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sexta-feira, 17 de junho de 2022

Um Homem Bom


 Mais do que as histórias sobre a Segunda Guerra Mundial que retratam o Holocausto em si, há também uma vertente que passou a explorar as atrocidades do nazismo de um ponto de vista interno; no geral, alemães que testemunharam a gênese de todo o mal e se viram oprimidos pela ascensão de um ódio inconcebível. Dentro das variações curiosas desse, digamos, subgênero podemos destacar o filme autenticamente alemão “O Barco-Inferno No Mar”, o fenomenal “Cabaret”, o norte-americano “Os Últimos Rebeldes”, as duas versões de “Operação Valkiria”, o recente (e ótimo) “Jojo Rabbit” e muitos outros –embora tudo talvez tenha começado com “O Homem Do Castelo Alto”, de autoria do escritor Phillip K. Dick.

A obra dirigida pelo brasileiro Vicente Amorim busca se inserir entre esses exemplares.

Nele, Viggo Mortensen interpreta John Halder, alemão que, em meados da década de 1930, é um mero professor universitário com tímidas aspirações literárias, e uma vida doméstica cheia de atropelos, ainda que normal: A esposa, tuberculosa, vive doente, deixando o cuidado da casa e dos filhos para ele. A mãe (Gemma Jones, de “Razão & Sensibilidade”) está à beira da senilidade, e o sogro lhe apurrinha para ingressar num certo partido socialista,

As mudanças na vida de Halder chegam lentamente. Ele conhece e se apaixona por uma de suas alunas, Anne (a maravilhosa Jodie Whittaker, da série “Doctor Who” e do filme “Vênus”), por quem, mais tarde, abandona a família e vem a desposar a medida que sua mudança de status social exige uma esposa mais adequada. É consequente, portanto, que a reviravolta mais radical experimentada pelo protagonista diga respeito à sua profissão: Autor de um livro fictício sobre os impulsos humanos no ato da eutanásia cujo argumento cai nas graças do próprio Hitler em pessoa, Halder é chamado à Alta Cúpula Nazista como uma espécie de adereço intelectual ao séquito do Fuhrer, o que não deixa de lhe proporcionar toda influência e prosperidade material de um oficial nazista.

Entretanto, como na obra-prima “Mephisto”, de István Szabó, o personagem principal guarda uma decência interna que o faz se enojar com os rumos nacionalistas de seu país. Diferente daquela produção, contudo, o filme de Amorim nem sempre trasmite tal circunstância com a riqueza de nuances que ela poderia ter.

Há, por exemplo, a questão da amizade entre Halder e o psicanalista judeu Gluckstein (Jason Isaacs), a relação mais explorada em todo o roteiro, na qual o protagonista testemunha o cerco se fechar ao redor do amigo, lutanto por vezes com seus próprios fantasmas, para poder mantê-lo em segurança. Não faltaram exemplos, no passado, em que tais enredos foram explorados com primor para deles extrair valiosas e pertinentes lições morais sobre os perigos da omissão, o valor da vida e a importância inegociável da liberdade, mas, a direção de Amorim parece sentir-se demasiado oprimida em meio à uma produção de escopo tão nitidamente maior do que aquelas com as quais trabalhou em terras brasileiras (que inclue o drama “O Caminho das Nuvens”).

Seu registro da vida de Halder em família, por exemplo –trecho que ocupa o primeiro terço do filme –é prosaico, banal e sem profundidade, perdendo a chance de fundamentar o interesse do público pelo personagem e de nele criar a necessária empatia. O próprio Viggo Mortensen, notoriamente um grande ator, oferece uma atuação inquieta, hesitante e perplexa, fruto da segurança que um diretor mais firme passaria ao intérprete. Todos esses pequenos lapsos se somam conforme o filme avança, transformando-o numa realização pouco marcante; sem a devida conexão com o protagonista assim estabelecida, o expectador pouco se importa com os rumos de sua história, com o esfacelamento de sua família, a descoberta de um matrimônio cada vez mais vazio ou a dissolução do único vínculo genuíno que possuía, a amizade com Gluckstein.

Nesse sentido, mesmo seus mais notáveis acertos –a interessante manobra narrativa na qual a mesma senilidade herdada da mãe começa a acometer Halder através de súbitas inserções musicais que surgem em meio às cenas –ficam à sombra de seus equívocos –o fôlego limitado para mostrar o quão lamentável é, para o espírito humano, esteja ele do lado que estiver, a circunstância da guerra.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Cruella


 Em princípio, parece que “Cruella” segue a fórmula estabelecida por “Malévola”, na qual narrativas clássicas da Disney (como “A Bela Adormecida”, no caso) ganham nova roupagem, sobretudo, no que diz respeito à revisão do papel de suas antagonistas, de vilãs unilaterais para criaturas mais ambíguas, humanas e incompreendidas.

E isso está definitivamente nos planos do diretor Craig Gillespie –cujo filme também se irmana aos live-actions da Disney refilmando suas clássicas animações como ocorreu com “Mulan” –embora Gillespie saiba acrescentar originalidade, audácia e brilhantismo o bastante para dar a este projeto autêntica razão de ser.

Pois, “Cruella” –cuja animação-fonte trata-se do encantador porém imperfeito “101 Dálmatas” (uma obra da Disney realizada quando o estúdio já empregava atitudes mais econômicas em contraste com os arroubos técnicos do passado) –parte daí para tentar humanizar e até justificar os atos e comportamentos de uma das mais maldosas vilãs de sua galeria: A terrivelmente intratável Cruella de Vil (Malvina Cruella na versão brasileira clássica do desenho).

É um tendência curiosa da parte de Disney, essa de aprofundar as motivações do mal a ponto de tornar seus vilões personagens relacionáveis de tal forma que a própria pecha de ‘vilões’ deixa de fazer algum sentido –e com isso, “Cruella” ganha também similaridades (como bem a crítica reparou) com o recente e elogiado “Coringa”, de Todd Phillips, onde um vilão de quadrinhos se torna pretexto para todo um ensaio sobre injustiça e opressão, além de palco para um estilo tão charmoso quanto anacrônico; “Cruella” se beneficia da brilhante reconstituição do movimento punk-rock da Londres dos anos 1970, na observação de seus figurinos (algo central à sua premissa), na própria atitude inconformista da personagem principal e, certamente, na trilha sonora (onde comparecem hinos inevitáveis como os fabulosos “Should I Stay Or Should I Go”, do The Clash, ou “Sympathy For The Devil”, dos Rolling Stones). Se “Malévola” remanejava características da trama principal a fim de  beneficiar a índole daquela que antes era a vilã da trama, em “Cruella”, o talento de Gillespie fala alto ao moldar sua protagonista sem desviar-se de seu temperamento problemático, egoísta e vingativo, mas centralizando-a com habilidade numa trama escrita com primazia, onde os elementos bem ordenados compõem, a um só tempo, uma história de origem, e um prequel eficiente e plenamente satisfatório dos eventos vistos na animação.

A garota Stella nasceu com uma peculiaridade que a tornava basicamente um alvo dos bullies durante sua fase escolar: Seu cabelo era naturalmente dividido entre completamente branco de um lado e completamente negro de outro. Sua mãe (Emily Beecham) até tenta conter o ímpeto combativo de Stella durante seu crescimento, até que, ao ser expulsa da escola, Stella e a mãe seguem rumo ao que parece ser um parente distante. Nos eventos que se seguem, Stella acaba vendo sua mãe morrer (!) pelo que ela passa o resto da vida acreditando ter sido um erro seu.

Já crescida (e interpretada com fulgor intuitivo e carisma inconteste por Emma Stone) e acompanhada de dois vigaristas de rua que se converteram em sua família, Jasper (Joel Fry) e Horacio (Paul Walter Hauser, ator presente no fantástico “Eu, Tonya”, também dirigido por Gillespie), Stella vê a chance de deixar a vida de roubos para trás e realizar seu antigo sonho de ascender como um gênio da moda: Ela consegue uma vaga de emprego na House Of Baroness, ateliê comandado pela milionária, lendária e tirânica Baronesa Von Hellman (Emma Thompson, esbaldando-se no papel).

Mas, como sempre, Stella não encontra terreno fértil para suas boas intenções, e a mesquinhez e a perfídia de todos os coadjuvantes que a cercam levam-na a deixar seu lado perverso e implacável aflorar: Assim, Stella deixa de ser a jovem compassiva (e de cabelo tingido com mais normalidade) para assumir a persona de Cruella que, além de ostentar orgulhosa sua cabeleira bicromática, representa uma misteriosa e competitiva rival para o papel de diva fashion até então esclusivo da Baronesa.

Esse elemento ao estilo “O Diabo Veste Prada” (cuja roteirista, Alice Brosh-McKenna, não por acaso, é argumentista deste filme ao lado de Kelly Marcel e Steve Zissis) determina o contexto de “Cruella” e ambienta o formidável e divertido duelo do qual o filme se incumbe: Não apenas as personagens são fulgurantes em suas índoles indomáveis como também as duas fenomenais intérpretes (as duas Emmas!) privilegiam o expectador com um embate sensacional de atuações moduladas na medida certa: sutil o suficiente para não caírem no caricato, expressivas o bastante para não se tornarem inapropriadas ao gênero que abordam.

O manuseio inspirado de suas ferramentas narrativas coloca “Cruella”, ao fim, no ponto ideal para o início da trama original vista em “101 Dálmatas”, entretanto, a dúvida vai ser como a continuação (já anunciada e com a presença de Emma Stone garantida) conseguirá se fazer relevante, afinal, o próprio “101 Dálmatas” já ganhou uma versão em live-action (muito antes da Disney transformar isso num hábito) nos anos 1990, onde Cruella era vivida por Glenn Close, até então uma atriz vista como perfeita para o papel. Contudo, depois deste trabalho efusivo e brilhante dificilmente alguém irá questionar a fabulosa adequação de Emma Stone à personagem.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

1917

“No céu ou no inferno, não importa o caminho. Viaja mais rápido aquele que viaja sozinho”
Não resta dúvida de que há um dado muito pessoal na missão do soldado Blake (Dean-Charles Chapman) de levar uma mensagem a um oficial nos postos avançados para que interrompa um ataque imimente, pois o inimigo já lhes preparou uma armadilha –o irmão mais velho de Blake serve naquele mesmo regimento e é uma das inúmeras vidas que o sucesso de sua missão poderá salvar.
Instruído a escolher um companheiro, Blake não titubeia ao optar pelo Cabo Schofield (o ótimo George MacKay, de “Capitão Fantástico”), o protagonista de fato do filme, ao lado de quem deverá atravessar toda a chamada Terra de Ninguém –todo o trecho desolado, lamaçento, vasto e altamente perigoso que separava as duas trincheiras inimigas, e no qual toda sorte de perigos poderia acometer a qualquer desavisado.
Assim, em linhas gerais e com uma simplicidade que lhe confere ainda mais poder, se constrói este épico de guerra do diretor Sam Mendes, realizado a partir de experiências que seu avô, Alfred H. Mendes (a quem o filme é dedicado), vivenciou durante a Primeira Guerra Mundial.
A trajetória como diretor de cinema de Mendes é curiosa: Ele começou no teatro para então estrear no cinema com o premiado “Beleza Americana”. Suas obras seguintes –“Estrada Para A Perdição”, “Soldado Anônimo” e “Foi Apenas Um Sonho” –revelaram sua versatilidade para temas de natureza introspectiva, seu apreço pelo drama humano e sua inspirada e diversificada experimentação com técnicas de filmagens.
Guardadas as devidas proporções, tudo isso nos leva à realização de “1917”.
Há nele, um pouco de tudo o que Sam Mendes tentou e testou como cineasta: Lá está o enfoque nas angústias pessoais dos soldados comuns; a experiência adquirida refletida em diversas técnicas cinematográficas empregadas com primazia; o conhecimento de ritmo e da relação entre a narrativa e as cenas de ação descobertas durante sua passagem na série “James Bond” (dos quais Mendes dirigiu o magistrial “007-Operação Skyfall” e o bom “007 Contra SPECTRE”); e seu incontornável apreço pelo teatro.
Sim! Pois, ainda que essencialmente cinematográfico, é de certa origem teatral a proposta que “1917” oferece ao público: Tal como “Birdman”, o trabalho de Mendes desenvolve sua história e todos os percalços impostos aos protagonistas por meio do que parece ser um único plano-sequência.
A diferença: Enquanto “Birdman”, ao versar sobre teatro, ambientava-se todo em um teatro de fato, Mendes põe em prática todos os anos de conhecimento técnico, seus e de sua equipe, para levar a câmera a acompanhar seus personagens ininterruptamente em cenas tidas até outro dia por impraticáveis.
Um avanço jamais sonhado por Alfred Hitchcock quando fez, nos mesmos termos, seu “Festim Diabólico”.
Ao contrário da grande maioria das experimentações com plano-sequências feitas até então –e que, em grande parte, se concentravam numa única grande cena e não em todo um filme –a obra de Mendes não tenta se restringir ao confinamento de um só ambiente, ou a uma encenação dialogada, nem cria subterfúgios para um filme mais loquaz e menos eletrizante: Ele abraça tudo o que significar ser um filme de guerra, com batalhas –algumas envolvendo até aviões! –cenas de ação, de tiroteio, de perseguição e muitos, muitos momentos de suspense.
Essa demonstração acachapante de perícia técnica só funciona porque Sam Mendes faz uma série de escolhas certeiras, confiando na própria percepção de espetáculo e intimismo –e no bom senso de saber discernir e administrar numa narrativa o começo de um e o final de outro –encontrando nos ombros do expressivo George MacKay um brilhante e admirável apoio, valendo-se de um desenho de som plenamente arrojado (onde a intensidade do silêncio é quebrada por tiros capazes de fazer pular da cadeira) e usando os predicados de uma direção de fotografia nunca menos que genial para compor uma das mais sensacionais experiências imersivas dos últimos anos.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Shazam!

Nesta nova tentativa da Warner/DC de emplacar um sucesso (sobretudo, de execução), o escolhido foi um super-herói que não gozava do amplo reconhecimento de Batman ou Superman (bom sinal, sem pensarmos que isso traz mais despretensão e menos expectativa para o projeto) e que, a sua maneira, protagonizou um pequeno conflito de interesses entre as famosas editoras DC Comics (a qual pertence) e Marvel Comics (que certamente dispensa apresentações): Batizado Capitão Marvel, tal super-herói (que se transforma, de um garoto adolescente num herói de corpo adulto e super-poderes à menção da palavra ‘Shazam’), entrou em controvérsia já que a Marvel possuía seu próprio Capitão Marvel, assim como sua “Capitã Marvel” –cuja adaptação cinematográfica da Marvel Studios estreou nos cinemas em uma data bastante aproximada da deste daqui.
Com esse conflito, a editora DC optou por deixar de lado aquela alcunha original em prol do título “Shazam!”; e a piada em torno de não haver um nome definido para o herói protagonista acaba sendo tão recorrente aqui que às vezes se arrisca a ficar repetitiva.
Entretanto, não há como negar que “Shazam!” faz mais bem do que mal.
A Warner/DC, se fracassou de forma homérica em tentar estabelecer um universo como o da Marvel no cinema, ao menos deu sinais de recuperação quando “Aquaman” provou que aquele panteão de heróis podia render filmes de qualidade.
Aqui não só esse objetivo é novamente atingido como também trata-se do mais bem-humorado e descontraído filme a envolver esses personagens até então, normalmente marcados por um tom soturno e sombrio que remete aos filmes de Zack Snyder.
E há uma razão para isso: O personagem principal, Billy Batson (Ashel Angel), é um garoto de 14 anos. Apesar de orfão e obcecado em encontrar a própria mãe que dele perdeu-se quando tinha poucos anos de idade –e que o levou assim a uma vida em lares de adoção –Billy, como todo garoto de sua idade, se empolga com os vislumbres ocasionais das pessoas superpoderosas que surgem no universo em que vive (sem saber que está prestes a se tornar uma delas).
No mais recente lar de acolhimento no qual foi parar, Billy conhece Freddy (Jack Dylan Grazer, de “It-A Coisa”), jovem portador de poliomilite fixado por super-heróis, cujo amplo conhecimento teórico nesse quesito vem bem a calhar: Numa ocasional viagem de metrô, Billy acaba transportado para os domínios de um certo mago (Djimon Hounsou) que a ele transfere grandes poderes –basta falar seu nome e um relâmpago transforma o garoto normal num adulto (interpretado com entusiasmo transbordante por Zachary Levi), trajado nas vestes fantásticas de um herói e dotado dos mesmos poderes de um (superforça, invulnerabilidade, capacidade de voar e de emitir raios das mãos).
Na evidência de sua premissa, não é preciso fazer muito esforço para perceber a grande influência cinematográfica que o diretor David F. Sandberg usará a partir daí: O clássico oitentista “Quero Ser Grande”, com Tom Hanks, que tanto lhe serve de modelo para o tom de sua comédia quanto para a abordagem de seu personagem principal; e ainda, caso não tivesse ficado bem óbvio, ganha um referência absolutamente explícita à cena de dança sobre o piano num trecho do filme.
Porém, “Shazam!” também pertence ao universo DC (ou ao que dele restou após tantos equívocos), e as referências ao Batman e ao Superman (e a outros heróis e personagens aqui e ali) são também elas constantes.
É um deleite constatar que apesar disso, o diretor Sandberg não esquece a própria trama: Outrora uma criança desprezada na seleção pelos poderes realizada pelo mago Shazam, o maquiavélico Dr. Silvana (Marc Strong) elabora um plano para adquirir aliados sobrenaturais na forma dos demoníacos Sete Pecados (as monstruosidade que o mago tentava manter aprisionadas) e usurpar os poderes do próprio Shazam.
O que vem a colocar Billy, o herói, em rota de colisão com Silvana, o vilão.
Está longe de ser uma fórmula original (a origem do herói; a descoberta dos poderes e sua gradual aprendizagem de como emprega-los, assim como a conscientização de seus deveres), e seu diretor sabe disso: Hábil, Sandberg imprime o máximo de humor leve e aventura escapista a fim de tornar essa uma obra fluida, divertida e agradável.
Não escapa de alguns excessos inerentes de quem quer muito agradar: “Shazam!” frequentemente exagera nas piadinhas juvenis e na ingenuidade destrambelhada de seus protagonistas, além de se exceder na duração (não casa bem a uma produção que almeja ser tão descontraída ou despretensiosa ultrapassar as duas horas).
No entanto, graças à euforia contagiante de seus personagens, à empatia predominante de todo o elenco e a outras escolhas pertinentes de sua direção, “Shazam!” troca a densidade saturada e o pessimismo lúgubre de “O Homem de Aço” ou “Batman Vs Superman” por uma bem-vinda leveza.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A Legião Perdida


Diretor dotado de personalidade e orientação próprias, passa longe da intenção de Kevin MacDonald (de “O Último Rei da Escócia”), ao revisitar a lenda da Nona Legião de Roma desaparecida, reprisar o épico de Ridley Scott, “Gladiador” –muito de sua estrutura e estilo, inclusive, foge dessa comparação.
A Nona Legião de Roma foi uma das muitas que fizeram incursões pelo norte inexplorado da Bretanha, quando o Império Romano buscava arduamente estender ao máximo seus domínios. Foi, entretanto, a única que não regressou: Diante de seu misterioso desaparecimento, o Imperador Adriano decretou a construção de uma grande muralha que determinava os limites do mundo conhecido –para além de suas fortificações, ficavam as terras ermas das selvagens tribos bretãs, certamente responsáveis pelo desaparecimento de tantos soldados.
A trama do filme de MacDonald –na única similaridade maior com o filme de Scott –pega emprestada a história real para dela fazer o eixo que impulsa seu enredo fictício.
Channing Tatum é, assim, Marcus Flavius Aquila, oficial romano designado para um dos entrepostos na Muralha de Adriano e filho do capitão da lendária Nona Legião.
Passados vinte anos do ocorrido, Marcus deseja, acima de tudo, restaurar a honra do nome da família; desde então, as especulações até cogitam a possibilidade de seu pai ter entregue o estandarte da águia, o símbolo da honra de Roma, para os inimigos.
Servindo como oficial, Marcus demonstra grande bravura, liderando suas tropas contra selvagens ofensivas dos nativos –e numa batalha é severamente ferido.
Enviado duzentas léguas ao sul, na mansão de um tio (Donald Sutherland), Marcus conhece o escravo Esca (o sempre ótimo Jamie Bell) quando este demonstra nobreza incomum numa arena –tão incomum que Marcus salva sua vida, o que deixa Esca em eterna dívida para com ele.
Quando surge um vago indício de que o estandarte de uma águia romana (certamente o do Nona Legião), foi tomado por uma tribo nortista de bretões, Marcus toma a decisão de seguir com Esca para além da Muralha de Adriano, e encontra-la, a fim de restaurar em definitivo a honra de seu pai e de sua família.
Mal sabe Marcus, porém, que sua jornada será ainda mais dolorosa e difícil do que ele poderia imaginar: Para além daquela fronteira, no inóspito mundo desconhecido, os conceitos de mestre e escravo que vinculam Marcus e Esca nada significam –mais, podem encontrar circunstâncias que até os inverterão! –e a sobrevivência de ambos, em meio à tribos cuja hostilidade está à flor da pele, pode depender de uma lealdade que eles não necessariamente serão capazes de manter um pelo outro.
Mais do que enfatizar a coreografia das batalhas –embora ele até dê uma colher de chá com alguns conflitos bem executados –o diretor MacDonald prefere se esbaldar com o suspense intenso inerente ao fato de seus protagonistas se lançarem numa missão insana nos confins distantes de um mundo selvagem, com o registro naturalista e autêntico (característico de um documentarista) de uma região onde a natureza se revela rica em texturas, humidade e perigos, e com a dinâmica fascinante entre Marcus e Esca, na qual a tensão se faz presente pelos ressentimentos representados pelos povos antagônicos a que eles pertencem, e pela constante mudança hierárquica que sua atribulada jornada promove entre os dois.
Curiosamente, num acaso que costuma assombrar algumas produções hollywoodianas, “A Legião Perdida” foi lançada no mesmo ano, 2011, que um outro filme, também ele girando em torno do mito da Nona Legião, o bem mais modesto “Centurião”, com Michael Fassbender.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Syriana - A Indústria do Petróleo


Como em “Traffic” –o filme pelo qual venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado –a estréia como diretor de Stephen Gaghan, “Syriana”, é uma trama que amplifica seu tema central por meio de três linhas narrativas fragmentadas que se ramificam e se complementam ao longo do filme.
De um lado, temos o agente da CIA Bob Barnes (George Clooney, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mas certamente o personagem principal do filme) cuja experiência em lidar com os meandros complexos das negociações armamentistas travadas entre células terroristas conquistou o milagre de mantê-lo vivo esses anos todos; ironicamente, sua derrocada parece vir de dentro da própria CIA quando seus superiores começam a mover um plano para torná-lo bode expiatório numa circunstância que tornou-se desfavorável.
De outro lado, acompanhamos o conselheiro financeiro norte-americano Bryan Woodman (Matt Damon), residente em Genebra, que após uma tragédia familiar consegue uma inesperada proximidade com um príncipe saudita disposto e usar de sua fortuna para melhorar as condições de vida no Oriente Médio.
A terceira trama segue o advogado Bennett Holiday (Jeffrey Wright) representante menor de uma indústria norte-americana de extração petrolífera –e cuja influência tentacular de seus diretores atinge as condições sócio-políticas dos moradores do Irã –sobre quem paira a responsabilidade de viabilizar uma autorização de extração de petróleo cercada por complicações legais que, não raro, esbarram em infrações consideráveis à lei.
Como era de se esperar neste trabalho, Gaghan honra seu passado de roteirista e executa magnificamente bem as amarras de seus núcleos dando solidez à uma trama fácil de se perder, mas ele ainda acrescenta uma direção austera e convicta (herança, talvez, de seu convívio com Steve Sodenbergh) com a qual consegue tornar minimamente palatável esta incisiva (e dada sua postura, surpreendente) crítica às extensões nocivas exercidas pelo governo norte-americano nas mazelas dos países do Oriente Médio.
Seu trabalho une a contundência e a certeza de realismo de um documentário à predisposição dramática e flexibilidade narrativa de uma ficção –o melhor de dois mundos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Kingsman - O Círculo Dourado

Durante algum tempo, o diretor Matthew Vaughn evitou envolver-se em continuações. Embora tenha entregue filmes extremamente bem-sucedidos, ele não esteve na continuação do ótimo “Kick Ass-Quebrando Tudo”, nem na seqüência do igualmente ótimo “X-Men Primeira Classe”. Essa postura só veio a mudar quando ele resolveu encarar também este “Círculo Dourado” que vem a dar seqüência ao seu divertidíssimo “Kingsman-Serviço Secreto” –talvez, influenciado pela queda de qualidade ocasionada nas continuações de suas próprias obras, em especial, em “Kick Ass 2”.
Como em “Kick Ass”, “Kingsman” partia de uma história em quadrinhos escrita por Mark Millar. Uma redefinição dos conceitos tradicionais de agente secreto ao estilo James Bond, mas transfigurada com elementos muito atuais, como a avançada tecnologia, a ultra-violência, além do cinismo e do sarcasmo que tão bem definem os jovens.
Na continuação, Vaughn não faz a menor questão de fugir desses elementos: “Círculo Dourado”, em todos os aspectos possíveis, dá continuidade natural ao que foi visto em “Serviço Secreto”: Eggsy (o ótimo Taron Egerton) evoluiu de agente em treinamento (no primeiro filme) para um dos poucos agentes da Kingsman em atividade (lembre-se que a maioria morreu!). Seu rival durante o treinamento, o almofadinha Charlie Hesketh (Edward Holcroft) retorna como um dos vilões e surge, já na primeira cena, para dar dor de cabeça ao herói –uma cena insana e eletrizante de ação, diga-se, daquelas que poucos realizadores, como Vaughn, são capazes de orquestrar.
Também a princesa Tilde (Hanna Alström), vista brevemente no filme –e num rápido take, já no final, surpreendente e revelador –agora aparece aqui como namorada séria de Eggsy; essa manobra provavelmente foi uma forma de responder a algumas críticas que apontaram o primeiro filme como excessivamente machista (embora a objetificação da mulher seja uma característica constante também neste segundo filme).
Já confortável na função de agente da Kingsman –uma organização inglesa de espionagem avançada –Eggsy descobre uma ameaça tremenda na forma de Poppy Adams (Julianne Morre, se esbaldando no papel), uma mega-traficante de drogas profundamente frustrada com o anonimato que sua ocupação impõe ao seu serviço –que ele sabe executar com sucesso inquestionável. Disposta a obter o reconhecimento como uma das mulheres mais poderosas do mundo, ela engendra um plano para chantagear o presidente dos EUA (uma ponta de Bruce Greenwood cheia de crítica e acidez) obrigando-o a legalizar todas as drogas.
Psicótica e implacável, ela trata de tirar de seu caminho os possíveis obstáculos, no caso, os agentes da Kingsman que são dizimados num atentado destruidor –e, diferente do filme anterior, agora todos morrem! Todos, não: Apenas Eggsy resta vivo (ele estava, por acaso, jantando com os pais da namorada!) e o analista Merlin (Mark Strong) –isso obriga os dois a procurar apoio e recursos entre os Stateman, a contraparte americana da Kingsman, capitaneados por Champ (Jeff Bridges) e que incluem Ginger (Halle Berry), Uísque (Pedro Pascal, de “A Grande Muralha”) e Tequila (Channin Tatum).
Junto com os aliados da Stateman vem também uma revelação: Gallahad (Colin Firth, sempre digno), o mentor de Eggsy morto no filme anterior está vivo! –e infelizmente, graças ao desleixo do departamento de marketing essa revelação não é surpresa pra ninguém já que o personagem aparece em todos os trailers e pôsteres.
Talvez a maior surpresa deste novo “Kingsman” seja assim a honorável e hilária ponta de Elton John.
Há muito da competência de Matthew Vaughn trabalhando em prol da diversão, mas ele não escapa aqui de inúmeras armadilhas oriundas justamente –vejam a ironia! –do fato de estar fazendo aquilo qual até então tentou fugir: Uma continuação.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Jovem Rainha Vitória

O diretor Jean Marc-Valée sempre demonstrou na elevada qualidade de seus trabalhos, uma capacidade inata de ressaltar o imenso potencial de entendimento entre seus ótimos intérpretes e os personagens de suas tramas. Em “A Jovem Rainha Vitória”, essa regra se cumpre com gosto: No papel de Vitória, Emily Blunt flutua com carisma, desenvoltura e força pelos ambientes empostados deste filme de época. Com ela, cada reunião de cúpula, cada obrigação aristocrática parece uma aventura. Foi realmente uma injustiça não tê-la indicado ao Oscar (prêmio que o filme terminou conquistando só no departamento de Melhor Figurino).
Única herdeira ao trono inglês, Alexandrina Vitória Regina sofre, desde muito cedo (ainda menina), as tentativas de influência daqueles que a cercam, que vão desde sua mãe (Miranda Richardson) e seu manipulador conselheiro Conroy (Mark Strong), até o tentacular Lord Melbourne (Paul Betany, o Visão de “Vingadores-A Era de Ultron” e “Capitão América-GuerraCivil”).
Logo, Vitória encontrará na amizade com o Príncipe Albert (o ótimo Rupert Friend, obtendo com Emily uma química fenomenal), da Alemanha, um alento para tantas intrigas. Assim, a personalidade destemida e intrépida de Vitória descobrirá, ao longo dos anos e das situações, os caminhos tortuosos da monarquia, adquirindo a confiança com a qual ela dará seus primeiros passos como rainha.
Despido do peso habitual que acompanha os densos filmes de época que têm por hábito se debruçar sobre históricas intrigas palacianas, este roteiro notável de Julian Fellowes (roteirista de “Assassinato Em Gosford Park” e criador da série “Downton Abbey”) tem a salutar qualidade de propor um convite ao expectador: Conhecer ali, naquelas ardorosas atribulações pontuadas pelo crescimento de sua protagonista, (seja esse crescimento físico, seja ele existencial, graças à plenitude sutil na atuação de Emily Blunt), a obstinação de uma jovem perante responsabilidades que se mostraram, desde sempre, imensuráveis; vislumbrar a dinâmica escorregadia, traiçoeira e perigosa que costuma se estabelecer entre o jogo do poder, a vaidade da fama, a ambigüidade da política e o orgulho da realeza; e testemunhar, encantado, o amor entre Vitória e Albert encontrar passagens em cada uma dessas brechas noscivas, para então definir a força de todo um reinado.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Kingsman - Serviço Secreto

Em “X-Men Primeira Classe” já era possível perceber o imenso apreço do diretor Matthew Vaughn pelos filmes antigos de 007, em especial os realizados nos anos 1960.
Com “Kingsman”, a adaptação de mais uma história em quadrinhos (escrita por Mark Millar, que também escreveu “Kick Ass” outro sucesso de Vaughn), ele conseguiu finalmente realizar um filme de aventura e espionagem de fato. E é com a empolgação genuína de alguém que tem um sonho realizado que Vaughn narra a surpreendente e divertida história de Eggsy (o ótimo e carismático Taron Egerton) um jovem nascido no subúrbio de Londres –e, como tal, dotado de todos os maneirismos, vestimentas e aspectos rudes que definem moradores dessas regiões.
Durante uma das muitas encrencas em que costuma se meter ao lado dos amigos inconseqüentes, Eggsy vai preso e, por um acaso, toma conta com Harry Hart (Colin Firth saindo-se magnificamente bem seu primeiro filme de ação) que, disposto a honrar uma dívida, resolve apadrinhar Eggsy e lhe faz uma revelação: A de que seu pai, morto quando ainda era criança, pertenceu na realidade a uma ordem ultra-secreta de espiões treinados chamada Kingsman.
Orientado por Harry –cujo codinome é Galahad –e disposto a seguir os passos do pai, Eggsy inicia seu árduo treinamento seletivo, ao mesmo tempo em que surge um curioso vilão megalomaníaco (Samuel L. Jackson, numa composição hilária e inspirada) pondo em prática um plano mirabolante que ameaça a humanidade e desafia os agentes da Kingsman.
A direção de Mathew Vaughn demonstra o mesmo senso impecável de ritmo que ele ostentou em "Kick Ass" e "X-Men Primeira Classe" realizando uma saborosa e eletrizante homenagem aos filmes antigos de espionagem que jamais exagera em sua reverência: É, na realidade, um produto vibrante e moderno, agregando com habilidade e naturalidade elementos emergentes do cinema contemporâneo (como ultra-violência, incorreção política e peculiaridades narrativas mais modernas) à uma premissa característica dos filmes de James Bond –funcionando quase como uma aula de como fazer um 007 divertido, fidedigno e com qualidade.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Armas Na Mesa

Jessica Chastain é um absurdo. A cada filme, ela se mostra uma atriz mais hábil e capaz, bela e talentosa. Havia tudo para que ela se sentisse mesmo à vontade em “Armas Na Mesa” onde ela torna a colaborar –desta vez, como protagonista –com o diretor John Madden (de “Shakespeare Apaixonado”) depois de roubar a cena em “A Grande Mentira”.
Ela é Madeline Sloane, uma lobista tida como uma das grandes profissionais de sua área. E a presença intimidante de Jessica em cena, sua verborragia astuta em atividade constante logo tratam de convencer o público disso.
Trabalhando para uma empresa cujo cliente é um dos barões armamentistas dos EUA –e, para o qual, com efeito, a lei de desarmamento em votação na bancada do congresso americano deve ser derrubada –ela muda subitamente de lado, passando a trabalhar para um grupo pró-desarmamento, liderado por Rodolfo Schmidt (Mark Strong, sempre digno e sólido) que luta por leis mais rígidas de porte de armas.
A justificativa parecem ser os seus princípios.
Mas, como descobrirá o público e muitos dos personagens a orbitá-la, princípios são o que menos pesa na balança moral de Sloane: Tudo o que importa a ela é vencer, e tal vitória justifica a torção eventual da ética numa série de lances ardilosos que beiram a desonestidade e a manipulação.
“O segredo para vencer é nunca deixar que seus inimigos o surpreendam, e sempre surpreendê-los” diz ela, já no contundente monólogo que abre o filme.
É verdade: Ao longo das pouco mais de duas horas de filme serão freqüentes os momentos em que os artifícios de Sloane pegarão de surpresa não apenas seus inimigos, mas também seus aliados e o expectador. Quando uma máscara parece cair, prestes a revelar enfim uma faceta de derrotada, descobrimos que foi mais um estratagema elaborado por ela.
Quando os adversários políticos passam a mover uma série de ataques profissionais e pessoais a ela como forma de desacreditá-la, somos freqüentemente pegos de surpresa pela forma quase desumana (e, não raro, surpreendente) com que ela subtrai os problemas e os neutraliza.
Em algum momento, contudo, Sloane irá rever os limites (ou a falta deles) que ela própria estipulou na busca por seus objetivos.
Muito do filme depende realmente de Jessica Chastain; ela consegue fazer o público se importar com essa protagonista mesmo que ela paulatinamente forneça motivos para desprezá-la, mesmo que sequer haja uma preocupação em dar-lhe um backup emocional que atrele suas motivações ao esforço que despende contra os adversários (aliás, o grande calcanhar de Aquiles da obra), mesmo que muito pouco fiquemos sabendo quem essa mulher é de fato, e mesmo que ela esteja enfrentando pessoas tão frias e calculistas quanto ela própria.
“Armas Na Mesa” também se beneficia do meticuloso roteiro do estreante Jonathan Perera, que parece ávido em mesclar a loquacidade estrutural nos diálogos de Aaron Sorkin (roteirista de “A RedeSocial”) com o turbilhão informativo –e, para alguns, inacessível –de Adam McKay no sensacional “A Grande Aposta”, ainda que em sua pouca experiência, ele não obtenha o equilíbrio primoroso de nenhum desses dois casos.
O diretor Madden, visivelmente apaixonado pelos meandros narrativos desse tipo de produção –que agrega as aspirações de um drama contemporâneo, um charme de filme de espionagem moderno e, mais ao fim, as evoluções sintomáticas de um filme de tribunal –evidencia essas duas grandes qualidades (uma atriz magnífica e um roteiro amplo e detalhado) reconhecendo neles os verdadeiros diferenciais deste trabalho.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sherlock Holmes, por Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes
Muitas foram as personificações do detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle no cinema –atualmente, uma das minhas prediletas não vem nem da tela grande, mas da TV, na arrojada série “Sherlock”, estrelada por Benedict Cumberbath e Martin Freeman.
Pouco antes dela, logo após o enorme sucesso de “Homem de Ferro”, o então ator problemático Robert Downey Jr. dava passos largos para tirar de seus ombros a má reputação que lhe perseguia a mais de duas décadas para se tornar um dos grandes astros de Hollywood –e certamente os responsáveis por isso foram não somente os filmes de Tony Stark como também esta nova versão de Sherlock Holmes.
Pegando carona numa proposta de reinvenção um pouco parecida com a do clássico oitentista “O Enigma da Pirâmide” –que hoje, infelizmente, pouca gente lembra –o filme mostra o famoso detetive particular na Inglaterra do final do Século 19, morando no conhecido apartamento em Baker Street. Sherlock Holmes auxiliado por seu fiel (ainda que relutante) amigo James Watson (Jude Law, uma boa presença) investiga uma série de crimes que culminaram numa inexplicável ressurreição de um condenado à morte, Blackwood (Mark Strong, um vilão competente embora genérico). Seguindo uma trilha de pistas num estilo totalmente peculiar e ortodoxo, como lhe é de praxe, o excêntrico Holmes aproxima-se de descortinar um plano que visa ameaçar a própria ordem política vigente em Londres. No percurso dessa tumultuada investigação –que encontra indícios que flertam com invocações sobrenaturais –Holmes e Watson (que, coitado, está de casamento marcado) recebem a ambígua ajuda (ou seria intromissão?) da bela Irene Adler (a ótima Rachel McAdams), com quem Holmes tem um relacionamento, diga-mos... complicado!
Assumindo as rédeas deste projeto –e, assim como Downey Jr., necessitando de um sucesso para se provar perante a indústria –o diretor Guy Ritchie troca assim os habituais gângsteres urbanos e contemporâneos (que ele soube retratar com graça, som e fúria em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch-Porcos e Diamantes”) pelo submundo da Inglaterra vitoriana nesta reformulação do famoso personagem extraída por sua vez não dos livros de Arthur Conan Doyle, mas de uma série de história em quadrinhos neles baseada.
Essa roupagem pós-moderna garantida pela direção inquieta e em muitos momentos francamente vertiginosa de Ritchie acaba dando ao personagem fôlego novo justamente por preservar elementos de ação que estavam nos livros e fugir consideravelmente de estereótipos que engessavam o personagem em suas outras encarnações.
E verdade seja dita: Muito ajuda para isso a eufórica interpretação de Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes-O Jogo das Sombras
Tudo deu certo. A nova versão de Sherlock Holmes foi um sucesso, o público abraçou a forma dinâmica com que o diretor Guy Ritchie contou uma trama protagonizada por um personagem tão conhecido –e de características tão difundidas na cultura pop –dando a ele um sabor de algo novo. E Robert Downey Jr., embora o público o visse como intérprete definitivo do Homem de Ferro, conseguiu emplacar uma segunda franquia milionária em sua carreira, provando que os dias de escândalo e de bebedeiras tinha ficado no passado. Seu imenso talento e carisma agora estavam a serviço da arte de interpretar, como tinha que ser.
A continuação, como rege a cartilha do cinema comercial de modo geral, deveria ser mais, maior e melhor que o filme anterior –e tudo isso, posto em prática, resulta ocasionalmente exorbitante.
Se o primeiro “Sherlock Holmes” era uma mescla agitada e livre de amarras de diversos livros, contos e histórias de Sherlock produzidas nas mais diversas mídias –sendo o livro “Um Escândalo Na Boêmia” uma das fontes mais evidentes –desta vez, uma das inspirações certamente haveria de ser “A Queda de Reinchenbach”, devido à introdução daquele tido como o maior antagonista de Holmes, o maquiavélico Professor Moriarty, como bem foi sugerido ao fim do primeiro filme.
Quando esta nova produção começa, Guy Ritchie, à exemplo do ritmo incessante do trabalho anteiror, já arremessa o expectador no centro da ação, levando Holmes e Irene numa tentativa de impedir a detonação de uma bomba: Em pleno Século 19, ao que parece, o terrorismo enfim chegou a Inglaterra.
Ondas de pânico e desordem provocados por misteriosos atentados semelhantes ao da cena inicial intrigam a polícia, mas não o detetive Sherlock Holmes. Para ele, a autoria desses eventos é bem clara: todas as pistas levam ao ardiloso Professor Moriarty (Jared Harris, filho do grande Richard Harris, fabuloso no papel), tão astuto e inteligente quanto o próprio Holmes, mas infinitamente mais maldoso e perigoso.
O propósito pelo qual Moriarty elabora esse seu plano, entretanto ainda é um enigma. Para descobri-lo Holmes conta novamente com a imprescindível ajuda de seu amigo Watson (retirado à contra-gosto das festividades de seu casamento) e, desta vez, com a contribuição da cigana Simza (a sueca Noomi Rapace, exalando charme) e, em alguns momentos, de seu meticuloso irmão, Mycroft (Stephen Fry, em breve, porém, descontraída participação).
Esta continuação do sucesso de 2010 contava mais uma vez com a sensacional presença de Robert Downey Jr. e com o desigual tratamento conferido pelo diretor Guy Ritchie, embora muito disso soasse repetitivo em relação ao filme anterior: Seus grandes diferenciais eram mesmo as novas presenças do elenco; Noomi Rapace e, principalmente Jared Harris, cujo personagem, Prof. Moriarty, vinha atender uma espécie de ressalva feita em relação ao outro filme –a de que ele não teria um vilão à altura; os realizadores entenderam o recado, deixando Downey Jr. desta vez brilhantemente antagonizado por Jared Harris.
O final, diretamente extraído do desfecho antológico de “A Queda de Reinchenbach”, deixava ganchos óbvios para um terceiro filme que até este presente agosto de 2017 não foi sequer anunciado.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sunshine - Alerta Solar

Existem filmes que são verdadeiras assombrações para aqueles que desejam aventurar-se em algum gênero cinematográfico específico.
Quando o versátil diretor escocês Danny Boyle –vindo da ótima reformulação de filmes de zumbi, “Extermínio" –resolveu enveredar pelo terreno da ficção científica, certamente, os fantasmas com os quais ele se deparou foram “Alien”, de Ridley Scott, “2001-Uma Odisséia NoEspaço”, de Stanley Kubrick e “Solaris”, de Andrei Tarkovski; obras essenciais e passíveis de comparação para qualquer filme cujo cenário é uma espaçonave.
À esses títulos é possível também incluir mais um: “O Enigma do Horizonte”, de Paul Anderson, cuja trama guarda algumas grandes semelhanças com esta daqui.
O grande diferencial de “Sunshine”, pode-se dizer, é o próprio Danny Boyle –sua direção inteligente, elegante e paulatinamente compenetrada jamais deixa que a premissa (ocasionalmente absurda) despenque para suas facetas mais banais e redundantes.
A trama se passa no futuro.
Longe do planeta Terra, a bordo da nave Icarus 2.
Após a missão fracassada da Icarus 1, essa segunda nave parte em direção ao sol deixando para trás um planeta terra a beira de um inverno solar. O astro-rei está morrendo, sua energia se acabando (numa probabilidade científica real vislumbrada pelo roteiro) e quando isso terminar por acontecer todo o sistema solar morrerá, engolido por uma supernova.
Para deter isso, a tripulação da Icarus 2 leva consigo uma bomba nuclear que ao ser detonada, supõe-se, reacenderá o sol e salvará a humanidade da extinção.
O grupo reunido a bordo da nave é, ele próprio, um conjunto bastante interessante de personagens e interpretes: Robert Capa, o especialista em fusão atômica –e protagonista –interpretado por Cillian Murphy (que protagonizou também “Extermínio”); o piloto Mace (Chris Evans, num papel sensacional bem antes do Capitão América); o honrado capitão Kaneda (o ótimo Hiroyuki Sanada, de “O Samurai do Entardecer”); a botânica Corazon (Michelle Yeoh, de "O Tigre e O Dragão"); a cientista Cassie (Rose Byrne); o psicólogo Searle (Cliff Curtis), e ainda os astronautas vividos por Troy Garity e Benedict Wong.
Até que todos eles cheguem lá, partindo do princípio surreal de que uma nave tripulada seja capaz de ir em direção ao sol (ainda que isso seja tratado, na narrativa, com verossimilhança e seriedade), a tripulação da Icarus 2 descobrirá as conseqüências imprevisíveis que o ser humano pode sofrer ao tentar se opor a sua própria extinção.
Danny Boyle não perde o pulso em nenhum momento sequer neste instigante conto de ficção científica amparado em conceitos existenciais tal qual "Solaris" de Tarkovski, mas com ritmo e acabamento de filme comercial.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Antes de Dormir

A trama baseada no livro de S.J. Watson –e extremamente similar ao argumento do genial “Amnésia”, de Christopher Nolan –é um verdadeiro quebra-cabeças subjetivo, seja para a protagonista (Nicole Kidman, competente como sempre), seja para o expectador.
Quando o filme começa, Christine (Nicole) segue, sem saber, um ritual diário: Sempre que acorda, seu dedicado marido Ben (Colin Firth) lhe esclarece as circunstâncias nas quais viveu nos últimos anos –Christine tem perda de memória recente. Toda vez que vai dormir ela esquece tudo o que se passou, mantendo somente a lembrança de seus vinte anos de idade. Tudo o mais que ocorreu nas duas décadas seguintes ela não foi capaz de reter (!), graças a um violento ataque que sofreu quando jovem –e a respeito do qual ninguém sabe coisa alguma, exceto Christine, justamente na área inacessível de memória que perdeu.
Entretanto, além de Ben, há outra pessoa na vida de Christine, seu terapeuta Dr. Nash (Mark Strong), cuja existência Ben aparentemente desconhece. Ele orienta Christine a registrar seu dia-a-dia numa câmera e afirma estar com ela em meio à um tratamento para recuperar suas lembranças.
A dinâmica que se estabelece a partir daí –a protagonista perplexa com sucessivas pistas que perde e que recebe acerca de sua vida –molda uma trama pontuada por consecutivas revelações, e personagens que se restabelecem continuamente de outras formas, acompanhando o ritmo de algumas reviravoltas e aparecendo com outras índoles conforme sugere a história –e a participação de Colin Firth, a fim de preservar e dar certa credibilidade à tais revelações, é fundamental.
Dirigido com louvável objetividade e economia proposital de recursos pelo outrora roteirista Rowan Joffe (não confundir com Rolland Joffé, o diretor de “A Missão”), este trabalho entrega uma imensa paixão pelas engrenagens genéricas de suspense da parte de seu realizador. Ele não escapa, por isso mesmo, da comparação com obras maiúsculas como o já citado “Amnésia”, e outras que lhe são influências fortes, como “Uma Clarão Nas Trevas” ou “Vestida Para Matar”, de Brian De Palma.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Hora Mais Escura

“Kill Bin Laden” era um projeto iniciado pela diretora Kathryn Bigelow quando o famigerado terrorista ainda era um alvo escorregadio para o FBI. Recém-saída da consagração de “Guerra Ao Terror”, ela retomava a parceria com o premiado roteirista Mark Boal para lançar um olhar algo irônico sobre uma missão fracassada que visava a morte do procurado terrorista.
O elenco contava com Joel Edgerton e Chris Pratt –uns anos antes de virar astro com “Guardiões da Galáxia” e “Jurassic World” –e deveria ter uma pegada muito parecida com “Guerra Ao Terror” onde as relações entre os soldados eram esmiuçadas em meio à cenas de ação e de tensão.
Em algum momento durante a gestação do projeto porém, um lance inesperado do destino interveio: A Casa Branca anunciou a morte de Osama Bin Laden pelas mãos do Team 6 numa bem-sucedida incursão em uma residência do Paquistão.
De uma hora para outra, o filme de Bigelow se tornava inesperadamente datado. A saída: Valer-se do orçamento, das cenas já filmadas, do trabalho de pré-produção em andamento e criar um filme praticamente novo, desta vez, bem mais ambicioso (como toca a uma diretora ganhadora do Oscar), que envolvia a caçada à Bin Laden e culminava em sua morte ocorrida em maio de 2011.
Dessa forma, “Zero Dark Thirty” –o novo título da produção –deixa de lado os soldados liderados por Edgerton e Pratt (eles agora interpretam o Team 6 e aparecem apenas na explosiva meia hora final do filme) e se concentra numa das analistas recrutadas pela CIA, a jovem agente Maya –vivida com espetacular vigor por Jessica Chastain –que, após os estarrecedores atentados de 11 de setembro de 2001, e o início da árdua operação de rastrear e eliminar o autor dos ataques, o líder terrorista Osama Bin Laden, toma para si a missão de encontrá-lo custe o que custar.
Ao longo de uma década, a obstinação dela, somado aos esforços de outros personagens que vão e vêm com o passar dos anos (e que expõe o sensacional elenco que Bigelow conseguiu atrair para sua produção, como Jason Clarke, Mark Strong, Jennifer Ehle, Edgar Ramirez, Kyle Chandler, Frank Grillo e James Gandolfini), vão levar as tensas investigações à uma casa no centro de Abbottabad, no Paquistão onde o terrorista finalmente é morto.
O roteiro de Boal surpreende por manter a excelência mesmo em face da alteração de sua proposta e, mais ainda, pela magnífica maneira com que parece abordar de forma precisa e minuciosa os fatos supostamente reais –que, mesmo correspondentes à realidade jamais poderiam ser comprovados pelo governo –onde executa uma reconstituição primorosa e vigorosa da extensiva caçada a Bin Laden, pontuada por riquíssimos detalhes logísticos, técnicos, circunstanciais e humanos.
Apagando quaisquer dúvidas acerca de seu talento, a diretora Kathryn Bigelow sobe um degrau além de seu "Guerra Ao Terror" entregando um trabalho ainda mais adulto e austero, orquestrado com perícia e precisão insuspeitas.
E abrilhantado, ainda por cima, por uma forte e convicta atuação de Jessica Chastain: Só Deus sabe o que levou-a a perder o Oscar de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence em seu “O Lado Bom da Vida”!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Kick Ass - Quebrando Tudo

   Em obras de argumento mais raso, o gatilho narrativo que impulsiona a trama e a leva a acontecer se dá por meio de ímpetos nem sempre justificados da parte de seus personagens, todavia, neste belo trabalho, o gatilho narrativo que leva um nerd adolescente a honrar os heróis de quadrinhos que tanto admira tornando-se um deles, é impecável, cortesia do antenado e coerente roteirista Mark Millar que, assinando um punhado de obras um bocado originais, deu um sopro de renovação aos quadrinhos.
   É esse mesmo sopro que o perspicaz diretor Matthew Vaughn é particularmente feliz em recriar nesta sua frenética adaptação para cinema.
   Começando sua carreira com produtor dos filmes ingleses de Guy Ritchie –quando alguns já afirmavam, um pouco injustamente, ser ele o verdadeiro gênio da dupla –Vaughn migrou para a direção com o efusivo “Nem Tudo É O Que Parece” (um ágil trhiller gângster nos moldes de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch-Porcos e Diamentes”), mas mostrou quais eram suas inclinações quando realizou a adaptação da HQ de Neil Gailman, “Stardust-O Mistério da Estrela”. Após realizar este ótimo “Kick Ass”, ele foi fazer o melhor filme dos X-Men até então, “X-Men Primeira Classe”.
   Não há dúvidas, contudo, que é “Kick Ass” que reúne de maneira bastante eficiente suas mais variadas características como contador de histórias.
   Estão lá a preocupação com a modernidade e a forma como suas ramificações afetam a consciência do “ser” um super-herói (inquietações plenamente compartilhadas com Mark Millar); assim como o registro refinado, violento e virulento, cheio de graça de virtuosismo cinematográfico da própria criminalidade, que ele realizou tão bem em “Nem Tudo É...” e nas obras que produziu, dirigidas por Ritchie. O gangster Damicco (magnificamente personificado por Mark Strong) é uma extensão desses personagens, trazendo os trejeitos e a cultura com a qual foram trabalhados nas obras anteriores de Vaughn –e todos possuem uma perceptível e declarada reverência –e referência! –à Martin Scorsese.
   Mas, ao contrário do que costuma acontecer, são os heróis o elemento mais admirável de “Kick Ass”: Não apenas o perplexo e encantadoramente humano protagonista vivido por Aaron Taylor-Johnson (com quem o roteiro é pródigo em levar o expectador a se identificar), mas principalmente os vigilantes uniformizados, Big Daddy (Nicolas Cage, em sua melhor aparição num bom filme em anos!) e a pequenina Hit Girl (Chloe Grace-Moretz, a personagem que rouba praticamente todo o filme).
  Eles representam o núcleo emocional do filme –quem acompanhamos e por quem torcemos. Num trabalho de caracterização e minúcia de um capricho e carinho desiguais; e é exatamente por isso que a opção gráfica do diretor Vaughn por uma violência acentuada acaba tendo um significado muito mais surpreendente e alarmante: Ainda que em registro deliciosamente cômico, a violência de “Kick Ass” é entregue num nível intenso, para se fazer pensar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Espião Que Sabia Demais

Filmes como “Deixe Ela Entrar” definem a carreira de um cineasta.
Para o bem e para o mal, inclusive: Há sempre a possibilidade (injusta, até) de o público esperar por um trabalho seguinte que mantenha a mesma excelência, a mesma convergência de fatores, muitas vezes únicos, que fizeram aquele filme específico brilhar.
E “Deixe Ela Entrar”, sempre ficou bem claro, era um filme único.
Desnecessário dizer que sua refilmagem americana foi incapaz de capturar a mesma magia que pulsa, sem maiores esforços, do original.
E quanto ao seu diretor, o talentoso Thomas Alfredson?
Ironicamente, ele passou os anos seguintes à bombástica consagração de seu filme trabalhando, também, na realização de uma refilmagem.
Todavia, “O Espião Que Sabia Demais” já era um filme de espionagem antigo (e o público, como se sabe, tem memória relativamente curta), datado da década de 1970 (na realidade, condensado de uma minissérie inglesa), e esse projeto abria plenamente espaço para uma repaginação em todos os âmbitos (artísticos, políticos, cinematográficos). Enfim, havia a possibilidade de fazer todo um novo filme.
E é isso que o novo trabalho de Alfredson trás: Toda uma nova percepção, uma nova e empolgante forma de se fazer cinema, tão inebriante e fascinante quanto o magnífico filme de vampiros que o revelou.
O ano é 1973. George Smiley (Gary Oldman, hipnótico), veterano recém-despedido do Serviço Secreto Britânico deve sigilosamente voltar à ativa em face da morte de seu antigo chefe, Control. Sua missão: rastrear o traidor infiltrado no "Circo" -a cúpula dos membros do alto escalão do Serviço Secreto- que Control foi incapaz de descobrir, e que está fornecendo continuamente informações a um misterioso agente russo denominado Karla.
A falta de pressa com que a trama se desenlaça exige paciência do expectador médio habituado aos blockbusters de sempre. Esse detalhe, porém, agrega mais mérito ao filme que une, de maneira curiosa, o anacronismo (do modo como a produção trabalha seu registro este é, em todos os sentidos clássicos, um filme de época) à inovação (o tom desigual e a narrativa cheia de particularidades brilhantes que dão ar completamente renovado ao gênero).

É, com freqüência, um trabalho cheio de requinte de Alfredson onde, em meio ao extremo refinamento de seu impecável elenco inglês (com nomes como Colin Firth, Toby Jones, Benedict Cumberbath, Tom Hardy e Mark Strong) destaca-se a soberba e minuciosa composição de Gary Oldman.