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domingo, 16 de julho de 2023

A Proposta


 Reunir em cena os astros Sandra Bullock e Ryan Reynolds já é, em si, um trunfo comercialmente promissor: Carismáticos, engraçados e certamente atraentes, eles já representam um chamariz para ambos os públicos, masculino e feminino. A partir dessa consciência de escalação, percebemos que é preciso bem pouco para que “A Proposta” funcione. E é bem isso mesmo: O roteiro escrito por Pete Chiarell (roteirista padrão de Hollywood habituado a escrever para grandes e genéricas franquias) segue a fórmula usual das comédias românticas, a direção de Anne Fletcher se contenta em fornecer uma condução fluida às cenas e ocasionalmente lembra de envolver a tudo com uma fotografia de cartão-postal. A trama não tem nada de mais. A produção não tem nada de mais. Entretanto, eles têm Sandra Bullock e Ryan Reynolds em cena, e isso já segura o filme muito bem.

Sandra é Margaret Tate, uma executiva canadense, ferrenha funcionária de uma editora nova-iorquina de livros, vista por seus subalternos como uma versão literária da Miranda Prestley de “O Diabo Veste Prada” –a própria chefe infernal em pessoa!

E dentre seus subalternos, nenhum sente mais essas agruras na pele do que seu assistente Andrew Paxton (Ryan Reynolds), rapaz que busca, há três anos, galgar os degraus da hierarquia da empresa a fim de realizar seu sonho de virar editor.

O enredo do filme começa a tomar forma quando o roteiro pega ligeiramente emprestado o mote de um dos clássicos da comédia romântica, o maravilhoso “Green Card-Passaporte Para O Amor”: Margaret está para ser deportada para o Canadá (e, portanto, prestes a perder o emprego) quando os agentes da imigração detectam elementos irregulares em seu visto. A única forma de resolver prontamente esse problema é se casando. E eis que, do alto de sua incapacidade para levar em conta os problemas alheios, Margaret afirma para todos –seus chefes e seu fiscal de imigração –que está de casamento marcado com Andrew!!!

A ideia, para ela, soa simples: Eles se casam, legalizam sua situação em solo americano, uma vez que ao casar o cônjuge automaticamente adquire cidadania e, depois das coisas resolvidas, divorciam-se meses depois.

Todavia, há um problema, ou melhor, dois: O primeiro, é que Andrew não foi devidamente consultado sobre isso –e ele haverá de descontar os anos de maus tratos de Margaret por conta dessa nova situação. O segundo, que ninguém, exceto eles dois, devem saber desse arranjo; o que significa mentir até mesmo para a família dele. Com um fiscal da imigração (Denis O’Hare, de “A Legião Perdida”) no pé deles –casamentos de fachada são, muito provavelmente, uma prática comum para se burlar a lei –os dois devem convencê-lo numa entrevista realizada separadamente de que, como noivos, ambos conhecem minuciosamente a vida um do outro. Para Andrew a tarefa é simples; tão habituado ele está com as exigências de ordem pessoal de sua chefe que ele sabe desde sua preferência de café até as tatuagens que removeu no esteticista, contudo, para Margaret, Andrew é uma incógnita –alguém que, em três anos de convívio, ela sequer se preocupou em conhecer.

Para recuperar o tempo perdido e preparar-se para a entrevista, marcada para a segunda-feira, ela deve passar o fim de semana com ele, e aprender o máximo que puder. No entanto, Andrew está de viagem marcada para o Alasca (!?!) onde vive sua família, e onde se darão as festividades do aniversário de sua avó (a lendária Betty White).

É assim que, sob a necessidade de manter o disfarce de noivos perante todos –incluindo sua amável mãe (Mary Steenburgen) e seu desconfiado pai (Graig T. Nelson, de “Poltergeist”) –Andrew e Margaret arrumam as malas e seguem para o Alasca. Lá, entre algumas confusões e saias-justas, opera-se a inevitável mágica das comédias românticas: Margaret revela ser mais adorável e humana do que até então dera a entender, e começa a se afeiçoar genuinamente por Andrew que, por sua vez, mostra-se alguém mais interessante do que o mero capacho que ele aparentava ser.

“A Proposta” não é nenhuma obra-prima; muito dele é esquemático e forçado, inclusive algumas piadinhas fora de hora, e alguns de seus personagens são tão mal elaborados que chega a dar constrangimento (caso da ex-namoradinha vivida por Malin Ackerman, claramente uma personagem que não diz a que veio), além de que Sandra Bullock, linda, simpática e cativante que é, não consegue convencer ninguém, durante a primeira metade de filme, da personagem megera, intimidadora e calculista que supostamente seria. De memorável mesmo, talvez, seja uma breve cena de nudez que ela (maravilhosa!) compartilha com Ryan Reynolds.

Mas, esses são pecados menores numa comédia romântica que se encarrega de entregar ao público a dose de romance açucarado e humor inofensivo e transbordante que as comédias românticas em geral entregam –e nesse sentido, “A Proposta” é certeiro, até mesmo pelo fato de revelar abertamente o quanto Sandra e Ryan estão se divertindo a valer em cena com seus personagens, sejam eles bem escritos, bem dirigidos e bem aprofundados, ou não.

Em tempo (1): Não confundir este filme com o espetacular faroeste australiano de mesmo título nacional lançado em 2005, dirigido por John Hillcoat.

Em tempo (2): No ano de 2012, “A Proposta” ganhou uma refilmagem indiana, estrelada por Dileep e Mamta Mohandas, intitulada “My Boss”.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Viajar É Preciso

Desde a revelação em “Ligeiramente Grávidos” e “ Virgem de 40 Anos”, de tempos em tempos aparece nas telas de cinema um filme realizado pela turma de Judd Apatow (não necessariamente dirigido por ele, mas as vezes, somente produzido como é o caso deste) que, construído naquele senso de humor muito peculiar e norte-americano, obtém notável êxito de crítica, ainda que lá no fundo não seja exatamente um grande filme.
“Wanderlust” –ou “Viajar É Preciso” –sofre de inúmeros problemas, mas o pior deles é certamente trazer um humor dificilmente acessível ao público brasileiro; prova disso foi a recepção indiferente que o filme teve, seja nos cinemas, seja em homevideo.
Ambos curiosamente oriundos da série televisiva “Friends”, Jennifer Aniston e Paul Rudd (ela, uma das protagonistas da série; ele, uma participação que com o tempo tornou-se fixa; ambos também fizeram dupla num filme dos anos 1990 chamado “A Razão do Meu Afeto”) vivem o casal Linda e George Gengerblatt cujos sonhos capitalistas de ascender no mundo moderno encontram seguidos contratempos: Compram um pequeno apartamento em Nova York, no qual não faz mais sentido morarem depois que George perde o emprego e Linda tem frustrada uma de suas inúmeras tentativas de emplacar uma meta profissional.
Para piorar as perspectivas, George tem um irmão insuportável, Rick (Ken Marino), que só fala impropérios e grosserias, e esfrega na cara do irmão sua cômoda e confortável situação financeira.
Ainda assim, é para a casa do irmão de George (morador de Atlanta) que ele e Linda vão quando as coisas dão errado. No meio do longo caminho, acomedida de uma súbita injúria de viajar, Linda acaba insistindo para ela e George se hospedarem numa pousada. Terminam, porém, passando a noite numa acomodação habitada por hippies (!).
A filosofia alternativa de vida deles, sem intervenções da competitiva vida capitalista e com uma bisonha orientação estilo paz & amor, os fascina numa primeira impressão –tanto que George e Linda resolvem voltar para lá quando se dão conta do quão insuportável é a permanência na casa do irmão dele.
Nos dias que se seguem, no entanto, a tal comunidade começa a revelar (sobretudo, para George) suas facetas nem tão charmosas: O líder, Seth (Justin Theroux, de “Cidade dos Sonhos”, casado na vida real com Jennifer Aniston), se mostra um manipulador orquestrando os ditames supostamente pacifistas do grupo a seu favor quando se descobre enamorado de Linda e disposto a minar o casamento dela com George.
Embora a fauna de personagens entusiasmados em sua falta de noção aponte para uma espécie de sátira à contracultura –além de Seth e sua bela e promíscua companheira (Malin Akerman, de “Watchmen”), há o personagem do velho e destrambelhado fundador da comunidade (Alan Alda), o casal multi-racial (formado pelo também diretor Jordan Peele e pela atriz Lauren Ambrose), o naturalista metido a escritor (Joe Lo Truglio), e a ex-atriz pornô convertida em hiponga mala (Kathryn Hahn, de “Um Amor a Cada Esquina”) –não é bem uma sátira que o trabalho do diretor David Wain acaba sendo; em meio aos improvisos cênicos que caracterizam o estilo solto dos trabalhos assinados por Judd Apatow, o que “Wanderlust” termina resultando é numa comédia romântica, onde o registro abilolado da cultura hippie executado insanamente pelos coadjuvantes serve quando muito como um empecilho na descoberta eventual do casal protagonista de que seu amor é, afinal, o mais importante.
Portanto, voluntária ou involuntariamente, existe até uma curiosa reflexão em “Wanderlust”: Os protagonistas inadequados oriundos da vivência urbana levam consigo, no fim das contas, um conceito de paz e amor mais transparente e real do que os melindrosos argumentos que os pseudo-hippies passam o filme todo a teorizar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Watchmen

Como na graphic-novel que o originou, há em “Watchmen-O Filme” uma riqueza de detalhes tal que se faz necessário assisti-lo muitas vezes para se capturar tudo, e tentar decifrar a razão de tantos pormenores deixados ali. É um trabalho de narrativa dos mais fascinantes este que orquestra Zack Snyder. 
Se por um lado, ele busca obsessivamente satisfazer a imensa legião de fãs que a clássica história em quadrinhos arrebanhou desde que fora lançada em 1989, com uma fidelidade desconcertante de caracterização, diálogos, enquadramentos de câmera e condução de roteiro; por outro, ele busca a cada cena uma forma de alojar as idéias do escritor Alan Moore numa perfeita narrativa cinematográfica. E nesse sentido, o uso magistral da trilha sonora é só o mais evidente esforço. 
Snyder quer, e para minha admiração muitas vezes consegue, trazer a analogia também para o cinema. E essas implicações só tornam “Watchmen” ainda mais complexo e notável. Snyder tinha em mente, eu acredito, que se a graphic-novel era a mais influente história em quadrinhos de todos os tempos, seria necessário que sua adaptação assimilasse e refletisse essa influência para os próprios filmes que são, eles mesmos, adaptações de quadrinhos, e além deles. 
Por isso, a narrativa de “Watchmen” guardar tantos significados, como o trecho do Vietnam, onde o Dr. Manhattan dizima vietcongues ao som da mesma Cavalgada das Valquírias que se ouve em “Apocalypse Now”; ou os trajes (sobretudo de Ozimandias) com musculatura salientada, praticamente uma alusão ao destoamento do figurino de “Batman & Robin”, famoso por ser um exemplo de como um filme não deve adaptar um gibi, os mamilos salientes dos trajes daquele filme, inclusive, são lembrados (e ganham completamente outro contexto) na vestimenta da maravilhosa Malin Ackerman como Espectral. 
Se há outro filme que parece assombrar “Watchmen” (e existem muitos), esse filme é “Blade Runner”, na estética suja e detalhada de uma realidade alternativa, no comentário ocasionalmente melancólico da trilha sonora, na fusão que faz de ação, existencialismo e ficção científica, no próprio potencial Cult, e sobretudo, na curiosa relação que consegue criar, como obra, com a década de 1980, em muito este filme lembra o primoroso trabalho de Ridley Scott. 
Tudo isso e tantas coisas mais que inevitavelmente escaparão aos olhos. 
Em meio à tudo isso, Snyder ainda encontra tempo de colocar em breves cenas um perversamente evidenciado vislumbre do World Trade Center, como antes era, lembrando que acima de tudo esta é uma história sobre a capacidade atroz do ser humano se auto-destruir, e dá ao ator Jackie Earl Haley a chance de dar um show de interpretação gestual no difícil papel de Roscharch. Ele está magnífico, ainda que elogiar Earl Haley é desmerecer o ótimo trabalho do elenco como um todo em captar o tom certo de cada personagem; a densa tristeza de Billy Crudup como Dr. Manhattan; a perplexa racionalidade de Patrick Wilson como Coruja. A presença inebriante de Malin Ackerman; o charme de Carla Gugino como Sally Jupiter; e a ambigüidade sarcástica de Jeffrey Dean Morgan como Comediante. 
Zack Snyder dá um belo salto de sofisticação e inteligência em relação ao seu bom trabalho anterior, o empolgante “300”.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Terror Nos Bastidores

Havia bastante potencial na premissa: Três anos após o acidente que matou sua mãe, uma jovem é convidada para a apresentação do único filme pelo qual ela, que era atriz de cinema, foi reconhecida, um terror de quinta categoria, nos mesmos moldes da série “Sexta-Feira 13”. Durante a projeção, o cinema pega fogo e, ao tentar fugir do incêndio, ela e outros quatro amigos passam por uma fenda na tela, a fim de ir para os fundos da sala de cinema. Só que, ao invés disso, eles entram no próprio filme (!). Dessa forma, a jovem tem a oportunidade de resolver certas pendências no relacionamento com sua mãe que, é sempre bom lembrar, está nesse filme, embora não a reconheça, já que ela é uma das personagens. O problema é que eles estão num filme de terror, onde todos os personagens eventualmente irão morrer pelas mãos de um assassino estilo Jason Voorhees. Contudo, eles decidem valer-se de seus conhecimentos como expectadores desses mesmo filmes para driblar os inevitáveis clichês que surgirão, e deles valer-se para conseguir sobreviver até o final do filme, e voltar para o mundo real. 
Quando li a respeito de “Final Girls” fiquei entusiasmado, quantas possibilidades! Uma comédia de metalinguagem justamente sobre um dos sub-gêneros cinematográficos que mais se presta à paródia: o slash movie, ao qual o distinto “Sexta-Feira 13” pertence. E ainda por cima com a maravilhosa (e normalmente pouco aproveitada) Malin Ackerman. 
Contudo, desperdício é a palavra que mais aparece nas minhas impressões sobre esta produção. Não só Malin Ackerman está sub-aproveitada aqui, em detrimento da protagonista, Tayssa Farmiga (uma tanto inexpressiva, e um bocado também irritante com suas respostas monossilábicas), bem menos interessante do que sua talentosa irmã mais velha, Vera Farmiga, como também essa ótima premissa rende pouco mais que uma ou outra piada rasteira aqui e ali. Em muitos momentos, e na maneira como muitas das cenas são elaboradas, tem-se a sensação de que roteiro e direção queriam emular o estilo de sátira aplicado no pra lá de genial “Todo Mundo Quase Morto”, mas uma coisa é querer fazer igual àquele filme, e outra, bem diferente, é ter o talento do diretor Edgar Wright. Uma pena, eis aí uma boa idéia que terminou morrendo na praia.