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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tróia


 Em 2004, a superprodução “Tróia” – ou “Troy”, no original – era uma promessa e tanto nos cinemas: Um épico dirigido pelo tarimbado Wolfgang Petersen (diretor alemão que trazia em seu currículo o elogiado “O Barco-Inferno No Mar” e a fantasia “História Sem Fim”), roteirizado por David Benioff (roteirista do lastimável “X-Men-Origens-Wolverine” e da aclamada série "Game of Thrones"), adaptando o poema “A Ilíada”, de Homero, e que ostentava um elenco com nomes como Brad Pitt, Eric Bana, Peter O’Toole, Julie Christie, Orlando Bloom (então em alta com a Trilogia “O Senhor dos Anéis”), Brian Cox, Garrett Hedlund e muitos outros.

Todavia, ao aportar nos cinemas, a empolgação rapidamente foi substituída por um certo descaso: A direção de Petersen era burocrática, desanimada, indicativa de uma carreira que logo chegaria ao seu crepúsculo (depois de “Tróia”, ele só lançou “Poseidon”, de 2006, em Hollywood, e a comédia “Vier Gegen Die Bank”, de 2016, em sua Alemanha natal, até falecer em 2022) e o roteiro (que pretendia-se realista) omitia a intervenção das divindades da mitologia grega nos acontecimentos, preservando elementos pouco palatáveis nos personagens protagonistas que foram mantidos – um dos grandes lapsos em “Tróia” é que, num elenco numeroso e adornado de estrelas de cinema, quase ninguém traz um personagem bem desenvolvido ou uma atuação capaz de se sobressair ao todo – com muita boa vontade, talvez, somente à exceção de Eric Bana...

Uma pena, uma vez que “Tróia” era (ou deveria ser) uma obra onde as ações servem de consequências aos vícios e às virtudes humanas.

1184 A.C. Grécia Antiga. Em Esparta, o Rei Menelau (Brendan Gleeson) recebe os príncipes de Tróia, os irmãos Hector (Eric Bana) e Paris (Orlando Bloom), de índoles distintas – enquanto que Hector, o mais velho, carrega consigo a austeridade como herança de seu reinado e de suas responsabilidades, o mais jovem, Paris, é um jovem mimado e imaturo, cujo semblante de agradável beleza lhe permite colecionar conquistas amorosas.

Será uma dessas conquistas o estopim para uma celeuma sem precedentes: A Rainha Helena, tida como a mulher mais linda do mundo (vivida pela convincente e radiante Diane Kruger) e esposa de Menelau, encanta-se por Paris, tornando-se seu amante e pondo em prática o plano de fugir junto dele para Tróia.

Afrontado, Menelau convoca seu irmão, Agamenon (Brian Cox), um convencido senhor da guerra e, juntando forças, decidem arremessar seus exércitos para cima das defesas de Tróia. A confiança de Agamenon, contudo, tem lá sua razão de ser: Entre suas fileiras está o imbatível guerreiro Aquiles (Brad Pitt, exalando soberba), segundo dizem, abençoado pelos deuses para ser invencível no campo de batalha.

Munido de milhares de outros soldados – entre eles, o estrategista Odisseu (Sean Bean, aqui chamado de Ulisses) e o primo de Aquiles, Pátroclo (Garrett Hedlund, de “Inside Llewyn Davis-Balada de Um HomemComum”) – as forças de Menelau e Agamenon rumam mar adentro em direção à Tróia, governada pelo Rei Príamo (Peter O’Toole), disposto a proteger seus filhos e seu povo das hostilidades iminentes.

Condensada numa obra de profundas intenções comerciais (na qual nota-se com nitidez a predisposição em enfatizar as cenas de batalhas em detrimento de qualquer enredo), esta versão pasteurizada de “A Ilíada” negligencia o potencial de seus personagens – Aquiles, Agamenon, Paris e Menelau surgem reduzidos à estereótipos apáticos, como arrogante, intolerante, mimado e obsequioso, respectivamente – não fornecendo ao expectador um protagonista válido e digno ao qual ancorar seu investimento emocional.

Esse detalhe um tanto prejudicial torna irrelevante alguns dos predicados positivos da produção como a execução caprichada de suas sequências épicas (ainda mais impressionantes hoje, em que o cinema já não entrega tanto empenho na confecção de efeitos práticos, e superproduções em geral padecem de seriedade e dramaturgia) e a beleza física de seu elenco jovem paulatinamente explorada – além de Orlando, Diane, Eric e Brad há também Rose Byrne (no papel de Briseis) e Saffron Burrows (Andrómaca, esposa de Hector).

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Match Point - Ponto Final

 


Abrindo mão de forma surpreendente de seu já tão difundido e conhecido senso corrosivo de humor, o diretor e roteirista Woody Allen deu, nos idos de 2005, um novo rumo à sua carreira com este “Match Point”: Ele abandonou, por algum tempo, a cidade de Nova York –ambientação de quase a totalidade de suas obras –e aventurou-se em contar histórias transcorridas em cidades referenciais da Europa; ele também nomeou a deliciosa e competente atriz Scarlett Johasson como sua nova musa desta nova fase (Johansson estrelou este e outros dois filmes de Allen); e (ao menos aqui) assumiu uma postura de seriedade e austeridade no roteiro e na condução que não apareciam com tanta à ênfase em suas realizações desde algumas audazes experiências dos anos 1980, como “A Outra” ou “Hannah e Suas Irmãs”.

“Match Point” é, sobre muitos aspectos, Woody Allen tentando se travestir de Alfred Hitchcock. É também Woody Allen incorporando as aglutinações morais de Dostoyevski em “Crime e Castigo” –ele é inclusive citado num trecho fundamental do filme –e nesse processo, de tatear novas percepções ao estilo que ameaçou engessá-lo na década de 1990, Woody Allen concebe um filme notável em seu frescor autoral.

Jonathan Rhys Meyers é o ambicioso londrino Chris Wilton. Sua mentalidade calculista e pragmática o atrai em direção à garota milionária Chloe Hewett (Emily Mortimer), no entanto, seu desejo irracional o empurra para a atraente Nola Rice (Scarlett), então namorada do irmão de Chloe (Matthew Goode).

Chris procura em vão inibir esse desejo a medida que seu interesseiro enlace com Chloe segue os ritos de praxe –namoro, noivado, casamento. No entanto, quando reencontra Nola, agora, não mais namorando seu cunhado, ele vê a chance de ter seus avanços correspondidos; e ela se torna sua amante engravidando, pouco depois.

Agora Chris tem um dilema em mãos: Contar a verdade para Chloe, e ter o confortável status social com o qual se acostumou ameaçado, ou permanecer como está?

A segunda alternativa, Nola está disposta a não tornar viável: Ela ameaça contar a verdade a Chloe se ele não a assumir e ao bebê que está esperando.

Toda essa árdua preparação –levada por Woody Allen tendo por elemento de sublinhamento das passagens chaves o trecho “Una Furtiva Lagrima” de L’elisir d’amore –serve para nos levar ao elaborado assassinato que se sucede quase na metade do filme; e que revela “Match Point” ser, de fato, sobre a arquitetação de um crime aparentemente perfeito (por sinal, essa é a premissa também de “Scoop-O Grande Furo”, projeto imediatamente seguinte que Allen fez com Scarlett Johansson).

Entretanto, como Allen parece ter apreendido de Hitchcock, o conceito que determina um crime perfeito (aquele do qual seu perpetrador consegue escapar impune) do imperfeito depende de uma série de pequenos detalhes, explorados aqui com criterioso humor negro, em especial, um detalhe sutil, inusitado e determinante, justaposto numa analogia com a prática esportiva do tênis, especialidade do protagonista, que termina também batizando este trabalho um tanto memorável, e um tanto capaz de surpreender (e, em alguns casos, até frustrar!) aqueles que estiverem esperando por um Woody Allen típico das mesmas comédias irônicas e sofisticadas que ele entregou nos anos 1990.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sequestro No Espaço


 Uma pena que, nas últimas décadas, Luc Besson tenha sentado menos na cadeira de diretor para atuar em produções como produtor, argumentista ou roteirista, viabilizando com isso o trabalho de terceiros. Uma hora ou outra, porém, essa atividade revelaria talentos tão auspiciosos quanto o seu; e é, mais ou menos, o que ocorre aqui, nesta formidável ficção científica de ação.

Acelerado como poucas produções conseguem ser, mesmo no vertiginoso cinema comercial de hoje, o filme dirigido por Stephen Saint Leger e James Mather, a partir de uma ideia esboçada pelo próprio Besson (e roteirizado por ele e pela dupla de diretores), começa em altíssima voltagem quando seu debochado e intratável  protagonista, Snow (o sensacional Guy Pearce), se vê encurralado numa nebulosa situação: Agente da CIA, Snow deve fugir de inimigos que o incriminaram a fim de provar sua inocência e a de um amigo abatido. Tudo parece girar em torno de uma pasta com segredos, tida como perdida. E o filme não apenas começa em meio à ininterruptas cenas de ação, mas em meio à uma trama que acomoda, ela própria a ação; uma característica muito peculiar de Besson nesse cinema tão avesso ao conteúdo em detrimento do senso estético é justamente essa sua capacidade para fazer com que a própria história a ser contada adquira as nuances frenéticas inquietas das próprias sequências que emoldura.

E assim o filme segue implacável: Snow é condenado e sua sentença é um sono criogênico no espaço onde, em órbita da Terra, uma prisão espacial já abriga uma legião de condenados num sistema ainda experimental de carceragem.

Eventualmente a bordo dessa nave-prisão, a filha do presidente norte-americano, Emilie (a gracinha Maggie Grace, da série “Lost”), vai fazer uma inspeção protocolar a fim de apurar as informações que apontam efeitos colaterais como a demência entre os prisioneiros submetidos à criogenia. Um desses prisioneiros, Hydell (Joe Gilgun, de “Harry Brown” e a série “Preacher”), de altíssima periculosidade, despertado justamente para a entrevista com ela, consegue escapar espalhando o caos, e logo conseguindo libertar todos os outros, inclusive seu irmão Alex (Vincent Regan, de “300” e “Joana D’Arc”), menos psicótico e inconsequente que ele, e mais estrategista e manipulador –Alex não tarda a usar a vida dos reféns disponíveis (inclusive Emilie, que os criminosos ainda não sabem tratar-se da filha do presidente) como moeda de troca na negociação com as autoridades.

Nesse processo, Snow surge como um coringa em meio às cartas desse baralho: É hábil e eficaz o bastante para um missão suicida onde deve exclusivamente salvar Emilie, mas descartável o suficiente para protagonizar uma operação em tudo e por tudo insensata. Ele é enviado, de modo clandestino, na nave-prisão tendo pouco tempo para tirar sua refém de lá; pois a nave, sem as manutenções de rotina, irá cair em direção à Costa Leste norte-americana, isso se, antes disso, os conselheiros de defesa não passarem por cima da autoridade presidencial e conseguirem aprovar um ataque maciço contra o lugar.

Absolutamente indiferente à falta de originalidade de seu plot e ao fato de que, à grosso modo, sua premissa básica une elementos deliberadamente extraídos de “Fuga de Nova York”, “Duro de Matar” e “Alien-O 8º Passageiro”, a obra de Saint Leger e Mather é um exercício virtuosístico de ritmo e subtração de tempos mortos; tudo em “Sequestro No Espaço” depõe a favor da ação, sejam suas guinadas narrativas –elaboradas com primazia fulgurante e detalhamento –sejam os perigos incessantes que se abatem sobre os protagonistas da primeira à última cena, sejam as cenas de ação propriamente ditas, editadas com inquietação e realizadas com apaixonado esmero, de um entusiasmo tamanho que sua euforia passa por cima de circunstâncias prosaicas como a ocasional imperfeição de seus efeitos digitais, para moldar um trabalho exemplar dos mecanismos que determinam a narrativa desse gênero.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Voo Noturno


 No princípio deste usual e frenético filme de Wes Craven vemos cenas que se seguem aparentemente destituídas de uma relação (ou não): Uma carga misteriosa aparece num carregamento náutico; uma carteira (com as iniciais JR) é roubada numa casa onde vemos fotos da personagem de Rachel McAdams; essa personagem, de nome Lisa, aparece num táxi a caminho do aeroporto, ávida por pegar o voo de volta à Miami, onde trabalha como gerente em um hotel cinco estrelas.

Como num hábil suspense concebido em torno das preciosas lições do mestre Alfred Hitchcock, as impressões aleatórias dessas cenas iniciais logo desaparecerão a medida que o roteiro elaborado por Carl Ellsworth e Dan Foos une cada uma das pontas e revela todos os propósitos daquilo que vemos transcorrer.

No Hotel Lux Atlantic –no qual Lisa trabalha, com tamanha competência que sua ausência transforma as tarefas de sua substituta Cynthia (Jayma Mays, de “Feito Na América”) num inferno –haverá um evento incomum; o lugar receberá a visita de Charles Keefe (Jack Scalia), político influente e de implacável política desarmamentista.

No início, nada disso parece interferir na viagem de volta de Lisa, cujo voo parece ter atrasado. Em espera no aeroporto, ela faz amizade com alguns passageiros que estarão com ela no mesmo avião. Um deles é Jack Rippner (Cillian Murphy, sempre eficaz) que se mostra simpático, cortês e solícito –características que, num filme de suspense dirigido por Wes Craven já despertam desconfiança.

Uma série de coincidências –também elas cheias de desconfiança –colocam Lisa na poltrona lateral à de Jack, e logo eles iniciam uma conversa descontraída enquanto o avião decola.

É em pleno ar que Jack revela à Lisa todo o seu plano, sem preocupar-se em mentir: Foi ele (ou os homens em seu comando) quem roubou a carteira do pai de Lisa (Brian Cox), uma prova de que eles o têm em sua mira.

A chantagem é simples: Lisa deve pegar um telefone e usar de sua autoridade no Hotel Lux Atlantic para mudar Keefe (que logo chegará lá) de quarto –um quarto onde possa ser alvo para o atentado engendrado por Jack e seus contratantes.

Se Lisa fizer isso, estará salvando a vida de seu pai.

Praticamente toda a filmografia de Wes Craven gira em torno da premissa básica de uma mulher em apuros. Aqui, ele cerca esse plot com elementos extraídos de uma das sensações cinematográficas de então, a “Trilogia Bourne”, abrindo mão dos expedientes de terror que norteiam em geral suas obras e adotando uma narrativa dinâmica, onde os detalhes convergem a uma situação simples que centraliza a ação: A chantagem dentro de um avião em meio à uma dinâmica tensa que se mantém entre duas poltronas –para tanto, grande parte do filme se dedica aos closes expressivos da ótima Rachel McAdams, fazendo um belíssimo trabalho.

O roteiro, com algumas firulas em demasia, dedica-se  a mostrar os caminhos tortuosos que ela tomará para desvencilhar-se dessa encrenca sem ceder às imposições do mal; por conta disso, a meia hora final abandona o suspense restrito, aflitivo e verbal que vinha construindo para abraçar elementos de ação e perseguição desenfreada –terreno no qual, quando muito, Wes Craven se revela correto.

“Voo Noturno” é um filme assim divertido, tenso na medida certa e cercado de elementos mirabolantes que ora auxiliam sua apreciação, ora dificultam sua credibilidade; o resultado entre o mediano e o apetecível que obtém só é potencializado pelo seu casal protagonista central que movem um belo duelo entre algoz e refém, esbanjando química e competência.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Fantástico Senhor Raposo


Diretor de filmes live-action com frequência divididos entre a seriedade do drama e o surrealismo da comédia, Wes Anderson se valeu, aqui, do expediente da animação com a qual pode expressar seu estilo em condições que a encenação humana não permitia: Usando de personagens personificados por animais (dublados por um time espetacular de estrelas), de um domínio visual e cênico ainda maior do que aquele que exercia antes e despindo-se de certa dualidade inerente aos filmes encenados por atores, onde a atuação mascara a idealização, Anderson narrou um gracioso conto sobre as pulsões primitivas que nos norteiam.
Ainda que imensamente divertido, engana-se, contudo, quem supõe que esta é uma obra para crianças: “O Fantástico Sr. Raposo” é suficientemente adorável e leve para agradar aos pequenos, mas certamente é aos adultos que a narrativa parcimoniosa, um pouco cínica e cheia de subtexto quer falar.
O Sr. Raposo é... bem, uma raposa. Ele e sua esposa vivem a rotina normalmente arriscada de animais selvagens que vivem de roubar galinheiros. Raposo até sugere opções para sua esposa –qual caminho seguirem para voltar à toca, por exemplo –para deixá-la com uma agradável impressão de consideração; entretanto, ela nunca toma as decisões de fato: Raposo sempre a instiga pela escolha que ele deseja.
Com efeito, quando ela anuncia que espera um filhote –o quê exige que Raposo aposente-se da vida arriscada de ladrão de galinhas e arrume um trabalho mais tranquilo –o marido até consente. Mas, também isso se torna uma promessa vazia: Alguns anos depois de sossegar em sua toca, Raposo muda-se com a família para uma árvore cuja vizinhança inclui três fazendas cheias de iguarias tentadoras –e, logo, seu instinto não tarda a levá-lo a arquitetar estratagemas para roubar as galinhas de uma, as carnes defumadas de outra, e as preciosas garrafas de cidra de mais outra.
É nessa última que Raposo descobre um proprietário capaz de dispor de seus recursos para caçá-lo (e à todos os seus) custe o que custar.
Inspirado num livro do mesmo Roald Dahl que concebeu a premissa de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, o filme de Anderson emprega a subterfúgio óbvio de usar protagonistas animais numa animação para uma reflexão não tão óbvia: Até que ponto o instinto primário se sobrepõe às nossas escolhas.
Junto dessa questão, a condução descontraída de Anderson leva à outras mais: Quão erradas são tais escolhas mesmo que deixemos nosso instinto falar mais alto? Não estamos sendo, afinal, condizentes com nós mesmos?

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos - A Origem

O clássico “Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e lançado no ano de1968 (um ano antes, portanto, de Kubrick chacoalhar o cinema e o gênero de ficção científica com seu “2001-Uma OdisséiaNo Espaço”), já estava distante o bastante para que Hollywood tivesse ambiciosos lampejos de reinvenção.
É notória a tentativa de recomeçar tudo de novo, em 2001 (ironias...), com uma nova versão da mesma trama com Charlton Heston, desta vez estrelada por Mark Whalberg, e dirigida por Tim Burton, entretanto, exceto pelo capricho na maquiagem, a nova produção era, em tudo e por tudo, inferior ao marcante filme dos anos 1960.
Uma década depois, Hollywood (mais especificamente, os estúdios da Fox) continuaram tentando, agora, com a idéia de uma reinvenção de fato. E mais: Com mérito genuíno.
Se o clássico tinha algo de francamente inovador, à época, na maquiagem símia criada para seus atores incorporar macacos desenvolvidos, então, supôs o perspicaz diretor Rupert Wyatt, era necessário que o legado de “Planeta dos Macacos” fosse respeitado seguindo essa busca por inovação –“A Origem”, esse novo filme, agora possuía, não atores primorosamente maquiados, mas todo um elenco convertido em macacos virtualmente reais, graças à tecnologia de captura de performance, apresentada por Peter Jackson em “O Senhor dos Anéis”, nas cenas que envolviam o personagem digital Gollum, e por James Cameron no revolucionário “Avatar” e aqui, por sua vez, elevada à um novo nível.
A trama também não cometia do erro do filme de Tim Burton, em tentar refazer o clássico, mas o complementava: Tratava-se, na realidade de um prólogo, revelando como a Terra, do mundo civilizado atual, converteu-se na distopia dominada por uma raça avançada de macacos como visto no clássico.
E o ponto de partida para essa mudança se origina no personagem de James Franco (recém-saído de uma indicação ao Oscar por “127 Horas”), um jovem cientista determinado a encontrar a cura do Mal de Alzheimer que acomete seu pai (o veterano John Lithgow). Ele realiza uma experiência clandestina numa fêmea chimpanzé, o que gera, mais tarde, um filhote de prodigiosa inteligência: César –interpretado pelo grande especialista em atuação na captura de performance do cinema, Andy Serkis, que também foi responsável pela extraordinária presença de Gollum (muito legal notar que James Franco assume aqui o papel de coadjuvante de um personagem digital com um bocado de dignidade).
Com o tempo, César (personificado de modo assombroso pelos movimentos e pela técnica de Andy Serkis) adquire consciência de quem é e acaba levado e encarcerado num zoológico para macacos, onde junto de outros símios, sofre maus tratos nas mãos de humanos cruéis –representados, entre outros, por Brian Cox e Tom Felton, habituados a papéis de vilões. Logo, César percebe que, na condição de líder de sua raça, deve valer-se do quê sabe e compreende para conduzir os da sua espécime à uma rebelião sem precedentes, que deverá levá-los à liberdade, para bem longe do julgo dos humanos.
O modo com que a direção de Rupert Wyatt conduz a trama, o amadurecimento de César (com estupendo desenvolvimento dele enquanto personagem, e brilhante observação na ascensão de sua liderança) e o desenrolar de todas as facetas fundamentais às características presentes no filme clássico é de um primor estupendo; tornando até mesmo redundantes referências mais convencionais como as falas “Isto aqui é um hospício!” ou “Tire suas patas de mim, seu macaco imundo!”.
Todas essas bem elaboradas características conduzem harmoniosamente ao segmento final, onde vemos a arrepiante insurreição dos animais contra os seres humanos (é curioso como, em suas motivações muito bem estipuladas no roteiro, o filme consegue colocar de maneira convincente, os humanos –ou seja, nós mesmos! –como os detestáveis vilões), uma sucessão fantástica de cenas que mesclam ação, eficácia narrativa e o brilho de efeitos visuais empregados em favor da história que eleva a produção num outro nível, capaz de fazer dele uma obra tão icônica quanto o clássico que busca honrar.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Coriolano

Adaptar Shakespeare para o cinema, nos tempos avidamente comerciais e pouco afoitos a arroubos artísticos dos dias de hoje, é sempre adentrar um terreno pantanoso.
Adaptar uma obra de Shakespeare relegada à obscuridade por ter sido adotada injustamente pelo Partido Nazista como uma ferramenta de propaganda durante a Segunda Guerra Mundial (não obstante o fato de ser um dos raros trabalhos de Shakespeare onde se detecta imperfeições na estrutura narrativa) é então ainda mais complicado.
Esses revezes, contudo, não intimidaram o ator Ralph Fiennes que, neste vigoroso “Coriolano” estréia na direção, herdando muito da identidade visual demonstrada por Kathryn Bigelow em “Guerra AoTerror” (que, a propósito, conta com Fiennes em seu elenco), o diretor de fotografia daquele filme, Barry Ackroyd, aliás, é o mesmo que opera a câmera aqui, o que justifica plenamente a similaridade das imagens. Afinal, Fiennes também optou por uma versão radical na qual ao mesmo tempo que preservava toda a pomba e circunstância do texto clássico do bardo, também lhe conferia uma atualização contextual: As intrigas palacianas e dramáticas não mais se passam em meio às ambientações sombrias da antiguidade, mas nos tempos atuais, com intervenção de carros, câmeras, televisores e recursos modernos nas cenas urbanas, e tanques de guerra, uniformes militares e armas de última geração nas seqüências de batalha.
Seguindo uma cartilha infalível, Fiennes escalou a si mesmo para o suculento papel principal, e não deixou por menos: Pontuou as participações do filme com presenças magníficas de um elenco espetacular.
Atravessando um tumultuado período político, Roma vê seu território protegido pelo feroz soldado Caio Márcio (Ralph Fiennes, veemente) que, após rechaçar os invasores Volcos na ofensiva de Coriolos, ganha a alcunha de Coriolano. Mas a valentia de guerreiro de Caio Márcio é proporcional à sua inaptidão em paparicar a plebe. O que faz com que ele caia em uma cilada política que ao invés de sagrá-lo Cônsul provoca seu exílio de Roma. Assolado pelo rancor, ele une-se à Aufídio (Gerard Butler), o líder dos Volcos, para junto de suas tropas invadir Roma.
Curioso como a roupagem moderna (soldados com metralhadoras e apetrechos militares ao invés de armaduras; decretos televisivos ao invés de discursos em praça pública) lhe evidencia sua relevância, tanto quanto seu anacronismo –fruto provavelmente da decisão de manter seu texto intocado.
Da forma como está, a trajetória de Coriolano reitera a corruptividade bélica do ser humano, confrontando um personagem atormentado com suas fraquezas mais inapeláveis. Essa tragédia, registrada durante sua maior parte numa voltagem mais tênue do que se espera de Shakespeare, ganha inusitada ênfase no desempenho transformador e inesperadamente opressivo das mulheres, a sublime Vanessa Redgrave como a mãe de Coriolano que ao fim negligencia o filho em prol da causa universal da vitória, e a linda e desconcertante Jessica Chastain, como sua esposa, o reflexo enganador de uma reconfortante vida em família.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Supremacia Bourne

   Não havia dúvidas de que havia um fascinante diferencial em “A Identidade Bourne” em relação aos genéricos filmes de ação e espionagem que sempre infestavam o gênero.
   Esse diferencial, além da presença tão inesperada quanto acertada de Matt Damon, era a tarimba desigual com a qual o diretor Doug Liman manipulava os elementos da ação, empregando ali uma percepção incomum, talvez europeizada, muito bem-vinda na necessidade de renovação que o gênero clamava.
   Esse elemento, o diretor Liman, foi substituído por outro, uma escolha ainda mais inesperada, em sua continuação “A Supremacia Bourne”.
   Então realizador de um premiado trabalho em sua Irlanda natal (o ótimo “Domingo Sangrento”, vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival de Berlin), o politizado e artístico Paul Greenglass era uma escolha ainda mais estranha do que Doug Liman (que apesar de seus trabalhos independentes e autorais, flertava de modo mais aproximado com o cinema industrial). No final das contas, justamente essa inclinação de Greenglass para a contestação involuntária do gênero (e o inconformismo advindo disso) potencializou tudo o quê Liman já queria fazer em “Identidade”: Uma construção minuciosa e criteriosa de cenas, onde o conceito de ação em si servia, também ele, ao registro de uma trajetória dramática bem definida e bem construída, por meio da qual um grande filme se fortaleceria através das bases sólidas de todo o grande cinema: Um bom diretor, um bom elenco e um bom roteiro.
   E é exatamente isso que “A Supremacia Bourne” é: Um grande filme!
   Três anos depois dos eventos mostrados em "A Identidade Bourne", o desmemoriado Jason Bourne (Matt Damon) vive em paz na Índia com sua namorada Marie (Franka Potente). Entretanto, quando um grave problema diplomático resulta num assassinato de agentes da CIA, surgem indícios que incriminam Bourne e o colocam na mira da Agência de Segurança, de outros agentes corruptos que querem enterrar o Projeto Treadstone, e de um assassino russo (o eficaz Karl Urban).
   A vida de Bourne é virada de ponta cabeça e, uma vez mais ele terá de contar com suas habilidades como agente para se desvencilhar de uma conspiração e sair vivo, o que inclui partir atrás de outros agentes do desativado projeto: Há uma cena em que ele reencontra um operativo como ele (interpretado por Marton Csokas), na qual eu julgava tratar-se do mesmo personagem interpretado por Clive Owen no primeiro filme –não me lembrava que era interpretado por Owen, como também não lembrava que ele morre já em “Identidade”... –aliás, essa cena culmina numa cena de luta entre Bourne e o personagem de Csokas que mostra bem a perícia com que Greenglass aborda o desenvolvimento da ação; Ela é brutal, cru, filmada com precisão e com incontestável noção de lógica, ritmo e dramaticidade.

   Até o filme se encerrar, haverão pelo menos outros dois grandes momentos que tornarão o filme de Greenglass não apenas memorável, como também uns bons degraus acima no anterior em qualidade: Os improvisos rápidos e sensacionais que Bourne fará tentando despistar um grupo de agentes a fim de rastreá-lo, e a magnífica seqüência final da perseguição de carros em Berlin.

terça-feira, 3 de maio de 2016

X-Men 2

Continuação de "X-Men-O Filme". Wolverine busca descobrir quem é e como se transformou numa máquina de matar. Suas buscas o levam a um complexo militar no Canadá e a um certo coronel Striker. Enquanto isso, os outros X-Men se desdobram para identificar um mutante dotado de capacidade de teleporte que tentou assassinar o presidente dos EUA, e que piorou muito a já abalada imagem da comunidade mutante. Na Casabranca, as repercussões desse atentado podem fazer com que o presidente autorize uma invasão à Escola de Superdotados do Prof. Xavier, o que pode então levar Wolverine a se defrontar com Striker.
 Mais fiel, mais eletrizante, mais inteligente e mais marcante que a primeira parte. Os X-Men nunca foram histórias de heróis contra vilões. E a sorte da franquia foi que, ao ser convertida em cinema, seu realizador Bryan Singer compreendeu perfeitamente isso. No primeiro filme, ele colocou as personalidades de Xavier e Magneto em contraponto, numa sensacional alegoria a Martin Luther King e Malcoln X. Aqui, em “X-Men 2” ele prosseguiu com esse trabalho analisando outras questões sobre o preconceito: O quê nos torna diferentes? A partir de que momento, e por quê, isso passa a incomodar outras pessoas? A busca por conciliação é um sinal de força ou de fraqueza?
 A brilhante resposta de “X-Men 2” é que não há resposta: No fim das contas não existe diferença, pois somos todos iguais.