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terça-feira, 20 de maio de 2025

Conclave


 Adaptado do livro de Robert Harris, lançado em 2011, “Conclave” pode ser descrito como um filme onde, durante toda a sua totalidade, acompanhamos homens religiosos (cardeais, em sua maioria) a dialogar pelos cantos, ocupados com seus dilemas e com as conspirações internas de sua própria política –no entanto, apesar de aparentemente se restringir realmente a isso, o filme de Edward Berger (cuja obra anterior, “Nada de Novo No Front”, já havia deixado bem claro seu potencial) consegue envolver, surpreender e engajar amparado em alguns valores hiperlativos que o fazem cinema de altíssimo nível: O roteiro brilhantemente construído e conduzido (tanto que venceu a categoria de Melhor Roteiro Adaptado no Oscar 2025), o elenco primoroso que eleva a tensão e o suspense embutidos nas intrigas, e sua prodigiosa montagem, capaz de impor ritmo e atmosfera onde poderia não haver nada disso.

O Vaticano é abalado pelo notícia da morte do Papa. A fim de eleger um novo pontífice, os poderosos cardeais, proeminentes figuras de liderança da Igreja Católica ao redor de todo o mundo se reúnem para a execução de um conclave, por meio do qual, após dias de deliberação e votação, isolados de todo o mundo, devem chegar a um consenso e apontar o novo Papa entre um deles mesmos.

Para conduzir tal conclave com o máximo de parcimônia, harmonia e sensatez é escolhido o torturado Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes, digno de um Oscar), cujas atribulações o levaram a uma tentativa de renunciar ao seu cargo religioso, a despeito de despontar como um dos possíveis candidatos a novo Papa. Outros a disputar o papado são: O cotadíssimo Cardeal Tremblay (John Lithgow), oculto atrás de segredos conspiratórios que logo revelam ser ele uma verdadeira serpente; o Cardeal Adeyemi (Lucian Msamati), da África, truculento e objetivo como seu ofício exige, mas dono de um passado comprometedor; o Cardeal Tedesco (Sergio Castellitto, de “O Último Beijo” e “Imensidão Azul”), cujas posturas ideológicas extremistas fazem dele um correspondente aos inquisidores da Idade Média nos tempos atuais (!); e o estratégico ainda que demasiado errático Cardeal Bellini (Stanley Tucci).

Esses personagens –e outros mais que se somam gradualmente à narrativa (como a Irmã Agnes, primorosamente interpretada por Isabella Rossellini) –correspondem, de certa forma, à algumas pautas em vigor no mundo, por meio das quais vislumbramos a gênese da intolerância, das divisões e até mesmo das guerras. Em última instância, “Conclave” é um trabalho fenomenal que, através desse fascinante e tremendamente misterioso e sigiloso micro-cosmos que retrata com minúcia assombrosa (somente o livro de Robert Harris, antes deste filme, atreveu-se a vislumbrar a reconstituição de como seria o desenrolar de um conclave real), observa cada uma das predisposições que nos afastam de um consenso e nos impelem, enquanto sociedade, ao atrito –nesse sentido, esta estupenda realização de Edward Berger dialoga com a série documental “Por Que Odiamos”, produzida por Steven Spielberg, na forma objetiva, transparente e cirúrgica com que se debruça sobre as celeumas morais, sociais e culturais dos seres humanos –mesmo que tais seres humanos sejam homens vistos do alto de uma pressuposta santidade.

domingo, 14 de janeiro de 2024

O Dossiê Pelicano


 A jovem estudante de Direito Darby Shaw (Julia Roberts) na ânsia de investigar o assassinato estranhamente simultâneo de dois juízes da Suprema Corte dos EUA em Washington (um deles interpretado pelo veterano Hume Cronyn, numa breve participação) deduz que esbarrou numa terrível verdade a ser encoberta de qualquer maneira por pessoas inescrupulosas e bem posicionadas nas esferas do poder: Na tentativa de silenciá-la, os criminosos, sem querer acabam matando o professor, enlace romântico e mentor dela, Thomas Callahan (Sam Shepard). Perseguida por pessoas dispostas a interromper suas investigações e neutralizar suas descobertas a qualquer custo, Darby se refugia nos subúrbios de Nova Orleans, e conta com a ajuda do jornalista investigativo Gray Grantham (Denzel Washington).

Na esteira do sucesso avassalador de “Uma Linda Mulher”, a estrela Julia Roberts seguiu fazendo o que se espera de jovens talentos em ascensão: Realizou filmes destinados a exclusivamente agradar seu público –se tais filmes tinham qualidade ou não, isso era uma questão que nunca pareceu prioridade nas decisões curiosas dos estúdios hollywoodianos. Ele protagonizou o suspense algo vulgar “Dormindo Com O Inimigo”, em 1991, e nesse mesmo ano, apareceu no meloso, romântico e superficial “Tudo Por Amor”. O passo seguinte era marcar presença num projeto mais ambicioso, capaz de colocar Julia sob as lentes de um diretor, senão grande, ao menos, renomado –Alan J. Pakula –e deixá-la, lado a lado, de outros grandes nomes do cinema, o que inclui, além do sempre eficiente Denzel, as presenças ocasionalmente aproveitadas de Sam Shepard, Stanley Tucci, John Heard, William Atherton, John Lithgow e Robert Culp (como Presidente dos EUA).

Embora protagonistas, Julia Roberts e Denzel Washington não formam um par romântico –a Hollywood implicitamente segregada de então dificilmente permitiria um casal formado por atores de etnias distintas (algo que seria aceito, e até encorajado, hoje). Assim, pode-se até pegar a dica: Composto de aspectos de dizem muito sobre o cinema comercial de seu tempo, “O Dossiê Pelicano” é feito de tendências específicas que visavam atender a demanda do público, termina sendo um veículo morno para a estrela em franca ascensão de Julia Roberts e um reaproveitamento requentado –ainda que com base no enredo original extraído do livro de John Grisham –da narrativa pulsante que o mesmo diretor Alan Pakula empregou em “A Trama” nos anos 1970; os ganchos e expedientes de roteiro são, senão os mesmos, muitíssimo parecidos!

A única diferença é o tempo em que foram realizados: Nos anos 1970, pela liberdade criativa com a qual realizadores mais jovens tateavam um novo cinema comercial (e pelas tendências autorais que emergiam na época), Pakula soube orquestrar em “A Trama” (além de outros longa-metragens) uma obra urgente e pulsante; já, em 1993, o mesmo diretor, do alto de uma carreira experiente e já sem fôlego para ousar, concebeu um trabalho com aspectos similares, sem no entanto qualquer indício de atrevimento ou inovação.

A única ousadia de “O Dossiê Pelicano”, se é que isso conta, é ser um filme mediano, quando tinha tudo para ser excelente.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Assassinos da Lua das Flores


 Obra gigantesca de Martin Scorsese, este épico investigativo e intimista sobre a degradação moral joga luz sobre um fato histórico não muito difundido, mas dos poucos a elucidar com nitidez cristalina a predisposição aterradora para a perversidade escondida no coração da América.

Início da década de 1920. As terras pertencentes aos nativos norte-americanos Osage têm petróleo, o que faz de muitos deles, algumas das pessoas mais ricas dos EUA de então. Entretanto, os Osage não possuem a sanha gananciosa do capitalismo, o que os torna alvo da mesquinharia e dos interesses ambíguos de muitos homens brancos aproveitadores. No Condado de Osage, no estado do Oklahoma, um pólo de crescimento que agrega as duas culturas e, aos poucos, se torna palco das intrigas, um massacre lento, gradual e despercebido se sucede ao longo dos anos –os homens brancos não mais hostilizam abertamente os indígenas como no Velho Oeste poucos anos antes, agora eles querem lhes tomar o patrimônio por meio de esquemas escusos embasados pela Lei. Alguns casam-se com as mulheres de determinada família e, pouco a pouco, orquestram a morte de todos os membros (!) para ficarem com o vasto espólio financeiro pela lei de sucessão. As mortes (algumas, forjadas como suicídios; outras, nem mesmo isso) devido ao fato de ocorrerem com pessoas nativas não recebem qualquer atenção das coniventes autoridades locais.

É nessa circunstância que chega ao condado o ex-combatente Ernest Burkhart (Leonardo Dicaprio), vindo das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, sobrinho do todo-poderoso local Will Hale (Robert De Niro). Inicialmente trabalhando como motorista, Ernest, sob orientação arguta do próprio tio, se aproxima e se casa com a jovem Mollie (a extraordinária Lily Gladstone), herdeira de uma das muitas fortunas do lugar. Mollie tem uma família numerosa –a mãe e várias irmãs –mas, não tarda a cair nas malhas insidiosas das tramóias de Wiil Hale e se tornar, com o tempo, a única restante da família (!), o que torna portanto, Ernest, o herdeiro de sua riqueza.

Não passa despercebido, ao diretor Scorsese, a curiosidade em torno do fato de que esse relato histórico assim descortinado, é um tanto quanto desconhecido do grande público, ciente do quão tal elemento traz de lastimável à História Norte-Americana; ele evidencia esse traço de vergonha, ao agregar aspectos inesperadamente patéticos na dinâmica de seus personagens principais a despeito de toda densidade e dramaticidade predominante, sobretudo, a relação de subserviência, fidelidade injustificada e dissimulação gaiata entre Ernest e Will –e nesse sentido, são primordiais as composições de Dicaprio e De Niro na ênfase humanamente errádica de seus pouco escrupulosos personagens; o que evoca, em “Assassinos da Lua das Flores”, uma narrativa que sintetiza a um só tempo “Sangue Negro” e “O Poderoso Chefão”.

O terço final do filme mostra a chegada, um tanto tardia, do FBI à Osage, enviados para lá devido a um apelo da aflita Mollie na própria corte do senado, em Washington, ao presidente em pessoa. Representado pelo personagem do ótimo Jesse Plemons (de “Ataque dos Cães”), o FBI –num dos primeiros casos verdadeiramente bombásticos de sua recente criação –se depara com os absurdos alarmantes que cercaram as centenas de homicídios perpetrados contra dos Osage. E quando “Assassinos da Lua das Flores” se converte num filme de tribunal, já em sua reta final, somos confrontados com detalhes ainda mais assombrosos e desconcertantes das práticas criminosas empregadas em Osage, à medida que o protagonismo de Ernest vai se reforçando, fazendo dele, testemunha-chave para condenação (ou absolvição) dos culpados.

Como em “O Irlandês”, Martin Scorsese elabora aqui um vasto tratado ético e cinematográfico amparado justamente no formato monumental de sua realização (as três horas de duração são ultrapassadas com relativa facilidade), e almeja através daí uma experiência sensorial de acomodação e detalhamento para o expectador que muito pouco se reflete , em ritmo e lógica, ao que é feito hoje em termos de cinema comercial.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

O Escândalo


 Se em princípio Jay Roach foi um realizador de comédias compromissadas tão somente com o objetivo de fazer rir (como atestam os hilariamente ácidos exemplares da série “Entrando Numa Fria”), aos poucos, filme após filme, ele conseguiu migrar para o cinema uma capacidade que já demonstrava em obras televisivas: Uma percepção desigual e afiada para registrar com urgência sublime e relevância maiúscula as arestas sociais e comportamentais de certos aspectos da modernidade na política norte-americana, como atestam os formidáveis “Virada de Jogo” (feito para TV) e “Trumbo” (lançado em cinema). Neste magnífico “Bombshell”, Roach mantêm suas câmeras aguçadas no panorama político da América (sua trama abrange o período das eleições presidenciais norte-americanas de 2015-16), ao mesmo tempo que joga luz sobre um tema cada vez mais necessário: A cultura do assédio.

Ainda no ano de 2015, a âncora Megyn Kelly (Charlize Theron, espetacular) foi escolhida pelo canal de notícias Fox News para mediar os debates presidenciais entre os pré-candidatos republicanos, entre eles, aquele que terminaria ganhando a preferência –e, no ano seguinte, as próprias eleições –Donald Trump. Embora ferrenha defensora dos ideais ultra-conservadores de direita, Megyn foi fiel ao perfil combativo com o qual era vista na mídia e confrontou Trump com perguntas incisivas sobre sua alardeada misoginia.

O episódio gerou um impasse delicado na Fox News: Ao mesmo tempo em que a rede jornalística representava um dos maiores apoios à candidatura republicana –e Megyn beneficiava-se de relativa confiança do todo-poderoso presidente do canal Roger Ailes (John Lithgow, sordidamente convertido por quilos de maquiagem) –a jornalista comprou uma briga informal contra o candidato que passou a retuitar em mídia nacional várias ofensas contra ela.

Essa transformação forçada de paradigmas de Megyn coincidiu com outro acontecimento, também ressonante, nos corredores da Fox News; transferida de um programa do horário nobre para outro na ingrata programação da tarde (por não suportar o sexismo predominante de seus colegas de cena), a apresentadora Gretchen Carlson (Nicole Kidman, ótima) abriu um processo por antigos abusos sexuais contra o próprio Roger Ailes tão logo é, por fim, demitida.

Hábil e astuta, Gretchen tinha algumas cartas na manga, como a previsível atitude de sua demissão por parte de seu patrão manipulador, mas contava com a aparição, logo após sua iniciativa, de outras mulheres que também foram assediadas. É Megyn, inesperadamente, uma delas, entretanto, ela estava longe de ser a única: Também ganha bastante espaço na narrativa a circunstância de Kayla Pospisil (Margot Robbie, em corajosa e brilhante atuação), jovem produtora em ascensão profissional dentro da Fox News que é coagida, naquela que é de longe a cena mais aflitiva de todo o filme, por Roger Ailes em pessoa à levantar sua saia até que sua calcinha fique visível. Dentre todas essas personagens, somente  a de Kayla não é precisamente real –trata-se de um amálgama de pelo menos duas dezenas de mulheres que prestaram depoimento ao roteirista do filme, Charles Randolph (de “A Grande Aposta”).

Impressionante, entre outras coisas, é também o retrato que o filme de Roach faz do clima que surge, logo em seguida, nos corredores da Fox News: Com seu presidente sendo acoado por questões imprevistas de natureza procedural, a rede move seus recursos tentando provar o contrário, que Ailes era respeitador e inofensivo (funcionárias são obrigadas a vestir uma camisa em apoio ao chefe processado e depoimentos positivos são exigidos de praticamente todas as mulheres da empresa), que provas para quaisquer acusações eram inexistentes (uma severa operação de pente-fino, inclusive com o uso de escutas telefônicas, é adotada), e que a ex-contratada do canal, Gretchen Carlson, não era alguém confiável (todo o arsenal midiático da Fox News é subitamente voltado contra a reputação pessoal e profissional dela).

Contudo, as trajetórias íntimas de cada uma dessas três protagonistas, Megyn, Kayla e Gretchen, haverá de expor os caminhos tortuosos por meio dos quais, felizmente, a verdade se fez prevalecer, levando Ailes, após uma avalanche repentina de inúmeras acusações de assédio, a ser demitido pelo próprio dono da corporação, o magnata Rupert Murdoch (uma ponta de Malcolm McDowell).

Realizado com um brilhantismo à toda prova, “Bombshell” parece confrontar o expectador com uma difícil questão: Por meio de quais engrenagens nocivas, uma série de mulheres empoderadas, em plena década de 2010, são levadas à compactuar com o abuso sexual? Parte efetiva e crucial de um movimento que chegou até tardiamente ao entretenimento (o de obras que registram e confrontam esse comportamento tóxico), o filme de Jay Roach oferece um panorama primorosamente cristalino e bem construído dessas circunstâncias, para deixar que a conclusão fique inteiramente à cargo do público.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

As Aventuras de Buckaroo Banzai


 “Através da 8ª Dimensão” é o subtítulo que sucede o título desta obra oitentista, vítima de extrema incompreensão à época de seu lançamento em 1984, mas redescoberta ao longo dos anos como um entretenimento peculiar e curioso.

Muito se discorre sobre as alegorias embutidas no conceito amalucado de “Buckaroo Banzai”, como se o grupo Monty Python tentasse criar uma história com ecos de 007 e de adaptações de histórias em quadrinhos, e nela depositasse observações sobre a cultura pop e sobre a maleabilidade dos sentimentos, apoiada nas mais inusitadas referências possíveis.

O personagem título, Buckaroo Banzai (interpretado por Peter Weller, ator de “Robocop” e “Mistérios e Paixões”, estreando no cinema) é a um só tempo neurocirurgião, piloto de testes e dono de uma banda de rock (!?) e seu objetivo de vida é, ao lado de sua trupe de amigos, nomeados Hong Kong Cavaliers (que reúne caras como Lewis Smith, Jeff Goldblum, Clancy Brown e Pepe Serna), experimentar ao máximo de aventuras.

Uma delas tem início quando, tão logo deixa uma mesa de operação, ele quebra a barreira do som a bordo de um carro de corridas turbinado. Não apenas a barreira do som, Buckaroo rompe também, por breves momentos, o fino tecido da realidade, indo parar em um lugar que seu pai (que, por sinal, é cientista) chama de 8ª Dimensão!

O feito de Buckaroo desperta a atenção de um certo Dr. Emilio Lizardo (John Lithgow, perfeito em sua insanidade), cuja tentativa de realizar a mesma experiência décadas antes o levou a ser possuído por um alienígena vindo dessa tal 8ª Dimensão –situação que, desde então, o confinou numa espécie de sanatório. Escapando de lá, e reunindo outros comparsas, também eles, alienígenas disfarçados entre pessoas comuns (entre os quais, Christopher Loyd, Vincent Schiavelli e Dan Hedaya), o Dr. Lizardo se apressa em roubar da equipe de Buckaroo os artefatos necessários para repetir a experiência e voltar para casa.

Contudo, nada é tão simples: Os alienígenas, malvados ainda que ineptos, querem também achar um jeito de dominar o mundo, e em sua periculosidade, são vigiados do espaço sideral por outros de sua mesma raça, mais austeros, que estão prontos para fulminar a Rússia com um raio caso esses bandidos escapem até o pôr-do-sol, criando um impasse que levará a uma guerra nuclear, e a Terra à destruição. Assim, Buckaroo Banzai –que se vê envolvido na súbita descoberta de uma sósia (ou seria irmã gêmea?) de sua esposa falecida, vivida em ambos os casos por Ellen Barkin –acaba se tornando, ao lado dos Hong Kong Cavaliers, um improvável herói predestinado a salvar o planeta.

Essa explicação, no entanto, não chega a ilustrar com satisfação o que o filme dirigido por W.D. Richter (e roteirizado por Earl Mac Rauch a partir de uma ideia dele) chega a ser: Inspirado pelos filmes de matinê que Richter, e diversos outros autores da época conferiram em sua infância, “Buckaroo Banzai” é uma miscelânea bizarra, lisérgica e algumas vezes sem sentido entre aventura, ficção científica e delírio autoral. Seu enredo não se acomoda em nenhum gênero e sua cenas exalam um certo inconformismo bizarro, carregadas de informações, adornos e referências constantes plantadas nos mínimos detalhes e, ainda assim, ostentando um ritmo desigual, que parece ficar lento justamente nas cenas de ação (!), o que leva o expectador a uma curiosa sensação de desconforto em relação ao material, e pode ser fruto, talvez, da inexperiência do diretor Richter em construir uma narrativa –afinal, este foi seu primeiro trabalho.

Entretanto, se a estranheza é o charme de “As Aventuras de Buckaroo banzai”, ela é também uma característica quase involuntária diante da execução intuitiva de seu projeto.

Ao longo dos anos, muitos foram os que tentaram, sem sucesso, explicar os propósitos, intenções e objetivos por trás de “Buckaroo Banzai” –para uns, é um passatempo lisérgico sobre as ameaças metafísicas do universo transfigurado por um humor nonsense e deliberadamente inapropriado; para outros, um tratado alegórico sobre paranóia, sobre o estado de coisas alienado da década de 1980 e, ao mesmo tempo, um exercício estético e colaborativo sobre o caos e a anarquia –inclusive essa, digamos, esquizofrenia visual, que contamina muitas de suas passagens, pode ser explicada pela troca de diretores de fotografia, tendo o estiloso Jordan Cronenweth (de “Blade Runner”) sido substituído, no meio do filme, pelo mais convencional Fred Koenekamp.

A verdade é que, se o público demorou a perceber, em “Buckaroo Banzai” seus elementos desiguais, também seu realizadores ignoraram isso, supondo que ele fosse um  produto completamente comercial: Ele se encerra, inclusive com a promessa de uma segunda aventura (“”Buckaroo Banzai Contra a Liga Mundial do Crime”), esta jamais realizada, diante da indiferença quase temerosa que público e crítica demonstraram diante de obra tão estranha.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom


 A histriônica atriz Isla Fisher conseguiu destacar-se no bem-sucedido “Penetras Bons de Bico” no incontrolável papel de uma quase ninfomaníaca. Tanto chamou a atenção que o diretor australiano P.J. Hogan (de “O Casamento de Muriel” e “O Casamento do Meu Melhor Amigo”) apostou nela para protagonizar esta adaptação do livro de Sophie Kinsella, uma ágil comédia que une “O Diabo Veste Prada” à “Rosalie Vai Às Compras”.

Num registro colorido e plural do consumismo capitalista que permeia todo o filme, conhecemos a compulsão de Rebecca Bloomwood (Isla Fisher, cujos exageros ocasionalmente comprometem sua adequação ao papel), moça nova-iorquina que vive em funções das compras –na narração dela própria, descobrimos que as próprias vitrines das lojas parecem ganhar vida e chamá-la a comprar os diversos adereços.

Por conta disso, Rebecca vive com suas finanças no vermelho. O que a leva a almejar um ofício prontamente rentável. A fim de unir suas aptidões às suas necessidades, a intenção primordial de Rebecca acaba sendo obter um cargo na prestigiada revista de moda “Alette”, já que afinal, consumista voraz. Rebecca sabe tudo sobre marcas e griffes.

Todavia, a aguardada entrevista de emprego –à qual ela comparece com uma ostensiva echarpe verde –dá errado: A sonhada vaga já foi preenchida. Resta, contudo, uma outra alternativa, comer pelas beiradas: No mesmo prédio da “Alette”, outros escritórios, de outras revistas, também funcionam, sendo assim, Rebecca ainda tem a chance de ser aceita em outro departamento e, com sorte, ir subindo de nível, até atingir seu Santo Graal na revista de moda. E a chance que aparece vem a ser uma ironia do destino: Uma vaga na revista “Economia de Sucesso” –justamente uma publicação que orienta os leitores a controlar suas finanças e não deixar-se levar por suas compulsões de consumismo.

Contra todas as possibilidades, Rebecca redige uma carta que surpreende o jovem editor-chefe, Luke Brandon (Hugh Dancy, de “Falcão Negro Em Perigo” e “Histeria”), convencendo-o de que, diferente da realidade, ela é alguém especializada em finanças e perfeitamente capaz de administrar o próprio dinheiro (e logo, ensinar leitores a fazê-lo também!).

Esta comédia, conduzida com bastante sagacidade por P.J. Hogan, é assim aquela modalidade de farsa onde a adorável protagonista equilibra uma sucessão de mentiras –a persona gastadeira que ela oculta de todos no trabalho, onde ganha fama (na misteriosa coluna “A Garota da Echarpe Verde”) aconselhando o oposto do que realmente faz; seus hábitos caloteiros (e que colocam um implacável cobrador em seu encalço) que a levam a frequentar uma reunião de Compradores Anônimos (!); e o fato de encobrir tudo isso do razoável e envolvente Brandon, por quem ela vai se apaixonando, a despeito de todas as mentiras que conta a ele –até que a narrativa as empilha e acumula de tal maneira que todas explodem em confusões a partir de um determinado ponto do filme. O que eu vejo como ponto oscilante dessa produção é justamente o fato de Hogan ancorar isso tudo em Isla Fisher: Embora simpática e relativamente esforçada (em alguns momentos até demais!), ela não dispõe da doçura genuína de uma Sandra Bullock, nem da serenidade para o cômico e para o terno que fez de Meg Ryan uma estrela; em vez disso, ela emprega os mesmos arroubos que moldou para sua personagem em “Penetras Bons de Bico” –personagem esta de orientação completamente diferente da Rebecca Bloomwood que vemos aqui.

Uma coisa é destacar-se como coadjuvante histérica e irrequieta, outra, bem diferente, é saber dosar os momentos de maior ou menor intensidade para, como protagonista, levar todo um filme nas costas. Menos mal que, no elenco de apoio, P.J. Hogan soube escolher com muito mais primazia: Há John Goodman e Joan Cusack, sensacionais como os pais desprendidos e deselegantes da heroína; Kristin Scott-Thomas, sempre maravilhosa no papel da endeusada Alette Naylor; pontas pertinentes e precisas de John Lithgow, Leslie Bibb e Krysten Ritter (esta como a melhor amiga de Rebecca); e, sobretudo, Hugh Dancy, na medida certa de suavidade e simpatia para contrapor os desvarios de sua aloprada parceira de cena.

domingo, 12 de abril de 2020

Bem-Vindo Aos 40

Pete e Debbie eram personagens coadjuvantes em “Ligeiramente Grávidos” que acabaram ganhando protagonismo neste filme, realizado cinco anos depois, provavelmente porque o diretor Judd Apatow e seus atores, Paul Rudd e Leslie Mann (que à propósito é casada com o próprio Apatow), ainda tinham algo a dizer por meio deles sobre o lado espinhoso da relação a dois.
Se no outro filme, o casal representava aos olhos daqueles protagonistas (vividos por Seth Rogen e Katherine Heigl) as neuroses cotidianas que o matrimônio acumula ao longo dos anos, aqui, convertidos no foco central da narrativa eles proporcionam um relevo mais detalhado e, espera-se, mais divertido dessa observação –a primeira cena do filme, quando eles discutem, no chuveiro, o uso ou não do viagra, já deixa bem clara a sua predisposição para brigar por qualquer coisinha.
Na semana em que ambos completarão 40 anos –seus aniversários têm poucos dias de intervalo –Pete e Debbie se defrontam com as complicações familiares, profissionais e afetivas de seu cotidiano: Dono de uma pequena gravadora de álbuns, Pete tem de lidar com a chegada das vacas magras –o estilo de música no qual se tornou especialista já não rende mais lucro. Além disso, seu pai (Albert Brooks), cujo novo casamento lhe presenteou com trigêmeos (!) lhe pede dinheiro emprestado todo o tempo, algo que ele faz às escondidas de Debbie.
Por sua vez, Debbie –que é proprietária de uma loja de roupas –está às voltas com uma funcionária sedutora (Megan Fox) que pode ou não estar roubando dinheiro de seu caixa, bem quando Debbie descobre estar grávida pela terceira vez.
Esses percalços servem, em geral, para potencializar os contratempos do casamento dos dois –o cerne real da trama –que vive praticamente de conflitos diários: Pete não quer que Debbie fume. Debbie não quer que ele coma carboidratos. À esse stress mútuo somam-se a convivência com as filhas (a mais velha não sai do computador onde viciou-se na série “Lost” e encrenca a toda hora com a mais nova), a relação com os pais (o de Debbie, vivido por John Lithgow, é demasiado ausente e impessoal) e as pequenas incompatibilidades: Gostos musicais que nunca batem; opiniões divergentes, temores individuais e a visão nada concordada de como empregar o dinheiro de que dispõem.
Percebe-se, sobretudo, durante os primeiros trinta minutos, que muito do filme é construído em cima de esquetes e situações improvisadas (uma forte característica do processo criativo cômico de Apatow) do que em cima de uma narrativa propriamente dita –contudo, tanto Rudd quando Leslie são atores que se saem muito bem com esse tipo de comédia; ajuda muito o fato dos dois conhecerem tão aprofundadamente seus personagens, e a sintonia bastante palpável e orgânica que possuem entre eles mesmos e toda a equipe técnica. Há uma espontaneidade, um confiança que define muito do filme.
Voltar o olhar para o cotidiano parece ser, sob muitos aspectos, a grandes busca por meio da qual Judd Apatow encontra sua verve para comédia; em especial, o cotidiano experimentado por personagens que passam absolutamente longe do estereótipo que se costumou eleger como personagens principais de uma produção cinematográfica –nada de presenças poderosas, altivas e sensuais, nada de indivíduos bem realizados ou idealmente perfeitos, o que interessa para Apatow é a caracterização do banal, do corriqueiro; e quanto mais isso resultar em graça, melhor.
Assim, ele observou as insatisfações e frustrações sexuais de um homem de meia-idade em “O Virgem de 40 Anos”; colocou um comediante em crise avaliando as próprias escolhas equivocadas de vida em “Tá Rindo Do Quê?”; pôs um casal disfuncional formado por uma garota gorda e desbocada e um rapaz moderado em “Descompensada”; e, no que certamente foi seu maior sucesso, avaliou os percalços de uma gravidez inesperada em meio aos relacionamentos modernos em “Ligeiramente Grávidos”, filme a partir do qual ele pareceu consolidar uma espécie de estilo autoral.
Daí sua tentativa em seguidamente regressar a esses personagens e, de certa forma, a esse filme: “Ligeiramente Grávidos” continua sendo a grande obra da carreira de Apatow e, embora não lhe iguale o brilhantismo, “Bem-Vindo Aos 40” prova que ele é um dos raros diretores norte-americanos a dominar o humor com primazia.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Um Tiro Na Noite

Das tantas referências que povoaram a obra de Brian De Palma, uma das mais incomuns certamente foi Michelangelo Antonioni e seu “Blow Up-Depois Daquele Beijo”.
Não que o suspense não fosse um dado expressivo na filmografia do italiano; mas, De Palma parecia muito mais a vontade com as obras abertamente comerciais e populares de Alfred Hitchcock do que com o teor existencial de Antonioni.
Todavia, ele extraiu de “Blow Up” exatamente aquilo que o ancorava no gênero –o básico de sua premissa –e transfigurou-o num filme inteligível, nada hermético e despido de devaneios mais artísticos, batizado de “Blow Out” a título de homenagem.
Se em “Blow Up” a dúvida do crime deflagrado ou não gira em torno de um fotógrafo, aqui De Palma contrapõe o video ao audio e faz protagonista um técnico sonoplasta de filmes B de terror interpretado por um jovem John Travolta ainda na inércia de sua indicação ao Oscar de Melhor Ator por “Embalos de Sábado À Noite” –ele é Jack Terry, cujo hábito mais incomum é sair pela cidade à noite captando sons aleatórios com sua aparelhagem; tais sons podem vir a ser uteis na concepção dos efeitos sonoros nos filmes em que trabalha.
Numa dessas ocasiões, Jack registra o audio de um acidente: Um pneu de carro estoura fazendo o veículo cair em um rio, matando um de seus ocupantes (um senador americano) e por pouco não levando também a acompanhante dele, a prostituta Sally (Nancy Allen, namorada de De Palma na época).
Não bastasse ser testemunha de uma morte acidental que causa alvoroço no cenário político, Jack também descobre que, na análise obcecada da fita que gravou no momento do acidente, existem pistas que podem converter o imprevisto em um assassinato: Sobretudo, o som de um tiro que fura o pneu do carro, um detalhe que o próprio Jack, como técnico de som, é perfeitamente capaz de esclarecer em um tribunal.
Essas circunstâncias colocam Jack na mira do soturno Burke (vivido com brilho sucinto por John Lithgow), um matador de aluguel inicialmente contratado para a tarefa simples de dar cabo do senador.
Manipulando esses elementos com uma competência que sempre deixou evidente que tinha, De Palma concebe um de seus mais eletrizantes trabalhos do início dos anos 1980, pródigo no uso de técnicas que ele já havia empregado com propriedade em realizações dos anos 1970, mas repleto de observações de natureza cinematográfica, de uma astúcia narrativa e de um viés metalinguístico que certamente soavam inovadores.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Brincando Nos Campos do Senhor

Talvez o melhor trabalho de Hector Babenco, a adaptação do livro de Peter Mathiessen, realizada a quatro mãos com a inestimável contribuição do roteirista Jean-Claude Carriére (assíduo colaborador de Buñuel) encontra paralelos com “Dança Com Lobos” –desde a importância da preservação da cultura indígena até o escopo ambicioso e paisagístico –no entanto, sua repercussão infelizmente foi diametralmente oposta: Apesar da calorosa recepção da crítica, “Brincando Nos Campos do Senhor” amargou um retumbante fracasso de bilheteria.
O filme se inicia com o que já soa como um indicativo do apreço de Babenco enquanto contador de histórias: Uma colisão de personagens distintos no coração da selva amazônica. Dois deles são os soldados da fortuna, Wolf (Tom Waitts) e Lewis Moon (Tom Berenger), sua percepção mundana e cínica em choque com os ideais dos missionários Martin (Aidan Quinn) e Leslie (John Lithgow), casados com Hazel (Kathy Bates) e Andy (Daryl Hannah).
Ambos os casais embrenharam-se na selva a fim de levar o evangelho às tribos, alimentados por admiração mútua.
Todavia, Babenco não se detém nessa dinâmica, logo partindo para a circunstância mais fascinante de seu enredo. Desejosos de partir para a aventura seguinte, Wolf e Moon negociam o combustível de avião que necessitam com Guzman (José Dumont). Líder militar de região, ele precisa que os aventureiros encontrem um meio de expulsar a tribo de Boronai (Stênio Garcia, soberbo) do lugar em que estão: O jazigo de um veio de ouro.
Quando a necessidade da missão se choca com os propósitos da ética, Babenco resgata então a herança Cheyenne que Moon traz em seu sangue, e o mercenário deixa de lado suas escolhas duvidosas para se tornar, ele próprio, um dos índios.
Como em muitos de seus trabalhos, Babenco sedimenta aqui o caminho imprevisível entre aquilo que seus protagonistas creem ser e aquilo que, no fim das conta, eles se tornaram, saboreando cada uma das imbricações da metamorfose que observa.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Memphis Belle - A Fortaleza Voadora


O diretor inglês Michael Caton-Jones sempre deixou que a irregularidade prevalecesse em sua obra. Uma irregularidade que contaminava suas escolhas estilísticas (nota-se em sua filmografia inclinações diversas para todos os tipos de posturas e gêneros) e as características de seus filmes em geral –houveram muitos diretores que optaram por filmes radicalmente diferentes uns dos outros, mas cuja personalidade manifestava-se na realização tornando similares obras que aparentavam extrema diferença.
Não é o caso de Caton-Jones: De filmes como a comédia rasteira “Dr. Hollywood-Uma Receita de Amor” e o drama “O Despertar de Um Jovem” à aventura “Rob Roy-A Saga de Uma Paixão” e a continuação pseudo-erótica de “Instinto Selvagem”, sua direção parece se adaptar à vontade de seus produtores, como o mais dócil dos operários.
Nesse contexto, o drama de guerra “Memphis Belle-A Fortaleza Voadora” é um de seus melhores trabalhos (talvez, com a honrosa exceção do thriller “Escândalo”).
Como em todos, nele prevalece as vontades e as intenções do produtor que, neste caso, é David Puttman que, desde a década de 1980, gozava de relativo prestígio tendo conquistado um improvável Oscar de Melhor Filme com “Carruagens de Fogo” (um dos grandes azarões do Oscar) e assinando ao menos uma obra inquestionavelmente cult, a mais peculiar e autoral de todas as versões de Tarzan, “Greystoke”.
Ambientado na Segunda Guerra Mundial e lançado muitos anos antes de “O Resgate do Soldado Ryan” –e, portanto, destituído do fulgor energético para com as cenas de batalha que o filme de Spielberg obrigou praticamente todos os filmes de guerra a ter depois dele –o enredo de “Memphis Belle” se inicia em 1943.
Há uma comoção à pairar na atmosfera daquela base aérea norte-americana ambientada na Inglaterra: Uma de suas tripulações (justamente a do B-17 nomeado Memphis Belle) está prestes a completar a inédita marca de vinte e cinco missões completas, o que fará dela a primeira equipe a conseguir completar suas tarefas e voltar para casa.
A derradeira missão é carregada de expectativa da parte dos soldados –que se dividem entre empolgação pela conquista iminente e medo da morte provável –e de seus oficiais, entre os quais o humanista e paternalista Capitão Dennis Dearborn (Matthew Modine, de outro belo drama de guerra, “Nascido Para Matar”, de Stanley Kubrick).
No percurso dessa missão (que consiste num arriscado bombardeio à cidade de Bremem, na Alemanha), e no suspense que ela suscita, o filme explora, numa narrativa embriagada da nostalgia do cinema à moda antiga que parece buscar, os anseios e reflexões muitos humanos de seus integrantes, abrindo espaço para um elenco masculino homogêneo e dedicado: O sensível e austero Danny (Eric Stolz); o impulsivo e sem-noção Rascal (Sean Astin); o boa-praça Clay (Harry Connick Jr. cuja verve de cantor é aproveitada numa das mais famosas cenas); o auto-declarado médico Val (Billy Zane); o tremendamente abalado Phil (D.B. Sweeney); o irrequieto e voluntarioso Luke (Tate Donovan); o resignado Virgil (Reed Diamond); o supersticioso Eugene (Courtney Gains); e o taciturno e sério Jack (Neil Giuntoli).
Nem tanto uma obra debruçada sobre o espetáculo da guerra quando à exaltação de bons sentimentos (embora a sequência final prime por realismo e intensidade), este filme abre mão de atos heroicos individuais para entregar a história de um emocionante e sincero esforço conjunto.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Laços de Ternura

Embora mais relacionado ao gênero de comédia, o diretor James L. Brooks obteve sua aclamação (precipitada alguns diriam) com um autêntico melodrama.
Em todos os ângulos através dos quais possa ser enxergado, “Laços de Ternura” é um registro emotivo da relação cheia de idas e vindas entre uma mãe e uma filha ao longo dos anos, contudo, a habilidade com comédia de Brooks se faz notar aqui na condução de momentos essencialmente sérios e dramáticos embevecidos, porém, de uma compreensão espirituosa das ironias do cotidiano –e isso, ele soube inclusive estender para as inspiradas atuações de Shirley MacLaine (vencedora do Oscar de Melhor Atriz) e de Debra Winger.
Elas vivem, respectivamente, Aurora e Emma, mãe e filha que não encontram uma sintonia harmoniosa em sua relação desde o início. Se na infância de Emma isso se manifestava na forma de imposições ocasionalmente absurdas de parte de Aurora, na fase adulta, isso se dá por meio do afastamento.
A narrativa acompanha a trajetória das duas em paralelo, mas habilmente entrelaçando-as por meio de manobras sutis e inteligentes: Aurora, lutando estoicamente contra a crise de meia idade, conhece um ex-astronauta (Jack Nicholson, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), também ele numa fase de angústia para com o próprio envelhecimento (seduz desesperadamente jovens moças com suas histórias da glória passada), e com ele acaba travando um relutante e caloroso romance. Emma, por sua vez, desvencilha-se da influência insistente da mãe, casa-se com um jovem namorado (Jeff Daniels) de quem tem dois filhos e constrói assim uma vida adulta, com todas as indisposições que uma vida adulta tem –o marido a trai durante a segunda gravidez e ela, entre o ressentimento e a passividade, arranja um amante também (interpretado pelo ótimo John Lithgow).
Essa atenção do diretor Brooks aos pequenos detalhes parece se justificar na terceira e última parte do filme, quando descobrimos que Emma sofre de câncer, e então, sem qualquer predisposição a atender as demandas emocionais e nada realistas do público, ele concede um arremate admirável a esse trabalho amargo e humano.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Armas Na Mesa

Jessica Chastain é um absurdo. A cada filme, ela se mostra uma atriz mais hábil e capaz, bela e talentosa. Havia tudo para que ela se sentisse mesmo à vontade em “Armas Na Mesa” onde ela torna a colaborar –desta vez, como protagonista –com o diretor John Madden (de “Shakespeare Apaixonado”) depois de roubar a cena em “A Grande Mentira”.
Ela é Madeline Sloane, uma lobista tida como uma das grandes profissionais de sua área. E a presença intimidante de Jessica em cena, sua verborragia astuta em atividade constante logo tratam de convencer o público disso.
Trabalhando para uma empresa cujo cliente é um dos barões armamentistas dos EUA –e, para o qual, com efeito, a lei de desarmamento em votação na bancada do congresso americano deve ser derrubada –ela muda subitamente de lado, passando a trabalhar para um grupo pró-desarmamento, liderado por Rodolfo Schmidt (Mark Strong, sempre digno e sólido) que luta por leis mais rígidas de porte de armas.
A justificativa parecem ser os seus princípios.
Mas, como descobrirá o público e muitos dos personagens a orbitá-la, princípios são o que menos pesa na balança moral de Sloane: Tudo o que importa a ela é vencer, e tal vitória justifica a torção eventual da ética numa série de lances ardilosos que beiram a desonestidade e a manipulação.
“O segredo para vencer é nunca deixar que seus inimigos o surpreendam, e sempre surpreendê-los” diz ela, já no contundente monólogo que abre o filme.
É verdade: Ao longo das pouco mais de duas horas de filme serão freqüentes os momentos em que os artifícios de Sloane pegarão de surpresa não apenas seus inimigos, mas também seus aliados e o expectador. Quando uma máscara parece cair, prestes a revelar enfim uma faceta de derrotada, descobrimos que foi mais um estratagema elaborado por ela.
Quando os adversários políticos passam a mover uma série de ataques profissionais e pessoais a ela como forma de desacreditá-la, somos freqüentemente pegos de surpresa pela forma quase desumana (e, não raro, surpreendente) com que ela subtrai os problemas e os neutraliza.
Em algum momento, contudo, Sloane irá rever os limites (ou a falta deles) que ela própria estipulou na busca por seus objetivos.
Muito do filme depende realmente de Jessica Chastain; ela consegue fazer o público se importar com essa protagonista mesmo que ela paulatinamente forneça motivos para desprezá-la, mesmo que sequer haja uma preocupação em dar-lhe um backup emocional que atrele suas motivações ao esforço que despende contra os adversários (aliás, o grande calcanhar de Aquiles da obra), mesmo que muito pouco fiquemos sabendo quem essa mulher é de fato, e mesmo que ela esteja enfrentando pessoas tão frias e calculistas quanto ela própria.
“Armas Na Mesa” também se beneficia do meticuloso roteiro do estreante Jonathan Perera, que parece ávido em mesclar a loquacidade estrutural nos diálogos de Aaron Sorkin (roteirista de “A RedeSocial”) com o turbilhão informativo –e, para alguns, inacessível –de Adam McKay no sensacional “A Grande Aposta”, ainda que em sua pouca experiência, ele não obtenha o equilíbrio primoroso de nenhum desses dois casos.
O diretor Madden, visivelmente apaixonado pelos meandros narrativos desse tipo de produção –que agrega as aspirações de um drama contemporâneo, um charme de filme de espionagem moderno e, mais ao fim, as evoluções sintomáticas de um filme de tribunal –evidencia essas duas grandes qualidades (uma atriz magnífica e um roteiro amplo e detalhado) reconhecendo neles os verdadeiros diferenciais deste trabalho.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos - A Origem

O clássico “Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e lançado no ano de1968 (um ano antes, portanto, de Kubrick chacoalhar o cinema e o gênero de ficção científica com seu “2001-Uma OdisséiaNo Espaço”), já estava distante o bastante para que Hollywood tivesse ambiciosos lampejos de reinvenção.
É notória a tentativa de recomeçar tudo de novo, em 2001 (ironias...), com uma nova versão da mesma trama com Charlton Heston, desta vez estrelada por Mark Whalberg, e dirigida por Tim Burton, entretanto, exceto pelo capricho na maquiagem, a nova produção era, em tudo e por tudo, inferior ao marcante filme dos anos 1960.
Uma década depois, Hollywood (mais especificamente, os estúdios da Fox) continuaram tentando, agora, com a idéia de uma reinvenção de fato. E mais: Com mérito genuíno.
Se o clássico tinha algo de francamente inovador, à época, na maquiagem símia criada para seus atores incorporar macacos desenvolvidos, então, supôs o perspicaz diretor Rupert Wyatt, era necessário que o legado de “Planeta dos Macacos” fosse respeitado seguindo essa busca por inovação –“A Origem”, esse novo filme, agora possuía, não atores primorosamente maquiados, mas todo um elenco convertido em macacos virtualmente reais, graças à tecnologia de captura de performance, apresentada por Peter Jackson em “O Senhor dos Anéis”, nas cenas que envolviam o personagem digital Gollum, e por James Cameron no revolucionário “Avatar” e aqui, por sua vez, elevada à um novo nível.
A trama também não cometia do erro do filme de Tim Burton, em tentar refazer o clássico, mas o complementava: Tratava-se, na realidade de um prólogo, revelando como a Terra, do mundo civilizado atual, converteu-se na distopia dominada por uma raça avançada de macacos como visto no clássico.
E o ponto de partida para essa mudança se origina no personagem de James Franco (recém-saído de uma indicação ao Oscar por “127 Horas”), um jovem cientista determinado a encontrar a cura do Mal de Alzheimer que acomete seu pai (o veterano John Lithgow). Ele realiza uma experiência clandestina numa fêmea chimpanzé, o que gera, mais tarde, um filhote de prodigiosa inteligência: César –interpretado pelo grande especialista em atuação na captura de performance do cinema, Andy Serkis, que também foi responsável pela extraordinária presença de Gollum (muito legal notar que James Franco assume aqui o papel de coadjuvante de um personagem digital com um bocado de dignidade).
Com o tempo, César (personificado de modo assombroso pelos movimentos e pela técnica de Andy Serkis) adquire consciência de quem é e acaba levado e encarcerado num zoológico para macacos, onde junto de outros símios, sofre maus tratos nas mãos de humanos cruéis –representados, entre outros, por Brian Cox e Tom Felton, habituados a papéis de vilões. Logo, César percebe que, na condição de líder de sua raça, deve valer-se do quê sabe e compreende para conduzir os da sua espécime à uma rebelião sem precedentes, que deverá levá-los à liberdade, para bem longe do julgo dos humanos.
O modo com que a direção de Rupert Wyatt conduz a trama, o amadurecimento de César (com estupendo desenvolvimento dele enquanto personagem, e brilhante observação na ascensão de sua liderança) e o desenrolar de todas as facetas fundamentais às características presentes no filme clássico é de um primor estupendo; tornando até mesmo redundantes referências mais convencionais como as falas “Isto aqui é um hospício!” ou “Tire suas patas de mim, seu macaco imundo!”.
Todas essas bem elaboradas características conduzem harmoniosamente ao segmento final, onde vemos a arrepiante insurreição dos animais contra os seres humanos (é curioso como, em suas motivações muito bem estipuladas no roteiro, o filme consegue colocar de maneira convincente, os humanos –ou seja, nós mesmos! –como os detestáveis vilões), uma sucessão fantástica de cenas que mesclam ação, eficácia narrativa e o brilho de efeitos visuais empregados em favor da história que eleva a produção num outro nível, capaz de fazer dele uma obra tão icônica quanto o clássico que busca honrar.

terça-feira, 14 de março de 2017

A Vida e Morte de Peter Sellers

O diretor Stephen Hopkins (de trabalhos oscilantes em qualidade como “O Predador 2” e “A Sombra e A Escuridão”) foi corajoso ao moldar, neste celebrado filme televisivo, uma estrutura à qual todos os filmes de caráter biográfico deveriam se basear: Um registro absolutamente imparcial em seu humor e seu drama, mostrando todas as facetas questionáveis de caráter que seu biografado porventura poderia ter, e muitas vezes, beneficiando-se delas para incrementar e tornar ainda mais envolvente sua narrativa.
Filmes superestimados como “A Teoria de Tudo” poderiam aprender a ser muito melhores, se sua execução se inspirasse na deste daqui.
Peter Sellers (vivido com preciosismo ímpar por Geoffrey Rush), famoso ator e comediante nascido na Inglaterra foi criado por uma mãe rígida, ainda que com ternura esmagadora, e por seu pacato e submisso pai. Durante a juventude, descobriu um insuspeito gosto pela atuação, valendo-se desse dom para, mais tarde, no final da década de 1950, se tornar radialista e então ator. Logo, ele sinalizou também, em sua inspirada inclinação para o improviso e na rica capacidade para caracterizações de natureza caricata, uma habilidade nata para comédia. Tendo abertas as portas para o estrelato no cinema, Sellers, a medida que adquiria cada vez mais reputação, cacife e privilégios, foi revelando também uma personalidade mimada e egoísta.
O filme enaltece seu talento na mesma proporção que critica (e ridiculariza) seus desvios imaturos de caráter: Em uma seqüência é mostrado que, quando trabalhou numa produção com a estrela Sophia Loren (Sonia Aquino, belíssima), Sellers se apaixonou pela grande atriz italiana e, não apenas acabou deixando Anne (Emily Watson), sua então esposa, como também (quando ficou absolutamente claro que Loren não queria nada com ele) teve um caso com a substituta da atriz.
Ao fim dos anos 1960, sua carreira ganhou fôlego, ao participar de "A Pantera Cor-de-Rosa", comédia estrelada por David Niven e dirigida pelo americano Blake Edwards (o ótimo John Lithgow). O sucesso de seu personagem, o Inspetor Clouseau –no filme inicial, pouco mais que um coadjuvante –o converteu no protagonista dos filmes seguintes da série.
Anos depois, ele descobriu um novo romance ao conhecer a bela atriz sueca Britt Ekland (Charlize Theron), contudo seus ataques de raiva prejudicaram e encerraram também esse casamento. O filme registra impiedosamente a ironia da trajetória profissional e pessoal de Sellers, ao mostrar que ele obtém largo sucesso comercial como grande comediante, ainda que a série “A Pantera Cor-de-Rosa” não lhe fosse satisfatória como artista, enquanto sua vida particular foi ficando cada vez mais em frangalhos.

Entre a narração de uma cena e outra, que abrange estes trechos da vida de Sellers, é curioso notar a intervenção magnífica do ator Geoffrey Rush, a comentar e refletir tal cena, às vezes, até mesmo despindo-se do personagem de Peter Sellers e assumindo (com a mesma veemência) os personagens de outros colegas do elenco, sejam eles homens ou mulheres (!), um recurso que serve para mostrar não só a versatilidade inquestionável de Sellers em suas personificações, mas também para evidenciar a excelência do grande ator que o interpreta.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Interestelar

Tal qual o mestre Stanley Kubrick (cujo "2001-Uma Odisséia No Espaço" é amplamente homenageado aqui), o diretor Christopher Nolan concebe uma obra onde o cinema tem o compromisso de ir além, seja em brilhantismo técnico, seja em emoção.
Nolan já havia dado sinais disso em seus filmes anteriores, todos eles (proposital ou não) feitos de modo a se irmanarem à tradição norte-americana dos gêneros a que pertencem.
Isso podia ser visto na brilhante "Trilogia do Cavaleiro das Trevas" (onde inseria um herói de histórias em quadrinhos, Batman, numa narrativa com atmosfera dos filmes policiais dos anos 1970), ou em um de seus maiores trabalhos, "A Origem" (uma obra sobre sonhos, com atrevimentos lynchianos, inclusive mas cuja estrutura segue a de um filme de assalto).
"Interestelar" é, em tudo e por tudo, um passo além.
Num futuro onde a humanidade esgotou a fertilidade do planeta Terra, uma expedição espacial, liderada pelo ex-piloto Cooper, parte para os confins do universo, a fim de procurar um novo planeta para onde a raça humana possa migrar, fugindo assim da extinção.
 Cooper deixa para trás sua família, e sua filha Murphy, de apenas dez anos de idade. 
A viagem espacial em si transcorrerá ao longo de anos (décadas, até!) e apresentará contratempos com os quais eles não estavam preparados. Enquanto isso, na terra, Murphy trilhará seu próprio caminho tentando, também ela, encontrar uma chance para a humanidade.
E se há algo próximo a uma evolução no trabalho de Nolan em relação a seus outros filmes, aqui, ela diz respeito à emoção. Ela nunca antes foi tão palpável e vívida num filme seu.
E o responsável para isso é, em grande parte, o ator Matthew McConaughey. Aliás, sejamos justo: É quase todo o elenco (que nos filmes de Nolan costuma ser sempre espetacular), como Jessica Chastain, Anne Hathaway, e Michael Caine (praticamente o ator-assinatura de Nolan).
É curioso que ao ressaltar a emoção (tão teorizada e escanteada em seus trabalhos mais pragmáticos, e que aqui concentra-se sobretudo na relação pai-e-filha, e na expectativa de um cada vez mais impossível reencontro), o filme acaba fortalecendo uma característica que é onipresente na filmografia de Nolan: O suspense.
Na verdade, eu diria que "Interestelar", a despeito do uso imodesto que seu roteiro faz de suas próprias implicações e ramificações, é um filme que submete o expectador a uma experiência emocional das mais intensas: Experimenta-se todo o tipo de sensação durante suas quase três horas, do súbito alívio a uma flagrante surpresa, da dolorosa desesperança à uma inesperada catarse.
Dessa forma, quando Nolan escolhe o momento de encerrar o filme, os personagens e sua história terminam nos deixam esgotados, tantas foram as emoções que nos levaram a sentir.