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quarta-feira, 16 de agosto de 2023

WandaVision


 Não deixa de ser um problema para a Marvel Studios o fato de que, quando decidiu adentrar com mais propriedade o terreno das séries de TV, produzindo obras conectadas ao seu Universo Cinematográfico da mesma forma que já o fazia há mais de dez anos (e com largo sucesso) no cinema, isso se deu já entregando seu mais brilhante produto: Primeira das tantas séries e minisséries que saíram com exclusividade na plataforma Disney +, “WandaVision” permanece sendo a mais inteligente, a mais inovadora e, por que não, a mais cativante.

Dirigida (e muitíssimo bem!) por Matt Shakman e dona de uma desafiadora estrutura narrativa que em princípio faz dela uma espécie de homenagem da Marvel aos sitcoms televisivos norte-americanos, “WandaVision” começa com seu primeiro episódio em preto & branco (a evocar seriados antigos dos anos 1950 como “I Love Lucy” e “The Dick Van Dyke Show”) trazendo com certa galhofa inocente os personagens de Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen, sensacional) e Visão (o ótimo Paul Bettany) chegando à cidadezinha de Westview, em New Jersey, e lá se instalando, na busca pela rotina de um casal de classe média normal, coisa que eles não são: Visão (a despeito de arrumar trabalho num escritório banal cujos procedimentos não lhe fazem muito sentido) é um poderoso sintozóide artificial, enquanto que Wanda (embora desempenhe o papel de uma dona de casa satisfeita e dedicada) é uma feiticeira de abrangente controle sobre a realidade.

O segundo episódio já remete às séries dos anos 1960, com nítida inspiração em “A Feiticeira” (até mesmo a abertura em animação é referenciada), enquanto que o terceiro, já adornado de cores, segue o padrão das séries dos anos 1970. Ao longo dessa evolução estilística, uma trama também se desenvolve: Wanda e Visão fazem o possível para viver com tranquilidade em família –ignorando, na medida do possível, que ambos foram Vingadores e que participaram da árdua batalha contra Thanos em “Guerra Infinita” e “Ultimato”, de onde o Visão saiu morto (!), mas... não vamos nos apressar.

Conforme seu dia-a-dia nesse subúrbio idealizado se desenrola, vemos Wanda também engravidar, dar à luz a seus filhos gêmeos Billy e Tommy (Julian Hilliard e Jett Klyne), que crescem absurdamente rápido até a idade de dez anos (!), e ainda receber a visita de seu irmão velocista Pietro (!), ainda que este tivesse morrido (!!) em “Vingadores-A Era de Ultron” (contudo, nesse filme, o personagem era vivido por Aaron Taylor Johnson, enquanto que aqui, num genial lance metalinguístico, ele é vivido por Evan Peters que deu vida ao mesmo personagem em “X-Men Dias de Um Futuro Esquecido”), sempre sob a presença insistente e histriônica da vizinha enxerida Agnes (Kathryn Hahn, de “Glass Onion”).

Contudo, assim como começa a ocorrer com o expectador, não tarda para que o Visão note algo de muito estranho nisso tudo: Nada faz muito sentido naquela harmonia perfeita e artificial que partilham. É em algum momento entre o terceiro e o quarto episódios que “Wanda Vision” começa a surpreender ainda mais o público ao revelar a personagem de Monica Rambeau (a maravilhosa Teyonah Parris), uma agente governamental que infiltrou-se dentro da simulação sobrenatural que é Westview –e penso estar, agora, adentrando os spoilers da trama, visto que muito do que relatar a partir daqui haverá de esbarrar nas sensacionais surpresas reservadas por este enredo até a finalização dos nove episódios.

Apesar dessa inusitada e ousada proposta –valer-se de um formato estendido de seriado televisivo para homenagear e parodiar as próprias séries de TV, sua estrutura clássica e seus clichês de gênero (inclusive os infalíveis ‘saquinhos de risada’), enquanto desenvolve uma trama mais intrincada e complexa na qual os papéis de vilã e heroína, no que diz respeito à protagonista, são colocados em notável perspectiva –“WandaVision” é assombrosamente fluído e compreensível; quando todas as peças começam a se encaixar, não restam pontas soltas, e se torna cristalina a belíssima continuidade que os realizadores deram a estes personagens, Wanda e Visão, normalmente relegados à coadjuvantes em produções anteriores, mas que aqui, alçados à protagonistas, têm a chance de evidenciar os ótimos e riquíssimos personagens que são, e os maravilhosos intérpretes que lhes dão vida.

A trajetória de Wanda Maximoff, à propósito, é retomada no longa-metragem para cinema “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” que, diferente deste primoroso trabalho, cede com mais facilidade à obviedade de fazer dela a vilã da história, entretanto, voltando à esta minissérie: Lá no fundo, “WandaVision” ousa também fazer um bonito e significativo comentário sobre o luto, construindo a referência narrativa da progressão de sua história –e gradual descoberta do expectador de todo o mistério –em torno das suas cinco fases: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação.

A Marvel Studios começou de tal maneira sublime sua contribuição em séries de TV que nenhuma outra produzida –mesmo aquelas que seguiram excelentes –foi capaz de ombrear o brilhantismo de “WandaVision”.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Doutor Estranho No Multiverso da Loucura


 Nos quadrinhos, as inúmeras tramas paralelas que se sucedem e que convergem, muitas vezes, aos mesmos personagens, ambientes e situações raramente acabam despertando nos fãs a minúcia para encontrar detalhes contraditórios ou erros de continuidade. É curioso, pois que, em sua bem-sucedida tentativa de levar esse mesmo status narrativo ao cinema, a Marvel Studios, volta e meia, se defronte com esse problema: Fãs, um tanto quanto chatos e minimalistas, apontando esta ou aquela imperfeição nas amarras de suas histórias.

Já contando mais de vinte produções em sua filmografia –além de algumas séries! –a Marvel começa a enfrentar esta e outras velhas questões, já antigas nos quadrinhos, a respeito de quanto material o expectador deve assim ter conhecimento para compreender na íntegra o filme que irá ver no cinema. E a verdade a ser encarada, hoje, é que... não, não há como assistir a tudo, saber de tudo, ter conhecimento de tudo. E, se esse é um fato bem aceito aos leitores de quadrinhos, com o tempo, os expectadores de cinema, ainda que bem mais exigentes, terão de aceitar também.

Tomemos “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” como exemplo. A princípio, as maiores referências adotadas em sua trama são o filme “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, com participação do Dr. Estranho (o ótimo Benedict Cumberbatch) e do qual é continuação quase direta, a série “WandaVision” que, em função da participação fundamental de Wanda Maximoff (a sensacional Elizabeth Olsen), acaba também dando continuidade à sua trama, e a série “Loki”, cuja abordagem do Multiverso, ainda que indiretamente, influencia todos os desdobramentos que veremos neste filme; e não tenha dúvidas, em outros projetos futuros também! Há também de se considerar o primeiro “Doutor Estranho” –a introdução, afinal, de muitos dos personagens presentes aqui –e o próprio “Vingadores-Ultimato” –ponto crucial para quase todas as histórias desenvolvidas pela Marvel daqui para frente –mas, a verdade é que, dentro em breve, será impossível acompanhar a tudo.

Como ocorre nos quadrinhos, meu conselho é o expectador  desencanar e curtir a viagem, aproveitar a trama, construída pelos roteiristas a fim de ser o mais satisfatória possível bastando em si mesma, mas certamente dependente (e referente) a várias outras vindas antes e depois. Os enredos da Marvel Studios serão, assim, uma miríade de narrativas que acontecem para frente (os filmes vindouros), para trás (os filmes que já foram feitos) e para os lados (alguns casos de obras que se passam quase simultaneamente aos eventos deste), e aos poucos, se não foram todos conferidos, com tempo, haveremos de descobrí-los.

“Multiverso da Loucura” traz Stephen Strange às voltas com uma jovem literalmente única: America Chavez (a carismática Xochiti Gomez) dotada do raro poder de teleportar-se entre uma realidade paralela e outra. Tal poder a torna alvo de ninguém mais, ninguém menos que Wanda, a Feiticeira Escarlate, que desde os eventos atribulados de “WandaVision” –onde sequestrou toda uma cidade para criar uma ilusão feliz onde vivia ao lado do trágico Visão (Paul Betany) e de seus dois filhos pequenos, materializados pelo poder incomensurável de sua magia –almeja pegar os poderes de America para si a fim de reaver seus filhos perdidos, nem que seja tirando-os de outra realidade alternativa.

Na batalha que se segue, Estranho é obrigado a valer-se inadvertidamente dos poderes de America –os quais ela não sabe controlar –e pular para outros universos, tentando escapar de Wanda.

Astuta que só, a Marvel Studios vale-se desse mote para presentear os fãs com momentos vibrantes e referências a outros personagens, numa manobra um pouco parecida com a aparição-surpresa de Andrew Garfield e Tobey Maguire em “Sem Volta Para Casa”. Uma dessas surpresas –só para ficarmos naquelas que os expectadores já tinham ideia de antemão –é a presença de Charles Xavier (Patrick Stewart), o Professor X, anunciando que, em algum lugar do horizonte, os X-Men estão bem próximos de aparecer no Universo Marvel.

E quanto ao filme em si? Embora inquieto, envolvente, visualmente esplendoroso e tecnicamente impecável, é necessário guardar as devidas proporções ao apreciarmos “Multiverso da Loucura”, sobretudo tendo como expectativa os incondicionalmente arrebatadores “Vingadores-Guerra Infinita” e “Ultimato”. A Marvel, como foi dito em outras ocasiões, estabeleceu com com esses dois trabalhos, um patamar tão alto que representa um desafio, e um empecilho, para todas as produções que vieram depois deles igualar tamanha excelência. E com “Multiverso da Loucura” não é diferente. A saída, um tanto brilhante, da Marvel Studios aqui é focar na diferenciação; este novo filme estrelado por Stephen Strange é, pela primeira vez no UCM, um filme de terror, cortesia da desenvoltura de gênero do diretor Sam Raimi, substituindo o diretor anterior, Scott Deriksson (aqui como produtor executivo). De um estilo forte e personalíssimo –o que curiosamente não colide com as predisposições muito comerciais da Marvel –Raimi (que realizou, além dos cultuados filmes de série “Evil Dead”, a “Trilogia Homem-Aranha” com Tobey Maguire e o primeiro “filme-quadrinho” da era moderna, “Darkman-Vingança Sem Rosto”) acrescenta à narrativa os elementos que tanto ama trabalhar, como os movimentos inusitados de câmera, os jump-scares, e o apreço por ícones tenebrosos como zumbis (o desfecho final é impagável!), olhos fulgurantes de possessão (Elizabeth Olsen, grande atriz, consegue ficar assustadora apesar da grande beleza) e um senso de humor muito peculiar a temperar toda essa morbidez.

A assinatura de Raimi, assim sendo, é nítida e constante neste filme, embora ele seja, nítida e constantemente, um filme também da Marvel Studios.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Terra Selvagem

Aclamado roteirista de “Sicario” e “A Qualquer Custo”, Taylor Sheridan assume também a função de diretor neste novo roteiro que também reúne em cena os ótimos Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, respectivamente, o Gavião Arqueiro e a Feiticeira Escarlate da Marvel Studios, no entanto, tão bons e talentosos eles são que não tarda ao expectador esquecer esse detalhe e reconhece-los pelos personagens que vivem aqui.
Jeremy é Cory Lambert, um caçador de predadores naturais que trabalha nas amplas e gélidas imediações selvagens de uma reserva indígena no Wyoming. Habilmente, os primeiros minutos de filme nos emergem na circunstância dramática do protagonista, um pai ainda a chorar pela morte da filha; marido incapaz de lidar com o luto da esposa (uma descendente dos nativos) e, portanto, dedicado de corpo e alma ao trabalho, ode parece encontrar uma espécie de harmonia.
Essa harmonia sofre um abalo quando Cory encontra o cadáver de uma jovem indígena –outrora amiga de sua filha –com marcas do que parece ter sido uma agressão; a jovem, contudo, morreu de aflições provocadas pelo frio extremo.
De uma postura obtusa em relação ao que se passa nas reservas indígenas, as autoridades enviam para o caso uma agente do FBI quase principiante, ainda que dedicada, Jane Banner (Elizabeth), que não demora a notar a habilidade nata de Cory para extrair pistas fundamentais dos indícios da neve.
Ao lado dele e do chefe de polícia tribal Ben (Graham Greene, de “Dança Com Lobos”) eles formam uma parceria na tentativa de elucidar o caso.
Com isso, a narrativa de Sheridan explora com riqueza as três facetas dramaticamente relevantes relacionadas aos protagonistas: A morte da garota que, para Cory, reflete as circunstâncias da morte da própria filha, e que o instigam, assim, a usar suas assombrosas capacidades de rastreamento para perseguir o assassino; a luta da jovem agente Banner (numa evocação à “O Silêncio dos Inocentes”) buscando se impor num ambiente rude que a ignora e a subestima; e o algo resignado chefe de polícia, a frente da investigação de um crime para o qual ele sabe que (como tantos outros) as autoridades viraram as costas –o filme de Taylor Sheridan, em sua observação cuidadosa e criteriosa aponta o dedo para o descaso experimentado pelos povoados nativos no âmbito da jurisdição penal.
Ainda que haja brilho e relevância nesse aspecto, “Terra Selvagem” jamais se acomoda nele: Prefere, em vez disso, exercitar sua própria excelência cinematográfica se fazendo eficaz em seu drama; tenso e palpitante em seu suspense; e elaborado e intrigante na medida certa em sua trama policial.
O resultado desse acerto em tantas instâncias é um filmaço.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Godzilla


A vontade do ótimo diretor Garreth Edwards em emular Steven Spielberg é tanta que ele a extrapola: As cenas que sugerem a presença do famoso monstro nas quais mais se sugere do que se mostra remetem imediatamente às cenas elaboradas em “Jurassic Park” e principalmente em “Tubarão”.
Jovem e talentoso, Edwards (cujo crédito como realizador do interessante e independente “Monstros” certamente viabilizou seu passe para este projeto) compreendeu que havia a necessidade de uma referência cinematograficamente mais salutar nesta nova versão do cultuado lagartão hipônico depois da péssima produção de 1998, dirigida por Rolland Emmerich.
E Edwards dá a cara à tapa: Honra não apenas as lições de Spielberg como também realiza uma cena inteira com a arrepiante trilha sonora de Ligety para “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Kubrick; confere ao seu filme um elenco povoado de rostos não só famosos, mas indiscutivelmente competentes (o japonês Ken Watanabe, a inglesa Sally Hawkins, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, Julliete Binoche); e finca o pé numa caracterização absolutamente fiel ao Godzilla no designer que ele se apresenta nos filmes originais –mesmo aqueles que padeciam de uma produção rudimentar.
Um longo prólogo (que dura mais do que o necessário) mostra os personagens de Cranston e Binoche (que infelizmente não têm tempo de tela o bastante) às voltas com uma estarrecedora descoberta dele: Após sucessivas pesquisas, uma raça desconhecida de monstros que se alimentam de radiação, os Mutos, é descoberta (e despertada) no Japão.
Anos depois do ocorrido –que a própria corporação envolvida no caso mantém cercada de mistério –e com as investigações à cargo do filho dos envolvidos naquele ocorrido (o papel de Aaron Talor-Johnson), os monstros retornam, agora nos dias atuais, novamente reanimados por radiação. E desta vez, sua sanha de destruição se revela implacável e inacobertável!
Ao mesmo tempo, surge uma criatura abissal e imensurável: o Godzilla. Rastreando esses perigos catastróficos em potencial, as autoridades norte-americanas elaboram o único plano possível: confrontá-los com suas mais poderosas armas.
Entretanto, a saída talvez esteja em permitir que o próprio Godzilla dê cabo de todos eles.
Além da luxuosa produção –que não poupa esforços ao estender a trama para diversos continentes numa notável escala global –e da sua peculiar percepção das cenas de destruição, bem como a forma pouco usual de reger o drama, que conferem sabor ao filme, o trabalho de Edwards ostenta uma nítida intenção de afastar-se às comparações com o “Godzilla” de Emmerich, e nesse esforço de se levar a sério acaba gerando uma estranha incongruência entre a sisudez de sua narrativa (e na seriedade compenetrada de seus intérpretes) e a natureza escapista do filme; Godzilla, afinal, ainda é um lagarto gigante de obras com apelo infanto-juvenil de matinê.
Se falta algum senso de humor para lembrar esse detalhe, o filme de Edwards ao menos compensa esse estoicismo com um belíssimo refinamento.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Histórias de Amor


Quando o ator principal assume também a função de diretor –e nelas embute, conjugadas, todo seu repertório profissional na ênfase da atuação –as comparações com Woody Allen já se fazem inevitáveis; quando a trama então dá margem à especulação dos conflitos de um relacionamento, fica indisfarçável.
É um pouco esta a situação de Josh Radnor (um dos atores da série “How I Meet Your Mother”) nesta obra: O fato dele querer brincar de Woody Allen e dá arriscada comparação a que ele e seu filme se submetem.
Entretanto, ele se sai até que bem ao realizar uma obra sensível e de luz própria.
Jesse, seu personagem, é um nova-iorquino de trinta anos imerso nas reflexões usuais trazidas pela vida: Olha para trás com nostalgia pela juventude que passou, e sente, à frente, uma insegurança algo infantil pelo seu futuro, ou sua velhice.
Sua crise existencial se aprofunda um pouco mais quando Peter (Richard Jenkins), um de seus mais estimados ex-professores, o convida para participar da cerimônia de aposentadoria na mesma universidade onde estudou nos anos 1990.
Os novos ares embriagam Jesse. E ele conhece novos personagens que proporcionam uma avaliação em relevo de sua vida: Há Zibby (Elizabeth Olsen, mais maravilhosa impossível), uma jovem aluna cuja compatibilidade afetiva e cultural chega a atemorizar o próprio Jesse (devido à diferença de idade entre os dois); Dean (John Magaro) um jovem sensível e inteligente, cujas aptidões intelectuais o estão conduzindo para regiões negras da própria personalidade; Nat (Zac Efron), um maluco beleza –e o personagem mais divertido do filme –que aparece nos momentos mais inusitados, sempre com um mantra filosófico na ponta da língua; e a Prof. Fairfield (Alisson Janney, charmosíssima) que, em suas aulas sobre Literatura Romântica alimentou tanto essa verve esperançosa de Jesse no passado, mas que agora não tem outra coisa a lhe oferecer senão cinismo.
Radnor faz com que todos esses personagens e suas considerações pairem ao redor do protagonista como observações pertinentes sobre as variações da vida: Todos eles são fragmentos emocionais e racionais do próprio Josh Radnor e, nesse sentido, sua narrativa assume um ritmo apropriadamente sereno para acompanhar essa trajetória, onde o protagonista caminha titubeante em direção a sua concepção de amadurecimento.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Old Boy - Dias de Vingança

Era inevitável que, em algum momento, o cinema comercial norte-americano olhasse em direção à indústria de cinema da Coréia do Sul em busca de material para ser refilmado. Eis que o escolhido terminou sendo um dos clássicos modernos de Chan Wook Park, o primoroso "Old Boy", ainda que os realizadores americanos tenham deixado de lado o fato de que o filme era o capítulo do meio da sua celebrada "Trilogia da Vingança".
Incumbido de tal audácia, o diretor Spike Lee realizou um filme peculiar se analisarmos suas características como contador de histórias: Veterano diretor de obras no geral independentes como “Faça A Coisa Certa”, “Malcolm X” e “Febre da Selva”, Lee, junto de seus engajados discursos raciais promove normalmente um contexto firmemente definido em seus filmes, sejam eles baseados em histórias reais ou não. Percebe-se com exatidão e insistência em que lugar e em qual época se dão as premissas que Lee narra.
Com “Old Boy”, ele fez diferente.
Não há uma definição muito clara no roteiro escrito por Mark Protosevich (de “Doutor Estranho” e “Eu Sou A Lenda”) a respeito da cidade onde os acontecimentos se passam: Poderia ser qualquer lugar, em qualquer canto do mundo. É curiosa (e rara, em sua carreira) a forma com que Lee aborda o material –como uma fábula!
Os esforços de sua direção, assim como do astro Josh Brolin são visíveis, entretanto, o terreno que eles adentram continua sendo pantanoso: "Old Boy" não era apenas uma grande história narrada com correção; o diretor Chan Wook Park lapidou seu filme até chegar à perfeição em termos de ritmo e atmosfera.
Daí, ser uma tarefa impossível tentar igualar a excelência com que é contada a história de Joe Doucet (Josh Brolin, fazendo o possível), um larápio e mau-caráter que é misteriosamente capturado em meados de 1989, e preso em um quarto de hotel, dentro do qual ficará nas próximas duas décadas.
Talvez, ciente do patamar inalcançável estabelecido pelo filme original, o diretor Spike Lee tenha abordado o enredo de outra forma. O quê explica melhor algumas mudanças.
Após quase vinte anos, Joe Doucet é libertado do quarto onde ficou sob a vigilância de Chaney (Samuel L. Jackson, num personagem quase imperceptível no filme original). E será a partir do próprio Chaney que ele iniciará sua árdua investigação para tentar descobrir as razões do homem que o prendeu, contando com a ajuda de uma jovem e bela enfermeira (a linda Elizabeth Olsen, protagonista de "Martha Marcy May Marlene" e a Feiticeira Escarlate de "Capitão América-Guerra Civil", que brinda o filme com uma belíssima cena de nudez).
Como no filme original sul-coreano, a grande questão será justamente as razões pelas quais se deu o seu confinamento, e com qual propósito seu nêmesis (Sharlto Copley, num personagem completamente bizarro) fez isso.
E cadê a temática normalmente inflamada de cunho social e racial que Spike Lee pontua seus filmes? Cadê o seu estilo ácido e pessoal? Aonde está, afinal, a razão de ser deste projeto e (mais do que isso) a razão de haver um diretor como Spike Lee (e não qualquer outro) em seu comando?
Na maneira destituída de alicerces de realidade com que Lee concebe seu filme, “Old Boy” é uma analogia e ao mesmo tempo uma parábola. Fala, sobretudo, das paranóias presumivelmente vazias que o homem branco alimenta sem necessidade: Para Spike Lee, os brancos não têm qualquer razão do que reclamar (e este filme trás o que provavelmente é o elenco mais numerosamente caucasiano já reunido por Lee), e quando o fazem são por razões ilusórias, perplexidades fantasiosas que estão apenas em suas mentes. São os negros que têm problemas de fato –e, aqui, eles são representados pelo personagem de Samuel L. Jackson, Chaney, um operativo do submundo cuja função é manter as engrenagens do mundo, seja esse mundo qual for, girando; não é à toa que, ao desfecho onde entrega a estarrecedora reviravolta final (que o filme sul-coreano já tratou de tornar lendária), Spike Lee acrescenta um breve e complacente epílogo, no qual o protagonista regressa para o mesmo quarto, sob pleno consentimento de Chaney de que lá deve ficar, a remoer seu tormento.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Vingadores - A Era de Ultron

É claro que após o êxito espetacular obtido com o primeiro filme dos “Vingadores”, a Marvel Studios manteria as coisas exatamente como estavam, a fim de não mudar a maneira acachapante com que seus filmes vinham tomando as bilheterias de assalto.
Leia-se: Tal e qual o primeiro filme, Joss Whedon continuaria a cargo do roteiro e da direção da segunda grande reunião dos heróis da Marvel.
Haviam, porém, algumas variáveis. A primeira: Os Vingadores –e todo o contexto que levava, de uma forma ou de outra, à sua junção, já não era novidade. Como também não era novidade, os filmes-solo que antecipavam esse evento –tudo isso já tinha sido mostrado, e com perícia, nos filmes da primeira fase.
A segunda: Joss Whedon, praticamente, engatou a execução do segundo filme, tão logo terminado o primeiro (minto, ele realizou, entre os dois uma adaptação semi-teatral, pequena, modesta e quase imperceptível de uma obra de Shakespeare, “Muito Barulho Por Nada”).
E sua exaustão é visível no desgaste da narrativa.
É assim que, numa continuação quase direta (e ligeiramente desleixada) dos eventos transcorridos em “Capitão América-O Soldado Invernal”, encontramos os Vingadores reunidos para o quê parece ser o último confronto com as forças remanescentes da organização diabólica Hidra (desmascarada pelo próprio Capitão América naquele filme).
Contudo, a crescente preocupação do inventor Tony Stark (Robert Downey Jr.) para com as intermináveis aflições do mundo –somadas aos perigos alienígenas que ele mesmo vislumbrou no filme anterior dos Vingadores –o levam a criar uma inteligência artificial denominada Ultron (personificado pelos movimentos e pela voz do ator James Spader), que não tarda a se rebelar contra os próprios Vingadores, partindo da dedução lógica (para uma máquina) que é a Humanidade a grande ameaça ao planeta Terra.
Ninguém disse que seria fácil para Whedon dar segmento ao seu excepcional trabalho em “Os Vingadores”.
“A Era de Ultron” termina sendo um exemplar bastante indicativo de tudo o que funciona e do que não funciona no método de trabalho dele; Whedon é muito melhor como roteirista que como diretor, mas ele próprio sabotou as chances de seu filme evoluir perante o anterior ao tomar a decisão (que reverbera em todos os filmes do Universo Marvel) de ignorar o vilão Thanos (esboçado no primeiro “Vingadores” e reservado para o terceiro filme) e partir aqui para uma trama de aspecto quase aleatório, sem a mesma importância nas estruturas de história do que o primeiro filme tinha.
Nota-se que a forma com que Whedon trabalha o humor é repetitiva em relação ao outro filme, e bem menos eficiente. Ele buscou dar um tratamento mais sombrio à premissa (encontrando na direção de fotografia de Ben Davis, um auxílio formidável), mas suas decisões afetam a condução, o tom e até mesmo uma certa coerência inerente aos seus personagens –Escolhas lamentáveis como o romance que entrelaça Bruce Banner (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff (Scarlet Johansson), a maneira com que emprega os personagens da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e do Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson), ou mesmo do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), ou as piadinhas fora de hora ou de lugar minam o valor do filme como um todo, revelando as brechas de uma narrativa que não se conclui.
O resultado, de fato, acabou aquém de quaisquer expectativas, entregando um filme redundante, problemático e carente de frescor, ainda que mantivesse lá seus momentos divertidos –como produtora, a Marvel Studios não se permitiu a concepção de um produto de baixa qualidade.
Ainda que este seja um de seus títulos menos memoráveis, ele continua bem acabado, fluido em seu ritmo, bonito em seu visual, e empolgante em sua ação.
A Marvel Studios aparentemente aprendeu a lição: Os filmes posteriores à “Era de Ultron” apresentavam, todos, um tratamento diferenciado (visível desde o seu marketing), nada repetitivo, e ciente da evolução que a história e os personagens dentro desse universo precisavam experimentar.
E Joss Whedon, bem, ele foi descansar. Substituído, no comando do terceiro “Vingadores” pelos talentosos Irmãos Anthony e Joe Russo (de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Guerra Civil”).
Que eles façam algo grande!

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Capitão América - Guerra Civil

A sequência de filmes que a Marvel Studios vem entregando desde 2008, não serve apenas e tão somente para quebrar recordes de bilheteria, felizmente, ela serve também para eles se aprimorem a cada produção. Melhorando. Superando cada filme para no seguinte fazer algo ainda mais instigante, mais aprofundado em relação aos seus heróis, e ao modo como percebem e são percebidos pelo mundo à sua volta.
Nem sempre funciona, como se pode conferir em “Vingadores-A Era de Ultron”, não um filme ruim, mas problemático.
Em seus acertos, porém (e eles são muito mais freqüentes que seus erros), a Marvel entrega obras vibrantes, que não só representam todo o conceito do que um filme comercial realmente deve ser, mas também demonstram um bom senso raro e requintado no tratamento dos personagens. Se “Capitão América-O Soldado Invernal” já era um dos títulos no qual isso se expressou com mais primor, então “Capitão América-Guerra Civil” orquestrado pelos mesmos diretores Anthony e Joe Russo faz jus ao alardeado título de “melhor filme da Marvel até aqui”.
Ele é, e com muito mais honras do que se pode imaginar.
Quando “Guerra Civil” começa, vemos que a formação dos Vingadores permaneceu a mesma desde o final de “A Era de Ultron” (e aí percebemos nos Irmãos Russo uma coerência que faltou no diretor e roteirista Joss Whedon naquele filme; a capacidade de manter-se conectado à lógica que norteia cada um dos filmes e que define os personagens, sem desvirtuá-los de uma produção para a outra).
Não tarda para que o Secretário de Defesa dos EUA, o General Ross (Willian Hurt, oriundo do filme “O Incrível Hulk”, lá de 2008), os confronte com um dilema: Após os acontecimentos catastróficos dos últimos filmes –e que têm à rigor, os Vingadores como protagonistas –a ONU cria um tratado que obriga os heróis uniformizados a prestar contas ao governo mediante suas ações. Ou seja, obedecer ordens, o quê implica salvar quem eles mandam salvar, e deixar de lado qualquer outra ação não autorizada.
O Capitão América (Chris Evans, em um ótimo trabalho) deseja ser guiado somente por seu altruísmo e não por interesses políticos, e por isso diz não. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr., mostrando valer cada centavo de seu cachê milionário) deseja espiar um pouco da culpa que lhe consome pelos atos do robô Ultron (que era, afinal de contas, criação sua) e por isso diz sim.
Uma ruptura então ocorre no Universo Marvel Cinematográfico como o conhecíamos, com cada herói indo para um lado da discussão.
Se há uma decisão genial em “Guerra Civil” é a de não santificar nem demonizar nenhum dos lados: ambos estão certos, e ambos estão errados. É a mesma premissa (porém empregada em um conceito diferente) que fez o maior sucesso nos quadrinhos da Marvel quando uma saga de mesmo nome foi publicada à pouco mais de uma década.
Até mesmo o vilão de fato deste filme espetacular, o Barão Zemo (aqui, coronel, interpretado por Daniel Bruhl) adquire motivações que o humanizam.
Em meio à tudo isso, os Russo ainda demonstram um controle elegante e apurado da imensa diversidade de personagens e poderes que têm em cena, num show de direção que até outro tempo era privilégio somente de Bryan Singer e seus X-Men: Além do Capitão América e do Homem de Ferro, há também a Viuva Negra (Scarlett Johansson, fantástica), o Pantera Negra (Chase Bosewick, surpreendente), o Falcão (Sam Wilson), o Soldado Invernal (Sebastian Stan), o Visão (Paul Betany), a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), o Máquina de Combate (DonCheadle), o Homem Formiga (Paul Rudd, hilário) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), cada um deles com um arco próprio e uma importância própria dentro da trama (e é necessário ressaltar aqui o modo engenhoso com que isso é feito com o Pantera Negra).
Há mais uma personagem além desses, e ele responde por um dos mais genuínos sorrisos de satisfação que o expectador dará no cinema em 2016: O Homem Aranha, interpretado com minúcia espantosa e brilhantismo flagrante por Tom Holland –que me perdoem os anteriores Tobey Maguire e Andrew Garfield, mas este jovem é a melhor versão cinematográfica do Homem Aranha de todos os tempos, e consegue fazer isso tudo em meros quinze minutos!

Por fim, pode-se registrar outro feito, também raro, que os Irmãos Russo e a Marvel Studios obtiveram de um filme comercial: O de conseguir fazer o expectador sair eufórico de dentro do cinema, e querendo muito mais, de um filme que excede duas horas de duração.

sábado, 10 de outubro de 2015

Martha Marcy May Marlene

O olhar da câmera do jovem diretor Sean Durkin busca um registro frio de ambientes por meio dos quais a impressão de ar rarefeito irá igualar o transtorno íntimo da protagonista.
Seu registro passa longe do que se pressupõe por convencional, e seu propósito é o questionar normas narrativas que damos como tão certas.
A jovem Martha (a acachapante Elizabeth Olsen), durante dois anos, perdeu contato com a família (que por motivos trágicos e nunca devidamente esclarecidos, resume-se a sua irmã mais velha, vivida por Sarah Paulson).
Nesse tempo, ela esteve no que parece ser uma espécie de seita ou culto, onde algumas jovens incluindo ela, por livre e espontânea vontade submetiam-se à uma estranha e totalitária filosofia de vida, de natureza brutalmente patriarcal, controlada pelo carismático e ameaçador Patrick (John Hawkes, excelente).
Lá, a rotina de Martha –que ao ser recebida ganhou outro nome –envolvia submissão forçada, estupros e uma estranha noção de liberdade.
A verve inteligente, de valores cartesianos, de Patrick revelou-se convincente a despeito de muitos momentos questionáveis que ela testemunhou.
Somente após uma tragédia, o discurso de Patrick soou, para Martha, aquilo que afinal ele era: Uma doutrina demagógica e torpe, declamada por alguém cuja loquacidade servia apenas para disfarçar o próprio egocentrismo.
Uma vez livre desse julgo, ela retorna ao convívio com a irmã, só para descobrir que o período em que esteve distante deixou profundas e poderosas seqüelas em seu psicológico. 
Indo e vindo no tempo e embaralhando a percepção cronológica tanto para sua protagonista quanto para a platéia, Sean Durkin, a partir da premissa desigual e intrigante de seu curta-metragem "Mary Lust Seen", cria um filme igualmente disperso, enigmático e desafiador que muito lembra Michael Haneke e seu "Código Desconhecido". 
Mas seu grande mérito é mesmo a atuação rica e primorosa da jovem Elizabeth Olsen.