quinta-feira, 25 de junho de 2026

Memory


 Nesta sua primeira colaboração com a estrela Jessica Chastain, o diretor mexicano Michel Franco conta, à sua maneira, uma história de amor, contudo, nem um pouco adornada do romantismo com o qual estamos acostumados –Franco conta a história de seus personagens atento às arestas de crítica social, às nuances de uma dramaturgia corrosiva e à uma narrativa que privilegia o senso naturalista ante qualquer idealização cinematográfica, e na grande maioria dos projetos que encabeçou, Jessica Chastain, de fato, sempre buscou mais expressões autorais, e menos comerciais, em suas empreitadas interpretativas.

Aqui, ela vive Sylvia, uma mulher suburbana, encarregada de um subemprego numa casa de cuidados especiais. Ela luta para criar a filha, Ana (Brooke Timber, do seriado “Boneca Russa”) e manter-se firme nas reuniões do A.A. (em meio a uma das quais o filme começa) para afastar-se do alcoolismo que quase a consumiu na juventude.

Sem quase nenhum traquejo social (cujas razões compreenderemos aos poucos), Sylvia é chamada pela irmã mais nova, Olivia (Merritt Wever, de “A História de Um Casamento”) para uma festa de reunião dos ex-estudantes da escola Woodbury, onde ambas estudaram, no entanto, Sylvia não poderia se sentir mais deslocada: Ela não é capaz de partilhar dos momentos festivos, sempre a envolver bebidas alcóolicas, e os poucos que a conhecem se constrangem com sua presença. Ao sair de lá, Sylvia é seguida por alguém que inicialmente não sabemos de quem se trata: Um estranho que a acompanha de longe até a porta de sua casa.

No outro dia, o estranho ainda está lá (?), e ela acaba chamando alguém para vir buscá-lo.

Pouco a pouco, vamos descobrindo de quem se trata: Ele se chama Saul Shapiro (Peter Sarsgaard, em inspirada atuação) e é portador de demência leve. Ele tem memórias nítidas de sua vida passada, de quando era casado, até então enviuvar, mas sua mente não conserva com perfeição memórias novas, perdendo-se com muita facilidade.

Inicialmente, Sylvia recusa a proposta do irmão dele, Isaac (Josh Charles, de “Sociedade dos Poetas Mortos”) para ser cuidadora de Saul, acreditando que, quando jovens, ele foi um dos tantos que se aproveitou do alcoolismo dela para abusá-la. No entanto, quando descobre que Saul é inocente, Sylvia volta atrás, e passa a tomar conta dele todos os dias.

A medida que o tempo vai passando, Sylvia e Saul conseguem impactar na vida um do outro e um vínculo mais forte e improvável começa a se formar.

É curiosa a forma com que o estilo do diretor Franco muda radicalmente as impressões do filme; tivesse algum outro diretor, este “Memory” seria uma obra agridoce, melodramática e muito provavelmente romântica: Sob a batuta de Michel Franco, contudo, “Memory” é uma obra enxuta, sucinta e sólida na qual os meandros de uma relação a dois vão surgindo em minimalismos cotidianos, sem qualquer enfeite ou ênfase. Se isso por um lado remove completamente o filme do gênero romance ao qual poderia pertencer, por outro, ele confere uma cadência realista aos acontecimentos a ponto de não oferecer ao expectador muitas certezas acerca do rumo que o enredo haverá de tomar.

Nesta realização um bocado modesta e válida, as únicas impressões estranhas ficam por conta da própria Jessica Chastain: Ela está maravilhosa como sempre, não me entendam mal (e foi ela mesma quem recomendou ao diretor Franco a excelente escolha de Peter Sarsgaard para o papel), contudo, tão magnética, atrativa e bela que é, ela não convence como uma mãe solteira moradora do subúrbio sem muitas opções na vida a não ser envolver-se com um homem de meia-idade portador de demência.

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