Dentre os notáveis realizadores australianos dos anos 1970 e 80, Peter Weir sempre desempenhou um cinema bem mais voltado ao classicismo da Velha Hollywood em comparação com alguns de seus contraventores conterrâneos. O que não que dizer que ele não preserve, ainda assim, uma identidade singular e desigual em seus trabalhos, exatamente como costumava ocorrer ao intrigante cinema vindo da Austrália.
Tomemos como exemplo a epopéia, a um só tempo
ambiciosa e intimista, que testemunhamos se desenrolar em “Gallipoli”, de 1981.
Embora comumente apontado como uma das produções que revelaram Mel Gibson – o
primeiro “Mad Max” havia sido lançado dois anos antes – o protagonista de fato
de “Gallipoli” é Mark Lee, intérprete de Archy Hamilton, jovem australiano que,
nos idos de 1915, embora tenha um promissor potencial para ascender como
corredor, almeja mesmo alistar-se no Exército e lutar por seu país na Primeira
Guerra Mundial.
Archy é um personagem construído com um zelo
que somente um realizador realmente brilhante tem o equilíbrio e a sensatez
para fazê-lo; embora seja benevolente, altruísta, idealista e convicto, ele
ostenta características humanas que não o tornam bidimensional – e esses
elementos, a capacidade do personagem em mostrar o melhor de si, a forma com
que sua pureza encanta de imediato o público serão fundamentais mais a frente.
Mel Gibson, por sua vez, interpreta Frank
Dunne, um jovem trabalhador das ferrovias do país, e por isso mesmo mais cínico,
mais prático e mais, por assim dizer, egocêntrico, do que Archy – Frank é
bem-intencionado, mas a ideia de adentrar na guerra, junto de outros jovens
alistados, o faz pensar, primeiro, no bem-estar de sua própria pele!
Os dois se conhecem ao disputarem uma corrida
de 100 metros rasos e, a despeito das personalidades distintas, ficam grandes
amigos. Na ocasião, Archy desvencilha-se da família (ele vivia com o tio, que o
treinava) para tentar ingressar na guerra, no entanto, é impedido pela pouca
idade – tinha apenas 18 anos, enquanto que a idade mínima exigida para o
alistamento militar era 21.
Ao lado de Frank, um aventureiro procurando
conseguir dinheiro onde quer que vá, Archy vai clandestinamente de trem tentar
o alistamento na cidade de Perth, onde as exigências militares não estabeleciam
limite de idade, entretanto, o trem acaba levando-os para outro lugar, um ponto
longínquo do deserto australiano. O que exige que os dois rapazes, para atingir
seu objetivo atravessem a pé a imensidão do Out
Back – uma travessia que se mostra desafiadora mesmo para o físico e a
vitalidade desportista dos dois.
Após esses percalços, Archy enfim consegue
alistar-se na Brigada Ligeira. Já, Frank, embora tenha sido convencido por
Archy, nesse interím, a alistar-se também, não consegue – Frank não sabia
montar, pré-requisito essencial para integrar a Brigada Ligeira. Depois da
partida de Archy, Frank – que assume a partir daqui o protagonismo do filme –
finalmente consegue entrar para o Exército Australiano quando alista-se para a
Infantaria. Junto de seus novos companheiros, ele é designado para o Cairo, no
Egito onde vive sucessivas aventuras.
Ele e Archy tornam a se encontrar durante um
treinamento que reúne a Infantaria e a Brigada Ligeira da Austrália e da Nova
Zelândia num mesmo campo de batalha. Eles convencem alguns oficiais a aceitar a
convocação de Frank para a Brigada Ligeira e ambos são designados, junto de
todo o batalhão, para a fatídica Batalha dos Dardanelos, às margens da
península de Gallipoli, na Turquia. Uma área completamente tomada pelos turcos
– então aliados da Alemanha – que os oficiais britânicos, ao lado dos
australianos, almejam tomar a todo custo, a fim de chegar em Constantinopla. As
trincheiras apertadas e estreitas cavadas na terra representavam centímetros de
diferença entre a vida e a morte para os soldados, enquanto as metralhadoras
inimigas retiniam sobre suas cabeças.
Nesse ponto que o filme de Peter Weir traz suas
primeiras facetas de filme de guerra – quando já se acha em seu terço final! É
quando Archy recomenda Frank (desde sempre temeroso com sua participação em
batalha) para ser mensageiro dos oficiais em campo, devido à sua agilidade.
Os elementos acumulados pelo diretor dessa
trajetória rumo à tragédia dos dois amigos, adquirem impacto justamente pela
perfeição e pelo brilho com que são executados e apresentados ao expectador,
nesta poderosa observação sobre o peso da guerra e dos terríveis sacrifícios
que ela sempre cobra da juventude. Nesse sentido, nenhum momento é mais
marcante e poderoso do que sua imagem final, congelada no tempo em um
encerramento arrebatador do filme e da trajetória daquela amizade.

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