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quinta-feira, 25 de maio de 2023

Manequim


 Na loja em que Jonathan Switcher (Andrew McCarthy) trabalha, em um mal-explicado expediente noturno, as vitrines inspiradas que ele prepara surgem, por mágica, literalmente! –quem o auxilia é uma das manequins do depósito (!) que ganha vida toda vez que Jonathan se vê sozinho (!?). esse mote mágico e extremamente básico –cujo enredo não fornece maiores esclarecimentos –é o que norteia o curioso clássico da ‘sessão da tarde’ “Manequim”, de 1987, dirigido por Michael Gottlieb.

Há quem diga que “Mannequin” seja uma espécie de refilmagem disfarçada do musical “Vênus-Deusa do Amor”, de 1948, estrelado por Ava Gardner, contudo, se for verdade, muita coisa mudou entre o planejamento e a execução. “Manequim” começa iludindo o público, e dando a entender que fornecerá alguma lógica sobrenatural à premissa francamente mirabolante que haverá de desenvolver. A primeira cena –anterior até mesmo aos créditos em animação que logo se seguem –se situa no Egito Antigo, despido de qualquer caracterização, reconstituição e pesquisa (!), trata-se de um cenário a lembar um filme de Grouxo Marx, no qual a princesa Emmy (a loira Kim Cattrall, longe de qualquer relação étnica com uma princesa egípcia) disfarça-se de múmia a fim de escapar de mais uma briga com a mãe (!?), indignada que está com a pontual rebeldia da filha, o desleixo do marido faraó e os aborrecimentos de ser uma mulher moderna (!!) –nada na cena soa como uma recriação minimamente empenhada de um cenário egípcio, mas sim como a comédia oitentista que ela de fato é. Na sequência ao diálogo pleno de galhofa que se segue, Emmy desaparece sem a menor explicação e o filme começa, saltando para a Nova York dos anos 1980, onde somos de pronto apresentados ao titubeante, bobo e ligeiramente alienado protagonista do filme, o desempregado metido à artista, Jonathan Switcher vivido por Andrew McCarthy, ator recorrente em filmes cômicos daquele período, aqui entregando uma de suas atuações mais estranhas e fora da realidade –fruto, eu acredito, da pouca desenvoltura do diretor Gottlieb –ao mesmo tempo que uma das mais conhecidas.

Swicther é, de fato, um personagem que em muito simboliza algumas características dos anos 1980, para o bem e para o mal –é jovem, demasiadamente ingênuo, a ponto de não enxergar a realidade como ela é, o que o leva a saltar de um emprego a outro sem conseguir adequar-se a nenhum deles; na maior parte dos casos, Switcher é despedido por não se encaixar, em sua avoada atmosfera artística, às exigências das funções. No primeiro dos vários empregos que perde –cuja inconstância faz extinguir a paciência de sua namorada Roxie (Carole Davis, de “Ao Vivo de Bagdá”) –ele dedica tamanho tempo à confeccionar um manequim feito de isopor e madeira, que seu empregador o manda embora por sua lentidão. Dias depois, porém, ele encontra o mesmo manequim –por quem, veja só (!), ele parece nutrir desde já uma inusitada afeição... –enfeitando a vitrine de uma loja de departamentos. Ele consegue ser empregado nessa loja pela proprietária em pessoa, Madame Claire Prince Timkin (Estelle Getty, do seriado enlatado “As Supergatas” e do filme catastrófico de Stallone “Pare! Senão Mamãe Atira”) numa cena que é o mais puro nonsense –ele salva a vida dela ao evitar que seja atingida pela placa de comemoração ao centenário da loja, ficando dependurado na mesma enquanto um cabo elétrico lhe dá choques no traseiro (!?) –e, aos cuidados do pra lá de estranho Hollywood (Meshach Taylor, na mais afetada das muitas atuações afetadas que o filme traz), é incumbido da elaboração das vitrines da loja no turno da noite.

Mas, espere! E quanto à princesa Emmy no começo do filme?  Deveras, ela demora muito a reaparecer o que acaba deixando o filme de Gottlieb com uma desagradável sensação involuntária de estranhamento, e quando o faz, ela aparece para Switcher materializada como a sua tão adorada manequim que ganha vida (!), e que aparece tão somente para ele (!?) –e, se você acha que há uma explicação para isso como um passe de mágica, uma maldição egípcia, ou qualquer outra coisa, fique sabendo que... não! Não há  qualquer explicação do porque ou como a mesma princesa que vimos no prólogo surge transmutada num manequim que, sem razão alguma, ganha vida (e nem vou entrar nos méritos da questão linguística visto que ela era egípcia e aparece em Nova York falando inglês...). Para muitos, uma teoria que confere um mínimo de lógica à este filme –que, obviamente, não se importa em ter lógica alguma –é o fato de que, no aspecto quase catatônico que ostenta do início ao fim (e que vai realmente despertando a suspeita de inúmeros coadjuvantes), o protagonista Switcher talvez realmente seja uma cara meio louco, e o fato de ver, conversar e apaixonar-se pela manequim comprove isso, ainda que o filme assuma seu ponto de vista fazendo parecer que toda essa fantasia romântica seja real, ao menos para ele.

É assim que, todas as noites, enquanto brinca descompromissado com o recém-descoberto amor de sua vida –a manequim Emmy, nas formas bastante cativantes ainda que ligeiramente inadequadas de Kim Cattrall –Switcher recebe a ajuda dela para elaborar vitrines cada vez mais inspiradas que vão transformando-o numa verdadeira estrela dentro da loja, e ao mesmo tempo, acabam despertando a desconfiança e o antagonismo do almofadinha Richards (o versátil James Spader) e do desmiolado vigia noturno Maxwell (G. W. Bayley, o capitão de “Loucademia de Polícia”). E o filme “Manequim” segue assim, irregular em sua comédia (basicamente, nenhuma de suas piadinhas possuem graça, nem tampouco os trejeitos exagerados de todo o elenco de modo geral), incerto em sua proposta (afinal, o roteiro não esclarece as razões pelas quais tudo se passa, e consequentemente, não oferece uma compreensão de onde tudo isso irá levar), funcionando, quando muito, como romance graças à química relativamente boa entre McCarthy e Kim, atores jovens e carismáticos, colocados em personagens, infelizmente, destituídos de alguma profundidade.

Por essas e por outras razões, até hoje fãs inadvertidos do filme procurando um significado implícito no desfecho –quando a manequim é ‘roubada’ da loja a fim de que seus concorrentes possam barganhar a contratação do agora notório artista Switcher (anos 1980, sabe como é, segue o baile...), e seu corpo inanimado cai numa esteira prestes a jogá-la dentro de um triturador, eis que Switcher parece conseguir, no último instante, salvá-la, fazendo com que a força de seu amor (ou algo assim,presume-se) transforme-a definitivamente em mulher de carne e osso, mesmo que agora diante dos olhares alheios (até então, toda a vez que alguém olhava para ela, exceto Switcher, ela convertia-se em manequim), propiciando o inevitável final feliz aos pombinhos. (Por sinal, a cena final, do casamento realizado dentro da vitrine da loja, traz o que talvez seja o melhor e mais acertado elemento do filme, a canção “Nothing’s Gonna Stop Us Now”, do Starship, que chegou a ser indicada ao Oscar 1988!)

Acontece que, segundo a interpretação (até mesmo mórbida) por parte de alguns, nesta cena, tanto Switcher como sua adorada manequim Emmy de fato caíram no triturador vindo ambos à morrer –todavia, como ‘ver’ a realidade nunca foi o forte do protagonista, ele não se deu conta de que morreu, imaginando no além-vida, um final feliz junto de sua amada, agora contemplada pelos outros personagens à sua volta, sendo que na verdade, ela nunca deixou de ser uma manequim de fato.

É uma explicação bastante cruel e até perversa para um filme que provavelmente não teve maiores deliberações no planejamento de sua premissa, de qualquer forma, a sua maneira, “Manequim” parece, hoje, uma espécie de precursor para “Uma Noite No Museu”, com Ben Stiller, no qual também, um funcionário noturno vê elementos inanimados de seu trabalho adquirirem vida por expedientes mágicos, sem que ninguém ao seu redor consiga perceber o mesmo. “Manequim” é um filme que envelheceu tremendamente mal na comparação com outras obras dos anos 1980 que permanecem ainda capazes de divertir com seu humor e encantar com suas emoções, coisa que este insípido filme de Gottlieb não faz, entretanto, em sua época, ele foi capaz de agradar público o suficiente para fazer sucesso e ganhar uma continuação em 1991, “Manequim-A Magia do Amor”, a qual muitos expectadores confundem com este filme original.

domingo, 19 de abril de 2020

Tuff Turf - O Rebelde

O conceito, e por que não o personagem principal também, de “Juventude Transviada” servem aos propósitos narrativos deste filme do diretor Fritz Kiersch –um jovem lidando com problemas pessoais na ebulição de seus hormônios e de seu temperamento –contudo, como tal filme trata-se de uma aventura escapista bastante típica dos anos 1980, o ‘rebelde sem causa’ é convertido aqui numa espécie de superherói estudantil oposto a um grupo maligno de vilões que nada mais são do que deliquentes que ameaçam os alunos de um colégio suburbano.
O que afasta a realização do banal é que seu diretor abraça a união desses conceitos em princípio incompatíveis (o herói cujos recursos servem a uma cruzada contra seus inimigos, representantes inconfundíveis das forças do mal; e o drama juvenil de precisar se impor num ambiente completamente novo e hostil) e constrói, com isso, uma aventura pulsante, orgânica e vibrante sobre jovens em rota de colisão.
Se existem reflexões –a analogia da luta de classes, talvez –elas se perdem em redundância diante da condução envolvente que é obtida aqui.
Ostentando algum carisma e alguma autoridade –e assim, fazendo alguma justiça à memória de James Dean –o jovem James Spader empresta certa segurança ao protagonista Morgan Hiller, um jovem de famíla rica vindo de Connecticut, cuja falência do pai o leva a mudar-se para a Califórnia –e, por conta disso, para uma espécie diferente da escola com a qual estava acostumado.
Todavia, como é providencialmente sugerido numa citação feita logo no começo (“Grandes espíritos encontram violenta oposição”), a nova escola será um teste de fogo: O lugar é dominado por gangues de delinquentes e, de pronto, o porte de Morgan já lhes inspira imediato antagonismo.
Não que ele não faça amigos –o deslocado jovem vivido por um iniciante Robert Downey Jr. é um deles –mas, seus inimigos são mais emblemáticos: O líder da gangue, Nick (Paul Mones, à beira da histeria), vira praticamente seu inimigo mortal –animosidade intensificada quando Morgan começa a flertar (e é correspondido!) com a namorada dele, Frankie (Kim Richards).
Analisado com imparcialidade –e descontando a mágica transfiguração da nostalgia da década de 1980 –“Tuff Turf” é uma realização vasta em elementos questionáveis: Os diálogos do roteiro, em especial, são particularmente mal elaborados; espera-se o tempo todo que alguma informação relevante vá sair da boca de algum personagem, algum indício de suas motivações, algum detalhe mais elucidativo do passado do protagonista em Connecticut onde vivia como burguês (diferente da mudança de vida em Los Angeles), mas não há absolutamente nada. É, no entanto, a direção de Fritz Kiersch que impõe um estilo por meio do qual o filme consegue se fazer memorável: Na natureza juvenil e eletrizante do triângulo amoroso central, na concepção colorida e deliberadamente afetada de inúmeras cenas que, por isso mesmo, ficam na memória (a coreografia insana nas cenas de dança, sobretudo, aquela em que Kim Richards chama a atenção numa danceteria; os vários enfrentamentos do herói contra os delinquentes) e na dramatização quase operística que é feita de intrigas e desavenças suburbanas que ganham aqui ares épicos do embate do bem contra o mal.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Vingadores - A Era de Ultron

É claro que após o êxito espetacular obtido com o primeiro filme dos “Vingadores”, a Marvel Studios manteria as coisas exatamente como estavam, a fim de não mudar a maneira acachapante com que seus filmes vinham tomando as bilheterias de assalto.
Leia-se: Tal e qual o primeiro filme, Joss Whedon continuaria a cargo do roteiro e da direção da segunda grande reunião dos heróis da Marvel.
Haviam, porém, algumas variáveis. A primeira: Os Vingadores –e todo o contexto que levava, de uma forma ou de outra, à sua junção, já não era novidade. Como também não era novidade, os filmes-solo que antecipavam esse evento –tudo isso já tinha sido mostrado, e com perícia, nos filmes da primeira fase.
A segunda: Joss Whedon, praticamente, engatou a execução do segundo filme, tão logo terminado o primeiro (minto, ele realizou, entre os dois uma adaptação semi-teatral, pequena, modesta e quase imperceptível de uma obra de Shakespeare, “Muito Barulho Por Nada”).
E sua exaustão é visível no desgaste da narrativa.
É assim que, numa continuação quase direta (e ligeiramente desleixada) dos eventos transcorridos em “Capitão América-O Soldado Invernal”, encontramos os Vingadores reunidos para o quê parece ser o último confronto com as forças remanescentes da organização diabólica Hidra (desmascarada pelo próprio Capitão América naquele filme).
Contudo, a crescente preocupação do inventor Tony Stark (Robert Downey Jr.) para com as intermináveis aflições do mundo –somadas aos perigos alienígenas que ele mesmo vislumbrou no filme anterior dos Vingadores –o levam a criar uma inteligência artificial denominada Ultron (personificado pelos movimentos e pela voz do ator James Spader), que não tarda a se rebelar contra os próprios Vingadores, partindo da dedução lógica (para uma máquina) que é a Humanidade a grande ameaça ao planeta Terra.
Ninguém disse que seria fácil para Whedon dar segmento ao seu excepcional trabalho em “Os Vingadores”.
“A Era de Ultron” termina sendo um exemplar bastante indicativo de tudo o que funciona e do que não funciona no método de trabalho dele; Whedon é muito melhor como roteirista que como diretor, mas ele próprio sabotou as chances de seu filme evoluir perante o anterior ao tomar a decisão (que reverbera em todos os filmes do Universo Marvel) de ignorar o vilão Thanos (esboçado no primeiro “Vingadores” e reservado para o terceiro filme) e partir aqui para uma trama de aspecto quase aleatório, sem a mesma importância nas estruturas de história do que o primeiro filme tinha.
Nota-se que a forma com que Whedon trabalha o humor é repetitiva em relação ao outro filme, e bem menos eficiente. Ele buscou dar um tratamento mais sombrio à premissa (encontrando na direção de fotografia de Ben Davis, um auxílio formidável), mas suas decisões afetam a condução, o tom e até mesmo uma certa coerência inerente aos seus personagens –Escolhas lamentáveis como o romance que entrelaça Bruce Banner (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff (Scarlet Johansson), a maneira com que emprega os personagens da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e do Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson), ou mesmo do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), ou as piadinhas fora de hora ou de lugar minam o valor do filme como um todo, revelando as brechas de uma narrativa que não se conclui.
O resultado, de fato, acabou aquém de quaisquer expectativas, entregando um filme redundante, problemático e carente de frescor, ainda que mantivesse lá seus momentos divertidos –como produtora, a Marvel Studios não se permitiu a concepção de um produto de baixa qualidade.
Ainda que este seja um de seus títulos menos memoráveis, ele continua bem acabado, fluido em seu ritmo, bonito em seu visual, e empolgante em sua ação.
A Marvel Studios aparentemente aprendeu a lição: Os filmes posteriores à “Era de Ultron” apresentavam, todos, um tratamento diferenciado (visível desde o seu marketing), nada repetitivo, e ciente da evolução que a história e os personagens dentro desse universo precisavam experimentar.
E Joss Whedon, bem, ele foi descansar. Substituído, no comando do terceiro “Vingadores” pelos talentosos Irmãos Anthony e Joe Russo (de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Guerra Civil”).
Que eles façam algo grande!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sexo, Mentiras e Videotape

   Este brilhante e austero trabalho do ainda jovem diretor Steve Sodenbergh que, por seu domínio prodigioso de cena e impecável condução da trama conquistou a Palma de Ouro em Cannes em 1990, faz parte de uma tríade de grandes obras lançadas no fim da década de 1980 e começo da de 90 que promoveram uma transformação na percepção comercial e artística que público e crítica tinham então do cinema independente norte-americano: Foram elas, além deste “Sexo, Mentiras e Videotape”, “Faça A Coisa Certa”, de Spike Lee, e “Drugstore Cowboy”, de Gus Van Sant.
   O filme de Sodenbergh foi aquele que mais se beneficiou da generosidade das premiações do período, embora, por curiosidade, seu realizador viesse a encarar um consideravelmente longo período sem fazer nada relevante depois dele –foram necessários inúmeros projetos depois para que Sodenbergh voltasse a integrar, na década seguinte, com a sua bem-sucedida primeira parceria com George Clooney, o suspense “Irresistível Paixão”, a lista dos grandes diretores de Hollywood.
    Mas, isto é divagação. Voltemos ao filme em questão: Na trama ligeiramente inspirada em Douglas Sirk, mas carregada de um pertinente ímpeto de transgressão e renovação, Sodenbergh mergulha suas lentes (com indelével necessidade analítica) sobre as atitudes do bem-sucedido advogado John (Peter Gallagher) que mantém, ao mesmo tempo, um relacionamento distante com Ann, sua esposa frígida (Andie McDowell, mais linda do que nunca), e um caso adúltero com Cynthia, a cunhada fogosa (Laura San Giacomo), até que chega então um amigo dos tempos de escola, Graham (James Spader, numa sensacional e inspirada atuação), obcecado em gravar em vídeo os depoimentos mais íntimos das mulheres que conhece.
   Impotente, Graham encontra sua verdadeira fonte de excitação sexual ao assistir as imagens nas quais as mulheres com quem cruzou expõem suas experiências, confessam suas impressões acerca do sexo e revelam intimidades. Ele acaba assim se tornando um agente catalisador para uma série de reviravoltas que se operam a partir de seu envolvimento com o núcleo inicial de personagens.
     Esse viés ratifica a superficialidade de John, a fragilidade de Cynthia, e especialmente, o ímpeto de Ann, através da qual as mudanças mais dramáticas serão percebidas.

domingo, 12 de junho de 2016

Lincoln

Daniel Day-Lewis escreveu seu nome na história do cinema como o primeiro intérprete a conquistar três Oscar de Melhor Ator na carreira: Por "Meu Pé Esquerdo", em 1989, por "Sangue Negro", em 2007, e por este "Lincoln" em 2012. O quê acaba sendo um fator que contraria a máxima de que é Robert De Niro o grande ator vivo da atualidade...
Todavia, vamos falar um pouco do filme de Steven Spielberg: Segunda colaboração sua com o roteirista e dramaturgo Tony Kushner (a primeira foi "Munique"), este trabalho ressalta a personalidade poderosa de seu escritor; mais do que Speilberg, é perceptível o olhar agudo, humano e minucioso de Kushner, e seu marcado estilo, na trama que se desenrola em ambos os filmes.
Neste, o ano é 1865. Abraham Lincoln acaba de ser reeleito para seu segundo mandato como presidente dos EUA enquanto a Guerra Civil Norte-Americana vai para seu quarto ano. Mas o presidente reeleito tem específicas ambições para sua nova gestão: não só deseja conseguir a paz de uma guerra da qual todos estão cansados, como planeja obter no Congresso a aprovação da 13ª Emenda, abolindo a escravatura de todos os Estados Unidos, uma manobra complicada, uma vez que a questão do abolicionismo é o cerne da própria guerra. O presidente Lincoln irá valer-se de sua capacidade de dissuasão e engenhosas manobras políticas para obter os votos no congresso, como os quais visa conseguir a paz e a liberdade.
A ironia captura pelo texto de Kushner, e tao bem emoldurada pelo talento superlativo de Spielberg, mostra que o presidente Lincoln, tão puro de intenções e tão imaculado na imagem que é feita dele para o mundo, lançou mão de propinas e corrupção para alcançar seu objetivo: A sequência da histórica votação no congresso da 13ª Emenda é, ela própria, uma aula de cinema em todos os ângulos que possam ser imaginados.
E aí, volta-se sempre à mesma questão, inevitável quando se fala desse filme: Daniel Day-Lewis.
O filme certamente não funcionaria se Spielberg não tivesse achado o ator ideal para o papel, e Day-Lewis faz muito mais que isso: Ele dá uma dimensão preciosa, minimalista e estudada de Lincoln, rica em detalhes e maneirismos que só são notados na segunda ou terceira vez que se assiste ao filme: Com o perdão dos dois ótimos trabalhos anteriores nos quais ele ganhou o Oscar, é este daqui onde Daniel entrega aquela que é sua obra-prima! Fica até sem graça falar do restante do elenco, todos espetaculares, em especial Tommy Lee Jones, mas cujo brilho empalidece diante de seu magnifico protagonista.
 O fato de ser excessivamente político e dialogado não lhe tira brilho algum, por sinal, este primoroso filme de Steven Spielberg, agraciado com a atuação magistral de Daniel Day-Lewis, merece ser descoberto por todo e qualquer expectador avesso à filmes políticos por pensar que são todos "chatos".

domingo, 20 de dezembro de 2015

Crash - Estranhos Prazeres


Um filme de David Cronenberg costuma ser inconfundível. 
Tomemos “Crash-Estranhos Prazeres” como exemplo: Lá estão os corpos humanos deformados por ocorrências ambientes e que parecem exercer um certo fetiche ao olhar da câmera; está também a narrativa cadenciada, pautada pelos enquadramentos distanciados e frios que criam um clima quase atemporal; e a profunda análise das aptidões fisiológicas do ser humano, definidas, em grande parte pela própria perversão que jaz em sua psique.
Na trama, um indivíduo em princípio comum e urbano (James Spader), sofre um acidente de carro que lhe estraçalha a perna. Já no hospital, ele toma contato com um médico (Elias Koteas) profundamente interessado (fascinado até) com as suas sequelas físicas do acidente, e se torna amante da mulher (Holly Hunter) sobrevivente do outro carro (cujo marido morreu no acidente) a despeito do vida sexual ativa que leva com sua própria mulher (a sensual Deborah Kara Unger).
Logo, essa obsessão por catástrofes automobilísticas, surgida após a experiência do acidente, irá se manifestar numa procura por grupos obscuros (dos quais o médico faz parte) que reproduzem acidentes de carro reais como combustível de seu fascínio.
Cronenberg registra as nuances desses comportamentos com estilizado simbolismo, como lhe é inerente como realizador, impondo inclusive, a trilha sonora de Howard Shore como uma recordação  vivaz dos elementos que nunca escapam ao trauma dos acidentados: os sons que remetem às colisões de carro. Embora seja sempre óbvio que não interessa a Cronenberg explorar o drama humano de uma tragédia: Seu real interesse parece estar na gênese da sexualidade distorcida que nasce a partir disso, e passa a definir seus personagens desde então, mesmo aqueles que foram atingidos apenas indiretamente pelo exaspero da experiência, como a esposa interpretada por Deborah.
"Crash" é, portanto, um dos grandes exercícios de estilo que Cronenberg entregou nos anos 1990, uma obra nascida de uma inqueitação profunda, e de uma visão no mínimo singular da condição humana.