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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Eccho Valley


Com o apelo de trazer duas belas e talentosas atrizes de diferentes gerações, "Eccho Valley" se sustenta com um roteiro tensos, equilibrado entre revelações bombásticas, amparado no trabalho de um elenco ora funcional, ora básico que, na medida do possível, entrega um filme válido ao expectador que souber conter suas expectativas.

Julianne Moore é Kate Garrett, personagem às voltas com um cotidiano amargo, a sair de um período depressivo –não muito tempo atrás, ela perdeu a companheira, alguém por quem abandonou o casamento com Richard (Kyle McLachlan). O fruto de tal casamento é a jovem Claire (Sydney Sweeney, jovem estrela em ascensão, num papel que aparenta ser protagonista, mas que se revela quase uma coadjuvante), garota problemática, envolvida com drogas e companhias nada confiáveis.

Enquanto passa seus dias na fazenda de cavalos Eccho Valey, localizada no sul da Pensilvânia, dando aulas de equitação, e mantida financeiramente por Richard com cada vez mais relutância, Kate testemunha Claire ir e vir de sua vida sem maiores explicações. Quando Claire precisa de dinheiro ela aparece. Quando precisa de um celular novo, ou de qualquer outra coisa também; na sequência, ela retorna para a vida desregrada de sempre.

Numa dessas ocasiões, ela é seguida por Ryan (Edmund Donovan), seu namorado traficante, e por Jackie (Doomhall Gleeson), o perigoso fornecedor de drogas dele.

Embora os problemas, juntos desses personagens, sinalizem à distância com sua chegada, para o público, e até mesmo para a própria Kate, ela não evita sua aproximação –porque Claire é sua filha, e o fato de amá-la a torna conivente para com todos os seus lapsos.

As coisas começam a se complicar de verdade quando Claire aparece numa noite completamente abalada, afirmando ter matado Ryan acidentalmente –e deixado seu cadáver envolto em plástico dentro do carro!

O diretor Michael Pearce consegue construir um clima de tensão relativamente satisfatório e intenso durante toda a duração do filme, sua grande conquista é manter o público alheio às pontuais guinadas narrativas que começam a se suceder na segunda metade (algumas delas, muito bem-vindas), todavia, “Eccho Valley” está anos-luz de ser uma obra perfeita: Embora conte com intérpretes funcionais e competentes na maior parte do tempo (além dos já citados, temos também Fiona Shaw, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”, num papel fundamental), os personagens são construídos com um rigor que lhe drena todo o magnetismo, levando o expectador, na maior parte das situações esboçadas, a irritar-se com suas falhas, os exemplos mais usuais e frequentes são, claro, as protagonistas, a mãe conivente, muitas vezes omissa e repetidamente passiva de Julianne Moore, e a filha problemática, dissimulada, manipuladora e vitimista de Sydney Sweeney –o carisma e o encanto natural das duas atrizes por muito pouco sobrevive à essa dura prova de fogo!

quinta-feira, 29 de maio de 2025

A Fonte da Juventude


 Diretor peculiar e prolífico, Guy Ritchie já adentrou quase todos os gêneros desde que iniciou sua carreira com o cultuado “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”; e o mais impressionante é que ele mantém um ritmo de praticamente um filme por ano. Seria algo normal se fossem filmes ao estilo de Woody Allen (embora também nisso haja mérito), intimistas, dialogados e em baixa voltagem, no entanto, os filmes de Ritchie são cheios de energia, dinâmicos, atrevidos para com a narrativa e inconformistas para com a técnica cinematográfica.

“A Fonte da Juventude”, como tantos antes dele, vale-se da influência quintessencial de “Os Caçadores da Arca Perdida” em particular, e das aventuras de Indiana Jones em geral, para trazer uma produção elaborada em suas cenas de ação aventurescas e intrincada nas investigações arqueológicas que a norteiam. O casal de irmãos, Luke (John Krasinski, diretor e ator de “Um Lugar Silencioso”) e Charlotte Purdue (Natalie Portman) tem maneiras diferentes de honrar o legado do pai, um lendário caçador de relíquias: Enquanto Charlotte trabalha na curadoria de um museu de antiguidades –acomodação que lhe permite levar uma vida doméstica, mas não privada de aborrecimentos (como atesta seu iminente divórcio) –Luke viaja ao redor do mundo envolvendo-se em encrencas arriscadas para pôr a mão em tesouros inestimáveis em nome da História e da Ciência. O caminho dos dois se cruza quando o milionário Owen Carver (Doomnhall Gleeson) contrata Luke, sob a condição de ter também o gênio dedutivo de sua irmã, para encontrar a mítica fonte da juventude: Owen padece de câncer e a fonte, ele supõe, deve conter as propriedades curativas que haverão de salvá-lo. E Owen tem dinheiro de sobra pra financiar a empreitada com toda a sorte de bugiganga tecnológica à disposição.

E aí entra, nesse diferencial estilístico, outra característica que visa afastar um pouco a obra de Guy Ritchie da comparação um tanto constrangedora com a obra-prima de Steven Spielberg: Em “A Fonte da Juventude”, o fato da trama se situar no tempo presente está visível em cada detalhe, sobretudo, no vasto aparato digital do qual os protagonistas e seus genéricos coadjuvantes lançam mão para decifrar a quase indecifrável trilha de pistas dispostas ao redor do mundo, nas mais diversas preciosidades históricas, que levarão à dita fonte da juventude. E isso, consequentemente, aproxima o filme de “O Código Da Vinci” no desenrolar quase inverossímil de pistas absurdamente eruditas e elaboradas que se sucedem –inclusive, Luke, o protagonista vivido por John Krasinski tem, sim, muito de Indiana Jones (o desembaraço quase sobrehumano nas cenas de ação e –vá lá –o carisma do ator), mas tem muito de Robert Langdom também (o vasto conhecimento acadêmico em simbologias e relíquias antigas que convenientemente vem sempre a calhar).

Em algum momento, a fim de tornar mais interessante e conflituoso esse caminho, surge um grupo de mercenários instruídos a impedir qualquer avanço de investigadores ocasionais na aproximação da fonte da juventude, esses mercenários são liderados pela habilidosa Esme (Eiza González, de “Em Ritmo de Fuga”) que, ao longo das idas e vindas e dos percalços nada tranquilos de seu embate com Luke, vai estabelecendo com ele uma relação algo ambígua –e que já se vê posicionada para ser melhor desenvolvida nas potencialmente vindouras continuações do filme.

“A Fonte da Juventude” traz elementos de sobra para agradar aqueles que não se incomodarem tanto com sua falta de originalidade: Do início ao fim, vem adornado com o dinamismo característico de Guy Ritchie na direção, é uma produção farta na pirotecnia das cenas de ação, e seu elenco, no mais, dá conta do recado (sem falar que o foco principal em dois irmãos ao invés do usual casal romântico é bem curioso), contudo, ainda não foi dessa vez que o cinema conseguiu capturar aquela magia presente nas realizações espetaculares que Spielberg entregou nos anos 1980. E essa falha não é exclusividade dos imitadores: O próprio Indiana Jones, em sua produção mais recente, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, não foi capaz de resgatar o mesmo encanto e fascínio com que fez nascer, no passado, todo um subgênero de aventura arqueológica à moda antiga.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Adeus, Christopher Robin

Num fenômeno mais comum do que pode parecer, dois filmes chegaram aos cinemas, em meados de 2017-18, trazendo o mesmo assunto, uma versão cinematográfica da vida real de Christopher Robin, o garotinho parcialmente retratado no livro “Winnie The Pooh”.
Um deles foi “Christopher Robin-Um Reencontro Inesquecível” produzido pelos Estúdios Disney –que, como o planeta inteiro sabe, adaptaram o famoso livro numa clássica animação de 1977, “As Aventuras do Ursinho Pooh” –e estrelado por Ewan McGregor, o outro foi este “Adeus, Christopher Robin”, dirigido por Simon Curtis (do ótimo “Sete Dias Com Marilyn”).
Focando mais na infância de Christopher Robin –e, portanto, na gênese criativa do livro –o filme toma um caminho bem diferente da outra produção, muito mais fantasiosa.
Ele começa, esbanjando uma demasiada parcimônia que pode desagradar certos públicos, contando a história do pai, A.A. Milne, ou Blue (Domhnall Gleeson), como era chamado, e suas trágicas experiências durante a Primeira Guerra Mundial.
De volta do campo de batalha, Blue não consegue viver harmoniosamente com a esposa Daphn (Margot Robbie) em Londres, insistindo numa mudança para Sussex, no interior, onde desejava escrever um livro anti-belicista. No meio do caminho, os dois resolvem ter uma criança, e assim nasce o pequeno Christopher Robin, logo apelidado de Billy Moon, desde muito novo, refém das abissais neuroses dos pais: De Daph, ele recebia desprezo e pouquíssimas demonstrações de carinho porque ela, fria e recriminadora, se ressentia por ter tido um menino (queria uma menina sob o pretexto de que meninos quando cresciam iam para a guerra morrer!); de Blue, que nunca recuperou-se integralmente do stress pós-traumático adquirido na guerra, ele teve de acostumar-se à indiferença de alguém embrutecido e transtornado.
O pequeno Billy Moon (vivido pelo garoto Will Tilston) tem assim somente o afeto da babá Olive (Kelly MacDonald, de “Onde Os Fracos Não Têm Vez” e “Trainspotting”) para se refugiar.
Entretanto, quando Billy tinha por volta de seus sete anos, as circunstâncias contribuíram para que tanto Daphn (que num surto de egocentrismo resolveu, de última hora, ir para Londres comprar papéis de parede!) quanto Olive (que teve de ir cuidar da mãe adoentada) se ausentassem de casa, deixando Blue e Billy sozinhos um com o outro pela primeira vez.
Iniciado com alguns atritos –comuns entre um adulto sem o menor jeito com crianças e um garotinho criado pela babá com zelo metódico –o relacionamento entre pai e filho encontra um ponto de equilíbrio na imaginação (Blue era, afinal de contas, escritor), e com isso, os dois descobrem um mundo imaginado em comum nos bosques da propriedade da família, povoado pelos personagens que nada mais eram do que os brinquedos que Billy já tinha.
Primeiramente, isso rende um poema de autoria de Blue, “Vespers”, que logo é publicado com largo sucesso; mas, nada os prepararia para o que viria a seguir: Convocando seu grande amigo Ernest Shepard (Stephen Campbell Moore) como ilustrador, Blue cria todo um livro baseado do conceito do mundo lúdico imaginado por Billy –e ainda o coloca no livro com seu nome verdadeiro, Christopher Robin –criando a obra “Winnie The Pooh” que, de pronto, experimenta um sucesso esmagador; fenômeno mostrado no filme de maneira um tanto abrupta e rasteira.
A narrativa concentra-se mesmo no depois: O sucesso acaba cobrando um alto preço de Billy. Tornado famoso pelo livro no qual foi incluído, o menino se torna uma espécie de estrela com quem todos queriam tirar fotos. Os pais, embriagados pela adoração pública, submetem o garoto à massacrantes rotinas de entrevistas, ensaios fotográficos e matérias jornalísticas, negligenciando-lhe o direito à infância.
Ao ser matriculado num colégio interno, o bullying sofrido por Billy tem, assim, um tema todo particular.
Já mais velho (e interpretado por Alex Lawther, de “O Jogo da Imitação”), Billy toma a decisão de alistar-se no exército para lutar na Segunda Guerra Mundial –e a pressuposição de sua morte em combate parece finalmente fazer seus pais valorizarem o filho que tinham.
Nem sempre perfeito na construção de sua dramaturgia, o filme de Simon Curtis, se encontra momentos nos quais consegue atingir o expectador com sua emoção deve esse bom resultado ao ótimo elenco, onde certamente se sobressaem –em níveis oscilantes de eficiência –o trio principal, Donhnall Gleeson, Margot Robbie e Kelly MacDonald.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Star Wars - Episódio 9 - A Ascensão Skywalker

Existe uma diferença estrutural na forma com que cada uma das três trilogias que agora integram a “Saga Star Wars” foi concebida: A primeira, e tida por unanimidade pelos fãs como a melhor, embora tenha saído da mente do criador George Lucas, foi executada por três diretores diferentes –o primeiro (“Uma Nova Esperança”), pelo próprio Lucas; o segundo (“O Império Contra-Ataca”) por Irvin Kershner; e o terceiro (“O Retorno de Jedi”) por Richard Marquand –a trilogia prólogo, por sua vez, foi inteiramente escrita e dirigida por George Lucas, então numa fase da vida e da carreira em que, do alto de sua fortuna pessoal e da aclamação mundial de “Star Wars” dentro da cultura pop, podia dar-se ao luxo de fazer o que bem entendesse –daí esses três filmes (“A Ameaça Fantasma”; “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”) resultarem tão artisticamente canibais para com o próprio conceito da saga.
Assim, quando George Lucas vendeu sua propriedade intelectual (a Lucasfilm) para a Disney, iniciou-se uma nova trilogia com o empolgante episódio VII dirigido por J.J. Abrahams (“O Despertar da Força”) e o controverso, ainda que excelente, filme seguinte de autoria de Rian Johnson (“Os Últimos Jedi”). O que nos leva a este “A Ascensão Skywalker” no qual, pela primeira vez na saga, um diretor, J.J. Abrahams, regressa para capitanear um episódio sem ser o criador da saga em pessoa.
E não um episódio qualquer: “A Ascensão Skywalker” toma para si uma série de duras responsabilidades; quer encerrar toda trama iniciada nos primeiros filmes (hoje, clássicos); quer também dar um desfecho satisfatório (e, se possível, vibrante) para os novos personagens introduzidos a partir do episódio VII; e ainda por cima, ao longo da sucessão de eventos desta trama, contornar as decisões polêmicas tomadas no episódio anterior que terminaram por revelar o lado negro (terrivelmente imaturo e intolerante) de seus fãs.
O filme começa com a informação, já difundida nos trailers, de que o perverso Imperador Cheev Palpatine (Ian McDiarmid) de alguma maneira não morreu, ao contrário do que se supunha no final de “O Retorno de Jedi”.
Isso leva o lado do bem, a Resistência, e o lado do mal, a Primeira Ordem, a uma corrida para ver quem o encontra primeiro; a Resistência, para neutralizá-lo de uma vez por todas –tarefa que a Jedi em treinamento, Rey (Daisy Ridley, a formidável protagonista desta nova trilogia), tem dúvidas se possui poder o bastante para fazê-lo –e a Primeira Ordem, comandada agora por Kylo Ren (o excelente Adam Driver), para consolidar-se em definitivo como o Império do Mal que sempre foi, visto que tudo o que transcorreu até então teria assim sido um plano de Palpatine desde o começo; o que leva todos os personagens e as motivações que os impulsionam à fatídica Ordem Final que encerrará essa ‘guerra nas estrelas’ de uma vez por todas.
É sabido –até por ele próprio! –que J.J. Abrahams é um autor muito bom em iniciar histórias de modo promissor, mas não em terminá-las (como corroboram suas séries “Felicity”, “Alias-Codinome Perigo”, “Lost” e “Person Of Interess”) e isso fica evidente nas incertezas de sua narrativa, tão convicta, vigorosa e enxuta em “O Despertar da Força”, mas aqui mostrando-se pela primeira vez hesitante e insegura.
Certamente não foi uma tarefa simples esta da qual ele se incumbiu e, guardadas as vastas proporções da produção, o escopo megalomaníaco do roteiro e a complexidade nas diversas linhas narrativas, ele conseguiu entregar um trabalho maravilhoso, coerente até mesmo no aproveitamento da personagem Léia, de Carrie Fisher, que morreu muito antes do início desta produção, e que aparece em cena graças à várias cenas descartadas, reaproveitadas dos dois filmes anteriores. Contudo, os fãs (sempre exigentes), os críticos e os detratores irão dizer que, dentre os três capítulos desta nova trilogia, “A Ascensão Skywalker” é o mais fraco.
E eles têm um prato cheio em mãos: Dirão que o roteiro é pedante ao contrariar diversos fatos de “Os Últimos Jedi” apenas para agradar a audiência, que a introdução de Palpatine na premissa é descabida e pouquíssimo convincente servindo só para suprir a ausência de um antagonista realmente bom.
Mas, a verdade é que, na qualidade de encerramento oficial de uma saga que praticamente definiu o cinema comercial moderno, não havia nada que pudesse corresponder a toda a expectativa que assolou “A Ascensão Skywalker”. As multidões que certamente abarrotarão as salas de cinema, gostem do trabalho de J.J. Abrahams ou não, se encontram numa situação em que esperam algo mais que um simples filme.
E um filme é tudo que irão receber.
Um filme grandioso, frenético, emocionante, repleto de momentos espetaculares e, por que não, mágicos, mas, no fim das contas, só um filme.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 1

O começo do fim. Desde os eventos irreversíveis do desfecho de “O Enigma do Príncipe” –isto é, a morte de Dumblodore e a opção definitiva (ou não) de Severo Snape em aliar-se ao mal –o clima obtido para este derradeiro filme era de urgência com uma notável atmosfera de inevitabilidade.
Ainda assim, os produtores não deixaram de fazer das suas para ficar um tempo a mais com a galinha dos ovos de ouro em mãos: Ao adaptar o último livro da saga, optou-se pela decisão de realizar não um, mas dois filmes extraídos do livro, com a desculpa (bastante razoável e bastante significativa para ambos os filmes) de que o máximo do material literário poderia ser mantido na adaptação.
Portanto, esta primeira parte de “As Relíquias da Morte” abrange cerca de 60% do livro, reservando os desenlaces mais contundentes para a segunda parte, o quê não impede este de ser, também ele, um trabalho muito bom.
Harry Potter está prestes a completar dezessete anos, e com isso, o feitiço de proteção que o mantinha a salvo na casa de seus tios irá se acabar. A fim de salvá-lo e levá-lo a um lugar seguro, já no início do filme, vários personagens (muitos introduzidos ao longo dos diversos filmes anteriores) unem-se para despistar os terríveis Comensais da Morte –e já nessa cena eletrizante, o diretor David Yates mostra que não está para brincadeiras. Ele exibe a escala de cenas de ação ampliada desde o memorável filme anterior, ostenta um domínio vertiginoso de narrativa que, mesmo sendo este seu terceiro filme na franquia, continua a surpreender, e não poupa o expectador e seus personagens de apuros ameaçadores de verdade; o conto de fadas pueril vislumbrado em “A Pedra Filosofal” há tempos não existe mais.
Após a breve e alentadora cena de casamento entre Gui (Doomhaal Gleeson), irmão de Rony, e Fleur (de “O Cálice de Fogo”) as circunstâncias imediatamente se complicam: O Ministério de Magia é invadido e dominado pelos Comensais da Morte. O Lorde das Trevas, Voldemort, passa a comandar então o mundo bruxo.
Harry, Rony e Hermione fogem e, ao longo de meses absolutamente angustiantes, passam a viver de maneira nômade, tentando encontrar uma forma de dar prosseguimento ao plano de Dumblodore –de achar as ‘horcruxes’, que contêm fragmentos da alma de Voldemort, para que possam assim matá-lo –sem, no entanto, nenhum recurso, nenhum auxílio e nenhuma informação.
E é a partir daí que Hermione tem a oportunidade de brilhar como nunca o fez antes, tanto pela imensa funcionalidade da personagem, como pelo talento e carisma da atriz que a interpreta, a bela Emma Watson.
Enquanto isso, e de maneira narrativamente sucinta (ainda que perspicaz), o filme mostra a extensão do mal no mundo bruxo, com Hogwarts sendo dominada por Comensais da Morte (Severo Snape é nomeado seu novo diretor), o Ministério da Magia trabalhando em função da obliteração de pessoas normais, destituídas de magia, e o nome de Harry Potter difundido como o “Indesejável Nº 1”.
São todas informações que ratificam a sensação de desamparo experimentada pelos jovens protagonistas, e que este filme é imensamente feliz em compartilhar com o público –em grande parte, auxiliado pela fácil identificação do expectador com personagens que ele já conhece há anos; e que, em muitos casos da plateia, cresceram junto com os próprios atores principais.
Como numa espécie de tradição que a série passou a adotar desde “O Cálice de Fogo”, os realizadores escolheram, como ponto de ruptura na narrativa do livro, a sequência fatídica e consternadora da morte de um querido personagem para encerrar este filme –uma jogada inteligente que dá a um filme originalmente concebido para prescindir de um desfecho um desenlace amargo, porém válido e certamente impactante.
Ao final desta “Parte 1”, as apostas na luta do bem contra o mal estão altas e o público, ávido para conferir das emoções derradeiras reservadas pela “Parte 2”.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Ex-Machina - Instinto Artificial

Como roteirista, Alex Garland já era conceituado –havia feito o script de “Extermínio” e outras obras de Danny Boyle –entretanto, a história é outra quando escritores se aventuram a contar uma história na função de diretores; tarefa que abrange muito mais do que o manejo competente das palavras.
Havia um rumor (anos depois confirmado) de que havia sido Garland o diretor de fato da ótima aventura de ficção científica “Dredd” –produção na qual ele é creditado somente como roteirista –portanto, as chances de provar seu talento chegaram mesmo com “Ex-Machina”.
E ele o faz com louvor.
Sua narrativa acompanha, em princípio, o jovem Caleb (Doomhal Gleeson), programador de computadores tipicamente solitário e introvertido que, nas cenas que abrem o filme, surge parabenizado por seus colegas: Caleb conquistou uma disputada vaga de visitante na longínqua propriedade de seu milionário empregador, o recluso e genial Nathan (Oscar Isaac).
Lá chegando –uma mansão hightech estranhamente situada num fim de mundo –Caleb percebe a apatia e a impaciência para com relações interpessoais que Nathan se força em disfarçar sem maiores sucessos.
Com efeito, ele quer Caleb lá por uma razão mais prática que a mera visitação.
Próximo da revolucionária criação do primeiro indivíduo com inteligência artificial, ele espera que Caleb realize para ele um Teste de Turing –um bateria de perguntas através das quais um ser humano (o entrevistador) descobre a natureza artificial de um computador (o entrevistado).
A diferença e ineditismo da situação é que Caleb sabe que Ava (Alicia Vikander, possivelmente a protagonista real do filme) é uma máquina; o primor na execução dela –e sobre muitos aspectos, a sua manutenção enquanto ser funcional e intacto –reside na chance dela convencer Caleb, em algum nível existencial, de que ela tem sentimentos e impressões de um ser humano.
Ao longo das sessões –que integram o filme como seus episódios –Ava vai revelando a Caleb informações que modificam a dinâmica da relação que ele mantém com ela e com Nathan. E tudo caminha para um desfecho imprevisto.
Herdeiro de pensadores maiores como Ray Bradbury ou Isaac Asimov acerca dos desdobramentos do futurismo em geral, e da criação da vida artificial pela mão imperfeita do homem em particular, Alex Garland usa da premissa básica deste notável conto sobre definições pessoais para mergulhar o expectador em uma miríade de reflexões que deixariam Stanley Kubrick orgulhoso: Ava revela-se um ser pensante e de percepções auto-suficientes a despeito de sua natureza tecnológica –e parte do fato consumado de ser vivo é tentar lutar pela própria vida; daí que, diante da conclusão de que pode ser descartada pelo instável Nathan em qualquer lapso de insatisfação, ela planeje então sua fuga. E em Caleb, ela enxerga os meios ideais para tal intento.
Há uma ironia no fato algo filosófico de ser o indivíduo mecânico, o mais humanizado dos três protagonistas: Caleb é tão introspectivo que quase desaparece em cena, enquanto que Nathan chafurda a própria genialidade em vícios que o tornam indiferente a tudo; é bastante interessante observar esses dois talentosos atores interpretando personagens inversamente distintos daqueles que eles mesmos vivem na nova trilogia “Star Wars”.
Resta ao fim, Ava, na atuação brilhantemente composta por Alicia Vikander –ela ganhou, no mesmo ano, o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “A Garota Dinamarquesa”, mas provavelmente merecia muito mais por este trabalho aqui.
Sem problema: “Ex-Machina” ao menos, saiu da cerimônia com o Oscar de Melhores Efeitos Visuais debaixo do braço, derrotando com sua sutileza inesperada e desconcertante, pesos-pesados como “Mad Max-Estrada da Fúria” e o próprio “Star Wars-O Despertar da Força”.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Anna Karenina


Dentre as três colaborações entre o bom diretor Joe Wright e a esforçada atriz Keira Knightley, “Orgulho e Preconceito” é o mais apreciado; “Desejo e Reparação”, o mais contundente e “Anna Karenina”, certamente, o mais ambicioso.
Isso porque não apenas Wright lança mão dos recursos sempre mais vistosos proporcionados pela alta tecnologia e pela extravagância do cinema atual para conceber uma adaptação ainda mais visualmente arrebatadora do que outras que vieram antes (como o clássico estrelado por Greta Garbo), mas ele também o faz por meio de um truque de linguagem desafiador e arriscado.
Neste “Anna Karenina”, as paredes se transmutam, os cenários adquirem modificações a medida que, em diversas trocas de cena, observamos os figurantes entrarem no filme e mudarem o cenário –que ocasionalmente é flagrado em seus aspectos artificiais.
Wright conta que optou por esse estilo a fim de enfatizar a atmosfera de mudança que predominava no contexto histórico da trama, a Rússia de 1874.
Lembra uma peça de teatro na qual a proposta experimental é de que os meandros técnicos da encenação interfiram na própria impressão do público –nem sempre funciona...
Bela como sempre e num meio termo entre a apatia e a tentativa de soar dramaticamente relevante, Keira Knightley é Anna, cujo casamento com Alexei (Jude Law, fugindo do habitual papel do conquistador romântico), definido pela incompatibilidade dos arranjos convenientes, já não tinha lá muito fulgor, mas desanda de uma vez quando ela decide se envolver com o aristocrata Vronsky (Aaron Taylor-Johnson, de “Kick Ass”), um amante que lhe oferece a palpitação com a qual um dia ela sonhou dentro de seu casamento.
Todavia, a sociedade rigorosa a qual pertence cobrará de Anna um terrível preço por suas escolhas quando o segredo de sua afeição extraconjugal for descoberto.
Anna é uma daquelas personagens-chave da literatura que determina a tragédia de seu destino ao entregar-se à inconseqüência das emoções. No filme, contudo, não é isso que ela termina sendo: Wright observa os comportamentos com uma contenção maior e mais ambígua do que normalmente o faz, e com isso, seus personagens parecem distanciados do expectador por uma curiosa barreira de incredulidade –é deveras difícil crer num amor incondicional entre ela e Vronsky, pois Taylor-Johnson deixa evidente demais para o expectador sua displicência para que a própria protagonista, por mais relapsa que seja (e é isso que a narrativa por vezes a faz parecer), também não a note.
É uma armadilha comum em filmes que retratam uma situação de adultério: Oferecer uma abordagem equivocada de personagens antagônicos e, no processo, inverter o objetivo da mensagem. Embora também apático, Alexei não ganha o repudio do público a ponto de fazê-lo torcer por Anna. Isso tudo e as relações que se constroem entre os três protagonistas e o restante dos personagens (interpretados por um elenco notável) padecem de uma dificuldade encontrada na suspensão de crença justamente devido à escolha estética do diretor. O tempo todo, o cenário que se converte em estúdio lembra ao público o faz-de-conta da encenação ainda que ela seja feita com empenho e beleza.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Dredd - O Juíz do Apocalypse

O celebrado, ainda que subversivo, personagem das HQs inglesas criado por John Wagner, ganhou esta segunda adaptação para cinema após uma primeira experiência perpetrada nos anos 1990 (e que resultou num fiasco protagonizado por Sylvester Stallone e Diane Lane).
A nova versão consideravelmente mais fiel traz o competente e adequado Karl Urban no papel título –um agente policial num futuro distópico e tecnológico onde a urgência das ações de combate ao crime o permite ser juiz, júri e carrasco numa mesma e instantânea ocasião; um personagem, portanto, que reflete a mão-de-ferro do governo Tatcher na Inglaterra de então e ilustra a profunda (ainda que sarcástica) inclinação de direita do escritor.
Longe de ser feito ou pensado para o público infanto-juvenil, o filme traz uma trama agressiva, sanguinolenta e sombria, adequada ao tom ácido e adulto dos quadrinhos. A premissa se releva claramente inspirada no cultuado filme de ação tailandês “The Raid” –ou “Operação Invasão” –as semelhanças são inquestionáveis.
No futuro, aglomerados em gigantescas metrópoles erguidas em meio ao desolador deserto radiativo, os habitantes de Mega City 1 são protegidos por uma forma evoluída de polícia: Os juízes.
Um dos mais notórios, o Juiz Dredd (Urban) tem sua fama de invencível e implacável posta a prova quando encontra-se sitiado ao lado de uma cadete em treinamento (Olívia Thirlby, maravilhosa) dotada de poderes telepáticos, dentro de um conglomerado de favelas high-tech controlado por uma espécie de rainha do crime (Lena Headey, de “300”) que os quer mortos.
É a partir daí que “Dredd ganha similaridades incontestes com “Operação Invasão”, o que não significa demérito, uma vez que ambos são trabalhos sensacionais em suas propostas e na forma com que administram uma eletrizante claustrofobia provocada pela situação dos protagonistas e moldam, com ela, uma sucessão de cenas espetaculares de ação.
Embora a direção creditada seja de Pete Travis, sabe-se que ele já não estava envolvido com o filme já na metade de seu processo, ausentando-se no meio das filmagens e na pós-produção.
Numa situação mais ou menos parecida com o que aconteceu com Steven Spielberg e Tobe Hooper no clássico de terror “Poltergeist-O Fenômeno”, aqui a verdadeira autoria do filme –e, por conseqüência, a responsabilidade por seu resultado primoroso –é creditada ao roteirista Alex Garland, que escreveu o roteiro do ótimo “Extermínio” e, de fato, demonstrou imensa habilidade na direção quando realizou o cultuado e magistral “Ex-Machina Instinto Artificial”.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Feito Na América

Se outrora a parceria entre o astro Tom Cruise e o diretor Doug Liman havia rendido uma ficção científica divertida, descompromissada e até inventiva (“No Limite do Amanhã”), aqui ela rende um produto um pouco diferente.
Continuam, na verdade, a inventividade e a diversão –sua narrativa é de uma voltagem contagiante –mas, o futurismo fantasioso é substituído pela ancoragem em um fato real, daqueles que o cinema volta e meia acaba abordando, dotado de desdobramentos e circunstâncias tão assim mirabolantes que se torna essencial o lembrete constante de que é baseado numa história verídica (tivesse este enredo sido bolado por um roteirista qualquer para um filme, e afirmariam categoricamente que seus acontecimentos eram inacreditáveis e inverossímeis). Todavia, o diretor Doug Liman, o tempo todo, se esbalda ao deixar bem claro que aquilo realmente aconteceu –de quebra, ainda aproveita para evidenciar o pouco explorado talento cômico de Tom Cruise, que seu status de astro e seu compromisso com protagonistas empostados dificilmente permite aflorar.
No papel de Barry Seal, o piloto de avião bon vivant que, nos anos 1970, passou a pilotar para a CIA e daí para um providencial conluio com alguns dos futuros líderes do Cartel de Medelín, Tom Cruise está sensacional, irrequieto, afiado, não raro, protagonizando cenas de rachar o bico.
“Eu faço tudo meio sem pensar” afirma Seal num dos depoimentos que pontuam a narrativa.
Um desses personagens que interferem intensamente na História por estar no lugar certo e na hora certa, Seal era um piloto de Boeing um tanto quanto aborrecido, em 1978, com o marasmo em que seu trabalho o mergulhava. Daí a facilidade e a displicência com que aceita uma nebulosa proposta do jovem agente da CIA Schaffer (Domhnall Gleeson, cada vez melhor): Tirar fotos das bases militares de investimento soviético erguidas na América Central que forneciam poderio aos revolucionários insurgentes.
Intrépido a ponto de ser quase inconseqüente, Seal praticava vôos rasantes que tiravam fotos incrivelmente precisas e o colocavam quase à beira da morte. Essa inusitada aptidão logo chamou a atenção de Jorge Ochoa (Alejandro Edda) e Pablo Escobar (Mauricio Mejía), então meros traficantes colombianos de cocaína. Eles contrataram Seal –que aceitou por causa da baixa remuneração que recebia da CIA! –para que aproveitasse suas idas e vindas dos EUA para os países latinos (e seu salvo-conduto) e levasse suas cargas de cocaína para os sócios em solo-americano; carga essa a ser desovada na Flórida.
Somente um piloto louco e desapegado como Seal, imaginaram eles, seria capaz de realizar pousos e decolagens da pista particular que eles mantinham –e que matou tantos outros pilotos pelo fato de ser extremamente pequena (única maneira de não ser identificada pelas autoridades). E Seal, de fato, consegue!
Levando muito ao seu jeito descontraído essa atividade involuntária de ‘agente duplo’, Barry Seal, no decorrer dos anos, fez fortuna com a qual chegou a mobilizar a economia da cidadezinha na qual se refugiou com a esposa (a bela Sarah Wright Olsen) e os filhos: O lugarzinho teve de abrir sistematicamente vários bancos para acomodar as contas de Seal –o que logo chamou a atenção do FBI –isso além das malas abarrotadas de dinheiro que passaram a encher os cômodos da casa, as prateleiras da garagem e, depois de um tempo, até os buracos abertos no quintal (!).
Como em tantos ótimos filmes que retratam pessoas de predisposição fora do comum para embarcar em confusões tão verídicas quanto incríveis (como “Profissão de Risco”, com Johnny Dep, “Prenda-Me Se ForCapaz”, de Steven Spielberg, com Leonardo Dicaprio, ou “Sem Dor, Sem Ganho”, com Mark Wahlberg), a narrativa pulsante e bem-humorada de Doug Liman, mais cedo ou mais tarde, irá confrontar Seal com as conseqüências morais e legais de suas travessuras –e mesmo esses desenlaces têm momentos hilariantes que ainda assim soam absurdos!
Uma história notável que, ao assistirmos, percebemos que precisava ser contada (e por um narrador tão vibrante e apaixonado quanto o é Doug Liman aqui) sobre um inusitado personagem nos bastidores de acontecimentos caóticos que determinaram o panorama sócio-político do governo Reagan nos anos 1980 e que demonstra –de uma maneira um tanto torta –que mesmo diante de circunstâncias das mais mirabolantes e impróprias o sonho americano encontra um jeito de se manifestar.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Mãe!

O grande problema que este filme enfrentou foi o fato do público equivocadamente deduzir que um filme reflete a sua atriz. Explico: Ao ver Jennifer Lawrence, a protagonista, nos trailers e nos pôsteres, muitos (a grande maioria, seus fãs) acharam que encontrariam um trabalho comercial, nos moldes daqueles com os quais se acostumaram a vê-la, leia-se, a série “Jogos Vorazes”, ou a série “X-Men”.
Não podiam estar mais errados: “Mãe!” –como, aliás, todo e qualquer filme –reflete, sim, a personalidade e o estilo de seu diretor, Daren Aronofsky, e como todos os seus trabalhos ele é pontuado por inconformismo, por suas próprias obsessões pessoais (que vão desde metáforas de natureza artística até impressões de conotações bíblicas) e por uma amplitude de interpretação que transforma o filme numa das obras mais instigantes e desafiadoras do ano.
Jennifer interpreta a jovem e dedicada dona de casa numa mansão ambientada no que parece ser o centro de uma longínqua floresta. Javier Bardem vive seu marido, um poeta transtornado por um poderoso bloqueio criativo. O início do filme sugere a renovação de um ciclo: Através de um misterioso cristal, Bardem refaz uma casa em chamas.
Surge a personagem de Jennifer nessa casa restaurada.
Negando aos protagonistas –e aos coadjuvantes também –qualquer nome que seja, o roteiro de Aronofsky reforça sua natureza alegórica. Seria Jennifer Lawrence a Mãe-Terra? Seria Javier Bardem a representação de Deus?
Provavelmente. Sobretudo, se levarmos em conta o peso referencial e dramático que as noções bíblicas e teológicas possuem na obra de Aronofsky. A iniciar esses percalços que refazem o Velho Testamento –mas, não apenas isso –de maneira artisticamente decodificada, o casal recebe uma visita. Um médico (Ed Harris). Fã declarado do trabalho do poeta, ele vai adentrando a casa, lisonjeando o marido com sua escancarada devoção e afrontando a jovem esposa com seu desleixo.
A indiferença do marido, que dilacerava a jovem, só se acentua com isso.
Tudo irá piorar.
Na manhã seguinte chega a esposa (Michele Pfeiffer). Intrusiva, hostil, arrogante, ela é tão importuna e inconveniente quanto potencialmente perigosa e francamente ameaçadora. Ambos são imersos em vícios: Ele tosse o tempo todo devido ao hábito tabagista (e além de tudo bebe); ela é lasciva, despudorada na ostentação da volúpia que mantém com o marido. Ambos são pois Adão e Eva –até mesmo a cicatriz da costela extraída ele possui –e, como na Bíblia, são apenas o início de todo o caos que virá com a humanidade: Logo, aparecem Caim e Abel (Domhnall e Brian Gleeson, irmãos na vida real) culminando na morte do segundo pelas mãos do primeiro.
Todos eles (e outros mais) partem após um incidente com uma pia que alaga a cozinha e leva a jovem esposa ao limite –uma analogia envolvendo derramamento de água que remete ao dilúvio e à parábola da Arca tão bem ilustrada, à propósito, pelo próprio Aronofsky em “Noé”.
Segue-se um período de tranqüilidade durante o qual a jovem engravida e o marido tem um lampejo de inspiração que o faz escrever seu primeiro poema.
Entretanto, com esse poema virão adoradores (profetas?) e diversos seguidores fanáticos que irão deturpar as palavras do poeta em prol de seus próprios interesses. Ele aceita a invasão de sua casa e a destruição de seus bens materiais em troca da devoção cega que o embriaga e o satisfaz. Ela desespera-se com crescendo incontrolável da depredação –como fez em “Cisne Negro”, Aronofsky confronta sua personagem principal (numa atuação esplêndida de Jennifer Lawrence) com toda sorte de exuberantes perversidades sugeridas em sua narrativa: A própria turba que invade a casa se divide e entra em conflito (as doutrinas e ideologias que levam o ser humano à guerra) enquanto a jovem grávida se vê aflita e acuada.
O marido está sempre ali por perto, mas, sua displicência, sua indiferença, sua conivência com os atos abusivos e seu êxtase pela aclamação o tornam perigosamente ausente.
A criança então nasce (Jesus?) e num momento de descuido da mãe, a multidão o toma num dos mais desconcertantes momentos do cinema em 2017. Certamente, houve a intenção de Aronofsky em emular Lars Von Trier nesta obra: A protagonista, as escolhas visuais e os rumos metafóricos adotados pelo enredo são característicos, ainda que seja bastante provável que o diretor dinamarquês, em sua intransigência, carregaria ainda mais no teor chocante dos vinte minutos finais.
O que Aronofsky fez, contudo, bastou para que “Mãe!” se tornasse um dos trabalhos mais controversos da temporada.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Brooklyn

É lindo ver o crescimento de Saoirse Ronan, seja como pessoa, seja como atriz: Desde sua revelação em “Desejo e Reparação”, aos 13 anos, passando por papéis como a protagonista letal de “Hanna”, e a jovem vítima em “Um Olhar do Paraíso”, culminando com sua presença como bela mulher e atriz de rara sensibilidade neste belíssimo “Brooklyn”.
Dificilmente o filme de John Crowley funcionaria sem ela, e sem a inquestionável identificação que se percebe entre a intérprete e a personagem (Saoirse, como a protagonista que interpreta, é descendente direta de irlandeses), o esmero com que ela registra, portanto, essa jovem às voltas com a dura sensação de não pertencer a lugar nenhum –e que se reflete não somente em maneirismos impecavelmente estudados, mas, num olhar que transmite vastas e infindáveis emoções –vem a ser o eixo de todo o filme.
Essa jovem em questão chama-se Eilis, e sua casa é numa pequenina aldeia na Irlanda da década de 1930, cuja condição de vida é inescapavelmente árdua: São deprimentes os mandos e desmandos que ela sofre de sua patroa numa das poucas ocupações à disposição no lugar, a de atendente numa mercearia local. São deprimentes as escassas opções que uma jovem de vinte anos como ela tem para se divertir –no caso, os modorrentos bailes no único salão, onde as garotas devem se submeter à arrogância dos rapazes. E certamente, são deprimentes os dias rotineiros que passa a cuidar da mãe (Jane Brennan), sempre adoecida e angustiada, ao lado da carinhosa irmã mais velha (Fiona Glascott).
É essa irmã quem vislumbra para ela um futuro melhor, e negocia com um padre irlandês (Jim Broadbent), morador em Nova York de longa data, a sua ida para lá. Eilis encara a longa e penosa viagem de navio –com direito à uma ingrata disputa pelo banheiro com as vizinhas de quarto e toda a sorte de enjôo e mau estar! –a preocupante tentativa em parecer despreocupada no momento em que passar pela vistoria de imigração e, após sua chegada, a dilacerante e imprevista saudade da terra-natal.
No Brooklyn, ela se hospeda na pensão de uma senhora falante e espirituosa (uma notável participação de Julie Walters), onde convive com outras moças vindas da Irlanda, e passa a trabalhar em uma loja refinada do bairro. Aos poucos, Eilis se adapta a essa nova vida: Adquire a sofisticação dos moradores típicos de uma metrópole, começa a namorar um italiano (Emory Cohen, empenhado e simpático), a fazer um curso de escriturária e assim, a sentir-se mais confortável nesse novo lugar, capaz de oferecer os recursos diversos para uma vida melhor que ela antes não tinha.
Há uma sutil reviravolta no roteiro quando ocorre uma tragédia pessoal que obriga Eilis à um breve retorno para a Irlanda. Quando chega lá é que percebemos a maravilha da sutileza com que a atriz trabalhou a metamorfose da personagem: Eilis, ao longo do filme, tornou-se uma mulher radiante que, na segunda parte da trama, contrasta radicalmente com a cidadezinha cinzenta, desanimada e lúgubre que ela deixou no início.
À princípio, certa de que sua permanência seria rápida, Eilis vê as circunstâncias conspirarem contra o seu retorno para Nova York: Agora, não só a mãe expressa a necessidade de sua presença (coisa que antes não demonstrava), mas, aparece também um tal de Jim (Doomhall Gleeson, de “Questão de Tempo”), um bom partido, interessado, cavalheiro e cativante, que trata de providenciar para Eilis uma ocupação nos escritórios da família que satisfaça as aptidões que ela conseguiu em seu curso.
É um dilema que se desenha, então: Se antes Nova York era a terra dos sonhos onde, inclusive, Eilis encontrou o amor, agora, a própria Irlanda onde morou, antes tão inóspita e opressiva, revela condições de sobra onde ela poderia ser feliz.
Jamais pender com excesso para um lado ou para outro é um dos grandes achados do filme cuja sutileza com a qual é conduzido encontra rival apenas em seu admirável equilíbrio e objetividade –tal e qual nos grandes e irretocáveis filmes, todas as peças da narrativa de John Crowley estão lá para prestar uma contribuição inestimável ao produto final; não existe uma cena, um personagem ou uma fala de roteiro que não tenha uma importância vital no desenrolar do enredo, como descobriremos no desfecho, inevitável e, talvez, até previsível, mas não menos vibrante e encantador.
Sem sombra de dúvidas, características que levaram “Brooklyn” a concorrer, merecidamente, ao Oscar de Melhor Filme em 2016, perdendo para “Spotlight-Segredos Revelados”, num ano que contava com obras do porte de “Mad Max-Estrada da Fúria” e “O Regresso” (este também com Doomhall Gleeson no elenco). A bela Saoirse Ronan também concorreu ao Oscar de Melhor Atriz (perdendo para Brie Larson por “O Quarto de Jack”) no que deve ter sido o reconhecimento para o seu maior mérito: Uma atriz linda, expressiva e emotiva que consegue com seu talento elevar todo um filme a um nível maior.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Questão de Tempo

No sensacional “Superman-O Filme”, de Richard Donner, Lex Luthor (Gene Hackman) afirma em certo momento: “Algumas pessoas lêem ‘Guerra & Paz’ e consideram só um épico de aventuras, enquanto outras, lêem os ingredientes de uma embalagem de chicletes e descobrem os segredos do universo!”
Em resumo: A beleza está nos olhos de quem vê.
Isso, mais ou menos, se aplica a este “Questão de Tempo”, que pode até ser visto como uma comédia romântica por parte do público (e a presença de Richard Curtis, de “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Um Lugar Chamado Noting Hill” e “Simplesmente Amor”, no roteiro e na direção torna isso bastante possível), mas é, num olhar mais atento, muito mais que isso.
Muito se fala aqui sobre o segredo da felicidade. O quê ele seria? Como encontrá-lo?
Para o jovem inglês Tim (Doomhall Gleeson) esse objetivo aparentemente não se revela tão inalcançável assim, já que ele descobre certo dia, através de seu pai (Bill Nigh, impagável), que os homens da família possuem o incomum dom de voltar no tempo, permitindo a ele assim corrigir pequenos acontecimentos do cotidiano, ou até mesmo tirar vantagem de certas situações.
Voltar no tempo continuamente, evitando deslizes, corrigindo detalhes desastrosos, valendo-se da vantagem de saber como tudo se sucederá de antemão, e repetir um determinado acontecimento até que tudo seja perfeito; e ele se aproveita muito disso para, por exemplo, tentar uma fracassada investida na prima insinuante (Margot Robbie, antes do estrelato com “O Lobo de Wall Street”), ou conquistar o coração de uma jovem encantadora (Rachel McAdams) que acaba se tornando sua esposa.
Conforme os anos se passam, ele aprende, ao longo de sua existência como viajante no tempo, que a vida contém percalços que são inevitáveis e inerentes para qualquer um, mesmo para alguém que pode mudar o próprio passado.
É seu próprio pai quem, ao fim, lhe sugere o segredo da felicidade –ter o dom de voltar no tempo para quem sabe repetir a vivência de um dia, sim, mas escolher por não usá-lo: E assim saborear cada momento por aquilo que ele tem de único.
Ao deixar de lado (mas, não muito) sua propensão crônica ao romantismo, Richard Curtis construiu um belo, agridoce e às vezes excessivamente açucarado misto de romance e ficção científica (cuja premissa faz lembrar muito a magistral animação japonesa “A Garota QueConquistou O Tempo”), no qual encontrou a oportunidade de fazer uma emotiva ode a um meio de vida muito inglês (representado, sobretudo na carismática figura do grande Bill Nigh), bem como uma bela reflexão sobre o tempo, a vida e a felicidade.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Bravura Indômita

O cinema da Era de Ouro de Hollywood exerce um encanto fenomenal nos Irmãos Coen. Para tanto, eles criaram alguns de seus mais notáveis trabalhos debruçando-se sobre os valores, as circunstâncias e a mentalidade daquela época e como esses fatores foram, em grande medida, decisivos na concepção de obras fundamentais à sétima arte.
É um pouco desse fascínio que eles parecem resgatar nesta maravilhosa adaptação do livro de Charles Portis, e que, em sua recriação cheia de talento e personalidade, não faz nada feio se comparado com o clássico de 1970, estrelado por John Wayne –o único filme, diga-se, que chegou a dar, à essa lenda do cinema, a chance que concorrer e ganhar o Oscar de Melhor Ator.
A versão dos Coen não tem pretensão de substituir, no imaginário do público, o filme clássico, mas sim de oferecer uma visão diferenciada sobre o mesmo argumento; em muitos aspectos os Coen tornam este um filme bastante diferente, infundindo nele suas percepções mais atualizadas, uma espécie de ambigüidade moral na caracterização dos personagens e do ambiente, e um nível de detalhamento que escapava às produções antigas.
Velho Oeste. Ao chegar num típico vilarejo ao Norte dos EUA, a jovem Mattie Ross (Hailee Stanfield, fabulosa) tem um único objetivo: mobilizar uma caçada implacável ao homem vil (Josh Brolin) que matou seu pai.
Aos seus 14 anos, porém, Mattie, mesmo que obstinada e astuta, obtém pouco crédito das autoridades locais, que invariavelmente ignoram seus apelos. A única ajuda que ela consegue é o beberrão, mal-humorado e caolho Rooster Cogburn (Jeff Bridges, numa atuação brilhante em postura e observação), junto do relutante oficial LaBoeuf (Matt Damon, também ele muito bem aproveitado).
Juntos, muitíssimo à contra-gosto, essas três pessoas de irredutível caráter, mas, completamente incompatíveis entre si empreenderão a tal caçada humana pelas longínquas e inóspitas pradarias americanas.
Absolutamente livres de auto-censura e de qualquer necessidade politicamente correta, os Coen, astuciosos, pontuam seu filme com observações que jamais surgiriam em uma produção dos tempos da Velha Hollywood, em especial o tratamento indigno e cruel reservado aos índios pelo homem branco.
Eles homenageiam o passado com a auto-consciência crítica de quem sabe pertencer ao futuro.
Nem por isso, contudo, os Coen enaltecem atos de anti-heroísmo da parte de seus personagens tão humanos e idiossicráticos: Espirituosos, os Coen expõe as facetas dúbias, emocionais e irreversíveis de sua jornada até o seu desolado fim, permitindo, por meio de intérpretes de grandeza maior, que o público se enamora de todos eles apesar de tudo, e compartilhe uma pontinha de lamento quando chega a hora da despedida.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - A Quarta e Última Parte


Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 1
   O início do fim. Talvez por razões mercadológicas, talvez na intenção de preservar a integridade da obra (ou talvez por ambas as razões), o último livro foi dividido em dois filmes, sob o pretexto de todas as revelações contidas na obra serem mantidas, sem a necessidade de resumos ou abreviações. Esse mesmo pretexto foi adotado, mais tarde, em outras sagas como “Jogos Vorazes” e no já citado “Crepúsculo”, com resultados bastante díspares. A verdade é que, pelo menos nesta primeira parte, o recurso foi bastante interessante, possibilitando que passagens inteiras (e muito reveladoras) do livro ficassem intactas.
   No sétimo ano (em que completa sua maioridade), o jovem Harry Potter toma a decisão de percorrer o mundo em busca das horcruxes; objetos descobertos no filme anterior, e que são os fragmentos extraviados da alma do perverso Voldemort, portanto, a única maneira de matá-lo. A decisão de Harry vem numa hora crucial, já que o Ministério da Magia é tomado pelos Comensais da Morte, que impõem uma perseguição mortal aos trouxas, e Hogwars, a até então segura Escola de Magia, é controlada pelo agora diretor Severo Snape (o grande Alan Rickman), o frio assassino de Alvo Dumbledore.
   Junto de Harry, estão seus amigos Ron Weasley e Hermione Granger, as únicas companhias que Harry terá nessa angustiante cruzada.

Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 2
   E foi assim que David Yates –o diretor mais longevo a lidar com a saga “Harry Potter” –chegou a este oitavo filme, o quarto sob sua direção.
   A divisão do livro derradeiro em dois filmes, que funcionou tão bem no filme anterior, não se revela tão harmônica neste último, sobretudo porque eles insistiram (mesmo adaptando somente os 40 % finais do livro) em resumir à uma montagem rápida, quase videoclipe, o grande momento do filme (a história de Severo Snape), enquanto deram mais espaço à segmentos mais desnecessários, como a batalha final propriamente dita, cheia de inserções novas que estendem a trama sem razão.
   Essas decisões tiraram a possibilidade de concretizar um filme perfeito no sentido de adaptação, mas Yates ainda sim realizou um trabalho magnífico (e que continua espetacular, anos depois, especialmente em comparação com as sagas juvenis que o precederam).
   Neste capítulo final faltam relativamente poucas horcruxes para Harry, Ron e Hermione reunirem. Muitos sacrifícios já foram realizados. Outros tantos estão por vir. E os itens que restam certamente serão encontrados na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, local onde agora os Comensais da Morte se apinham, orientados pelo soturno Severo Snape.
   O retorno a Hogwarts fará, portanto, Harry Potter confrontar seu maior inimigo que assassinou seus pais e lhe relegou o pesado destino de "salvador", assim como o próprio Severo Snape e o grande segredo que ele guardou durante toda a saga.