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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Paixões Na Floresta


 Dirigido por Philip Ridley, “Paixões Na Floresta” – ou “The Passion Of Darkly Noon” – é um  cult-movie obscuro dos anos 1990 que conta com as presenças de Viggo Mortensen (bem antes de sagrar-se como Aragorn em “O Senhor dos Anéis”) e de Brendan Fraser (bem antes do sucesso de “A Múmia”, e mais ainda do Oscar de Melhor Ator por “A Baleia”).

Darkly Noon é o estranho nome do protagonista vivido por Brendan Fraser. Quando o filme começa, ele perambula a esmo por uma floresta, ferido e perturbado. Ele é encontrado inconsciente por Jude (Loren Dean, de “Gattaca-A Experiência Genética”) que o leva à casa de Callie (Ashley Judd, belíssima) situada no meio da floresta.

Jude é irmão de Clay (Viggo Mortensen), marido de Callie, que se encontra desaparecido – Clay tem episódios (que, talvez sejam esquizofrenia!) nos quais some floresta adentro por dias à fio, para então voltar como se nada tivesse acontecido.

Embora esteja sozinha, Callie resolve arriscar-se e abrigar Darkly em sua casa, mesmo na ausência de Clay e, nos dias que se seguem (dias estes que constituem o formato episódico da narrativa) ela constrói uma relação estranha e até certo ponto contraditória com Darkly: Ele (que era membro de uma espécie de seita religiosa e tornou-se o único sobrevivente de uma chacina na qual viu morrerem até seus pais!) mal consegue ocultar seu desejo por ela; já, Callie por sua vez, não deixa de insinuar-se para Darkly (não alimentem esperanças, Ashley Judd não fica nua neste filme...) embora sempre insista que é apaixonada por Clay.

Darkly – cuja sanidade já era fragmentada pelo fanatismo religioso em meio ao qual nasceu e cresceu – se vê atormentado por tal situação, que só se ressalta quando Clay retorna.

Clay, que é mudo, trabalha como marceneiro fazendo caixões, e aceita Darkly como seu ajudante, entretanto, é quase insuportável para Darkly testemunhar Callie, seu objeto de desejo, aos beijos e abraços com outro homem. Ele busca refúgio na floresta e lá acaba encontrando Roxy (Gracie Zabriskie, de “Twin Peaks”) da qual Callie já havia lhe prevenido.

Roxy, na realidade, mora num trailer nas imediações e tem por companhia apenas o seu cachorro – ela conta a Darkly que outrora morou na mesma casa em que Callie está, conta que Callie levou seu marido à morte, e que seduziu seu filho Clay (no entanto, ela nunca menciona Jude em sua versão dos fatos). Em suma, ela afirma que Callie é uma bruxa, responsável pela destruição de sua família e que Darkly deve tomar uma atitude e puni-la por seus pecados.

Impelido por seus desejos sexuais então reprimidos, por sua própria loucura latente, pelas histórias tendenciosas de Roxy, e até mesmo por alucinações onde enxerga seus pais (!) alvejados por tiros e lhe dando ordens (vividos por Mel Cobb e Katie Harper), Darkly aos poucos vai cedendo a uma predisposição homicida com a qual, num dado momento, ele invadirá a casa de Callie e Clay e, em meio à um incêndio que ele mesmo provocará, tentará matar Callie.

É um tanto quanto difícil descrever “Paixões Na Floresta” e, mais ainda, tentar decifrar, a partir do filme intrigante e excêntrico que fez, os objetivos do diretor Philip Ridley. Vindo de um filme independente que colocou seu nome no circuito alternativo – o desigual conto de vampirismo “O Reflexo do Mal”, também com Viggo Mortensen – Ridley dá continuidade às suas inquietações nesta produção de baixo orçamento que resgata os temas que ele parece incapaz de abandonar: A forma como os seres humanos cedem à impulsos insensatos a parir de suas crenças arraigadas.

Ele materializa esses tópicos numa obra curiosa que suscitou certo fascínio entre alguns cinéfilos ainda nos anos 1990, mas peca pela imperfeição gritante do material – não apenas seu argumento vem soterrado em contradições e redundâncias como muitas vezes sua própria direção não parece saber, ao certo, o rumo que deseja tomar dentro das diretrizes que desenvolve. Num momento, ele sugere um erotismo que jamais surge de fato (muito provavelmente, em função das imposições da atriz Ashley Judd, recusando cenas que talvez fossem mais ousadas no roteiro), noutro, ele conduz um suspense cujos intérpretes dos personagens envolvidos não parecem compreender por inteiro as motivações, caso de Brendan Fraser, numa progressão de desequilíbrio e psicose que soa exagerada, em muitos momentos (ainda que ancora num desempenho esforçado), ou em Loren Dean, que aparece, vez ou outra, com apego absolutamente injustificado ao personagem de Fraser.

Nas mãos de um David Lynch ou de um Michael Haneke, poderia ser uma das grandes obras dos anos 1990, nas mãos de Philip Ridley é, quando muito, um intrigante conto sobre desejo em conjugação com uma certa sanha homicida que pouco se mostra harmonioso.

terça-feira, 18 de junho de 2024

28 Dias


 Na carreira de Sandra Bullock, “28 Dias” é um corpo tão curioso quanto transitório. É uma obra que gera desconforto pela linguagem bastante ultrapassada de sua narrativa, dessas difíceis de vincular a uma estrela famosa. Ao mesmo tempo, conserva elementos capazes de sustentar a atenção do público –embora, no frigir dos ovos, esses elementos venham quase todos da presença de sua atriz principal.

Na transição dos anos 1990 para 2000, Sandra Bullock já havia se consolidado como uma estrela do cinema. Quase que instantaneamente, porém, ela experimentou os revezes de uma carreira acompanhada de perto por milhões de fãs e por uma horda de interesseiros opinando à respeito: Na esteira dos sucessos “Velocidade Máxima” e “Enquanto Você Dormia” –indiscutivelmente os filmes que a levaram ao estrelato –ela emplacou, por sucessivas razões distintas, fracassos como “A Rede” (uma mera escolha mau feita de projeto), “Corações Roubados” (um péssimo filme do qual ela participou apenas por convite de um amigo, o ator Denis Leary) e “Velocidade Máxima 2” (sem keanu Reeves, um fracasso e um vexame homérico, até hoje a única produção da qual ela se arrepende de ter participado). Convencida por esses tropeços de que deveria conduzir de uma nova maneira sua carreira, Sandra abriu a produtora Fortis Films e passou a interferir com maior autoridade nos filmes dos quais participava e, embora os resultados verdadeiramente positivos tenham até que demorado a chegar, ao menos, nos anos subsequentes, ela foi capaz de se desvencilhar de fracassos.

“28 Dias” reflete a preocupação de Sandra, enquanto estrela de cinema, em estar presente em obras de um mínimo de cunho social e moral –o filme, dirigido por Betty Thomas, se debruça sobre os efeitos colaterais do alcoolismo.

Gwen Cummings (Bullock) é uma moça de vida social, digamos, ativa. Ela e seu namorado, Jasper (Dominic West, de “300”) sabem pela noite nova-iorquina e, no decurso da bebedeira, aprontam até altas horas da madrugada. Com o tempo, esse clico vicioso (embriagar-se, esquecer de todas as confusões que fizeram e, no dia seguinte, começar tudo de novo) os engole por completo. Ela só começa a ter uma tênue noção do prejuízo que seu hábito etílico provoca em sua vida durante o casamento da irmã (Elizabeth Perkins), no qual Gwen pega um carro alcoolizada e colide contra a varanda de uma casa.

A pena negociável, para Gwen escapar da cadeia, é frequentar por vinte oito dias um centro de reabilitação e se livrar do vício que –numa atitude comum –ela insiste não ter. Inicialmente arredia para com tudo e para com todos (sobretudo com a tarimbada recepcionista, interpretada por Margo Martindale e com o conselheiro –e ex-viciado –vivido por Steve Buscemi), Gwen aos poucos vai tomando contato com a fauna de habitantes desajustados do lugar e com eles, constrói um vínculo de inesperada amizade: Sua colega de quarto Andrea (Azura Skye, de “EDTV”), viciada em heroína aos 17 anos de idade e obcecada por um dramalhão folhetinesco que passa na TV; o outrora famoso jogador de beisebol Eddie viciado em drogas e sexo (Viggo Mortensen, pouco antes da revelação como Aragorn em “O Senhor dos Anéis”); o homossexual, dançarino e neurótico contumaz Gerhardt (Alan Tudyk, de “Rogue One” e “Tucker & Dale Contra O Mal”); a idosa e solícita Bobbie (Diane Ladd, de “Coração Selvagem”) e muitos outros.

A medida que redescobre quem é longe do efeito intermitente da embriaguez, Gwen passa a se relacionar melhor com os outros à sua volta –até mesmo na ressentida relação com a irmã –e se dá conta da influência um tanto prejudicial e propícia ao vício de Jasper.

Embora haja visivelmente boas intenções e algum engajamento da parte de Sandra Bullock, enquanto estrela famosa, ao envolver-se num projeto que centraliza temas difíceis como o vício em geral, pertinentes a qualquer fórum de discussão, a produção do filme desperdiça inúmeras chances de fazer algo melhor; não apenas a química entre Sandra e Viggo acaba negligenciada (um casal atraente, carismático e talentoso cujos personagens, apesar de uma ou outra sugestão não engatam romance nenhum) como a própria direção de Betty Thomas, ao buscar um tom harmonioso entre o pesado tema abordado e um leveza características de outros filmes de Sandra Bullock, termina não encontrando um registro adequado resultando superficial. Realizado com câmeras digitais que ocasionalmente entregam uma certa insuficiência orçamentária, e carregado de um incômodo aspecto de produção televisiva –em especial, na forma com que chega a um desfecho claudicante e desanimado –pode-se afirmar que “28 Dias” não foi capaz de escapar da irrelevância; o fato de estar sendo citado vinte e quatro anos depois de sua realização, se restringe ao único de detalhe de destaque que é sua atriz principal.

domingo, 18 de setembro de 2022

Um Método Perigoso


 Em algum ponto dos anos 2000-2010, quando firmou uma bela parceria com o ator Viggo Mortensen, o diretor David Cronenberg iniciou uma bela fase onde seus filmes –análises antropológicas e implacáveis do instinto sobre a índole humana –adquiriram uma interessante aura de sutileza, elegância e classe. Predicados que a crítica não enxergou (ou não quis enxergar) em obras anteriores como “Gêmeos-Mórbida Semelhança” e “Mistérios e Paixões”.

Certamente, era uma proposta e tanto a deste “Um Método Perigoso” onde Cronenberg, com suas observações apuradas e de irrestrito pudor artístico, focaria suas lentes na relação entre Carl Jung e Sigmund Freud, o pai da psicanálise.

Foi uma surpresa para muitos –e talvez, uma frustração para seus apreciadores mais incondicionais –que o relato desse encontro tivesse ganhado um viés clássico, focado nas atuações e no diálogo, abrindo mão assim das mutações físicas e de irreprimível apelo visual que tanto fizeram a fama do diretor. Em “Um Método Perigoso”, Cronenberg está, mais do que nunca, interessado nas peculiaridades da mente; lá onde começam, afinal, todas as celeumas que a ele sempre importaram.

De uma maestria inconteste, Michael Fassbender é Carl Jung, jovem psiquiatra que inicia, na Suíça, o tratamento da jovem e perturbada Sabina Spielrein (Keira Knightley, dando vazão irreprimível a todos os histrionismos de Cronenberg) sob a atenta e irrefutável orientação de seu mentor Sigmund Freud (Viggo Mortensen, contido e magnífico), cuja constatação é de que todas as celeumas psíquicas humanas têm uma origem na relação embrionária do indivíduo com o sexo. Embora se sinta inclinado pela admiração à aceitar as instruções de Freud, Jung pensa diferente: Para ele, os sonhos têm muito mais a dizer em relação ao subconsciente da pessoa do que sua relação com a própria libido.

A medida que os anos passam, não apenas o relacionamento entre Carl Jung e Sabina Spielrein se modifica (ele, a despeito de ser casado, a transforma em sua amante), como também a relação entre Jung e Freud vai se submetendo a um rompimento gradual e irreversível a medida que as convicções de cada um e a forma distinta com que enxergam a psicanálise vai os afastando.

A proposta embutida nesta obra de Cronenberg é um tanto quanto inédita em toda a sua filmografia: Vislumbrar ou, em última instância, perceber, tatear, pela primeira vez, as profundezas insondáveis, deixando de lado o que se vê na superfície. Com efeito, as imagens, desta vez, pouco dizem a respeito da obra que o diretor deseja moldar. Em alguns momentos, nem mesmo aquilo que é dito e discutido. É nas compreensões implícitas –e na habilidade das atuações precisas e minimalistas assim orquestradas –que está o verdadeiro cerne ao qual Cronenberg quer chegar. Na contradição humana e incontornável de Jung e sua postura acadêmica –tentando confrontar as observações estabelecidas de seu mentor Freud com suas próprias e válidas concepções psicanalíticas –ao ceder, justamente ao sexo (o X da questão na opinião de Freud) que descobre fora do casamento com sua transtornada Sabina. Ao mesmo tempo, Cronenberg transforma Freud num personagem a um só tempo supino, presunçoso, egocêntrico e dissimulado, sem no entanto, negar a possibilidade dele ter lá suas razões. O único ponto fraco, e que ameaça comprometer terrivelmente a harmonia deste ambicioso projeto, é a inglesa Keira Knightley que, ao abraçar uma personagem radicalmente distante das mocinhas hollywoodianas que vinha fazendo, não traduz, numa atuação à altura, as mazelas impronunciáveis nem os recônditos poderosamente obscuros de sua personagem.

Dessa forma, o desenlace carnal com Jung surge mais como uma performance extraconjugal repleta de caras e bocas, e menos como o arremate de angústias primitivas que deveria ser. Tivesse Cronenberg contado com uma atriz capaz de verdadeiramente compreender as inquietações emocionais da personagem (como Naomi Watts, Jennifer JasonLeight ou Geneviéve Bujold) o resultado teria sido outro –da forma como está, é um trabalho que aponta um refinamento com o qual Cronenberg não aparenta estar de todo confortável.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Um Homem Bom


 Mais do que as histórias sobre a Segunda Guerra Mundial que retratam o Holocausto em si, há também uma vertente que passou a explorar as atrocidades do nazismo de um ponto de vista interno; no geral, alemães que testemunharam a gênese de todo o mal e se viram oprimidos pela ascensão de um ódio inconcebível. Dentro das variações curiosas desse, digamos, subgênero podemos destacar o filme autenticamente alemão “O Barco-Inferno No Mar”, o fenomenal “Cabaret”, o norte-americano “Os Últimos Rebeldes”, as duas versões de “Operação Valkiria”, o recente (e ótimo) “Jojo Rabbit” e muitos outros –embora tudo talvez tenha começado com “O Homem Do Castelo Alto”, de autoria do escritor Phillip K. Dick.

A obra dirigida pelo brasileiro Vicente Amorim busca se inserir entre esses exemplares.

Nele, Viggo Mortensen interpreta John Halder, alemão que, em meados da década de 1930, é um mero professor universitário com tímidas aspirações literárias, e uma vida doméstica cheia de atropelos, ainda que normal: A esposa, tuberculosa, vive doente, deixando o cuidado da casa e dos filhos para ele. A mãe (Gemma Jones, de “Razão & Sensibilidade”) está à beira da senilidade, e o sogro lhe apurrinha para ingressar num certo partido socialista,

As mudanças na vida de Halder chegam lentamente. Ele conhece e se apaixona por uma de suas alunas, Anne (a maravilhosa Jodie Whittaker, da série “Doctor Who” e do filme “Vênus”), por quem, mais tarde, abandona a família e vem a desposar a medida que sua mudança de status social exige uma esposa mais adequada. É consequente, portanto, que a reviravolta mais radical experimentada pelo protagonista diga respeito à sua profissão: Autor de um livro fictício sobre os impulsos humanos no ato da eutanásia cujo argumento cai nas graças do próprio Hitler em pessoa, Halder é chamado à Alta Cúpula Nazista como uma espécie de adereço intelectual ao séquito do Fuhrer, o que não deixa de lhe proporcionar toda influência e prosperidade material de um oficial nazista.

Entretanto, como na obra-prima “Mephisto”, de István Szabó, o personagem principal guarda uma decência interna que o faz se enojar com os rumos nacionalistas de seu país. Diferente daquela produção, contudo, o filme de Amorim nem sempre trasmite tal circunstância com a riqueza de nuances que ela poderia ter.

Há, por exemplo, a questão da amizade entre Halder e o psicanalista judeu Gluckstein (Jason Isaacs), a relação mais explorada em todo o roteiro, na qual o protagonista testemunha o cerco se fechar ao redor do amigo, lutanto por vezes com seus próprios fantasmas, para poder mantê-lo em segurança. Não faltaram exemplos, no passado, em que tais enredos foram explorados com primor para deles extrair valiosas e pertinentes lições morais sobre os perigos da omissão, o valor da vida e a importância inegociável da liberdade, mas, a direção de Amorim parece sentir-se demasiado oprimida em meio à uma produção de escopo tão nitidamente maior do que aquelas com as quais trabalhou em terras brasileiras (que inclue o drama “O Caminho das Nuvens”).

Seu registro da vida de Halder em família, por exemplo –trecho que ocupa o primeiro terço do filme –é prosaico, banal e sem profundidade, perdendo a chance de fundamentar o interesse do público pelo personagem e de nele criar a necessária empatia. O próprio Viggo Mortensen, notoriamente um grande ator, oferece uma atuação inquieta, hesitante e perplexa, fruto da segurança que um diretor mais firme passaria ao intérprete. Todos esses pequenos lapsos se somam conforme o filme avança, transformando-o numa realização pouco marcante; sem a devida conexão com o protagonista assim estabelecida, o expectador pouco se importa com os rumos de sua história, com o esfacelamento de sua família, a descoberta de um matrimônio cada vez mais vazio ou a dissolução do único vínculo genuíno que possuía, a amizade com Gluckstein.

Nesse sentido, mesmo seus mais notáveis acertos –a interessante manobra narrativa na qual a mesma senilidade herdada da mãe começa a acometer Halder através de súbitas inserções musicais que surgem em meio às cenas –ficam à sombra de seus equívocos –o fôlego limitado para mostrar o quão lamentável é, para o espírito humano, esteja ele do lado que estiver, a circunstância da guerra.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Green Book - O Guia


 Os irmãos Peter e Bobby Farelly reinaram absolutos na comédia escrachada por muitos anos graças a sucessos como “Debi & Lóide”, “Quem Vai Ficar Com Mary?” ou “Eu, Eu Mesmo e Irene”. Por conta desse apelo essencialmente popular de suas realizações –além do caráter um tanto chulo presente em seu estilo de humor –jamais se cogitou a possibilidade de um deles ganhar um Oscar, contudo, foi isso que acabou acontecendo: Numa temporária tentativa de alçar um voo solo, Peter Farelly assumiu, sem a presença de seu irmão Bobby, a direção e o roteiro deste “Green Book-O Guia” que arrebanhou o Oscar 2019 de Melhor Filme num ano que contava com obras estupendas como “A Chegada” e “Infiltrado Na Klan” –cujo realizador, Spike Lee, não ficou nada feliz em perder para um filme onde o tema do racismo era abordado segundo o ponto de vista de um homem branco.

Ideologias à parte, “Green Book” sagra-se por ser basicamente um filme delicioso de se assistir, onde a junção equilibrada, hábil e astuta de comédia e drama serve aos propósitos da premissa e à empatia pelos personagens.

Na maestria com a qual ele praticamente habituou o público, Viggo Mortensen surge transfigurado –e na execução de um humor surpreendente –como Tony ‘Lip’ Vallelonga, um nova iorquino ítalo-americano que, para variar, tem lá suas relações com os mafiosos: Ele trabalha em um night-club como leão de chácara.

Em meados da década de 1960, quando negócios capitaneados pela máfia eram sempre inconstantes, Tony vê seu ganha-pão se acabar quando o clube é fechado.

À procura de emprego para colocar comida na mesa, Tony atende ao chamado de um certo Dr. Don Shirley (Mahershala Ali, fantástico), o qual ele descobre ser, não um médico, mas um músico, e negro!

Dr. Shirley tem uma série de apresentações agendadas ao longo de diversas cidades pelo sul norte-americano e precisa de não apenas um motorista, mas um funcionário à sua disposição para inúmeras tarefas. A ocupação paga bem, mas exige de Tony a disponibilidade de dois meses –e a chance de, quem sabe, não voltar a tempo para passar o Natal com a família.

Relutante pela condição inusitada em que é colocado –afinal, agora, o negro é o empregador e o branco o empregado, em plenos EUA, durante o auge da segregação racial e dos debates sobre os direitos civis –estranhamento que os dois protagonistas despertam em praticamente todos os coadjuvantes, Tony aceita o trabalho e ganha a estrada a bordo de um Cadillac Sedan DeVille azul levando Dr. Shirley no banco de trás.

E não é absolutamente nada difícil deduzir o que irá acontecer: Apesar das personalidades conflitantes –Tony é explosivo e macarrônico; Shirley é culto e meticuloso –e de inicialmente haver inevitáveis rusgas, os dois protagonistas, levados pela situação de convívio forçado, vão descobrindo certa afinidade e empatia, com a qual, por fim, forjam uma amizade genuína. E, se isso é deveras previsível, a condução inspirada de Peter Farelly e, em especial, as atuações reluzentes, carregadas de carisma e de vivacidade de Viggo Mortensen e Mahershala Ali transformam a experiência de acompanhar esse processo em algo saboroso, a ponto do expectador lamentar quando o filme chega a seu final.

Claro que isso não quer dizer que “Green Book” seja uma obra perfeita –ao surgir num período em que a própria indústria é questionada sobre sua representatividade e sobre a validade de obras abordando o preconceito contra negros visto pela ótica de realizadores brancos (como também fez, por exemplo, “Histórias Cruzadas”), a produção de Peter Farelly corre o risco de soar redundante e até mesmo anacrônica –argumentos dos quais se valeram os muitos que criticaram sua premiação no Oscar.

Ainda assim, é preciso ser um bocado desdenhoso para não reconhecer os méritos na bela metamorfose ética vivenciada pelo divertido personagem de Viggo Mortensen, ou no esforço emocionante e estóico do personagem de Mahershala Ali (este premiado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) em representar seus semelhantes por meio de sua arte mesmo nos lugares em que eles jamais seriam aceitos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei Versão Estendida

É possível uma obra já tida por impecável elevar ainda mais seu altíssimo padrão de qualidade? Esta é a difícil pergunta que as Versões Estendidas de “O Senhor dos Anéis” se atreveram a responder com uma audaciosa resposta afirmativa.
No capítulo final, “O Retorno do Rei”, algumas dessas cenas novas foram filmadas depois que o filme ganhou 11 Oscars na histórica cerimônia de 2004, o que não as impede de, pelo menos, conferir um aspecto esclarecedor a muitas passagens em alguns momentos.
Não há, contudo, razão para os pessimistas temerem, o filme majestoso, arrojado e inigualável que tomou o mundo de assalto continua lá: Após as duras provações experimentadas em “As Duas Torres”, o hobbit Frodo Bolseiro (Elijah Wood), ao lado de seu filme companheiro Sam (Sean Astin) adentra a etapa derradeira, e mais arriscada, de sua jornada, quando está por penetrar no território obscuro, maligno e infestado de perigos conhecido como Mordor. Não é só: Cada vez mais prejudicado em seu juízo perfeito pela influência do anel, Frodo rejeita a amizade sincera de Sam para cair nas armadilhas morais de Gollum (Andy Serkis, numa aula de interpretação virtual), cujo plano é entregá-lo de bandeja à horripilante aranha gigante Laracna, numa das mais espetaculares cenas do filme (e do cinema).
No outro núcleo de protagonistas, vemos Aragorn, Legolas, Gimli e Gandalf encontrarem Merry e Pippin, depois dos desencontros do filme anterior –é nesse momento que presenciamos uma das mais festejadas cenas da versão estendida, quando Gandalf, convertido em um mago branco, se depara com Saruman (Christopher Lee) e o confronta; certamente uma cena que foi um pecado ter sido tirada da versão de cinema.
O filme se ocupa de mostrar os desdobramentos desses personagens: Gandalf e Pippin seguem para a Cidade Branca de Gondor (um prodígio de efeitos visuais e direção de arte claramente reservado com zelo para aparecer apenas neste filme) onde devem alertar o esclerosado regente Denethor (John Noble) da chegada iminente de um exército incalculável de orcs; em Rohan, o Rei Théoden (Bernard Hill) e sua sobrinha Eowin (Miranda Otto) reúnem o exército dos rohimin para tentar impedir que a raça dos homens seja subjugada em definitivo pelas forças de Sauron; já, Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies), numa missão diferente, devem invadir catacumbas amaldiçoadas para reivindicar o auxílio de guerreiros fantasmas na grande guerra por vir, guerreiros estes que só responderam ao próprio herdeiro do Rei Isildur, e legítimo rei de Gondor, papel do qual Aragorn já não tem mais como fugir.
Essas subtramas –preenchidas com uma infinidade de cenas grandes ou pequenas que lhes acrescentam novas impressões –convergem, primeiro, na grandiloquente Batalha dos Campos do Pelenor, uma das grandes sequências épicas do cinema moderno, e depois, no enfrentamento final à Sauron e aos orcs, às portas de Mordor, quando Frodo, Sam e Gollum chegam ao ápice de sua conflituosa relação –e o bem e o mal encontram uma das personificações mais complexas, cativantes e visualmente estarrecedoras de seu eterno conflito.
Há beleza indescritível, inesgotável e inatacável em “O Retorno do Rei” –acredite, cada fotograma de sua cinematografia é um wallpaper! –e sua Versão Estendida tão somente fornece um novo e requintado ângulo para apreciá-la; no equilíbrio tão improvável quanto inacreditável de elementos íntimos com predicados épicos e grandiosos, e na obra de perfeição comovente que é obtido, “O Retorno do Rei” representa o final esplendoroso de uma das grandes sagas de nosso tempo, o auge do talento artístico de Peter Jackson e o ápice qualitativo nas telas de cinema das últimas décadas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres Versão Estendida

Pode-se afirmar que o capítulo do meio da formidável “Trilogia do Anel” é aquele que mais muda na comparação da versão de cinema com sua versão estendida.
O mais controverso dos três filmes por parte de algumas decisões criativas de seu diretor Peter Jackson –utilizar seu prólogo dramático no final do primeiro filme e jogar o antológico momento da aranha gigante para a terceira parte –“As Duas Torres” é aquele no qual o material original produzido pelos roteiristas (além de Jackson, Fran walsh, Phillippa Boyens e Stephen Sinclair) mais se expressa: Nele, vemos sub-tramas mais simplórias na versão literária ganhar ênfase e profundidade, além de algumas licenças poéticas que incrementam certas dinâmicas entre os personagens; sendo a mais gritante, a paixonite contumaz de Ewin (Mirando Otto) por Aragorn (Viggo Mortensen).
Por falar nele, Aragorn, com o acréscimo de novas linhas à trajetória empreendida por ele, Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) ao fim de “A Sociedade do Anel”, acaba adquirindo um protagonismo que toma o lugar central de Frodo (Elijah Wood) nesta narrativa –ele que era sem dúvida o protagonista do filme anterior, mas, que voltará a ser protagonista do filme posterior.
Neste épico monumental, desprovido de começo e de fim pela força dessas circunstâncias, a direção de Jackson relata assim três linhas narrativas paralelas originadas do dramático desfecho da primeira parte: Na primeira, Frodo e Sam (Sean Astin) adentram as regiões mais ermas e obscuras em seu caminho árduo rumo à Mordor; enquanto Frodo adentra também, num nível mais íntimo, áreas ainda mais sombrias de sua condição espiritual graças à influência maléfica do poderoso anel que deve destruir. Exemplo radical do mal provocado pela corrupção do anel, a criatura Gollum (Andy Serkis, brilhante) passa a acompanhá-los com a promessa de ser-lhes um guia –embora, lá no fundo, sua mente distorcida almeje traí-los.
Na segunda linha narrativa, os hobbits Merry (Dominc Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), cativos dos perversos orcs, são levados por eles até o traiçoeiro mago branco Saruman (o saudoso Christopher Lee) até serem interceptados no meio do caminho, levando os pequeninos a ficar sobre a guarda de Barbárvore, uma criatura conhecida como ‘ent’ –árvores ambulantes que representam um dos muitos assombros em efeitos visuais que o filme entrega.
E finalmente, na terceira linha, Aragorn, Legolas e Gimli, comprometidos na tentativa de resgatar Merry e Pippin, terminam por acabar deixando de lado essa missão para juntarem-se aos homens do reino de Rohan, cujo Rei Théoden (Bernard Hill, de “Titanic”) e seu povo se veem ameaçados de genocídio pela sanha de Saruman e sua horda de orcs, o que culmina na longa, violenta e arrebatadora Batalha do Abismo de Helm.
De modo geral, as inúmeras cenas novas que aparecem neste corte –e que se mostram intensas na sua primeira metade, praticamente desaparecem durante do clímax (prova do quão satisfeito Jackson ficou com o resultado) e voltam em um ou outro momento já no epílogo, pela primeira vez mostrando resultados não tão harmoniosos –reforçam as características shakesperianas deste capítulo da “Trilogia do Anel” em especial: Nos monólogos intensos do elenco, sobretudo, no núcleo que inclui os cavaleiros de Rohan, como o Rei Théoden, Eomer (Karl Urban), Eowin e Grima Língua de Cobra (Brad Dourif, de “Um Estranho No Ninho”); e também nas gratificantes cenas de flashback que ampliam a presença de Boromir (Sean Bean, magnífico) e agregam novas camadas ao personagem de seu irmão, Faramir (David Wenham, de “300”).
Tais considerações enfatizam o objetivo de Jackson e toda sua equipe em alcançar o mais alto nível cinematográfico e artístico possível, e ratificam o fato, já nítido e evidente na época do lançamento em cinema, destas produções estarem entre as grandes obras de cinema de todos os tempos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel Versão Estendida

Ainda no princípio da década de 2000, quando a trilogia de Peter Jackson tomou o mundo de assalto e marcou para sempre a história do cinema, surgiu um rumor de que a versão de três horas vista nos cinemas teria também um corte muito maior, com cenas inéditas que estendiam ainda mais o tempo de filme e traziam momentos suculentos que acrescentavam novas impressões ao grande filme do momento: “O Senhor dos Anéis” dominou a atenção de público e crítica pelos três anos seguintes.
A chamada versão estendida, quando por fim ficou ao alcance do público, trazia pequenos acréscimos em cenas já conhecidas, pedaços de diálogos que incrementavam a carga naturalmente literária do material e sequências inteiras, algumas bastante impressionantes, que terminaram de fora do corte conhecido.
No primeiro capítulo, “A Sociedade do Anel”, tais cenas não tardam a aparecer para quem acompanha do filme atento; embora a maneira mais correta de apreciá-lo seja mesmo pelo grande filme que ele é.
No mundo mágico e fantasioso criado pelo escritor J.R.R. Tolkien chamado Terra Média, os povos livres –homens, hobbits, magos, anões, elfos e outras criaturas fantásticas –se veem ameaçados por Sauron, cujo poder todos julgavam ter sido derrotado –numa cena espetacular mostrada no começo, e que já deixa bem claro as predisposições épicas do trabalho de Jackson.
Contudo, Sauron não está exatamente morto: Sua força vital se encontra ainda no Um Anel, fonte de seu poder e que, por meio de uma série de idas e vindas, acabou nas mãos do hobbit Bilbo Bolseiro (o saudoso Ian Holm), morador do bucólico Condado e tio do protagonista, Frodo Bolseiro (Elijah Wood) –é, por sinal, na sequência do Condado, que as primeiras cenas inéditas aparecem, como o momento em que Bilbo é visto escrevendo seu livro.
Em sua festa de aniversário, Bilbo despede-se de todos e, para resumir, deixa a guarda de seu anel (e de tudo que ele tem, na verdade) para Frodo.
Entretanto, o mago Gandalf, o Cinzento (Ian McKellen), tem suspeitas em relação ao tal anel –e à influência maléfica que ele nota ser despertada em Bilbo.
Ele descobre toda a verdade sobre a peça bem há tempo, quando os cavaleiros Nazgûl são despachados pelas forças das trevas para capturar Frodo e levar o anel.
Acompanhado de Sam (Sean Astin), Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), Frodo passa poucas e boas para chegar até Valfenda, local de morada do sábio elfo Elrond (Hugo Weaving) que monta um conselho secreto às pressas, composto por representantes dos povos livres da Terra Média, a fim de determinar que destino dar ao anel.
O próprio Gandalf, no entanto, sabe que só existe uma coisa a se fazer: Levar o anel até a longínqua e tenebrosa Mordor, onde foi forjado, portanto, único lugar onde pode ser destruído. E Gandalf sabe também que a pessoa destinada a realizar tal sacrifício é Frodo.
Assim quando ele parte –dando início à essa jornada fenomenal –seus companheiros são Gandalf, Sam, Merry e Pippin, além dos cavaleiros Aragorn (Viggo Mortensen) e Boromir (Sean Bean), o elfo Legolas (Orlando Bloom) e o anão Gimli (John Rhys-Davies).
Apesar da curiosidade, a Versão Estendida não deixa de ser o mesmo filme assombroso que chocou plateias do mundo com um nível improvável de qualidade. Ainda é possível perceber o que faz de “O Senhor dos Anéis” uma experiência cinematográfica inesquecível: Nunca antes (talvez, nem mesmo em “Star Wars”) uma produção de fantasia havia atingido padrões tão altos em seus quesitos técnicos e artísticos; sabia-se que os efeitos visuais seriam magníficos, mas não se esperava deles uma capacidade de modificar irreversivelmente a maneira de se fazer cinema; sabia-se que a paixão de Peter Jackson e sua equipe haveria de produzir algo singular, mas ninguém imaginava que o resultado seria uma obra de tal qualidade que até hoje, vinte anos depois, outros filmes penariam para igualar seu brilhantismo; e, finalmente, sabia-se que o material literário da obra de Tolkien (cultuado, referenciado e apreciado desde os anos 1950) tinha méritos narrativos que apareceriam na tela, mas o público não imaginava que, no tratamento de requinte ímpar dado à tudo, “O Senhor dos Anéis” seria algo tão antológico, marcante e inesquecível.
Neste primeiro filme, o efeito retumbante e ressonante que ele produz pode ser avaliado à partir de seu desfecho, quando seus personagens são colocados numa encruzilhada de caminhos paralelos que originam as duas estupendas continuações –um final que não finaliza coisa alguma, que proporcionou aos expectadores da época a mesma sensação (talvez até mais intensa) que a geração anterior teve ao ver o fim de “O Império Contra-Ataca” no cinema.
Que filme, senhoras e senhores, que filme!

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Psicose

Hoje soa algo absurdo, mas em 1998, um estúdio de cinema, um produtor, uma equipe técnica e todo um elenco não chegaram a achar que a ideia do diretor Gus Van Sant em refilmar o clássico “Psicose”, de Alfred Hitchcock, fosse assim tão equivocado.
Mais: Van Sant não tinha em seus planos uma recriação, uma reinvenção ou mesmo uma repaginação (isso também foi feito, anos depois, na série “Bates Motel”), não, sua intenção era refazer a obra de Hitchcock frame a frame, repetindo os enquadramentos de câmera, mantendo a única iniciativa de acrescentar cores à fotografia outrora preto & branco.
Seu pretexto era a apresentação de uma obra fundamental à uma nova geração criada a base de MTV –e, ao qua parece, tão alienada que era incapaz de procurar um filme mais antigo em alguma locadora que o tivesse à disposição...
O filme até começa promissor, com um take de câmera ininterrupto (um traveling de helicóptero sobrevoa São Francisco e entra dentro da janela de um apartamento) que estava nos planos de Hitchcock, mas que na época as restrições técnicas não permitiram a ele sua viabilização. Assim, na personagem antes vivida por Janet Leigh, temos Anne Heche interpretando Marion Crane, a secretária prestes a passar a perna no próprio chefe; e destinada a pagar caro por isso. A fim de obter o mesmo resultado pretendido por Hitchcock (o de descartar em pleno filme a personagem que aparentava ser a principal), Van Sant tinha a intenção de escalar Nicole Kidmam para o papel (ela havia filmado com ele o ótimo “Um Sonho Sem Limites”), mas os conflitos de agenda não permitiram.
Durante sua fuga, de posse do dinheiro roubado do patrão, Marion chega no Bates Motel onde conhece seu estranho proprietário, Norman Bates.
Incorporado com tamanha adequação ao papel por Anthony Perkins que sua carreira custou a desvencilhar-se da sombra do personagem, Norman Bates é aqui vivido por Vince Vaughn que revela-se uma escolha bastante estranha: Grandalhão feito um jogador de basquete e inexpressivo, Vaughn em nada corresponde ao Norman de Perkins, cujas características errádicas, hesitantes e socialmente ineficazes escondem sua periculosidade sobre um verniz de timidez extrema.
Em vez disso, o Norman de Vaughn é claramente ameaçador, suspeito no sentido genérico do termo e lembra, por vezes, o capanga de um bandidão de fato.
Se você conhece “Psicose”, você sabe o que se sucederá –em nada o filme de Van Sant altera a ordem dos acontecimentos do filme de Hitchcock, revelando somente uma incapacidade mambembe de preservar a mesma maestria: A montagem magistral da cena da morte no chuveiro (estudada por alunos e professores de cursos de cinema) é recriada com cacoetes questionáveis e claudicantes; o desenho de som (responsável pela tensão de inúmeras passagens) é negligenciado a ponto de banalizar muitos momentos outrora antológicos; e o que resta do elenco –Julianne Moore, Viggo Mortensen (antes do “O Senhor dos Anéis”!) e William H. Macy –se esforça em vão para acrescentar credibilidade a um caso perdido.
Por conta de todos esses erros, quando chegamos ao trecho final –que na obra de Hitchcock abriga uma das mais eletrizantes e estarrecedoras reviravoltas do cinema –a reação do público ainda interessado aos acontecimentos é mais de chacota que de assombro.
Involuntariamente, a única serventia do “Psicose” de Gus Van Sant foi provar o quanto inestimável e inimitável era o “Psicose” de Alfred Hitchock e sua técnica então prodigiosa –pois, o enquadramento podia ser o mesmo, o roteiro, com suas sequências e diálogos, poderia ser o mesmo, até a mecânica das cenas poderia se repetir, mas havia uma magia na concepção daquela, e de outras obras-primas do cinema, que o mero e vazio esforço de reprodução não conseguiam replicar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Indicados Ao Oscar 2019


Os indicados ao Oscar 2019 foram anunciados. Vamos a eles:

Melhor Filme
Pantera Negra
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book-O  Guia
Roma
Nasce Uma Estrela
Vice

O público ainda se encontra extasiado pelas sete indicações de “Pantera Negra”, que inclusive se estendem até a mais importante nomeação –a de Melhor Filme –todavia, os filmes mais importantes na categoria, aqueles que têm a chance de ganhar o prêmio de fato são “Green Book” (que ganha cada vez mais força junto à crítica) e “Nasce Uma Estrela” (desde sempre um favoritíssimo), entretanto, nenhum goza de mais prestígio no momento do que “Roma” que obteve o maior número de indicação (dez) e ostenta uma excelência que levou a Academia a uma inédita aceitação das produções de streaming (às quais ele pertence) reconhecendo assim o cinema como uma arte que transcende os formatos impostos do passado.

Melhor Ator
Christian Bale, Vice
Bradley Cooper, Nasce Uma Estrela
Rami Malek, Bohemian Rhapsody
Viggo Mortensen, Green Book-O Guia
Willem Dafoe, No Portal da Eternidade

Bradley Cooper e Willem Dafoe perderam o Globo de Ouro de Ator em Drama para Rami Malek, e sua aplaudida personificação de Fred Mercury; Viggo Mortensen perdeu o mesmo prêmio para Christian Bale (desta vez, na categoria de Comédia), cuja transformação física quase sempre surte efeito positivo nos votantes da Academia.
Embora muitos críticos apreciem com ressalvas o trabalho de Rami Malek, há certa coerência em pensar que o Oscar de Melhor Ator pode ser o único prêmio válido e real para “Bohemian Rhapsody” –e o mesmo argumento pode valer para “Vice”, também.
Meu palpite é que o vencedor será definido no SAG Awards!

Melhor Atriz
Lady Gaga, Nasce Uma Estrela
Yalitza Aparicio, Roma
Glenn Close, A Esposa
Olivia Colman, A Favorita
Melissa McCarthy, Poderia Me Perdoar?

A atriz de “Roma” –que muitos críticos afirmavam ser uma injustiça sua ausência em algumas premiações –pegou muitos de surpresa aparecendo nesta categoria que, ninguém duvida, irá ficar polarizada entre Glenn Close e Lady Gaga; até mesmo a vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical, Olivia Colman, surge à sombra delas.
Provavelmente o prêmio ficará com Glenn Close visto que já chegou a hora dela ser reconhecida com um Oscar –o quê ela, sendo a grande atriz que é, nunca levou!
Não que Lady Gaga vá sair da cerimônia de mãos abanando: Sua vitória na categoria de Melhor Canção Original é considerada certa.

Melhor Direção
Spike Lee, Infiltrado na Klan
Pawel Pawlikowski, Guerra Fria
Yorgos Lanthimos, A Favorita
Alfonso Cuarón, Roma
Adam McKay, Vice

Parece difícil acreditar, mas esta é a primeira indicação ao Oscar de Spike Lee, um dos diretores essenciais para a aceitação de temáticas minoritárias no cinema norte-americano no início dos anos 1990, e ela veio por um filme brilhante e aclamado, explosivo em seu tema como é de agrado de Lee.
Surpresa mesmo, porém, é a presença do polonês Pawel Pawlikowski (diretor do celebrado “Meu Amor de Verão”) quando muitos esperavam ver ali Bradley Cooper ou Peter Farrelly. Ainda assim, as atenções se voltam para Alfonso Cuarón que, cinco anos depois de “Gravidade”, fez mais uma obra que promete arrebatar prêmios.

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams, Vice
Marina de Tavira, Roma
Regina King, Se A Rua Beale Falasse
Emma Stone, A Favorita
Rachek Weisz, A Favorita

Outra surpresa foi o aparecimento de Marina de Tavira (por “Roma) ocupando o lugar que poderia ter sido de Claire Foy, por “O Primeiro Homem” –filme que foi bastante esquecido em muitas categorias.
Vencedora do Globo do Ouro, Regina King aparece com ligeiro favoritismo –há quem acredite que possa ser esse o único prêmio de expressão de “Se A Rua Beale Falasse” –mas, muitos apostam na força de Amy Adams para quem ela começa a perder mais terreno.

Melhor Ator Coadjuvante
Mahershala Ali, Green Book-O Guia
Adam Driver, Infiltrado na Klan
Sam Elliot, Nasce Uma Estrela
Richard E. Grant, Poderia Me Perdoar?
Sam Rockwell, Vice

Talvez, a única categoria (ao lado de Filme Estrangeiro) onde o vencedor já é certo: Será muito improvável que Mahershala Ali perca o prêmio, que ele já ganhou, dois anos atrás, por “Moonlight-Sob A Luz do Luar” –aliás, só para constar, o premiado do ano passado (Sam Rockwell, por “Três Anúncios Para Um Crime”) está ali, a disputar com ele...

Melhor Edição
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book-O Guia
Vice

Melhor Animação
Os Incríveis 2
Ilha de Cachorros
Mirai
WiFi Ralph-Quebrando A Internet
Homem-Aranha No Aranhaverso

Ao repetir exatamente a mesma lista dos indicados ao Globo de Ouro, imagina-se que o Oscar repetirá também sua premiação: O ótimo “Homem-Aranha No Aranhaverso”, que vem, por sinal, amealhando diversos prêmios.
Curioso notar como os outros estúdios finalmente conseguiram igualar a genialidade narrativa que em animações, até outro dia, era exclusividade da Pixar e da Disney –que surgem na disputa com “Os Incríveis 2” e “WiFi Ralph”.

Melhor Fotografia
Guerra Fria
Roma
Nasce Uma Estrela
A Favorita
Nunca Deixe de Lembrar

Melhores Efeitos Visuais
Vingadores-Guerra Infinita
Christopher Robin
O Primeiro Homem
Jogador Nº 1
Han Solo-Uma História Star Wars

Notável a lembrança de três filmes estrangeiros na categoria de Melhor Fotografia (“Roma” já era esperado, mas “Guerra Fria” e “Nunca Deixe de Lembrar” foram surpresas) sendo que dois deles são filmados em preto & branco!
Nos Efeitos Visuais, “Guerra Infinita” proporcionou tanta comemoração quanto as numerosas indicações de “Pantera Negra” –vale lembrar que, até então, nenhum filme da Marvel Studios jamais levou um Oscar!

Melhor Roteiro Original
A Favorita
No Coração das Trevas
Green Book-O Guia
Roma
Vice

Melhor Roteiro Adaptado
A Balada de Buster Scruggs
Infiltrado na Klan
Poderia me Perdoar?
Se a Rua Beale Falasse
Nasce Uma Estrela

Um grande suspense que antecipou os anúncios dizia respeito se a Academia iria se render à necessidade de reconhecimento de grandes obras realizadas pelas plataformas de streaming (no caso, a Netflix) ao nomear “Roma”.
Daí a surpresa que, não apenas o filme de Cuarón apareceu entre os indicados como também o belo trabalho dos Irmãos Coen, “A Balada de Buster Scruggs”, foi merecidamente lembrado na categoria de Melhor Roteiro Original, assim como na da Figurino e Canção Original.

Melhor Filme Estrangeiro
Cafarnaum (Líbano)
Guerra Fria (Polônia)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)
Roma (México)
Assunto de Família (Japão)

Melhor Canção Original
All of The Stars - Pantera Negra
The Place Where the lost things go - O Retorno de Mary Poppins
Shallow - Nasce uma Estrela
I'll Flight - RBG
When a Cowboy Trade... - A Balada de Buster Scrugss

Melhor Documentário em Curta-Metragem
Black Sheep
End Game
Lifeboat
A Night at the Garden
Period.

Melhor Documentário em Longa-Metragem
Free Solo
Hale County this Morning , This Evening
Minding the Gap
RBG
Of Fathers and Sons

Melhor Design de Produção
Pantera Negra
A Favorita
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins
Roma

Melhor Figurino
A Balada de Buster Scrugss
Pantera Negra
A Favorita
O Retorno de Mary Poppins
Duas Rainhas

Melhor Mixagem de Som
Pantera Negra
Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Roma
Nasce Uma Estrela

Melhor Edição de Som
Pantera Negra
Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Um Lugar Silencioso
Roma

Melhor Maquiagem
Border
Vice
Duas Rainhas

As categorias técnicas representam a melhor chance de “Pantera Negra” sair com algumas estatuetas debaixo do braço, ainda que hajam filmes bem cotados e merecedores nas de Melhor Design de Produção, Melhor Figurino (“A Favorita”, em ambos), Melhor Mixagem (“O Primeiro Homem”, já que não concorre a quase nada), e Melhor Edição de Som (“Um Lugar Silencioso”, outro apontado como um dos grandes injustiçados deste ano).

Melhor Curta em Animação
Animal Behaviour
Bao
Late Afternoon
One Small Step
Weekends

Melhor Curta-Metragem
Detainment
Fauve
Marguerite
Mother
Skin

Melhor Trilha Sonora
Nicholas Britell – Se a Rua Beale Falasse
Alexandre Desplat – Ilha de Cachorros
Ludwig Göransson – Pantera Negra
Marc Shaiman – O Retorno de Mary Poppins
Terence Blanchard - Infiltrado na Klan

A entrega dos prêmios será dia 24 de fevereiro.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2019


A temporada de prêmios começou. A lista divulgada hoje traz os concorrentes ao prêmio conferido pela Imprensa Estrangeira, o Globo de Ouro que, no passado, já foi o mais confiável dos termômetros para o Oscar. Eis os indicados somente nas categorias de cinema:

Melhor Roteiro
Alfonso Cuaron, por “Roma”
Deborah Davis e Tony McNamara, por “A Favorita”
Barry Jenkins, por “Se a Rua Beale Falasse”
Adam McKay, por “Vice”
Peter Farrelly, Nick Vallelonga e Brian Currie, por “Green Book-O Guia”

Melhor Diretor
Bradley Cooper (“Nasce Uma Estrela”)
Alfonso Cuaron (“Roma”)
Peter Farrelly (“Green Book-O Guia”)
Spike Lee (“Infiltrado na Klan”)
Adam McKay (“Vice”)

Melhor Filme Drama
“Infiltrado na Klan”
“Bohemian Rhapsody”
“Se a Rua Beale Falasse”
“Nasce Uma Estrela”

Melhor Musical ou Comédia
“Podres de Rico”
“A Favorita”
“Green Book-O Guia”
“O Retorno de Mary Poppins”
“Vice”

Além da predominância até já esperada do elogiadíssimo “Roma” e de “Vice”, a nova empreitada de Adam McKay depois da consagração com “A Grande Aposta”, o que surpreendeu foi a ausência de “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, nas categorias principais.
Mas, nenhuma surpresa foi maior do que a lembrança de “Pantera Negra”, tornando-se assim o primeiro filme da Marvel Studios a concorrer em um prêmio de expressão –e ainda por cima na categoria de Drama, convenhamos, mais prestigiada que a de Musical ou Comédia.

Melhor Animação
“Ilha de Cachorros”
“Mirai”
“WiFi Ralph”
”Homem-Aranha no Aranhaverso”


Muitos trabalhos ainda inéditos no Brasil, como “WiFi Ralph” e “Homem-Aranha no Aranhaverso” disputam este prêmio tornando difícil apontar o favorito, mas “Os Incríveis 2” vem com o aval da Pixar e da Disney.
Penso que o prêmio ficará entre ele e a continuação de “Detona Ralph”.

Melhor Filme Estrangeiro
“Capernaum” (Líbano)
“Girl” (Bélgica)
“Never Look Away” (Alemanha)
“Roma” (Itália)
“Shoplifters” (Japão)

Imagina-se que, como ocorreu a quatro anos atrás, deva haver um predomínio do trabalho de Alfonso Cuaron nas premiações.
Nesta categoria não parece haver concorrente mais forte do que “Roma”, no entanto, a Imprensa Estrangeira pode ter conhecimentos a respeito de um desses indicados que nós ainda não temos.
Agora, mistério mesmo é como o Oscar irá se comportar em relação à Roma (que é um filme da Netflix!) se sua supremacia artística se confirmar ao longo desta temporada.

Melhor Ator Coadjuvante
Mahershala Ali (“Green Book-O Guia”)
Timothee Chalamet (“Beautiful Boy”)
Adam Driver (“Infiltrado na Klan”)
Richard E. Grant (“Can You Ever Forgive Me?”)
Sam Rockwell (“Vice”)

Com exceção de Richard E. Grant, os demais indicados são todos grandes atores surgidos nos últimos anos; não será fácil optar entre o fulgor de Sam Rockwell, o minimalismo de Adam Driver, a introspecção precisa de Timothée Chamalet e o surpreendente timing cômico de Mahershala Ali.

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams (“Vice”)
Claire Foy (“O Primeiro Homem”)
Regina King (“Se a Rua Beale Falasse”)
Emma Stone (“A Favorita”)
Rachel Weisz (“A Favorita”)

Eis que finalmente “O Primeiro Homem” aparece nesta categoria (ele só torna a reaparecer na de Trilha Sonora Original), representado justamente por Claire Foy que teve um 2018 promissor no cinema; com o papel de Lisbeth Salander em “A Garota Na Teia da Aranha” e este daqui ela começa a dar passos largos para obter na tela grande o mesmo reconhecimento que já tem na TV na série “The Crow”.
Quando à grande dúvida sobre as atrizes de “A Favorita” –ninguém sabia em quais categorias as três seriam colocadas –pelo menos o Globo de Ouro optou por colocar as mais famosas (Emma e Rachel) como coadjuvantes e a única desconhecida como atriz principal –já falamos dela...

Melhor Ator em Drama
Bradley Cooper (“Nasce Uma Estrela”)
Willem Dafoe (“At Eternity’s Gate”)
Lucas Hedges (“Boy Erased”)
Rami Malek (“Bohemian Rhapsody”)
John David Washington (“Infiltrado na Klan”)

Embora o público dê seu referendo aos trabalhos de Rami Malek e Bradley Cooper (este, é bom lembrar, também é diretor do filme), quem vem crescendo consideravelmente em rodas de apostas é a magnífica atuação de Lucas Hedges.

Melhor Atriz em Drama
Glenn Close (“The Wife”)
Lady Gaga (“Nasce Uma Estrela”)
Nicole Kidman (“O Peso do Passado”)
Melissa McCarthy (“Can You Ever Forgive Me?”)
Rosamund Pike (“A Private War”)

Embora a interpretação de Nicole Kidman seja apontada como uma das melhores do ano (e da sua carreira também) muito se aposta que esta seja finalmente a chance de Glenn Close ser premiada –não no Globo de Ouro, que ela venceu em duas ocasiões, mas no Oscar! Como o Globo de Ouro, bem como muitas das demais premiações, apontam o favoritismo que costuma se confirmar na festa do Oscar, é natural que ela saia na frente aqui.
Além de Nicole, ela tem a concorrência fortíssima de Lady Gaga, numa performance muito aplaudida por público e crítica.
Uma pena, porém, que não houve espaço para uma indicação para Tony Collette e seu poderoso trabalho no assustador “Hereditário”.

Melhor Ator em Comédia ou Musical
Christian Bale (“Vice”)
Lin-Manuel Miranda (“O Retorno de Mary Poppins”)
Viggo Mortensen (“Green Book-O Guia”)
Robert Redford (“The Old Man and the Gun”)
John C. Reilly (“Stan & Ollie”)

Entregando a excelência habitual com a qual nos acostumamos, Christian Bale e Viggo Mortensen chegam exigindo respeito, bem como o veterano Robert Redford que, a exemplo de Daniel Day-Lewis ano passado, anunciou sua aposentadoria de frente das câmeras.
É difícil, no entanto, ignorar o brilho e a emoção de John C. Reilly (debaixo de quilos de maquiagem) como Oliver Hardy na cinebiografia de o Gordo e o Magro, “Stan & Ollie”.

Melhor Atriz em Comédia ou Musical
Emily Blunt (“O Retorno de Mary Poppins”)
Olivia Colman (“A Favorita”)
Elsie Fisher (“Eighth Grade”)
Charlize Theron (“Tully”)
Constance Wu (“Podre de Ricos”)

Embora tenha a mesma importância na trama e o mesmo tempo de cena que suas companheiras de elenco, Emma Stone e Rachel Weisz, a desconhecida Olivia Colman ganhou a indicação como protagonista em detrimento da nomeação de suas colegas como coadjuvantes.
É essa indefinição uma das desvantagens dela na busca pelo prêmio que ela terá de disputar com os sempre bons trabalhos de Emily Blunt (na continuação de um clássico que as premiações podem insistir em lembrar), de Charlize Theron e de Constance Wu –possivelmente a favorita –num dos filmes-sensação da temporada.

Melhor Trilha Sonora Original
Marco Beltrami por “Um Lugar Silencioso
Alexandre Desplat por “Ilha de Cachorros”
Ludwig Göransson por “Pantera Negra”
Justin Hurwitz por “O Primeiro Homem”
Marc Shaiman por “O Retorno de Mary Poppins”

Melhor Música Original
All the Stars, de “Pantera Negra”
Girl in the Movies, de “Dumplin’”
Requiem for a Private War, de “A Private War”
Revelation, de “Boy Erased”
Shallow, de “Nasce Uma Estrela”

Nas categorias de Trilha Sonora e Música, “Pantera Negra” (que concorre em ambas) vai precisar disputar, no primeiro caso, com um filme magistral no uso da dinâmica entre o som e o silêncio (o muito digno de prêmios, “Um Lugar Silencioso” que infelizmente só foi lembrado aqui), e com um clássico dos musicais repaginado em toda sua glória (“Mary Poppins”).
Já no quesito Música Original, muitos acham improvável que “Nasce Uma Estrela” saia de mãos abanando.

A entrega dos Globos de Ouro ocorre dia 6 de janeiro.