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sábado, 19 de outubro de 2024

A Substância


 Ganhador do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes 2024, “The Substance”, dirigido por Coralie Fargeat. É um exercício notável de fôlego narrativo, uma demonstração bastante impressionante de coragem da estrela Demi Moore, e uma revelação e tanto da jovem e promissora Margaret Qualley (de “Era Uma Vez Em Hollywood”), ela que é filha da também atriz Andie MacDowell.

“The Substance” começa acompanhando o estrelato já decadente de Elisabeth Sparkle (Demi Moore abraçando todas as vulnerabilidades extremas da personagem e de si mesma), cuja fama popularizou-se através de programas de ginástica aeróbica –numa nada lisonjeira referência à Jane Fonda. Contudo, o tempo passou e, em seu aniversário de 50 anos, Elisabeth descobre que os produtores não a querem mais. Eles querem alguém mais jovem. Ao dar entrada num hospital após um acidente de carro, Elisabeth recebe a recomendação em um pendrive (!), de um método enigmático e, ao que tudo indica, bastante experimental que promete proporcionar-lhe juventude; mais que isso, promete-lhe um novo “eu”!

Elisabeth não interage com ninguém, não negocia com ninguém (salvo sinistras conversas por telefone com um interlocutor soturno e impessoal), no entanto, é conduzida a um depósito onde recebe o material necessário para o seu ‘procedimento’: Uma seringa contendo a chamada ‘Substância’ que ela injeta em si mesma para, na sequência, experimentar uma mutação inacreditável –Elizabeth se duplica (!), gerando a partir de si mesma, uma versão mais jovem (vivida com esplendor pleno e consciente por Margaret Qualley que não nega fogo em nenhuma das generosas cenas de nudez). Essa nova versão, chamada Sue, logo galga os degraus da fama e assume o lugar na ribalta que antes pertencera à Elisabeth, fazendo sucesso entre o público e os produtores.

Entretanto, o atalho para o que se deseja cobra alguns sacrifícios impronunciáveis. De cada sete em sete dias, Sue e Elisabeth precisam trocar de corpo –enquanto um é ocupado pela mente, o outro permanece inanimado no chão do banheiro –e, durante o tempo em que é Sue, o corpo mais jovem precisa de injeções de um soro produzido pelo corpo de Elisabeth para não entrar em colapso. O problema é que as demandas da fama –e um tanto da empolgação juvenil que a consome –vão cobrando de Sue mais do que os meros sete dias que o procedimento exige. E cada hora na qual acaba sendo mais Sue do que Elisabeth, leva o corpo mais velho a se deteriorar terrivelmente. Com o tempo, na verdade, a própria Sue vai desenvolvendo uma personalidade competitiva para com Elisabeth, a despeito do interlocutor ao celular afirmar que elas são uma só, e nessa espécie de rixa, Sue e Elisabeth poderão fazer cada vez mais mal uma à outra.

Três são as influências que o filme primorosamente perturbador de Coralie Fargeat mais ostenta: A primeira é “O Retrato de Dorian Gray”, sobretudo, na premissa onde uma personagem confronta o próprio definhar da vida com métodos mirabolantes –repare que há, por sinal, um quadro da própria Elisabeth que vai, também ele, adquirindo sinais de deterioração ao longo do filme: a segunda influência é o mestre Stanley Kubrick, ela surge em elementos como a simetria da narrativa, o personagem desprezível do produtor de TV (interpretado magnificamente por Dennis Quaid, em trejeitos que remetem imediatamente ao Malcolm McDowell de “Laranja Mecânica”), no fato da trama gradualmente avançar por meio de cenas predominantes em banheiros (um deles, o da emissora de TV, lembra completamente a estética do banheiro de “O Iluminado”) e na menção à trilha sonora de “2001-Uma Odisséia No Espaço” durante a absurda e grotesca sequência clímax; e a terceira influência vem a ser David Cronenberg e seu terror fisiológico, onde mutações tão imprevisíveis quanto assombrosas desumanizam seus personagens sempre através da manutenção de suas neuroses.

Apropriando-se do dito popular no qual “o tempo é uma fábrica de monstros”, “A Substância” é uma brilhante observação sobre a aceitação de si mesmo, os complexos do envelhecimento e os perigos impronunciáveis da vaidade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Viagem Insólita

Se “Gremlins”, de 1984, foi uma bela entrada do diretor Joe Dante no mundo do cinema hollywoodiano comercial, apadrinhado por Steven Spielberg, então “Viagem Insólita”, seu projeto seguinte, rumava em direção à ambições técnicas muitos maiores (ainda que ironicamente seu tema fosse a redução de tamanho a níveis microscópicos): Desta vez, Dante quis dar sua própria e alucinada visão do clássico “Viagem Fantástica”, de 1966, do qual empresta praticamente todo o conceito –lá, como aqui, há uma experiência de miniaturização que leva uma pequena nave tripulada para dentro do corpo humano. Contudo, se “Viagem Fantástica” almejava seriedade, “Viagem Insólita” se posiciona como entretenimento, a despeito do arrojo mesmerizante (e, portanto, espantosamente realista) dos efeitos visuais utilizados.
A grande diferença entre essas duas obras é, na verdade, o contexto: Toda a comédia e pantomina que definem o cinema brincalhão e ácido de Joe Dante comparecem aqui, orientando sua trama em uma direção que, em determinado ponto, o afasta por completo das comparações com seu classico inspirador.
O sempre excelente (e até hoje ainda sub-aproveitado) Dennis Quaid interpreta Tuck Pendleton, impetuoso tenente da força-aérea escolhido para um projeto muito incomum: Ser miniaturizado à proporções microscópicas e, dentro de uma nave submergível de alta tecnologia, ser injetado no organismo de um coelho.
Entretanto –e aí começam as grandes contribuições de Joe Dante para diferenciar seu filme –durante a experiência, terroristas dispostos a roubar essa nova tecnologia invadem o laboratório, fazendo com que um dos cientistas tente heroicamente fugir com a seringa portando o já miniaturizado Pendleton.
Antes de ser morto, ele acaba injetando Pendleton e a nave no corpo de um indivíduo aleatório, que vem a ser o hipocondríaco Jack (Martin Short), de início, desesperado com os sintomas que a presença de Pendleton em seu corpo vai provocando.
A parafernália técnica de efeitos práticos e efeitos especiais empregados em “Viagem Insólita” para concretizar o interior agigantado do corpo humano é até hoje fascinante: Não à toa “Viagem Insólita” levou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais em 1988.
Não obstante esse vultuoso aparato técnico proporcionado pelo produtor Spielberg, é no tratamento cinematográfico que “Viagem Insólita” realmente chama a atenção.
De ritmo frenético e inquieto –o que, em parte, espelha as aptidões cômicas de Martin Short, uma espécie de protagonista velado do filme –o trabalho de Joe Dante vai da comédia (os transtornos trazidos por Pendleton à vida do perplexo Jack) à aventura (logo, a trama se torna uma corrida contra o tempo para Pendleton voltar ao tamanho normal antes que o estoque de ar dentro da nave acabe, asfixiando-o), do romance (Lydia, vivida por Meg Ryan, ex-namorada de Pendleton, termina compondo com ele e Jack uma espécie de triângulo amoroso) à uma trama mirabolante de espionagem (os vilões interessados em obter a tecnologia de miniaturização, interpretados por Kevin McCarthy e Fiona Lewis, não dão sossego aos protagonistas), por meio de um roteiro que nunca se acomoda. Por isso mesmo, “Viagem Insólita” pode exacerbar a paciência de alguns expectadores mais adultos que pode identificar o grande apreço pelo non-sense que Joe Dante ostenta aqui; e que pode ter respondido pelo retorno insatisfatório que ele teve, à época, nas bilheterias. Não importa. Não é à esses expectadores sisudos que Dante dirige seu filme; é à parcela da plateia ávida por diversão e correria, cujo mote de ficção científica está menos a serviço de alguma reflexão profunda e mais no auxílio de uma produção pipoca e escapista nos moldes daquelas em que Spielberg e seus discípulos se especializaram nos anos 1980.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Midway - Batalha Em Alto-Mar

As intenções na realização de “Midway” almejadas pelo diretor Roland Emmerich (de “Independence Day”) são tão ambiciosas, amplas e megalomaníacas que todo seu escopo se acomodaria facilmente numa minissérie.
Entretanto, ao optar pelo formato cinematográfico de longa-metragem, ele arriscou-se a encapsular uma narrativa povoada de personagens e de acontecimentos históricos de natureza mais didática que o normal num roteiro hollywoodiano na improvável duração de duas horas e dezoito minutos.
Emmerich, porém, o faz atento às referências pertinentes para a categoria de cinema que adentra: Seu vasto e diversificado elenco traz rostos que parecem escolhidos a partir do mesmo critério usado por Christopher Nolan em “Dunkirk” –atores e atrizes de fisionomia clássica, aparentando realmente indivíduos que viveram na década de 1940. Já, o seu prólogo lembra, não à toa, o início de “Cartas Para Iwo Jima”, de Clint Eastwood, informando-nos que um dos protagonistas, o Oficial de Inteligência Edwin Layton (Patrick Wilson) viveu um período no Japão dos anos 1930; o profundo conhecimento da cultura japonesa e de sua mentalidade estrategista será importante à Layton na década seguinte, quando o Japão já estiver aliado aos nazistas na Segunda Guerra Mundial e, por meio do inesperado ataque à Base Aérea de Pearl Harbor (recriado com grandes semelhanças ao trabalho de Michael Bay no filme “Pearl Harbor”) fazer com que os EUA, até então auto-declarados neutros, ingressem no conflito.
Já fica claro aí, portanto, que em suas pretensões artísticas, “Midway” deseja ser mais abrangente, em termos históricos, do que qualquer superprodução que veio antes dele.
Após o ataque de Pearl Harbor –que ocupa um tempo considerável do primeiro terço se pensarmos que este não é o tema central –o filme trata de, numa sucessão de ganchos histórico-narrativos, introduzir uma série quase interminável de seus demais protagonistas: O piloto audacioso e indisciplinado Dick Best (Ed Skrein, de “Deadpool”) e seu oficial, o tenente Wade McClusky (Luke Evans, de “A Garota No Trem” e “A Bela e A Fera”), ambos servindo a bordo do destróier USS Yorktown comandado primeiro pelo Almirante William Halsey (Dennis Quaid), depois pelo Almirante Raymond Spruance (Jake Weber, de “Madrugada dos Mortos”); e o coronel Chester Nimitz (Woody Harrelson) que ao lado de Layton e de um time de oficias de contra-inteligência tentarão prever a próxima manobra dos inimigos –que, eles têm quase certeza, será uma ofensiva no Mar de Coral e no Atol de Midway a fim de avançar com a frota marítima pelo Oceano Pacífico pegando de assalto o oeste dos EUA.
Aqui e ali, o filme também captura impressões de outros personagens coadjuvantes como a aflição da esposa do piloto Best, Anne (a belíssima Mandy Moore), ou os percalços do humilde auxiliar de mecânico de um dos porta-aviões, Bruno (o cantor Nick Jonas).
Além desses núcleos –que em si já se revelam numerosos e certamente um pesadelo para a montagem (a cargo de Adam Wolfe) –o filme também vai de encontro ao politicamente correto, não obstante seu incontido patriotismo, ao dar expressão e tempo de cena aos oponentes japoneses (um elenco que inclui Tadanobu Asano, de “Tabu”,Etsushi Toyokawa, de “A Espada do Desespero”, e Jun Kunimura, de “Audition” e “Kill Bill”), mostrados com humanidade, indecisão e temor diante da morte tanto quanto seus adversários norte-americanos.
Um filme, como se pode notar, de intenções bastante ambiciosas quanto ao alcance de sua narrativa.
Esse objetivo em parte perde-se devido ao perfil do diretor: Se Roland Emmerich, por um lado, tem plena confiança da abordagem técnica e reconstituição realista que seus departamentos de execução e desenvolvimento fazem das batalhas aéreas e em alto-mar (e, de fato, isso responde pelo apelo maior do filme), por outro, a amplitude de seus interesses esbarra no seu desleixo notório em dirigir adequadamente o grande elenco, na organização nem sempre harmoniosa e perfeita das diversas unidades narrativas e na pouca importância que ele deliberadamente dispõe ao drama humano tornando-o repetitivo, monocromático e redundante.
O gênero do cinema bélico possui um nicho de público que de fato procura estes exemplares mais interessado na pirotecnia do que no bom acabamento dramático, contudo, também existem nele títulos de primeira grandeza cinematográfica como “A Um Passo da Eternidade” e “Tora! Tora! Tora!”, visivelmente as grandes influências para este projeto, que consegue unir a urgência do conflito à ênfase maior no fator humano.
Algo que, aqui, não foi alcançado.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Força de Um Passado

Diretor de “Suzie e Os Baker Boys”, o também roteirista Steve Kloves não obteve aqui o mesmo equilíbrio de sua realização anterior, deixado transparecer uma indecisão de ritmo e de gênero a contaminar os elementos que poderiam fazer deste um bom trabalho.
Ele reúne os atores Dennis Quaid e Meg Ryan –então, casados na vida real –após ambos terem participado, anos antes, de “Viagem Insólita”, de joe Dante, e “Morto Ao Chegar”, de Rocky Morton e Annabel Jankel. Eles interpretam (sobretudo, Quaid) personagens intimistas que fazem a alegria de atores em geral, mas que encontram certa dificuldade em estabelecer empatia com o expectador –e é aí que começam os problemas de “A Força de Um Passado”.
No prólogo tenso e relativamente lento, vemos uma família abrigar, na calada da noite, um menino perdido. As intenções do garoto, no entanto, se revelam quando ele destranca a porta para o próprio pai, um bandido, poder roubar a casa.
Porém, uma tragédia acontece e o homem termina matando toda a família: O pai, a mãe e um menino, deixando vivo apenas o bebê.
Para uma cena que determinará os rumos dramático tomados pela trama e por seus personagens –o que, de fato, vem a acontecer –tal prólogo carece de impacto, revelando-se enfadonho.
Eventualmente, num salto no tempo reencontramos aquele garoto, Arliss (agora vivido por Dennis Quaid), vivendo como fornecedor de utensílios para máquinas de bar ao longo das pradarias do desolado centro-oeste norte-americano. E o diretor Kloves não encontra muito o que fazer senão transformar este em um road-movie.
E numa espécie de romance também: Arliss encontra-se com Kay (Meg Ryan, ainda ostentando uma seriedade que sua carreira perdeu quando virou ‘rainha das comédias românticas’), uma moça envolvida em alguns apuros: Teve seu dinheiro roubado, obrigando-se a fazer, bêbada, um show de strip-tease (!).
Com a ajuda relutante de Arliss, Kay consegue voltar para sua cidade apenas para terminar de uma vez o casamento catastrófico com o marido inconveniente e trapaceiro.
E, à medida que o relacionamento entre os dois se intensifica –sem que o filme deixe exatamente claro se é disso que ele quer falar –ficamos nos perguntando quando, afinal, a cena trágica do início, irá começar a interferir nos rumos da história.
Dá até para começar a pensar que a bebezinha sobrevivente pudesse ser a jovem Ginnie (Gwyneth Paltrow, num de seus primeiros papéis de cinema), com quem Arliss se cruza algumas vezes, e que vem a ser quem rouba o dinheiro de Kay.
Todavia, as pontas soltas começam a se juntar quando o pai de Arliss (o grande James Caan) reaparece, atrás da ajuda do filho. Ele e Ginnie formam agora uma dupla, diante da insistência do filho em seguir uma vida honesta depois de adulto.
E assim, o passado vem cobrar suas dívidas: Aos poucos, pai e filho descobrem que Kay, a mulher agora envolvida com Arliss, é na verdade aquele bebê que escapou com vida naquela noite. O que fez Arliss um dos cúmplices do assassinato de sua família e, certamente, um dos responsáveis pela guinada que sua vida deu –culpa que os discursos imorais de seu pai só vêm a potencializar ainda mais.
Embora pretensamente dramático, “A Força de Um Passado” não aprofunda completamente a circunstância de seus personagens justamente por preferir, em vez disso, esconder muitas das informações até a último instante acerca dos reais eventos a enlaça-los; e ainda que Quaid e Ryan sejam protagonistas carismáticos, eles depõem contra a própria simpatia que conseguem conquistar interpretando personagens fechados, taciturnos e circunspectos em suas dores internas.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Longe do Paraíso

“Logo além do pecado, se encontra um mundo encantado”
Era inevitável a constatação de que o cinema de Todd Haynes, atento ao contraponto entre a normalidade das superfícies e o caos das profundezas, se ombreasse de alguma forma, à obra de Douglas Sirk, o diretor norte-americano que dedicou seu olhar à expor com forte melodrama as condenações implícitas da sociedade nos anos 1950.
Ao emular Sirk em “Longe do Paraíso”, Todd Haynes leva sobre ele a vantagem de pertencer ao presente, e com isso ter liberdade autoral para tratar abertamente de temas que na filmografia exigidamente discreta dele seriam completamente velados e absolutamente sugeridos, tais como o homossexualismo.
A vida de Cathy Whitaker (Julianne Moore, tão maravilhosa quanto na primeira colaboração com Haynes, “À Salvo”) aparenta ser imaculada –e tal perfeccionismo a leva a ilustrar capas de notícias enaltecendo sua vizinhança.
Entretanto, o filme de Haynes não tarda a revelar fissuras em meio à suposta perfeição. O marido de Cathy, Frank (Dennis Quaid, excelente) é ausente, cria justificativas tolas para não voltar para casa e, em instantes tratados com elegante elipse, Haynes vai deixando claro que algo está errado na harmonia do lar.
Num flagra tão doloroso quanto desconcertante, Cathy descobre o porquê: Frank é homossexual e muitas vezes não consegue conter seu ímpeto para buscar outros parceiros noite afora.
Ainda assim, ele tem consciência de que muita coisa depende da fachada de perfeição erguida em seu lar: Sua família (composta também por um casal de filhos pequenos e carentes de atenção paterna); seu emprego e, por consequência, seu futuro.
Frank se dispõe a submeter-se a todos os procedimentos médicos e psiquiátricos que supostamente poderiam tratar esse comportamento, como bem sinalizava a ciência dos anos 1950 de então, por meio do prisma preconceituoso da época.
No entanto, embora seja Frank e seu tormento o gatilho narrativo para as mudanças da premissa, é em Cathy que o eixo dramático de fato se concentra, pois, embora não seja ela o pivô de todo o drama, é ela quem sofre as mais injustas e indiretas consequências –e Haynes demonstra sua compaixão pela protagonista evidenciando a intensa e crescente tristeza nas circunstância que ela experimenta: Deixada de lado pelo marido, esmagada pelas obrigações e afazeres domésticos e sufocada pela necessidade de aparentar felicidade (quando, na verdade, por dentro desatina), ela encontra um consolo inesperado na amizade com Raymond (Dennis Haysbert), seu jardineiro negro.
A relação, definida por carência da parte dela e fascínio evidente da parte dele, progride inevitavelmente para um interesse romântico que as imposições não permitem que deixe de ser platônico –o que não impede que as fofocas resultantes dos menores gestos e dos mais inocentes indícios coloquem Cathy em maus lençóis junto da desumana concepção de sua comunidade.
Ao fim, Haynes ratifica mais do que apenas o drama: Ele mostra que, mesmo tendo sido Frank o transgressor por natureza, por assim dizer, foi Cathy quem teve de sofrer todos os revezes.
Mais do que um louvável retrato do homossexualismo em meio à um âmbito de considerações totalitárias (algo que Todd Haynes concretizou com “Carol”), “Longe do Paraíso” é um comentário sutil e inteligente sobre o papel sempre desfavorável da mulher nas injustas crises sociais.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A Fera do Rock


Já na primeira cena de “A Força do Amor”, de 1983 –a até que notável refilmagem do “Acossado”, de Godard –o diretor Jim McBride já deixava bem clara, numa forte referência, sua apreciação pelo trabalho do incompreendido músico Jerry Lee Lewis; de quebra, McBride também deu uma dica (proposital ou não) de um de seus futuros projetos: A biografia transfigurada por liberdade poéticas do próprio Lewis, “A Fera do Rock”, de 1989 –no original, “Great Balls Of Fire!”, um de seus grandes sucessos.
Jerry Lee Lewis, de fato, reunia uma série de características que o irrequieto diretor Jim McBride tanto aprecia num protagonista: Uma petulância saudável e uma constate atmosfera de desafio e atrevimento à sua volta –todos predicados aos quais a alucinada interpretação de Dennis Quaid faz jus.
Vindo de uma família tradicionalmente religiosa (o pastor Jimmy Swaggart, vivido por Alec Baldwin, era seu primo), Lewis almejou ascender na música por caminhos tortuosos: Enveredou pelo gênero musical do momento, o rock’n roll, tocando não guitarras ou violões tal qual ídolos habituais (como Elvis Presley, de quem foi rival assumido), mas dedilhando de forma selvagem as teclas de seu piano.
Todavia, o que escandalizou o mundo não foi isso; foi, na verdade, seu casamento –o terceiro de Lewis –com a própria prima (Winona Ryder), de catorze anos, bem quando estava prestes a atingir o auge de seu estrelato, amargando, em vez disso, o ostracismo.
Empregando o mesmo vigor e ritmo com os quais desbravou outros gêneros, McBride criou um musical pulsante e palpitante cuja euforia contaginate da narrativa reflete magnificamente bem o estado de espírito constantemente pirado de seu personagem principal.
Dito isto, é sintomática a falta de compromisso de seu trabalho para com um realismo imparcial e sério: Seu filme ironiza os detalhes folhetinescos de sua trajetória, as relações (e reações) exacerbadas quanto à percepção da fama, e observa (não destituído de uma pontinha de cumplicidade) o oportunismo com o qual Lewis torcia as noções morais a seu favor –outra característica constante nos protagonistas de McBride –nunca deixando de lado um perene senso de humor.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Traffic

Após uma década inteira na qual explorou uma infinidade de gêneros e estilos, sempre evitando o cinema mainstream e conformista com projetos diferenciados como “O Inventor de Ilusões” ou “Schizopolis”, o diretor Steve Sodenbergh chegou num ponto da carreira em que tinha plena autonomia criativa e respaldo profissional para encarar uma obra com as exigências de “Traffic” que adaptava, num roteiro sucinto e pontual de Stephen Gagham, uma elogiada minissérie inglesa para o cinema.
É o épico de Sodenbergh sobre a guerra contra as drogas, mas, como é inerente ao seu cinema, nele as cenas de embate entre policiais e criminosos perdem toda a importância –são as imbricações pessoais de personagens direta ou indiretamente envolvidos na questão aquilo que de fato desperta a atenção do diretor.
Tratam-se de três tramas paralelas que expõem as complexas mazelas dessa guerra na fronteira entre o México e os EUA. Na primeira, um policial mexicano (Benicio Del Toro, no papel que lhe deu um merecido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante; embora muitos afirmem, com certa razão, que ele é o ator principal do filme) busca manter seus princípios enquanto trabalha na fronteira, onde o tráfico e os cartéis –que lutam uns contra os outros –compram o auxílio da própria polícia.
Na segunda, um juiz da suprema corte (Michael Douglas) é nomeado o "novo czar das drogas", com a intenção de sanar o problema enfrentado nos EUA, mas não percebe que a própria filha (Erika Christensen) é viciada.
Na terceira, uma jovem grávida (Catherine Zeta-Jones) descobre que o marido é um barão das drogas no mesmo dia em que ele é preso e se vê obrigada a assumir os negócios da família.
Para distinguir cada uma dessas tramas –magnificamente encilhadas umas às outras pela primorosa montagem premiada com o Oscar –o diretor usa de um filtro que enfatiza três cores específicas para cada núcleo: A aridez do amarelo na primeira história, o azul formal dos escritórios em Washington, da segunda, e a normalidade cromática das ruas na terceira.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os Eleitos - Onde O Futuro Começa

Após um início quase lúdico, onde podem ser vistos registrados os duros percalços da tentativa (bem-sucedida) do piloto aéreo Chuck Yeager (Sam Sheppard) em quebrar a barreira do som em 1947, este épico do diretor Philip Kaufman adota uma irônica narrativa hiper-realista (com notável aproveitamento de imagens documentais da época em sua edição) para acompanhar os primórdios tortuosos –e inacreditavelmente precários –do Programa Mercury, a primeira iniciativa norte-americana na Corrida Espacial disputada com os russos, e que levou (após uma longa bateria de testes sobre-humanos) alguns dos primeiros astronautas ao espaço, culminando com a seleção de sete homens predispostos a serem os primeiros americanos a aventurar-se para além do planeta.
Eram eles: Donald Slayton (Scott Paulin), Scott Carpenter (Charles Frank), Walter Schirra (Lance Henriksen), Alan Sheppard (Scott Glenn), enviado na primeira espaçonave a decolar com um cidadão americano em direção ao espaço, Gus Grisson (Fred Ward), piloto do vôo seguinte, John Glenn (Ed Harris), o primeiro a realizar um vôo espacial tripulado, e Gordon Cooper (Dennis Quaid), o último vôo solitário em órbita ao planeta, que marcou o encerramento do Programa Mercury em 1963, substituído pelo Programa Apollo.
Apesar do exuberante aparato técnico –que poderia perfeitamente ter sido sobrepujado por filmes que vieram depois, como “Apollo 13”, mas, não foi –o grande achado deste filme belíssimo é a maneira à um só tempo terna e sarcástica com que consegue elaborar um amplo painel do quê foi a Corrida Espacial Norte-Americana, com ênfase em percalços humanos e mundanos, vaidades, disputas e expectativas; inclusive jogando uma luz justa e emocionante sobre as esposas e famílias dos astronautas, e suas aflições íntimas dos mais diferentes níveis (como a esposa de John Glenn, que recusava-se a dar entrevistas para indignação da mídia que desconhecia o fato dela ser gaga!).
Há ainda espaço para as manobras políticas freqüentemente mesquinhas e tacanhas –as duas participações do então vice-presidente Lyndon B. Johnson (Donald Moffat) são tão patéticas quanto memoráveis! –para os engenheiros e operários da NASA e suas inúmeras deliberações e confusões e até mesmo para os funcionários encarregados do marketing, insuflados e ao mesmo tempo perplexos com sua extenuante disputa velada com os russos.
Por isso, e pela decisão genial em conceder carinho a cada uma dessas facetas do filme, esta produção maravilhosa atinge três horas de duração –que, eu lhe garanto, vão passar como se fosse uma brisa!
Phillip Kaufman faz uma bela síntese entre a mitologia altiva e reluzente que cerca os astronautas –em muitos aspectos, igualados aos cowboys do Velho Oeste –e as perplexidades do homem comum, num trabalho pontuado por divertido humanismo e irrestrita excelência técnica.