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sábado, 18 de março de 2017

O Nascimento de Uma Nação

Refilmagem (ou reinvenção, como queiram) de uma das produções pioneiras da sétima arte. Comprado pela Fox Searchlight ainda no Festival de Cinema Independente de Sundance por um valor recorde para a distribuição no circuito comercial. Considerado um dos pré-candidatos favoritos a concorrer e ganhar muitos Oscars na cerimônia de 2017 (o quê não se concretizou devido às acusações de estupro de seu realizador o ator e diretor Nate Parker).
Mas, afinal de contas, “O Nascimento de Uma Nação” é um filme que faz jus ao alarde inicial que ele suscitou?
Pode-se dizer que não: Está longe de ser um trabalho de primeira grandeza, embora tenha sim seus méritos.
Para quem não sabe, “O Nascimento de Uma Nação”, de 1915, dirigido por D. W.Griffith, foi um filme fundamental ao estabelecer as primeiras experimentações de natureza narrativa através do cinema. Em igual proporção ao seu valor enquanto forma de expressão artística era também a controvérsia negativa que sua premissa provocou: A trama, de uma inocência absurdamente vulgar, relatava uma insurreição de negros diabólicas contra uma comunidade do sul, rechaçada por benevolentes cavaleiros brancos, a Ku Klux Khan.
Uma obra, portanto, de teor racista, tendencioso e nauseante, não obstante sua importância para com a arte cinematográfica.
Em 2016, o diretor-roteirista-produtor e ator principal, Nate Parker lançou assim uma nova versão do mal fadado clássico, sob um prisma inverso: Privilegiando e evidenciando o ponto de vista dos escravos rebelados, amparando-se num episódio real, o levante organizado pelo escravo e pregador Nat Turner, que acarretou a morte de dezenas de proprietários de escravos, pouco antes da eclosão da Guerra Civil Americana –episódio no qual, a propósito, o filme de Griffith não se inspirava.
O próprio Nate Parker interpreta Nat Turner, escravo de uma família sulista que tinha a vantagem de saber ler e escrever, o quê levou-o a se tornar pregador religioso depois de adulto. Diversos donos de escravos da região passaram então a valer-se do dom de oratória de Nat para contratá-lo perante seu senhor, o jovem e perturbado Sam (Armie Hammer), para que Nat preguasse evangelhos apaziguadores entre os escravos, tornando-os mais dóceis e subservientes.
Nessas “peregrinações”, Nat se deparou com uma realidade tão dura quando ultrajante, o quê logo fomentou nele uma necessidade de insurgir contra tal opressão.
Sua revolta organizada inicialmente entre oito escravos, mas que logo ganhou novos e numerosos adeptos, durou 48 sangrentas horas até que foram exterminados pelo exército e Nat Turner, após uma breve perseguição, enforcado.
Há toda uma imponência e solenidade no trabalho desenvolvido por Parker. Como ator, especialmente, seu comprometimento é louvável, e em sua direção ele estende esse sentimento para o resto do elenco. Sua condução, entretanto, não tem o vigor necessário para abraçar as facetas nada simples de um projeto como este. Falta-lhe o senso de observação artístico que Steve McQueen ostentava em “12 Anos de Escravidão”, por exemplo, assim como a noção de ritmo, atmosfera e lógica de um Spielberg em “Lincoln”.
Essa indecisão entre ser cinema de arte ou cinema comercial sabota o filme: Parker se mostra negligente em seu ritmo durante boa parte da trama, embora ele se faça fundamental em sua meia hora final. Ele também parece evitar uma postura autoral na composição das cenas, mirando uma platéia mais ampla para seu trabalho, embora seu teor independente pareça pedir por algo assim todo o tempo.
Talvez, sejam as expectativas alimentadas por este projeto desde antes de seu lançamento, os grandes responsáveis pela maior atenção aos seus erros do que aos seus acertos –e tais acertos também existem.
A verdade é que essa percepção algo equivocada e falha já existia antes disso tudo: Na ambição e pretensão de seu realizador.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ilha do Medo

Com a consolidação de sua grande carreira, Martin Scorsese se viu cada vez mais na confortável posição de poder realizar os grandes filmes que sempre fez, ao mesmo tempo em que prestava homenagem a seus ídolos, realizadores que hoje, aos olhos de uma platéia mais jovem e menos afoita a esmiuçar um passado longínquo que lhes é desinteressante, correm o sério e injusto risco de serem esquecidos.
É o caso de, entre outros, o grande Jacques Tourneau, um dos artesãos que ganha uma apaixonada referência neste “Ilha do Medo”, quarta colaboração de Martin Scorsese com o astro Leonardo Dicaprio (as outras três foram “Gangs de Nova York”, “O Aviador” e “Os Infiltrados”, e ainda haveria uma quinta, “O Lobo de Wall Street”) e uma de suas poucas incursões no gênero de terror (outra seria “O Cabo do Medo”), por meio do qual ele resgata uma narrativa preocupada com sugestão e caracterização –elementos em baixa no descerebrado cinema realizado e consumido hoje.
É 1954. Dois agentes federais (interpretados por Dicaprio e Mark Ruffalo) chegam à soturna Shutter Island, manicômio isolado numa ilha remota, famoso por reunir técnicas inovadoras para tratar doentes mentais, e também, por trazer entre seus pacientes criminosos de altíssima periculosidade.
Um mistério paira no ar.
Segundo seu ladino e ligeiramente afetado diretor-chefe (Ben Kingsley, numa atuação cheia de engenhosidade e sentido), uma das pacientes desapareceu de seu quarto, simplesmente como se tivesse evaporado, a despeito da extrema segurança do lugar. Durante sua investigação, os agentes frustram-se ao bater de frente com imposições de protocolo, e com uma estranha apatia de todos a sua volta.
O final, de uma manobra roteirística que soa francamente imprevisível, reitera uma questão subjacente em outro filme estrelado por Leonardo Dicaprio, "A Origem", de Christopher Nolan, no qual, assim como aqui, as diferentes pressuposições de realidade pesam de modo irreversível nas escolhas finais de seus personagens.
A impecável direção de Martin Scorsese deposita muita de sua confiança nas reviravoltas constantes da trama, que reúne psicanálise, traumas de guerra, e elementos sobrenaturais, e se vale de pontas pra lá de significativas de Jackie Earl Haley e Patricia Clarkson.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Pecados Íntimos

É interessante como a narração em off de Will Lyman consegue imprimir um tom perturbador desde o primeiro momento em que podemos ouvir aquela voz grave, narrando os fatos corriqueiros do que transcorre na tela.
Também um ator com participação em filmes como “Twister”, o diretor Todd Field mostrou um agudo senso de estilo quando lançou seu olhar profundo e sem amenidades sobre as angústias internalizadas da classe média norte-americana no impiedoso “Entre Quatro Paredes”. Ele prossegue com essa sondagem incisiva sobre o quê há de pecaminoso e amoral escondido sob aquelas inofensivas casinhas de subúrbio neste “Pecados Íntimos”, como se fosse uma junção de Ingmar Bergman com Douglas Sirk.
Baseado em um livro, ele próprio de um teor polêmico, o filme acompanha duas histórias que seguem quase sempre paralelas, mas que se chocam na seqüência final: Uma delas mostra o cotidiano de uma mãe frustrada com o casamento (Kate Winslet, extraindo excelência do que poderia ser banal) que, ao sair para brincar com sua filha em um parque próximo a sua casa, conhece um homem (Patrick Wilson, de “Watchmen”) e com ele passa a manter uma relação extraconjugal. Ele, também casado, comete uma série de pequenos pecados a fim de evitar a necessidade cada vez mais urgente de tornar-se alguém maduro.
A outra história relata a dura tentativa de readaptação à sociedade de um maníaco sexual (Jackie Earle Haley, também de “Watchmen”, num trabalho espetacular que redefiniu sua carreira), que parece consciente da própria incapacidade em represar sua patologia.
Oscilando entre essas duas tramas (e permitindo-se ramificar através de novos personagens que vão surgindo), a narrativa de Field consegue compartilhar com o expectador um particular interesse nos meandros e fissuras da classe média americana, amparada em um roteiro belamente escrito e executado pelo próprio autor do livro, Tom Perrotta. Como todos os grandes trabalhos dessa tradição cinematográfica (cujo representante maior atualmente, talvez, seja Todd Haynes) esta obra beneficia-se de seu elenco sensacional onde certamente destacam-se a magnífica Kate Winslet, e o impressionante Jackie Earle Haley, além de uma quase participação especial da belíssima Jennifer Connelly.

domingo, 12 de junho de 2016

Lincoln

Daniel Day-Lewis escreveu seu nome na história do cinema como o primeiro intérprete a conquistar três Oscar de Melhor Ator na carreira: Por "Meu Pé Esquerdo", em 1989, por "Sangue Negro", em 2007, e por este "Lincoln" em 2012. O quê acaba sendo um fator que contraria a máxima de que é Robert De Niro o grande ator vivo da atualidade...
Todavia, vamos falar um pouco do filme de Steven Spielberg: Segunda colaboração sua com o roteirista e dramaturgo Tony Kushner (a primeira foi "Munique"), este trabalho ressalta a personalidade poderosa de seu escritor; mais do que Speilberg, é perceptível o olhar agudo, humano e minucioso de Kushner, e seu marcado estilo, na trama que se desenrola em ambos os filmes.
Neste, o ano é 1865. Abraham Lincoln acaba de ser reeleito para seu segundo mandato como presidente dos EUA enquanto a Guerra Civil Norte-Americana vai para seu quarto ano. Mas o presidente reeleito tem específicas ambições para sua nova gestão: não só deseja conseguir a paz de uma guerra da qual todos estão cansados, como planeja obter no Congresso a aprovação da 13ª Emenda, abolindo a escravatura de todos os Estados Unidos, uma manobra complicada, uma vez que a questão do abolicionismo é o cerne da própria guerra. O presidente Lincoln irá valer-se de sua capacidade de dissuasão e engenhosas manobras políticas para obter os votos no congresso, como os quais visa conseguir a paz e a liberdade.
A ironia captura pelo texto de Kushner, e tao bem emoldurada pelo talento superlativo de Spielberg, mostra que o presidente Lincoln, tão puro de intenções e tão imaculado na imagem que é feita dele para o mundo, lançou mão de propinas e corrupção para alcançar seu objetivo: A sequência da histórica votação no congresso da 13ª Emenda é, ela própria, uma aula de cinema em todos os ângulos que possam ser imaginados.
E aí, volta-se sempre à mesma questão, inevitável quando se fala desse filme: Daniel Day-Lewis.
O filme certamente não funcionaria se Spielberg não tivesse achado o ator ideal para o papel, e Day-Lewis faz muito mais que isso: Ele dá uma dimensão preciosa, minimalista e estudada de Lincoln, rica em detalhes e maneirismos que só são notados na segunda ou terceira vez que se assiste ao filme: Com o perdão dos dois ótimos trabalhos anteriores nos quais ele ganhou o Oscar, é este daqui onde Daniel entrega aquela que é sua obra-prima! Fica até sem graça falar do restante do elenco, todos espetaculares, em especial Tommy Lee Jones, mas cujo brilho empalidece diante de seu magnifico protagonista.
 O fato de ser excessivamente político e dialogado não lhe tira brilho algum, por sinal, este primoroso filme de Steven Spielberg, agraciado com a atuação magistral de Daniel Day-Lewis, merece ser descoberto por todo e qualquer expectador avesso à filmes políticos por pensar que são todos "chatos".

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Watchmen

Como na graphic-novel que o originou, há em “Watchmen-O Filme” uma riqueza de detalhes tal que se faz necessário assisti-lo muitas vezes para se capturar tudo, e tentar decifrar a razão de tantos pormenores deixados ali. É um trabalho de narrativa dos mais fascinantes este que orquestra Zack Snyder. 
Se por um lado, ele busca obsessivamente satisfazer a imensa legião de fãs que a clássica história em quadrinhos arrebanhou desde que fora lançada em 1989, com uma fidelidade desconcertante de caracterização, diálogos, enquadramentos de câmera e condução de roteiro; por outro, ele busca a cada cena uma forma de alojar as idéias do escritor Alan Moore numa perfeita narrativa cinematográfica. E nesse sentido, o uso magistral da trilha sonora é só o mais evidente esforço. 
Snyder quer, e para minha admiração muitas vezes consegue, trazer a analogia também para o cinema. E essas implicações só tornam “Watchmen” ainda mais complexo e notável. Snyder tinha em mente, eu acredito, que se a graphic-novel era a mais influente história em quadrinhos de todos os tempos, seria necessário que sua adaptação assimilasse e refletisse essa influência para os próprios filmes que são, eles mesmos, adaptações de quadrinhos, e além deles. 
Por isso, a narrativa de “Watchmen” guardar tantos significados, como o trecho do Vietnam, onde o Dr. Manhattan dizima vietcongues ao som da mesma Cavalgada das Valquírias que se ouve em “Apocalypse Now”; ou os trajes (sobretudo de Ozimandias) com musculatura salientada, praticamente uma alusão ao destoamento do figurino de “Batman & Robin”, famoso por ser um exemplo de como um filme não deve adaptar um gibi, os mamilos salientes dos trajes daquele filme, inclusive, são lembrados (e ganham completamente outro contexto) na vestimenta da maravilhosa Malin Ackerman como Espectral. 
Se há outro filme que parece assombrar “Watchmen” (e existem muitos), esse filme é “Blade Runner”, na estética suja e detalhada de uma realidade alternativa, no comentário ocasionalmente melancólico da trilha sonora, na fusão que faz de ação, existencialismo e ficção científica, no próprio potencial Cult, e sobretudo, na curiosa relação que consegue criar, como obra, com a década de 1980, em muito este filme lembra o primoroso trabalho de Ridley Scott. 
Tudo isso e tantas coisas mais que inevitavelmente escaparão aos olhos. 
Em meio à tudo isso, Snyder ainda encontra tempo de colocar em breves cenas um perversamente evidenciado vislumbre do World Trade Center, como antes era, lembrando que acima de tudo esta é uma história sobre a capacidade atroz do ser humano se auto-destruir, e dá ao ator Jackie Earl Haley a chance de dar um show de interpretação gestual no difícil papel de Roscharch. Ele está magnífico, ainda que elogiar Earl Haley é desmerecer o ótimo trabalho do elenco como um todo em captar o tom certo de cada personagem; a densa tristeza de Billy Crudup como Dr. Manhattan; a perplexa racionalidade de Patrick Wilson como Coruja. A presença inebriante de Malin Ackerman; o charme de Carla Gugino como Sally Jupiter; e a ambigüidade sarcástica de Jeffrey Dean Morgan como Comediante. 
Zack Snyder dá um belo salto de sofisticação e inteligência em relação ao seu bom trabalho anterior, o empolgante “300”.