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domingo, 4 de maio de 2025

Thunderbolts*


 Quando a Marvel Studios lançou a pra lá de bem-sucedida dobradinha, “Vingadores-Guerra Infinita” e “Vingadores-Ultimato”, em 2018 e 2019, não imaginava estar criando uma verdadeiro cilada para si mesma e para suas vindouras produções a serem elaboradas futuramente –ao conceber duas obras que, em si, atingiam ápices cinematográficos antes inimagináveis, a Marvel estabeleceu um patamar altíssimo, padrão para as expectativas que seu público teria em relação à obras que viessem depois.

Embora realmente tenham havido, depois disso, filmes oscilantes em qualidade –e desse fato alimentar uma constante e aborrecida discussão sobre a saturação das adaptações de histórias em quadrinhos junto ao público –a Marvel ainda conseguiu, vez ou outra, entregar algo de qualidade. Afinal, para cada presepada como “Thor-Amor e Trovão”, havia um passatempo satisfatório como “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, para cada deslize como “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania” ou “As Marvels”, havia um belo trabalho como “Guardiões da Galáxia Vol. 3” ou “Deadpool & Wolverine”.

Bem, em 2025, a Marvel Studios, se não foi capaz de fazer “Capitão América-Admirável Mundo Novo” tão memorável quanto seus pares, ela conseguiu, com este “Thunderbolts*” entregar aos expectadores tudo aquilo que, no geral, sempre deles se espera –uma obra vibrante, com personagens cativantes e envolventes do início ao fim, bem conjugada no manejo de uma trama que oscila, com desenvoltura e descontração, entre a ação, o humor e o drama.

Grupo clandestino e marginalizado de anti-heróis nos quadrinhos da Marvel –mais ou menos que é “O Esquadrão Suicida” na DC Comics –os Thunderbolts são, tal e qual os Vingadores, uma junção de vários personagens, oriundos de diversos filmes e séries que a Marvel Studios foi produzindo ao longo dos anos; com o adendo de que, diferente dos heróicos e nobres protagonistas à toda prova de antes, agora temos aqui personagens ambíguos, sobreviventes no limiar de suas próprias falhas traumáticas, das experiências defeituosas e das trajetórias torpes que a cada um foi imposta. E o diretor Jake Schreier (de "Cidades de Papel") espertamente soube ancorar esses elementos um tanto quanto diferenciais na narrativa absorvente, política e intrigante que conduz com seu filme.

Pode-se partir do princípio que o eixo em torno do qual “Thunderbolts*” gira é Yelena Belova (Florence Pugh, maravilhosa), a ‘Nova Viúva Negra’, introduzida no Universo Marvel em “Viúva Negra”, sendo irmã adotiva de Natasha Romannof, a Viúva Negra ‘original’, e amargurada desde a morte desta em “Ultimato” –Yelena assume, em “Thunderbolts*”, um protagonismo que Natasha jamais teve a chance de ter num filme dos Vingadores. Além dela, seu ‘pai’, Alexei Shostakov (David Harbour), o Guardião Vermelho, surge como o grande alívio cômico do filme, roubando com carisma inabalável, muitas das cenas em que aparece. Operando nas sombras, e agindo com a ambivalência moral que pouquíssimas vezes vimos em Natasha, Yelena vai finalmente deixando para trás o luto pela irmã, enquanto começa, pouco a pouco, a questionar as missões nebulosas designadas a ela por Valentina Allegra de Fontaine (Julia Loius-Dreyfus, perniciosa feito uma cobra!). Executiva de alto nível em Washington, e encarregada da C.I.A., Valentina enfrenta, no Senado, uma tentativa de impeachment capitaneada, entre outros, por Bucky Barnes (Sebastian Stan, cada vez mais sensacional), devido às atividades nada ortodoxas do Serviço de Inteligência durante a sua gestão. Para continuar no jogo do poder e evitar o impeachment, Valentina vale-se de Yelena para ‘queimar arquivos’ referentes às inúmeras experiências ilícitas que andou autorizando para criar toda uma nova geração de superhumanos a fim de substituírem os tão saudosos Vingadores.

É assim que Yelena termina numa base de operações científicas longínqua, encrustrada numa montanha, onde aparentemente deve dar cabo da Fantasma (Hannah John-Kamen), uma operativa com poder de intangibilidade cuja origem foi revelada em “Homem-Formiga e A Vespa”. No entanto, lá Yelena encontra também o Agente Americano, John Walker (Wyatt Russell), o ex-Capitão América mostrado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”, enviado para neutralizá-la, além da Treinadora (Olga Kurilenko), também vista em “Viúva Negra” –e, após alguns atritos, todos chegam à conclusão de que foram para lá despachados a fim de se matarem, pois, como tudo o mais, eles são indícios vivos das travessura ilegais que Valentina tem autorizado por baixo dos panos, e devem ser, assim, eliminados. Junto deles, há também o misterioso Bob Reynolds (Lewis Pullman, filho do ator Bill Pullman) cuja atitude normal e amedrontada esconde o fato de que foi cobaia numa experiência que pode fazer dele um dos seres mais poderosos do Universo Marvel: O Sentinela.

Adentrar mais na trama de “Thunderbolts*”, que se desdobra para muito além disso, seria revelar spoilers que certamente comprometeriam a diversão –e fica, portanto, aquela orientação básica, usual à todo lançamento de um filme da Marvel Studios, de evitar a internet (e os spoilers) até que se tenha visto o filme!

Adornado de um clima sombrio e fatalista que poucos filmes da Marvel em geral chegaram a adotar –até porque, neste caso, isso reflete bastante as personalidades alquebradas e em constante conflito pessoal dos anti-heróis aqui reunidos –“Thunderbolts*” é dirigido e roteirizado com primordial atenção à essas facetas desiguais de seus personagens, levando em conta cada uma de suas motivações para a composição do arco de história que os fará uma equipe e os colocará, no clímax fabuloso, na improvável condição de heróis –e por mais que Yelena e Bucky possuam um respaldo de protagonismo muito maior na importância final, todos aqui têm seu momento.

É um consenso entre crítica e público que “Thunderbolts*” é um grande acerto da Marvel Studios, resta saber se eles seguirão conseguindo atender as difíceis exigências de seu público nos próximos projetos –e pelo menos um desses projetos ganha aqui um gancho narrativo e tanto na sua empolgante cena pós-créditos!

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Capitão América - Admirável Mundo Novo


 Embora persiga o tempo todo a atmosfera conspiratória do excelente “Capitão América-O Soldado Invernal”, este “Brave New World” dá continuidade realmente aos eventos mostrados em “O Incrível Hulk” (de um já longínquo 2008) e “Eternos” (de 2021). Quando reencontramos o protagonista, Sam Wilson (Anthony Mackie), ele já veste o manto de Capitão América a pelo menos quatro anos –desde que assumiu esse legado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”. Sua missão é deter a negociação envolvendo um item desconhecido entre a Sociedade da Serpente, chefiada pelo inescrupuloso Coral (Giancarlo Esposito), e um comprador misterioso. Já aí, a narrativa concebida pelo diretor Julius Onah (de “The Cloverfield Paradox”) orquestra vários pontos de partida (como é de praxe, muitos deles extraídos dos quadrinhos originais) para buscar um todo mais sólido e exuberante, ainda que, ao contrário do que fizeram (e muito bem) os Irmãos Russo nos filmes predecessores, essa solidez e essa exuberância nunca cheguem, de fato, a aparecer.

Se de um lado temos Sam Wilson e seus válidos esforços em corresponder às expectativas dele esperadas como Capitão América –não apenas ao substituir a grande e inspiradora presença de Steve Rogers, mas também ao representar um herói tão icônico sendo também um homem negro a trazer consigo à reboque toda uma questão de representatividade racial –do outro, temos o General Thadeus Ross (vivido por Harrison Ford, substituindo o falecido William Hurt, intérprete anterior do personagem) cuja fama de irascível ele procura avidamente deixar de lado por conta de A) reatar os laços com a filha, Betty (Liv Tyler), em frangalhos desde que ele caçou, por anos, o Hulk, assim como outros heróis, e B) honrar seu novo cargo de presidente eleito dos EUA perante o povo norte-americano.

Para tal intento, Ross quer se aproximar de Sam Wilson, sobretudo, após a bem-sucedida missão em recuperar o tal item desconhecido (que havia sido roubado de aliados japoneses), entretanto, novas complicações tornam a afastá-los: Acontece que o Celestial petrificado em pleno oceano em “Eternos”, vem a ser constituído de um novo minério que as potências mundiais identificaram como tão resistente (ou até mais!) que o cobiçado vibranium de Wakanda, o adamantium. De olho nessa nova riqueza, vários países forjam uma tênue aliança com os EUA, mas um atentado na Casa Branca –perpetrado por Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um ex-supersoldado veterano, ao que tudo indica sob controle mental –pode colocar tudo a perder, e deixar os EUA à beira de uma guerra.

A tarefa deste novo Capitão América em seu primeiro filme solo é, portanto, complicada: Provar a inocência de Isaiah, descobrir quem é o misterioso vilão manipulador que aparentemente está por trás de tudo isso, e deter uma crise política de proporções globais. Tudo isso, contando com a ajuda do novo Falcão, Joaquim Torres (Danny Ramirez), uma vez que o próprio Presidente Ross, como sempre, mostra-se alguém de difícil relação –em especial, por conta do segredo que o liga ao tal vilão manipulador, e que pode levar Ross a uma metamorfose inesperada como a ameaça conhecida por Hulk Vermelho –e, embora desse detalhe seja resguardado para o trecho final do filme, ele não é nenhuma surpresa, uma vez que dominou por completo o material promocional do filme nos últimos meses antes de sua estréia. Grave problema de marketing: Certamente, se a questão envolvendo o Hulk Vermelho e sua aparição no clímax de “Brave New World” tivesse sido guardado exclusivamente para ser visto nos cinemas (como foi feito com as aparições dos Homens-Aranhas, Tobey Maguire e Andrew Garfield, em “Sem Volta Para Casa”) a empolgação provocada pelo filme seria exponencialmente maior.

Como está, “Brave New World” não é um filme ruim, longe da irrelevância maçante de “As Marvels” ou da afetação lastimável de “Thor-Amor & Trovão”, e Anthony Mackie se esforça genuinamente para ser um herói com dignidade e valor, no entanto, os predicados desta produção –leia-se, roteiro (fragmentado e mal-amarrado em muitos momentos) e direção (burocrática e incapaz de evidenciar sequências mais memoráveis) –ficam muito aquém das obras nas quais se inspira e às quais tenta a todo o custo igualar: Os excelentes filmes estrelados pelo Capitão América anterior, Steve Rogers (Chris Evans).

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Os Vencedores do Globo de Ouro 2025


 Eu ainda insisto nesse hábito de chamar a premiação de Globo de Ouro, quando na verdade, imprensa, crítica especializada e público já chamam Golden Globe... mas, a despeito disso, tivemos uma ideia, neste domingo dia 5 de janeiro de 2025, dos prováveis favoritos à temporada de prêmios em geral, e ao Oscar em particular, ou será que não? E no meio disso tudo, um bem-vindo sopro de orgulho para nós, brasileiros!

Vamos lá, às categorias de cinema:

MELHOR FILME DE DRAMA

O Brutalista

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Emilia Pérez

MELHOR DIREÇÃO

Brady Corbet (O Brutalista)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Adrian Brody (O Brutalista)

O favoritismo até então claudicante de “Emilia Pérez” confirmou-se com suas quatro vitórias no Globo de Ouro –incluindo a categoria de Filme em Língua Não Inglesa, derrotando o Brasil –o mesmo parece valer (embora com um pouco menos de intensidade por parte da crítica) para “O Brutalista”, logo atrás com três prêmios; curioso que o ator Adrien Brody, após sua consagração com “O Pianista” há uns vinte e dois anos atrás, volta aos holofotes e às premiações com um personagem bastante parecido. Embora tenha saído de mãos vazias (apesar de muitas indicações e de ostentar até então um considerável favoritismo), “Anora” tem sido bastante lembrado nas indicações de praticamente todos os prêmios de Melhor do Ano, o que pode favorecê-lo se a maré virar para o seu lado no futuro da temporada.

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)

O grande momento da noite, pelo menos para nós, aqui no Brasil. Não havia uma favorita na categoria de Atriz Dramática, embora as concorrentes de Fernanda Torres fossem fortes (e, pelo menos, Tilda Swinton, de “O Quarto Ao Lado”, fosse apontada por algumas casas de apostas como provável vencedora), isso culminou com sua emocionante vitória, o que pavimenta seu caminho para uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, seguindo os passos da mãe Fernanda Montenegro –ela também foi indicada o Globo de Ouro de Atriz Dramática em 1999 (conquistado, na ocasião, por Cate Blanchet por “Elizabeth”), lembrando que, no Oscar, quando foi indicada, foi lamentavelmente preterida por Gwyneth Paltrow. Espera-se que desta vez a Academia e os votantes (que não são mais os mesmos!) não repitam esse erro.

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Sebastian Stan (Um Homem Diferente)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Zoe Saldana (Emilia Pérez)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)

Muitas caras relativamente novas na premiação para cinema. Com dois astros vindos –veja só! –da Marvel Studios (Sebastian Stan, o Soldado Invernal; e Zoe Saldana, a Gamora de “Guardiões da Galáxia”) para a consagração em obras de gente grande. Mas, Sebastian realmente mereceu por seu belíssimo trabalho, e a entrega de Zoe Saldana à sua personagem (o que inclui um número musical cheio de energia) é uma das grandes surpresas de “Emilia Pérez”. Finalmente, o já premiado Kieran Culin começa a migrar de sua área habitual, a TV, para o cinema, garantindo o único prêmio da noite para o filme escrito e dirigido por Jesse Eisenberg.

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Demi Moore (A Substância)

Dona do discurso mais emocionante da noite, Demi Morre surpreendeu muita gente (incluindo ela própria) ao ser anunciada como vencedora na categoria de Melhor Atriz Cômica –até porque o terror “A Substância”, ainda que magnífico, está longe de ser uma ‘Comédia ou Musical’ como alardeado na categoria... –quando muitos já esperavam uma vitória de Karla Sofía Gascón, por “Emilia Pérez”, ou de Mikey Madison, por “Anora”, apontadas como as favoritas. Como a própria Demi afirmou, esse é seu primeiro prêmio conquistado na carreira como atriz; e deu uma vontade danada de vê-la indicada ao Oscar para ver onde isso vai dar!

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

Flow

MELHOR ROTEIRO

Peter Straughan (Conclave)

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Emilia Pérez (França)

Uma pena o belíssimo “Robô Selvagem” ter perdido para “Flow” que foi pouco falado, pelo menos, por aqui. No entanto, críticos de todos os cantos estão reiterando ser essa, realmente, a grande animação de 2024, e não o longa-metragem da Dreamworks. “Emilia Pérez” simplesmente arrebatou o prêmio de Filme em Língua Não Inglesa, definindo-o como o favorito para essa temporada, ao menos, nessa categoria. Uma pena para “Ainda Estou Aqui”... Na categoria de Melhor Roteiro, “Conclave” parece prevalecer como sua única chance de vitória nas outras premiações.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"El Mal", Camille, Karla Sofía Gascón e Zoe Saldana (Emilia Pérez)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Trent Raznor e Aticcus Ross (Rivais)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Wicked

A Canção Original de “Emilia Pérez” já era quase uma barbada, isso porque o filme de Jacques Audiard concorria já com duas canções (mesmo procedimento que houve com “Barbie” ano passado) e “El Mal” tem, de fato, uma execução poderosa, certamente um dos grandes momentos do longa. A trilha sonora ficou com Trent Raznor e Aticcus Ross (os mesmos de “A Rede Social”) definindo o único prêmio para o filme de Lucca Guadagnino, e o troféu de Conquista Cinematográfica e de Bilheteria para “Wicked” acabou soando como um prêmio de consolação (impressão que já havia se dado ano passado), quando minha torcida era mesmo para “Deadpool & Wolverine”.

Agora é possível afirmar que a Temporada de Prêmios realmente começou; em uma semana teremos Critics Choice Awards, depois Bafta, SAG e tudo o mais, até culminarmos no Oscar, do qual ainda não temos as indicações. Quem viver, verá!

domingo, 30 de abril de 2023

Falcão e O Soldado Invernal


 Legado –esse parece ser o principal tópico em torno do qual giram os enredos da Fase 4 do Universo Marvel Cinematográfico, desde o final da “Saga do Infinito” cuja trama trouxe, à reboque, seus cerca de vinte primeiros filmes. Embora suas ambições narrativas tenham se estendido também para as séries do TV (das quais esta é um dos exemplares), a intenção de conectividade em suas histórias permanece mais forte do que nunca, bem como a intenção de manter uma similaridade na qualidade cinematográfica de seus produtos. Entretanto, com os heróis principais dizendo adeus (seja pela chegada no desfecho de suas trajetórias, seja pelo fim do contrato de seus intérpretes, seja, na maioria dos casos, por conta das duas razões), a Marvel em geral, e a Fase 4 em particular acabaram abordando justamente a questão do legado, a passagem de bastão de um personagem, já veterano, para outro, em início de jornada.

Esta minissérie, “Falcão e O Soldado Invernal”, vem a falar sobre os dilemas de Sam Wilson (Anthonie Mackie), mais conhecido como Falcão, depois que ele recebeu do agora aposentado Steve Rogers, o Capitão América em pessoa (que é bastante mencionado, mas, nunca aparece de fato), o seu poderoso e simbólico escudo, o que o torna, consequentemente, o novo Capitão América. No entanto, como a série tratará de mostrar ao longo de seus nove episódios, herdar tal legado não é uma tarefa simples, ainda mais para alguém como Sam que, diferente do quase ariano Steve Rogers, é um homem negro, ciente do descaso e das injustiças que seus pares sofreram (e, por vezes, continuam a sofrer) ao longo de toda a história dos EUA.

Ao abranger um tema de incontornável seriedade, a série sabiamente evoca ritmo, espírito e atmosfera de “Capitão América-OSoldado Invernal”, dirigido por Anthony e Joe Russo, um dos longa-metragens responsáveis por tornar o Capitão América um dos maiores heróis do estúdio. Como naquele estupendo trabalho, aqui, o roteiro lembra por vezes o de um thriller de espionagem, inclusive com o surgimento de um grupo dissidente de supostos terroristas, os Apátridas, lutando por uma ideologia que, na teoria, parece fazer um certo sentido: Unir todo o mundo num povo só, abolindo todas as fronteiras. Na prática, porém, os objetivos desse grupo armado esbarram nas complicações do mundo real, reagindo a elas com violência e terror. Sam Wilson e James ‘Bucky’ Buchanam Barnes (Sebastian Stan), outrora o Soldado Invernal, tentando se redimir de seu passado como assassino controlado pela Hidra, se unem para tentar deter os Apátridas quando descobrem que os membros do grupo têm, de alguma forma, o soro do Supersoldado, o que lhes possibilita força e velocidade assombrosas. Há, porém, um problema: Sentindo-se incapaz de corresponder à herança como Capitão América, Sam entrega o escudo ao governo dos EUA que nomeia um combatente condecorado, o soldado John Walker (Wyatt Russell, filho de Kurt Russell e Goldie Hawn), como novo Capitão, um homem que, à medida que as missões começam a cobrar-lhe sacrifícios maiores, se revela instável.

Dirigida (por Kari Skogland) e escrita (por vários, com predominância do criador, Malcolm Spellman) com insuspeita habilidade, a minissérie avança sabendo habilmente centralizar Sam e seu notável protagonismo, no objetivo de evidenciar ao público o quão certeira é sua escolha como novo Capitão América –algo, diga-se, seguido à risca do que se passou nos quadrinhos. Quando conhecessem a líder dos Apátridas, Karli Morgenthau (Erin Kellyman, de “Han Solo”), os heróis descobrem que ela não é a vilã translúcida e unilateral que outrora enfrentariam sem pestanejar –o mundo atual não tem mais conflitos ‘preto no branco’ como nos tempos da Segunda Guerra Mundial, e alguns inimigos da paz têm justificativas carregadas de significado e mérito em seus atos. Na busca por respostas, Sam e Bucky tiram de sua prisão o tentacular e manipulador Barão Zemo (Daniel Brühl, reaproveitando brilhantemente seu personagem de “Capitão América-Guerra Civil”) que os acaba levando até a ilha de Madripoor (um sensacional cenário vindo direto dos quadrinhos da Marvel e que já sugere, em algum momento, a proximidade dos “X-Men”) onde reencontram a renegada Sharon Carter (Emily Vancamp), personagem que traz algumas reviravoltas inesperadas. É Sam quem deve se provar o ponto de equilíbrio entre muitos desses personagens superpoderosos em rota de colisão, até porque sua própria escolha como Capitão América é, em si, uma mensagem de igualdade e justiça para todos –e para isso, ele deve encontrar a verdade sobre o próprio legado conhecendo Isayah Bradley (Carl Lumbly, da série “Alias-Codinome:Perigo”) e sua amarga história como primeiro supersoldado negro.

Tensa, austera, magnificamente frenética e politicamente relevante, mesmo que para efeitos de mera analogia, “Falcão e Soldado Invernal” se aproveita maravilhosamente de seu formato minissérie, para além do tempo restrito de um longa-metragem, estabelecendo ao longo de seus episódios uma trama rica e detalhada sobre as consequências pessoais e plurais de uma passagem impactante de bastão, colocando em pauta questões atuais como o desamparo governamental de refugiados, as discriminações de cor e a integridade do cidadão.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Eu, Tonya

Tonya Harding, pivô de um famoso escândalo envolvendo o ataque a uma de suas concorrentes nas disputadas Olimpíadas de Inverno durante os anos 1990, era uma personagem difícil, hostil, anti-social e osso duro de roer –à essas características muito humanas, o diretor Craig Gillespie acrescenta outra: Incompreendida.
Munido do formidável roteiro de Steven Rogers e produzido pela estrela Margot Robbie (que também interpreta Tonya), Gillespie consegue encontrar, num inesperado ponto de vista desta história difundida pela imprensa de então como um conto de fadas disfuncional, um relato aflitivo, ora engraçado, ora entristecedor, sobre os papéis ingratos que a vida, o ambiente nocivo que nos cerca e as redundâncias da mídia podem nos reservar.
Por meio de depoimentos alternados (e engraçadíssimos no esmero de suas caracterizações) somos apresentados aos recortes narrativos habilmente justapostos da vida de Tonya Harding (à quem Margot Robbie empresta brilho genuíno e um encanto incomum que vem dela própria) nascida na cidade de Oregon, em Portland, que, desde muito pequena, sofreu na mão da mãe autoritária, insensível e controladora, LaVona (Allison Janney, fabulosa no papel que lhe deu o Oscar 2018 de Melhor Atriz Coadjuvante).
Embora a filha tivesse uma habilidade realmente singular para a patinação no gelo, LaVona não a incentivava da maneira certa. Em vez disso, LaVona fazia cobranças desmedidas, recriminava a filha, ainda com pouca idade, pelo dinheiro que era obrigada a gastar nos treinamentos, e impunha um controle sobre a vida dela que frequentemente se convertia em abuso.
Essa criação levou Tonya a crescer grosseira, ressentida, rancorosa e beligerante.
Quando Tonya atinge a idade adulta e conhece Jeff Gilloly (Sebastian Stan) que vem a se tornar seu marido, levando-a a sair de casa e das opressões praticadas pela mãe, ela apenas troca um abusador por outro: Instável, iletrado e ignorante, Jeff tinha brigas domésticas homéricas com Tonya (que também não era alguém fácil de lidar) que sempre culminavam em agressão.
A essa vida de infortúnios, sempre com a constante ameaça da pobreza da classe baixa americana, e a discriminação por seu estatuto social proletariado, a patinação no gelo surge como uma promessa de um amanhã melhor para a tão maltratada protagonista (vale lembrar que, embora muitas cenas sejam feitas por dublês, Margot Robbie realmente treinou arduamente para executar muitas das manobras sobre patins que vemos).
Contudo, a biografia minuciosa e bem elaborada que toma conta da primeira parte do filme serve só para contextualizá-la. A parte que interessa ao público –como a própria Tonya, em dado momento, observa sarcasticamente –vem a ser a controversa participação de Tonya nas Olimpíadas de 1994, num episódio que curiosamente ficou no subconsciente do público como se tivesse sido a própria Tonya Harding quem tivesse golpeado e quebrado o joelho da competidora Nancy Kerrigan.
E muitos são os que, estranhamente, lembram do incidente dessa maneira.
Segundo o filme, não foi assim que aconteceu.
Durante as idas e vindas na relação com Jeff, Tonya se dedicava às Olimpíadas de Inverno que tinha disputado dois anos antes, e lutava para se aperfeiçoar e recuperar a forma com a qual tinha sido capaz de executar o dificílimo Salto Axel Triplo (ela foi a única patinadora americana a realizar tal feito) ganhando o Campeonato de Patinação no Gelo do Reino Unido.
Sua meta era obter a tão sonhada medalha olímpica.
Contudo, ameaças de morte acirraram os nervos de Tonya tornando a fragilidade psicológica mais um dos obstáculos que ela teria de enfrentar ainda durante o Campeonato Regional do Noroeste do Pacífico. Jeff, seu marido, numa amostra de burrice profunda, tem a ‘brilhante’ ideia de enviar cartas ameaçando de morte também a competidora de Tonya, Nancy Kerrigan (Caitlin Carver, de “Cidades de Papel”), para, na opinião dele, “igualar o jogo” –nessa empreitada estúpida, ele tem o auxílio e o incentivo do mais estúpido ainda Shawn (Paul Walter Hauser, de “O Caso Richard Jewell” e “Infiltrado Na Klan”), que afirmava atuar como guarda-costas de Tonya, quando na verdade não trabalhava com coisa alguma, enquanto morava com sua mãe e dizia para todo mundo que era perito em Contra-Espionagem e Contra-Terrorismo –é um daqueles personagens tão absurdos e non-sense que só é crível por tratar-se de um ser oriundo da vida real mesmo!
Nesse ponto do filme, por sinal, a quantidade de personagens absurdos e non-sense aumenta quando entram em cena os dois estabanados comparsas que deveriam entregar a carta de ameaça à Nancy, mas, em vez disso, são instruídos por Shawn a invadir sorrateiramente o ginásio de treinamento e quebrar-lhe a perna (!). Ocorrência que põe o FBI atrás de todos.
Para tentar elucidar uma circunstância cheia de meandros confusos –e que, à época confundiu a opinião pública –Gillespie lança mão de uma série de subterfúgios, de depoimentos subjetivos  de revelações e informações, em meio aos quais deixa claro o papel nada inocente, mas definitivamente, longe de ser o principal culpado de Tonya Harding naquilo tudo. Infelizmente, o que ocorreu, no fim das contas, é inversamente oposto: Embora Jeff e Shawn tenham sido sentenciados, Tonya foi afastada em definitivo da patinação artística a única aptidão que possuía e amava (tocante a cena –fictícia –em que ela implora ao juíz, ainda no tribunal, que não lhe tire a única coisa que sabe fazer na vida); no subconsciente do público, sua punição foi ainda mais injusta: Ela passou a ser lembrada, julgada e taxada como a grande vilã de uma história na qual entrou quase de gaiato empurrada pela má fé de outrem, pelas próprias escolhas infelizes e pelo meio tóxico em que foi criada e no qual aprendeu a viver.
É, pois, uma espécie de justiça poética que vem a lhe proporcionar este magnífico filme realizado por Graig Gillespie (uma ficção amparada em fatos reais, é sempre bom lembrar), na atuação espantosa e rica em maneirismos nada óbvios da sensacional Margot Robbie, e na tardia conscientização que provoca no público de que os EUA em particular, e o ser humano em geral, procuram, mesmo nos complicados dramas humanos como este, os estereótipos básicos e simplificados através dos quais possam amar e, sobretudo, odiar, sem maiores entendimentos.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Capitão América - Guerra Civil

A sequência de filmes que a Marvel Studios vem entregando desde 2008, não serve apenas e tão somente para quebrar recordes de bilheteria, felizmente, ela serve também para eles se aprimorem a cada produção. Melhorando. Superando cada filme para no seguinte fazer algo ainda mais instigante, mais aprofundado em relação aos seus heróis, e ao modo como percebem e são percebidos pelo mundo à sua volta.
Nem sempre funciona, como se pode conferir em “Vingadores-A Era de Ultron”, não um filme ruim, mas problemático.
Em seus acertos, porém (e eles são muito mais freqüentes que seus erros), a Marvel entrega obras vibrantes, que não só representam todo o conceito do que um filme comercial realmente deve ser, mas também demonstram um bom senso raro e requintado no tratamento dos personagens. Se “Capitão América-O Soldado Invernal” já era um dos títulos no qual isso se expressou com mais primor, então “Capitão América-Guerra Civil” orquestrado pelos mesmos diretores Anthony e Joe Russo faz jus ao alardeado título de “melhor filme da Marvel até aqui”.
Ele é, e com muito mais honras do que se pode imaginar.
Quando “Guerra Civil” começa, vemos que a formação dos Vingadores permaneceu a mesma desde o final de “A Era de Ultron” (e aí percebemos nos Irmãos Russo uma coerência que faltou no diretor e roteirista Joss Whedon naquele filme; a capacidade de manter-se conectado à lógica que norteia cada um dos filmes e que define os personagens, sem desvirtuá-los de uma produção para a outra).
Não tarda para que o Secretário de Defesa dos EUA, o General Ross (Willian Hurt, oriundo do filme “O Incrível Hulk”, lá de 2008), os confronte com um dilema: Após os acontecimentos catastróficos dos últimos filmes –e que têm à rigor, os Vingadores como protagonistas –a ONU cria um tratado que obriga os heróis uniformizados a prestar contas ao governo mediante suas ações. Ou seja, obedecer ordens, o quê implica salvar quem eles mandam salvar, e deixar de lado qualquer outra ação não autorizada.
O Capitão América (Chris Evans, em um ótimo trabalho) deseja ser guiado somente por seu altruísmo e não por interesses políticos, e por isso diz não. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr., mostrando valer cada centavo de seu cachê milionário) deseja espiar um pouco da culpa que lhe consome pelos atos do robô Ultron (que era, afinal de contas, criação sua) e por isso diz sim.
Uma ruptura então ocorre no Universo Marvel Cinematográfico como o conhecíamos, com cada herói indo para um lado da discussão.
Se há uma decisão genial em “Guerra Civil” é a de não santificar nem demonizar nenhum dos lados: ambos estão certos, e ambos estão errados. É a mesma premissa (porém empregada em um conceito diferente) que fez o maior sucesso nos quadrinhos da Marvel quando uma saga de mesmo nome foi publicada à pouco mais de uma década.
Até mesmo o vilão de fato deste filme espetacular, o Barão Zemo (aqui, coronel, interpretado por Daniel Bruhl) adquire motivações que o humanizam.
Em meio à tudo isso, os Russo ainda demonstram um controle elegante e apurado da imensa diversidade de personagens e poderes que têm em cena, num show de direção que até outro tempo era privilégio somente de Bryan Singer e seus X-Men: Além do Capitão América e do Homem de Ferro, há também a Viuva Negra (Scarlett Johansson, fantástica), o Pantera Negra (Chase Bosewick, surpreendente), o Falcão (Sam Wilson), o Soldado Invernal (Sebastian Stan), o Visão (Paul Betany), a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), o Máquina de Combate (DonCheadle), o Homem Formiga (Paul Rudd, hilário) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), cada um deles com um arco próprio e uma importância própria dentro da trama (e é necessário ressaltar aqui o modo engenhoso com que isso é feito com o Pantera Negra).
Há mais uma personagem além desses, e ele responde por um dos mais genuínos sorrisos de satisfação que o expectador dará no cinema em 2016: O Homem Aranha, interpretado com minúcia espantosa e brilhantismo flagrante por Tom Holland –que me perdoem os anteriores Tobey Maguire e Andrew Garfield, mas este jovem é a melhor versão cinematográfica do Homem Aranha de todos os tempos, e consegue fazer isso tudo em meros quinze minutos!

Por fim, pode-se registrar outro feito, também raro, que os Irmãos Russo e a Marvel Studios obtiveram de um filme comercial: O de conseguir fazer o expectador sair eufórico de dentro do cinema, e querendo muito mais, de um filme que excede duas horas de duração.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Capitão América - O Soldado Invernal

Vinda de uma sucessão bastante impressionante de sucessos de crítica e de bilheteria, a Marvel Studios, assim como o público, via uma incógnita em “Capitão América-O Soldado Invernal”.
A razão era de natureza humana: Como membro mais íntegro dos vingadores, o Capitão América corria o risco de ser visto como um personagem de valores antiquados pelos acelerados e desprendidos expectadores de blockbusters atuais, tão afeitos aos anti-heróis da moda. Afinal de contas, o primeiro filme do Capitão América, que funcionou às mil maravilhas, era, ele próprio, ambientado na Segunda Guerra Mundial, contextualizando assim todas as características “à moda antiga” do herói: Era um filme de época.
Na sequência, o Capitão funcionou também no filme dos Vingadores, já arremessado para os dias de hoje, mas ali, ele era um membro de toda uma equipe, numa trama que balanceava as diferenças e idiossincrasias uns dos outros (afinal, lá estavam também o Hulk e o Thor, só para citar alguns exemplos).
O segundo filme era, portanto, o primeiro no qual Steve Rogers seria o protagonista de um trama inteiramente passada nos tempos atuais.
Para a empreitada, a Marvel ainda fez uma escolha curiosa: os irmãos diretores Anthony e Joe Russo, cujo filme mais conhecido era a mediana comédia “Dois é Bom, Três É Demais”.
Era, de certa forma, um risco. Como eles fariam, afinal de contas, um personagem como o Capitão América soar relevante e interessante em uma época tão cínica como a nossa?
A genial resposta que eles deram em “Capitão América-O Soldado Invernal” era: Não mudando absolutamente nada!
Explica-se: Num longa-metragem realizado nos moldes dos bons filmes de espionagem, onde não se podia confiar em praticamente ninguém, a presença de um protagonista transparente e íntegro como o Capitão América acabava sendo a âncora perfeita na qual a platéia podia se segurar.
E que filmaço de espionagem eles fizeram!
Trabalhando como um agente de campo da S.H.I.E.L.D. em Washington depois dos acontecimentos ocorridos em “Os Vingadores”, Steve Rogers caminha a passos largos para elucidar uma conspiração após um atentado à vida do diretor Nick Fury. O quê ele descobrirá é inclusive de nível pessoal: A Hidra, organização criada pelo Caveira Vermelha, está inflitrada na S.H.I.E.L.D. e um de seus mais preciosos operativos vem a ser o Soldado Invernal, identidade secreta de seu grande amigo Bucky, que ele considerava morto.
Revelando uma solidez narrativa das mais surpreendentes, os Irmãos Russo enfatizaram todos os aspectos que já sabiam funcionar: A atuação certeira de Chris Evans como Capitão América, sua química com Scarlett  Johansson (que aliás é uma das melhores coisas do filme!), e a diversidade e sinergia do Universo Marvel Cinematográfico.
Eles também deram uma contribuição inestimável: Um tom sombrio acachapante, um enfoque mais realista, fazendo do Capitão América uma espécie de “Jason Bourne da Marvel”, e ainda trouxeram para o elenco a presença mais do que significativa de Robert Redford.
O resultado é o melhor filme da Marvel Studios até então, e um longa de super-heróis que rivaliza em pé de igualdade, com qualidade e mérito com aquele considerado a melhor adaptação de HQ do cinema, o também realista “Batman-O Cavaleiro das Trevas”. 

domingo, 24 de abril de 2016

Capitão América - O Primeiro Vingador

Um dos mais saborosos filmes produzidos pela Marvel Studios é o do Sentinela da Liberdade. Há nele um charme todo especial, muito advindo da bela ambientação retrô dos anos 1940, que lhe dá um clima de filme de matinê. Some a isso o trabalho apaixonado e apropriado do diretor Joe Johnston (de "Querida, Encolhi As Crianças", "Jumanji" e "Rocketeer") que, como dá para perceber, é muito bom em resgatar esse tipo de nostalgia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o franzino Steve Rogers (Chris Evans, ótimo no papel) pena para conseguir ser aceito no exército americano. Quando isso ocorre, ele passa a integrar um misterioso projeto que visa criar uma espécie de supersoldado: Em uma complicada experiência, seu corpo é anabolizado e ele torna-se forte e ágil.
De início usado como garoto-propaganda para os EUA, o Capitão América (como passa a ser chamado) logo integra as frentes de batalha, tornando-se fundamental na luta contra os nazista, sobretudo, contra os planos maléficos do Caveira Vermelha (Hugo Weaving, sempre fantástico interpretando vilões).
"Capitão América-O Primeiro Vingador" compõe a primeira leva de filmes da Marvel Studios, a chamada Fase 1, que culminou com o filme dos Vingadores, onde todos os heróis apresentados até então foram reunidos. Dentre todos, "Capitão América" foi o que mais demorou, e não é para menos: O estúdio sabia que um personagem como ele -em princípio, de valores tão antiquados -precisava de um cuidado todo especial para chegar às telas de cinema.
O resultado, feito com cuidado, critério e minúcia, é excelente.

domingo, 4 de outubro de 2015

Perdido em Marte

Na semana em que anunciam a descoberto de indícios de água em Marte, o filme de Ridley Scott estreia no cinema. Melhor timing impossível!
Deixando essas questões de lado... e o filme? É bom? Faz jus ao ótimo livro que está adaptando?
A feliz resposta é que sim, o filme é muito bom.
Claro que, como acontece com 90 % dos casos de adaptações literárias, o livro conta a história de uma maneira mais ampla e completa do que o filme. Mas "Perdido em Marte" é ótimo, uma combinação de "Náufrago" com "Apollo 13", com ecos que também remetem a "Gravidade", tem uma direção sensacional de Ridley Scott (que, é bom lembrar, fez "Alien" e "Blade Runner") na qual ele usa com propriedade os recursos do 3D, e um elenco que poucos, muitos poucos, diretores são hoje capazes de dispor.
Matt Damon está perfeito. É difícil imaginar outro ator melhor para ser Mark Watney, o astronauta dado como morto por sua equipe que é deixado para trás no planeta vermelho quando a missão é abortada.
Naturalmente simpático, Damon dá a expressão exata ao bom humor transbordante diante das adversidades que o personagem demonstrava já nas páginas do livro.
Na verdade, o elenco tem tanta gente boa, que dá uma impressão de que alguns podiam até ter aparecido por mais tempo (embora o foco seja sempre -e não tinha como ser diferente -Mark Watney):
Jessica Chastain, como a durona comandante Lewis está incrível; Michael Peña, outros dos colegas astronautas de Watney, também, sensacional; dentre os personagens em terra, há Chiwetel Ejiofor, ótimo como Dr. Kapoor e o sempre excelente Jeff Daniel, como diretor Ted Sanders.
A única presença que destoa do livro é Mackenzie Davis como Mindy, a mocinha tímida que é a primeira a descobrir que Mark ainda está vivo. Ela não é, nem de longe, tão vulnerável e encantadora quanto a personagem no livro, mas tenho a impressão que isso é mais escolha do diretor do que da atuação da moça.
Tecnicamente perfeito, "Perdido em Marte" deve fazer bonito entre as categorias técnicas do próximo Oscar, se bem que no fim do ano temos um novo "Star Wars", então...