Já a adentrar os anos 1970, o cinema havia desenvolvido uma abordagem toda particular para clássicos da literatura: Anos antes, Tony Richardson ganhou o Oscar adaptando Henry Fielding com “AsAventuras de Tom Jones”; Ken Russell havia adaptado D.H. Lawrence com “Mulheres Apaixonadas” (além de Aldous Huxley com “Os Demônios”); Roman Polanski adaptou William Shakespeare com “MacBeth” – sem falar que ainda viria, nos anos por vir, um certo Francis Ford Coppola com “Apocalypse Now”, uma transposição do próprio Joseph Conrad. Dentro desse contexto, Peter Bogdanovich, um dos jovens autores daquela Nova Hollywood saiu-se em 1974 com esta adaptação de Henry James que, como não poderia deixar de ser, vinha atrelada à decisões e escolhas muito pertinentes à época e à personalidade autoral do diretor que a capitaneava.
Bogdanovich estava apaixonado por Cybill
Shepherd – à ela havia dado um robusto papel em seu excelente “A Última Sessão de Cinema” – e tornava a agracia-la com a boa sorte de uma personagem que em
muito refletia a própria atriz, tornando sua escalação um deleite e uma escolha
quase certeira.
Cybill vive a despachada Daisy Miller, uma
jovem americana expatriada que, na Europa de 1878, causa certo choque na alta
sociedade da época com sua insistência em não ceder aos engessados protocolos
sociais de então.
Diferente de adaptações que teriam sido feitas
do mesmo romance em tempos anteriores (ou talvez, até mesmo em tempos
posteriores), Bogdanovich insiste em transformar o texto de Henry James (aqui
adaptado pelo roteirista Frederic Raphael, mesmo de “Um Caminho Para Dois” e “De Olhos Bem Fechados”) em uma comédia. E ele o faz valendo-se dos diálogos exuberantes,
verborrágicos e intermitentes de James numa profusão e num ritmo que lembram imediatamente
um dos realizadores que mais influenciou o próprio Bogdanovich, o Howard Hawks
de “Jejum de Amor” – pioneiro em criar e dirigir diálogos ágeis e sobrepostos
em cena.
É com essas características que somos
apresentados à Daisy Miller, norte-americana acompanhada de seu irmão pequeno (James
McMurtry) e de sua mãe (Cloris Leachman) que, em viagem pela Itália conhece o
jovem Frederick Winterbourne (Barry Brown), também um norte-americano que se
formou em Genebra e logo partirá para Roma a fim de visitar a estimada tia,
Sra. Costello (Mildred Natwick, de “Depois do Vendaval”).
Winterbourne encanta-se imediatamente por Daisy
e por sua irreverência e transparência, características que a fazem alguém a
frente de seu tempo.
Quando chegam às rodas sociais de Roma, a
Sra. Walker (Eileen Brennan, de “Os Sete Suspeitos”) tenta alertar que as atitudes descuidadas, quase à beira do
inconsequente, de Daisy podem vir a cobrar um preço muito caro. No entanto,
Daisy dá de ombros – até mesmo às tentativas genuinamente preocupadas do apaixonado
Winterbourne em avisá-la para que não se exponha ao escrutínio da sociedade
vigente são ignoradas – e passa a ser vista, com alarmante frequência, em
companhia do italiano Sr. Giovanneli (Duilio De Prete).
É pelos olhos de Winterbourne que testemunhamos
toda a trama que envolve Daisy Miller, e é pelos olhos dele que vislumbramos
também a impiedosa represália que se abate sobre ela e sobre suas vãs
tentativas em ser livre.
Embora predomine o tom leve e humorístico
imposto por Bogdanovich – adornado com uma arrojada direção de fotografia – o desfecho
de “Daisy Miller” é amargo e abandona o expectador com uma incontornável
sensação de tristeza.
Muito deste notável filme de época perpetrado
por Peter Bogdanovich pode ser creditado à brilhante intepretação de Barry
Brown no papel de Winterbourne – perfeito em sua perplexidade inocente e em seu
amor ‘não muito bem correspondido’ por Daisy Miller, Brown faz com que sejamos
cúmplices da embriagante compaixão com que enxerga a protagonista até seu fim
inconcluso e lamentável.
Afinal, ela poderia ter sido alguém importante
para ele?
Um talento promissor naqueles anos 1970 de
então, Barry Brown, antes de “Daisy Miller” participou de algumas produções ao lado
de Jeff Bridges e, depois, até marcou presença no filme “Piranha”, de Joe
Dante, já nos anos 1980, quando, por fim, tirou a própria vida, fazendo com que
sua história o transformasse numa espécie de ‘Daisy Miller da vida real’. É uma
indagação muito semelhante a que nos resta diante da sua luminosa presença
neste filme de Bogdanovich e em face do rumo trágico que sua vida tomou.






