quarta-feira, 8 de julho de 2026

Paixões Na Floresta


 Dirigido por Philip Ridley, “Paixões Na Floresta” – ou “The Passion Of Darkly Noon” – é um  cult-movie obscuro dos anos 1990 que conta com as presenças de Viggo Mortensen (bem antes de sagrar-se como Aragorn em “O Senhor dos Anéis”) e de Brendan Fraser (bem antes do sucesso de “A Múmia”, e mais ainda do Oscar de Melhor Ator por “A Baleia”).

Darkly Noon é o estranho nome do protagonista vivido por Brendan Fraser. Quando o filme começa, ele perambula a esmo por uma floresta, ferido e perturbado. Ele é encontrado inconsciente por Jude (Loren Dean, de “Gattaca-A Experiência Genética”) que o leva à casa de Callie (Ashley Judd, belíssima) situada no meio da floresta.

Jude é irmão de Clay (Viggo Mortensen), marido de Callie, que se encontra desaparecido – Clay tem episódios (que, talvez sejam esquizofrenia!) nos quais some floresta adentro por dias à fio, para então voltar como se nada tivesse acontecido.

Embora esteja sozinha, Callie resolve arriscar-se e abrigar Darkly em sua casa, mesmo na ausência de Clay e, nos dias que se seguem (dias estes que constituem o formato episódico da narrativa) ela constrói uma relação estranha e até certo ponto contraditória com Darkly: Ele (que era membro de uma espécie de seita religiosa e tornou-se o único sobrevivente de uma chacina na qual viu morrerem até seus pais!) mal consegue ocultar seu desejo por ela; já, Callie por sua vez, não deixa de insinuar-se para Darkly (não alimentem esperanças, Ashley Judd não fica nua neste filme...) embora sempre insista que é apaixonada por Clay.

Darkly – cuja sanidade já era fragmentada pelo fanatismo religioso em meio ao qual nasceu e cresceu – se vê atormentado por tal situação, que só se ressalta quando Clay retorna.

Clay, que é mudo, trabalha como marceneiro fazendo caixões, e aceita Darkly como seu ajudante, entretanto, é quase insuportável para Darkly testemunhar Callie, seu objeto de desejo, aos beijos e abraços com outro homem. Ele busca refúgio na floresta e lá acaba encontrando Roxy (Gracie Zabriskie, de “Twin Peaks”) da qual Callie já havia lhe prevenido.

Roxy, na realidade, mora num trailer nas imediações e tem por companhia apenas o seu cachorro – ela conta a Darkly que outrora morou na mesma casa em que Callie está, conta que Callie levou seu marido à morte, e que seduziu seu filho Clay (no entanto, ela nunca menciona Jude em sua versão dos fatos). Em suma, ela afirma que Callie é uma bruxa, responsável pela destruição de sua família e que Darkly deve tomar uma atitude e puni-la por seus pecados.

Impelido por seus desejos sexuais então reprimidos, por sua própria loucura latente, pelas histórias tendenciosas de Roxy, e até mesmo por alucinações onde enxerga seus pais (!) alvejados por tiros e lhe dando ordens (vividos por Mel Cobb e Katie Harper), Darkly aos poucos vai cedendo a uma predisposição homicida com a qual, num dado momento, ele invadirá a casa de Callie e Clay e, em meio à um incêndio que ele mesmo provocará, tentará matar Callie.

É um tanto quanto difícil descrever “Paixões Na Floresta” e, mais ainda, tentar decifrar, a partir do filme intrigante e excêntrico que fez, os objetivos do diretor Philip Ridley. Vindo de um filme independente que colocou seu nome no circuito alternativo – o desigual conto de vampirismo “O Reflexo do Mal”, também com Viggo Mortensen – Ridley dá continuidade às suas inquietações nesta produção de baixo orçamento que resgata os temas que ele parece incapaz de abandonar: A forma como os seres humanos cedem à impulsos insensatos a parir de suas crenças arraigadas.

Ele materializa esses tópicos numa obra curiosa que suscitou certo fascínio entre alguns cinéfilos ainda nos anos 1990, mas peca pela imperfeição gritante do material – não apenas seu argumento vem soterrado em contradições e redundâncias como muitas vezes sua própria direção não parece saber, ao certo, o rumo que deseja tomar dentro das diretrizes que desenvolve. Num momento, ele sugere um erotismo que jamais surge de fato (muito provavelmente, em função das imposições da atriz Ashley Judd, recusando cenas que talvez fossem mais ousadas no roteiro), noutro, ele conduz um suspense cujos intérpretes dos personagens envolvidos não parecem compreender por inteiro as motivações, caso de Brendan Fraser, numa progressão de desequilíbrio e psicose que soa exagerada, em muitos momentos (ainda que ancora num desempenho esforçado), ou em Loren Dean, que aparece, vez ou outra, com apego absolutamente injustificado ao personagem de Fraser.

Nas mãos de um David Lynch ou de um Michael Haneke, poderia ser uma das grandes obras dos anos 1990, nas mãos de Philip Ridley é, quando muito, um intrigante conto sobre desejo em conjugação com uma certa sanha homicida que pouco se mostra harmonioso.

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