A obra literária de Mary Shelley impregnou-se de maneira indissociável da cultura pop; não apenas a obra em si (com adaptações cinematográficas como a icônica versão da Universal com Boris Karloff, a rebuscada e romantizada produção “A Prometida”, com Sting, ou o inquieto “Frankenstein de Mary Shelley”, de Kenneth Branagh, se somando à dezenas, talvez centenas, já executadas) mas, até mesmo seu inusitado contexto –gira em torna justamente da gênese de sua premissa o incomum, brilhante e notável “Gothic”, de Ken Russell, sobre os eventos que levaram Lord Byron, Mary Shelley, seu noivo Percy e mais alguns outros a vivenciarem uma noite lisérgica de onde saiu a ideia do livro.
Eis que em 2025, uma nova adaptação, conduzida
pelo diretor mexicano Guillermo Del Toro, ganhou a luz do dia. Se vai ser
recebida ou não como a adaptação definitiva da obra só o futuro dirá (e a
divisão de público e crítica entre os que amaram essa nova visão de Del Toro e
aqueles que rejeitaram suas mudanças já não abre muita margem para isso), no
entanto, não deixa de ser uma obra admirável exatamente pelo fato de não
sairmos dela indiferentes.
Em primeiro lugar, porque Guillermo Del Toro
sempre olhou com carinho e identificação os monstros que, ao longo de sua
carreira, incumbiu-se de retratar – com suas lentes ele concebeu um tétrico
filme de fantasmas onde são os vivos o grande mal a assombrar os inocentes (“A Espinha do Diabo”); uma fantasia onde as criaturas mais pavorosas e espantosas
não rivalizavam, em perversidade, com os déspotas muito reais da Guerra Civil
Espanhola (“O Labirinto do Fauno”); ou uma versão de “O Monstro da Lagoa Negra”
onde o tal monstro é o personagem mais indefeso, vulnerável, cativante e
romântico (!) em cena (“A Forma da Água”). Não chega a ser surpresa, portanto,
que nesta versão de “Frankenstein”, imbuída de acachapante beleza visual, seja
por vezes o próprio protagonista Victor Frankenstein (vivido com energia por
Oscar Isaacs) quem se revela mais monstruoso do que sua criatura.
Dividido com bastante inteligência em duas
partes bem distintas, o filme começa em 1857, quando a tripulação de uma
embarcação dinamarquesa encalhada no gelo das calotas polares recebe um
inesperado hóspede (prólogo preservado em pouquíssimas adaptações do livro): O
moribundo e debilitado Dr. Victor Frankenstein.
Atrás dele, logo vem uma Criatura –e sua fúria é tamanha que nem os tiros de armas de
fogo da tripulação são capazes de rechaçar. Enquanto aguarda pelo inevitável no
interior do navio, resta ao Dr. Frankenstein relatar ao Capitão Anderson (Lars
Mikkelsen, irmão do ator Mads Mikkelsen) a sua história: Ainda bem jovem,
Victor testemunhou sua mãe morrer no parto do irmão mais novo, William,
restando a ele somente o autoritarismo e a exigência constante do pai (Charles
Dance, de “Mank”) que cobrava de Victor
a excelência (em medicina) que nem ele era capaz de ostentar. Com o passar do
tempo, a morte da mãe e a cobrança paterna moldaram o caráter de Victor –ele
tornou-se obcecado em descobrir uma forma científica para contornar a morte em
definitivo. Ainda que desacreditado por muitos de seus superiores, Victor
chegou bem perto de tal intento: Um meio de devolver uma centelha de vida às
partes mortas de um cadáver.
Sem a aprovação acadêmica, Victor obtêm
recursos para suas experiências com financiamentos vindos do mercador Henrich
Harlander (Christoph Watz) que vinha a ser tio de Elizabeth (Mia Goth), a noiva
de seu irmão, William (Felix Kammerer, de “Nada de Novo No Front”).
Numa noite de tempestade, Victor consegue
energia o suficiente para reanimar um corpo constituído de vários pedaços de
cadáveres colhidos por ele em campos de batalha da Guerra da Criméia. A
Criatura que surge a partir desse experimento (vivida por Jacob Elordi, da
série “Euphoria”, entregando um belíssimo trabalho) é inocente e tão assustada
quanto assustadora –e reflete de maneira incômoda a arrogância do próprio Dr.
Frankenstein ao querer brincar de Deus.
Julgando que a experiência não saiu conforme
planejava, e desejoso de apagar aquilo de sua vida, o Dr. Frankenstein tenta
matar a Criatura e coloca fogo em todo seu laboratório. É nesse ponto que a
segunda parte do filme (toda ela narrada pela própria Criatura!) se inicia:
Sobrevivendo ao incêndio, a Criatura, ignorante de todo um mundo do lado de
fora de seu cárcere, passa a errar através da floresta, testemunhando
sofrimento e atrocidade até conseguir se refugiar no celeiro da cabana de uma
família de montanheses. O patriarca já velho, cego e debilitado (David Bradley,
de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”) é deixado sozinho na cabana pelos
filhos, que partem para uma temporada de caça em outra região da floresta. E
assim, do convívio com o velho cego (que acredita ser ele um simples viajante)
a Criatura irá adquirir algum conhecimento a partir dos livros que aprenderá a
ler e das conversas com o cego.
É essa consciência –quando a tragédia tornar a
procurá-lo –que fará com que a Criatura vá atrás de seu Criador, para cobrar
dele uma última chance de encontrar algum pertencimento no mundo.






