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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Memory


 Nesta sua primeira colaboração com a estrela Jessica Chastain, o diretor mexicano Michel Franco conta, à sua maneira, uma história de amor, contudo, nem um pouco adornada do romantismo com o qual estamos acostumados –Franco conta a história de seus personagens atento às arestas de crítica social, às nuances de uma dramaturgia corrosiva e à uma narrativa que privilegia o senso naturalista ante qualquer idealização cinematográfica, e na grande maioria dos projetos que encabeçou, Jessica Chastain, de fato, sempre buscou mais expressões autorais, e menos comerciais, em suas empreitadas interpretativas.

Aqui, ela vive Sylvia, uma mulher suburbana, encarregada de um subemprego numa casa de cuidados especiais. Ela luta para criar a filha, Ana (Brooke Timber, do seriado “Boneca Russa”) e manter-se firme nas reuniões do A.A. (em meio a uma das quais o filme começa) para afastar-se do alcoolismo que quase a consumiu na juventude.

Sem quase nenhum traquejo social (cujas razões compreenderemos aos poucos), Sylvia é chamada pela irmã mais nova, Olivia (Merritt Wever, de “A História de Um Casamento”) para uma festa de reunião dos ex-estudantes da escola Woodbury, onde ambas estudaram, no entanto, Sylvia não poderia se sentir mais deslocada: Ela não é capaz de partilhar dos momentos festivos, sempre a envolver bebidas alcóolicas, e os poucos que a conhecem se constrangem com sua presença. Ao sair de lá, Sylvia é seguida por alguém que inicialmente não sabemos de quem se trata: Um estranho que a acompanha de longe até a porta de sua casa.

No outro dia, o estranho ainda está lá (?), e ela acaba chamando alguém para vir buscá-lo.

Pouco a pouco, vamos descobrindo de quem se trata: Ele se chama Saul Shapiro (Peter Sarsgaard, em inspirada atuação) e é portador de demência leve. Ele tem memórias nítidas de sua vida passada, de quando era casado, até então enviuvar, mas sua mente não conserva com perfeição memórias novas, perdendo-se com muita facilidade.

Inicialmente, Sylvia recusa a proposta do irmão dele, Isaac (Josh Charles, de “Sociedade dos Poetas Mortos”) para ser cuidadora de Saul, acreditando que, quando jovens, ele foi um dos tantos que se aproveitou do alcoolismo dela para abusá-la. No entanto, quando descobre que Saul é inocente, Sylvia volta atrás, e passa a tomar conta dele todos os dias.

A medida que o tempo vai passando, Sylvia e Saul conseguem impactar na vida um do outro e um vínculo mais forte e improvável começa a se formar.

É curiosa a forma com que o estilo do diretor Franco muda radicalmente as impressões do filme; tivesse algum outro diretor, este “Memory” seria uma obra agridoce, melodramática e muito provavelmente romântica: Sob a batuta de Michel Franco, contudo, “Memory” é uma obra enxuta, sucinta e sólida na qual os meandros de uma relação a dois vão surgindo em minimalismos cotidianos, sem qualquer enfeite ou ênfase. Se isso por um lado remove completamente o filme do gênero romance ao qual poderia pertencer, por outro, ele confere uma cadência realista aos acontecimentos a ponto de não oferecer ao expectador muitas certezas acerca do rumo que o enredo haverá de tomar.

Nesta realização um bocado modesta e válida, as únicas impressões estranhas ficam por conta da própria Jessica Chastain: Ela está maravilhosa como sempre, não me entendam mal (e foi ela mesma quem recomendou ao diretor Franco a excelente escolha de Peter Sarsgaard para o papel), contudo, tão magnética, atrativa e bela que é, ela não convence como uma mãe solteira moradora do subúrbio sem muitas opções na vida a não ser envolver-se com um homem de meia-idade portador de demência.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sonhos


 Não confundir esta produção com o maravilhoso “Sonhos”, de Akira Kurosawa, de uma proposta muito mais lúdica e original do que este árido filme independente norte-americano. Dirigido por Michel Franco (de “Depois de Lúcia”), esta realização vem com muito de sua visão pessimista sobre as irredutíveis escalas de valores na hierarquia social; nos dramas humanos de Franco as boas intenções, os sentimentos e qualquer outro expediente ficcional não haverão de mudar o fato de que os ricos e poderosos irão persistir no topo enquanto os despossuídos permanecerão exercendo o papel de explorados.

E, para pontuar esses tópicos neste filme de Franco (imbuído de algumas amenidades tipicamente hollywoodianas, em comparação com sua filmografia) é necessário esmiuçar sua trama até os desdobramentos finais, quando spoilers poderão se fazer inevitáveis.

O mexicano Fernando (Isaac Hernández) é um imigrante ilegal a tentar obstinadamente a sorte nos EUA. Tal obstinação passa pelo risco da morte, como atesta a cena inicial onde ele escapa, por muito pouco, de uma captura pelas autoridades, e termina singrando as estradas americanas quase transfigurado pela sede, pela fome e pelo cansaço. Uma forte sensação de que adentramos a história com ela já em curso se apodera do expectador quando, por fim, Fernando encontra (ou reencontra) Jennifer (Jessica Chastain), membro de uma poderosa família cujos programas assistenciais da empresa que possuem incluem projetos culturais de dança, entre os quais aquele que trouxe Fernando para os EUA pela primeira vez (ele é um bailarino profissional extremamente talentoso). Acontece que Jennifer e Fernando são amantes e, nessa revelação, o protagonismo é então transferido dele, para ela.

Passamos assim a conhecer as circunstâncias de Jennifer, a sutil pressão pessoal e profissional dentro da empresa onde ela trabalha ao lado do pai (Marshall Bell, de “Cherry 2000”) e do irmão (Rupert Friend, que atuou ao lado de Jessica num de seus primeiros trabalhos, “Jolene”), lutando também para equilibrar as expectativas dos dois em relação a ela. Daí que Jennifer, mesmo que romântica e sexualmente envolvida com Fernando, não se sente confortável em assumi-lo perante a família e os conhecidos.

O diretor Franco (amparado no roteiro escrito por ele próprio) faz dessa dualidade afetiva o impulso de todos os conflitos deflagrados: Fernando quer viver por conta própria e, se possível, ascender na dança, e afasta-se de Jennifer, ainda que por pouco tempo; ela não deixa de tentar rastreá-lo usando seus recursos e nem ele, tampouco, consegue se convencer de que deseja distância dela.

É um drama contundente, sempre com foco nas mazelas sociais dos imigrantes latinos nos EUA, mas com conotações românticas. No fim das contas, é sobre Jennifer e Fernando, e a manutenção de seu relacionamento que a narrativa irá sempre se desdobrar. Mesmo quando sequências mais tensas surgirem, a envolver a extradição de Fernando de volta para o México e sua consequente impossibilidade (exceto, pelos recursos ilegais e perigosos) de voltar para seu sonho nos EUA.

Já adentrando seu terço final, quando os dois se reencontram numa casa no México, descobrimos que foi Jennifer quem delatou Fernando para a Imigração; ela o fez por uma série de pretextos mal esboçados: Porque na iminência de tornar-se uma estrela dos palcos, os dois podiam não mais ficar juntos. Porque o caminho que Fernando estava a trilhar em São Francisco beneficiava ele, mas não a ela, dentro da relação. E porque ela queria, de alguma forma, que ele seguisse dependendo dela e de sua influência.

Transfigurado pelo rancor, Fernando decide converter a circunstância doméstica em que eles estão num arremedo alegórico da própria situação dos imigrantes (e dele próprio) nos EUA, a fim de fazer Jennifer compreender: Ele a prende dentro do quarto, sem que possa sair pra fora da casa ou ir ao banheiro (as necessidades fisiológicas e higiênicas ela deve fazer no recluso quintal da varanda, munida de papel higiênico e garrafas d’água!).

É óbvio que a situação não se sustenta, e tudo caminha para um desfecho que fará Jennifer priorizar menos seu afeto por Fernando (agora seriamente comprometido) e mais sua condição de socialite norte-americana.

As obras de Franco têm essa característica (dos objetivos mais inocentes e puros em oposição desfavorável à realidade incontornável e esmagadora) e, desde pelo menos “Memory”, ele soube aproveitar o talento dramático de Jessica Chastain em personagens capazes de evidenciar essas inquietações. Aqui não apenas ela se revela esperta na condução de sua carreira (como produtora do projeto, ela mostra-se consciente dos papéis que lhe ressaltem a excelente atriz que é) como também se entrega a sequências eróticas e/ou sugestivas extremamente contundentes para uma estrela da sua estatura.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Os Vencedores do Oscar 2022


 Existem momentos que definem as cerimônias do Oscar. A vitória inesquecível de “Parasita” em 2020. O vexame entre “La La Land” e “Moonlight” em 2017. A derrota de Tom Hanks para Robert Benigni e de Fernanda Montenegro para Gwyneth Paltrow em 1999. A cerimônia de 2022, queira ou não, será para sempre marcada pelo tapa dado pelo astro Will Smith na cara do apresentador da categoria de Melhor Documentário, Chris Rock, devido a uma piada deste com a cabeça rasgada de sua esposa, Jada Pinkett-Smith, que por sua vez, sobre de alopecia. Entre comentários de apoio e outros de repudio à agressão, que logo brotaram na internet, Will Smith ganhou, logo depois, o prêmio de Melhor Ator, por “King Richard”, e em meio a um discurso cheio de emoção, pediu desculpas à Academia de Artes Cinematográficas.

A premiação em si não trouxe maiores surpresas, obedecendo a tendência das últimas semanas, a menos que alguém tenha se surpreendido com o fato de “Ataque dos Cães”, com 12 indicações, ter saído com apenas um prêmio, o de Melhor Direção para Jane Campion (o que a torna a terceira mulher a vencer o prêmio da história, consecutivamente em relação à segunda que foi Chloe Zhao, no ano passado), quem acompanhou a temporada de premiações pôde perceber um repentino favorecimento à “No Ritmo do Coração”, em especial, no SAG Awards, o grande termômetro do Oscar, algo que terminou se concretizando.

A categoria de Melhor Atriz, a mais incerta de todas, premiou Jessica Chastain, após anos de excelentes trabalhos e merecidas indicações –incluindo “A Hora Mais Escura” onde deveria ter ganhado mas não ganhou –por “Os Olhos de Tammy Faye”, um filme cuja qualidade divide opiniões, e que levou também o prêmio de Melhor Maquiagem e Cabelo, uma curiosa dobradinha (Melhor Atriz e Melhor Maquiagem) repetida pelo Oscar com “Piaf-Um Hino Ao Amor” em 2008 e “A Dama de Ferro” em 2011.

Entre os coadjuvantes, tivemos uma bem-vinda vitória de Ariana DeBose, levando o único prêmio para o deslumbrante “Amor Sublime Amor”, de Spielberg –ganhando um Oscar pela mesma personagem que deu o Oscar à Rita Moreno em 1961! –e a emocionante conquista de Troy Kotsur, do filme “No Ritmo do Coração” que, como seu personagem, é surdo-mudo; o que resultou num emocionante discurso com linguagem de sinais.

Nas categorias técnicas, foi gratificante ver a predominância merecida da equipe de “Duna”, arregimentando para o projeto magnífico de Denis Villeneuve, nada menos que seis estatuetas, o recorde da noite. Um belo consolo pelo fato, já digerido, de que ele realmente não venceria o prêmio principal e já havia sido esnobado na categoria de Melhor Direção.

Tudo isso, entretanto, ficou em segundo plano, diante do fato desconcertante que girou em torno de Will Smith, sua esposa e Chris Rock.

MELHOR FILME

"No Ritmo do Coração"

MELHOR DIREÇÃO

"Ataque dos Cães", Jane Campion

MELHOR ATRIZ

Jessica Chastain, "Os Olhos de Tammy Faye"

MELHOR ATOR

Will Smith, "King Richard-Criando Campeãs"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Ariana DeBose, "Amor Sublime Amor"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Troy Kotsur, "No Ritmo do Coração"

MELHOR FOTOGRAFIA

"Duna"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM

"Summer of Soul"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"The Queen of Basketball"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

"Drive My Car" (Japão)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Duna"          

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

"Os Olhos de Tammy Faye"

MELHOR FIGURINO
"Cruella"

MELHOR SOM
"Duna"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO

"Duna"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

“Duna"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"No Time To Die", de "007-Sem Tempo Para Morrer"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Belfast"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"No Ritmo do Coração"

MELHOR ANIMAÇÃO

"Encanto" 

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"The Windshield Wiper"

MELHOR MONTAGEM

"Duna"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"The Long Goodbye”

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

X-Men Fênix Negra


 “Fênix Negra” é, em vários aspectos, o fim de uma era: É o fim dos X-Men como eles foram conhecidos até aqui no âmbito cinematográfico, ou pelo menos, o fim da reinvenção promovida em 2011 por “X-Men Primeira Classe”. É também, a produção que marca a última realização dos Estúdios Fox em torno desses personagens que até então a produtora possuía –as negociações que levaram a Disney a adquirir todo o espólio intelectual da Fox e terminaram levando os direitos dos mutantes de volta para a Marvel Studios estavam em curso enquanto “X-Men Fênix Negra” se achava em produção.

Como resultado, este trabalho –o trabalho de estréia, como diretor, do roteirista mais prolífico desta franquia, Simon Kinberg –já veio prejudicado por uma expectativa bastante negativa, e pelo demérito de abordar uma mitologia já, digamos, moribunda: Os personagens de qualquer modo sofreriam um novo reboot no novo estúdio, e até mesmo Hugh Jackman, o representante maior dessa fase dos mutantes em seu auge, já havia se despedido de seu personagem, Wolverine, em “Logan”.

O fato do filme desagradar público e crítica foi somente a cereja no topo desse bolo pra lá de indigesto que muitos foram obrigados a engolir. Mas, por trás de todos esses revezes tremendamente desfavoráveis, a pergunta crucial que fica é: O filme, afinal, é ruim de fato?

Para muitos é um despropósito discutir esses méritos, visto que quando chegou aos cinemas, “Fênix Negra”, por todas as razões já citadas, tinha perdido sua relevância. Entretanto, a verdade é que não... o filme de Simon Kinberg não é tão ruim assim, não!

Também passa longe de igualar a qualidade pulsante de “Primeira Classe”, o melhor filme de toda franquia, ou mesmo a maestria sempre austera de “Dias de Um Futuro Esquecido”, que manteve um nível considerável de qualidade, mas certamente evita muitos dos equívocos estapafúrdios presentes em “Apocalypse”, por exemplo.

Na pior das hipóteses, o roteiro (também escrito por Kinberg) trabalha os elementos com absoluta desenvoltura e familiaridade –tão habituado ele está com o material envolvendo os mutantes que seu manejo é algo que ele faz com serenidade.

No prólogo, temos uma bem-feita cena de acidente, onde uma ainda jovem Jean Grey perde os pais durante um uso inadvertido de seus poderes (cena esta que contradiz algumas circunstâncias nas quais essa mesma personagem foi introduzida no filme anterior, “Apocalypse”). Corta para a atualidade –ou os anos 1980 ou 90 na cronologia incerta da série... –quando Jean (agora interpretada pela gatíssima Sophie Turner, de “Game Of Thrones”) é uma das alunas da Escola Charles Xavier Para Jovens Super-Dotados, e integra, ao lado de Mística (Jennifer Lawrence), Ciclope, seu namorado (Tye Sheridan), Mercúrio (Evan Peters), Noturno (Kodi Smith-McPhee), Tempestade (Alexandra Ship) e Fera (Nicholas Hoult), o grupo conhecido como X-Men, uma espécie de equipe composta de mutantes, disponibilizados por Charles Xavier (James McAvoy), durante as mais variadas emergências a fim de preservar uma boa imagem do povo mutante perante as pessoas normais.

Numa ocasião surge, portanto, uma emergência mais complicada que o habitual: Um ônibus espacial sofre uma avaria e fica à deriva no espaço à mercê do que parece ser uma tempestade de energia solar. À bordo de seu avançado avião high-tech, o Pássaro Negro, os X-Men partem para o salvamento, e quando as coisas se complicam de verdade, os poderes de Jean se revelam fundamentais: Ele consegue proteger a todos, mas é assolada pela estranha radiação que dela parece se apoderar.

Jean, no entanto, sobrevive. Mas, ao voltar para a Terra, uma energia perigosa e imprevisível começa a se apoderar de sua vontade, potencializando e amplificando seus poderes (a telepatia dela sobrepuja a do Prof. Xavier) e ressaltando seus sentimentos negativos em relação à rejeição e ao abandono. Com isso, Jean volta-se contra Xavier e os X-Men e, no processo, descobre-se poderosa o bastante para superar a todos .

Ao mesmo tempo, criaturas alienígenas descem à Terra em busca de Jean, ou melhor, em busca do poder que ela absorveu –e que, em todo universo, parece ser a única criatura capaz de suportá-lo. Liderando esses seres estranhos e muito pouco esboçados ao longo do filme está Vuk, que assume com obviedades o papel de vilã da história (e para a qual a normalmente competente Jessica Chastain entrega uma atuação fria, caricata e apática).

No meio desse entrave, Eric, ou melhor Magneto (Michael Fassbender), assume uma posição mais ambígua: Embora tenha superado seu antagonismo com Charles Xavier –cuja relação oscilava em amizade e rivalidade ao longo dos filmes –ele não concorda de todo com sua postura, embora também não tenha intenção de aliar-se à Vuk e suas inclinações genocidas.

Com essa premissa e com seus ricos personagens justapostos, o roteiro de Kinberg faz o que sempre foi feito em toda franquia; explora suas dinâmicas humanas, ao mesmo tempo em que nunca perde o foco de suas habilidades sobrehumanas. E uma de suas notáveis qualidades é não perder-se em meio à tanta diversidade: Muitas são as cenas, sobretudo, em sua segunda metade, onde vários personagens com poderes diversos estão em conflito, e todos são empregados, de modo geral, com intensidade, coerência e coesão. Pode não parecer nada, mas essa é uma falha muito fácil de se cometer ao se orquestrar um filme sobre super-humanos com tantos poderes distintos entre si. E nela, “Fênix Negra” não cai.

Os maiores problemas que afligem o filme de Simon Kinberg são, na verdade, dois: O primeiro, o fato de Kinberg ter tanta inexperiência como diretor; Nas mãos dele, cenas que tinham tudo para serem antológicas, perdem seu potencial por pequenos detalhes irrisórios, e às vezes, por um tratamento involuntariamente displicente. E, meu Deus, que direção de atores péssima! –ele consegue desperdiçar talentos incontestes como os de Lawrence, McAvoy, Fassbender e Chastain!!

O segundo é o evidente fato dele aqui tentar adaptar o mais famoso dentre todos os arcos narrativos dos X-Men nos quadrinhos, a “Saga da Fênix” –já aproveitada, também sem sucesso, no irregular “X-Men O Confronto Final” –listada, por muitos, entre as melhores HQs de todos os tempos. Se, pelo menos, “Fênix Negra” se sai melhor do que “O Confronto Final” no cômputo geral, ele se obriga a abandonar aspectos empregados naquele filme, e constrói uma pálida versão de elementos que nos quadrinhos eram exuberantes e intensos, resultando assistível, ainda que imperfeito.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

It - A Coisa Parte 2

Dono da honraria de maior bilheteria para um filme de terror de toda a história do cinema, o “It-A Coisa Parte 1” deixou uma expectativa considerável a ser superada pela parte 2 –e já se presumia uma certa infelicidade da parte do projeto uma vez que sabíamos que o elenco infantil (responsável por grande parte do apelo irresistível daquele filme) não retornaria sendo que os personagens seriam mostrados em idade adulta, exatos vinte e sete anos depois dos acontecimentos anteriores.
A saída do diretor Andy Muschetti foi criar um pretexto para que as crianças voltassem; na forma de sucessivos flashbacks que não só acometem com frequência à narrativa principal como também recebem uma justificativa bastante poderosa dentro de sua premissa, o que termina por modificar algumas considerações da trama e a afasta bastante do que se passa no livro original de Stephen King –do qual o “Parte1” era tão magnificamente fiel.
Algumas coisas são até deduzíveis: Sabemos que Pennywise, a entidade maligna que assume na maior parte das vezes e das cenas a forma de um tenebroso palhaço assassino (interpretado com notável caracterização por Bill Skarsgaard) não morreu de fato no final do filme anterior; e também sabemos, por informações pregressas, que ele desperta a cada vinte e sete anos com sede de sangue, passando a assombrar novamente a desolada cidadezinha de Derry.
Dentre os sete jovens amigos que integravam o Clube dos Perdedores –os responsáveis pela derrota de Pennywise –somente Mike (Isaiah Mustafa) ficou na cidade; e por razões que descobriremos mais tarde somente ele reteve memórias mais nítidas do ocorrido e da promessa que, na emocionante cena final, todos eles fizeram.
Quando os indícios do retorno da criatura ficam claros –inclusive com uma cena perturbadora de morte mostrada já no início, um bocado indicativa da disposição do diretor Muschetti em preservar em seu filme a ênfase num pavor muito mundano e contundente apontada por Stephen King em toda sua obra –Mike decide contactar um a um seus antigos amigos, que deixaram Derry para seguir suas vidas.
É assim que, numa sequência formidável, somos apresentados aos personagens em sua nova versão (e aos atores que os interpretam, todos escolhidos com zelo de tal maneira absoluto que eles realmente parecem os intérpretes infantis envelhecidos, detalhe aproveitado em diversas cenas que intercalam o passado e o presente): Bill, agora vivido por James MacAvoy, tornou-se autor e roteirista de cinema; o hipocondríaco Eddie (James Ransone) tornou-se analista, e casou-se com uma esposa implicante e repressora a espelhar de tal maneira sua mãe que termina interpretada pela mesma atriz (!); a única garota do grupo, Beverly (agora vivida pela absurdamente maravilhosa Jessica Chastain), casou-se –com um marido violento que é descartado logo em sua primeira cena; enquanto que o gordinho Ben, apaixonado por ela desde a infância, tornou-se arquiteto e deixou de ser gordinho ganhando a fisionomia malhada do ator Jay Ryan; o divertido Ritchie, uma das melhores presenças do primeiro filme, ganhou uma nova versão à altura, com o ótimo Bill Hader; e Stan (Andy Bean), por sua vez (por razões que convêm não dizer), tem aqui sua participação bastante reduzida.

Todos vão assim parar em Derry, onde a ameaça de Pennywise os aguarda, bem como lembranças das quais eles se desprenderam –em grande parte, explicado pelo fato do poder do próprio Pennywise exercer esse esquecimento sobre quem de lá se afasta. Daí Mike (que foi o único a permanecer em Derry) ser o único a lembrar de tudo.
Num recurso meio oportunista, o roteiro sugere que as próprias memórias que o expectador compartilha com os personagens (correspondentes aos eventos do primeiro filme) não representam sua totalidade: Daí o reaproveitamento dos protagonistas juvenis do outro filme em novas cenas feitas especialmente para esta produção. Muitas delas dão uma forte impressão de encheção de lingüiça (apenas para preservar na continuação a maioria dos elementos do sucesso anterior), entretanto, veem também abrilhantadas por um agridoce sabor de nostalgia e uma técnica primorosa da parte do diretor Muschetti.
O Clube dos Perdedores tem, pois, que reunir alguns artefatos especiais (todos inerentes ao apreço pessoal de cada um) para a execução de um ritual onde será revelada a verdadeira forma da Coisa (na verdade, um alienígena milenar de poderes metafísicos) por meio do qual ele por fim pode ser morto.
Dentro dessa estrutura –a árdua preparação para o ritual, a procura individual por cada um dos artefatos, as consequentes aparições fantasmagóricas de Pennywise ao longo disso, as informações acerca de sua origem e o emprego de alguns outros elementos (inclusive ideias novas que afastam este filme do livro) –a realização de Andy Muschetti não faz a menor questão de esconder as imodestas proporções que fazem dele uma espécie de “Senhor dos Anéis” do gênero terror: Em escala e em extensão (sua duração atinge quase as três horas!), “It-A Coisa Parte 2” apresenta uma abrangência e uma amplitude que poucos, quiçá filme nenhum de terror chegou a ostentar antes.
É por isso que, embora traga um trabalho visivelmente contagiante e apaixonado pelo material que manipula, a direção de Muschetti encontra justamente o problema de um excesso de fascínio por seu próprio conteúdo que compromete a solidez da narrativa em seu terço final –o conflito contra Pennywise se estica demais porque Muschetti toma muito tempo se enamorando dos personagens para deixa-los com tanta facilidade. Ele se apega demais a detalhes não tão necessários assim, e com isso perde o foco.
Nada que desvaneça o fato de ser esta uma obra belíssima e perfeitamente capaz de agradar por completo seu público –ela simplesmente não consegue igualar o sensacional filme ao qual busca dar continuidade.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2018

Saíram o nome de todos os indicados ao Globo de Ouro, um dos prêmios mais importantes da temporada que pavimenta o caminho para o prêmio maior, o Oscar.
Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático
"Me chame pelo seu nome"
"Dunkirk"
"The post"
"A forma da água"
"Três anúncios para um crime"

De imediato já se lamenta a ausência de Denis Villeneuve e seu primordial “Blade Runner 2049”. Mas os cinco indicados até que resumem bem o supra-sumo qualitativo do ano, com o elogiado filme de Guillermo Del Toro surpreendentemente superando em indicações os trabalhos de Nolan e Spielberg.

Melhor ator em filme dramático
Timothée Chalamet, "Me chame pelo seu nome"
Daniel Day Lewis, "Trama fantasma"
Tom Hanks, "The post: A guerra secreta"
Gary Oldman, "O destino de uma nação"
Denzel Washington, "Roman J. Israel, Esq."

Com a exceção do jovem Timothée Chalamet por "Me Chame Pelo Seu Nome", esta categoria vem dominada por veteranos: Daniel Day Lewis, no seu alardeado último filme da carreira, Tom Hanks, no que parece ser mais uma colaboração vencedora com Steven Spielberg, Denzel Washington, em mais uma costumeira amostra de seu brilhantismo. Todos já possuem mais de um Globo de Ouro debaixo do braço, o único que jamais conquistou o prêmio é Gary Oldman, espero que este seja o seu ano.

Melhor atriz de filme dramático
Jessica Chastain, "A grande jogada"
Sally Hawkins, "A forma da água"
Frances McDormand, "Três anúncios para um crime"
Meryl Streep, "The post: A guerra secreta"
Michelle Williams, "Todo o dinheiro do mundo"

Os rumores apontam um possível domínio de Frances McDormand nesta temporada: Ao que parece, seu trabalho em “Três Anúncios Para Um Crime” iguala sua premiada atuação em “Fargo”. Mas, ainda dá para torcer por Jessica Chastain, impecável como sempre no primeiro filme dirigido pelo prestigiado roteirista Aaron Sorkin, por Sally Hawkins, maravilhosa interpretando uma surda-muda na bizarra história de amor de Del Toro e até por Michelle Williams no filme de Ridley Scott.
Em meio à todas, ela, sempre ela, Meryl Streep, desta vez sob a direção de ninguém menos que Steven Spielberg, o quê deve pesar e muito na decisão de quem premiar...

Melhor diretor
Guillermo del Toro, "A forma da água"
Martin McDonagh, "Três anúncios para um crime"
Christopher Nolan, "Dunkirk"
Ridley Scott, "Todo o dinheiro do mundo"
Steven Spielberg, "The Post"

Por alguma estranha razão, as premiações revelam-se rabugentas com as obras de Christopher Nolan nesta categoria –ele aparece aqui, com a esperança de um reconhecimento pairando no ar, mas certamente terá de superar a elogiada produção de Spielberg e mais ainda, o favoritismo que parece estar se construindo em torno de Del Toro.
Curiosa também a lembrança de Ridley Scott por um filme que está sendo mais falado pelo fato de terem removido a participação de Kevin Spacey –trocado por Christopher Plummer –já durante a pós-produção, em razão de denúncias de assédio sexual.

Melhor filme de comédia ou musical
"O artista do desastre"
"Corra!"
"O rei do show"
"I, Tonya"
"Lady Bird: é hora de voar"

Uma vez que relevamos o detalhe ridículo de terem indicado numa categoria reservada para filmes de comédia uma obra de terror (o ótimo “Corra!”), dá para dizer que os filmes indicados aqui até superam os da categoria de drama.
Ao menos no fator curiosidade: Quer algo mais interessante que um filme elogiadíssimo inspirado nos bastidores do pior filme de todos os tempos (o infame “The Room”, de Tommy Wiseau), uma traquinagem notável cortesia do ator James Franco.
A cotação dos demais, “O Rei do Show”, “I, Tonya” e “Lady Bird” não poderia ser melhor.
Resta saber qual deles irá despontar como favorito. Por ora, muito se fala de “O Rei do Show”, mas minha aposta vai para James Franco e seu “O Artista do Desastre”.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica
Judi Dench, "Victoria e Abdul: o confidente da rainha"
Helen Mirren, "The Leisure Seeker"
Margot Robbie, "I, Tonya"
Saoirse Ronan, "Lady Bird"
Emma Stone, "A guerra dos sexos"

A ganhadora do ano passado, Emma Stone surpreendeu emplacando mais uma indicação, agora por um filme muito bem avaliado dos mesmos diretores de “Pequena Miss Sunshine”. Aparentemente, suas maiores concorrentes são a linda Margot Robbie, que surpreendeu meio mundo com a força de sua atuação em “I, Tonya” e a sensacional dama inglesa Judi Dench por “Victoria e Abdul”.
Emma e Margot que me perdoem, mas minha torcida é dela!

Melhor ator em filme de comédia ou musical
Steve Carell, "A guerra dos sexos"
Ansel Elgort, "Em ritmo de fuga"
James Franco, "O artista do desastre"
Hugh Jackman, "O rei do show"
Daniel Kaluuya, "Corra!"

Adorei a indicação de Ansel Elgort –esse garoto vai longe! –como também a do sempre carismático Hugh Jackman (num papel que tem bem a cara dele, de ‘showman’) e, vá lá, a do talentoso Daniel Kaluuya (embora eu insista: O filme dele não é comédia!!!).
No entanto, por uma série de razões é James Franco, pelo já memorável “O Artista do Desastre” quem merecia a supremacia nesta temporada de prêmios.

Melhor atriz coadjuvante
Mary J. Blige, "Mudbound"
Hong Chou, "Pequena grande vila"
Allison Janney, "I, Tonya"
Laurie Metcalf, "Lady Bird: É hora de voar"
Octavia Spencer, "A forma da água"

Melhor ator coadjuvante
Willem Dafoe, "Projeto Flórida"
Armie Hammer, "Me chame pelo seu nome"
Richard Jenkins, "A forma da água"
Christopher Plummer, "Todo o dinheiro do mundo"
Sam Rockwell, "Três anúncios para um crime"

Há um comentário subliminar na indicação de Christopher Plummer por um filme no qual ele entrou aos quarenta e cinco do segundo tempo, substituindo o ator original Kevin Spacey. Mas, Plummer é um ator fenomenal e não tenho dúvidas de que merece a lembrança.
No mais há uma certa tendência em reconhecer o trabalho de Willem Dafoe que pode se sair bem na temporada de premiações, seu maior concorrente é, sem duvidas, Armie Hammer.

Melhor animação
"O Poderoso Chefinho"
"The Breadwinner"
"Viva: A vida é uma festa"
"O touro Ferdinando"
"Com amor, Van Gogh"

“Viva-A Vida É Uma Festa”, da Pixar, ainda não estreou aqui no Brasil, mas vem arrebatando público e crítica mundo afora, como é habitual do estúdio, o que já fez dele o favorito da categoria contra obras curiosas como o lírico “Com Amor, Van Gogh” ou a recriação nos tempo de hoje (leia-se, em computação gráfica) do cultuado curta animado “O Touro Ferdinando”, pelo brasileiro Carlos Saldanha.

Melhor canção original
"Home", "O touro Ferdinando"
"River", "Mudbound"
"Viva: a vida é uma festa"
"The star", "The star"
"This is me", "O rei do show"

Melhor trilha sonora
Carter Burwell, "Três anúncios para um crime"
Alexander Desplat, "A forma da água"
Johnny Greenwood, "Trama fantasma"
Hans Zimmer, "Dunkirk"
John Williams, "The post: a guerra secreta"

Melhor filme estrangeiro
"Uma mulher fantástica" (Chile)
"First they killed my father" (Camboja)
"In the fade" (Alemanha)
"Loveless" (Rússia)
"The square" (Suécia)

Por aqui, pelo menos, nada do nosso “Bingo-O Rei das Manhãs”... Dentre estes cinco, os mais falados e comentados são “First They Killed My Father”, dirigido por Angelina Jolie e com todo o engajamento que se espera dela, e “The Square”, o filme sueco estrelado por Elizabeth Moss (da série “Mad Men”) e vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes.

Melhor roteiro
"A forma da água"
"Lady Bird"
"The Post: a guerra secreta"
"Três anúncios para um crime"
"A grande jogada"

Agora é só esperar e especular. Os vencedores serão anunciados na cerimônia do dia 7 de janeiro.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Mama

No papel principal, a sempre excelente (e com frequência, maravilhosa) Jessica Chastain conduz o filme com graciosidade, ainda que isso não impeça a constatação de que ela parece um pouco mais deslocada do que de costume. Chamada pelo produtor Guilhermo Del Toro depois que este viu seu desempenho singular em “Árvore da Vida”, de Terence Malick, em 2011 (este filme é de 2013), Jessica teve a irônica incumbência de dar vida a uma personagem completamente diferente daquele trabalho: Uma jovem guitarrista sem o menor jeito para lidar com crianças (e confrontada, justamente, com a tarefa de ter que fazê-lo).
Baseado num eficiente curta-metragem de terror, realizado pelo mesmo jovem diretor Andy Muschietti, “Mama” –não confundir com o ótimo melodrama praticamente homônimo dirigido pelo espanhol Julio Medem e estrelado por Penélope Cruz –conta a história de duas meninas pequenas (as jovens Megan Charpentier e Isabelle Nélisse), desaparecidas a cerca de cinco anos e reencontradas vivendo num casebre em meio a uma floresta abandonada. Como elas sobreviveram por tanto tempo é, para as autoridades e especialistas envolvidos, um mistério.
As duas crianças são encaminhadas ao parente mais próximo, Lucas (Nikolaj Coster-Waldau, da série “Game Of Thrones”), irmão de seu falecido pai, e devem ficar aos cuidados dele e de sua namorada, Annabel, interpretada por Jessica Chastain.
A conclusão para o enigma em torno das duas meninas e da aura de amedrontadora fantasia que sempre as cerca é um bocado previsível: Algo sobrenatural esteve cuidando delas esse tempo todo. E, o quê quer que seja, foi para casa junto com as crianças.
As primeiras noites já enunciam toda a parafernália de elementos do gênero que o diretor Muschietti parece exercer com pouco critério, mas com muita empolgação. Uma aparição faz Lucas cair de uma escada, providenciando para que Annabel fique sozinha com as meninas.
A partir daí, o filme busca descortinar as facetas dessa personagem através da evolução de sua relação com as duas meninas (que diferem entre si em termos de afeto), da conscientização dela de seu novo papel de mãe e da descoberta gradativa –em oposição à incredulidade típica –da mirabolante circunstância que é o cerne do filme: A de que um fantasma macabro e assustador ocupou o papel de mãe das crianças, e que agora vai voltar a ocupar seu habitual papel, o de assombração.
Se a premissa, um tanto implausível, funciona muito melhor no formato encapsulado de curta-metragem, ao menos a construção deste terror fantasmagórico, como longa-metragem, é felizmente mais sugerida do quê explícita (o quê lhe confere uma qualidade maior que a média). A grande mancada dos realizadores foi não insistir até o fim com coragem na ambigüidade emocional sugerida em seu enredo e, em vez disso, ceder à todas as condições mercadológicas possíveis, revelando nos vinte minutos finais que o fantasma, de fato, oferece perigo às duas meninas: Acaba sendo um desserviço à trama (que perde bruscamente em originalidade), aos personagens (convertendo o fantasma em um mero vilão espectral e, por conseqüência, a personagem de Jessica em um mera mocinha heróica) e à coerência do próprio filme (prejudicada por esse desfecho contraditório).

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Armas Na Mesa

Jessica Chastain é um absurdo. A cada filme, ela se mostra uma atriz mais hábil e capaz, bela e talentosa. Havia tudo para que ela se sentisse mesmo à vontade em “Armas Na Mesa” onde ela torna a colaborar –desta vez, como protagonista –com o diretor John Madden (de “Shakespeare Apaixonado”) depois de roubar a cena em “A Grande Mentira”.
Ela é Madeline Sloane, uma lobista tida como uma das grandes profissionais de sua área. E a presença intimidante de Jessica em cena, sua verborragia astuta em atividade constante logo tratam de convencer o público disso.
Trabalhando para uma empresa cujo cliente é um dos barões armamentistas dos EUA –e, para o qual, com efeito, a lei de desarmamento em votação na bancada do congresso americano deve ser derrubada –ela muda subitamente de lado, passando a trabalhar para um grupo pró-desarmamento, liderado por Rodolfo Schmidt (Mark Strong, sempre digno e sólido) que luta por leis mais rígidas de porte de armas.
A justificativa parecem ser os seus princípios.
Mas, como descobrirá o público e muitos dos personagens a orbitá-la, princípios são o que menos pesa na balança moral de Sloane: Tudo o que importa a ela é vencer, e tal vitória justifica a torção eventual da ética numa série de lances ardilosos que beiram a desonestidade e a manipulação.
“O segredo para vencer é nunca deixar que seus inimigos o surpreendam, e sempre surpreendê-los” diz ela, já no contundente monólogo que abre o filme.
É verdade: Ao longo das pouco mais de duas horas de filme serão freqüentes os momentos em que os artifícios de Sloane pegarão de surpresa não apenas seus inimigos, mas também seus aliados e o expectador. Quando uma máscara parece cair, prestes a revelar enfim uma faceta de derrotada, descobrimos que foi mais um estratagema elaborado por ela.
Quando os adversários políticos passam a mover uma série de ataques profissionais e pessoais a ela como forma de desacreditá-la, somos freqüentemente pegos de surpresa pela forma quase desumana (e, não raro, surpreendente) com que ela subtrai os problemas e os neutraliza.
Em algum momento, contudo, Sloane irá rever os limites (ou a falta deles) que ela própria estipulou na busca por seus objetivos.
Muito do filme depende realmente de Jessica Chastain; ela consegue fazer o público se importar com essa protagonista mesmo que ela paulatinamente forneça motivos para desprezá-la, mesmo que sequer haja uma preocupação em dar-lhe um backup emocional que atrele suas motivações ao esforço que despende contra os adversários (aliás, o grande calcanhar de Aquiles da obra), mesmo que muito pouco fiquemos sabendo quem essa mulher é de fato, e mesmo que ela esteja enfrentando pessoas tão frias e calculistas quanto ela própria.
“Armas Na Mesa” também se beneficia do meticuloso roteiro do estreante Jonathan Perera, que parece ávido em mesclar a loquacidade estrutural nos diálogos de Aaron Sorkin (roteirista de “A RedeSocial”) com o turbilhão informativo –e, para alguns, inacessível –de Adam McKay no sensacional “A Grande Aposta”, ainda que em sua pouca experiência, ele não obtenha o equilíbrio primoroso de nenhum desses dois casos.
O diretor Madden, visivelmente apaixonado pelos meandros narrativos desse tipo de produção –que agrega as aspirações de um drama contemporâneo, um charme de filme de espionagem moderno e, mais ao fim, as evoluções sintomáticas de um filme de tribunal –evidencia essas duas grandes qualidades (uma atriz magnífica e um roteiro amplo e detalhado) reconhecendo neles os verdadeiros diferenciais deste trabalho.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O Zoológico de Varsóvia

Diretora do sensível “Encantadora de Baleias” e do contundente “Terra Fria”, a neozelandesa Niki Caro conta aqui mais uma extraordinária história real transcorrida na Segunda Guerra Mundial.
É em meio ao verão de 1939 que começam a se suceder as mudanças que deflagrarão uma guinada na vida de Jan (Johan Heldenbergh, de "Alabama Monroe" e "A Excêntrica Família de Antonia") e Antonina Zabinski (Jessica Chastain, apaixonante), zelador do zoológico de Varsóvia e sua dedicada esposa. Se antes sua rotina consistia do cuidado com os animais e das boas-vindas aos visitantes no zoológico que administravam, com a chegada da guerra –e das opressoras forças alemãs à Polônia –seu zoológico é primeiro devastado por bombardeios e depois convertido numa fazenda de porcos a fim de gerar carne para alimentar as tropas nazistas.
Antonina e seu marido valem-se então dessas circunstâncias para salvar o maior número de pessoas possível: Durante o dia, ao coletar comida em meio ao lixo do gueto, Jan carregada em seu caminhão punhados de judeus fugitivos e suas famílias que, à noite, se escondem nos subterrâneos desocupados do zoológico, somando a cada dia mais e mais sobreviventes que, com o passar dos anos, chegam à casa das centenas.
Tudo perigosamente executado debaixo do nariz da vigilância nazista personificada no displicente e errático Herr Heck (Daniel Bruhl), outrora também um zoólogo convertido em oficial nazista.
Mesmo que reticente na abordagem dos horrores mais extremos presentes na história que conta, a diretora Caro –apesar da maneira sugestiva e econômica com a qual registra momentos históricos essenciais à sua trama, como o massacre do Gueto de Varsóvia – com freqüência vê seu singelo trabalho enfrentar a difícil e inevitável comparação com o excepcional “A Lista da Schindler”, de Steven Spielberg, que narra fatos ocorridos praticamente no mesmo período de tempo, e em torno dos mesmos lugares (e ainda, com semelhanças bastante flagrantes).
Sorte de Caro, entretanto, poder contar com uma presença como a de Jessica Chastain que, neste papel, tem a oportunidade de abusar de seu aspecto genuíno de estrela da Velha Hollywood: Somada à sua beleza e seu talento, ela tem uma aura que remete não às atrizes modernosas de hoje, mas ao charme clássico das divas de antigamente, e essa característica é plenamente valorizada em seus figurinos, em seu cabelo e maquiagem e na maneira com que a câmera continuamente se enamora por ela, deixando os demais personagens em segundo plano. Há também um viés interessante em sua atuação que enfatiza a maneira com que a personagem se ancora emocionalmente mais aos animais e menos aos seres humanos, sempre mostrados como volúveis, falhos, relutantes e beligerantes.
Essa convergência de elementos impõe um estilo ameno à produção, quase de um entretenimento familiar, ainda que preserve cenas que visam o choque.