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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tróia


 Em 2004, a superprodução “Tróia” – ou “Troy”, no original – era uma promessa e tanto nos cinemas: Um épico dirigido pelo tarimbado Wolfgang Petersen (diretor alemão que trazia em seu currículo o elogiado “O Barco-Inferno No Mar” e a fantasia “História Sem Fim”), roteirizado por David Benioff (roteirista do lastimável “X-Men-Origens-Wolverine” e da aclamada série "Game of Thrones"), adaptando o poema “A Ilíada”, de Homero, e que ostentava um elenco com nomes como Brad Pitt, Eric Bana, Peter O’Toole, Julie Christie, Orlando Bloom (então em alta com a Trilogia “O Senhor dos Anéis”), Brian Cox, Garrett Hedlund e muitos outros.

Todavia, ao aportar nos cinemas, a empolgação rapidamente foi substituída por um certo descaso: A direção de Petersen era burocrática, desanimada, indicativa de uma carreira que logo chegaria ao seu crepúsculo (depois de “Tróia”, ele só lançou “Poseidon”, de 2006, em Hollywood, e a comédia “Vier Gegen Die Bank”, de 2016, em sua Alemanha natal, até falecer em 2022) e o roteiro (que pretendia-se realista) omitia a intervenção das divindades da mitologia grega nos acontecimentos, preservando elementos pouco palatáveis nos personagens protagonistas que foram mantidos – um dos grandes lapsos em “Tróia” é que, num elenco numeroso e adornado de estrelas de cinema, quase ninguém traz um personagem bem desenvolvido ou uma atuação capaz de se sobressair ao todo – com muita boa vontade, talvez, somente à exceção de Eric Bana...

Uma pena, uma vez que “Tróia” era (ou deveria ser) uma obra onde as ações servem de consequências aos vícios e às virtudes humanas.

1184 A.C. Grécia Antiga. Em Esparta, o Rei Menelau (Brendan Gleeson) recebe os príncipes de Tróia, os irmãos Hector (Eric Bana) e Paris (Orlando Bloom), de índoles distintas – enquanto que Hector, o mais velho, carrega consigo a austeridade como herança de seu reinado e de suas responsabilidades, o mais jovem, Paris, é um jovem mimado e imaturo, cujo semblante de agradável beleza lhe permite colecionar conquistas amorosas.

Será uma dessas conquistas o estopim para uma celeuma sem precedentes: A Rainha Helena, tida como a mulher mais linda do mundo (vivida pela convincente e radiante Diane Kruger) e esposa de Menelau, encanta-se por Paris, tornando-se seu amante e pondo em prática o plano de fugir junto dele para Tróia.

Afrontado, Menelau convoca seu irmão, Agamenon (Brian Cox), um convencido senhor da guerra e, juntando forças, decidem arremessar seus exércitos para cima das defesas de Tróia. A confiança de Agamenon, contudo, tem lá sua razão de ser: Entre suas fileiras está o imbatível guerreiro Aquiles (Brad Pitt, exalando soberba), segundo dizem, abençoado pelos deuses para ser invencível no campo de batalha.

Munido de milhares de outros soldados – entre eles, o estrategista Odisseu (Sean Bean, aqui chamado de Ulisses) e o primo de Aquiles, Pátroclo (Garrett Hedlund, de “Inside Llewyn Davis-Balada de Um HomemComum”) – as forças de Menelau e Agamenon rumam mar adentro em direção à Tróia, governada pelo Rei Príamo (Peter O’Toole), disposto a proteger seus filhos e seu povo das hostilidades iminentes.

Condensada numa obra de profundas intenções comerciais (na qual nota-se com nitidez a predisposição em enfatizar as cenas de batalhas em detrimento de qualquer enredo), esta versão pasteurizada de “A Ilíada” negligencia o potencial de seus personagens – Aquiles, Agamenon, Paris e Menelau surgem reduzidos à estereótipos apáticos, como arrogante, intolerante, mimado e obsequioso, respectivamente – não fornecendo ao expectador um protagonista válido e digno ao qual ancorar seu investimento emocional.

Esse detalhe um tanto prejudicial torna irrelevante alguns dos predicados positivos da produção como a execução caprichada de suas sequências épicas (ainda mais impressionantes hoje, em que o cinema já não entrega tanto empenho na confecção de efeitos práticos, e superproduções em geral padecem de seriedade e dramaturgia) e a beleza física de seu elenco jovem paulatinamente explorada – além de Orlando, Diane, Eric e Brad há também Rose Byrne (no papel de Briseis) e Saffron Burrows (Andrómaca, esposa de Hector).

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei Versão Estendida

É possível uma obra já tida por impecável elevar ainda mais seu altíssimo padrão de qualidade? Esta é a difícil pergunta que as Versões Estendidas de “O Senhor dos Anéis” se atreveram a responder com uma audaciosa resposta afirmativa.
No capítulo final, “O Retorno do Rei”, algumas dessas cenas novas foram filmadas depois que o filme ganhou 11 Oscars na histórica cerimônia de 2004, o que não as impede de, pelo menos, conferir um aspecto esclarecedor a muitas passagens em alguns momentos.
Não há, contudo, razão para os pessimistas temerem, o filme majestoso, arrojado e inigualável que tomou o mundo de assalto continua lá: Após as duras provações experimentadas em “As Duas Torres”, o hobbit Frodo Bolseiro (Elijah Wood), ao lado de seu filme companheiro Sam (Sean Astin) adentra a etapa derradeira, e mais arriscada, de sua jornada, quando está por penetrar no território obscuro, maligno e infestado de perigos conhecido como Mordor. Não é só: Cada vez mais prejudicado em seu juízo perfeito pela influência do anel, Frodo rejeita a amizade sincera de Sam para cair nas armadilhas morais de Gollum (Andy Serkis, numa aula de interpretação virtual), cujo plano é entregá-lo de bandeja à horripilante aranha gigante Laracna, numa das mais espetaculares cenas do filme (e do cinema).
No outro núcleo de protagonistas, vemos Aragorn, Legolas, Gimli e Gandalf encontrarem Merry e Pippin, depois dos desencontros do filme anterior –é nesse momento que presenciamos uma das mais festejadas cenas da versão estendida, quando Gandalf, convertido em um mago branco, se depara com Saruman (Christopher Lee) e o confronta; certamente uma cena que foi um pecado ter sido tirada da versão de cinema.
O filme se ocupa de mostrar os desdobramentos desses personagens: Gandalf e Pippin seguem para a Cidade Branca de Gondor (um prodígio de efeitos visuais e direção de arte claramente reservado com zelo para aparecer apenas neste filme) onde devem alertar o esclerosado regente Denethor (John Noble) da chegada iminente de um exército incalculável de orcs; em Rohan, o Rei Théoden (Bernard Hill) e sua sobrinha Eowin (Miranda Otto) reúnem o exército dos rohimin para tentar impedir que a raça dos homens seja subjugada em definitivo pelas forças de Sauron; já, Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies), numa missão diferente, devem invadir catacumbas amaldiçoadas para reivindicar o auxílio de guerreiros fantasmas na grande guerra por vir, guerreiros estes que só responderam ao próprio herdeiro do Rei Isildur, e legítimo rei de Gondor, papel do qual Aragorn já não tem mais como fugir.
Essas subtramas –preenchidas com uma infinidade de cenas grandes ou pequenas que lhes acrescentam novas impressões –convergem, primeiro, na grandiloquente Batalha dos Campos do Pelenor, uma das grandes sequências épicas do cinema moderno, e depois, no enfrentamento final à Sauron e aos orcs, às portas de Mordor, quando Frodo, Sam e Gollum chegam ao ápice de sua conflituosa relação –e o bem e o mal encontram uma das personificações mais complexas, cativantes e visualmente estarrecedoras de seu eterno conflito.
Há beleza indescritível, inesgotável e inatacável em “O Retorno do Rei” –acredite, cada fotograma de sua cinematografia é um wallpaper! –e sua Versão Estendida tão somente fornece um novo e requintado ângulo para apreciá-la; no equilíbrio tão improvável quanto inacreditável de elementos íntimos com predicados épicos e grandiosos, e na obra de perfeição comovente que é obtido, “O Retorno do Rei” representa o final esplendoroso de uma das grandes sagas de nosso tempo, o auge do talento artístico de Peter Jackson e o ápice qualitativo nas telas de cinema das últimas décadas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres Versão Estendida

Pode-se afirmar que o capítulo do meio da formidável “Trilogia do Anel” é aquele que mais muda na comparação da versão de cinema com sua versão estendida.
O mais controverso dos três filmes por parte de algumas decisões criativas de seu diretor Peter Jackson –utilizar seu prólogo dramático no final do primeiro filme e jogar o antológico momento da aranha gigante para a terceira parte –“As Duas Torres” é aquele no qual o material original produzido pelos roteiristas (além de Jackson, Fran walsh, Phillippa Boyens e Stephen Sinclair) mais se expressa: Nele, vemos sub-tramas mais simplórias na versão literária ganhar ênfase e profundidade, além de algumas licenças poéticas que incrementam certas dinâmicas entre os personagens; sendo a mais gritante, a paixonite contumaz de Ewin (Mirando Otto) por Aragorn (Viggo Mortensen).
Por falar nele, Aragorn, com o acréscimo de novas linhas à trajetória empreendida por ele, Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) ao fim de “A Sociedade do Anel”, acaba adquirindo um protagonismo que toma o lugar central de Frodo (Elijah Wood) nesta narrativa –ele que era sem dúvida o protagonista do filme anterior, mas, que voltará a ser protagonista do filme posterior.
Neste épico monumental, desprovido de começo e de fim pela força dessas circunstâncias, a direção de Jackson relata assim três linhas narrativas paralelas originadas do dramático desfecho da primeira parte: Na primeira, Frodo e Sam (Sean Astin) adentram as regiões mais ermas e obscuras em seu caminho árduo rumo à Mordor; enquanto Frodo adentra também, num nível mais íntimo, áreas ainda mais sombrias de sua condição espiritual graças à influência maléfica do poderoso anel que deve destruir. Exemplo radical do mal provocado pela corrupção do anel, a criatura Gollum (Andy Serkis, brilhante) passa a acompanhá-los com a promessa de ser-lhes um guia –embora, lá no fundo, sua mente distorcida almeje traí-los.
Na segunda linha narrativa, os hobbits Merry (Dominc Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), cativos dos perversos orcs, são levados por eles até o traiçoeiro mago branco Saruman (o saudoso Christopher Lee) até serem interceptados no meio do caminho, levando os pequeninos a ficar sobre a guarda de Barbárvore, uma criatura conhecida como ‘ent’ –árvores ambulantes que representam um dos muitos assombros em efeitos visuais que o filme entrega.
E finalmente, na terceira linha, Aragorn, Legolas e Gimli, comprometidos na tentativa de resgatar Merry e Pippin, terminam por acabar deixando de lado essa missão para juntarem-se aos homens do reino de Rohan, cujo Rei Théoden (Bernard Hill, de “Titanic”) e seu povo se veem ameaçados de genocídio pela sanha de Saruman e sua horda de orcs, o que culmina na longa, violenta e arrebatadora Batalha do Abismo de Helm.
De modo geral, as inúmeras cenas novas que aparecem neste corte –e que se mostram intensas na sua primeira metade, praticamente desaparecem durante do clímax (prova do quão satisfeito Jackson ficou com o resultado) e voltam em um ou outro momento já no epílogo, pela primeira vez mostrando resultados não tão harmoniosos –reforçam as características shakesperianas deste capítulo da “Trilogia do Anel” em especial: Nos monólogos intensos do elenco, sobretudo, no núcleo que inclui os cavaleiros de Rohan, como o Rei Théoden, Eomer (Karl Urban), Eowin e Grima Língua de Cobra (Brad Dourif, de “Um Estranho No Ninho”); e também nas gratificantes cenas de flashback que ampliam a presença de Boromir (Sean Bean, magnífico) e agregam novas camadas ao personagem de seu irmão, Faramir (David Wenham, de “300”).
Tais considerações enfatizam o objetivo de Jackson e toda sua equipe em alcançar o mais alto nível cinematográfico e artístico possível, e ratificam o fato, já nítido e evidente na época do lançamento em cinema, destas produções estarem entre as grandes obras de cinema de todos os tempos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel Versão Estendida

Ainda no princípio da década de 2000, quando a trilogia de Peter Jackson tomou o mundo de assalto e marcou para sempre a história do cinema, surgiu um rumor de que a versão de três horas vista nos cinemas teria também um corte muito maior, com cenas inéditas que estendiam ainda mais o tempo de filme e traziam momentos suculentos que acrescentavam novas impressões ao grande filme do momento: “O Senhor dos Anéis” dominou a atenção de público e crítica pelos três anos seguintes.
A chamada versão estendida, quando por fim ficou ao alcance do público, trazia pequenos acréscimos em cenas já conhecidas, pedaços de diálogos que incrementavam a carga naturalmente literária do material e sequências inteiras, algumas bastante impressionantes, que terminaram de fora do corte conhecido.
No primeiro capítulo, “A Sociedade do Anel”, tais cenas não tardam a aparecer para quem acompanha do filme atento; embora a maneira mais correta de apreciá-lo seja mesmo pelo grande filme que ele é.
No mundo mágico e fantasioso criado pelo escritor J.R.R. Tolkien chamado Terra Média, os povos livres –homens, hobbits, magos, anões, elfos e outras criaturas fantásticas –se veem ameaçados por Sauron, cujo poder todos julgavam ter sido derrotado –numa cena espetacular mostrada no começo, e que já deixa bem claro as predisposições épicas do trabalho de Jackson.
Contudo, Sauron não está exatamente morto: Sua força vital se encontra ainda no Um Anel, fonte de seu poder e que, por meio de uma série de idas e vindas, acabou nas mãos do hobbit Bilbo Bolseiro (o saudoso Ian Holm), morador do bucólico Condado e tio do protagonista, Frodo Bolseiro (Elijah Wood) –é, por sinal, na sequência do Condado, que as primeiras cenas inéditas aparecem, como o momento em que Bilbo é visto escrevendo seu livro.
Em sua festa de aniversário, Bilbo despede-se de todos e, para resumir, deixa a guarda de seu anel (e de tudo que ele tem, na verdade) para Frodo.
Entretanto, o mago Gandalf, o Cinzento (Ian McKellen), tem suspeitas em relação ao tal anel –e à influência maléfica que ele nota ser despertada em Bilbo.
Ele descobre toda a verdade sobre a peça bem há tempo, quando os cavaleiros Nazgûl são despachados pelas forças das trevas para capturar Frodo e levar o anel.
Acompanhado de Sam (Sean Astin), Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), Frodo passa poucas e boas para chegar até Valfenda, local de morada do sábio elfo Elrond (Hugo Weaving) que monta um conselho secreto às pressas, composto por representantes dos povos livres da Terra Média, a fim de determinar que destino dar ao anel.
O próprio Gandalf, no entanto, sabe que só existe uma coisa a se fazer: Levar o anel até a longínqua e tenebrosa Mordor, onde foi forjado, portanto, único lugar onde pode ser destruído. E Gandalf sabe também que a pessoa destinada a realizar tal sacrifício é Frodo.
Assim quando ele parte –dando início à essa jornada fenomenal –seus companheiros são Gandalf, Sam, Merry e Pippin, além dos cavaleiros Aragorn (Viggo Mortensen) e Boromir (Sean Bean), o elfo Legolas (Orlando Bloom) e o anão Gimli (John Rhys-Davies).
Apesar da curiosidade, a Versão Estendida não deixa de ser o mesmo filme assombroso que chocou plateias do mundo com um nível improvável de qualidade. Ainda é possível perceber o que faz de “O Senhor dos Anéis” uma experiência cinematográfica inesquecível: Nunca antes (talvez, nem mesmo em “Star Wars”) uma produção de fantasia havia atingido padrões tão altos em seus quesitos técnicos e artísticos; sabia-se que os efeitos visuais seriam magníficos, mas não se esperava deles uma capacidade de modificar irreversivelmente a maneira de se fazer cinema; sabia-se que a paixão de Peter Jackson e sua equipe haveria de produzir algo singular, mas ninguém imaginava que o resultado seria uma obra de tal qualidade que até hoje, vinte anos depois, outros filmes penariam para igualar seu brilhantismo; e, finalmente, sabia-se que o material literário da obra de Tolkien (cultuado, referenciado e apreciado desde os anos 1950) tinha méritos narrativos que apareceriam na tela, mas o público não imaginava que, no tratamento de requinte ímpar dado à tudo, “O Senhor dos Anéis” seria algo tão antológico, marcante e inesquecível.
Neste primeiro filme, o efeito retumbante e ressonante que ele produz pode ser avaliado à partir de seu desfecho, quando seus personagens são colocados numa encruzilhada de caminhos paralelos que originam as duas estupendas continuações –um final que não finaliza coisa alguma, que proporcionou aos expectadores da época a mesma sensação (talvez até mais intensa) que a geração anterior teve ao ver o fim de “O Império Contra-Ataca” no cinema.
Que filme, senhoras e senhores, que filme!

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Cruzada


Embora seja encarado, na opulenta filmografia do diretor Ridley Scott, como uma obra menor, o épico “Cruzada” é um belo exemplo das amplas capacidades dele como realizador; é, também, um exemplo de como se construir um épico de maneira satisfatória: Sua narrativa é tensa, intensa, romântica, grandiosa, lírica e violenta. E razoavelmente pontuada por referências históricas pertinentes.
Seguindo o mesmo procedimento criativo adotado por ele e por seus roteiristas ao criar “Gladiador”, Scott se detêm sobre um momento notável da História Antiga –neste caso, a transição entre a segunda e a terceira Cruzada de Jerusalém –criando um roteiro hábil em pairar sobre os eventos fundamentais daquele momento, centralizando tudo isso em torno de um protagonista fictício –talvez, o único personagem que não é real na trama.
Esse personagem vem a ser Ballian de Ibelin (papel que Orlando Bloom agarra com unhas e dentes a fim de se livrar da imagem de Legolas em “O Senhor dos Anéis”), viúvo e renegado ferreiro francês na aldeia em que vive devido ao suicídio da esposa.
Ballian junta-se ao grupo de cavaleiros templários de seu recém-conhecido pai (Liam Neeson) que o conduz até Jerusalém, então um pólo de interesses religiosos e intrigas palacianas por conta da tomada dos árabes, o que pode ser breve, pois Saladino (o ótimo Ghassan Massoud), o líder militar dos muçulmanos espia a frágil trégua mantida a duras penas pelo leproso rei de Israel (Edward Norton, irreconhecível atrás de bandagens e maquiagem).
O possível sucessor do rei, Guy de Lousigniam (Marton Csokas), é um homem selvagem e hostil que anseia por uma guerra contra os muçulmanos. É essa oportunidade que Saladino espera para arremessar suas tropas sobre a cidade e retomar Jerusalém. Nessa cruzada, o papel de Ballian poderá ser fundamental.
Ainda que ocupe um ingrato lugar intermediário e transitório na filmografia de Ridley Scott (não atinge o auge qualitativo e artístico que ele demonstrou, em mais que uma vez, que é plenamente capaz de alcançar; mas, está longe de ser uma de suas obras inferiores), “Cruzada” é um épico belíssimo com magníficas e bem realizadas cenas de batalha, além de um notável e variado elenco; acima de tudo, uma demonstração da técnica sólida e admirável de um especialista no gênero.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tudo Acontece Em Elizabethtown

No filme que possibilitou ao ator Orlando Bloom um protagonismo que fosse além do celebrado Legolas de “O Senhor dos Anéis”, o diretor Cameron Crowe retoma temas caros à sua irregular (ora brilhante, ora claudicante) carreira: Estão aqui as lembranças dolorosas ainda que bem humoradas do passado ("Quase Famosos"), as cenas quase lisérgicas que representam o estado de espírito dos protagonistas ("Vanilla Sky"), a habilidade com a qual seu texto discorre realidade, romantismo e observação através dos relacionamentos (“Vida de Solteiro” e “Jerry Maguire-A Grande Virada”), e o emprego de emotiva função narrativa dado à música (“Digam O Quê Quiserem”).
Esses elementos enchem de estilo e de peculiaridade a história do jovem executivo (Orlando Bloom) que, após um negócio extremamente mal-sucedido, recebe um telefonema lhe avisando do falecimento do pai que há tempos não via. Ele desiste da tentativa de suicídio e resolve voltar para a insólita cidadezinha onde nasceu, Elizabethtown, a fim de participar de todas as cerimônias de despedida do pai falecido, e no processo, reencontrar lá uma coleção de figuras estranhas e diferentes que lhe resgatam uma certa nostalgia. Em algum momento de sua trajetória, ele conhecerá uma jovem aeromoça (Kirsten Dunst, de “Homem-Aranha”), que irá lhe abrir os olhos para outros e melhores aspectos da vida.
Depois de sua obra-prima, “Quase Famosos”, parece inerente ao cinema de Cameron Crowe a celebração de uma filosofia particular de vida onde os prazeres materiais da vida confortável, quando muito, são banalidades que tiram a atenção da real felicidade. Sob esse ponto de vista, ele moldou os roteiros de “Vanilla Sky” (que, apesar de baseado no filme “Abra Los Ojos”, de Alejandro Amenabar, ganhou de Crowe uma roupagem e uma abordagem toda própria) e do irregular “Compramos Um Zoológico”, onde se podia notar uma outra inclinação: Consagrado e com um Oscar de Melhor Roteiro Original debaixo do braço (conquistado por “Quase Famosos”), Crowe foi elevado à categoria de autor, e como tal, não tinha mais restrições em seus rompantes românticos –como aconteceu em “Quase Famosos” e “Jerry Maguire”, seus melhores trabalhos, talvez por conta desse equilíbrio.
Como é visível neste “Elizabethtown”, os delírios autorais de Crowe às vezes saem do controle para além da medida do que é suportável ao expectador, fazendo seu filme soar exagerado, açucarado e afetado –prova disso, o ponto baixo do filme, é o constrangedor discurso da mãe do protagonista (a bela Suzan Sarandon) durante o funeral do marido. Essas decisões tomadas sem uma rédea mais firme comprometem até mesmo a mais bonita seqüência do filme: Quando ao final, o personagem de Bloom faz uma espécie de tour, ao lado das cinzas do pai –um relacionamento que ele não soube fortalecer quando este era vivo –intercalada por uma infinidade de cenas que registram o íntimo informativo e emocional do personagem.
Teria sido um lindo filme se Crowe conseguisse conter um pouquinho mais a sua contagiante predisposição ao romantismo.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar

Há diversos méritos que sobrepõem este filme acima do anterior, “Navegando Em Águas Misteriosas”, em termos de qualidade: O roteiro que encontra meios até inventivos de relacionar sua trama à história contada nos três primeiros filmes da franquia; a mocinha com muito mais carisma e motivação vivida por Kaya Scodelario (na verdade, nesse detalhe este filme supera todos os demais!); e a duração, mais curta e enxuta (embora o filme ainda se estenda para além das duas horas de metragem).
Infelizmente, este filme também tem lá seus deméritos, oriundos principalmente dos trejeitos indissociáveis que a saga adquiriu desde seu início, e que se repetem com impressão deliberada neste quinto exemplar.
O Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp, cujo personagem perdeu um pouco do protagonismo devido aos abalos pessoais na carreira) agora é procurado por Henry Turner (Brenton Thwaites, de “Deuses doEgito”), rapaz determinado à quebrar a maldição que impede seu pai de regressar para terra firme e viver em família –sim, ele é filho de Will Turner (Orlando Bloom) transformado no capitão imortal do navio “Holandês Voador” ao final de “No Fim do Mundo”!
O único meio de quebrar a maldição (na verdade, de quebrar todas as maldições) é encontrando o Tridente de Poseidon –e é aí que torna-se necessário encontrar Jack Sparrow, ou melhor, sua bússola mágica com a qual é possível achar tal artefato.
Três personagens irão cruzar-se com eles no percurso de sua aventura: A jovem e bela Carina Smith (Kaya), dedicada estudiosa de astronomia (e sintomaticamente confundida com uma bruxa pelos numerosos ignorantes da época); o capitão Barbosa (Geoffrey Rush, com freqüência tão bom, ou melhor, que o próprio Johnny Depp em cena), que desde “AMaldição do Pérola Negra” vive uma relação de inimizade e aliança constante com Sparrow; e o fantasmagórico Capitão Salazar (o espanhol Javier Barden), o providencial vilão sobrenatural deste filme cuja origem é profundamente relacionada à do próprio Jack Sparrow –o qual, à propósito, ele anseia encontrar para concretizar sua vingança.
E ainda no terreno das participações luxuosas, temos uma breve (e consideravelmente aleatória) aparição de Paul McCartney como tio de Jack Sparrow, espelhando a participação especial (bem melhor) de Keith Richards em alguns dos filmes anteriores.
Os diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg (realizadores de “A Aventura de Kon-Tiki”, produção norueguesa indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012) buscam, portanto, uma sutil diferenciação de seu trabalho em relação ao de Gore Verbinski (diretor dos três primeiros) e de Rob Marshall (do quarto), no que são, em sua maior parte do tempo, mau sucedidos, esmagados pela convenção de fazer desta uma obra tão homogênea quanto as outras. Eles ocasionalmente introduzem novas e inventivas percepções acerca de uma aventura em alto-mar, traduzidas em enquadramentos inesperados, numa fluidez quase de desenho animado (mais perceptível na primeira metade, debilitada na segunda) e numa identidade visual peculiar em relação aos demais filmes, embora não consigam evitar nem o fato de que as mesmas repetições de premissa e artimanhas rocambolescas permanecem todas lá, nem a falta de traquejo deles próprios para conduzir o humor das cenas cômicas ou a falta de experiência para administrar o ritmo e a continuidade de uma superprodução.

No frigir dos ovos é um trabalho superior ao último filme, o mais fraco da série até então, mas está longe de ter frescor e o sabor de novidade dos três primeiros exemplares, uma tendência que infelizmente deve se tornar o principal calcanhar de Aquiles da franquia daqui para frente.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Piratas do Caribe - No Fim do Mundo

Continuação direta de "O Baú da Morte".
O terceiro filme de “Piratas do Caribe” herdava uma sucessão de exageros que foram escalando no segundo –e que ainda afetam os filmes novos: A cada novo filme, o diretor Gore Verbinski abandonava a atmosfera ligeiramente lúdica do primeiro, em prol de um turbilhão suntuoso e extravagante de efeitos visuais de ponta justificados com insistência pedante no roteiro. Não são elementos ruins, mas apenas aspectos que expõem o quanto uma história sofre ao ser ampliada além de sua necessidade.
O fato do primeiro “Piratas do Caribe” ter sido tão bem sucedido, de sua mistura entre humor, aventura e filme de pirata ter encontrado um filão comercial a ser explorado e, principalmente, do personagem Jack Sparrow ter caído nas graças do público, tornava quase obrigatório a realização de não uma, mas duas continuações (como se pôde constatar).
Os próprios roteiristas, Ted Elliot e Terry Rossio, admitiram que conceberam o primeiro filme para ser uma história fechada, com começo, meio e fim. A idéia de dar continuidade aos arcos narrativos dos personagens, estendê-los e, no processo, buscar aprofundar o que seria possível aprofundar (e tatear assim as bases para uma franquia duradoura de filmes) veio certamente depois, e alguns problemas inerentes a este detalhe chegam neste terceiro filme.
Já se registra certo cansaço na direção de Gore Verbinski (que pegou várias dicas de Peter Jackson, familiarizado com filmagens extensas de filmes gigantescos e interligados narrativamente, vide “O Senhor dos Anéis”), inclusive certo descontrole em suas escolhas que, entre outras coisas, levam este longa metragem a atingir a duração de três horas!
O quê começou como um entretenimento despretensioso e enxuto, foi ganhando características cada vez mais megalomaníacas.
De qualquer forma, ainda há como relevar toda essa gordura e se divertir com a trama que tem início logo após a estranha "morte" de Jack Sparrow (Johnny Depp que pira sozinho durante todo o primeiro terço de filme) ocorrida no clímax do filme anterior.
Will Turner e Elizabeth Swann (Orlando Bloom e Keira Knightley, ambos visivelmente desgastados) precisando resgatá-lo de uma espécie de limbo ao qual foi enviado e, para tanto, vão até Cingapura onde encontrarão o pirata Sao Feng (a requintada e aguardada presença de Chow Yun Fat, infelizmente breve demais), que lhes proporcionará meios de singrar essa viagem, capitaneados pelo ressuscitado capitão Barbosa (Geoffrey Rush, uma sentida ausência no filme anterior e que trava embates divertidíssimos com o personagem de Depp).
Há um motivo especialmente urgente para trazer Jack de volta: Os piratas estão sendo aniquilados pela união das forças do perverso Lord Cuttler Beckett (Tom Hollander, nada interessante) com o monstruoso Davy Jones (Bill Nigh, esse sim, bem legal!). Só a união dos Nove Lordes Piratas terá poder para pará-los, e Jack Sparrow é um deles!
Tantos personagens, tramas e sub-tramas (algumas francamente bastante desinteressantes) com o imperativo de serem encerradas a contendo neste capítulo final da primeira trilogia (pois, outros filmes se seguiram) afetam bastante o ritmo que Gore Verbinski impõe.
Tudo resulta cansativo, embora ainda sim seja um feito notável em vista da catástrofe que poderia ter sido: Pode-se perceber o pesadelo que foi organizar a logística de uma superprodução como esta só tentando acompanhar, como mero expectador leigo, a profusão alucinante e vertiginosa de detalhes que envolvem apenas a apoteótica batalha final, onde dois navios, ocupados pelos protagonistas, se atracam em alto-mar.
Depois deste trabalho, não só Verbinski abandonou a franquia, e outro cineasta entrou em seu lugar –foi Rob Marshall, de “Chicago” e “Memórias de Uma Gueixa” –como também foram aposentados os personagens de Keira Knightley e Orlando Bloom (e eles estavam mesmo ficando insuportáveis!). Os produtores resolveram ficar somente com o quê funcionava: O espírito irresistível e farsesco das aventuras de capa & espada, e o personagem deliciosamente dúbio e debochado de Johnny Depp, o capitão Jack Sparrow.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Piratas do Caribe - O Baú da Morte

Na aguardada continuação de “Piratas do Caribe-A Maldição do Pérola Negra”, o diretor Gore Verbinski decidiu rodar o segundo e o terceiro filmes simultaneamente, fazendo das duas produções, uma espécie de ‘grande saga’ nos moldes do que Peter Jackson realizou na trilogia “O Senhor dos Anéis” –cujo último episódio, “O Retorno do Rei”, disputou (e venceu) com “A Maldição do Pérola Negra” o Oscar de Melhores Efeitos Visuais.
Nesta nova aventura, o capitão Jack Sparrow (o sempre imprescindível Johnny Depp) se defronta com uma espécie de monstro do mar –Davy Jones, na movimentação, na voz e no gestual do ator Bill Nigh, uma proeza e tanto do departamento de efeitos visuais –que vem ao seu encalço reclamar uma antiga dívida: Foi ele quem concedeu a Jack a posse de seu estimado navio, o Pérola Negra, sob a condição de ele lhe ceder a própria alma quando chegasse a hora.
Igualmente atrás dele está o casal de noivos Elizabeth Swann (Keira Knightley) e Will Turner (Orlando Bloom), a fim de resolver uma série de problemas pendentes diretamente relacionados com o fato de terem ajudado Sparrow a escapar das autoridades no final do filme anterior. De olho em tudo, como uma sombra pavorosa está a Companhia das Índias Orientais –representada no traiçoeiro e vilanesco Lord Cuttler Beckett (Tom Hollander) –disposta a obter poder para varrer a existência dos piratas da face da terra.
Esta seqüência de "Piratas do Caribe" é, como poderia se esperar, uma profusão de efeitos especiais, em particular, àqueles que registram a pavorosa aparição do novo vilão da trama, o monstruoso Davy Jones, já a história é ainda mais rocambolesca, uma vez que faz parte dos objetivos comerciais do roteiro que o plot se estenda para além deste filme (que já ostenta uns nada imodestos cento e cinqüenta e um minutos de duração).
O destaque, contudo, continua sendo Johnny Depp e seu impagável Capitão Jack Sparrow, a despeito das presenças geralmente irregulares (e estelares!) de seu elenco: A irritante (ainda que bela) mocinha Keira Knightley; o insosso galã vivido por Orlando Bloom; o agora transformado em pirata (e de inexplicada importância à trama) Jack Davenport; os sub-aproveitados Stellan Skarsgard (no papel de pai de Will Turner) e Jonathan Pryce (como pai de Elizabeth); o nada carismático Tom Hollander; e a exótica e interessante Naomi Harris.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra

Uma genuína aventura a moda antiga que homenageia os filmes de piratas e capa & espada tão celebrados na época da Velha Hollywood.
O início do filme introduz, ainda em tenra idade, o casalzinho que será o par romântico (e supõe-se, protagonista) do filme –mas, curiosamente, eles são, mais tarde, deixados de lado em prol do grande personagem da produção, mas... estou me antecipando.
A jovem Elizabeth Swann, filha do governador de Porto Royal (breve presença de Jonathan Price), cresce em meio às embarcações que transitam pelo Caribe, então província da Inglaterra durante o século XIX, o auge da pirataria.
Numa noite impregnada de mau agouro, o navio de seu pai resgata um pequeno náufrago do mar, um jovem chamado Will Turner, portando um medalhão que indica ser ele filho de um pirata. Temendo pela vida do garoto (piratas eram enforcados sem perdão na época), Elizabeth esconde seu medalhão de todos.
Os anos passam. Elizabeth torna-se uma linda mulher (a bela inglesinha Keira Knightley, basicamente revelada neste filme) e Will Turner (Orlando Bloom, em alta por sua participação na trilogia “O Senhor dos Anéis”, como Legolas), adotado pelo ferreiro local, torna-se um hábil fabricante de espadas.
É quando chega a Porto Royal o pirata Jack Sparrow (Johnny Depp, naquele que é o grande personagem da produção, mencionado acima) buscando recuperar seu antigo navio tomado anos atrás pelo amotinado Capitão Barbosa (Geoffrey Rush, um perfeito e divertido contraponto à atuação de Depp).
Em meio à disputa que se desenha entre esses dois personagens está o jovem casal de apaixonados (o medalhão que Elizabeth guardou desde então, e que comprova a origem pirata de Will, é um artefato que os piratas desejam obter à todo o custo), assim como uma maldição que recaiu sobre a tripulação e que os transforma em esqueletos à luz do luar –e a única maneira de quebrar tal maldição está, entre outras coisas, em recuperar o medalhão.
A partir daí, seguem-se frenéticas e vertiginosas reviravoltas, proporcionadas em grande parte, pelo espírito ardilosamente vigarista de Jack Sparrow, além de diversas e sucessivas situações, por meio das quais o roteiro do filme continuamente aborda momentos-chaves do gênero pirataria: Devidamente justificadas na trama, haverá cenas em que os personagens andam na prancha (!); batalhas navais com direito à tiros de canhão; perseguições à moda antiga onde os personagens exibem dotes acrobáticos que remetem ao Burt Lancaster de “O Gavião e A Flecha”.
Não obstante essa pulsante homenagem ao gênero que busca pertencer, este “Piratas do Caribe” –o primeiro de uma série que até agora rendeu quatro longa-metragens (o quinto está por ser lançado este mesmo ano!) –se sustenta como filme e como passatempo de fato graças aos elementos que, por acaso, lhe guardam originalidade. Sendo assim, esta versão cinematográfica para um conhecido brinquedo dos parques temáticos da Disneyworld tinha tudo para resultar numa obra superficial e picareta, visto a natureza do projeto, porém, felizmente, o material caiu nas mãos de uma competente equipe, como o diretor Gore Verbinski (recém-saído de um surpreendente sucesso de público, o terror “O Chamado”), o produtor Jerry Buckenheimer (sempre uma garantia de produção esmerada) e um departamento inventivo e prodigioso de efeitos visuais (as seqüências em que os piratas se tornam esqueletos são de uma minúcia e criatividade que há tempos não se via em produções-pipoca), que juntos transformaram a premissa numa obra divertidíssima. Entretanto, nada seria o mesmo sem o ator Johnny Depp: Em suas mãos, o sarcástico e ambíguo protagonista, Capitão Jack Sparrow, ganha uma interpretação única e inspirada, valorizando por completo, e elevando a um patamar de requinte o que poderia ter sido um mero divertimento.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Falcão Negro Em Perigo

Sempre dispostos a querer vestir a carapuça de “xerifes do mundo”, os americanos são historicamente acostumados a se envolver em assuntos que dizem respeito à ONU.
Não é incomum haver atritos e conflitos, e não é incomum que alguns desses conflitos resultem em traumas que ganham registro perene em seu histórico bélico.
É em um desses casos que se baseia a trama de “Falcão Negro em Perigo” no qual, apesar de seus inegáveis méritos, o cinema americano parece uma vez mais servir à um exercício distorcido de patriotismo e exaltação deturpada de valores.
Ridley Scott conta com ênfase e primor técnico como um grupo de soldados de elite norte-americanos, as Forças Delta e Ranger, em uma missão da ONU na Somália devastada por uma guerra civil nos anos 1990 iniciaram uma arriscada operação que os colocou em meio ao caos urbano da cidade de Mogadício, ocupada por ferozes milícias locais. A missão tornou-se catastrófica quando um dos helicópteros de apoio, o Falcão Negro, foi derrubado na praça central, logo seguido por outro.
Nesse ponto, a sucessão de cenas de combate impostas por Scott, com uma noção primorosa e particular de ritmo, já é atordoante.
Indefesos e encurralados, os soldados precisaram ser resgatados pelas tropas remanescentes antes que virassem alvos de uma carnificina, prolongando uma batalha angustiante e sangrenta por cerca de 10 horas.
Como virou uma espécie de modismo naqueles anos subseqüentes, todo diretor que se aventurava a fazer um filme de guerra seguia, à risca e descaradamente, os passos de Steven Spielberg e seu antológico “Resgate do Soldado Ryan”, e com Ridley Scott não foi muito diferente, ainda que, sempre um magnífico diretor, ele encontrou nesta brutal e espetacular história real, uma forma de entregar um trabalho, também ele, dotado de brilho e autenticidade próprios.

Pode-se assim descrever “Falcão Negro em Perigo” como a meia hora inicial de "Resgate do Soldado Ryan" potencializada num filme de duas horas de duração.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Hobbit

Após o sucesso sem precedentes de crítica e bilheteria da Trilogia “Senhor dos Anéis”, no início da década de 2000, era inevitável que a atenção de Hollywood em geral, e dos produtores na franquia em particular, se voltassem para as outras obras de J.R.R. Tolkien, sobretudo para “O Hobbit”, um prelúdio literário para “O Senhor dos Anéis” com um tom ligeiramente mais leve, mais próximo de um conto infantil.
O diretor vencedor do Oscar (justamente por “O Retorno do Rei”) Peter Jackson, logo depois de dois projetos um pouco pessoais (a refilmagem de “King Kong”, sobre a qual já foi falado, e a adaptação de “Um Olhar do Paraíso”), resolveu se dedicar à roteirização e à produção dessa nova obra, deixando a direção inicialmente à cargo de Guilhermo Del Toro.
Mas o quê começou como o projeto de um único filme, não só tornou-se dois (e depois três!), como também consumiu um tempo longo de gestação, provocando o afastamento de Del Toro, e levando assim, Peter Jackson a assumir novamente a direção.
O quê nos leva, assim, ao primeiro filme desta Trilogia “Hobbit”, “Uma Jornada Inesperada”.

Voltamos à Terra Média, desta vez, cerca de sessenta anos antes dos eventos narrados nos outros filmes (o quê não impediu os roteiristas de usar alguns recursos para garantir a participação de Elijah Wood –o Frodo –e de outros membros do elenco de “Senhor dos Anéis”, como veremos mais adiante).
Junto de seu querido sobrinho Frodo, o hobbit Bilbo Bolseiro (no início, interpretado pelo mesmo Ian Holm, mas na juventude, interpretado magnificamente por Martin Freeman, o Watson da série inglesa “Sherlock”) relembra um marcante episódio de sua juventude, quando fora recrutado pelo mago Gandalf (Ian McKellen) –que mais tarde se tornaria seu grande amigo –ao lado de uma comitiva de anões, para uma empreitada rumo ao reino-anão de Erebor usurpado pelo dragão Smaug.
Pelo caminho, eles encontram perigos e toda a sorte de seres mágicos habitantes da Terra Média, bem como personagens que serão fundamentais no desenrolar da aventura a ser vivida futuramente pelo próprio Frodo. Como prelúdio da inesquecível trilogia cinematográfica assinada inclusive pelo mesmo Peter Jackson, era inevitável que “O Hobbit” despertasse interesse no público, o quê se refletiu na boa bilheteria.
Contudo, as platéias que foram conferi-lo no cinema não deixaram de notar que, embora sensacional e cheio de momentos de encher os olhos, este filme não era uma experiência à altura de "Senhor dos Anéis".
A saída de Guilhermo Del Toro removeu justamente o elemento que poderia trazer todo o frescor diferencial para este projeto.

Na continuação, "A Desolação de Smaug", reencontramos o grupo já muito próximo do reino de Erebor.
Bilbo acompanhado de Gandalf, bem como do outrora rei, Torin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) e toda sua comitiva de anões, chegam à Floresta das Trevas, reduto de um reino elfico protegido por um certo Legolas (Orlando Bloom, outra presença resgatada da trilogia anterior). Logo, essa jornada repleta de perigos os levará à esplendorosa Cidade do Lago e depois disso, ao reino-anão que um dia foi do pai de Torin, agora ocupado por uma fera cuja periculosidade o tornou uma lenda: o terrível dragão Smaug.
Jackson deu um ritmo mais dinâmico a este segundo filme, certamente numa reação às críticas não muito positivas dirigidas ao primeiro filme, considerado mais enrolado e disperso.
Todavia, o grande mal que acometeu essa nova trilogia –e que se torna particularmente explícito aqui –é de natureza prática: “O Senhor dos Anéis” era uma trilogia de livros convertida sabiamente numa trilogia de filmes. Já, “O Hobbit” era um único filme, com uma história até mais leve que o épico protagonizado por Frodo, a decisão de estendê-lo todo em uma nova trilogia –com cada capítulo ultrapassando, com margem, as duas horas de duração –exigiu que muito material adicional (e com freqüência, desnecessário) fosse feito, resultando numa produção que tenta desesperadamente replicar os valores admiráveis de produção da trilogia anterior, mas que parece ignorar o fato de que tudo o mais é “encheção de lingüiça”!

O último filme recebeu o pomposo (e estranhamente impróprio) título de “A Batalha dos Cinco Exércitos”.
O dragão Smaug escapa da fortaleza de Erebor (deixando suas riquezas para Torin e seus amigos), mas oferece uma ameaça sem precedentes aos moradores da Cidade do Lago. Depois, com o dragão morto e suas moradias destruídas, os habitantes irão recorrer ao restituído rei anão –auto intitulado “Rei Sob A Montanha” –para receberem algum abrigo.
Mas, Torin está com a febre do ouro e falta com sua palavra, o quê faz com que, às portas de Erebor se reúna um exército de homens e outro de elfos a fim de se opor ao contingente de anões, liderados por sua vez, por Dain Pé de Ferro.
Todos serão surpreendidos pelas forças de orcs que trairão e atacarão a todos.
O interesse do expectador é, portanto, bastante comprometido quando se chega neste terceiro e derradeiro filme, no qual o pecado cometido por Peter Jackson (o de estender seu prelúdio de “O Senhor dos Anéis” além do necessário) se torna mais visível: Personagens inteiros, concebidos exclusivamente para esta versão cinematográfica, como Tauriel (Evangeline Lilly) e sua intrigante relação com um dos anões, não encontram qualquer respaldo da narrativa quando chega a hora de juntar todas as pontas soltas, o quê termina por comprometer o protagonismo de Martin Freeman (que, como Bilbo, parece estar mais perdido que surdo em bingo!), e por conseqüência, o antagonismo do rei élfico Thranduil (Lee Pace) e até mesmo do dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbath).

O fiasco está longe de ser completo, mas ficou claro que nem mesmo a própria equipe original era capaz de reproduzir a magia que pulsava de “O Senhor dos Anéis”. 

terça-feira, 22 de março de 2016

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei

Terceira e última parte da Trilogia do Anel. Eis que chegou a hora de decidir o destino dos homens, a hora de descobrir qual desfecho terá a dolorosa e comovente campanha de Frodo e seu grande amigo Sam, em meio ao maior dos perigos na tentativa de destruir a peça que decidirá o rumo da maior batalha de seu tempo. Os muitos personagens urgidos na vasta imaginação do escritor J.R. Tolkien, as muitas tramas paralelas que os dois primorosos filmes anteriores trataram de construir convergem, todos para este daqui, e Peter Jackson coroa sua trilogia com o que inacreditavelmente parece ser seu melhor filme. Sua narrativa é de um brilho indescritível, colocando-o naquela seleta e complicada lista dos filmes tão perfeitos e memoráveis que fica difícil traçar um comentário válido acerca dele.
A realidade é que tudo o que diz respeito à “O Senhor dos Anéis” não encontra precedentes na história do cinema. “O Retorno do Rei” teve uma bilheteria monstruosa em seu lançamento (e até hoje figura entre as mais lucrativas de todos os tempos), no Oscar de 2003, ele igualou o recorde de 11 estatuetas, pertencente apenas à “Ben-Hur” e “Titanic”, e é até hoje (e provavelmente continuará sendo por muito tempo) a única ‘continuação nº 3’ a levar o Oscar de Melhor Filme.
Mas, falemos da obra propriamente dita: O modo como Jackson orquestra o final é algo de mestre. Ele não apenas demonstra controle insuspeito das cenas descomunais de batalha, mas também revela uma atenção aos detalhes íntimos que compõem seus personagens; um a um, cada um deles experimenta um momento específico de brilho, e olha que não são poucos. Jackson também faz um uso primordial do excelente poderia técnico de que dispõe, como a gloriosa fotografia, a trilha sonora acachapante, para não falar dos impressionantes efeitos especiais, cuja grande vedete é, certamente, o personagem Gollum, abrilhantado por uma interpretação de ‘captura de performance’ esplêndida, cortesia do ator Andy Serkis.
Em meio à tudo isso, Jackson encontra espaço para elaborar cenas marcantes e inesquecíveis em sua unidade. E são muitas: A canção entristecida de Pippin para o rei louco enquanto seu filho cavalga para a morte; a sequência espetacular dos faróis de Gondor; o tenso encontro de Frodo com a aranha gigante; a Batalha dos Campos do Pelenor, e a chegada dos olifantes; os finais múltiplos e emocionantes que vão dando um aperto no coração.
São tantos os momentos maravilhosos que não caberiam aqui: Na qualidade de uma das grandes experiências do cinema “O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei” é inesgotável.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres

A segunda parte da "trilogia do anel" chegou aos cinemas um ano depois da primeira, desta vez, com a missão de manter o extratosférico nível de qualidade mantido por "A Sociedade do Anel".
Em grande parte, ele atingiu seu objetivo: "As Duas Torres" é uma experiência cinematográfica poderosa, onde as três horas que se seguem são tão habilmente preenchidas por sequências memoráveis que não há, absolutamente, o quê falar dele.
Mas, há sim, o quê se falar...
Talvez, seja o fato de ser o capítulo do meio (e, por conseguinte, não ter um início e nem ter um fim), mas a narrativa, pela primeira e talvez única vez em toda a saga sofre uma ligeira pressão no segundo terço -e é sabido que, devido à decisão de jogar muitos dos acontecimentos pertinentes ao livro para o terceiro filme, os roteiristas Phillipa Boyens, Fran Walsh e o próprio Peter Jackson, tiveram que criar material original que preenchesse a duração e não deixasse este filme não destoante em relação aos dois outros.
Na verdade, era uma decisão antiga que afetou este filme do meio: Quando levou a ambiciosa proposta de adaptar "O Senhor dos Anéis" à produtora New Line, oito anos antes, a ideia de Jackson e sua turma era simplificar as coisas adaptando toda a trilogia em dois filmes. Foram os próprios produtores quem sugeriram manter o formato original de trilogia, obringando-os a rever os roteiros que já estavam prontos.
O resultado trouxe ligeira irregularidade à este "As Duas Torres", embora isso não importe em nada: Comparado com qualquer outro filme, este daqui permanece sendo uma das obras mais bem acabadas do cinema, o quê só confirma o quão elevado foi o padrão de qualidade adotado para a trilogia.
Na trama, acompanhamos agora várias narrativas paralelas a partir do destino dos personagens que vimos se desenhar no filme anterior: Frodo e Sam, cada vez mais embrenhados no território de Sauron precisam contar com a traiçoeira ajuda de Gollum para chegar ao seu destino, mas ele almeja o anel mais do que qualquer coisa; Aragorn, junto do elfo Legolas e do anão Gimli, encontram os cavaleiros do reino de Rohan, e também uma crescente ameaça ao reino dos homens -a Batalha do Abismo de Helm, assim sendo, se aproxima lentamente; enquanto isso, os hobbits Merry e Pipin se vêem numa tremenda enrascada envolvendo o centenário ent, Barbárvore.
Em meio à uma interminável sucessão de momentos sensacionais, destaca-se a atuação digital de Andy Serkis como Gollum: Nada menos que inovadora!

sábado, 30 de janeiro de 2016

O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel

 Existem alguns filmes dos quais demoro a falar. É porque não tenho bem certeza se minhas palavras farão jus a tudo que o filme significa para mim. 
Foi assim com “Casablanca”. Foi assim com “E O Vento Levou” e vários outros. É assim com “O Senhor dos Anéis”. 
Para os que não moram no planeta Terra (ou são imensamente desligados de assuntos de cinema), “A Sociedade do Anel” vem a ser a primeira parte dessa festejada trilogia. Lançado no natal de 2001, ele foi indicado à treze Oscars. 
Ganhou quatro, todos em categorias técnicas. Para variar, a Academia de Artes Cinematográficas perdeu mais uma vez uma preciosa chance de honrar uma obra brilhante, sem dúvida o melhor filme daquele ano. 
“O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” é um dos grandes filmes épicos do cinema com várias sequencias que ficam impressas na memória. 

Morador do Condado, a vila dos hobbits, o pequeno Frodo Bolseiro descobre que o destino lhe incumbiu de ser o portador do Um Anel, precioso e poderoso artefato, muito cobiçado pelo temido Sauron, o Senhor do Escuro, e suas hordas sinistras vindas de Mordor. Para destruí-lo, Frodo deve rumar para a Montanha da Perdição e com isso atravessar a extensa Terra-Média, e para protegê-lo dos perigos conta com um grupo de aliados e amigos constituído por representantes de todos os povos livres que o acompanharão: A assim chamada Sociedade do Anel.
Dirigido com perfeição pelo neo-zelandês Peter Jackson, na difícil junção de um filme de muitas facetas, técnicas e dramáticas, o resultado prima por uma excelência que poucas vezes se vê nas telas.