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terça-feira, 7 de junho de 2022

Top Gun - Maverick


 A carreira do astro Tom Cruise ascendeu de fato com “Top Gun-Ases Indomáveis” em 1986. De lá para cá, o filme curiosamente resistiu ao teste do tempo de uma forma um tanto quanto estranha: Ele se revela datado no que diz respeito a muitos de seus quesitos técnicos (embora as sequências aéreas sigam empolgando), seu romantismo soa por vezes descabido na justaposição da atitude impávida e atrevida de seu protagonista, e o resultado da soma de suas partes é a um só tempo brega, estiloso, extravagante e arrojado –características que o tornaram um “prazer culposo” na opinião que grande parte de público e crítica. Entretanto, ninguém consegue esquecer “Top Gun”. Nem seu astro Tom Cruise.

Prova de uma qualidade quase indefinível que ele ostentou todo esse tempo é o fato dele ganhar edições especiais em outras mídias, e ser lembrado em várias listas que apontam os filmes mais relevantes e/ou famosos de Tom Cruise. E “Top Gun” não tardou a ser cogitado quando diversos revivals apareceram no cinema hollywoodiano para resgatar narrativas dos anos 1980 com remakes, reboots ou continuações.

Após alguns anos de atraso de seu lançamento original por conta da pandemia, eis que enfim o público teve a chance de descobrir como é a continuação de um filme que, a rigor, não necessitava de continuação alguma –tanto é que o próprio Tom Cruise jamais envolveu-se em qualquer projeto para uma sequência ao longo dos anos, construindo uma sólida carreira com produções novas e inéditas.

“Maverick”  reflete as circunstâncias que definem seu protagonista dentro e, sobretudo, fora das telas: Em 1986, Tom Cruise era um jovem astro emergente, e “Top Gun” foi a prova cabal que ele deu a Hollywood de sua capacidade para hipnotizar o público e carregar um filme inteiro nas costas. Agora, em 2022, ele é um dos maiores, senão o maior astro hollywoodiano, e conduz uma carreira de produtor desde 1996, com “Missão Impossível” –ele assina “Maverick” também como produtor e a ficha técnica do filme é um reflexo claro de escolhas feitas por ele próprio. No lugar do diretor original, Tony Scott, falecido em 2012, entra Joseph Kosinski que dirigiu Cruise em “Oblivion”, e demonstrou plena capacidade de potencializar e atualizar narrativas dos anos 1980 com “Tron-O Legado”. Entre os roteiristas, salta aos olhos o nome de Christopher McQuarie, diretor dos quatro últimos filmes da franquia “Missão Impossível”, e escritor especializado em melhorar e valorizar a qualidade do material que tem em mãos. Todas essas decisões levam ao belíssimo filme que chegou ao cinema, trazendo um alívio bem-vindo ao público, já desiludido com um baixo nível de qualidade nesta temporada.

Quando reencontramos o personagem icônico de Tom Cruise, o piloto de caça Pete “Maverick” Mitchell, já se passaram trinta e seis anos desde a última vez que o vimos. Contudo, ele permanece sendo o mesmo piloto intrépido e indomável de antes, o que justifica o porque de, apesar de colecionar feitos louváveis em combate, ele se mantém no posto de capitão –no início do filme, ele desafia a autoridade de um almirante da Força-Aérea (ponta de Ed Harris) para provar que pilotos humanos ainda são relevantes numa época em que os drones com inteligência artificial começam a substituir o instinto humano.

Dessa enrascada, ele é resgatado por ninguém mais, ninguém menos do que o Almirante “Iceman” Kazansky –o retorno de Val Kilmer para esse personagem é, inclusive, um dos momentos mais comentados pelo público, pelo bonito gesto de Tom Cruise em lutar para ter Val Kilmer (acometido de um câncer na garganta que, em 2020, o levou a uma traqueostomia) e proporcionar a ele uma chance de brilhar, mesmo que inserindo sua voz na pós-produção com recursos digitais. Além disso tudo –e do bom ator que ele sempre foi –o personagem de Kilmer, ainda que breve, tem uma importância vital: É com a autoridade de almirante que Iceman leva Maverick a ser escolhido como instrutor para os novos cadetes do curso conhecido como ‘ases indomáveis’, o mesmo que ambos disputaram no passado.

A tarefa de Maverick é espinhosa e complicada: Seu trabalho é treinar para uma missão tão complexa quanto suicida (o bombardeio sincronizado a uma fábrica subterrânea com poucas chances de retorno seguro) um grupo de jovens pilotos de caça competitivos, rebeldes e narcisistas. E não deixa de ser curioso o fato de que esta produção, deliberadamente ou não, acabe fazendo alusão, em sua premissa, à um elemento que existia na trama de “Águia de Aço” –o desafio dos caças-aéreos seguir por um cânion apertadíssimo em com sérios riscos de colisão –justamente um dos filmes B imitando “Top Gun” que afloraram nos anos 1980; tanto que seu apelido pejorativo era “Top Gun dos pobres” (!) Para dificultar a situação de Maverick, há um detalhe pessoal envolvido; um dos competidores é “Rooster” Bradshaw (Miles Teller), filho do melhor amigo de Maverick, Gooze, morto em uma das missões do filme anterior.

Diferente, portanto, do filme original, “Maverick” alcança seu protagonista num outro ponto de sua vida. Agora um veterano, Maverick tenta equilibrar sua ousadia com a necessidade de ser mentor de toda uma nova geração de pilotos, enquanto tenta estabelecer um vínculo afetuoso com seu passado. Nessa jornada de auto-descoberta, o fator romântico acaba ainda mais negligenciado que antes –a linda e oscarizada Jennifer Connelly, substituindo adequadamente Kelly McGillis, tem uma personagem de pouca ou quase nenhuma influência dentro da trama. No entanto, a direção de Kosinski transforma “Top Gun-Maverick” num espetáculo visual e cinético crucial para ser visto em cinema: A mescla dos efeitos práticos, tomadas digitais, sequências aéreas reais e a tenacidade notória do astro Tom Cruise transformaram as cenas de combate no ar em passagens prodigiosamente impactantes que, diferente dos trechos no filme original, dificilmente serão sobrepujadas pelo tempo.

Contrariando a máxima de que continuações nunca repetem o fascínio do primeiro filme –ainda mais sendo esse primeiro filme um cult de características peculiares e valor singular intrínseco na cultura pop –“Maverick” se mostra um primor de acabamento técnico (as referências ao marcante estilo visual e musical do primeiro filme são um show à parte), um roteiro ponderado e sensato (se não é genial em sua construção, ele corresponde perfeitamente ao que se espera de sua premissa) e um resgate digno e empolgante, mesmo para os saudosistas, de uma das mais envolventes narrativas comerciais da década de 1980.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Um Beijo Roubado


 “My Blueberry Nights” é a sôfrega tentativa de Won Kar Wai transpor seu estilo preciosista para terras e linguagens norte-americanas, ou seja, falado em inglês, ambientado em solo americano e estrelado por elenco hollywoodiano.

O próprio Kar Wai, no entanto, parece esquecer que muito de suas obras surge do improviso, da percepção instintiva dos sentimentos a pairar sobre seus personagens, da forma orgânica com que estão inseridos em seu contexto, e da atenção minimalista para com pequenos dramas de natureza intimista que ali são apanhados.

Ao aceitar filmar nos EUA –e possivelmente embolsar um belo cachê por isso –Kar Wai aceita algo que não é de sua natureza: Ele pasteuriza, empacota e industrializa um produto antes feito com instinto e espontaneidade, e nesse processo, perde tudo que faz dele único.

Quando inicia-se, “My Blueberry Nights” já começa com predisposições convencionais: Após a inevitável angústia de um rompimento, a jovem Elizabeth, ou Lizzy (a cantora Norah Jones), se descobre envolvida com Jeremy (Jude Law), proprietário de um café; no processo de sedução despido de diálogos que se segue, ele rouba um beijo de Lizzy, ela aparentemente desacordada sob o balcão –a cena que não somente fornece o título nacional como também ilustra o poster original do filme, ainda que ela nunca pareça ter um peso genuíno sobre a trama.

Não há uma explicação mais evidente para a decisão posterior de Lizzy em partir numa viagem pelos EUA –reencontrar a si mesma, talvez? Descobrir novas nuances do amor que teme abraçar? –e, de repente, nem os próprios realizações tivessem intenção de responder a essa pergunta. Nessa imprecisão, infelizmente, o filme de Kar Wai segue claudicante e, como era de se esperar, em seu road movie particular Lizzy se defronta com diferentes facetas do amor e de suas consequências, algo que, na pretensão da narrativa, deveria servir de reflexo indireto do próprio amor que Lizzy pode assumir ou não com Jeremy, mas que não são mais que manobras cheias de presunção onde Kar Wai, em maior e menor grau, recria em solo americano, as celeumas sentimentais que ele soube tratar com muito mais profundidade em Hong Kong.

Nessa esteira de coadjuvantes que transcorrem como atrações no palco de um show de auditório, Lizzy conhece Leslie (Natalie Portman, fabulosa), uma jogadora inveterada em Las Vegas, bem como uma mentirosa compulsiva –um reflexo desconfortável da desonestidade da própria Lizzy; o casal apaixonado Sue (Rachel Weizs) e Arnie (David Strathaim) cuja união se vê frequentemente fragmentada pelo alcoolismo dele; e muitos outros, onde temos a oportunidade de testemunhar um desfile fenomenal de grandes nomes do cinema americano, claramente atraídos pelo interesse de trabalhar com o grande diretor de “Amores Expressos”.

Um esforço do próprio Won Kar Wai em encontrar nos cenários coloquiais dos EUA um ambiente favorável para suas intrigas de amor, “My Blueberry Nights” é lindo em sua identidade visual –a direção de fotografia leva a assinatura de dois mestres da área, Darius Khondji (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) e Kwan Pung-Leung (de “Buenos Aires Zero Degree” e “2046-Os Segredos do Amor”) –no entanto, falha na captura de uma impressão específica no retrato de uma América perpetrada por um estrangeiro, como Win Wenders fez tão bem em “Paris, Texas”, ou Louis Malle em “Atlantic City”. Da forma como aqui se expressou, Won Kar Wai muito pouco entendeu dos EUA –e em última instância, muito pouco teve de vontade de entender –o que torna o retorno de Lizzy, ao fim do filme, para os braços de Jeremy, numa retomada da mesmíssima cena que compartilharam no início da sua jornada, uma conclusão bastante redundante acerca das vicissitudes do amor e da vida. um saldo complicado e nada promissor para uma obra que, como as demais de Won Kar Wai, se pretende avassaladoramente romântico e recompensador.

Após o engodo que foi essa experiência, Won Kar Wai voltou para sua Hong Kong natal, energizado de suas certezas tradicionais e do quanto sua identidade estava atrelada à sua própria terra. É justo, portanto, afirmar que foram os aborrecimentos vivenciados neste filme que o levaram a compor sua obra mais ambiciosa, “O Grande Mestre”.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Nixon


 Como passou a ser sintomático em sua filmografia, Oliver Stone dedica um verdadeiro tour-de-force de três horas de duração para esmiuçar em detalhes até então inéditos mais uma faceta da história norte-americana nos anos 1960 e 70. E ele o faz num filme onde suas ideologias surgem conjugadas com sua poderosa habilidade para costurar impressões de uma realidade factual às conjecturas intrépidas da ficção (ou da mera especulação).

Centralizado na arrojada caracterização de Anthony Hopkins, o diretor Stone conta à sua maneira a história de Richard Nixon, adotando o que teria sido seu ponto de vista ao longo de muitos acontecimentos retumbantes da política americana na segunda metade do Século XX.

Como toca a um diretor audaz, Stone intercala sequências oriundas de diferentes trechos cronológicos –começa nos 18 meses pós-escândalo de Watergate, regressa à infância de Nixon nos anos 1920, e depois salta para a primeira eleição disputada em 1960 –e alterna, com seu conhecido repertório de experimentos visuais –filme colorido, preto & branco, e simulações de arquivos –um filme que se pretende instigante o tempo todo.

Com essa sua exuberância técnica, Stone parece tentar entender e vislumbrar o lado humano de Nixon, o mais controverso dos presidentes recentes dos EUA (ou aquele que teve a infelicidade de governar durante o período mais controverso de sua história), mas na verdade o que ele quer é tecer uma elaborada teia de intrincadas teorias conspiratórias, tão mirabolantes e carregadas de sordidez ficcional que se convertem num afresco cinematográfico sobre decadência e traições de um ponto em diante.

Filho do meio de uma família pobre do meio-oeste norte-americano, Richard Nixon cresceu influenciado pela tenacidade severa do pai e pelo tratamento humanamente suscetível da mãe (Mary Steenburgen); as mortes do irmão mais novo e do mais velho (de tuberculose) também tiveram poderoso efeito sobre seu caráter, transformando Nixon num homem disposto a encontrar todos os meios possíveis para sobrepujar suas desvantagens existenciais –que no caso dele, já durante a competitiva vida adulta em meio à política, se manifestaram como a alardeada falta de carisma, de afabilidade e beleza física, em comparação com seu contumaz adversário, John Kennedy.

A derrota para ele, nas eleições de 1960, é um golpe que chega a afetar a harmonia de seu casamento (com Pat, vivida por Joan Allen). Entretanto, o próprio Nixon ganha chances improváveis de governar os EUA –o que de fato acontece –depois que John Kennedy é assassinato em Dallas, e seu irmão, Bobby (adversário de Nixon nas eleições subsequentes), é também ele alvejado e morto no Hotel Ambassador, tempos depois –na narrativa de descarado teor alarmista de Oliver Stone, essas escandalosas teorias ganham ares de verdade documental quando é sugerido o envolvimento de Nixon em cada um desses atentados.

Durante a gestão de Nixon, Stone relata os percalços tumultuados de seu governo com ênfase nos trágicos desdobramentos da Guerra do Vietnam (um tema caro ao cinema do diretor), nas atitudes egocêntricas e contraditórias de seu protagonista (cuja paranóia o leva a duvidar de aliados genuínos como o Secretário de Estado Heny Kissinger, vivido por Paul Sorvino), e nos lances ambíguos que convertem o próprio Nixon naquilo que, em tese, ele desejava enfrentar: Um líder relapso, errático, incapaz de se opor à inevitabilidade atroz do sistema, e disposto a lançar mão de recursos cada vez mais escusos sob pretextos vazios –na verdade, essa premissa, a do personagem principal cuja pureza da ideologia se vê contaminada pela sordidez inapelável do mundo é, também, um tema muito caro ao cinema de Oliver Stone.

Do alto de sua nada modesta duração, “Nixon” é pois um épico de difícil assimilação, dedicado aos meandros mais mesquinhos e insidiosos a que pode se submeter o caráter humano, e imerso na caracterização mais vil dos bastidores (ainda que certamente ficcionais) da política norte-americana dos anos 1960 e 70.

A habilidade inconteste de Oliver Stone está aqui, como em outras obras corrosivas que realizou, a favor de uma narrativa que tão somente conscientiza o expectador de uma implacável inclinação para a maldade no ser humano; e essa sensação amarga não é amenizada nem mesmo pelo primor presente do início ao fim na atuação de Anthony Hopkins.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Apollo 13

Lançado em 1995, “Apollo 13”, de Ron Howard, dialoga diretamente com “Os Eleitos”, de Philip Kaufman, de 1983, e “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, de 2018; embora sejam filmes de diferentes diretores (e, portanto, de diferentes estilos e propostas) e lançados em época consideravelmente afastadas de tempo, todos fornecem uma contribuição de esclarecimento ao público para notáveis episódios da emocionante Corrida Espacial Norte-Americana.
Dentre eles, pela natureza improvável e cheia de percalços em seus acontecimentos, “Apollo 13” é o mais notável: Em 1969, durante o Programa Discovery, a 13ª missão do projeto Apollo, destinado à lua, dá errado, ameaçando a vida de seus três astronautas tripulantes, Jim Lovell (Tom Hanks, em seu primeiro projeto após os Oscars consecutivos de Melhor Ator por “Philadelphia” e “Forrest Gump-O Contador de Histórias”), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon).
Imediatamente, a Nasa e seus técnicos passam a organizar uma missão de improviso para trazê-los da órbita da Terra até a segurança do solo, sem fazer idéia da integridade do funcionamento da nave, ou mesmo da extensão dos danos ocorridos nos aparelhos.
Nesta sensacional variação de filme catástrofe –o que torna “Apollo 13” uma espécie de precursor dos ótimos “Gravidade” e “Perdido Em Marte” –o diretor Ron Howard (então, mais conhecido por comédias descompromissadas como “Splash” com o próprio Tom Hanks) constrói uma belíssima narrativa, prodigiosa na capacidade de capturar o envolvimento do público mesmo diante de detalhes técnicos tão complexos quanto imprescindíveis à trama, ao revelar um fato histórico real que entrou para a história da Nasa como o seu "mais brilhante fracasso".
Muito bem representado por seu elenco (coadjuvantes particularmente brilhantes são Ed Harris, Kathleen Quinlan e Gary Sinise) e amparado por um trabalho técnico exemplar, o filme de Howard se vale, sobretudo, de um roteiro minimalista e equilibrado de William Broyles Jr. e Al Reinert (a partir do livro “Lost Moon”, do próprio Jim Lovell e de Jeffrey Kluger) no qual são balanceados com a mesma intensidade os dramas vivenciados pelas famílias dos astronautas em perigo –que funcionam como uma eficaz representação do público –as tensões sucessivas, repletas de desafios técnicos e questões logísticas experimentadas pelos engenheiros do centro de comando, e o temor impronunciável dos próprios astronautas diretamente envolvidos na calamidade, lutando contra o tempo e contra as probabilidades numa nave agonizante em gravidade zero na tentativa de retornar para casa.
Um resgate cinematográfico de valores muito norte-americanos, amparado numa grande história cujas circunstâncias absolutamente singulares não abrem margem para o cinismo.

domingo, 23 de agosto de 2020

Virada No Jogo

Julianne Morre venceu o Oscar 2015 de Melhor Atriz por “Para Sempre Alice”, contudo, muitos são os que afirmam que o ponto alto de sua carreira predominantemente cinematográfico foi, por ironia do destino, o filme televisivo “Virada No Jogo”, pelo qual ela conquistou diversos prêmios anos antes, incluindo o Emmy Awards 2011 de Melhor Atriz.
Se “Virada de Jogo” tivesse sido feito para cinema é quase certo que o Oscar seria dela.
O filme também marca a consagração do premiado roteirista Danny Strong (que depois escreveria “Jogos Vorazes-A Esperança”), desenvolvendo uma trama sólida, eficiente e instrutiva a partir de eventos reais de ramificações escorregadias com personagens que não raro resvalam em certa ambiguidade; e ainda configura mais um belo exemplo da faceta desconhecida do diretor Jay Roach, mais conhecido por comédias deliberadamente grosseiras (como “Entrando Numa Fria”) e menos por suas austeras e elogiadas incursões na história da política norte-americana –entre as quais se insere “Virada de Jogo”.
Em 2008, os partidos americanos Republicano e Democrata iniciaram mais uma disputa à presidência da nação tendo como candidatos o veterano John McCain (Ed Harris) de um lado, e Barack Obama, de outro. Logo, ficou claro a grande vantagem populista que o carisma de Obama lhe garantia perante seu adversário.
Tentando compensar o tradicionalismo republicano sugerido pela figura de McCain, o seu principal conselheiro político Steve Schmidt (Woody Harrelson, sempre ótimo) sugeriu uma escolha estratégica para o candidato à vice-presidência: Alguém que despertasse a identificação dos eleitores e eleitoras indecisos, aos quais McCain não tinha apelo.
Entre várias opções logo surge o nome de Sarah Palin (Julianne Moore), governadora do estado do Alasca.
Cristã, ex-prefeita de sua cidade-natal e exercendo o cargo de governadora à 18 meses, Sarah surge como uma escolha providencial: Tinha predicados republicanos o bastante para agradar os ainda reticentes membros conservadores do próprio partido e representava uma opção diferenciada de inclusão capaz de fazer frente à proposta que tornava Obama tão fascinante aos olhos do público.
A aprovação de McCain e de todo o seu comitê eleitoral chegou quando ficou comprovado também que Sarah Palin tinha tanto carisma junto ao público norte-americano quanto seu adversário.
Entretanto, na pressa em realizar um opção bombástica que arrebatasse a eleição, o conselho de McCain deixou passar indícios que, ao longo da campanha, se tornaram gritantes: Nada familiarizada com política externa, a governadora Palin mostrou-se de um despreparo desconcertante em entrevistas que só fizeram abastecer às críticas à campanha de McCain e as várias sátiras que ela própria sofreu no processo –a famosa imitação de Tina Fey é mostrada inúmeras vezes.
Contudo, a própria Sarah não desejava desistir: Por sua competividade natural, pelo desejo de não desapontar McCain e por uma crença legítima (e ingênua) na qual queria o melhor para os EUA, ela submeteu-se a todo o escrutínio da máquina política norte-americana, o que incluiu o circo midiático formado em torno dela e que logo a transformou na figura central da oscilante derrocada da campanha de McCain.
Ela até tentou –seu debate vice-presidencial vitorioso contra o Senador Biden, recriado com primor e euforia é grande exemplo disso –mas, a forte pressão logo cobrou seu preço: Sarah ficou a beira de um colapso nervoso passando à ignorar as orientações de seus auxiliares de campanha.
Quando uma crise era superada, outra surgia: Na reta final da campanha, ciente de que seu apelo junto ao público carregava a popularidade (e os votos) de McCain nas costas, Sarah deixou que um certo estrelismo a afetasse; passou a mudar deliberadamente as decisões do roteiro eleitoral e a contradizer várias alegações feitas no começo à luz de alguma humildade.
O filme de Jay Roach revela detalhes peculiares e novelescos sobre esses bastidores, sempre mantendo um equilíbrio raro e impecável entre o gracejo, a crítica e a compaixão –Sarah Palin é recriada em minimalismos pontuais pela atuação brilhante de Julianne Moore sem cair na armadilha da caricatura e sem ceder à tentação do enaltecimento.
Pode parecer simples numa primeira impressão, mas o que é obtido em “Virada de Jogo” está longe de ser algo fácil ou comum: Um olhar sem retoques das imbricações éticas e circunstanciais da corrida eleitoral, onde seus retratados adquirem humanidade e dignidade, sem no entanto perder o viés de desleixo e falha que os levou à derrota.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

As Horas

Adaptação de uma obra literária do escritor Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer, este “As Horas” pode não ser meramente acessível a quem não tem idéia do exercício narrativo proposto naquele livro –e, por conseqüência, neste filme, dirigido com eficácia e alguma frieza por Stephen Daldry (do ótimo “Billy Elliot”).
Cunningham parte de uma dissertação na forma de três histórias complementares uma à outra que versam sobre a premissa embutida no livro “Mrs. Dolloway”, de Virginia Woolf (onde são relatadas as 24 horas de sua protagonista, uma organizadora de festas às voltas as obrigações detalhistas de seu trabalho e o pungente fantasma da depressão) –“As Horas” é, por sinal, o título que a escritora inicialmente almejou para sua obra.
Em Los Angeles nos anos 1940, a dona de casa depressiva Laura Brown (Julianne Moore, impecável), não por acaso, uma leitora do livro "Mrs. Dolloway", ao mesmo tempo que é negligenciada pelo marido obtuso e relapso (John C. Reilly) passa toda uma tarde considerando a idéia de suicídio, para a aflição de seu filho pequeno que aos poucos vai se dando conta da infelicidade inominável da mãe.
Já, em Nova York nos anos 1990, a metódica Clarissa Vaughan (Meryl Streep, em sua excelência de sempre) por sua vez a própria personificação da personagem do livro (ela também é organizadora de festas), prepara o evento do aniversário de seu melhor amigo, um artista plástico homossexual (vivido por Ed Harris) cuja saúde se acha deteriorada pela AIDS.
Enquanto que, numa afastada mansão da Londres dos anos 1920, a própria Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível e vencedora do Oscar de Melhor Atriz), às voltas com o ainda manuscrito do próprio "Mrs. Dolloway" questiona suas orientações como escritora e como mulher.
O resultado desse empenhado esforço em depositar a relevância literária numa narrativa cinematográfica que agregasse também seu valor artístico, acabou rendendo um filme denso e difícil, debruçado sobre a irreprimível depressão de suas personagens. Nada, nem mesmo as ocasionais e espirituosas transições de uma trama para outra, são capazes de amenizar a carga dramática que ele emana, fazendo deste um trabalho um tanto quanto inacessível e desgastante.
Toda essa austeridade e compromisso fizeram uma bela campanha na temporada de premiações e no Oscar 2002 (ainda que o prêmio de Melhor Atriz para Nicole tenha sido a única honraria que de fato recebeu).
Em tempo: Foi realizada em 1997, uma adaptação do próprio “Mrs. Dolloway”, estrelada por Vanessa Redgrave e dirigida por Marleen Gorris (de “A Excêntrica Família de Antonia”).

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Mãe!

O grande problema que este filme enfrentou foi o fato do público equivocadamente deduzir que um filme reflete a sua atriz. Explico: Ao ver Jennifer Lawrence, a protagonista, nos trailers e nos pôsteres, muitos (a grande maioria, seus fãs) acharam que encontrariam um trabalho comercial, nos moldes daqueles com os quais se acostumaram a vê-la, leia-se, a série “Jogos Vorazes”, ou a série “X-Men”.
Não podiam estar mais errados: “Mãe!” –como, aliás, todo e qualquer filme –reflete, sim, a personalidade e o estilo de seu diretor, Daren Aronofsky, e como todos os seus trabalhos ele é pontuado por inconformismo, por suas próprias obsessões pessoais (que vão desde metáforas de natureza artística até impressões de conotações bíblicas) e por uma amplitude de interpretação que transforma o filme numa das obras mais instigantes e desafiadoras do ano.
Jennifer interpreta a jovem e dedicada dona de casa numa mansão ambientada no que parece ser o centro de uma longínqua floresta. Javier Bardem vive seu marido, um poeta transtornado por um poderoso bloqueio criativo. O início do filme sugere a renovação de um ciclo: Através de um misterioso cristal, Bardem refaz uma casa em chamas.
Surge a personagem de Jennifer nessa casa restaurada.
Negando aos protagonistas –e aos coadjuvantes também –qualquer nome que seja, o roteiro de Aronofsky reforça sua natureza alegórica. Seria Jennifer Lawrence a Mãe-Terra? Seria Javier Bardem a representação de Deus?
Provavelmente. Sobretudo, se levarmos em conta o peso referencial e dramático que as noções bíblicas e teológicas possuem na obra de Aronofsky. A iniciar esses percalços que refazem o Velho Testamento –mas, não apenas isso –de maneira artisticamente decodificada, o casal recebe uma visita. Um médico (Ed Harris). Fã declarado do trabalho do poeta, ele vai adentrando a casa, lisonjeando o marido com sua escancarada devoção e afrontando a jovem esposa com seu desleixo.
A indiferença do marido, que dilacerava a jovem, só se acentua com isso.
Tudo irá piorar.
Na manhã seguinte chega a esposa (Michele Pfeiffer). Intrusiva, hostil, arrogante, ela é tão importuna e inconveniente quanto potencialmente perigosa e francamente ameaçadora. Ambos são imersos em vícios: Ele tosse o tempo todo devido ao hábito tabagista (e além de tudo bebe); ela é lasciva, despudorada na ostentação da volúpia que mantém com o marido. Ambos são pois Adão e Eva –até mesmo a cicatriz da costela extraída ele possui –e, como na Bíblia, são apenas o início de todo o caos que virá com a humanidade: Logo, aparecem Caim e Abel (Domhnall e Brian Gleeson, irmãos na vida real) culminando na morte do segundo pelas mãos do primeiro.
Todos eles (e outros mais) partem após um incidente com uma pia que alaga a cozinha e leva a jovem esposa ao limite –uma analogia envolvendo derramamento de água que remete ao dilúvio e à parábola da Arca tão bem ilustrada, à propósito, pelo próprio Aronofsky em “Noé”.
Segue-se um período de tranqüilidade durante o qual a jovem engravida e o marido tem um lampejo de inspiração que o faz escrever seu primeiro poema.
Entretanto, com esse poema virão adoradores (profetas?) e diversos seguidores fanáticos que irão deturpar as palavras do poeta em prol de seus próprios interesses. Ele aceita a invasão de sua casa e a destruição de seus bens materiais em troca da devoção cega que o embriaga e o satisfaz. Ela desespera-se com crescendo incontrolável da depredação –como fez em “Cisne Negro”, Aronofsky confronta sua personagem principal (numa atuação esplêndida de Jennifer Lawrence) com toda sorte de exuberantes perversidades sugeridas em sua narrativa: A própria turba que invade a casa se divide e entra em conflito (as doutrinas e ideologias que levam o ser humano à guerra) enquanto a jovem grávida se vê aflita e acuada.
O marido está sempre ali por perto, mas, sua displicência, sua indiferença, sua conivência com os atos abusivos e seu êxtase pela aclamação o tornam perigosamente ausente.
A criança então nasce (Jesus?) e num momento de descuido da mãe, a multidão o toma num dos mais desconcertantes momentos do cinema em 2017. Certamente, houve a intenção de Aronofsky em emular Lars Von Trier nesta obra: A protagonista, as escolhas visuais e os rumos metafóricos adotados pelo enredo são característicos, ainda que seja bastante provável que o diretor dinamarquês, em sua intransigência, carregaria ainda mais no teor chocante dos vinte minutos finais.
O que Aronofsky fez, contudo, bastou para que “Mãe!” se tornasse um dos trabalhos mais controversos da temporada.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O Segredo do Abismo

Dando novos passos em direção ao gênio megalomaníaco que viria a se tornar, James Cameron aproveitou o acachapante sucesso de público obtido com “Aliens-O Resgate” para... voltar a falar sobre alienígenas!
Sua nova premissa, porém, não discorria sobre os desdobramentos hostis de um embate contra a raça humana e curiosamente também não se desenvolvia a partir da previsível ambientação espacial. Com seus pés ainda fincados na ficção científica, Cameron voltava sua atenção –e nomeava como fonte de suas questões pragmáticas –para o fundo do mar.
É lá, no afastamento misterioso, enigmático e opressivo das profundezas do oceano que os cientistas presentes numa estação aquática, todos eles munidos de um assombroso aparato técnico (cujo arrojo precisou ser, em grande medida, idealizado e projetado pela própria equipe de produção), descobrem indícios crescentes de vida inteligente, talvez oriunda do espaço, buscando contato com eles.
A resposta talvez esteja nas profundezas de um abismo subaquático, a beira do qual a estação se localiza, um dos locais mais profundos de todo o planeta Terra.
Mais do que em “Aliens” é aqui, em “O Segredo do Abismo” que se pode perceber o cineasta James Cameron surgindo por inteiro e com todas as letras: Estão lá as obsessões de ordem exponencial e natureza quase sempre técnica (começaram aqui as práticas com sucessivos mergulhos de submarino no fundo do mar, o que levou à idéia de filmar a reconstituição do naufrágio de um certo “Titanic”), assim como a forma idiossincrática, comercial ainda que imbuída de relativo humanismo, com a qual ele enxerga a ficção científica, e a maneira convicta e inclemente que sua encenação logisticamente realista e definida por efeitos práticos impõe pesados revezes ao seu elenco (que inclui Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio e Michael Biehn) –especialmente, no que diz respeito à difícil tentativa em lidar com a água.
Nesta produção, bastante característica do diretor James Cameron e do realizador que ele veio a se tornar, ele, à exemplo de Stanley Kubrick, por vezes submete o elenco e a equipe de seu filme a condições humanamente insuportáveis em função da busca por uma excelência técnica –algo que, aos poucos, tornou-se para ele quase habitual. Tais esforços, contudo, não foram à toa: Os efeitos especiais deste filme são referenciais, mesmo décadas depois de sua realização.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os Eleitos - Onde O Futuro Começa

Após um início quase lúdico, onde podem ser vistos registrados os duros percalços da tentativa (bem-sucedida) do piloto aéreo Chuck Yeager (Sam Sheppard) em quebrar a barreira do som em 1947, este épico do diretor Philip Kaufman adota uma irônica narrativa hiper-realista (com notável aproveitamento de imagens documentais da época em sua edição) para acompanhar os primórdios tortuosos –e inacreditavelmente precários –do Programa Mercury, a primeira iniciativa norte-americana na Corrida Espacial disputada com os russos, e que levou (após uma longa bateria de testes sobre-humanos) alguns dos primeiros astronautas ao espaço, culminando com a seleção de sete homens predispostos a serem os primeiros americanos a aventurar-se para além do planeta.
Eram eles: Donald Slayton (Scott Paulin), Scott Carpenter (Charles Frank), Walter Schirra (Lance Henriksen), Alan Sheppard (Scott Glenn), enviado na primeira espaçonave a decolar com um cidadão americano em direção ao espaço, Gus Grisson (Fred Ward), piloto do vôo seguinte, John Glenn (Ed Harris), o primeiro a realizar um vôo espacial tripulado, e Gordon Cooper (Dennis Quaid), o último vôo solitário em órbita ao planeta, que marcou o encerramento do Programa Mercury em 1963, substituído pelo Programa Apollo.
Apesar do exuberante aparato técnico –que poderia perfeitamente ter sido sobrepujado por filmes que vieram depois, como “Apollo 13”, mas, não foi –o grande achado deste filme belíssimo é a maneira à um só tempo terna e sarcástica com que consegue elaborar um amplo painel do quê foi a Corrida Espacial Norte-Americana, com ênfase em percalços humanos e mundanos, vaidades, disputas e expectativas; inclusive jogando uma luz justa e emocionante sobre as esposas e famílias dos astronautas, e suas aflições íntimas dos mais diferentes níveis (como a esposa de John Glenn, que recusava-se a dar entrevistas para indignação da mídia que desconhecia o fato dela ser gaga!).
Há ainda espaço para as manobras políticas freqüentemente mesquinhas e tacanhas –as duas participações do então vice-presidente Lyndon B. Johnson (Donald Moffat) são tão patéticas quanto memoráveis! –para os engenheiros e operários da NASA e suas inúmeras deliberações e confusões e até mesmo para os funcionários encarregados do marketing, insuflados e ao mesmo tempo perplexos com sua extenuante disputa velada com os russos.
Por isso, e pela decisão genial em conceder carinho a cada uma dessas facetas do filme, esta produção maravilhosa atinge três horas de duração –que, eu lhe garanto, vão passar como se fosse uma brisa!
Phillip Kaufman faz uma bela síntese entre a mitologia altiva e reluzente que cerca os astronautas –em muitos aspectos, igualados aos cowboys do Velho Oeste –e as perplexidades do homem comum, num trabalho pontuado por divertido humanismo e irrestrita excelência técnica.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Sucesso A Qualquer Preço

A origem teatral do projeto é imposta poderosamente na direção de James Foley que engessa a narrativa o tempo todo em um único ambiente. Existem, quando muito, pequenos lapsos do roteiro de David Mamet que esboçam situações em outros lugares, mas o cenário é essencialmente o escritório de vendas aonde a tensão vai ganhando corpo graças principalmente ao majestoso elenco masculino.
Glengarry Glen Ross é a firma de vendas imobiliárias em Chicago que se beneficia, sobretudo, da lábia tarimbada de seus corretores: O calejado Shelley (Jack Lemmon); o irascível Dave (Ed Harris); o titubeante George (Alan Arkin); além do gerente tentacular e impiedoso Williamson (Kevin Spacey) e do representante da empresa titular, Blake (Alec Baldwin).
Homens endividados de classe média nos idos dos anos 1990, eles precisam ofertar, enaltecer e vender seu produto de porta em porta. A comissão garante que o sucesso de suas vendas seja proporcional ao lucro que obtêm. Todavia, nenhum deles se mostra satisfeito com tal sistema, ao contrário, muitos deles vêem, desesperados, clientes que lhes consomem tempo precioso de conversa e terminam não comprando nada.
A única exceção é Ricky Roma (Al Pacino, formidável), o campeão de vendas absoluto do escritório.
A fim de incentivar o mesmo ímpeto nos outros desanimados vendedores, a empresa disponibiliza certos bônus que vão além da comissão, em troca de um aumento quase inumano no índice de vendas. Para pressioná-los, o fantasma da demissão paira sobre todos.
É quando alguns deles começam a elaborar planos mais ilícitos.
O ambiente parece uma panela de pressão onde os ânimos e os propósitos vão se somando até a tensão chegar a níveis notáveis. A direção de Foley e o roteiro de Mamet são perspicazes ao trabalhar um conto enxuto (menos de uma hora e meia de duração), objetivo e incisivo sobre as desesperanças da agitada vida moderna, a analogia implacável da seleção natural, as ironias do drama e a máxima de que nada é fácil para ninguém.

domingo, 16 de abril de 2017

Uma Mente Brilhante

"Você é minha razão de existir. Você é todas as minhas razões."
Embora brilhante, John Nash (Russell Crowe, em estado de graça) não conseguia se adaptar nem mesmo ao ambiente intelectual e culto da rigorosa academia à qual estudava.
Seu único amigo parecia mesmo ser o prestativo e descontraído Charles (Paul Bettany).
Apenas de uma coisa Nash era absolutamente convicto: A do quão genial ele era, e de que, em algum momento, tal genialidade o conduziria também à grandeza.
Até lá, ele dividiu-se, depois de formado, entre a vida matrimonial com sua bela esposa Alicia (a maravilhosa Jennifer Connelly), as ocasionais e cada vez mais dispersas aparições de Charles, e um trabalho ultra-secreto para o governo, na forma do ameaçador agente Parcher (Ed Harris).
Mas, havia algo de errado.
E isso pode alterar toda a percepção da realidade que Nash (e o expectador) possuía até então –a partir da extraordinária história de John Nash, um gênio da matemática cujo grave problema de esquizofrenia passou despercebido boa parte da sua vida, inclusive da própria esposa, o diretor Ron Howard constrói seu melhor e mais maduro trabalho, amparado num roteiro magnificamente bem organizado e estruturado por Akiva Goldsman.
Quando quase sucumbiu a doença, Nash decidiu contra todos os conselhos e probabilidades médicas evitar os pesados medicamentos que poderiam destroçar sua mente, para em vez disso simplesmente encontrar uma maneira de aprender a conviver com a doença.
Conseguiu viver e se recuperar para ganhar o prêmio nobel de economia em 1994.
Essa surpreendente história real (e transposta para as telas de cinema de modo a realmente preservar-se surpreendente) é o temo deste filme que, em 2001, surpreendeu público e crítica ao ganhar o Oscar de Melhor Filme, superando o favorito "Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel".
Qual produção é, de fato, merecedora do prêmio (e, para tanto, marcante na história do cinema) é passível de discussão, mas não a qualidade do trabalho de Ron Howard que entregou um filme pontuado por aspecto notáveis e momentos comoventes.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Marcas da Violência

Ao adaptar uma obscura história em quadrinhos em meados de 2004, Cronenberg estava fazendo os movimentos decisivos para voltar a ser um autor relevante perante a indústria hollywoodiana (embora, na Europa, por exemplo, ele nunca tenha deixado de ser visto como um mestre maior) após quase uma década confinado em projetos rotulados como poucos acessíveis, e de improvável viabilização no circuito comercial.
Um dos fatores que convergiram para a boa sorte deste novo projeto (uma vez que se olharmos bem, ele em nada difere das experiências audazes que Cronenberg sempre fez) foi a escalação do ator Viggo Mortensen, catapultado ao estrelato por sua interpretação de Aragorn em “O Senhor dos Anéis”.
Mortensen buscou neste trabalho de Cronenberg o quê lhe faltava na carreira de intérprete –o respeito que uma rica atuação como a que ele entrega aqui pode proporcionar; não à toa, a partir deste projeto, Mortensen foi o ator-assinatura de Cronenberg pelos próximos três filmes que realizou.
Viggo Mortensen emprega, aqui, muitas de suas particularidades como ator –que ficaram visíveis na superprodução de Peter Jackson, mas aqui encontram vasto espaço para experimentação –numa sutil composição de um pacato morador de cidadezinha norte-americana. Quando dois homens violentos ameaçam seu estabelecimento e a segurança de seus clientes, ele surpreende a todos dominando e matando os bandidos.
Há tantos elementos genialmente embutidos nessa atuação que as surpresas e revelações que se seguem acerca do personagem, em momento algum soam como inverossimilhança ou incredulidade –o olhar de Mortensen carrega tanta verdade que as contradições sobre seu personagem (e sobre seu caráter) que se chocam uma contra a outra a medida que novas revelações surgem, levam o expectador numa espiral de fé e descrença.
O tal acontecimento ganha manchetes por todo o país e atrai para a pequena cidade um grupo de mafiosos (liderados por um soturno e ameaçador Ed Harris) que afirma com total convicção que o personagem de Mortensen, alçado à categoria de herói local, mesmo casado e pai de família, não é a pessoa que diz ser.
Com esse retorno do passado, retornam também revelações surpreendentes de uma vida que ele julgava ter deixado para trás.
Embora a narrativa pareça estar amparada em inúmeros subterfúgios que já surgiam antes em tantos outros filmes, Cronenberg, como em seus outros trabalhos, realiza um estudo distanciado e até inquisitivo da natureza bárbara do homem, conforme infunde ao filme sua vasta experiência na capacidade inata de subverter as expectativas a partir da estrutura convencional da obra.

Não se deixem enganar pelas aparências, o resultado é um de seus mais primorosos trabalhos. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sem Dor, Sem Ganho

Talvez, esta tenha sido a primeira vez em que vi a direção de Michael Bay trabalhar em função de um propósito narrativo, e não a favor de explosões e tiros no mais alto volume. Seus excessos ainda estão todos lá, é bem verdade, mas aqui parecem apoiar a própria proposta insana deste filme inspirado em fato verídico: A de que a realidade é ainda mais exacerbada e absurda do que a ficção!
Três ratos de academia (Mark Walhberg, Dwuaine ‘The Rock’ Johnson –engraçadíssimo –e Anthonie Mackie) decididos a pegar uma via mais simples para a realização de seu "sonho americano" resolvem sequestrar um dos mais endinheirados clientes da academia onde malham, para assim, através das mais gaiatas torturas, obrigá-lo a passar seus bens para o nome deles. O resulto conduzirá todos numa espiral de crimes que terminará de forma violenta, ainda que hilária!

Baseado no que é considerado o “julgamento mais bizarro da história da Califórnia”, este filme traz um argumento quase absurdo combinando a perfeição com o estilo espalhafatoso, exagerado e acelerado de Michael Bay, dando à trama o enfoque sensacionalista e morbidamente engraçado, sem o qual ela provavelmente não iria funcionar (em um determinado momento, a narrativa se interrompe para praticamente relembrar o expectador que esta ainda é um história real!), além de beneficiar-se de uma escolha muito feliz de elenco: Whalberg, Dwayne Johnson e Mackie estão perfeitos no equilíbrio de humor que seus personagens exigem. Junto deles, um elenco admirável comparece em diversas participações (vamos e venhamos, apesar de tudo, Bay quase sempre reúne atores interessantes em seus projetos...), como Ed Harris, Tony Shaloub e Rebel Wilson. O resultado é uma grata e inusitada surpresa.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O Show de Truman

Um estudo dos reality show muito, muito antes da era dos reality show começar, "O Show de Truman" é um feito e tanto: Um roteiro primoroso, astuto e audaz de Andrew Niccol, versando sobre ganchos, paradigmas e reflexos de narração que ainda soavam inéditos naqueles saturados anos 1990; um projeto onde o comediante Jim Carrey abraçou a oportunidade para mostrar o ator brilhante que é de fato, num personagem carregado de camadas, através das quais o ator permite vislumbrar o lado a um só tempo patético, destemido, vulnerável e beligerante do ser humano; e, sobretudo, uma obra de cinema singular perpetrada pelo sempre talentoso Peter Weir, que a exemplo de seus magníficos "A Testemunha" e "Sociedade dos Poetas Mortos" adentra um gênero para distorcê-lo, transmutá-lo com seu agudo estilo e diferenciação, e dele extrair algo absolutamente novo.
E é, definitivamente algo novo, que encontramos aqui, na história de Truman Burbank, um rapaz que, sem saber, é o centro do programa de TV mais assistido de todo o mundo: o "Truman Show", que é exibido desde que nasceu –e do qual, ele não tem o menor conhecimento!
Todos ao redor dele, portanto, seus amigos, conhecidos e familiares, são atores contratados para fingir que fazem parte de sua vida.
Aos poucos porém, Truman começa a detectar indícios de que sua realidade é diferente aquela que ele pensa (por meio de pequenos acidentes técnicos que se sucedem ao longo dos anos, pelos ocasionais erros de continuidade dos atores a sua volta, e pela determinação de uma jovem vivida por Natascha McElhone disposta a livra-lo de sua ‘novela-prisão’), e isso tudo pode levar Truman a tentar algo que foi basicamente educado para não fazer: Arriscar-se a deixar a vida que conhece para trás a fim de ser dono do próprio destino, e com isso, defrontar-se com o homem responsável por tudo o que representa o “Truman Show”, o controlador e paternalista Cristof (o magistral Ed Harris).
Não são somente o roteiro de Niccol, nem a direção soberba de Weir as grandes estrelas deste achado cinematográfico: Também o são as atuações de Jim Carrey e de Ed Harris.
Harris, aliás, é o responsável pelo grande momento do filme, quando já no desfecho, ao alcançar o que certamente é o limite final de seu mundo idealizado e construído (e portanto, o início do assustador mundo real), Truman e Cristof (seu pai, criador e, de certa forma, o deus de seu mundo; e a encenação cuida para que essa metáfora fique clara e poderosa) ficam pela primeira –e, provavelmente única vez –em contato um com o outro, para ambos poderem esclarecer dúvidas (sobretudo Truman) e descobrirem quem passarão a ser dali em diante.
Um trabalho poderoso, sem dúvidas, um dos melhores dos anos 1990.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O Expresso do Amanhã

Num futuro gélido e desprovido de esperança, tudo o que restou da humanidade se encontra confinado nos vagões de um trem imenso, que segue por uma extensão igualmente imensa de trilhos cuja rota, que cruza todo o planeta, leva exatamente um ano para ser feita. 
A ordem de habitação desses vagões segue uma espécie de “cadeia alimentar”, sendo assim, os ocupantes dos últimos vagões são, por assim dizer, a escória humana: comem apenas barras nutritivas suspeitas, vivem precariamente em termos de higiene e saúde, e quanto têm filhos, eles por vezes lhes são tomados em prol dos passageiros mais afortunados dos vagões à frente. Até que, após muito planejamento, uma rebelião tem início, conduzida de forma inicialmente relutante pelo ponderado Curtis. A intenção é avançar, vagão após vagão, até por fim chegarem à locomotiva, onde dizem reside o todo poderoso e messiânico Wilford. 
Estreando no cinema norte-americano, o diretor sul-coreano Bong Joon Ho (realizador do magistral “Mother”) imprime seu inegável talento na composição deste tenso conto de ficção científica adaptado de uma graphic-novel francesa, que guarda ecos de “Expresso Para O Inferno” de Andrei Konchalovsky (e que tinha roteiro de Akira Kurosawa), mas cujas características mais palatáveis, certamente são aquelas que o aproximam da série “Mad Max”, sobretudo, seu bem sucedido registro da insanidade, e o modo como faz uma peculiar síntese da raça humana e das desigualdades sociais.
No papel de Curtis, Chris Evans mostra um louvável esforço para afastar-se de seu mais emblemático personagem (o Capitão América), cercado por um elenco de tirar o chapéu: John Hurt, Octavia Spencer, Jamie Bell, Tilda Swinton, Ed Harris e outros.