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domingo, 18 de setembro de 2022

Um Método Perigoso


 Em algum ponto dos anos 2000-2010, quando firmou uma bela parceria com o ator Viggo Mortensen, o diretor David Cronenberg iniciou uma bela fase onde seus filmes –análises antropológicas e implacáveis do instinto sobre a índole humana –adquiriram uma interessante aura de sutileza, elegância e classe. Predicados que a crítica não enxergou (ou não quis enxergar) em obras anteriores como “Gêmeos-Mórbida Semelhança” e “Mistérios e Paixões”.

Certamente, era uma proposta e tanto a deste “Um Método Perigoso” onde Cronenberg, com suas observações apuradas e de irrestrito pudor artístico, focaria suas lentes na relação entre Carl Jung e Sigmund Freud, o pai da psicanálise.

Foi uma surpresa para muitos –e talvez, uma frustração para seus apreciadores mais incondicionais –que o relato desse encontro tivesse ganhado um viés clássico, focado nas atuações e no diálogo, abrindo mão assim das mutações físicas e de irreprimível apelo visual que tanto fizeram a fama do diretor. Em “Um Método Perigoso”, Cronenberg está, mais do que nunca, interessado nas peculiaridades da mente; lá onde começam, afinal, todas as celeumas que a ele sempre importaram.

De uma maestria inconteste, Michael Fassbender é Carl Jung, jovem psiquiatra que inicia, na Suíça, o tratamento da jovem e perturbada Sabina Spielrein (Keira Knightley, dando vazão irreprimível a todos os histrionismos de Cronenberg) sob a atenta e irrefutável orientação de seu mentor Sigmund Freud (Viggo Mortensen, contido e magnífico), cuja constatação é de que todas as celeumas psíquicas humanas têm uma origem na relação embrionária do indivíduo com o sexo. Embora se sinta inclinado pela admiração à aceitar as instruções de Freud, Jung pensa diferente: Para ele, os sonhos têm muito mais a dizer em relação ao subconsciente da pessoa do que sua relação com a própria libido.

A medida que os anos passam, não apenas o relacionamento entre Carl Jung e Sabina Spielrein se modifica (ele, a despeito de ser casado, a transforma em sua amante), como também a relação entre Jung e Freud vai se submetendo a um rompimento gradual e irreversível a medida que as convicções de cada um e a forma distinta com que enxergam a psicanálise vai os afastando.

A proposta embutida nesta obra de Cronenberg é um tanto quanto inédita em toda a sua filmografia: Vislumbrar ou, em última instância, perceber, tatear, pela primeira vez, as profundezas insondáveis, deixando de lado o que se vê na superfície. Com efeito, as imagens, desta vez, pouco dizem a respeito da obra que o diretor deseja moldar. Em alguns momentos, nem mesmo aquilo que é dito e discutido. É nas compreensões implícitas –e na habilidade das atuações precisas e minimalistas assim orquestradas –que está o verdadeiro cerne ao qual Cronenberg quer chegar. Na contradição humana e incontornável de Jung e sua postura acadêmica –tentando confrontar as observações estabelecidas de seu mentor Freud com suas próprias e válidas concepções psicanalíticas –ao ceder, justamente ao sexo (o X da questão na opinião de Freud) que descobre fora do casamento com sua transtornada Sabina. Ao mesmo tempo, Cronenberg transforma Freud num personagem a um só tempo supino, presunçoso, egocêntrico e dissimulado, sem no entanto, negar a possibilidade dele ter lá suas razões. O único ponto fraco, e que ameaça comprometer terrivelmente a harmonia deste ambicioso projeto, é a inglesa Keira Knightley que, ao abraçar uma personagem radicalmente distante das mocinhas hollywoodianas que vinha fazendo, não traduz, numa atuação à altura, as mazelas impronunciáveis nem os recônditos poderosamente obscuros de sua personagem.

Dessa forma, o desenlace carnal com Jung surge mais como uma performance extraconjugal repleta de caras e bocas, e menos como o arremate de angústias primitivas que deveria ser. Tivesse Cronenberg contado com uma atriz capaz de verdadeiramente compreender as inquietações emocionais da personagem (como Naomi Watts, Jennifer JasonLeight ou Geneviéve Bujold) o resultado teria sido outro –da forma como está, é um trabalho que aponta um refinamento com o qual Cronenberg não aparenta estar de todo confortável.

sábado, 30 de julho de 2022

Procura-Se Um Amigo Para O Fim do Mundo


 O mundo está para acabar. A última tentativa de impedir um asteroide de varrer a vida na terra fracassou. Sendo assim, restam três semanas para o fim do mundo. Mas a vida de Dodge vai de mal a pior. Sua esposa o largou, e ele está mais solitário do que nunca. Surge, porém, em seu caminho a jovem Penny, a estranha e descolada vizinha do andar de baixo. Agora, juntos e dispostos a amparar as aflições um do outro, ambos talvez consigam encarar o fim.

Neste bastante estranho misto de comédia, drama, romance e ficção científica prejudicado por sua indecisão de tom e gênero, pouca coisa fica clara em relação às intenções de seu diretor: Sobre o que, no final das contas, ele queria falar? O par central (Steve Carrel, não tão engraçado como de hábito e a esforçada ainda que deslocada Keira Knightley) apesar de simpático não tem entrosamento nem química. Erro grave numa história que depende do carisma deles como casal para funcionar.

terça-feira, 5 de março de 2019

O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos

Os Estúdios Disney realizam um novo esforço na tentativa de relacionar mais um conto de fadas clássico ao seu nome no subconsciente imaginário do público. Dos pouquíssimos contos de fadas (talvez, o único) ainda não abordados por uma produção da Disney, “O Quebra-Nozes” é a inspiração da vez –ainda que ele tenha recebido inúmeras adaptações ao longo das décadas, seja em animação, seja em live-action (como “O Quebra-Nozes”, de Andrei Konchalovski).
Dirigido em conjunto por Lasse Halstrom e Joe Johnston, a produção (de fato, visivelmente elaborada do ponto de vista logístico) une a sensibilidade artística do primeiro (diretor dos ótimos “Minha Vida de Cachorro” e “Regras da Vida”) e a habilidade em trucagens digitais do segundo (diretor de “Capitão América-O Primeiro Vingador”).
É com uma exuberância visual típica dos Estúdios Disney que começa a história de Clara Stahlbaum (a encantadora Mackenzie Foy, de “Interestelar”), filha do meio de um melancólico viúvo (Matthew MacFadyen) ainda assolado pela perda.
Na véspera de Natal, Clara recebe um presente que teria sido encomendado por sua falecida mãe: Um mecanismo oval cujo funcionamento depende de uma misteriosa chave que nem seu padrinho (vivido por Morgan Freeman), o mentor de sua mãe na arte da invenção –aptidão que Clara herdou –parece conhecer.
Em meio às comemorações da Noite de Natal, Clara segue um fio dourado supondo que ele a levará até um mero presente –o fio dourado, porém, a transporta para outro mundo (!), e a conduz até a tão almejada chave.
Contudo, nesse mundo –um cenário fantástico que une cidades de avançada tecnologia retro-futurista e florestas sombrias –Clara tem sua chave roubada por um ratinho.
Junto de um soldado chamado Philip Hoffman (Jayden Fowora-Knight), que lembra o boneco quebra-nozes de seu irmão, ela descobre que lá existem quatro reinos unificados por sua mãe, considerada lá a rainha –e de cujo falecimento eles estão ignorantes.
Tais reinos são: O das Flores (cujo regente é interpretado por Eugenio Derbez); o dos Flocos de Neve (regente vivido por Richard E. Grant); o dos Doces (comandado pela Fada Sugar Plum, vivida por Keira Knightley); e o dos Ratos (cuja soberana, Mãe Ginger, vem a ser interpretada por Helen Mirren).
Clara descobre que esses reinos são habitados pelos brinquedos que sua mãe teve –e que, nesse mundo, ela encontrou uma tecnologia que lhes deu vida; a máquina que permitiu tal milagre está inanimada, e só voltará a funcionar por meio da mesma chave que Clara perdeu para um rato, pouco antes.
A chave que agora está com Mãe Ginger, o que leva Clara a tentar aventurar-se na soturna floresta do Reino dos Ratos ao lado de Philip Hoffman, e lá encontrar o fio da meada de uma verdadeira conspiração.
De beleza inquestionável, este “Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos” não poupa recursos para se revelar arrebatador –objetivo que alcança na maioria das vezes em que ele depende de seu aparato técnico; quando depende de aspectos mais circunstanciais, porém (como o roteiro), a produção descobre lá suas deficiências, sobretudo, no difícil manejo de elementos engessadamente eruditos inerentes ao conto original.
É até habitual (e ainda assim digno de nota e reconhecimento) que a Disney emprega a mais arrojada tecnologia para ilustrar e materializar um deslumbre inédito nas histórias de apelo infantil que narra: “O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos” é um inebriante exemplo desse propósito.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A Duquesa


A atriz Keira Knightley se tornou assídua em filmes de época, provavelmente devido ao positivo êxito de “Orgulho e Preconceito” –pelo qual ela até foi indicada ao Oscar.
Pois, aqui está ela de novo, contribuindo com seu carisma (inabalável), sua beleza (inconteste) e seu talento dramático (claudicante...) para mais uma produção desse gênero.
Keira é Georgiana, garota que, como muitas das jovens nos idos de 1774, foi negociada pela família em casamento. Mas, não um casamento comum –ela casou-se com a Majestade da Inglaterra, o Duque de Devonshire em pessoa (vivido com a perícia habitual por Ralph Fiennes).
Como de praxe, a função primordial de Georgiana é gerar um herdeiro homem para o Duque, o quê, nos anos que se seguem, não vem a acontecer: Georgiana dá à luz apenas a meninas.
As ocasionais escapadas extra-conjugais do Duque também não ajudam em nada à situação de Goergiana. É quando então ela encontra na aristocrata Bess Foster (Hayley Atwell, de “Capitão América”) a amizade e o apoio para superar seu dia-a-dia. Todavia, Bess torna-se, também ela, amante do rei –e, sendo mãe de três meninos negligenciados pelo pai, lhe toma boa parte da importância doméstica no palácio.
Na frustração da aridez afetiva que encontrou no casamento ou  na quase circunstância de aprisionamento que descobriu em sua condição de realeza, o filme do diretor Saul Dibb não disfarça a mais evidente de todas as analogias que quer estabelecer: Na dicotomia central em que observa Georgiana como uma aristocrata amada pelo povo (tratada inclusive como celebridade, tendo a capacidade de lançar moda entre seus súditos) e repudiada por sua classe (e especial o marido que dedica a ela –e a quase tudo o mais –uma indiferença lancinante), o paralelo com a trajetória e os percalços da Princesa Diana é mais do que claro.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Anna Karenina


Dentre as três colaborações entre o bom diretor Joe Wright e a esforçada atriz Keira Knightley, “Orgulho e Preconceito” é o mais apreciado; “Desejo e Reparação”, o mais contundente e “Anna Karenina”, certamente, o mais ambicioso.
Isso porque não apenas Wright lança mão dos recursos sempre mais vistosos proporcionados pela alta tecnologia e pela extravagância do cinema atual para conceber uma adaptação ainda mais visualmente arrebatadora do que outras que vieram antes (como o clássico estrelado por Greta Garbo), mas ele também o faz por meio de um truque de linguagem desafiador e arriscado.
Neste “Anna Karenina”, as paredes se transmutam, os cenários adquirem modificações a medida que, em diversas trocas de cena, observamos os figurantes entrarem no filme e mudarem o cenário –que ocasionalmente é flagrado em seus aspectos artificiais.
Wright conta que optou por esse estilo a fim de enfatizar a atmosfera de mudança que predominava no contexto histórico da trama, a Rússia de 1874.
Lembra uma peça de teatro na qual a proposta experimental é de que os meandros técnicos da encenação interfiram na própria impressão do público –nem sempre funciona...
Bela como sempre e num meio termo entre a apatia e a tentativa de soar dramaticamente relevante, Keira Knightley é Anna, cujo casamento com Alexei (Jude Law, fugindo do habitual papel do conquistador romântico), definido pela incompatibilidade dos arranjos convenientes, já não tinha lá muito fulgor, mas desanda de uma vez quando ela decide se envolver com o aristocrata Vronsky (Aaron Taylor-Johnson, de “Kick Ass”), um amante que lhe oferece a palpitação com a qual um dia ela sonhou dentro de seu casamento.
Todavia, a sociedade rigorosa a qual pertence cobrará de Anna um terrível preço por suas escolhas quando o segredo de sua afeição extraconjugal for descoberto.
Anna é uma daquelas personagens-chave da literatura que determina a tragédia de seu destino ao entregar-se à inconseqüência das emoções. No filme, contudo, não é isso que ela termina sendo: Wright observa os comportamentos com uma contenção maior e mais ambígua do que normalmente o faz, e com isso, seus personagens parecem distanciados do expectador por uma curiosa barreira de incredulidade –é deveras difícil crer num amor incondicional entre ela e Vronsky, pois Taylor-Johnson deixa evidente demais para o expectador sua displicência para que a própria protagonista, por mais relapsa que seja (e é isso que a narrativa por vezes a faz parecer), também não a note.
É uma armadilha comum em filmes que retratam uma situação de adultério: Oferecer uma abordagem equivocada de personagens antagônicos e, no processo, inverter o objetivo da mensagem. Embora também apático, Alexei não ganha o repudio do público a ponto de fazê-lo torcer por Anna. Isso tudo e as relações que se constroem entre os três protagonistas e o restante dos personagens (interpretados por um elenco notável) padecem de uma dificuldade encontrada na suspensão de crença justamente devido à escolha estética do diretor. O tempo todo, o cenário que se converte em estúdio lembra ao público o faz-de-conta da encenação ainda que ela seja feita com empenho e beleza.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mesmo Se Nada Der Certo

Após a bem-sucedida mescla de cinema, música e improvisação chamada “Apenas Uma Vez”, o diretor John Carney ganhou aval para uma produção mais elaborada com direito à astros do primeiro time de Hollywood: Além dos protagonistas, Mark Ruffalo e Keira Knightley, há James Corden, Catherine Keener, a talentosa Hailee Steinfield (a menina de “Bravura Indômita”) e ilustres pontas de Adam Levine e Cee Lo Green.
Todavia, o que John Carney fez, em melodia e intenção, foi algo muito parecido com seu trabalho anterior beneficiado desta vez de valores consistentes de produção o quê tira dele, para o bem ou para o mal, aquela crueza que “Apenas Uma Vez” tinha.
Dan já teve melhores dias como produtor musical, mas agora amarga a decadência profissional, a relação pouco amigável com a esposa (Catherine Keener) e o afastamento da filha (Hailee Steinfield), tudo isso levando-o ao cume do alcoolismo –e, de início, falta alguma exatidão na atuação improvisada de Mark Ruffalo, que vai melhorando pouco a pouco e se firmando no papel ao longo do filme. É um ponto de virada então quando ele se encontra com Gretta (Keira Knightley, buscando escolhas interessantes que a afastem dos papéis de mocinha do início de sua carreira), e nela descobre um daqueles talentos singulares e brutos que marcam a indústria musical.
Esse encontro, enunciado numa série de flashbacks, já dá uma idéia da sofisticação que o orçamento mais generoso propiciou ao diretor, assim como na belíssima cena em que Keira canta só em um barzinho e, na ótica do personagem Dan, é vista cercada por instrumentos de acompanhamento que tocam sozinhos.
Dan e Gretta –que também tem lá seu drama, tendo sido largada em Nova York pelo namorado (Adam Levine), e agora se vê meio sem rumo –decidem produzir um álbum de forma independente, sem gravadora ou estúdio de som, o quê significa gravar as músicas nas ruas com toda a cacofonia da cidade e os incidentes eventuais interferindo no resultado.
É mais uma vez, portanto, uma ode de John Carney à arte dos cantores de rua como havia sido em “Apenas Uma Vez”, e como ele tornou a fazer depois deste filme em “Sing Street”, todas obras onde ele usa a música como um intermediário no fluxo de emoções complicadas (como o amor) entre pessoas igualmente complicadas: Aqui, como em seus outros trabalhos, Dan e Gretta se entendem, se ajudam e se compreendem, e na inevitabilidade da lida com sentimentos à flor da pele que a música inspira, vêem então o amor florescer. Ainda assim, Carney, como em seu filme anterior, opta por não mergulhar nesse oceano: Em seus filmes o romance apenas imbrica timidamente por frestas diminutas que as escolhas narrativas do diretor (Dan é casado; Gretta tem lá suas pendências com o namorado; e a idade de ambos não é muito compatível) não permitem aflorar plena e escancaradamente –é uma opção que ele faz, mas é uma pena desperdiçar casal de química tão nítida e encantadora como Mark Ruffalo e Keira Knightley.

“Mesmo Se Nada Der Certo” é mais hollywoodiano, mais melindroso, mas Carney é feliz em usar os recursos que dispõe a mais para elaborar um belo filme.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Desejo e Reparação

Depois de uma maravilhosa adaptação de “Orgulho e Preconceito” –filme que considero superior a este –o diretor Joe Wright, junto de sua estrela inglesa Keira Knightley, aventurou-se no desembaraço de uma narrativa mais complexa, oriunda do livro algo desafiador de Ian McEwan –autor que escreveu o romance que resultou no também desafiador “O Jardim de Cimento”.
No caso deste “Desejo e Reparação”, as complicações recaem sobre as múltiplas ramificações que a noção de narrativa proporciona, quando afetadas pela distinção dos pontos de vista, pela insuficiência transformadora dos detalhes e, por fim, pelo arrependimento.
A menina Briony (interpretada com surpreendente expressividade e noção de cena pela jovem Saiorse Ronan), como toda jovem aspirante à escritora, tem uma percepção dramática e imaginativa dos fatos à sua volta. E, na mansão bucólica e aristocrata em que vive no início do século XX, os desenlaces mais dignos de atenção são aqueles que cercam o inquieto romance de sua irmã mais velha Cecilia (Keira Knightley) com Robbie (James McAvoy) um dos empregados da casa.
Munida de conclusões errôneas e deturpadas por aquilo que viu nos últimos dias de verão, Briony acaba condenando os sonhos de felicidade e amor de sua irmã e Robbie ao acusá-lo de um estupro.
Nos anos que se seguem, ela já crescida (e interpretada pela bela Romola Garai, que atuou com McAvoy no drama inglês “Os Melhores Dias de Nossas Vidas”) se dará conta do erro que cometeu, e tentará repará-lo trabalhando obstinadamente como enfermeira num hospital já em meio à Segunda Guerra Mundial. Para a angustiada Briony, o mal que acomete o mundo é menos um reflexo do conflito e mais uma conseqüência de tudo que ela fez e percebe ser irreparável: Mais velha, ela começa a compreender o terrível equívoco que cometeu, o quê levou à injustiça que separou o casal apaixonado.
No mesmo período de tempo, o próprio Robbie, lutando na mal-fadada frente de batalha em Dunkirk, busca se reencontrar com sua amada Cecilia. Há uma cena, breve e dolorosa, onde os três se reencontram e várias recriminações –sobretudo à Briony –são verbalizadas.
O filme de Wright salta então para o tempo presente, onde acompanhamos Briony na velhice (vivida pela grande Vanessa Redgrave), consagrada como escritora e prestando uma entrevista onde vários pontos pessoais são colocados em questão, e a estrutura construída para o roteiro do filme é assim decifrada, revelando as intervenções que a própria Briony e sua irreprimível vontade de mudar o passado operaram na triste história de Robbie e Cecilia.
O belo trabalho do diretor Joe Wright representa assim um passo a mais em termos de sofisticação como cineasta (e o reconhecimento disso foram as indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar que o filme recebeu), ainda que sua obra sofra de algum desequilíbrio dramático, resultando comiserativa. McAvoy e a bela Keira Knightley rendem bem em seus papéis e nas distintas versões em que eles são observados, mas as grandes performances são mesmo das atrizes que interpretam Briony em suas três fases: Saiorse Ronan, Romola Garai e Vanesssa Redgrave.

Por meio delas se vislumbra o objetivo moral da trama, uma dissertação dolorida e criteriosa sobre a expiação existencial presente na dicotomia entre memória, nostalgia e ficção.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar

Há diversos méritos que sobrepõem este filme acima do anterior, “Navegando Em Águas Misteriosas”, em termos de qualidade: O roteiro que encontra meios até inventivos de relacionar sua trama à história contada nos três primeiros filmes da franquia; a mocinha com muito mais carisma e motivação vivida por Kaya Scodelario (na verdade, nesse detalhe este filme supera todos os demais!); e a duração, mais curta e enxuta (embora o filme ainda se estenda para além das duas horas de metragem).
Infelizmente, este filme também tem lá seus deméritos, oriundos principalmente dos trejeitos indissociáveis que a saga adquiriu desde seu início, e que se repetem com impressão deliberada neste quinto exemplar.
O Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp, cujo personagem perdeu um pouco do protagonismo devido aos abalos pessoais na carreira) agora é procurado por Henry Turner (Brenton Thwaites, de “Deuses doEgito”), rapaz determinado à quebrar a maldição que impede seu pai de regressar para terra firme e viver em família –sim, ele é filho de Will Turner (Orlando Bloom) transformado no capitão imortal do navio “Holandês Voador” ao final de “No Fim do Mundo”!
O único meio de quebrar a maldição (na verdade, de quebrar todas as maldições) é encontrando o Tridente de Poseidon –e é aí que torna-se necessário encontrar Jack Sparrow, ou melhor, sua bússola mágica com a qual é possível achar tal artefato.
Três personagens irão cruzar-se com eles no percurso de sua aventura: A jovem e bela Carina Smith (Kaya), dedicada estudiosa de astronomia (e sintomaticamente confundida com uma bruxa pelos numerosos ignorantes da época); o capitão Barbosa (Geoffrey Rush, com freqüência tão bom, ou melhor, que o próprio Johnny Depp em cena), que desde “AMaldição do Pérola Negra” vive uma relação de inimizade e aliança constante com Sparrow; e o fantasmagórico Capitão Salazar (o espanhol Javier Barden), o providencial vilão sobrenatural deste filme cuja origem é profundamente relacionada à do próprio Jack Sparrow –o qual, à propósito, ele anseia encontrar para concretizar sua vingança.
E ainda no terreno das participações luxuosas, temos uma breve (e consideravelmente aleatória) aparição de Paul McCartney como tio de Jack Sparrow, espelhando a participação especial (bem melhor) de Keith Richards em alguns dos filmes anteriores.
Os diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg (realizadores de “A Aventura de Kon-Tiki”, produção norueguesa indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012) buscam, portanto, uma sutil diferenciação de seu trabalho em relação ao de Gore Verbinski (diretor dos três primeiros) e de Rob Marshall (do quarto), no que são, em sua maior parte do tempo, mau sucedidos, esmagados pela convenção de fazer desta uma obra tão homogênea quanto as outras. Eles ocasionalmente introduzem novas e inventivas percepções acerca de uma aventura em alto-mar, traduzidas em enquadramentos inesperados, numa fluidez quase de desenho animado (mais perceptível na primeira metade, debilitada na segunda) e numa identidade visual peculiar em relação aos demais filmes, embora não consigam evitar nem o fato de que as mesmas repetições de premissa e artimanhas rocambolescas permanecem todas lá, nem a falta de traquejo deles próprios para conduzir o humor das cenas cômicas ou a falta de experiência para administrar o ritmo e a continuidade de uma superprodução.

No frigir dos ovos é um trabalho superior ao último filme, o mais fraco da série até então, mas está longe de ter frescor e o sabor de novidade dos três primeiros exemplares, uma tendência que infelizmente deve se tornar o principal calcanhar de Aquiles da franquia daqui para frente.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Domino - A Caçadora de Recompensas

O grupo de realizadores reunido em torno de “Domino” é dos mais inusitados e curiosos: Além do falecido diretor Tony Scott –cuja eclética carreira reúne filmes de vampiro (“Fome de Viver”), aventuras oitentistas clássicas (“Top Gun”) e infindáveis colaborações com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança”, “De Já Vu”, “Incontrolável” e outros) –temos também, o roteirista Richard Kelly, autor e diretor de “Donnie Darko”, um dos mais desafiadores filmes dos anos 2000, e a inquieta inglesinha Keira Knightley, atriz que, apesar da aparência bela e delicada, se identifica bastante com a personagem real Domino Harvey, filha do ator Lawrence Harvey; e que, à propósito, faleceu em meio às filmagnes desta produção.
Filha de uma celebridade, Domino estudou nos melhores colégios e teve a melhor educação que uma menina de classe alta poderia receber. Contudo, isso não deteve seu espírito rebelde que fez com que ela fosse expulsa de todas as escolas por onde passou. Quando já tinha idade adulta, Domino encontrou, por acaso, a única atividade para a qual sentia-se perfeita: A de caçadora de recompensas! Ao lado de sua equipe, o experiente e calejado Ed (Mickey Rourke), e o temperamental Choco (Edgar Ramirez), ela se tornou uma lenda entre os profissionais do ramo.
Por meio de flashbacks, inserções narrativas, momentos de delírio, cenas justapostas de efeito irônico e inúmeros outros recursos usados por Scott (num de seus filmes mais desiguais), enxergamos toda essa trajetória sob o prisma de uma de suas missões mais arriscadas e mirabolantes: A captura de um fugitivo legal que, graças à ramificações que se estenderam a uma dezena de personagens envolvidos, terminou num explosivo banho de sangue numa das torres mais altas de Las Vegas, de propriedade de um mafioso.
Esquia, ainda que um bocado sensual e bela, Keira Knightley se entrega com garra ao papel de Domino, que exige dela, inclusive breves cenas eróticas –no que parece ser um esforço para afastar-se dos papéis de mocinha com o qual iniciou seu estrelato, como em “Piratas do Caribe” e “Orgulho e Preconceito”.
Não obstante sua base numa história real, este filme toma uma quantidade tal de ‘liberdades poéticas’ que o resultado termina sendo uma aventura quase descerebrada, ocasionada por francos absurdos, reviravoltas deliberadamente dramáticas e acarinhada por lampejos de realidade.
Devido, em grande parte à natureza audaciosa da equipe aqui reunida, o filme do diretor Tony Scott não parece querer ser uma biografia no sentido convencional do termo e o roteiro fragmentado de Kelly (sem dúvida mais contido que em "Donnie Darko", mas ainda assim cheio de elementos absurdos e de desordem narrativa) por vezes brinca com o realismo (ou falta de) da sua história.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Piratas do Caribe - No Fim do Mundo

Continuação direta de "O Baú da Morte".
O terceiro filme de “Piratas do Caribe” herdava uma sucessão de exageros que foram escalando no segundo –e que ainda afetam os filmes novos: A cada novo filme, o diretor Gore Verbinski abandonava a atmosfera ligeiramente lúdica do primeiro, em prol de um turbilhão suntuoso e extravagante de efeitos visuais de ponta justificados com insistência pedante no roteiro. Não são elementos ruins, mas apenas aspectos que expõem o quanto uma história sofre ao ser ampliada além de sua necessidade.
O fato do primeiro “Piratas do Caribe” ter sido tão bem sucedido, de sua mistura entre humor, aventura e filme de pirata ter encontrado um filão comercial a ser explorado e, principalmente, do personagem Jack Sparrow ter caído nas graças do público, tornava quase obrigatório a realização de não uma, mas duas continuações (como se pôde constatar).
Os próprios roteiristas, Ted Elliot e Terry Rossio, admitiram que conceberam o primeiro filme para ser uma história fechada, com começo, meio e fim. A idéia de dar continuidade aos arcos narrativos dos personagens, estendê-los e, no processo, buscar aprofundar o que seria possível aprofundar (e tatear assim as bases para uma franquia duradoura de filmes) veio certamente depois, e alguns problemas inerentes a este detalhe chegam neste terceiro filme.
Já se registra certo cansaço na direção de Gore Verbinski (que pegou várias dicas de Peter Jackson, familiarizado com filmagens extensas de filmes gigantescos e interligados narrativamente, vide “O Senhor dos Anéis”), inclusive certo descontrole em suas escolhas que, entre outras coisas, levam este longa metragem a atingir a duração de três horas!
O quê começou como um entretenimento despretensioso e enxuto, foi ganhando características cada vez mais megalomaníacas.
De qualquer forma, ainda há como relevar toda essa gordura e se divertir com a trama que tem início logo após a estranha "morte" de Jack Sparrow (Johnny Depp que pira sozinho durante todo o primeiro terço de filme) ocorrida no clímax do filme anterior.
Will Turner e Elizabeth Swann (Orlando Bloom e Keira Knightley, ambos visivelmente desgastados) precisando resgatá-lo de uma espécie de limbo ao qual foi enviado e, para tanto, vão até Cingapura onde encontrarão o pirata Sao Feng (a requintada e aguardada presença de Chow Yun Fat, infelizmente breve demais), que lhes proporcionará meios de singrar essa viagem, capitaneados pelo ressuscitado capitão Barbosa (Geoffrey Rush, uma sentida ausência no filme anterior e que trava embates divertidíssimos com o personagem de Depp).
Há um motivo especialmente urgente para trazer Jack de volta: Os piratas estão sendo aniquilados pela união das forças do perverso Lord Cuttler Beckett (Tom Hollander, nada interessante) com o monstruoso Davy Jones (Bill Nigh, esse sim, bem legal!). Só a união dos Nove Lordes Piratas terá poder para pará-los, e Jack Sparrow é um deles!
Tantos personagens, tramas e sub-tramas (algumas francamente bastante desinteressantes) com o imperativo de serem encerradas a contendo neste capítulo final da primeira trilogia (pois, outros filmes se seguiram) afetam bastante o ritmo que Gore Verbinski impõe.
Tudo resulta cansativo, embora ainda sim seja um feito notável em vista da catástrofe que poderia ter sido: Pode-se perceber o pesadelo que foi organizar a logística de uma superprodução como esta só tentando acompanhar, como mero expectador leigo, a profusão alucinante e vertiginosa de detalhes que envolvem apenas a apoteótica batalha final, onde dois navios, ocupados pelos protagonistas, se atracam em alto-mar.
Depois deste trabalho, não só Verbinski abandonou a franquia, e outro cineasta entrou em seu lugar –foi Rob Marshall, de “Chicago” e “Memórias de Uma Gueixa” –como também foram aposentados os personagens de Keira Knightley e Orlando Bloom (e eles estavam mesmo ficando insuportáveis!). Os produtores resolveram ficar somente com o quê funcionava: O espírito irresistível e farsesco das aventuras de capa & espada, e o personagem deliciosamente dúbio e debochado de Johnny Depp, o capitão Jack Sparrow.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Piratas do Caribe - O Baú da Morte

Na aguardada continuação de “Piratas do Caribe-A Maldição do Pérola Negra”, o diretor Gore Verbinski decidiu rodar o segundo e o terceiro filmes simultaneamente, fazendo das duas produções, uma espécie de ‘grande saga’ nos moldes do que Peter Jackson realizou na trilogia “O Senhor dos Anéis” –cujo último episódio, “O Retorno do Rei”, disputou (e venceu) com “A Maldição do Pérola Negra” o Oscar de Melhores Efeitos Visuais.
Nesta nova aventura, o capitão Jack Sparrow (o sempre imprescindível Johnny Depp) se defronta com uma espécie de monstro do mar –Davy Jones, na movimentação, na voz e no gestual do ator Bill Nigh, uma proeza e tanto do departamento de efeitos visuais –que vem ao seu encalço reclamar uma antiga dívida: Foi ele quem concedeu a Jack a posse de seu estimado navio, o Pérola Negra, sob a condição de ele lhe ceder a própria alma quando chegasse a hora.
Igualmente atrás dele está o casal de noivos Elizabeth Swann (Keira Knightley) e Will Turner (Orlando Bloom), a fim de resolver uma série de problemas pendentes diretamente relacionados com o fato de terem ajudado Sparrow a escapar das autoridades no final do filme anterior. De olho em tudo, como uma sombra pavorosa está a Companhia das Índias Orientais –representada no traiçoeiro e vilanesco Lord Cuttler Beckett (Tom Hollander) –disposta a obter poder para varrer a existência dos piratas da face da terra.
Esta seqüência de "Piratas do Caribe" é, como poderia se esperar, uma profusão de efeitos especiais, em particular, àqueles que registram a pavorosa aparição do novo vilão da trama, o monstruoso Davy Jones, já a história é ainda mais rocambolesca, uma vez que faz parte dos objetivos comerciais do roteiro que o plot se estenda para além deste filme (que já ostenta uns nada imodestos cento e cinqüenta e um minutos de duração).
O destaque, contudo, continua sendo Johnny Depp e seu impagável Capitão Jack Sparrow, a despeito das presenças geralmente irregulares (e estelares!) de seu elenco: A irritante (ainda que bela) mocinha Keira Knightley; o insosso galã vivido por Orlando Bloom; o agora transformado em pirata (e de inexplicada importância à trama) Jack Davenport; os sub-aproveitados Stellan Skarsgard (no papel de pai de Will Turner) e Jonathan Pryce (como pai de Elizabeth); o nada carismático Tom Hollander; e a exótica e interessante Naomi Harris.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra

Uma genuína aventura a moda antiga que homenageia os filmes de piratas e capa & espada tão celebrados na época da Velha Hollywood.
O início do filme introduz, ainda em tenra idade, o casalzinho que será o par romântico (e supõe-se, protagonista) do filme –mas, curiosamente, eles são, mais tarde, deixados de lado em prol do grande personagem da produção, mas... estou me antecipando.
A jovem Elizabeth Swann, filha do governador de Porto Royal (breve presença de Jonathan Price), cresce em meio às embarcações que transitam pelo Caribe, então província da Inglaterra durante o século XIX, o auge da pirataria.
Numa noite impregnada de mau agouro, o navio de seu pai resgata um pequeno náufrago do mar, um jovem chamado Will Turner, portando um medalhão que indica ser ele filho de um pirata. Temendo pela vida do garoto (piratas eram enforcados sem perdão na época), Elizabeth esconde seu medalhão de todos.
Os anos passam. Elizabeth torna-se uma linda mulher (a bela inglesinha Keira Knightley, basicamente revelada neste filme) e Will Turner (Orlando Bloom, em alta por sua participação na trilogia “O Senhor dos Anéis”, como Legolas), adotado pelo ferreiro local, torna-se um hábil fabricante de espadas.
É quando chega a Porto Royal o pirata Jack Sparrow (Johnny Depp, naquele que é o grande personagem da produção, mencionado acima) buscando recuperar seu antigo navio tomado anos atrás pelo amotinado Capitão Barbosa (Geoffrey Rush, um perfeito e divertido contraponto à atuação de Depp).
Em meio à disputa que se desenha entre esses dois personagens está o jovem casal de apaixonados (o medalhão que Elizabeth guardou desde então, e que comprova a origem pirata de Will, é um artefato que os piratas desejam obter à todo o custo), assim como uma maldição que recaiu sobre a tripulação e que os transforma em esqueletos à luz do luar –e a única maneira de quebrar tal maldição está, entre outras coisas, em recuperar o medalhão.
A partir daí, seguem-se frenéticas e vertiginosas reviravoltas, proporcionadas em grande parte, pelo espírito ardilosamente vigarista de Jack Sparrow, além de diversas e sucessivas situações, por meio das quais o roteiro do filme continuamente aborda momentos-chaves do gênero pirataria: Devidamente justificadas na trama, haverá cenas em que os personagens andam na prancha (!); batalhas navais com direito à tiros de canhão; perseguições à moda antiga onde os personagens exibem dotes acrobáticos que remetem ao Burt Lancaster de “O Gavião e A Flecha”.
Não obstante essa pulsante homenagem ao gênero que busca pertencer, este “Piratas do Caribe” –o primeiro de uma série que até agora rendeu quatro longa-metragens (o quinto está por ser lançado este mesmo ano!) –se sustenta como filme e como passatempo de fato graças aos elementos que, por acaso, lhe guardam originalidade. Sendo assim, esta versão cinematográfica para um conhecido brinquedo dos parques temáticos da Disneyworld tinha tudo para resultar numa obra superficial e picareta, visto a natureza do projeto, porém, felizmente, o material caiu nas mãos de uma competente equipe, como o diretor Gore Verbinski (recém-saído de um surpreendente sucesso de público, o terror “O Chamado”), o produtor Jerry Buckenheimer (sempre uma garantia de produção esmerada) e um departamento inventivo e prodigioso de efeitos visuais (as seqüências em que os piratas se tornam esqueletos são de uma minúcia e criatividade que há tempos não se via em produções-pipoca), que juntos transformaram a premissa numa obra divertidíssima. Entretanto, nada seria o mesmo sem o ator Johnny Depp: Em suas mãos, o sarcástico e ambíguo protagonista, Capitão Jack Sparrow, ganha uma interpretação única e inspirada, valorizando por completo, e elevando a um patamar de requinte o que poderia ter sido um mero divertimento.

sábado, 21 de novembro de 2015

O Jogo da Imitação

É incrível como histórias reais das mais fascinantes surgem com o tempo, quando muitas delas deixam de ter o sigilo que antes era mantido pelos mais diferentes motivos: Caso do surpreendente "Argo" cuja epopéia veio a público a pouco mais de uma década para transformar-se então no Vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2012.
"O Jogo da Imitação" é, por inúmeras e variadas razões, ainda mais surpreendente.
Conta a história de Alan Turing, uma espécie de gênio que (como muitas vez o cinema insiste em retratar) revela-se anti-social, difícil, arrogante até, incapaz de compreender o quê, para ele, parece ser a lentidão de raciocínio de seus pares (e na atuação ponderada e sempre metódica de Benedict Cumberbath, essas características são todas verdadeiras, acompanhadas de indissociáveis reflexos humanos como o medo, a vergonha e a vulnerabilidade). Durante a Segunda Guerra Mundial, Turing é chamado para compor uma equipe ultra-secreta a fim de decifrar, para o governo britânico, as mensagens da máquina Enigma, que serve de comunicação para os nazistas, e cuja elucidação será fundamental para o desfecho da guerra.
Os resultados dele e de sua equipe avançam de forma frustrante, até que Turing chega a uma conclusão que, para ele, mostrava-se inevitável: Seria impossível, para o cérebro humano, calcular as milhares de combinações cifradas que poderiam levar à tradução das mensagens; somente uma máquina, é capaz de interpretar  as variações criptográficas infindáveis de outra máquina.
Contra a opinião de muitos de seus colegas, Turing inicia a construção de um maquinário, cuja montagem e características de processamento de informação remetem à complexidade do cérebro humano, mas com um alcance técnico e logístico que ser humano algum jamais seria capaz - surge então os primeiros esboços do que viriam a ser os computadores.
O fato de Alan Turing ser, até então, pouco conhecido se dá devido ao seu triste fim. Após a guerra, com a missão de decifrar a Enigma concluída, ele voltou a uma rotina convencional, porém, um assalto ocorrido em sua casa fez com que a polícia levantasse suspeitas sobre ele, e começasse investigações acerca dos temores daqueles novos tempos: Não mais o inimigos nazistas, mas desta vez, espiões soviéticos infiltrados.
Acabaram descobrindo, porém, que Turing era homossexual, o quê levou-o a um julgamento por obscenidade (comum na Inglaterra, naquela época) e a uma sentença judicial que obrigou-o a uma castração química, cujos efeitos colaterais ele tentou combater até, por fim, suicidar-se.
Filmado com abrangente elegância, o filme, dirigido pelo sueco Mortem Tyldum, é um apanhado inteligente, objetivo e fundamental de uma história desconhecido a Segunda Grande Guerra que merecia um lugar de destaque no cinema.
E  o modo com que é encenada na tela é, em todos os níveis, de uma superlativa fascinação. As guerras, afinal, são compostas por feitos extraordinários de pessoas desiguais, como Alan Turing, cuja visão e intelecto vêem a determinar os rumos do mundo como o conhecemos.

domingo, 18 de outubro de 2015

Orgulho e Preconceito

No século XIX, as moças da Família Bennet, como toda moça da sociedade inglesa, estão a procura de um bom casamento, e ninguém está mais dedicado a isso que sua mãe, a Sra. Bennet. Entretanto, mais velha delas, Elizabeth (Keira Knightley, adorável), está consciente de que seu temperamento e sua personalidade dificilmente permitirão que se case.
Por isso talvez, Elizabeth é a única que não se empolga com a chegada de um ricaço, e de seu igualmente rico amigo Sr. Darcy (Matthew MacFadyen, de uma excelência à toda prova). 
Inicialmente agressivo, o relacionamento entre os dois se define por uma irreprimível vontade de implicar com o outro, mas aos poucos novos e reais sentimentos vão se revelando. 
Charmosa e graciosa adaptação de Jane Austen, ótimo trabalho do diretor Joe Wright que, com inventividade e descontração, fala muito bem às plateias de hoje, qualidades refletidas na boa atuação da bela Keira Knightley.