Não confundir esta produção com o maravilhoso “Sonhos”, de Akira Kurosawa, de uma proposta muito mais lúdica e original do que este árido filme independente norte-americano. Dirigido por Michel Franco (de “Depois de Lúcia”), esta realização vem com muito de sua visão pessimista sobre as irredutíveis escalas de valores na hierarquia social; nos dramas humanos de Franco as boas intenções, os sentimentos e qualquer outro expediente ficcional não haverão de mudar o fato de que os ricos e poderosos irão persistir no topo enquanto os despossuídos permanecerão exercendo o papel de explorados.
E, para pontuar esses tópicos neste filme de
Franco (imbuído de algumas amenidades tipicamente hollywoodianas, em comparação
com sua filmografia) é necessário esmiuçar sua trama até os desdobramentos
finais, quando spoilers poderão se
fazer inevitáveis.
O mexicano Fernando (Isaac Hernández) é um
imigrante ilegal a tentar obstinadamente a sorte nos EUA. Tal obstinação passa
pelo risco da morte, como atesta a cena inicial onde ele escapa, por muito
pouco, de uma captura pelas autoridades, e termina singrando as estradas
americanas quase transfigurado pela sede, pela fome e pelo cansaço. Uma forte
sensação de que adentramos a história com ela já em curso se apodera do
expectador quando, por fim, Fernando encontra (ou reencontra) Jennifer (Jessica
Chastain), membro de uma poderosa família cujos programas assistenciais da
empresa que possuem incluem projetos culturais de dança, entre os quais aquele
que trouxe Fernando para os EUA pela primeira vez (ele é um bailarino
profissional extremamente talentoso). Acontece que Jennifer e Fernando são
amantes e, nessa revelação, o protagonismo é então transferido dele, para ela.
Passamos assim a conhecer as circunstâncias de
Jennifer, a sutil pressão pessoal e profissional dentro da empresa onde ela
trabalha ao lado do pai (Marshall Bell, de “Cherry 2000”) e do irmão (Rupert
Friend, que atuou ao lado de Jessica num de seus primeiros trabalhos,
“Jolene”), lutando também para equilibrar as expectativas dos dois em relação a
ela. Daí que Jennifer, mesmo que romântica e sexualmente envolvida com
Fernando, não se sente confortável em assumi-lo perante a família e os
conhecidos.
O diretor Franco (amparado no roteiro escrito
por ele próprio) faz dessa dualidade afetiva o impulso de todos os conflitos
deflagrados: Fernando quer viver por conta própria e, se possível, ascender na
dança, e afasta-se de Jennifer, ainda que por pouco tempo; ela não deixa de
tentar rastreá-lo usando seus recursos e nem ele, tampouco, consegue se
convencer de que deseja distância dela.
É um drama contundente, sempre com foco nas
mazelas sociais dos imigrantes latinos nos EUA, mas com conotações românticas.
No fim das contas, é sobre Jennifer e Fernando, e a manutenção de seu
relacionamento que a narrativa irá sempre se desdobrar. Mesmo quando sequências
mais tensas surgirem, a envolver a extradição de Fernando de volta para o
México e sua consequente impossibilidade (exceto, pelos recursos ilegais e
perigosos) de voltar para seu sonho nos EUA.
Já adentrando seu terço final, quando os dois
se reencontram numa casa no México, descobrimos que foi Jennifer quem delatou
Fernando para a Imigração; ela o fez por uma série de pretextos mal esboçados:
Porque na iminência de tornar-se uma estrela dos palcos, os dois podiam não
mais ficar juntos. Porque o caminho que Fernando estava a trilhar em São Francisco
beneficiava ele, mas não a ela, dentro da relação. E porque ela queria, de
alguma forma, que ele seguisse dependendo dela e de sua influência.
Transfigurado pelo rancor, Fernando decide
converter a circunstância doméstica em que eles estão num arremedo alegórico da
própria situação dos imigrantes (e dele próprio) nos EUA, a fim de fazer
Jennifer compreender: Ele a prende dentro do quarto, sem que possa sair pra
fora da casa ou ir ao banheiro (as necessidades fisiológicas e higiênicas ela
deve fazer no recluso quintal da varanda, munida de papel higiênico e garrafas
d’água!).
É óbvio que a situação não se sustenta, e tudo
caminha para um desfecho que fará Jennifer priorizar menos seu afeto por
Fernando (agora seriamente comprometido) e mais sua condição de socialite norte-americana.





