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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sonhos


 Não confundir esta produção com o maravilhoso “Sonhos”, de Akira Kurosawa, de uma proposta muito mais lúdica e original do que este árido filme independente norte-americano. Dirigido por Michel Franco (de “Depois de Lúcia”), esta realização vem com muito de sua visão pessimista sobre as irredutíveis escalas de valores na hierarquia social; nos dramas humanos de Franco as boas intenções, os sentimentos e qualquer outro expediente ficcional não haverão de mudar o fato de que os ricos e poderosos irão persistir no topo enquanto os despossuídos permanecerão exercendo o papel de explorados.

E, para pontuar esses tópicos neste filme de Franco (imbuído de algumas amenidades tipicamente hollywoodianas, em comparação com sua filmografia) é necessário esmiuçar sua trama até os desdobramentos finais, quando spoilers poderão se fazer inevitáveis.

O mexicano Fernando (Isaac Hernández) é um imigrante ilegal a tentar obstinadamente a sorte nos EUA. Tal obstinação passa pelo risco da morte, como atesta a cena inicial onde ele escapa, por muito pouco, de uma captura pelas autoridades, e termina singrando as estradas americanas quase transfigurado pela sede, pela fome e pelo cansaço. Uma forte sensação de que adentramos a história com ela já em curso se apodera do expectador quando, por fim, Fernando encontra (ou reencontra) Jennifer (Jessica Chastain), membro de uma poderosa família cujos programas assistenciais da empresa que possuem incluem projetos culturais de dança, entre os quais aquele que trouxe Fernando para os EUA pela primeira vez (ele é um bailarino profissional extremamente talentoso). Acontece que Jennifer e Fernando são amantes e, nessa revelação, o protagonismo é então transferido dele, para ela.

Passamos assim a conhecer as circunstâncias de Jennifer, a sutil pressão pessoal e profissional dentro da empresa onde ela trabalha ao lado do pai (Marshall Bell, de “Cherry 2000”) e do irmão (Rupert Friend, que atuou ao lado de Jessica num de seus primeiros trabalhos, “Jolene”), lutando também para equilibrar as expectativas dos dois em relação a ela. Daí que Jennifer, mesmo que romântica e sexualmente envolvida com Fernando, não se sente confortável em assumi-lo perante a família e os conhecidos.

O diretor Franco (amparado no roteiro escrito por ele próprio) faz dessa dualidade afetiva o impulso de todos os conflitos deflagrados: Fernando quer viver por conta própria e, se possível, ascender na dança, e afasta-se de Jennifer, ainda que por pouco tempo; ela não deixa de tentar rastreá-lo usando seus recursos e nem ele, tampouco, consegue se convencer de que deseja distância dela.

É um drama contundente, sempre com foco nas mazelas sociais dos imigrantes latinos nos EUA, mas com conotações românticas. No fim das contas, é sobre Jennifer e Fernando, e a manutenção de seu relacionamento que a narrativa irá sempre se desdobrar. Mesmo quando sequências mais tensas surgirem, a envolver a extradição de Fernando de volta para o México e sua consequente impossibilidade (exceto, pelos recursos ilegais e perigosos) de voltar para seu sonho nos EUA.

Já adentrando seu terço final, quando os dois se reencontram numa casa no México, descobrimos que foi Jennifer quem delatou Fernando para a Imigração; ela o fez por uma série de pretextos mal esboçados: Porque na iminência de tornar-se uma estrela dos palcos, os dois podiam não mais ficar juntos. Porque o caminho que Fernando estava a trilhar em São Francisco beneficiava ele, mas não a ela, dentro da relação. E porque ela queria, de alguma forma, que ele seguisse dependendo dela e de sua influência.

Transfigurado pelo rancor, Fernando decide converter a circunstância doméstica em que eles estão num arremedo alegórico da própria situação dos imigrantes (e dele próprio) nos EUA, a fim de fazer Jennifer compreender: Ele a prende dentro do quarto, sem que possa sair pra fora da casa ou ir ao banheiro (as necessidades fisiológicas e higiênicas ela deve fazer no recluso quintal da varanda, munida de papel higiênico e garrafas d’água!).

É óbvio que a situação não se sustenta, e tudo caminha para um desfecho que fará Jennifer priorizar menos seu afeto por Fernando (agora seriamente comprometido) e mais sua condição de socialite norte-americana.

As obras de Franco têm essa característica (dos objetivos mais inocentes e puros em oposição desfavorável à realidade incontornável e esmagadora) e, desde pelo menos “Memory”, ele soube aproveitar o talento dramático de Jessica Chastain em personagens capazes de evidenciar essas inquietações. Aqui não apenas ela se revela esperta na condução de sua carreira (como produtora do projeto, ela mostra-se consciente dos papéis que lhe ressaltem a excelente atriz que é) como também se entrega a sequências eróticas e/ou sugestivas extremamente contundentes para uma estrela da sua estatura.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Acompanhante Perfeita


 O ideal seria que o expectador assistisse “Acompanhante Perfeita” sem absolutamente nenhuma informação prévia a respeito do filme, a fim de preservar toda a diversão notável embutida em seu roteiro de desdobramentos inventivos, contudo, como nos tempos digitalizados de hoje –onde a informação corre desenfreada para o bem e para o mal –isso é quase impossível, o leitor precisa saber que, como tantas outras resenhas de “Acompanhante Perfeita” na internet, esta aqui estará cheia de spoilers que, muito possivelmente, haverão de interferir na apreciação do longa-metragem.

O recente cinema de terror já conta com diversos títulos nos quais uma simulação tecnológica se voltar contra o ser humano –presenciamos as máquinas feitas à imagem e semelhança do homem se converterem em assassinos implacáveis, pelas mais variadas razões em obras como o banal, medíocre e erotizado “Subservience” (com Megan Fox) ou o terror genérico “Meg4n”. A grande sacada de “Acompanhante Perfeita” –ou, pelo menos, uma das mais evidentes, visto que ele é repleto delas –é observarmos esse enredo desdobrar-se pelos olhos não dos humanos inevitavelmente envolvidos no banho de sangue, mas, do ponto de vista de uma das máquinas –e, sim, só essa informação já é, de fato, um spoiler.

Iris (Sophie Thatcher, de “Herege” e da série “Yellowjackets”) é a namorada apaixonada, e ocasionalmente insegura, de Josh (Jack Quaid, filho de Dennis Quaid e astro da série “The Boys”). Durante um fim de semana numa sofisticada casa de campo isolada, a maior preocupação de Iris é entrosar-se com os amigos de Josh e não desagradar, de forma alguma, o namorado Os amigos em questão são a apática e antipática Kat (Megan Suri), seu namorado russo, milionário e proprietário do lugar Sergei (Rupert Friend) e os apaixonados Eli (Harvey Guillén, de “O Que Fazemos Nas Sombras”) e Patrick (Lucas Gage, da série “Euphoria”). Aqui e ali, o roteiro esperto do próprio diretor vai plantando detalhes que indicam o rumo imprevisto que os acontecimentos terão –são pequenos comentários, indícios e observações que farão diferença mais tarde; e talvez, tornem a revisão de “Acompanhante Perfeita” uma experiência igualmente divertida.

Acontece que Iris –embora ela mesma ainda não saiba –é um robô! Trata-se de uma máquina que serve de acompanhante (inclusive para fins sexuais!) e cuja programação a faz agir como se estivesse apaixonada por Josh. Entretanto, ele tem um outro plano para ela. Que inclui matar Sergei (a fim de colocar as mãos no dinheiro que, Josh sabe, ele guarda num cofre em seu quarto) e colocar a culpa em Iris, afirmando que isso ocorreu por mau funcionamento.

No entanto, no decurso desse plano, algo inesperado acontece: Iris encontra meios para fugir e para burlar sua própria programação, eliminando algumas restrições, aumentando sua inteligência e exercendo o livre-arbítrio para tentar fazer o que qualquer um tentaria: Sobreviver.

Mescla notável e inspirada de suspense, terror, ficção científica e comédia, o filme dirigido por Drew Hancock é corajosamente inclinado às reflexões mais cínicas de contundentes obras recentes de cinema em relação ao julgamento moral do ser humano (e nesse sentido, é  brilhante “Ex-Machina” quem imediatamente vem à memória) –não há qualquer constrangimento da parte de sua premissa em levar o público a torcer pela robô, colhida inocentemente no olho do furação naquele jogo mesquinho de interesses, em detrimento dos seres humanos desprezíveis e desagradáveis mostrados no filme.

Essa conclusão um tanto amarga presente em inúmeras obras de ficção científica –com certo destaque na excelente série “Black Mirror” –não chega a contaminar o entretenimento eficaz que é “Acompanhante Perfeita” graças ao manejo habilidoso dos acontecimentos, à sucessão envolvente e inteligente de reviravoltas que vão continuamente revitalizando o interesse do expectador, e ao ritmo incessante e bem articulado com que tudo é contado.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Asteroid City


 As obras de Wes Anderson flertam a todo o instante com o estranhamento. Um filme seu corresponde ao caminhar sobre uma corda bamba; o grande achado em seu cinema é o equilíbrio improvável entre a queda drástica rumo à incompreensão e à esquisitice que sempre o assombram e a continuidade de dinâmicas, premissas e dramas que se preservam interessantes, emocionantes e inteligíveis graças ao seu talento. Entretanto, num ou noutro caso pode haver um escorregão –e o exemplo mais patente disso é, na filmografia de Wes Anderson, “A Vida Marinha de Steve Sizou”. À ele junta-se agora este “Asteroid City”.

Como o fizera em “O Grande Hotel Budapeste”, Anderson começa explorando uma narrativa de metalinguagem na qual o filme a se desenrolar mais afrente é, na realidade, um peça de teatro –filmada em preto & branco, na intenção de diferenciar a encenação da trama principal –cujo autor Conrad Earp (Edward Norton) e todo seu séquito de intérpretes são introduzidos ao público pela narração algo irônica e vintage do ator Bryan Cranston.

Quando a peça se iniciar –e o filme, por conta disso, adquirir cores –irá se iniciar também sua trama principal; que, numa das ironias do projeto, tem muito pouco, ou quase nada, de teatral: Asteroid City é o nome de um lugarejo que mal pode ser definido como cidade; um apanhado de instalações (um hotelzinho; uma oficina; um restaurante; um posto militar e pouco mais que isso) que, em meados da década de 1950, cercam o local onde, anos antes, um asteróide lendário caiu. E sua cratera, com todas as ênfases turísticas, se encontra lá. A câmera de Anderson explora –com sua típica observação fria e simétrica –todo esse ambiente aberto num dos primeiros takes, indicando a propriedade hiperlativa da direção de arte e da direção de fotografia, criando juntas, em conjugação, um cenário a um só tempo irreal, impressionante e paradoxalmente autêntico que se enquadraria bem numa narrativa de Federico Fellini, não fosse a pontual e infalível modernidade de suas inserções digitais.

O elenco reunido em “Asteroid City” é vasto e espetacular, daqueles que pouquíssimos diretores tem gabarito capaz de reunir num único projeto, e eles defendem, todos, personagens capturados em suas excentricidades, perplexos diante de uma tristeza a brotar de lugares inesperados. Há, por exemplo, Augie Steenbeck, vivido por Jason Schartzman, que levou os quatro filhos (um rapazinho e três garotinhas trigêmeas) para Asteroid City a fim de finalmente revelar a eles que sua mãe (vivida por Margot Robbie, numa breve cena como a atriz que a interpretaria) faleceu à três semanas (!?). Com seu carro avariado –devido à uma pane que o incompetente mecânico local (Matt Dillon) é incapaz de consertar –eles resolvem ficar por lá, à espera de seu sogro, Stanley (Tom Hanks) que, a despeito da ligeira indisposição com Augie, segue para lá de carro para resgatá-los. Existem ainda June (Maya Hawke), jovem professora tentando administrar os interesses ocasionais de seus jovens  alunos; Midge Campbell (Scarlett Johansson) dona de casa em crise cuja relação com a filha (Grace Edwards) acentua ainda mais sua predisposição à depressão; J.J. Kellog (Liev Schreiber) um turista eventual, constantemente à beira de um ataque de nervos graças às provocações do próprio filho; além de toda fauna de estudantes, pais, professores e cientistas de uma convenção científica realizada lá (a reunir rostos como Sophia Lillis, Rupert Friend, Tlida Swinton e outros); e os militares basicamente representados pelo oficial displicente e indiferente (Jeffrey Wright) e seu subalterno (Tony Revolori).

O vazio existencial estranhamente cômico de cada um desses personagens ganha um novo viés quando Asteroid City é visitada por um alienígena (Jeff Goldblum) –cuja aparição converte brevemente o filme numa animação, outra área de atuação do diretor Wes Anderson, vide o maravilhoso “Ilha dos Cachorros” –e o governo ordena que seja imposta uma quarentena. Confinados naquele espaço, todos os personagens estabelecem uma rotina por meio da qual não apenas convivem uns com os outros, mas também com suas próprias idiossincrasias –material que faz muito o gosto do diretor –sem que aquilo jamais gere, na realidade, um microcosmos: O trabalho de Wes Anderson, bem como sua visão particular de cinema e de mundo, terminam sendo pessoais e peculiares demais para que se possa estabelecer algum tipo de analogia. E quando cai a pergunta “Então sobre o quê exatamente versa o filme?” é quando os problemas de “Asteroid City” começam a se acumular de verdade.

Diferente de outros trabalhos de Wes Anderson nos quais sua sensibilidade conseguiu alcançar o público, emocionando-o ou levando-o a refletir (ou ambos), em “Asteroid City” há um distanciamento resultante, tal é a sensação de alienação que a situação mirabolante e os personagens idiossincráticos, somados, passam ao expectador. “Asteroid City” poderia ser sobre a paranóia atômica de outros tempos, numa curiosa equação com o presente, mas é deveras gaiato e caricatural para isso; poderia ser sobre a pluralidade norte-americana e de como mentalidades e posicionamentos mais nos afastam do que nos aproximam, mas é inacessível em sua insistência no alternativo. Termina sendo um trabalho modorrento e desafiador para os expectadores menos pacientes, capaz de agradar aos fãs incondicionais do diretor, e somente a eles.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Menino do Pijama Listrado


Em 2008, esta adaptação da obra de John Boyne emocionou muitos expectadores (e ainda emociona) com sua trama sobre os típicos horrores da Segunda Guerra Mundial aliada a uma denúncia que inclui o sofrimento de personagens infantis –uma manobra que invariavelmente arrebata qualquer indiferença do público.
Entretanto, poucos pararam para notar o quanto esta produção pega emprestado de uma obra muito superior: O clássico francês "Adeus, Meninos" de Louis Malle.
Como nele, é pelos olhos de um garotinho que enxergamos uma rotina cujos pequenos e incipientes detalhes fazem nossa percepção de adultos notar o horror que as distraídas crianças não notam –e já se pode debitar do mestre Malle um dos elementos mais notáveis desse filme.
O garotinho em questão, protagonista deste filme, é Bruno (Asa Butterfield, de “A Invenção de Hugo Cabret”), o filho de sete anos de um graduado oficial nazista (David Thewlis, sempre tirando de letra a ambigüidade desses personagens).
De pura ascendência alemã, Bruno vai com seu pai e sua mãe (a maravilhosa Vera Farmiga) e um campo de concentração onde seu pai é promovido como comandante.
Entediado pelas restritivas regras do lugar, Bruno encontra uma brecha no muro que separa a mansão onde sua família mora e todo o resto do lugar –que, sob rígida orientação, ele não deve visitar.
Inocente quanto às razões da guerra, o garotinho se intriga com a vestimenta das pessoas que encontra perambulando pelo campo de concentração.
Na ingenuidade de Bruno aqueles trajes parecem pijamas (na realidade, são prisioneiros judeus) e diante disso, ele não vê porque não se tornar amigo de um menino que conhece do outro lado da cerca. O menino é Shmuel (Jack Scanlon). É careca, está sempre vestido com o mesmo pijama que os outros prisioneiros e, embora tenha a idade de Bruno, não tem o mesmo tamanho nem o físico saudável que ele.
O diretor Mark Herman trabalha em cima de uma história que dificilmente seria ignorada por uma parcela do público ávida por uma tragédia historicamente relevante e comercialmente pasteurizada –e é exatamente isso que o filme é: Um produto que almeja bilheteria e consagração em cima de atrocidades reais tão mais forçosamente tocante pela maneira com que faz lembrar, nas entrelinhas, que esse é um sofrimento que o expectador está isento de experimentar.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Jovem Rainha Vitória

O diretor Jean Marc-Valée sempre demonstrou na elevada qualidade de seus trabalhos, uma capacidade inata de ressaltar o imenso potencial de entendimento entre seus ótimos intérpretes e os personagens de suas tramas. Em “A Jovem Rainha Vitória”, essa regra se cumpre com gosto: No papel de Vitória, Emily Blunt flutua com carisma, desenvoltura e força pelos ambientes empostados deste filme de época. Com ela, cada reunião de cúpula, cada obrigação aristocrática parece uma aventura. Foi realmente uma injustiça não tê-la indicado ao Oscar (prêmio que o filme terminou conquistando só no departamento de Melhor Figurino).
Única herdeira ao trono inglês, Alexandrina Vitória Regina sofre, desde muito cedo (ainda menina), as tentativas de influência daqueles que a cercam, que vão desde sua mãe (Miranda Richardson) e seu manipulador conselheiro Conroy (Mark Strong), até o tentacular Lord Melbourne (Paul Betany, o Visão de “Vingadores-A Era de Ultron” e “Capitão América-GuerraCivil”).
Logo, Vitória encontrará na amizade com o Príncipe Albert (o ótimo Rupert Friend, obtendo com Emily uma química fenomenal), da Alemanha, um alento para tantas intrigas. Assim, a personalidade destemida e intrépida de Vitória descobrirá, ao longo dos anos e das situações, os caminhos tortuosos da monarquia, adquirindo a confiança com a qual ela dará seus primeiros passos como rainha.
Despido do peso habitual que acompanha os densos filmes de época que têm por hábito se debruçar sobre históricas intrigas palacianas, este roteiro notável de Julian Fellowes (roteirista de “Assassinato Em Gosford Park” e criador da série “Downton Abbey”) tem a salutar qualidade de propor um convite ao expectador: Conhecer ali, naquelas ardorosas atribulações pontuadas pelo crescimento de sua protagonista, (seja esse crescimento físico, seja ele existencial, graças à plenitude sutil na atuação de Emily Blunt), a obstinação de uma jovem perante responsabilidades que se mostraram, desde sempre, imensuráveis; vislumbrar a dinâmica escorregadia, traiçoeira e perigosa que costuma se estabelecer entre o jogo do poder, a vaidade da fama, a ambigüidade da política e o orgulho da realeza; e testemunhar, encantado, o amor entre Vitória e Albert encontrar passagens em cada uma dessas brechas noscivas, para então definir a força de todo um reinado.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Jolene

Infelizmente inédito no Brasil, este bom trabalho de Dan Ireland (mais conhecido por “A Whole Wide World”, uma semibiografia do escritor Robert E. Howard, também inédita por aqui), destaca-se por ser uma interessante adaptação de um conto de E.L. Doctorow (o mesmo escritor de “Na Época do Ragtime”), e por ser, real e de fato, o filme que revelou Jessica Chastain. Ainda que o estrelato, todos concordem, ela obteve a partir de “A Árvore da Vida”.
“Jolene” é quase uma crônica da vida classe média da América, pelos olhos de uma jovem que experimenta fases bastante distintas da vida. No início ela casa-se com um jovem ingênuo, que representa uma vida convencional, mas o trai com o próprio tio e acaba expulsa de casa. Partindo pela estrada afora, Jolene se envolve em inúmeras encrencas e com inúmeros namorados: Vai parar até mesmo em um presídio feminino, onde cai nas graças de uma das guardas da prisão, para depois tentar reconstruir a vida trabalhando como stripper; casando com um gangster (Chazz Palminteri, uma das muitas participações especialíssimas do filme); conhecendo um rapaz que aparentemente é o homem de sua vida –e do qual tem um filho –mas, que revela-se, com o tempo, um marido violento.
A impressão que temos é que, cada vez que se recupera de mais uma rasteira da vida, Jolene se depara com novas atribulações e tristezas.
O tipo de personagem, portanto, que nas mãos de um atriz capaz rende um trabalho todo ele memorável e singular (como aconteceu aqui, com a maravilhosa Jessica, e como aconteceu também em “Noites de Cabíria” com Giulietta Masina, ou em “Piaf-Um Hino Ao Amor” com Marion Cotillard, ou em “Duas Mulheres” com Sophia Loren, só para citar alguns exemplos), mas em mãos erradas e de talento insuficiente, podem afundar um filme (e essa é uma lista que tenho preguiça de elaborar).
Um dos méritos de “Jolene” é ter sido, por algum tempo, o único filme agraciado com cenas de nudez de Jessica Chastain, isso pelo menos até ser lançando o ótimo “Os Infratores” –e sem contar com “Wilde Salomé”, o primeiro filme do qual ela participou, que traz uma cena de topless, mas que nunca foi lançado, apenas exibido em festivais.

A despeito do fato mundano dela aparecer nua no filme, é o talento de Jessica que pulsa a cada cena, fazendo de “Jolene” uma bela oportunidade para testemunhar uma atriz bela e talentosa revelar-se e ascender, e com isso, levar todo um filme junto com ela.