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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Aquaman 2 - O Reino Perdido


 Em 2013, o diretor Zack Snyder dava o estopim inicialmente ao que seria o DCU, o Universo Cinematográfico da DC Comics nos cinemas com “Homem de Aço”, agora, em 2013, esse mal-fadado universo chega ao fim com este “Aquaman 2”, de James Wan, o segundo filme a trazer o herói interpretado por Jason Momoa como protagonista, depois do sucesso do primeiro filme em 2018. Entre esses dois extremos absolutos de tempo –a promessa e a ambição de 2013 e esse final relativamente amargo de 2023 –houve a tentativa de criação de um universo que resultou problemático, afligido pelas interferência dos Estúdios da Warner no processo de criação que levou à obras equivocadas como “Batman Vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Flash”, longe, muito longe do sucesso de público e crítica obtido pelos filmes realizados no mesmo período pela Marvel Studios.

A sensação, portanto, não é de uma espécie de despedida, mas, sim a de possibilidades que não conseguiram ser atingidas. Com esse fantasma a lhe assombrar, o filme de James Wan dá continuidade à trama do filme de 2018 sem a menor predisposição para ousar: Diferente de alguns dos exemplares mais audaciosos que, em algum momento, esse universo produziu (sobretudo, os dirigidos pelo próprio Zack Snyder), “O Reino Perdido” se afasta de qualquer esboço de uma narrativa sombria (e olha que estamos falando de um diretor, James Wan, tarimbado no gênero de terror!), e trilha o caminho fácil, previsível e confortável de uma diversão para toda a família. Se as esperanças artisticamente honoráveis de se criar um universo compartilhado estão todas perdidas, então, ao menos, faça-se um produto vibrante, agradável e acessível, que consiga satisfazer a maior fatia possível do público, assim devem ter pensado seus realizadores.

“O Reino Perdido” começa, assim, com Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, numa vibe caricata que ombreia as patetices de Chris Hemsworth em “Thor-Amor e Trovão”...) em uma posição onde é agora pai, marido, herói e rei –todos títulos obtidos no filme anterior, onde salvou a Terra, sagrou-se rei de Atlântida e casou-se (e teve um filho) com Mera (Amber Heard, com tempo de cena visivelmente reduzido devido ao escândalo envolvendo seu processo contra o ex-marido Johnny Depp nos tribunais). Todavia, oriundo também do primeiro filme, o vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), desejoso de vingança contra Aquaman, adquire o misterioso tridente negro que pertenceu a um monarca de um reino renegado e ancestral dos mares, o chamado Reino Perdido. Tal tridente traz um poder tão grande quanto corruptível: Restaura o funcionamento de maquinários bélicos implacáveis e dá ao seu usuário força de sobra para colocar seus inimigos de joelhos, mas ele leva também o espírito diabólico do antigo rei de Necrus, cujo único objetivo é queimar uma substância de nome Oricalco, capaz de destruir, em poucos dias, todo o eco-sistema do planeta Terra.

Para o Arraia Negra, cuja sede de vingança pelo que Aquaman fez (ele deixou que seu pai morresse) o torna capaz de qualquer coisa, sacrificar a segurança do planeta acaba sendo um preço que ele se dispõe a pagar em troca dos meios adequados para ter sua revanche. Com esse problema nas mãos –e ciente de que, sendo mestiço de humano e atlante, sua responsabilidade é proteger ambos os mundos de onde veio –Arthur deve reencontrar seu irmão Orm (Patrick Wilson, sensacional), prisioneiro desde o filme anterior, quando conspirou uma invasão contra o povo da superfície.

O que o diretor James Wan engendra, a partir daí, é um filme frenético, e acometido de ocasionais piadinhas, acompanhando a relação conflituosa, mas no fim, afetuosa, entre esses dois irmãos, Arthur e Orm, onde eles se unem para encontrar a trilha que os levará aos segredos que ajudarão a sobrepujar o mal. Pela trajetória cheia de perigos que não ameaçam ninguém (pois, sabemos, até pela leveza da narrativa que tudo ficará bem no final), pelos cenários sempre exóticos e selvagens que surgem no caminho dos protagonistas, e pela receita oscilante de ação, humor e suspense de montanha-russa que entrega, o filme lembra muito “Cidade Perdida”, com Sandra Bullock e Chaning Tatum (que, por sua vez, já lembrava o oitentista “Tudo Por Uma Esmeralda”) mesclado à excentricidade visual (e ao exagero digital, por que não) de “Valerian e A Cidade dos Mil Planetas”.

É um bom entretenimento –e o elenco, pleno de carisma, ajuda muito nesse quesito –mas, é absolutamente esquecível. Para um filme que acaba sendo o último suspiro de um universo que almejava ir tão longe, “O Reino Perdido” se revela melindroso em suas opções deliberadamente formulaicas.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Midway - Batalha Em Alto-Mar

As intenções na realização de “Midway” almejadas pelo diretor Roland Emmerich (de “Independence Day”) são tão ambiciosas, amplas e megalomaníacas que todo seu escopo se acomodaria facilmente numa minissérie.
Entretanto, ao optar pelo formato cinematográfico de longa-metragem, ele arriscou-se a encapsular uma narrativa povoada de personagens e de acontecimentos históricos de natureza mais didática que o normal num roteiro hollywoodiano na improvável duração de duas horas e dezoito minutos.
Emmerich, porém, o faz atento às referências pertinentes para a categoria de cinema que adentra: Seu vasto e diversificado elenco traz rostos que parecem escolhidos a partir do mesmo critério usado por Christopher Nolan em “Dunkirk” –atores e atrizes de fisionomia clássica, aparentando realmente indivíduos que viveram na década de 1940. Já, o seu prólogo lembra, não à toa, o início de “Cartas Para Iwo Jima”, de Clint Eastwood, informando-nos que um dos protagonistas, o Oficial de Inteligência Edwin Layton (Patrick Wilson) viveu um período no Japão dos anos 1930; o profundo conhecimento da cultura japonesa e de sua mentalidade estrategista será importante à Layton na década seguinte, quando o Japão já estiver aliado aos nazistas na Segunda Guerra Mundial e, por meio do inesperado ataque à Base Aérea de Pearl Harbor (recriado com grandes semelhanças ao trabalho de Michael Bay no filme “Pearl Harbor”) fazer com que os EUA, até então auto-declarados neutros, ingressem no conflito.
Já fica claro aí, portanto, que em suas pretensões artísticas, “Midway” deseja ser mais abrangente, em termos históricos, do que qualquer superprodução que veio antes dele.
Após o ataque de Pearl Harbor –que ocupa um tempo considerável do primeiro terço se pensarmos que este não é o tema central –o filme trata de, numa sucessão de ganchos histórico-narrativos, introduzir uma série quase interminável de seus demais protagonistas: O piloto audacioso e indisciplinado Dick Best (Ed Skrein, de “Deadpool”) e seu oficial, o tenente Wade McClusky (Luke Evans, de “A Garota No Trem” e “A Bela e A Fera”), ambos servindo a bordo do destróier USS Yorktown comandado primeiro pelo Almirante William Halsey (Dennis Quaid), depois pelo Almirante Raymond Spruance (Jake Weber, de “Madrugada dos Mortos”); e o coronel Chester Nimitz (Woody Harrelson) que ao lado de Layton e de um time de oficias de contra-inteligência tentarão prever a próxima manobra dos inimigos –que, eles têm quase certeza, será uma ofensiva no Mar de Coral e no Atol de Midway a fim de avançar com a frota marítima pelo Oceano Pacífico pegando de assalto o oeste dos EUA.
Aqui e ali, o filme também captura impressões de outros personagens coadjuvantes como a aflição da esposa do piloto Best, Anne (a belíssima Mandy Moore), ou os percalços do humilde auxiliar de mecânico de um dos porta-aviões, Bruno (o cantor Nick Jonas).
Além desses núcleos –que em si já se revelam numerosos e certamente um pesadelo para a montagem (a cargo de Adam Wolfe) –o filme também vai de encontro ao politicamente correto, não obstante seu incontido patriotismo, ao dar expressão e tempo de cena aos oponentes japoneses (um elenco que inclui Tadanobu Asano, de “Tabu”,Etsushi Toyokawa, de “A Espada do Desespero”, e Jun Kunimura, de “Audition” e “Kill Bill”), mostrados com humanidade, indecisão e temor diante da morte tanto quanto seus adversários norte-americanos.
Um filme, como se pode notar, de intenções bastante ambiciosas quanto ao alcance de sua narrativa.
Esse objetivo em parte perde-se devido ao perfil do diretor: Se Roland Emmerich, por um lado, tem plena confiança da abordagem técnica e reconstituição realista que seus departamentos de execução e desenvolvimento fazem das batalhas aéreas e em alto-mar (e, de fato, isso responde pelo apelo maior do filme), por outro, a amplitude de seus interesses esbarra no seu desleixo notório em dirigir adequadamente o grande elenco, na organização nem sempre harmoniosa e perfeita das diversas unidades narrativas e na pouca importância que ele deliberadamente dispõe ao drama humano tornando-o repetitivo, monocromático e redundante.
O gênero do cinema bélico possui um nicho de público que de fato procura estes exemplares mais interessado na pirotecnia do que no bom acabamento dramático, contudo, também existem nele títulos de primeira grandeza cinematográfica como “A Um Passo da Eternidade” e “Tora! Tora! Tora!”, visivelmente as grandes influências para este projeto, que consegue unir a urgência do conflito à ênfase maior no fator humano.
Algo que, aqui, não foi alcançado.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Uma Manhã Gloriosa


Numa manobra comum ao cinema comercial norte-americano –aquela na qual tudo que dá certo pode ser explorado à exaustão –esta comédia pretende ser uma variação de “O Diabo Veste Prada”; dele, inclusive, herda a própria roteirista, Aline Brosh McKenna.
Redicados para se impor por conta própria ele tem: Não apenas a ambientação e a premissa proporcionam a chance de um filme luminosos e original –no lugar do mundo da moda, o universo televisivo cheio de fogueiras de vaidade que queimam em igual intensidade –como também seu diretor, Roger Mitchell, pode ser considerado um especialista em comédias de humor sofisticado: São deles os ótimos “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Vênus”.
Também o elenco tem nomes notáveis. O primeiro deles, a jovem Rachel McAdams, vive a protagonista Becky, uma ambiciosa produtora de TV que se vê nas nuvens quando finalmente escapa da obscuridade dos programas secundários e assume um célebre show de TV nova-iorquino. É claro que tanta satisfação vem com um porém: Os lendários e veteranos apresentadores do show (vividos pelos também lendários e veteranos Harrison Ford e Diane Keaton) se estranham a ponto de declarar guerra um ao outro.
Conciliar os ânimos e as personalidades difíceis dos dois é só o primeiro dos desafios que Becky terá de encarar.
Na narrativa simples e direta que usa, o diretor se mostra confiante no carisma e na desenvoltura de Rachel McAdams no papel, que embora exagere nos trejeitos em muitos momentos segura bem o rojão –mais do que a relação afetuosa e enfadonha que se cria entre ela e o personagem vistoso de Patrick Wilson (e que confere ao filme todas as inflexões típicas de uma comédia romântica) é a química entre McAdms e Harrison Ford (cujos personagens trilham um caminho tortuoso da implicância até a amizade) que ganha, de fato, importância neste filme indeciso entre fazer rir e fazer cativar.
Mais que tudo, é uma prova e tanto de que o velho “Indiana Jones” é um ator com muito mais potencial do que normalmente é explorado.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aquaman

É comum acontecer de diretores oriundos exclusivamente de filmes de terror fazerem trabalhos espetaculares quando lidam com material hollywoodiano –foi assim, por exemplo, com “O Senhor dos Anéis” que ganhou do diretor Peter Jackson um tratamento que conciliou suas muitas facetas num todo primoroso graças à sua capacidade de enfatizar um insuspeito peso dramático.
Essa mesma percepção se repete em “Aquaman”, que o diretor James Wan, vindo dos bem-sucedidos “Invocação do Mal”, trata de eleger, com seu invulgar domínio narrativo, a melhor produção de um personagem da DC Comics até então, passando a frente do ótimo “Mulher Maravilha” e estabelecendo um belíssimo (e ocasionalmente elevado) padrão de qualidade para os claudicantes “Liga da Justiça”, “Batman Vs Superman” e afins.
Por sinal, fica claro na trama que o longa se passa depois dos eventos relatados em “Liga da Justiça” –onde o Aquaman foi de papel essencial –mas, uma breve menção é tudo que o diretor James Wan se presta a fazer; todo o restante do filme pertence ao seu protagonista e à fascinante mitologia que ele construiu com zelo e empenho em torno dele.
Arthur Curry (Jason Momoa, abraçando o protagonismo com um carisma inquestionável) pertence a dois mundos –por um lado, ele é filho da poderosa rainha Atlana (Nicole Kidman, fantástica), por outro, seu pai vem a ser o humilde faroleiro Thomas Curry (Temuera Morrison). Ambos se encontraram quando Atlana se feriu num combate e, à deriva, foi parar no litoral do chamado “mundo da superfície”. Do amor entre o terráqueo e a atlante, nasceu Arthur, um filho do qual ela teve de abrir mão para que os atlantes –sempre hostis e arredios para com o povo da superfície –não viessem atrás dele.
Arthur cresceu alheio e indiferente à sua herança atlante –usando seus poderes, como pudemos notar no filme da Liga da Justiça, para salvar pescadores aqui e ali –até que o guerreiro Vulko (Willen Dafoe), a pedido de Atlana, aparece para treiná-lo.
Assim, Arthur descobre que tem um irmão, Orm (Patrick Wilson, o ator-assinatura de James Wan) e que na sua ausência, é Orm quem subirá ao trono decretando uma guerra contra a superfície que terminará em prejuízo para ambos os lados.
É a belíssima Mera (Amber Heard, uma aparição aqui tanto quando em “All Boys Love Mandy Lane”, que a revelou) que aparece –depois de seu rápido encontro em “Liga da Justiça” –para lhe afirmar que o único meio de deter Orm é reclamando seu direito, como primogênito, ao trono.
Mas, a impulsividade Arthur o coloca em desvantagem contra Orm (e ainda quase lhe custa a própria vida): Para sobrepuja-lo de uma vez, Arthur deve assim encontrar o lendário tridente perdido do primeiro rei atlante.
Sensato, o diretor James Wan estrutura seu roteiro com base nos mais indiscutíveis e certeiros conceitos da jornada do herói, pontuando a partir de um determinado momento a busca por um artefato precioso quase como uma saga de “Indiana Jones” –há, portanto, em seu enredo, todas as reflexões necessárias a respeito de valor, legado, herança e responsabilidade, e ele amadurece seu personagem principal com base nessas características enquanto emoldura nele um filme de rara beleza épica a aportar nos cinemas: Não é exagero afirmar que as batalhas grandiloquentes que ocupam a tela no terço final ombreiam em refinamento e fulgor visual com as memoráveis sequencias de “O Senhor dos Anéis”!
É, pois, algo até irônico: Vítima constante de piadinhas acerca de sua relação com peixes e suas habilidades aquáticas em comparação com os desprendidos Superman e Batman, o atlante Aquaman ganha aqui um filme majestoso, invulgar e antológico que o põe anos-luz à frente das produções recentes daqueles outros heróis, e cuja excelência fará qualquer um engolir em seco ao tentar fazer alguma piadinha sobre ele no futuro.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Invocação do Mal

Saudado pela crítica e público como o melhor filme de terror de 2013 (embora seus competidores não fossem, por assim dizer, fortes), “Invocação do Mal” revelou-se um belo exemplo do domínio de narrativa do diretor James Wan, um verdadeiro especialista no gênero que realizou o primeiro filme da série "Jogos Mortais" (uma das produções que determinou as características de todo um filão de filmes de terror da década de 2000) e o bem-sucedido "Sobrenatural-Insidious".
O que James Wan faz não tem absolutamente nada de inovador: Ele tão somente manipula com precisão e bom senso (essas sim, características raras entre diretores mais jovens) os mesmo elementos explorados com perfeição pioneira no clássico “O Exorcista” –um filme ao qual este “Invocação do Mal” presta um incalculável tributo.
Anos 1970. Renomados demonólogos, o casal Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga, ambos ótimos) especializou-se em esconjurar entidades malignas que perturbavam pessoas comuns nos mais diversos casos, como o célebre episódio da boneca Annabelle –mais tarde, ele próprio transformado num filme.
Embora esta atividade lhes tenha cobrado, por vezes, um preço alto.
Este filme é baseado no que é considerado por eles mesmos, seu caso mais assombroso: A progressão terrível e violenta das aparições de um espírito para uma família americana de classe média, numa casa que antes pertencera a uma mulher acusada de bruxaria.
A despeito da veracidade inconteste e alardeada de sua trama –um fator empregado à exaustão no marketing do filme a fim de valorizar seus sustos –a história, da forma como é apresentada no filme tem inevitáveis reformulações hollywoodianas e liberdades poéticas em prol de uma narrativa fechada e otimista; na vida real, os demonólogos não foram capazes de livrar a família dos espíritos e eles tiveram que simplesmente deixar a casa.

Em tempo: Os casos do casal Warren inspiraram outros filmes mais ou menos conhecidos de terror como “Horror em Amityville” e “Invocando Espíritos”.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Fantasma da Ópera

Bom diretor Joel Schumacher nunca foi mesmo, mas houve um tempo que ele foi um bocado bem sucedido em enganar os estúdios, parte da crítica e parte do público a esse respeito –mais ou menos o período que abrange a década de 1990, que ele iniciou fazendo dois daqueles que são, até hoje, alguns de seus mais satisfatórios trabalhos (os bons “Linha Mortal” e “Um Dia de Fúria”) e que ele terminou sob uma oscilante consagração proporcionada pelo claudicante “Batman Eternamente”, logo seguido do vazio e burocrático (mas inexplicavelmente, bastante amado por alguns admiradores) “Tempo de Matar” –aquele com Sandra Bullock e que revelou Matthew McConaughey... –para, então lançar o catastrófico “Batman & Robin” (tido como um dos piores filmes de toda a História, e com méritos!), e toda e qualquer consideração que ele tinha como cineasta ir pelos ares.
Desde então, Schumacher passou as décadas seguintes buscando uma espécie de redenção, experimentando com todos os gêneros –mas, principalmente procurando um afastamento do esquema hollywoodiano dos grandes estúdios, através de produções de baixo orçamento e maior liberdade criativa como o policial “Oito Milímetros”, o drama de guerra “Tigerland”, o suspense “Por Um Fio”, o drama “Ninguém É Perfeito”, e por aí vai.
Todos passam longe de ser aquele absurdo mal-filmado que manchou sua carreira (exceto “Em Má Companhia”, de 2002, com Anthony Hopkins e Chris Rock, esse é ruim mesmo!), mas nenhum deles revela-se uma obra capaz de resgatar-lhe qualquer moral como realizador.
Ao longo desses anos em que buscou provar sua competência aos outros (e talvez a si mesmo), veio a ser a esplêndida adaptação da peça musical de Andrew Loyd Webber que provavelmente revelou-se o melhor filme de sua irregular carreira –e ironicamente, um dos poucos casos de superprodução que ele realizou para um grande estúdio.
Entretanto, “O Fantasma da Ópera” pulsa de um ímpeto artístico sobrepujando as tendências comerciais, o quê remete muito àqueles grandes trabalhos feitos à moda antiga.
Cantora do coral da famosa ópera de Budapeste, Christine (a inebriante Emmy Rossum) sonha em tornar-se estrela e diva, e também ser reconhecida por seu talento, no que é auxiliada por um admirador das sombras, o misterioso "fantasma da ópera" (Gerard Butler, anos antes da consagração com “300”, mas já ostentando carisma), a quem ela dá inocentemente a alcunha de "anjo da música".
Mas o "fantasma" (na realidade um homem desfigurado que aprendeu na rejeição do mundo exterior a manipular os bastidores como um ilusionista e fez dos túneis e passagens secretas da ópera, o seu reino) deseja que em troca dessa consagração Christine lhe dê seu amor, o quê aparentemente ela já prometeu a um jovem amor da infância (Patrick Wilson que, apesar dos esforços, não se sai muito bem no embate com Butler).
Musicado, com imensa lealdade em abraçar por completo um gênero que já não é mais moda, imodesto em suas três horas de duração, e plenamente confiante no deslumbre visual que seus altos valores de produção conferem (figurinos, cenários e direção de fotografia são de um primor sem fim) é um filme que pede pela entrega irrestrita do público, tal e qual uma grande história de amor. A grande diferença é que Joel Schumacher desta vez –talvez, fruto das pra lá de mal-sucedidas experiências do passado –não ludibria o expectador com um equívoco: Ele faz em “O Fantasma da Ópera” aquilo que promete, amparado em méritos reais e não em imbecilidades; Emmy Rossum é charmosa de verdade, como também é de verdade a voz modulada e poderosa que ela demonstra nas músicas (ela realmente estudou canto); Gerard Butler é um grande protagonista, viril, dilacerado e ao mesmo tempo cativante e sórdido. São escolhas que transformam o filme em um deleite para além da exuberância óbvia que teria um projeto assim.
Depois disso, Schumacher ficou três anos sem filmar, entregou o mediano terror “Número 23”, e mais alguns outros exemplares sem expressão, atualmente, dedica-se a alguns trabalhos de TV.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Pecados Íntimos

É interessante como a narração em off de Will Lyman consegue imprimir um tom perturbador desde o primeiro momento em que podemos ouvir aquela voz grave, narrando os fatos corriqueiros do que transcorre na tela.
Também um ator com participação em filmes como “Twister”, o diretor Todd Field mostrou um agudo senso de estilo quando lançou seu olhar profundo e sem amenidades sobre as angústias internalizadas da classe média norte-americana no impiedoso “Entre Quatro Paredes”. Ele prossegue com essa sondagem incisiva sobre o quê há de pecaminoso e amoral escondido sob aquelas inofensivas casinhas de subúrbio neste “Pecados Íntimos”, como se fosse uma junção de Ingmar Bergman com Douglas Sirk.
Baseado em um livro, ele próprio de um teor polêmico, o filme acompanha duas histórias que seguem quase sempre paralelas, mas que se chocam na seqüência final: Uma delas mostra o cotidiano de uma mãe frustrada com o casamento (Kate Winslet, extraindo excelência do que poderia ser banal) que, ao sair para brincar com sua filha em um parque próximo a sua casa, conhece um homem (Patrick Wilson, de “Watchmen”) e com ele passa a manter uma relação extraconjugal. Ele, também casado, comete uma série de pequenos pecados a fim de evitar a necessidade cada vez mais urgente de tornar-se alguém maduro.
A outra história relata a dura tentativa de readaptação à sociedade de um maníaco sexual (Jackie Earle Haley, também de “Watchmen”, num trabalho espetacular que redefiniu sua carreira), que parece consciente da própria incapacidade em represar sua patologia.
Oscilando entre essas duas tramas (e permitindo-se ramificar através de novos personagens que vão surgindo), a narrativa de Field consegue compartilhar com o expectador um particular interesse nos meandros e fissuras da classe média americana, amparada em um roteiro belamente escrito e executado pelo próprio autor do livro, Tom Perrotta. Como todos os grandes trabalhos dessa tradição cinematográfica (cujo representante maior atualmente, talvez, seja Todd Haynes) esta obra beneficia-se de seu elenco sensacional onde certamente destacam-se a magnífica Kate Winslet, e o impressionante Jackie Earle Haley, além de uma quase participação especial da belíssima Jennifer Connelly.

domingo, 11 de setembro de 2016

Rastro de Maldade

“Bone Tomahawk” –título original –não é um filme para todos. É um faroeste, e tem Kurt Russell, e param por aí as semelhanças com “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino.
Seu diretor e roteirista, S. Craig Zahler, não se mostra interessados em duelos ao pôr-do-sol, os demonstrações romantizadas de honra que fizeram a fama do gênero –seu olhar está o tempo todo voltado para as condições atrozes à que foram submetidos os homens e as mulheres que ousaram tentar sobreviver no Velho Oeste.
É assim que encontramos os personagens principais, moradores da cidadezinha de Bright Hope. O xerife Hunt (Russell, ótimo como sempre) prende um suspeito forasteiro que apareceu no bar local (David Arquette), sem saber que ele profanou um cemitério indígena, dias antes. Na calada da noite, índios aparecem e levam junto com ele uma moça, assistente do médico do lugar e o jovem assistente do xerife.
Dessa maneira, Hunt junta um grupo de resgate, formado por seu idoso assistente, Chicory (Richard Jenkins, fantástico), pelo perplexo –e aleijado –marido da moça, Arthur (Patrick Wilson), e pelo irascível almofadinha Brooder (Mathew Fox), e partem ao encalço dos selvagens, sob o apavorante alerta de que os índios que procuram são primitivos e capazes das mais terríveis atrocidades.
A partir daí, o diretor Zahler não tem pressa em esmiuçar todos os obstáculos naturais e existenciais que surgem frente ao grupo, devastando pouco a pouco sua determinação.
Embora as cenas externas predominem, com a câmera enfatizando a poderosa opressão do desolado horizonte aberto, este é um filme essencialmente intimista; a angústia que brota dos personagens encontra trânsito livre para chegar ao expectador.
Afirmar que este é um faroeste revisionista seria redundante: Ele é um esforço natural –e legítimo, sendo Zahler também um escritor –em transpor um retrato no Oeste muito mais autêntico e realista, despojado e condizente com a realidade, muito mais frequentemente empregado na literatura do que no cinema –onde prevalece o romantismo dos grandes clássicos.

Este grande filme de Zahler não tem espaço para qualquer romantismo, ou mesmo as homenagens referenciais dos faroestes de Tarantino, a não ser que se tome por referência as cenas terrivelmente sangrentas e impiedosas, infligidas aos personagens na parte final, quando enfim encontram os tais índios, e que por vezes parecem saídas do perturbador e brutal “Holocausto Canibal”.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Watchmen

Como na graphic-novel que o originou, há em “Watchmen-O Filme” uma riqueza de detalhes tal que se faz necessário assisti-lo muitas vezes para se capturar tudo, e tentar decifrar a razão de tantos pormenores deixados ali. É um trabalho de narrativa dos mais fascinantes este que orquestra Zack Snyder. 
Se por um lado, ele busca obsessivamente satisfazer a imensa legião de fãs que a clássica história em quadrinhos arrebanhou desde que fora lançada em 1989, com uma fidelidade desconcertante de caracterização, diálogos, enquadramentos de câmera e condução de roteiro; por outro, ele busca a cada cena uma forma de alojar as idéias do escritor Alan Moore numa perfeita narrativa cinematográfica. E nesse sentido, o uso magistral da trilha sonora é só o mais evidente esforço. 
Snyder quer, e para minha admiração muitas vezes consegue, trazer a analogia também para o cinema. E essas implicações só tornam “Watchmen” ainda mais complexo e notável. Snyder tinha em mente, eu acredito, que se a graphic-novel era a mais influente história em quadrinhos de todos os tempos, seria necessário que sua adaptação assimilasse e refletisse essa influência para os próprios filmes que são, eles mesmos, adaptações de quadrinhos, e além deles. 
Por isso, a narrativa de “Watchmen” guardar tantos significados, como o trecho do Vietnam, onde o Dr. Manhattan dizima vietcongues ao som da mesma Cavalgada das Valquírias que se ouve em “Apocalypse Now”; ou os trajes (sobretudo de Ozimandias) com musculatura salientada, praticamente uma alusão ao destoamento do figurino de “Batman & Robin”, famoso por ser um exemplo de como um filme não deve adaptar um gibi, os mamilos salientes dos trajes daquele filme, inclusive, são lembrados (e ganham completamente outro contexto) na vestimenta da maravilhosa Malin Ackerman como Espectral. 
Se há outro filme que parece assombrar “Watchmen” (e existem muitos), esse filme é “Blade Runner”, na estética suja e detalhada de uma realidade alternativa, no comentário ocasionalmente melancólico da trilha sonora, na fusão que faz de ação, existencialismo e ficção científica, no próprio potencial Cult, e sobretudo, na curiosa relação que consegue criar, como obra, com a década de 1980, em muito este filme lembra o primoroso trabalho de Ridley Scott. 
Tudo isso e tantas coisas mais que inevitavelmente escaparão aos olhos. 
Em meio à tudo isso, Snyder ainda encontra tempo de colocar em breves cenas um perversamente evidenciado vislumbre do World Trade Center, como antes era, lembrando que acima de tudo esta é uma história sobre a capacidade atroz do ser humano se auto-destruir, e dá ao ator Jackie Earl Haley a chance de dar um show de interpretação gestual no difícil papel de Roscharch. Ele está magnífico, ainda que elogiar Earl Haley é desmerecer o ótimo trabalho do elenco como um todo em captar o tom certo de cada personagem; a densa tristeza de Billy Crudup como Dr. Manhattan; a perplexa racionalidade de Patrick Wilson como Coruja. A presença inebriante de Malin Ackerman; o charme de Carla Gugino como Sally Jupiter; e a ambigüidade sarcástica de Jeffrey Dean Morgan como Comediante. 
Zack Snyder dá um belo salto de sofisticação e inteligência em relação ao seu bom trabalho anterior, o empolgante “300”.