid City a fim de finalmente revelar a eles que sua mãe (vivida por Margot Robbie, numa breve cena como a atriz que a interpretaria) faleceu à três semanas (!?). Com seu carro avariado –devido à uma pane que o incompetente mecânico local (Matt Dillon) é incapaz de consertar –eles resolvem ficar por lá, à espera de seu sogro, Stanley (Tom Hanks) que, a despeito da ligeira indisposição com Augie, segue para lá de carro para resgatá-los. Existem ainda June (Maya Hawke), jovem professora tentando administrar os interesses ocasionais de seus jovens  alunos; Midge Campbell (Scarlett Johansson) dona de casa em crise cuja relação com a filha (Grace Edwards) acentua ainda mais sua predisposição à depressão; J.J. Kellog (Liev Schreiber) um turista eventual, constantemente à beira de um ataque de nervos graças às provocações do próprio filho; além de toda fauna de estudantes, pais, professores e cientistas de uma convenção científica realizada lá (a reunir rostos como Sophia Lillis, Rupert Friend, Tlida Swinton e outros); e os militares basicamente representados pelo oficial displicente e indiferente (Jeffrey Wright) e seu subalterno (Tony Revolori).

O vazio existencial estranhamente cômico de cada um desses personagens ganha um novo viés quando Asteroid City é visitada por um alienígena (Jeff Goldblum) –cuja aparição converte brevemente o filme numa animação, outra área de atuação do diretor Wes Anderson, vide o maravilhoso “Ilha dos Cachorros” –e o governo ordena que seja imposta uma quarentena. Confinados naquele espaço, todos os personagens estabelecem uma rotina por meio da qual não apenas convivem uns com os outros, mas também com suas próprias idiossincrasias –material que faz muito o gosto do diretor –sem que aquilo jamais gere, na realidade, um microcosmos: O trabalho de Wes Anderson, bem como sua visão particular de cinema e de mundo, terminam sendo pessoais e peculiares demais para que se possa estabelecer algum tipo de analogia. E quando cai a pergunta “Então sobre o quê exatamente versa o filme?” é quando os problemas de “Asteroid City” começam a se acumular de verdade.

Diferente de outros trabalhos de Wes Anderson nos quais sua sensibilidade conseguiu alcançar o público, emocionando-o ou levando-o a refletir (ou ambos), em “Asteroid City” há um distanciamento resultante, tal é a sensação de alienação que a situação mirabolante e os personagens idiossincráticos, somados, passam ao expectador. “Asteroid City” poderia ser sobre a paranóia atômica de outros tempos, numa curiosa equação com o presente, mas é deveras gaiato e caricatural para isso; poderia ser sobre a pluralidade norte-americana e de como mentalidades e posicionamentos mais nos afastam do que nos aproximam, mas é inacessível em sua insistência no alternativo. Termina sendo um trabalho modorrento e desafiador para os expectadores menos pacientes, capaz de agradar aos fãs incondicionais do diretor, e somente a eles.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

As Aventuras de Buckaroo Banzai


 “Através da 8ª Dimensão” é o subtítulo que sucede o título desta obra oitentista, vítima de extrema incompreensão à época de seu lançamento em 1984, mas redescoberta ao longo dos anos como um entretenimento peculiar e curioso.

Muito se discorre sobre as alegorias embutidas no conceito amalucado de “Buckaroo Banzai”, como se o grupo Monty Python tentasse criar uma história com ecos de 007 e de adaptações de histórias em quadrinhos, e nela depositasse observações sobre a cultura pop e sobre a maleabilidade dos sentimentos, apoiada nas mais inusitadas referências possíveis.

O personagem título, Buckaroo Banzai (interpretado por Peter Weller, ator de “Robocop” e “Mistérios e Paixões”, estreando no cinema) é a um só tempo neurocirurgião, piloto de testes e dono de uma banda de rock (!?) e seu objetivo de vida é, ao lado de sua trupe de amigos, nomeados Hong Kong Cavaliers (que reúne caras como Lewis Smith, Jeff Goldblum, Clancy Brown e Pepe Serna), experimentar ao máximo de aventuras.

Uma delas tem início quando, tão logo deixa uma mesa de operação, ele quebra a barreira do som a bordo de um carro de corridas turbinado. Não apenas a barreira do som, Buckaroo rompe também, por breves momentos, o fino tecido da realidade, indo parar em um lugar que seu pai (que, por sinal, é cientista) chama de 8ª Dimensão!

O feito de Buckaroo desperta a atenção de um certo Dr. Emilio Lizardo (John Lithgow, perfeito em sua insanidade), cuja tentativa de realizar a mesma experiência décadas antes o levou a ser possuído por um alienígena vindo dessa tal 8ª Dimensão –situação que, desde então, o confinou numa espécie de sanatório. Escapando de lá, e reunindo outros comparsas, também eles, alienígenas disfarçados entre pessoas comuns (entre os quais, Christopher Loyd, Vincent Schiavelli e Dan Hedaya), o Dr. Lizardo se apressa em roubar da equipe de Buckaroo os artefatos necessários para repetir a experiência e voltar para casa.

Contudo, nada é tão simples: Os alienígenas, malvados ainda que ineptos, querem também achar um jeito de dominar o mundo, e em sua periculosidade, são vigiados do espaço sideral por outros de sua mesma raça, mais austeros, que estão prontos para fulminar a Rússia com um raio caso esses bandidos escapem até o pôr-do-sol, criando um impasse que levará a uma guerra nuclear, e a Terra à destruição. Assim, Buckaroo Banzai –que se vê envolvido na súbita descoberta de uma sósia (ou seria irmã gêmea?) de sua esposa falecida, vivida em ambos os casos por Ellen Barkin –acaba se tornando, ao lado dos Hong Kong Cavaliers, um improvável herói predestinado a salvar o planeta.

Essa explicação, no entanto, não chega a ilustrar com satisfação o que o filme dirigido por W.D. Richter (e roteirizado por Earl Mac Rauch a partir de uma ideia dele) chega a ser: Inspirado pelos filmes de matinê que Richter, e diversos outros autores da época conferiram em sua infância, “Buckaroo Banzai” é uma miscelânea bizarra, lisérgica e algumas vezes sem sentido entre aventura, ficção científica e delírio autoral. Seu enredo não se acomoda em nenhum gênero e sua cenas exalam um certo inconformismo bizarro, carregadas de informações, adornos e referências constantes plantadas nos mínimos detalhes e, ainda assim, ostentando um ritmo desigual, que parece ficar lento justamente nas cenas de ação (!), o que leva o expectador a uma curiosa sensação de desconforto em relação ao material, e pode ser fruto, talvez, da inexperiência do diretor Richter em construir uma narrativa –afinal, este foi seu primeiro trabalho.

Entretanto, se a estranheza é o charme de “As Aventuras de Buckaroo banzai”, ela é também uma característica quase involuntária diante da execução intuitiva de seu projeto.

Ao longo dos anos, muitos foram os que tentaram, sem sucesso, explicar os propósitos, intenções e objetivos por trás de “Buckaroo Banzai” –para uns, é um passatempo lisérgico sobre as ameaças metafísicas do universo transfigurado por um humor nonsense e deliberadamente inapropriado; para outros, um tratado alegórico sobre paranóia, sobre o estado de coisas alienado da década de 1980 e, ao mesmo tempo, um exercício estético e colaborativo sobre o caos e a anarquia –inclusive essa, digamos, esquizofrenia visual, que contamina muitas de suas passagens, pode ser explicada pela troca de diretores de fotografia, tendo o estiloso Jordan Cronenweth (de “Blade Runner”) sido substituído, no meio do filme, pelo mais convencional Fred Koenekamp.

A verdade é que, se o público demorou a perceber, em “Buckaroo Banzai” seus elementos desiguais, também seu realizadores ignoraram isso, supondo que ele fosse um  produto completamente comercial: Ele se encerra, inclusive com a promessa de uma segunda aventura (“”Buckaroo Banzai Contra a Liga Mundial do Crime”), esta jamais realizada, diante da indiferença quase temerosa que público e crítica demonstraram diante de obra tão estranha.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Silverado


 Nos anos 1980, o diretor e roteirista Lawrence Kasdan passeou pelos mais diversos gêneros a fim de saciar sua ‘fome’ por cinema. Certamente, entre as opções, não poderia faltar o faroeste, algo que ele realizou em 1985, após “Corpos Ardentes” e “O Reencontro”, concebendo “Silverado”. A visão do gênero partilhada por Kasdan e por seu irmão Mark (colaborador dele no roteiro), contudo, não tinha quaisquer reflexos das ramificações do faroeste de então –os spaghetti, feitos na Europa ou os revisionistas, feitos nos EUA mesmo –na verdade, sua visão não tinha sequer as questões e considerações subliminares das obras de John Ford e Howard Hawks: O moleque ávido e entusiasmado por faroeste que Kasdan foi um dia fomentou nele uma necessidade de realizar um filme norteado tão somente por seu senso de aventura. E essa decisão permeia e define “Silverado” do início ao fim.

A primeira cena, habilidosa nos quesitos técnicos dispostos pela produção, mostra Emmett, o protagonista de Scott Glenn, num barraco escuro e fechado, a trocar tiros com inimigos escondidos do lado de fora. Encerrada a breve cena –com a morte de seus oponentes –Emmett sai porta afora, seguido pela câmera em movimento, num take que remete deliberadamente à clássica introdução de “Rastros de Ódio”.

E está então estabelecido tudo o que o filme de Kasdan vai ser (e o que não vai ser): Um faroeste de tintas tão românticas quanto heróicas, imbuído do clima de matinê dos faroestes de antigamente –antes que o gênero ganhasse elementos existenciais, e profundas análises de cunho histórico ou até metalinguístico. Assim, na sequência, Emmett cruza-se com o outro protagonista do filme (tão ou até mais importante que ele), Paden, personagem vivido pelo sempre carismático Kevin Kline. Ele surge só de ceroulas largado no deserto e, ao receber auxílio de Emmett, logo estabelecem a parceria que haverá de perdurar por todo o filme.

Emmett vai até a cidadezinha de Turley, onde encontra o irmão caçula, Jake (Kevin Costner, num personagem mais descontraído do que de costume) em apuros com as autoridades locais. Escapando por um triz do xerife (vivido por John Cleese), graças à ajuda do pistoleiro negro Mal Johnson (Danny Glover), os quatro decidem rumar para a cidade de Silverado, onde mora da irmã de Emmett e Jake, e para onde ele pretende ir, uma vez que saiu há pouco da cadeia onde esteve por cinco anos.

Entretanto, nesse caminho, complicações usuais do faroeste os perseguem: Eles resolvem auxiliar uma caravana com o mesmo destino deles –em meio à qual se encontra a personagem sub-aproveitada da bela Rosanna Arquette –cujos ocupantes tiveram seu dinheiro roubado. No decurso de inúmeras idas e vindas, todos chegam em Silverado, somente para descobrir os verdadeiros problemas que lá os esperam; e que são essenciais ao plot: Para Emmett e Jake, o filho do homem que Emmett matou (morte pela qual pagou com a prisão), tem um plano de vingança pronto para ser posto em prática; para Mal, cujo o pai, Ezra (Joe Seneca) passa poucas e boas para sustentar a terra da família, e a irmã Rae (Lynn Whitfield) tem de prostituir-se no saloon local, estão reservados os mesmos perigosos aborrecimentos que alguém tentando enfrentar a discriminação e a injustiça deve encarar; e para Paden, cujo xerife local, o desonesto Cobb (Brian Dennehy) coloca sob suas asas assim que chega a Silverado, resta um difícil dilema: Ajudar os novos amigos, indo contra um homem que a ele se aliou, ou omitir-se de todas as terríveis ciladas para eles preparadas.

A resposta para isso não é nenhuma surpresa: A força de “Silverado” não está na subversão de narrativas clássicas desse gênero, mas no reencontro ávido e apaixonado com esses expedientes, no clima épico imediatamente reconhecível de quando tais momentos estão se aproximando e, nesse sentido, “Silverado” não deseja, em momento algum decepcionar seu público –aquele tipo de expectador que almeja encontrar um faroeste descomplicado, onde mocinhos e bandidos são definidos com características absolutamente reconhecíveis, e seus empates –ilustrados com pompa e circunstância dramática –seguem os rituais de praxe que emolduram grandes momentos da Velha Hollywood.

Em sua evoção do que o gênero tem de mais clássico, “Silverado” não deixa de encontrar pequenos lapsos que se fazem mais evidentes conforme o tempo foi passando. Seu maior defeito é a tremenda falta de profundidade em relação aos enredos individuais de cada personagem, um problema bastante razoável para um filme que se divide entre tantos protagonistas e almeja dar uma sub-trama a cada um.

A despeito disso, “Silverado” segue sendo aquilo que dele seu realizador queria mesmo fazer: Um entretenimento à moda antiga, amparado no carisma palpitante de seus astros, no charme trivial e anacrônico do gênero que homenageia, nas inúmeras cenas inconfundíveis que o compõem (as cavalgadas em panorâmicas paisagens americanas; os duelos à céu aberto) e na oposição dos homens bravos que se elevam contra o mau-caratismo e a vilania, e os desregrados corruptos de uma terra sem lei que os enfrentam.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A Sentinela dos Malditos

Quando foi lançado em 1973, “O Exorcista” transformou a forma com que o público e a indústria enxergava o gênero de terror: De repente, as apostas haviam se elevado e a audiência se deixava capturar por um sentimento de medo genuíno que muitas obras realizadas antes não chegavam nem perto de evocar.
Assim, o diretor Michael Winner, que três anos antes entregou “Desejo de Matar”, sempre avesso à sutilezas, quando concedeu este trabalho de terror, buscou abraçar por completo as influências da obra-prima de William Friedkin, num mergulho obscuro por conspirações de natureza satânica.
A cena que abre “A Sentinela dos Malditos” é num mosteiro antigo, onde vemos sacerdotes das mais diversas religiões e crenças entoando uma mesma prece contra o que parecer ser um inimigo em comum –a primeira das inúmeras sugestões da narrativa acerca de um mal bem mais crível que serviu aos propósitos dos realizadores do terror.
Corta então para Nova York, para a rotina feliz da jovem modelo Alison Parker (Cristina Raines); repare nas cenas de seus ensaios fotográficos onde aparece um ainda iniciante Jeff Goldblum.
Vinda de Baltimore –onde sofreu com o desleixo paterno, revisto numa tortuosa cena de flashback quando ela tem de voltar para lá em ocasião do velório dele –Alison procura por um apartamento onde morar enquanto a situação com seu atual namorado, Michael, não resolveu-se.
Interpretado por Chris Sarandon (de “Um Dia de Cão” e “A Hora do Espanto”), Michael é um advogado e também, na maior parte do tempo, um personagem que engana a plateia: Aparenta ser o protagonista, apesar do caráter frequentemente evasivo –as informações acerca dele (e do caso nebuloso que envolve a sua ex-esposa), fornecidas pela dupla de policiais vividos por Eli Wallach e Christopher Walken, serão de grande importância para a elucidação das ramificações da premissa.
Voltando à Alison: Ela consegue alugar um apartamento num prédio antigo do Brooklyn –obtido numa suspeita negociação onde a corretora imobiliária, Sra. Logan (vivida pela veterana Ava Gardner) foi baixando o preço até que ela aceitasse alugar o imóvel –o filme de Winner é repleto daquelas circunstâncias tão inerentes aos expedientes do terror onde tudo e todos, menos a protagonista, percebem os indícios da encrenca em que está se metendo.
Pois, nos dias e noites que se seguem, Alison vai conhecendo seus vizinhos de apartamento, todos com maior ou menor grau de certa esquisitice; os que mais se destacam são o afeminado Charles Chazen (Burgess Meredith, de “Rocky-Um Lutador”), o casal de lésbicas Gerde (Sylvia Miles, de “Perdidos Na Noite”) e Sandra (Beverly D’Angelo, dona de uma ousada cena de masturbação!), e a velha senhora Anna Clark (Kate Harrington).
Ah, sim, existe mais um vizinho: O misterioso morador do último andar, um padre cego e recluso (o veterano John Carradine, de “Vinhas da Ira”) cuja silhueta perturbadora vemos o filme todo de longe.
Após interagir com quase todos esses vizinhos, indispor-se com uns e simpatizar com outros, Alison começa a sentir-se irrequieta e assediada com tantas presenças.
É quando vem a bomba: Ao queixar-se para a Sra. Logan de tais vizinhos, Alison recebe a informação de que somente ela e o estranho padre de fato moram naquele prédio, todos os outros apartamentos estão desabitados!
Crente que está naufragando em uma espécie de loucura (ela já havia tentado o suicídio antes), Alison começa a surtar cada vez mais, perplexa por sua incapacidade de comprovar a veracidade das alucinações, esmagada pelo medo, e acometida por estranhos lapsos de inconsciência e dores agudas.
É quando Michael ganha –já adentrando a segunda metade de filme –mais estatura junto à narrativa e inicia investigações que têm por objetivo unir as pontas soltas da trama.
Não que o trabalho de Michael Winner seja especialmente brilhante nesse sentido –embora o enredo tenha considerável originalidade, a condução acaba desperdiçando muito da ressonância macabra em sequências destituídas de profundidade, e isso leva suas boas ideias a se dispersarem em meio a vários tempos mortos.
Ao menos, seu clímax é inegavelmente antológico: Quando todas as cartas são postas na mesa, e as motivações e intenções ficam mais claras, o diretor Winner arregaça as mangas e parte para as cenas aterrorizantes de fato, não apenas emulando elementos de “O Exorcista”, mas também do cult-movie “Monstros”, de Todd Browning, e de “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski (na forma orgânica com que faz uma analogia do ato de alugar um apartamento com um meio de acesso a um mundo de pesadelo).
Esperava-se que “A Sentinela dos Malditos” fosse visto, durante algum tempo, como um sucessor de “O Exorcista” –o que, talvez, explique o formidável elenco que conseguiu reunir (além dos já mencionados surgem em cena Arthur Kennedy, Martin Balsam, José Ferrer e um ainda jovem Tom Berenger), porém, as inclinações do diretor e também roteirista Michael Winner acabaram por alterar ligeiramente as perspectivas dessa obra. E nisso é possível enxergar vantagens e desvantagens.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Uma Manhã Gloriosa


Numa manobra comum ao cinema comercial norte-americano –aquela na qual tudo que dá certo pode ser explorado à exaustão –esta comédia pretende ser uma variação de “O Diabo Veste Prada”; dele, inclusive, herda a própria roteirista, Aline Brosh McKenna.
Redicados para se impor por conta própria ele tem: Não apenas a ambientação e a premissa proporcionam a chance de um filme luminosos e original –no lugar do mundo da moda, o universo televisivo cheio de fogueiras de vaidade que queimam em igual intensidade –como também seu diretor, Roger Mitchell, pode ser considerado um especialista em comédias de humor sofisticado: São deles os ótimos “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Vênus”.
Também o elenco tem nomes notáveis. O primeiro deles, a jovem Rachel McAdams, vive a protagonista Becky, uma ambiciosa produtora de TV que se vê nas nuvens quando finalmente escapa da obscuridade dos programas secundários e assume um célebre show de TV nova-iorquino. É claro que tanta satisfação vem com um porém: Os lendários e veteranos apresentadores do show (vividos pelos também lendários e veteranos Harrison Ford e Diane Keaton) se estranham a ponto de declarar guerra um ao outro.
Conciliar os ânimos e as personalidades difíceis dos dois é só o primeiro dos desafios que Becky terá de encarar.
Na narrativa simples e direta que usa, o diretor se mostra confiante no carisma e na desenvoltura de Rachel McAdams no papel, que embora exagere nos trejeitos em muitos momentos segura bem o rojão –mais do que a relação afetuosa e enfadonha que se cria entre ela e o personagem vistoso de Patrick Wilson (e que confere ao filme todas as inflexões típicas de uma comédia romântica) é a química entre McAdms e Harrison Ford (cujos personagens trilham um caminho tortuoso da implicância até a amizade) que ganha, de fato, importância neste filme indeciso entre fazer rir e fazer cativar.
Mais que tudo, é uma prova e tanto de que o velho “Indiana Jones” é um ator com muito mais potencial do que normalmente é explorado.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Jurassic World - Reino Ameaçado


Realizador dos magistrais –e eficazes em amedrontar o expectador –“O Orfanato” e “O Impossível”, dava para presumir o tipo de filme que sairia nesta primeira continuação da reinvenção de “Jurassic Park” promovida por Colin Trevorrow quando foi anunciado como diretor o espanhol J.A. Bayona.
Este segundo “Jurassic World” potencializa assim todo o suspense e a tensão presentes nas mesmas cenas que anteriormente nos outros filmes ganhavam tratamento de aventura escapista. Aqui, porém, Bayona não desperdiça um único instante para gerar sobressaltos imprevistos por meio dos quais os dinossauros representam perigo de verdade –inclusive, porque agora, no critério com que são empregados os efeitos digitais, a encenação permite que os efeitos práticos –e infinitamente mais palpáveis e verossímeis –predominem.
A sensação, por vezes, é de que os dinossauros estão bem ali; se não próximos de nós, ao menos, realmente próximos dos atores.
Passaram-se três anos desde que o então bem-sucedido parque se converteu numa zona de guerra e de matança graças ao descontrole do Indominus Rex. O que antes era o Jurassic World agora está abandonado e livre da intervenção humana. Os dinossauros assumiriam o controle do lugar.
Pessoas como o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum),presente em “Jurassic Park” e “O Mundo Perdido” em brevíssima aparição, alegam que os dinossauros devem ser lá deixados e que a natureza siga seu curso, seja mantendo-os livres, seja condenado-os a uma nova extinção, contudo, a empresa por trás do procedimento de clonagem que os trouxeram de volta não pretendem fazer isso: Há intenções tanto altruístas (de grupos querendo preservar os animais) como corporativistas de olho nos dinossauros.
Tudo se acirra quando um vulcão localizado na ilha entra em atividade: O lar dos dinossauros está com os dias contados e se nada for feito, eles serão extintos mais uma vez.
Disposta a salvar as criaturas, Claire Dearing (Bryce Dallas Howard, mais serena e agradável que no filme anterior) organiza um grupo que regressa para lá –entre eles, Owen (Chris Pratt), seu ex-namorado que tem interesses quase pessoais: Ele quer encontrar Blue, a dinossauro que ele mesmo criou e que é a última espécime viva de velociraptor; e os novos personagens do filme, a jovem bióloga Zia (a carismática Daniella Pineda), o medroso Webb (Justice Smith, divertido em sua covardia) e o truculento vilão de ocasião vivido por Ted Levine (que foi o psicopata Buffalo Bill em “O Silênciodos Inocentes”).
Como se tornou quase um reflexo filosófico da série, em dado momento, os capitães da indústria que arcam com as operações sempre revelam seus objetivos escusos, que sempre visam a indiferença aos perigos da tecnologia, a corrupção absoluta do dinheiro e a tentação arrogante de usar o poder (no caso, a genética que permite brincar com a natureza) ao seu bel-prazer –e tal personagem, aqui ganha o rosto de Rafe Spall (de “AsAventuras de Pi”), que deseja fazer um leilão multimilionário com os espécimes resgatados da ilha.
São as maquinações desse personagem que promovem assim a grande reviravolta de ambientação da trama: Da eletrizante sequência na ilha em colapso vulcânico (a qual Bayona vale-se de sua desenvoltura com diferenciados gêneros para criar um filme infinitamente melhor que o de Colin Trevorrow, seu antecessor), somos arrebatados, juntos com os protagonistas para uma mansão isolada, onde Bayona explora ainda mais a inclinação que a série sempre teve –desde o primeiro filme de Spielberg –para o terror, mas nunca antes havia sido tão vislumbrada assim.
Ao mesmo tempo que ele oferece esse novo caminho (o de um gênero, e quem sabe até outros, ainda não explorado), ele brinca de refazer pegadas que já foram dadas –à princípio, sua manobra parece lembrar a mesma que Spielberg usou em “Mundo Perdido”, de trazer os dinossauros para o mundo civilizado; mas, isso logo se revela uma distração: Bayona, a partir da metade de seu filme, trás sim, seus personagens, seu perigos e sua premissa para o contexto do mundo sem o isolamento de uma ilha, mas não é para repetir o que outros fizeram; de novo, ele está sendo fiel à si mesmo –e toda a sorte de dinossauros apavorantes que sua narrativa pode materializar estão assim inseridos num contexto quase de casa mal-assombrada.
Essa é a forte impressão na cena mais emblemática deste filme: Quando a menina Isabella Sermon, se esconde em suas cobertas, não do monstro imaginário que toda criança teme, mas do assustador dinossauro que (como o Indominus na produção anterior) representa o grande antagonista da obra.
O filme de Bayona trás novas camadas à série e leva à um final corajoso e radical que pode mudar drasticamente as característicos do vindouro terceiro.
Ao menos, uma coisa ao que tudo indica ficou bem clara: Esta nova trilogia parece ser assim a história dos laços afetivos entre Owen e Blue.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Mundo Perdido - Jurassic Park


Foi em parte devido à “Tubarão” que Steven Spielberg decidiu por regressar ao seu filme de dinossauros para dar a ele uma continuação: Após o imenso sucesso de seu filme de 1975, Spielberg seguiu os rumos já conhecidos de sua carreira e não voltou para as continuações (que ao longo dos anos ficaram em mais ou menos meia dúzia de filmes) e, como consequência disso, “Tubarão 2” –assim como todos que o sucederam –foi uma catástrofe.
Foi esse pensamento que levou Spielberg, em 1997, a encarar mais um filme envolvendo os dinossauros na Ilha Nublar –a sede original do Jurassic Park.
Ian Malcolm, o personagem de Jeff Goldblum, foi promovido, de um quase alívio cômico, para o protagonista, e ao parece, isso promoveu no personagem uma alteração contrastante de personalidade: Se antes ele era despreocupado e despreendido, aqui ele se mostra aflito e perplexo.
Cinco anos depois dos eventos que levaram o Jurassic Park a ser abandonado antes mesmo de sua inauguração, os dinossauros continuam lá contra todas as expectativas –e completamente alheios aos humanos.
Fica claro, contudo, que uma providência deve ser tomada, sobretudo, depois que uma família acaba inadvertidamente ancorando com seu iate na ilha e a filhinha pequena (vivida por Camilla Belle, filha de brasileiros) é atacada por dinossauros menores.
O proprietário do lugar, John Hammond (mais uma vez vivido pelo veterano Richard Attenborough, com pouquíssimo tempo de cena), faz mais uma das suas e recruta para uma missão de reconhecimento a fotógrafa Sarah Harding (Julianne Moore, fazendo o que pode com uma personagem não muito bem construída), justamente a atual namorada de Ian Malcolm, que nesses últimos cinco anos buscou denunciar o descaso de Hammond em relação às criações na ilha.
Agora, Malcolm e uma equipe de resgate (incluindo um jovem Vince Vaughn, anos antes de reinventar-se como bem-sucedido comediante) devem voltar à Ilha Nublar a fim de encontrar Sarah.
A decisão de Spielberg em manter-se na direção não preservou a mesma qualidade a este segundo “Jurassic Park”: Ele até tenta ir além do filme anterior com tentativas de aprimoramento nos consagrados efeitos visuais (como as sequências em que os dinossauros digitais são materializados, desta vez, contra a luz do sol, cujo resultado não chega a acrescentar muito ao assombro desconcertante do filme original), novas adições no elenco (e embora Julianne Moore, assim como Vanessa Lee Chester, de “APrincesinha”, o veterano Pete Postlethwaite e Arliss Howard, de “Nascido ParaMatar”, façam sua parte, não existem justificativas plausíveis para não se ter aproveitado o ótimo protagonista do filme original, vivido por Sam Neil), e até mesmo um terceiro terço pretensamente eletrizante onde a ambientação é radicalmente modificada para a cidade grande, numa alusão à “King Kong”, mas nada disso afasta a forte sensação de que havia no filme original uma magia que esta continuação falhou em resgatar.
Não é um filme ruim, mas para aquilo que se espera de Spielberg é muito pouco.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa


É provável que “Annie Hall”, de Woody Allen, seja a pedra fundamental para todas comédias românticas norte-americanas que infestaram as salas de cinema nas décadas seguintes a sua realização –e que, durante algum tempo, fizeram a fama de Meg Ryan e Julia Roberts.
Não que não tivessem existido comédias românticas antes de seu ano de lançamento, 1979, mas antes dele as comédias não tinham essa tendência analítica para com a dinâmica intrínseca do relacionamento –que oscila drasticamente em nível de perspicácia e sagacidade comportamental na medida do talento e da competência do realizador. Foi com esta obra de Woody Allen que tudo começou.
Ele narra com indisfarçável e até declarada parcialidade, as vicissitudes do relacionamento entre Alvy (o próprio Woody Allen) e Annie (Diane Keaton, fantástica) –com uma ênfase perplexa e autodepreciativa nas agruras de Alvy, a contraparte masculina que, neste filme e em outros mais que realizou, Allen não cansa de mostrar como alguém inseguro, titubeante, atrapalhado, tão excessivamente dedicado a elaborar suas certezas e razões por meio de seu loquaz intelectualismo que, de um ponto em diante, nem mais sabe se está sendo certo ou razoável.
E embora nunca deixe de fazê-lo por meio de sua imensa compreensão e cultura –assim como sua capacidade notável de apreender a relação a dois num roteiro –Allen tem o primor de soar inteligível e, acima de tudo, divertidíssimo na constante ilustração das situações que pouco a pouco transmutam um relacionamento.
Compreenda ou não as referências ou a abordagem intelectual desta ou daquela piada, o filme nunca deixa de ser incrivelmente engraçado.
É curioso e admirável que, por isso mesmo, a cereja no topo do bolo, seja mesmo o entrecho final, onde à galhofa e à graciosidade, o diretor introduz um outro elemento: O romance.
Ao fim, o filme de Allen, mesmo diante da implicação um com o outro, mesmo ante as diferenças abissais que cresceram até virarem obstáculos intransponíveis para a convivência, mesmo ante os equívocos inadmissíveis e os rancores impagáveis, ele quer lembrar que o quê existiu junto com tudo isso era, afinal, amor.
E o filme tão engraçado termina numa nota agridoce, deixando um pouco de calor no coração.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Thor - Ragnarok

A Marvel Studios sempre naquela rotina de entregar ótimos filmes de entretenimento baseados em seus heróis de histórias em quadrinhos vive em um tênue equilíbrio. De um lado os detratores afirmam que sua escala de produção impede que diretores mais autorais expressem sua personalidade nas obras, do outro –quando a própria Marvel busca corresponder a essas críticas –eles reclamam que os filmes descaracterizam seus heróis; ataque dirigido, por exemplo, à “Homem de Ferro 3”.
É bem provável que este sensacional “Thor-Ragnarok” encontre ressalvas desse tipo, visto que ele de fato promove uma desconstrução do personagem Thor.
Carregando a alguns anos a ingrata pecha de protagonista de alguns dos mais fracos filmes da Marvel Studios –e, realmente, tanto “Thor”, de Kenneth Brannagh, quando “Thor-O Mundo Sombrio”, de Alan Taylor, estão entre os mais formulaicos –isso se refletiu fazendo de Thor, em meio às reuniões de todos os heróis nos filmes dos Vingadores, um dos personagens cujos elementos e cujo intérprete (o eficiente Chris Hemsworth) foram menos explorados.
Mas, a Marvel tinha plena consciência de que estava mudando as coisas quando chamou Taika Waititi para a direção deste terceiro filme solo do personagem.
Esperto, objetivo, capaz e perspicaz, Waititi de início –de início mesmo, já nos quinze primeiros minutos! –estabelece algumas mudanças profundas na abordagem que diferem seu filme dos anteriores. A primeira delas e mais pertinente, que define o filme a partir daqui: Na qualidade de protagonista, Thor é também tornado pelo roteiro e pela direção o personagem mais interessante em cena (Tom Hiddleston, como Loki, continua excelente, mas ele já não mais rouba a cena, pelo simples fato de que ele não é central à premissa).
A segunda: O humor –dono de um senso de humor tão irresistível quanto peculiar, Waititi encoraja o improviso e a descontração de seu elenco, evidenciando com isso o impecável timing cômico até então não aproveitado de Chris Hemsworth, e aproximando o tom de seu filme muito daquela deliciosa e divertida sensação de matinê que James Gunn soube imprimir ao seu “Guardiõesda Galáxia”. Até mesmo a concepção visual desses dois filmes, a partir de um determinado momento ganha similaridades.
A terceira diz respeito à própria habilidade de Waititi como diretor, e ela surge em momentos nos quais muitos o subestimavam, como as magníficas seqüências de ação já no início, quando vemos Thor, numa espécie de cruzada investigativa pelo universo, desde que ele se prestou a essa tarefa no final de “Vingadores-A Era de Ultron”.
Isso explica porque ele se manteve tanto tempo ausente de Asgard. Quando retorna o que ele encontra –como pôde ser visto ao fim de “Mundo Sombrio” –é Loki comandando Asgard no lugar que seria de Odin (Anthony Hopkins).
Uma rápida vinda à Terra (que abre espaço para uma participação sensacional de Benedict Cumberbath como “Doutor Estranho”) e eles encontram Odin exilado, temeroso do retorno de Hella, a deusa da morte (a bela e veemente Cate Blanchett), o quê pode deflagrar o Ragnarok, ou fim do mundo, em Asgard.
Em seu primeiro embate com Hella, Thor é exilado no planeta Sakar, de onde passará boa parte do filme tentando partir. E aí começam os esforços de Waititi em promover a tal da desconstrução do personagem. Thor perde seu poderoso martelo Mjolnir (isso não é spoiler, pois já é visto num dos trailers), tem suas longas madeixas cortadas e seu figurino radicalmente alterado, e isso não é nada perto do que se passará em Asgard até o final do filme –até chegar lá, todas as características do personagem que em muito o definiam (e tidas antes por intransformáveis) assim como sua mitologia de modo geral, terão sido chacoalhadas de modo irreversível por Waititi.
Como o grande diretor que é, ele aproveita cada instante desse processo para moldar cenas antológicas: Em Asgard, uma divertidíssima encenação teatral de eventos de “O Mundo Sombrio” coloca numa mesma participação Matt Damon e Sam Neil (!). Em Sakar, após ser capturado por Valkiria (a fabulosa Tessa Thompson), Thor deve se provar valoroso como gladiador aos olhos do Grão Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e derrotar seu campeão que é, ninguém mais ninguém menos do que o Hulk –que recebe uma breve e eficiente explicação para seu desfecho nebuloso em “A Era de Ultron”.
A participação do Hulk –assim como de Bruce Banner que Mark Ruffalo interpreta de forma igualmente brilhante –é das mais suculentas em todos os filmes da Marvel: O gigante verde é essencial à narrativa contribuindo não só para as espetaculares cenas de ação, mas para a trama também, e ainda protagoniza a primeira cena de nudez da Marvel Studios (!).
Em outras palavras, eis um filme que exemplifica com propriedade a disposição da Marvel em criar cinema de verdade e entretenimento de primeira a partir de seus produtos.
Divertido, espetacular e, por que não, mágico.

domingo, 4 de junho de 2017

Jurassic Park

Existem filmes tão famosos e queridos pelo público que falar deles é como chover no molhado. Que o diga então uma produção como “Jurassic Park” que, embora tenha sido lançado em 1993, não aparenta ser tão antiga, em parte pela estupenda modernidade de seus arrojados efeitos visuais e pela condução mágica e magistral do diretor Steven Spielberg; parte pela lembrança e familiaridade mantidas ainda recentes na memória do público devido ao sucesso de “Jurassic World” que, em 2015, tratou de dar um reinício à franquia após duas continuações inferiores lançadas na década de 1990.
A despeito disso tudo (e mesmo da exposição um pouco exagerada de seu conceito principal, o da presença palpável de dinossauros no meio de nós), o filme original e inicial de Spielberg continua insuperável, um exemplo de uma das mais bem acabadas e refinadas aventuras do cinema.
Sua trama parte de um argumento inventivo –e ocasionalmente mergulhada em meandros científicos desnecessários –imaginado pelo escritor Michael Crichton, onde uma empresa privada pertencente a um multi-milionário visionário, John Hammond (papel que o também diretor Richard Attenborough abraça com entusiasmo), baseando-se em estudos de DNA encontrado em restos de sangue de dinossauro de um mosquito fossilizado, consegue clonar espécimes diversas de dinossauros.
A diversão começa de fato quando Hammond aproveita tal descoberta para criar todo um parque temático, algo inspirado na Disneylândia, e o ambienta em uma ilha, onde planeja lucrar com visitas maciças ao seu assim chamado Jurassic Park.
Restando somente o aval de especialistas para sua inauguração, Hammond convida um casal de paleontólogos, Dr, Alan Grant (o ótimo Sam Neil) e a Dra. Helen Sattler (Laura Dern, atriz predileta de David Lynch, estreando muito bem num blockbuster), um cientista, o desprendido Ian Malcoln (Jeff Goldblum), um advogado (Martin Ferrero) e seus dois netos, a menina Lex (Ariana Richards) e o garotinho Tim (Joseph Mazzello), para um primeiro tour pelo lugar, a fim de ganhar um abalizamento profissional e técnico para inaugurar de fato o parque.
Entretanto, um problema acontece –e o roteiro de David Keep também mergulha em desnecessários meandros técnicos tentando explicar isso: Para resumir, a ganância de um dos funcionários do lugar (vivido por Wayne Knight, um coadjuvante comum em produções dos anos 1990), desejoso de vender os embriões de dinossauros a uma empresa concorrente, leva a um plano catastrófico onde a segurança computadorizada do parque é comprometida e a energia elétrica, desativada.
Assim, os animais pré-históricos, então controlados dentro de cercas eletrificadas, soltam-se ameaçando a vida das pessoas que se encontram lá.
É nesse momento, quando enfim Spielberg se despe das amarras burocráticas da história, que ele dá vazão ao filme que queria fazer: Um entretenimento de primeira, com lances vibrantes de suspense, feito com a sua habitual competência e brindado por valores de produção raros para um filme de verão, como a emocionante e memorável trilha sonora de John Williams e a inventiva edição de Michael Kahn.
Muito do que Spielberg realiza, parte de um tipo de narrativa que ele já tinha se mostrado exímio, mas que fazia alguns anos que ele não exercia –o trabalho meticuloso, climático e austeramente amparado em montagem ritmo e inteligente domínio de câmera, no qual o medo gerado pelas criaturas é sugerido antes de qualquer exposição, tal e qual ele havia feito no primordial “Tubarão”. A diferença é que, se em “Tubarão” Spielberg dispunha realmente de poucos recursos –o que levou-o, por necessidade, à construção desse tipo de atmosfera –em “Jurassic Park”, quando a presença dos dinossauros se faz necessária, eles são materializados com alguns dos melhores efeitos especiais já vistos! Quem viveu naquele ano de 1993 é capaz de lembrar o assombro que foi este filme –e o apelo arrebatador, duradouro e ímpar que levou-o a se tornar, na época, a maior bilheteria da história do cinema, tirando do posto “E.T.-O Extraterrestre”, do mesmo Steven Spielberg, que estava a nove anos com esse honorável título.