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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Homem-Formiga e A Vespa - Quantumania


 O despachado Scott Lang (Paul Rudd, absoluto no papel) tem o poder de (na maioria das vezes) diminuir e (ocasionalmente) crescer, e ficar gigante. Na proposta peculiar de seus poderes e no temperamento resiliente e bem-humorado para com os revezes caóticos que cercam sua vida e sua família, Scott –ou, mais precisamente, Homem-Formiga –resume à perfeição os tópicos que nortearam o Universo Marvel, seja nos quadrinhos ou no cinema: Um herói imperfeito, muito longe de ser capaz de integrar o Panteão dos Deuses, a espelhar com descontração e espirituosidade, o próprio expectador. No terceiro longa-metragem que ganhou para si, “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania”, Scott já chega de uma jornada tumultuada e particular vinda de outros dois filmes (nos quais foi introduzida a mitologia por trás de seus poderes, no primeiro; e os potenciais desdobramentos a envolver o tal Reino Quântico, no segundo), e finalmente, de todo um esforço narrativo que o atrela ao Universo Marvel Cinematográfico do qual sempre fez parte, continuando, por sua vez, de onde herói parou em sua última aparição, o extraordinariamente marcante “Vingadores-Ultimato”.

Assim, na sua capacidade de crescer e diminuir, Scott é uma alegoria ambulante, falante e saltitante da capacidade muito humana de se desvencilhar dos problemas e dar a volta por cima –e tantos são os tópicos com os quais o bem-intencionado diretor Peyton Reed tem de lidar que ele já deixa, no início do filme, essa analogia completamente explícita ao público, no monólogo inicial do personagem, acompanhado de uma entrevista para a divulgação de um livro que ele mesmo escreveu: Ex-presidiário, ex-ladrão e outrora negligente pai de família, Scott tomou caminhos tortuosos que o fizeram um dos Vingadores e um dos vários heróis responsáveis pelo salvamento do planeta Terra. Agora, a andar pela rua Scott recebe tapinhas nas costas e copos de café gratuitos... ele também teve sua vida amorosa endireitada, graças a inebriante presença de Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), convertida na heroína Vespa durante o segundo filme.

A questão de ser pai negligente, contudo, foi um pouco mais difícil de ser superada: Ao perder o contato por cinco anos com a filha Cassie (Kathryn Newton, substituindo a jovem Emma Fuhrmann que viveu a personagem em “Ultimato”), por conta dos acontecimentos dos filmes anteriores, Scott viu a filha saltar de uma criança para uma jovem mulher, e agora procura recuperar o tempo perdido. Mas, Cassie tem muito do pai: Na melhor das intenções, envolve-se em encrencas das quais padece para sair. É assim que, um tanto quanto auxiliada pelo gênio do Dr. Hank Pym (Michael Douglas), ela desenvolve um aparelho de acesso ao Reino Quântico, o universo microscópico referenciado nos filmes anteriores do Homem-Formiga e que, em “Ultimato”, serviu para executar uma audaz viagem no tempo. Isso, entretanto, acende o alarme em Janet Van Dyna (Michelle Pfeiffer), mãe de Hope e esposa de Hank –ela esteve presa, por trinta anos, no Reino Quântico, antes de ser resgatada, e mantêm em segredo as turbulentas peripécias que lá vivenciou. Mal ela tem tempo para alertar os demais personagens disso e são todos eles –Scott, Cassie, Hope, Hank e Janet –sugados para dentro do Reino Quântico, onde todo o restante do filme se passará.

Cumprindo uma promessa que pairava no ar desde “Homem-Formiga e A Vespa”, o filme mostra que havia toda uma civilização, com fauna, flora e tecnologia, dentro do Reino Quântico, e como a maioria esmagadora de filmes comerciais a retratar um outro mundo, “Quantumania” tem por referência-mor o incontornável “Star Wars”, de George Lucas. É impossível não associá-lo em cenas como a da cantina espacial, ou quando o herói e sua filha encontram os rebeldes alienígenas daquele lugar retratados com uma imodesta proliferação de efeitos visuais.

O elemento que, de fato, vem a trazer uma certa relevância à “Quantumania” –relevância essa que, sejamos honestos, ficou faltando na maior parte dos filmes e séries da Fase 4 da Marvel –vem a ser seu antagonista, Kang, o Conquistador, interpretado com presença majestosa, sólida e fascinante por Jonathan Majors. E o roteiro (a cargo de Jeff Loveness) e a direção até que se empenham em sua apresentação: Um ser vindo das intermináveis realidades alternativas do Multiverso, Kang é mostrado inicialmente como alguém amigável, embora seja a sutileza percebida no temor incontido dos personagens coadjuvantes e de Janet que vá acrescentando pouco a pouco algum suspense em sua iminente aparição. A questão é que Kang deve ser o grande vilão a complicar a vida dos Vingadores no próximos filmes –como o foi Thanos (Josh Brolin) na saga anterior –e, para tanto, sua introdução aqui é realizada com cuidado, planejamento e perspicácia: Exilado no Reino Quântico (por quem, ainda não fica exatamente claro), Kang dispõe de tecnologia avançada e inigualável –com a qual foi capaz de conquistar todo aquele mundo paralelo –e só não partiu de lá com seus vastos e ameaçadores recursos porque um detalhe irrisório no núcleo de energia de sua nave o impede de fazê-lo. Detalhe este que os poderes miniaturizadores de Scott são capazes de resolver. A fim de convercer Scott a ajudá-lo, portanto, Kang aprisiona e ameaça a vida de Cassie, obrigando o Homem-Formiga a elaborar um arriscado plano para salvá-la e sair, com todo seu pessoal, do Reino Quântico.

Embora seja redundante afirmar, “Quantumania” entrega a mesma junção frenética, colorida e descontraída de ação vertiginosa, efeitos visuais vastos e comédia rasgada com a qual a Marvel Studios já acostumou seu público. O manejo bem azeitado de seus realizadores e algumas presenças genuinamente inspiradas de seu elenco (sobretudo, os sensacionais Paul Rudd e Jonathan Majors) o elevam num nível acima de produções recentes da Marvel como “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, “Eternos” ou “Thor-Amor & Trovão”, mas ele padece de um tom demasiado infanto-juvenil que muito agrada ao diretor Peyton Reed (e somente a ele...) e seu desfecho pede por um pouco mais de contundência e menos do final feliz a la Disney como nos é tão desconfortavelmente imposto. No saldo final, felizmente, seu acertos acabam contando muito mais que seus erros.

terça-feira, 24 de maio de 2022

As Patricinhas de Beverly Hills


 Com base numa espirituosa e graciosa atualização do romance "Emma" de Jane Austen, a diretora e roteirista Amy Hecherling faz uma esperta revisão da geração adolescente dos anos 1990, carregada de elementos que regem o comportamento, inclusive, dos adolescentes atuais.

Bonita, popular e consumista adolescente californiana vive sua muito particular rotina de menina rica, tirando satisfação, sobretudo em dar uma ajudazinha nos problemas amorosos dos que a cercam. Mas ela própria tem lá sua vida complicada para resolver.

É como um raio que cai duas vezes no mesmo lugar; uma década antes, nos anos 1980, também Amy Hecherling soube engendrar uma honesta e espontânea radiografia dos dramas e alegrias da juventude de então no surpreendente “Picardias Estudantis” –em todos os sentidos concebíveis, “Patricinhas de Beverly Hills” é seu herdeiro, na compreensão comportamental que ela apresenta de toda uma nova diferenciada geração: Apesar desse notável acerto em seu senso de observação, seu maior trunfo talvez seja mesmo a inebriante presença de Alicia Silverstone, recém-saída de festejados clips da banda Aerosmith, numa ótima interpretação. Uma qualidade que ela não soube manter em sua carreira.

domingo, 12 de abril de 2020

Bem-Vindo Aos 40

Pete e Debbie eram personagens coadjuvantes em “Ligeiramente Grávidos” que acabaram ganhando protagonismo neste filme, realizado cinco anos depois, provavelmente porque o diretor Judd Apatow e seus atores, Paul Rudd e Leslie Mann (que à propósito é casada com o próprio Apatow), ainda tinham algo a dizer por meio deles sobre o lado espinhoso da relação a dois.
Se no outro filme, o casal representava aos olhos daqueles protagonistas (vividos por Seth Rogen e Katherine Heigl) as neuroses cotidianas que o matrimônio acumula ao longo dos anos, aqui, convertidos no foco central da narrativa eles proporcionam um relevo mais detalhado e, espera-se, mais divertido dessa observação –a primeira cena do filme, quando eles discutem, no chuveiro, o uso ou não do viagra, já deixa bem clara a sua predisposição para brigar por qualquer coisinha.
Na semana em que ambos completarão 40 anos –seus aniversários têm poucos dias de intervalo –Pete e Debbie se defrontam com as complicações familiares, profissionais e afetivas de seu cotidiano: Dono de uma pequena gravadora de álbuns, Pete tem de lidar com a chegada das vacas magras –o estilo de música no qual se tornou especialista já não rende mais lucro. Além disso, seu pai (Albert Brooks), cujo novo casamento lhe presenteou com trigêmeos (!) lhe pede dinheiro emprestado todo o tempo, algo que ele faz às escondidas de Debbie.
Por sua vez, Debbie –que é proprietária de uma loja de roupas –está às voltas com uma funcionária sedutora (Megan Fox) que pode ou não estar roubando dinheiro de seu caixa, bem quando Debbie descobre estar grávida pela terceira vez.
Esses percalços servem, em geral, para potencializar os contratempos do casamento dos dois –o cerne real da trama –que vive praticamente de conflitos diários: Pete não quer que Debbie fume. Debbie não quer que ele coma carboidratos. À esse stress mútuo somam-se a convivência com as filhas (a mais velha não sai do computador onde viciou-se na série “Lost” e encrenca a toda hora com a mais nova), a relação com os pais (o de Debbie, vivido por John Lithgow, é demasiado ausente e impessoal) e as pequenas incompatibilidades: Gostos musicais que nunca batem; opiniões divergentes, temores individuais e a visão nada concordada de como empregar o dinheiro de que dispõem.
Percebe-se, sobretudo, durante os primeiros trinta minutos, que muito do filme é construído em cima de esquetes e situações improvisadas (uma forte característica do processo criativo cômico de Apatow) do que em cima de uma narrativa propriamente dita –contudo, tanto Rudd quando Leslie são atores que se saem muito bem com esse tipo de comédia; ajuda muito o fato dos dois conhecerem tão aprofundadamente seus personagens, e a sintonia bastante palpável e orgânica que possuem entre eles mesmos e toda a equipe técnica. Há uma espontaneidade, um confiança que define muito do filme.
Voltar o olhar para o cotidiano parece ser, sob muitos aspectos, a grandes busca por meio da qual Judd Apatow encontra sua verve para comédia; em especial, o cotidiano experimentado por personagens que passam absolutamente longe do estereótipo que se costumou eleger como personagens principais de uma produção cinematográfica –nada de presenças poderosas, altivas e sensuais, nada de indivíduos bem realizados ou idealmente perfeitos, o que interessa para Apatow é a caracterização do banal, do corriqueiro; e quanto mais isso resultar em graça, melhor.
Assim, ele observou as insatisfações e frustrações sexuais de um homem de meia-idade em “O Virgem de 40 Anos”; colocou um comediante em crise avaliando as próprias escolhas equivocadas de vida em “Tá Rindo Do Quê?”; pôs um casal disfuncional formado por uma garota gorda e desbocada e um rapaz moderado em “Descompensada”; e, no que certamente foi seu maior sucesso, avaliou os percalços de uma gravidez inesperada em meio aos relacionamentos modernos em “Ligeiramente Grávidos”, filme a partir do qual ele pareceu consolidar uma espécie de estilo autoral.
Daí sua tentativa em seguidamente regressar a esses personagens e, de certa forma, a esse filme: “Ligeiramente Grávidos” continua sendo a grande obra da carreira de Apatow e, embora não lhe iguale o brilhantismo, “Bem-Vindo Aos 40” prova que ele é um dos raros diretores norte-americanos a dominar o humor com primazia.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Viajar É Preciso

Desde a revelação em “Ligeiramente Grávidos” e “ Virgem de 40 Anos”, de tempos em tempos aparece nas telas de cinema um filme realizado pela turma de Judd Apatow (não necessariamente dirigido por ele, mas as vezes, somente produzido como é o caso deste) que, construído naquele senso de humor muito peculiar e norte-americano, obtém notável êxito de crítica, ainda que lá no fundo não seja exatamente um grande filme.
“Wanderlust” –ou “Viajar É Preciso” –sofre de inúmeros problemas, mas o pior deles é certamente trazer um humor dificilmente acessível ao público brasileiro; prova disso foi a recepção indiferente que o filme teve, seja nos cinemas, seja em homevideo.
Ambos curiosamente oriundos da série televisiva “Friends”, Jennifer Aniston e Paul Rudd (ela, uma das protagonistas da série; ele, uma participação que com o tempo tornou-se fixa; ambos também fizeram dupla num filme dos anos 1990 chamado “A Razão do Meu Afeto”) vivem o casal Linda e George Gengerblatt cujos sonhos capitalistas de ascender no mundo moderno encontram seguidos contratempos: Compram um pequeno apartamento em Nova York, no qual não faz mais sentido morarem depois que George perde o emprego e Linda tem frustrada uma de suas inúmeras tentativas de emplacar uma meta profissional.
Para piorar as perspectivas, George tem um irmão insuportável, Rick (Ken Marino), que só fala impropérios e grosserias, e esfrega na cara do irmão sua cômoda e confortável situação financeira.
Ainda assim, é para a casa do irmão de George (morador de Atlanta) que ele e Linda vão quando as coisas dão errado. No meio do longo caminho, acomedida de uma súbita injúria de viajar, Linda acaba insistindo para ela e George se hospedarem numa pousada. Terminam, porém, passando a noite numa acomodação habitada por hippies (!).
A filosofia alternativa de vida deles, sem intervenções da competitiva vida capitalista e com uma bisonha orientação estilo paz & amor, os fascina numa primeira impressão –tanto que George e Linda resolvem voltar para lá quando se dão conta do quão insuportável é a permanência na casa do irmão dele.
Nos dias que se seguem, no entanto, a tal comunidade começa a revelar (sobretudo, para George) suas facetas nem tão charmosas: O líder, Seth (Justin Theroux, de “Cidade dos Sonhos”, casado na vida real com Jennifer Aniston), se mostra um manipulador orquestrando os ditames supostamente pacifistas do grupo a seu favor quando se descobre enamorado de Linda e disposto a minar o casamento dela com George.
Embora a fauna de personagens entusiasmados em sua falta de noção aponte para uma espécie de sátira à contracultura –além de Seth e sua bela e promíscua companheira (Malin Akerman, de “Watchmen”), há o personagem do velho e destrambelhado fundador da comunidade (Alan Alda), o casal multi-racial (formado pelo também diretor Jordan Peele e pela atriz Lauren Ambrose), o naturalista metido a escritor (Joe Lo Truglio), e a ex-atriz pornô convertida em hiponga mala (Kathryn Hahn, de “Um Amor a Cada Esquina”) –não é bem uma sátira que o trabalho do diretor David Wain acaba sendo; em meio aos improvisos cênicos que caracterizam o estilo solto dos trabalhos assinados por Judd Apatow, o que “Wanderlust” termina resultando é numa comédia romântica, onde o registro abilolado da cultura hippie executado insanamente pelos coadjuvantes serve quando muito como um empecilho na descoberta eventual do casal protagonista de que seu amor é, afinal, o mais importante.
Portanto, voluntária ou involuntariamente, existe até uma curiosa reflexão em “Wanderlust”: Os protagonistas inadequados oriundos da vivência urbana levam consigo, no fim das contas, um conceito de paz e amor mais transparente e real do que os melindrosos argumentos que os pseudo-hippies passam o filme todo a teorizar.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy


“O Âncora”, no estilo que adota, é um filme quase esquizofrênico. Tem um tipo de humor muito particular e norte-americano. E, por vezes, corre o sério risco de ser mal interpretado. Ainda assim é uma das grandes comédias da década de 2000-2010.
Em meados da década de 1970 (reconstituída com inspirada percepção nos figurinos), o âncora do maior telejornal de San Diego, Ron Burgundy reina absoluto (e na atuação irreprimível do gênio da comédia Will Ferrel, essa majestade não é à toa).
Ao lado de seus companheiros de notícias, Brian Fantana (Paul Rudd), Champion Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell, genial), ocupam o primeiro lugar nos índices de audiência.
Os tempos, entretanto, estão mudando. O machismo antes impune das circunstâncias trabalhistas está dando lugar à diversidade e à oportunidade igualitária às mulheres –e a rede logo recebe uma nova e determinada jornalista, Veronica Corningstone (Christina Applegate, de afiado timing cômico).
Esperta e obstinada, Veronica está acostumada aos obstáculos corriqueiros que uma mulher enfrenta num ambiente profissional –observações estas que o roteiro hábil escrito por Ferrel e pelo diretor Adam McKay encontra estratégicas brechas no humor implacável e quase ininterrupto para se inserir –e segue em frente com seu sonho de virar uma âncora de telejornal, mesmo diante da atração (logo tornada romance) entre ela e Burgundy.
É na ascensão e queda de Burgundy que a trama se concentra, usando do romance com Veronica como ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio). O curioso, no entanto, é a forma com que o filme de Adam McKay se coloca diante dessa premissa: Tudo em cena reflete a absoluta falta de noção de seu machista personagem principal, conferindo ao filme um tom de comédia abilolada que encontra fácil correspondente naqueles exemplares de besteirol –aos quais parte do público inclusive deve relacionar Will Ferrel.
Embora tenha lá seus tópicos amparados em perspicazes observações do mundo real –a emancipação da mulher sendo o mais pertinente –o filme não faz um único esforço na direção de ser realista. Muito pelo contrário, não faltam cenas onde predomina um deliberado nonsense: Talvez as mais gritantes (em meio à tantas outras) sejam a apresentação com flauta de jazz feita pelo próprio Burngundy num clube noturno, pontuada pela canastrice saborosa de Ferrel; a batalha brutal, violenta e ridícula entre vários grupos de repórteres de emissoras rivais, a lembrar um confronto inconsequente de gangues, onde se chocam o time de Burgundy, mais os recalcados segundo colocados (liderados por Vince Vaughn), o pessoal que ficou em terceiro lugar (que têm à frente Tim Robbins), a emissora dos retardatários (com Luke Wilson) e os repórteres do canal latino (representados por Ben Stiller); além também da sequência final, contra um bando de ursos selvagens num zoológico (!).
Um peculiar exercício de humor realizado por mentes geniais incompreendidas que às vezes fingem nada compreender.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Ligeiramente Grávidos


O filme responsável por revelar o ator Seth Rogen, o talentoso diretor de comédias Judd Apatow –tão mais notável pela rara demanda de talentos genuínos para esse gênero que Hollywood possui –e por promover uma aparentemente auspiciosa transição (que não se concretizou) da bela atriz Katherine Keigl da TV (onde fazia o seriado “Grey’s Anatomy”) para o cinema é, com mérito, considerado um dos melhores da década de 2000-2010.
Ilustra com propriedade a máxima de que a mais simples história pode adquirir ares notáveis desde que realizada com habilidade.
No caso, não existe qualquer intenção de inovação na trama que une romance e comédia, a respeito de dois indivíduos incompatíveis, mas cujos caminhos se cruzam num enlace afetivo –uma comédia romântica, veja só!; Ben (Rogen, extremamente carismático) é um maconheiro de 23 anos que mal se dá conta de que deixou a adolescência.
Alisson (Heigl, linda e interessante) é funcionária de uma rede de TV, bela, ambiciosa e não raro com olhos só para o trabalho.
Após uma noite de bebedeira onde ela comemora uma aguardada promoção e ele, junto dos amigos alienados, faz o de sempre, esse improvável casal descobre que tem pelo menos uma coisa em comum: Eles terão juntos um filho!
Nos hilários nove meses que se seguem à gestação, eles irão descobrir cada qual as responsabilidades da paternidade, os contra-tempos da vida a dois, e encontrarão, inesperadamente, carinho e companheirismo um no outro.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

É O Fim


Eis uma comédia que, pode-se dizer, leva o absurdo de sua premissa às últimas consequências.
Numa simulação de realidade que frequentemente serve à seus propósitos cômicos, o comediante (e, aqui, tanto ator como diretor) Seth Rogen interpreta a si mesmo.
Ou seja, ele é um ator famoso –e já no início indagado do porque interpreta sempre o mesmo personagem –à espera de um amigo no aeroporto de L.A.
Esse amigo vem a ser jay Baruchel –que contracenou com Rogen em “Ligeiramente Grávidos” e faz parte, de fato, de seu círculo de amizades –e eles se reencontram depois de um longo tempo. Jay, embora também ator, é um pouco avesso ao modo de vida predominante na Califórnia. Seus planos são passar o tempo com seu amigo –e nisso o filme não tem pudores em suscitar todos os maneirismos de comédias sentimentais sobre amigos e parceiros; o quê Seth Rogen (que divide a direção com Evan Goldberg) parece prezar muito em sua filmografia.
Os planos de Jay, contudo, são frustrados: Seth não tarda a carregá-lo para uma festa promovida pelo astro James Franco em sua nova mansão. E, lá, não é somente James Franco que aparece interpretando uma versão impiedosamente caricatural e hedonista de si próprio: Vemos também a cantora Rihanna, os atores Jason Segel, Emma Watson e Michael Cera (numa versão terrivelmente irresponsável, inconsequente e promíscua do que supostamente seria o comportamento de um ator famoso), e os essenciais ao filme, Jonah Hill e Craig Robinson –todos, sem sombra de dúvidas, saídos do grupo de confiança de Rogen.
Até então, “É O Fim” não aparenta ser mais que uma comédia esquisita e um pouco ousada que flerta com as impressões da fama. Entretanto, ao acompanhar a decisão de Jay em ir a uma loja de conveniência junto de Seth, o filme entregará sua assombrosa guinada: Após um desastroso terremoto, raios azuis irrompem o céu (!) e capturam pessoas específicas entre a população. Uns são assim misteriosamente levados, outros ficam para ver a destruição que se segue por fogo e desmoronamento.
Na casa de Franco, contudo, ninguém percebeu o ocorrido (!!).
Após convencê-los –numa situação na qual a narrativa enfatiza o rídiculo da questão –alguns dos famosos citados até morrem (!) despencando num enorme buraco flamejante (nessa cena, temos também a aparição breve de Paul Rudd, o “Homem-Formiga”).
Rogen, Baruchel, Franco, Hill e Robinson têm a ideia de ficar na mansão de Franco, sobrevivendo com a água e a comida que há lá –isso até descobrirem que junto com eles está também o espaçoso e inconveniente (e, com frequência, o mais engraçado do filme) Danny McBride.
Forçados ao convívio, todos esses personagens, dotados do pouco de sensatez que têm, procuram racionalizar a situação: Ao que parece o Apocalypse Bíblico ocorreu, com o arrebatamento das almas boas e tudo o mais, e à eles, atores famosos, só restou experimentar o inferno na Terra (!).
O roteiro (do próprio Rogen) especula os desdobramentos realistas dessa situação certamente nada realista, embora explicíta a partir da definição da crença de muitas pessoas –e ainda que de certo o filme não almeje controvérsia na abordagem indireta da religião, ele sem dúvidas não a evita.
A verdade é que, em sua galhofa incontrolável, não dá para levar “É O Fim” muito à sério.
Mesmo nos momentos em que se pretende tenso, por exemplo, o filme conduz deliberadamente ao riso; um riso nervoso é bem verdade, mas riso ainda assim.
Uma mescla de comédia adolescente e debochada, referências improváveis, improvisão encorajada e solta e uma certa coragem inconsequente, este trabaho é, como outros assinados por Rogen, um exemplo do estilo muito peculir e significativo de um autor em meio à mesmice da comédia norte-americana.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Homem-Formiga e A Vespa


“Capitão América-Guerra Civil”, lançado em 2016, provocou desdobramentos tão contundentes no Universo Marvel Cinematográfico que praticamente todos os filmes que lhe sucederam –à exceção de “Guardiões da Galáxia Vol. 2” e “Thor-Ragnarok” –são, de uma forma ou de outra, seqüências de seus acontecimentos.
É isso o que acontece nesta segunda aventura do Homem-Formiga que, embora resgate aspectos da trama de origem do primeiro filme do herói, acaba tendo que levar em conta a importante participação dele em “Guerra Civil”.
Dois anos depois, encontramos Scott Lang (o ótimo Paul Rudd) em prisão domiciliar –com rastreador no tornozelo e tudo o mais –após ter feito um acordo quando lutou ao lado do Capitão América e acabou preso.
Ao longo desses dois anos, seus parceiros no primeiro filme, o cientista Hank Pym (Michael Douglas, esbaldando-se no personagem) e a filha Hope Van Dyne (Evangeline Lilly, fantástica), trabalharam exaustivamente em torno de uma descoberta acidental do próprio Scott: Durante sua luta contra Jaqueta Amarela –que o obrigou a arriscar-se e diminuir seu tamanho em nível subatômico –Scott teve um vislumbre do chamado Mundo Quântico; um local indeterminado ao qual se chega quando a miniaturização é tão extrema que a pessoa vai para em uma outra dimensão.
Supunha-se, portanto, que ninguém conseguia voltar do Mundo Quântico. E foi esse destino que teve Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer, pra variar, maravilhosa), mãe de Hope e esposa de Hank, quando, à muito tempo precisou miniaturizar-se em nível subatômico para salvar vidas: Essa notável seqüência, esboçada por alto no primeiro filme, é melhor detalhada já na abertura desta continuação.
Contudo, como Scott foi capaz de retornar de lá, as esperanças de Hope e Hank se reavivaram, e nos dois anos que se seguiram, eles estiveram projetando o Túnel Quântico que permitiria a eles adentrar tal lugar com uma nave, e de lá, com alguma sorte, trazer Janet viva.
Em algum momento, eles precisarão da ajuda de Scott –cujos dois anos de prisão domiciliar estão prestes a expirar desde que se comporte –e da experiência sem precedentes que ele teve no Mundo Quântico; isso sem falar de suas habilidades como Homem-Formiga, habilidades estas que, empregadas em conjunto ao lado de Hope (que assume, por sua vez, o codinome e o uniforme de Vespa), formam uma dupla espetacular.
Dirigido pelo mesmo Peyton Reed que desde o filme anterior deu um salto qualitativo em relação aos seus outros trabalhos, e roteirizado com excelência por Adam McKay –cujo talento foi reconhecido com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “A Grande Aposta” –“Homem-Formiga e A Vespa” é mais do que uma mera seqüência do filme anterior (embora, claro, também o seja): A narrativa faz verdadeiros malabarismos para amarrar com eficácia e descontração aos pontas soltas de “Homem-Formiga” e “Capitão América-Guerra Civil” que vêem a determinar muitos dos rumos que este filme toma –e que ainda por cima, sabe-se, levará, de uma forma ou de outra, aos eventos de “Vingadores-Guerra Infinita”, cuja trama se passa cronologicamente depois deste filme, embora tenha sido lançado antes.
“Homem-Formiga e A Vespa” curiosamente, ao dar conta das narrativas de tantos personagens (são cerca de três núcleos bem distintos costurados habilmente pela presença em comum de Scott Lang em todos eles), e por conta disso encontrar uma de suas poucas fragilidades, é um filme de super-heróis praticamente desprovido de um vilão (!): Nem o personagem de Walton Coggins (um criminoso mais oportunista do que ameaçador), nem mesmo a perigosa Fantasma (interpretada por Hannah John-Kamen, de “Jogador Nº 1”) chegam a ocupar esse posto –uma vez que na trama e no modo como é mostrada, seu papel é mais de uma vítima do que de uma antagonista.
Na comparação com o arrebatador “Guerra Infinita”, “Homem-Formiga e A Vespa” se revela mais despretensioso e pueril –e, talvez, isso justifique certa impaciência da crítica para com ele –mas, em sua diversão plena (e na heroína formidável que finalmente entregam nas formas sensacionais de Evangeline Lilly) é mais uma bela realização da Marvel Studios.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O Idiota do Meu Irmão


Ned acabou de cumprir uma pena de oito meses –por vender maconha à um policial!! –e, na sua reintegração à sociedade conta com a solidariedade oscilante de suas três irmãs: A obstinada e calculista Miranda (Elizabeth Banks), para quem a carreira de escritora parece importar mais do que o relacionamento sempre protelado com o melhor amigo e vizinho Jeremy (Adam Scott); a dona de casa Liz (Emily Mortimer) que se esforça para ignorar o casamento quase em frangalhos com o insensível Dylan (Steve Coogan); e a indecisa Natalie (Zooey Deschannel) cujo envolvimento lésbico com Cindy (Rashida Jones) é seriamente abalado por uma escapadela com Christian (Hugh Dancy).
Ao seu jeito descontraído, boa praça e sem noção, Ned consegue, sem querer e na melhor das intenções, virar de pernas pro ar a situação de cada uma das irmãs –e, na composição cheia de inspiração que recebe, Ned é um personagem ao qual o ótimo (mas, nem sempre bem aproveitado) ator Paul Rudd dedica toda sua primorosa verve cômica.
Seguindo uma linha que em muito se parece com o estilo solto e rico em improvisação de Judd Apatow (com a câmera sempre centrada no ator para que ele use e abuse de sua autonomia para com os diálogos), o diretor Jesse Peretz faz não apenas seu ator principal, mas todo o seu elenco se sentir no ápice do conforto em cena. O resultado disso é que as cenas encadeadas num roteiro tão harmonioso quando instintivamente certeiro se tornam perólas que unem a sensibilidade ao timing cômico.
É quase uma crônica de costumes na maneira com que justapõe muitas situações entre vários personagens interligados pelos laços familiares –e invariavelmente capitaneadas por Ned, um dos mais carismáticas personagens da comédia norte-americana dos últimos tempos –e na junção de um time de excelentes atores, plenos de espontaneidade.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Arte, Amor e Ilusão

Por mais improvável que possa parecer haviam argumentos que isentavam o diretor Neil Labute das acusações de misoginia em seu primoroso e corrosivo "Na Companhia de Homens"; e eles em geral estavam relacionados na retrato austero, humano e crível da única personagem feminina da trama.
É o próprio Neil Labute quem abre mão dessas ressalvas ao criar neste "Arte, Amor e Ilusão" um dos mais incisivos e subversivos ataques ao sexo oposto já materializado em filme, mostrando as mulheres como seres de uma crueldade atroz.
Valendo-se da mesma objetividade cirúrgica de seu mais audaz trabalho (mas, desprovido da excelência que ostentou nele), Labute estabelece a enxutíssima narrativa num conjunto de atos que se sucedem em cortes rápidos e ilustram a situação que ele deseja expor de maneira sucinta, sem espaço para considerações paralelas, e isso tudo começa no museu onde tímido e acanhado Adam (Paul Rudd, o “Homem-Formiga”) trabalha como vigia. É lá, num dos turnos da noite que ele encontra Evelyn (a linda e metódica Rachel Weisz), uma artista plástica que comportamento (ou, pelo menos, de discurso) notadamente anarquista e idealista tentando pichar um quadro de museu (!).
Contra as probabilidades, Adam começa a namorar com Evelyn (note a conotação bíblica e primitiva no nome dos dois protagonistas), ao passo que ela provoca uma transformação no comportamento dele e na sua relação com um casal de amigos (vividos por Gretchen Mol e Fred Weller).
Embora a narrativa de Labute engane o expectador com uma condução serena, sugerindo normalidade, perto do fim, uma surpresa das mais desagradáveis aguarda o expectador e os personagens.
E, a partir deste ponto, o texto vai revelar as surpresas que o filme reserva em seu terceiro ato, por isso, se não viu o filme e não quiser saber, não leia a partir daqui!
Pois bem, a restar uns vinte minutos para o seu desfecho (o filme é enxutíssimo, tem apenas noventa e seis minutos de duração), pouco depois que Adam pede Evelyn em casamento, a narrativa se ocupa de mostrar uma alardeada apresentação de arte promovida por Evelyn, quando Labute dá então seu derradeiro (e devastador) golpe final: Ela revela que, na verdade, todo o namoro e o relacionamento que tiveram nos últimos meses fez parte de uma espécie de experimento que ela realizou, onde tentou (e conseguiu) ilustrar o modo como uma pessoa é capaz de se metamorfosear sob influência de outra. Não apenas isso, mudar até mesmo as relações que tinha antes.
A revelação em si é chocante quando o filme chega nesse momento, ainda mais porque o diretor e a atriz não economizaram esforços para fazer o próprio expectador gostar da personagem, e porque a partir desse trecho a expressão dela de frieza para com a manipulação sentimental que realizou é de uma crueldade que a iguala ao personagem de Aaron Eckhart em “Na Companhia de Homens”.
Chega a doer no coração quando o personagem de Paul Rudd pede de volta a ela o anel de noivado que foi de sua avó e ela afirma, impassível, que quando a exposição acabar o entregará de volta.
Tão exasperante é o efeito que este filme de Labute suscita no expectador que é difícil dizer o que exatamente ele quis com ele: Um retrato contundente da falta de empatia? Uma triste constatação dos efeitos unilaterais do amor? Ou um misógino exemplo de pesadelo masculino feito para chocar?
As três coisas provavelmente, ainda que, estando ele certo ou não, isso não rendeu uma obra à altura de seus melhores trabalhos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Regras da Vida

Dentre os indicados ao Oscar de Melhor Filme em 1999, não havia muito o que se discutir diante do favoritismo de “Beleza Americana”, contudo, um filme pequeno, singelo e essencialmente emocionante destacou-se, levando o Oscar de Melhor Roteiro Original para John Irving, autor do próprio romance no qual se baseava.
De fato, através das mais diversas perspectivas em que se enxerga a trama, o script de “Regras da Vida” é, por vezes, seu elemento mais admirável.
Porém, há muitos outros mais.
Quando o filme se inicia, somos apresentados à Homer Wells (Tobey Laguire), um jovem que cresceu em um orfanato do Maine, nos anos 1940. Enquanto via as demais crianças crescerem e partirem, ele ficou lá como discípulo do médico-chefe do orfanato (Michael Caine), cirurgião que além de zelar pelos orfãos realizava abortos ilegais aos que precisavam.
Essa ótima e prazerosa primeira parte, onde conhecemos em minúcia o personagem principal, também deixa claro suas posturas morais, ao mesmo tempo em que já revela a ambigüidade brilhante do personagem de Michael Caine: Um médico que pratica abortos e que (tal qual o autor do roteiro) defende sua realização, quando necessário. Todavia, ele é também o homem responsável por dar uma vida mais digna a inúmeras crianças de seu orfanato.
É com essa dualidade, presente ao longo do filme todo, que Irving transforma seu filme quase em um tratado político que discute as necessidades obscuras da prática do aborto.
A sacada verdadeiramente genial do filme é levantar essa discussão sem, no entanto, materializar um filme escandaloso ou polêmico; na verdade, fazendo com que muitos expectadores nem percebam que é sobre o aborto que, em essência, o filme fala.
Dito isso, é até fácil perceber o conteúdo até metafórico que envolve sua trama: Um belo dia chega ao orfanato um jovem casal procurando pelos serviços do doutor (a bela Charlize Theron e Paul Rudd), e Homer aproveita a oportunidade para viajar pelo mundo, ser senhor do próprio destino.
Mas, a vida, como ele irá descobrir tem suas idas e vindas, e é preciso aprender a viver conforme suas regras.
Homer é, portanto, uma pessoa que se coloca contrária ao aborto, mas precisa rever essa postura não só literalmente (quando a vida lhe confronta com algumas surpresas), como também metaforicamente (quando ele queima as “regras da casa da cidreira” –tradução do título original do filme, à propósito –sugerindo um rompimento para com as regras vigentes das convenções).
O profundo entendimento dessa questão responde belo grande brilho deste belíssimo drama de época do diretor sueco Lasse Hallstrom (de "Minha Vida de Cachorro"), provavelmente seu melhor trabalho desde que fora filmar nos EUA. Sensível trabalho do jovem Tobey Maguire (e que lhe valeu, segundo consta, a escalação para ser Peter Parker em “Homem-Aranha”, de Sam Raimi) e estupenda interpretação do veterano Michael Caine, pela qual ele venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1999.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Capitão América - Guerra Civil

A sequência de filmes que a Marvel Studios vem entregando desde 2008, não serve apenas e tão somente para quebrar recordes de bilheteria, felizmente, ela serve também para eles se aprimorem a cada produção. Melhorando. Superando cada filme para no seguinte fazer algo ainda mais instigante, mais aprofundado em relação aos seus heróis, e ao modo como percebem e são percebidos pelo mundo à sua volta.
Nem sempre funciona, como se pode conferir em “Vingadores-A Era de Ultron”, não um filme ruim, mas problemático.
Em seus acertos, porém (e eles são muito mais freqüentes que seus erros), a Marvel entrega obras vibrantes, que não só representam todo o conceito do que um filme comercial realmente deve ser, mas também demonstram um bom senso raro e requintado no tratamento dos personagens. Se “Capitão América-O Soldado Invernal” já era um dos títulos no qual isso se expressou com mais primor, então “Capitão América-Guerra Civil” orquestrado pelos mesmos diretores Anthony e Joe Russo faz jus ao alardeado título de “melhor filme da Marvel até aqui”.
Ele é, e com muito mais honras do que se pode imaginar.
Quando “Guerra Civil” começa, vemos que a formação dos Vingadores permaneceu a mesma desde o final de “A Era de Ultron” (e aí percebemos nos Irmãos Russo uma coerência que faltou no diretor e roteirista Joss Whedon naquele filme; a capacidade de manter-se conectado à lógica que norteia cada um dos filmes e que define os personagens, sem desvirtuá-los de uma produção para a outra).
Não tarda para que o Secretário de Defesa dos EUA, o General Ross (Willian Hurt, oriundo do filme “O Incrível Hulk”, lá de 2008), os confronte com um dilema: Após os acontecimentos catastróficos dos últimos filmes –e que têm à rigor, os Vingadores como protagonistas –a ONU cria um tratado que obriga os heróis uniformizados a prestar contas ao governo mediante suas ações. Ou seja, obedecer ordens, o quê implica salvar quem eles mandam salvar, e deixar de lado qualquer outra ação não autorizada.
O Capitão América (Chris Evans, em um ótimo trabalho) deseja ser guiado somente por seu altruísmo e não por interesses políticos, e por isso diz não. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr., mostrando valer cada centavo de seu cachê milionário) deseja espiar um pouco da culpa que lhe consome pelos atos do robô Ultron (que era, afinal de contas, criação sua) e por isso diz sim.
Uma ruptura então ocorre no Universo Marvel Cinematográfico como o conhecíamos, com cada herói indo para um lado da discussão.
Se há uma decisão genial em “Guerra Civil” é a de não santificar nem demonizar nenhum dos lados: ambos estão certos, e ambos estão errados. É a mesma premissa (porém empregada em um conceito diferente) que fez o maior sucesso nos quadrinhos da Marvel quando uma saga de mesmo nome foi publicada à pouco mais de uma década.
Até mesmo o vilão de fato deste filme espetacular, o Barão Zemo (aqui, coronel, interpretado por Daniel Bruhl) adquire motivações que o humanizam.
Em meio à tudo isso, os Russo ainda demonstram um controle elegante e apurado da imensa diversidade de personagens e poderes que têm em cena, num show de direção que até outro tempo era privilégio somente de Bryan Singer e seus X-Men: Além do Capitão América e do Homem de Ferro, há também a Viuva Negra (Scarlett Johansson, fantástica), o Pantera Negra (Chase Bosewick, surpreendente), o Falcão (Sam Wilson), o Soldado Invernal (Sebastian Stan), o Visão (Paul Betany), a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), o Máquina de Combate (DonCheadle), o Homem Formiga (Paul Rudd, hilário) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), cada um deles com um arco próprio e uma importância própria dentro da trama (e é necessário ressaltar aqui o modo engenhoso com que isso é feito com o Pantera Negra).
Há mais uma personagem além desses, e ele responde por um dos mais genuínos sorrisos de satisfação que o expectador dará no cinema em 2016: O Homem Aranha, interpretado com minúcia espantosa e brilhantismo flagrante por Tom Holland –que me perdoem os anteriores Tobey Maguire e Andrew Garfield, mas este jovem é a melhor versão cinematográfica do Homem Aranha de todos os tempos, e consegue fazer isso tudo em meros quinze minutos!

Por fim, pode-se registrar outro feito, também raro, que os Irmãos Russo e a Marvel Studios obtiveram de um filme comercial: O de conseguir fazer o expectador sair eufórico de dentro do cinema, e querendo muito mais, de um filme que excede duas horas de duração.

domingo, 26 de julho de 2015

Homem-Formiga

A Marvel se sai maravilhosamente bem naqueles filmes em que o público a subestima.
Explico: Em “Guardiões da Galáxia”, por exemplo, no qual muita gente torcia o nariz para um filme protagonizado por uma árvore que se mexia, ou por um guaximim falante, personagens nem um pouco conhecidos do grande público, eles foram lá e entregaram uma de suas melhores produções.Um sucesso esmagador de bilheteria, e de crítica, também.
Hoje, é até estranho lembrar que, antes de 2011, muita gente tinha o pé atrás em relação ao projeto de Os Vingadores.
"Tantos personagens?" "Como farão para que tudo funcione?" "Não vai ser confuso?"
O resultado, todo mundo sabe, foi um fenômeno de bilheteria, e também, um dos filmes de maior qualidade do estúdio.
Quando a Marvel lida dentro de sua zona de conforto, porém (leia-se, continuações de seus sucessos) a coisa normalmente soa um pouco preguiçosa (ainda que, até hoje, a Marvel jamais tenha entregue um filme realmente ruim): “Homem de Ferro 2” e 3, “Thor-O Mundo Sombrio”, e até mesmo o eficiente, ainda que não completamente satisfatório, “Vingadores-A Era de Ultron”.
Daí, temos este “Homem-Formiga”, que só vem reforçar essa teoria, uma vez que trata-se de um herói pouco conhecido fora do meio dos quadrinhos, mas que termina sendo um dos mais mais vibrantes e empolgantes trabalhos do estúdio.
Como em “Homem de Ferro”, a química do elenco funciona incrivelmente bem (escolhas como Paul Rudd, Evangeline Lilly e até Michael Douglas, revelam-se certeiras!), como em Vingadores, a dicotomia entre o ritmo da trama e das cenas de ação é prazeroso. E assim como em Guardiões da Galáxia, aqui, a Marvel encontra um equilíbrio entre o humor, a seriedade e a ação que torna a trama e os personagens, apaixonantes.
Seríssimo candidato a melhor do ano.