sexta-feira, 3 de julho de 2026

Incontrolável


 Baseado em fatos reais – o incidente do trem CSX 8888 transcorrido no estado de Ohio, no dia 15 de maio de 2001 – “Incontrolável” foi o último trabalho do falecido diretor Tony Scott (irmão mais novo de Ridley Scott), enaltecido por Quentin Tarantino como um dos melhores filmes daquele ano de 2010 (Tony Scott e Tarantino trabalharam junto no cult-movieAmor À Queima-Roupa”).

Sucedido num único dia, o enredo do filme tem início quando dois idiotas (interpretados por T.J. Miller, de “Cloverfield”, e Ethan Suplee, de “A Outra História Americana”, atores realmente habituados a interpretarem idiotas!) cometem uma série de pequenos deslizes que culminam, pouco a pouco, numa calamidade: Logo de manhã, no início do expediente, identificam um defeito a ser corrigido nos freios de emergência da imensa locomotiva deixada sob sua responsabilidade (“Deixe como está! Ao voltarmos para o pátio consertamos esse problema!”); em seguida, quando o personagem de Ethan Suplee é deixado sozinho conduzindo a máquina (que levava uma carga desconhecida mas consideravelmente pesada de 47 vagões), eis que tem a ideia de jerico de acionar os freios manuais (que não paravam o trem, mas mantinham uma velocidade baixa) e sair da locomotiva (!) para correr a pé na frente da máquina e mudar pessoalmente o engate dos trilhos, desviando o trem para o rumo correto. No entanto, ele se esqueceu (ou, de repente, nem sabia!) que no caso de uma carga com tanto peso, a velocidade necessária para manter o motor funcionando impede que os freios fiquem acionados por muito tempo – ele ainda estava correndo fora do trem quando os freios automaticamente se desligam e a máquina começa a avançar mais e mais rápido.

Não há tempo de alcança-la – até porque o idiota tropeça e cai!!!

Quando a supervisora do funcionamento de toda a complexa rede ferroviária local Connie Hooper (Rosario Dawson) é alertada, inicialmente, sua reação é manter a calma, ela sabe, afinal, que locomotivas são projetadas para acionar automaticamente seus freios de emergência a partir de determinada velocidade – o problema é que os freios de emergência não foram consertados (lembra do começo do parágrafo anterior?) e agora, a locomotiva desgovernada não tem nada que consiga pará-la.

Ao verificar qual é o conteúdo de seus vagões, um outro problema – o trem levava toneladas de Fenol Fundido, um material tóxico e altamente inflamável, e em seu trajeto quando, em poucas horas chegar na cidade de Stanton, na Pensilvânia, uma curva fechada pode fazê-lo descarrilar (na verdade, na velocidade em que se encontra o descarrilamento é certo!) e mandar a cidade inteira pelos ares.

São dois meros funcionários da ferrovia que se tornam inadvertidamente os heróis dessa quase catástrofe: O veterano Frank Barnes (o sensacional Denzel Washington, em sua quinta colaboração com o diretor Scott) e o novato Will Colson (Chris Pine), por sinal, em seu primeiro dia de trabalho naquele turno. O humor dos dois não se encontra no melhor estado – semanas antes, devido à gravidez da esposa Will não havia aderido a uma greve sugerida pelo sindicato e, por causa disso, Frank está para se aposentar com o que ele considera um salário insuficiente – e, enquanto os dois lutam contra a animosidade mútua, o destino os coloca como uma frágil esperança para evitar o pior: Depois de diversas tentativas – uma locomotiva se colocando a frente da máquina desgovernada tentando pará-la com seus próprios freios, o que não funcionou; e até uma tentativa de forçar um descarrilamento que também não funcionou (àquelas alturas o trem desgovernado estava numa velocidade grande demais) – o Centro de Controle Ferroviário descobre que a máquina de Frank e Will, naquele ponto já sem nenhum vagão, está nos trilhos em rota de colisão com o trem desgovernado! Eles têm uma chance de escapar por um triz entrando numa linha adjacente, mas Frank tem um plano ainda mais ousado – ele quer voltar de marcha ré, engatar sua própria máquina no último vagão da máquina desgovernada, e puxá-la para trás, forçando sua velocidade a diminuir, e com isso, evitando a catástrofe em Stanton.

Roteirizado com brilhantismo – as questões notáveis do funcionamento ferroviário são expostas e esclarecidas através de diálogos espertos e pontuais, e as circunstâncias trabalhistas ajudam a aprofundar os personagens – e oferecendo ao público um senso de ação e espetáculo que cresce gradualmente, este belo trabalho de Tony Scott dá uma ótima ideia ao público do excelente diretor que ele era – sempre orientado por uma inclinação contundente ao cinema comercial (ainda mais do que seu irmão mais velho), mas plenamente capaz de organizar os elementos desse mesmo cinema para a construção de um produto salutar, vibrante e sólido, como este aqui.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Alice In Wonderland - An X-Rated Musical Fantasy


 Na década de 1970, na era do exploitation, eis que surgiu este projeto de adaptar o clássico “Alice No País das Maravilhas” – já devidamente adaptado pelos Estúdios Disney num longa de animação que capturou com estranheza as reflexões da obra de Lewis Carroll – e nele depositar um tanto da libertinagem propagada pelo movimento do ‘amor livre’ da década anterior, além de agregar a essa incomum miscelânea elementos do musical, gênero que já não dava às caras a um bom tempo no circuito comercial. Tudo isso servindo de reflexo da contracultura e compondo no painel deste pouco usual trabalho o diferencial que justificava sua existência.

Incontáveis vezes transposto para as telas, “Alice No País das Maravilhas” sempre foi uma realização que conseguia expor as características de seu próprio tempo, e não deixa de ser assim com esta produção. Aqui Alice (vivida com certa desenvoltura pela atriz Kristine DeBell) é uma jovem adulta a trabalhar em uma biblioteca. Bastante pudica, a jovem recebe a visita de William (Ron Nelson) rapaz que tem lá suas intenções libidinosas com a moça, todavia, Alice evita ceder às suas investidas – ele argumenta afirmando que Alice deve se libertar dessas amarras e começar a viver. Um pouco abalada por esse discurso (inquietação que a protagonista expressa na sequência da primeira cena musical), Alice parece adormecer e então encontra, inevitavelmente, o coelho branco. Mas, não exatamente um coelho branco comum, trata-se de um ator (Larry Gelman, no caso) maquiado e paramentado como o personagem de Carroll num registro antropomórfico.

A continuidade da trama é de conhecimento de qualquer pessoa que tenha vivido no planeta Terra, e cruzado com qualquer uma das infindáveis versões de “Alice No País das Maravilhas”; a jovem, ao perseguir o tal coelho, entra por um buraco que imediatamente a leva até no País das Maravilhas – cenário que aqui, em função do orçamento bastante limitado do filme, se converte no aproveitamento de uma floresta qualquer. Esse local é habitado por criaturas estranhas, ligeiramente deslocadas da realidade, mas que servem, em sua maioria, ao objetivo de conduzir Alice na auto-descoberta de sua libido e sexualidade. E é curioso que, apesar dessas intenções aparecerem escancaradas desde o começo, demora um certo tempo para o filme do diretor Bud Townsend ceder completamente ao explícito – isso acontece numa cena em que Alice, incentivada por vozes onipresentes dos elementos da natureza, descobre por conta própria o êxtase da masturbação (!). A partir daí a obra de Townsend caminha numa corda bamba, buscando manter-se relativamente fiel à obra literária original, seus tópicos e personagens, emulando sequências musicais que independente de qualquer lapso técnico da produção (e eles são muitos!) contribuem para uma atmosfera bem-vinda e surreal, mas sempre prestes a despencar na gratuidade das cenas de nudez e sexo, e dele fazer um autêntico filme pornográfico.

Em sua chegada ao tal País das Maravilhas, Alice é despida de suas roupas pelos primeiros personagens que encontra – e que nela vestem trajes diáfanos que nada deixam para a imaginação! A sequência da mesa de chá, transcorrida pouco depois, mostra o Chapeleiro Maluco (Alan Novak) a exibir, para uma indiferente Alice, seus desfavorecidos atributos (!?). Mais tarde, toda essa trupe – Alice, o Coelho Branco, o Chapeleiro e a Lebre de Março – encontram Humpty Dumpty (Bucky Searles), o personagem com Cabeça de Ovo, a lamentar sua disfunção erétil (!!!) na tentativa de convencer Alice a proporcionar-lhe sexo oral (!!!). Pouco depois, numa cena desinibida, vemos duas enfermeiras (Nancy Dare e Terri Hall, de “Opening of Misty Beethoven”) a rolar pela relva sem roupa numa audaz sequência de lesbianismo.

Muito do filme descamba a partir daí: Alice encontra os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, que aqui são, na verdade, um casal de irmãos (interpretados por Tony Richards e Bree Anthony), protagonistas da primeira cena de sexo (incestuoso, no caso) verdadeiramente explícita do filme.

Mais tarde, surge a despudorada Rainha de Copas (Juliet Graham) que, embora permaneça a declarar que quer a cabeça de Alice(!), demonstra interesse real em outras partes de sua anatomia (!!!).

Ao fim, após um vai e vem bastante frenético de situações lúbricas intercaladas por números musicais um tanto inusitados – a mistura de gêneros confere uma atmosfera bastante desigual ao filme – Alice retorna à biblioteca e à cena do início, onde o apaixonado William espera dela alguma reciprocidade. Agora, inteirada de todas as questões sexuais que antes ignorava (!), Alice está pronta para consumar seu ato amoroso e o faz numa cena característica das produções do gênero com direito a todas as posições e ângulos que fazem o prazer dos voyeurs (!).

Aclamada por público à sua época (a fusão desinibida entre números musicais e cenas de sexo explícito alarmou de tal forma os censores que o público ficou absolutamente ávido por conferir o filme que tanta celeuma suscitou), a ponto de ser cogitada uma refilmagem pelas mãos do famigerado diretor Ken Russell – infelizmente, jamais realizada de fato – este “Alice In Wonderland – An X-Rated Musical Fantasy” (chamado, aqui no Brasil, de “Alice No País das Maravilhas Eróticas”) escancara as evidências de seu baixo orçamento, e oferece uma disposição entusiasmada de elenco e equipe muito maior em contrapartida às suas capacidades artísticas ou técnicas assim alcançadas, no entanto, suas características de filmagem e o próprio aspecto datado da produção lhe conferem hoje um elemento charmoso e vintage que faz dele uma curiosa experiência.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Emergência Radioativa


 O produtor e roteirista Gustavo Lipztein já havia feito um bom trabalho na minissérie “Todo Dia A Mesma Noite”, sobre o incêndio na boate Kiss, entretanto, com esta outra minissérie (também ela dividida em cinco capítulos), focada nos assombrosos desdobramentos do caso do Césio 137 em Goiânia no ano de 1987, ele consegue um salto inacreditável de qualidade e sofisticação, e muito disso certamente se deve à direção de Fernando Coimbra (do impactante “O Lobo Atrás da Porta”) a frente de todos os episódios.

Setembro de 1987. Na cidade de Goiânia, capital do estado de Goiás, dois catadores inadvertidamente invadem as ruínas de um hospital abandonado em busca de material para vender. Nas dependências do que havia sido a sala de radioterapia, eles encontram a cápsula de uma máquina de raio X deixada para trás, e logo decidem leva-la dali, desmontá-la e vender o precioso chumbo de sua constituição no Ferro-Velho local. Eles não fazem a menor ideia (nem tampouco os diversos outros indivíduos pelas mãos dos quais o material vai passando), mas, a cápsula carrega em seu interior Césio 137, um material radioativo altamente tóxico e letal para o organismo humano. Nos dias que se seguem, essas pessoas descobrem o curioso pó azul fosforescente no interior da cápsula e a mostram para parentes, vizinhos e amigos (!). Eles o compartilham; alguns levam dentro de caixas de fósforos para mostrar o fascinante efeito luminescente para seus filhos (!!).

Cerca de dez dias depois, Antônia (Ana Costa), a esposa do dono do Ferro-Velho (Bukassa Kabengele), decide levar a cápsula para a Vigilância Sanitária Municipal, já crente de que é seu conteúdo o responsável pelo mal-estar generalizado que contaminou a todos. A cápsula é entregue às autoridades (não sem antes circular à bordo de um ônibus coletivo por toda cidade de Goiânia!) e Antônia, junto do rapaz que a ajudou passam mal, e são logo encaminhados ao Pronto-Socorro.

É justamente o jovem médico residente quem nota algo de estranhamente suspeito: Não só a mulher e o rapaz se encontram em atendimento, como também os dois catadores do início – e todos apresentam sintomas de contaminação. Ele liga para um amigo dos tempos de escola, Márcio (o ótimo Johnny Massaro, de “O Filme da Minha Vida”), que havia se formado em Física Nuclear e morava em São Paulo, mas encontrava-se em Goiânia pela ocasião do aniversário do pai.

Márcio reluta em ir averiguar – ele e Bianca (Júlia Portes), sua esposa grávida, estavam prestes a partir de volta para São Paulo – mas, sob insistência, acaba indo. Um cintilômetro emprestado por ele das dependências da Universidade local indica níveis altíssimos e alarmantes de radiação quando enfim chegam no prédio da Vigilância Sanitária.

O Césio 137 é descoberto, e agora, todas as pessoas que tiveram contato com aquele material precisam ser colocadas em quarentena – não apenas isso, as autoridades, com o auxílio de Márcio e do especialista Dr. Orenstein (Paulo Gorgulho), têm que rastrear todos os focos de Césio 137 que se espalharam por Goiânia, das formas mais inacreditáveis possíveis; até mesmo em altares caseiros, dedicados à Nsa. Sra. Aparecida, são encontrados focos de Césio!

Realizado com uma primazia raras vezes vistas em produções nacionais (mas, um aspecto que felizmente vem se multiplicando) e certamente executada com estreita inspiração na minissérie norte-americana “Chernobyl”, uma das melhores já feitas para a TV em todos os tempos e um caso que, guardadas as devidas proporções, espelha bastante muito do que se sucedeu no Brasil naquele fatídico 1987, “Emergência Radioativa” é tensa, intensa, bem produzida, bem interpretada e bem escrita, ainda que os episódios finais se concentrem mais num drama hospitalar intimista do que nas eletrizantes atribulações na cidade de Goiânia – ainda assim, é em suas observações bastante brasileiras que reside o brilho que a faz original: No deslumbre bem típico do povo brasileiro e seus instantes de fascínio pelo pó azul fosforescente, na inocente predisposição para compartilhar uns com os outros algo que captura seu assombro, ainda que esse ‘algo’ seja, sem que eles saibam, o estopim de uma tragédia sem precedentes.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Os Vourdalak


 O contexto não favorece este estranho filme de Adrien Beau: Baseado num conto gótico de Aleksey Konstantinovich Tolstoy (primo de Leon Tolstoy), publicado em 1839 (anterior, portanto, ao próprio livro “Drácula”, de Bram Stoker) e já adaptado, entre outras produções mais ou menos fiéis, em “A Noite dos Demônios”, de Giorgio Ferroni, este “Os Vourdalak” carrega o estranhamento de uma determinada vertente do cinema francês que o faz pouco palatável (e esse efeito parece ser constantemente proposital) – e olha que nem estamos falando do Cinema Francês de Terror dos anos 2000, que rendeu obras transgressivas e poderosas como os primeiros trabalhos assinados por Alexandre Aja – como se não bastasse, “Os Vourdalak” surge num período em que aflora no circuito comercial uma nova onda formidável de grandes trabalhos no cinema de terror norte-americano, onde novos diretores empreendem uma visão autoral, refinada e surpreendente do gênero por meio de obras a um só tempo artisticamente relevantes e comercialmente bem-sucedidas como “Pecadores”, “AHora do Mal”, “Entrevista Com O Demônio”, “A Substância” e outros.

Dessa maneira, “Os Vourdalak’ padece terrivelmente na comparação com esses grandes filmes e ainda tem os cacoetes mais questionáveis do cinema autoral francês (além do orçamento nitidamente baixo) a lhe prejudicar.

No Século 18, nobre emplumado da Corte Francesa (e passível de todas as frescuras de seu meio), o cavalheiro Marquês Jacques Antoine d’Urfé (Kacey Mottet Klein) se vê em meio à uma inóspita floresta em plena Europa Oriental, numa viagem em regresso à França. O mapa indica que ele se encontra em algum ponto próximo das fronteiras com a Turquia e as poucas instruções que ele tem indicam que refúgio ele só encontrará mesmo na casa de Gorcha, um dos poucos moradores da redondeza.

Lá, Jacques Antoine requisita abrigo e o recebe embora os moradores, da família de Gorcha, sejam inexpressivos e inacessíveis. São eles, o taciturno e jovem Piotr (Vassili Schneider), a bela e arredia Sdenka (Ariane Labed), e a mãe deles Anja (Claire Duburcq, de “1917”), além do caçula, o pequeno Vlad (Gabriel Pavie). Logo, chega o pai deles, Jegor (Grégoire Colin, de “Antes da Chuva”), o filho mais velho de Gorcha, e com sua chegada, os parentes fazem uma revelação: Que Gorcha partiu seis dias atrás disposto a integrar as fileiras do conflito contra os turcos que se desenrola na região. Ele advertiu os demais: Se ele não regressasse em menos de uma semana, isso significava que jamais voltaria, e que se chegasse a voltar, não seria ele, mas sim algo sinistro assumindo sua identidade.

Eventualmente, Gorcha acaba retornando e, diante do alívio em rever novamente o pai, Jegor ignora as instruções e o acolhe, entretanto, a medida que retoma o convívio com os familiares, vai ficando bem claro que Gorcha não é mais o homem que era antes.

Ele foi convertido em um Vourdalak – o equivalente a um vampiro no folclore eslavo e balcânico – e, nas noites que se seguem, dará cabo de um a um, os membros de sua família, tendo o perplexo Jacques Antoine como testemunha dessa maldição.

Há personalidade de sobra para transformar esta obra numa experiência das mais desiguais: Filmado em 16 mm, com ritmo lento e, de certa forma, provocativo, nem um pouco inclinado a corresponder a qualquer expectativa do público e pontuado de uma trilha sonora (a cargo de Maia Xifaras e Martin Le Nouvel) com forte inspiração nos acordes renascentistas de Nino Rota para “Casanova”, de Fellini – o que lhe atribui uma poderosa e ao mesmo tempo incômoda atmosfera de estranheza – o filme tem, como sua escolha estética mais ousada, o fato do principal antagonista, Gorcha, ser ‘interpretado’ por um marionete em tamanho real, manipulado pelo próprio diretor Adrien Beau.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

As Golpistas


 É provável que a estrela Jennifer Lopez nunca tenha chegado tão perto de concorrer ao Oscar quanto com a personagem que ela desempenha (e magnificamente bem) neste hábil, enérgico, febril e sensual relato de um esquema envolvendo strippers nova-iorquinas e seus incautos clientes da Bolsa de Valores, todo ele inspirado na matéria “The Hustlers At The Scores” publicada em 2015 na New York Magazine e escrita pela jornalista Jessica Pressler, cujo alter-ego aparece no filme interpretada por Julia Stiles.

2007. Destiny (Constance Wu, do sucesso “Podres de Ricos”) é uma dançarina de clubes de strip-tease em Manhattan buscando ganhar a vida e sustentar sua avó (Wai Ching Ho). No Moves Club, em meio aos contratempos de praxe, ela faz amizade com a fulgurante Ramona (Jennifer Lopez, hipnótica), a mais requisitada e bem-sucedida stripper local. Juntas, elas unem-se às demais dançarinas que conseguem manter um estilo de vida razoavelmente rentável e glamouroso, isso pelo menos, até a chegada do catastrófico ano de 2008, época da Crise Financeira da Bolsa de Valores.

Com o forte retrocesso da clientela, Destiny é obrigada a procurar outra ocupação – movida pelo fato de ter tido uma filha, a pequena Lilly – afastando-se desse universo nos próximos três anos seguintes.

Contudo, ao ser deixada pelo pai da criança, e encontrar consideráveis obstáculos para conseguir um trabalho honesto e normal, ela volta uma vez mais ao Moves, só para descobrir que algumas coisas mudaram: Novas garotas, vindas inclusive de outros países, tornam a disputa pelos clientes ainda mais ferrenha, e as circunstâncias por vezes acabavam empurrando as mais desesperadas rumo ao radicalismo da prostituição.

São nessas condições que Destiny e Ramona se reencontram, e é assim que, juntas, resolvem encontrar meios para ganhar todo o dinheiro que julgam merecer – não mais dependendo do clube para arregimentar clientes pagantes, mas indo, elas mesmas, aos bares de Wall Street para fisgar esses mesmos clientes por conta própria. Com o tempo, elas formam um grupo habilidoso e sedutor – além de Ramona e Destiny, contam também com duas amigas, a morena Mercedes (Keke Palmer, de “Não, Não Olhe!”) e a loira Annabelle (Lili Reinhart, da série “Riverdale”).

Contudo, a incerteza e a irregularidade dos clientes as levam a aprimorar suas táticas, valendo-se de um coquetel de drogas que, muito habilmente, elas colocavam no drinque dos infelizes desavisados. Com o indivíduo praticamente dopado, elas o conduziam ao Moves, obtinham acesso ao seu cartão de crédito e gastavam tudo o que queriam, garantindo a gorda comissão que as sustentava. O esquema inicialmente funciona tão bem – e elas experimentam uma elevação tamanha no seu status de vida – que logo elas precisam ‘terceirizar’ o procedimento, trazendo novas strippers para dar continuidade aos estratagemas, o que eventualmente resulta em algumas complicações.

A situação vai galgando práticas criminosas a medida que elas começam a aplicar golpes cada vez mais prejudiciais ao patrimônio de algumas de suas vítimas.

Dirigido com insuspeita competência por Lorene Scafaria (do estranho “Procura-Se Um Amigo Para O Fim do Mundo”), “As Golpistas” – ou “Hustlers”, no original – não escapa de um certo maniqueísmo (as mulheres, ainda que tomem constantemente atitudes ilícitas, são mostradas como uma grande família, dispostas a se ajudar e a sempre se perdoar; já os homens, sem uma única exceção, são retratados sempre como grosseiros, ineptos, intratáveis, misóginos, egoístas e impiedosos), ainda assim, a escrita de Scafaria (ela é também roteirista) nunca é menos que prodigiosa, amparando-se muito no estilo de escrita minimalista, carregado de humor inteligente, aguçado e antenado do roteirista Adam McKay (do já clássico “A Grande Aposta”), produtor do filme que apadrinhou este projeto desde o começo.

domingo, 28 de junho de 2026

Licorice Pizza


 O termo “Licorice Pizza” – traduzido do inglês, Pizza de Alcaçuz! – é o nome de uma rede de lojas antigas que vendiam discos de vinil, em referência ao fato de que o formato do vinil, em si, lembrava uma pizza, isso lá nos EUA dos anos 1970 (época e ambientação do filme) um gatilho emocional e nostálgico para seu realizador, daí a dica: Estamos diante de um filme profundamente pessoal para seu diretor, roteirista e produtor Paul Thomas Anderson, no qual ele evoca, com irreprimível e contagiante emoção, lembranças de sua própria juventude, somadas às outras memórias, extraídas por sua vez das experiências do grande amigo Gary Goetzman, produtor de cinema e ex-ator mirim (estrelou a versão original de “Os Seus, Os Meus e Os Nossos”).

Muito tem se falado de uma vertente recente de cinema no qual grandes cineastas revisitam seu passado, como no caso de Spielberg (“Os Fabelmans”), Kenneth Branagh (“Belfast”) ou James Gray (“Armageddon Time”), no entanto, filmes de perfil autobiográfico estão aí desde os tempo de Fellini e seu “Amarcord”, vide as obras de John Boorman (“Esperança e Glória”) e Woody Allen (“A Era do Rádio”), só para citar alguns.

“Licorice Pizza” acompanha os percalços do amor experimentado por Gary Valentine (Cooper Hoffman, de “A Longa Marcha”, filho do ator Phillip Seymour Hoffman), a partir do momento em que ele avista Alana Kane (a premiada cantora Alana Haim) numa fila para fotos do anuário estudantil – Alana é uma das muitas jovens trabalhando como assistente de fotografia.

Como sempre (apesar do entusiasmo e da auto-confiança do jovem), há empecilhos para o romance: Ele tem apenas 15 anos; ela tem 25. Ele vem de uma família liberal (sua mãe aprova e incentiva muitas das ideias até mirabolantes do filho); ela vem de uma família de judeus conservadores (as irmãs e os pais de Alana Kane na vida real, inclusive, aparecem interpretando a família de sua personagem no filme).  Ele é um jovem ator numa fase incerta da carreira – as oportunidades como ator minguam à sombra de sua puberdade enquanto cresce nele uma disposição para o empreendedorismo – ela se encontra ainda na indecisão da juventude (seja essa indecisão afetiva ou profissional) e as ironias turbulentas dos anos 1970 não ajudam em nada.

Apesar disso, uma química e uma sintonia inconteste se estabelece entre os dois. Sem levar muito o garoto a sério, Alana o acompanha até Nova York, numa apresentação – onde chega a flertar com o colega um pouco mais velho Lance (Skyler Gisondo, de “Superman” e "O Dilema das Redes"). Eles passam a trabalhar juntos em projetos que o ambicioso Gary vai tocando ao sabor dos improvisos e dos acontecimentos: Ele se torna vendedor de colchões d’água; ela tenta carreira como atriz. Duas cenas notáveis: Numa, Alana e Gary fazem ciúme um no outro, enquanto ela usufrui da companhia do ator veterano Jack Holden (Sean Penn, cujo “Picardias Estudantis” foi uma inspiração declarada para este filme) e do produtor pinel vivido por Tom Waits; Na outra, Gary, Alana e uma equipe de pessoas de confiança vão instalar um colchão d’água na mansão de um alardeado produtor hollywoodiano (Bradley Cooper, fazendo uma caricatura aloprada do produtor Jon Peters), e envolvem-se numa série de confusões relacionadas ao Embargo do Petróleo, que encareceu e escasseou o combustível de veículos naqueles idos dos anos 1970.

No terço final, Alana torna-se voluntária na campanha para prefeito de Los Angeles do vereador Joel Wachs (o diretor Benny Safdie), enquanto Gary abre uma loja de fliperamas inspirado pela súbita legalização dessas máquinas no estado da Califórnia.

Todos esses percalços, entretanto, não passam de idas e vindas extremamente divertidas, às vezes tocantes, entre o amor de Gary e Alana que nunca encontra meios de se expressar harmoniosamente em meio à esses contratempos.

Primoroso, como costuma ser cada trabalho na filmografia de Paul Thomas Anderson, “Licorice Pizza” é exemplar na construção inspirada de suas cenas, no desenvolvimento quase hipnótico de seus personagens e na recriação assombrosa de uma Los Angeles setentista em ebulição, seja na direção de arte (irrepreensível), nos figurinos ou na trilha sonora.

Uma jóia preciosa.

sábado, 27 de junho de 2026

Toy Story 5


 A franquia que por razões ora mercadológicas, ora afetivas, nem a Pixar nem a Disney conseguem deixar de lado, está de volta. Isso depois de um desfecho (em “Toy Story 4”) que parecia encerrar em definitivo a história dos brinquedos que ganham vida quando os humanos não estão olhando.

Agora, com o protagonismo transferido de Woody e Buzz Lightyear (que ainda são importantes ao plot, não tenha dúvidas) para a vaqueira Jessie (a exemplo do que já havia sido experimentado com sucesso no curta-metragem “Toy Story de Terror”), encontramos Bonnie, a dona dos brinquedos desde “Toy Story 3”, um pouco mais crescida, com cerca de seus oito anos de idade. Bonnie encontra obstáculos em fazer amigos entre as outras crianças das redondezas por uma razão peculiar: Bonnie é daquelas crianças à moda antiga, ou seja, gosta de brincar com brinquedos, diferente das outras que agora, descoladas, têm todas um tablet para lhes prender a atenção.

É a tecnologia e o chamado tempo de tela (uma pauta que tem preocupado muito os pais e os especialistas) finalmente entrando num assunto de discussão dentro da franquia.

A fim de ajudar Bonnie a socializar, os pais lhe compram um tablet do momento, Lillypad (voz de Greta Lee, de “Vidas Passadas”) que rapidamente captura por inteiro a atenção da criança – outrora sempre a brincar com Jessie e os outros, agora, Bonnie passa as horas do dia vidrada na tela do aplicativo.

É assim que Jessie, Buzz e os demais brinquedos recorrem à Woody, que agora atua como um salvador de brinquedos perdidos ao lado da destemida Betty – cada vez mais e mais brinquedos são deixados de lado por conta do acesso dos pequenos à tecnologia.

Entretanto, a verdadeira saída para resolver os problemas de Bonnie é encontrar para ela uma amiguinha que compartilhe de suas mesmas afinidades – ou seja, que também goste de brincar com brinquedos – e, ao compreender isso instintivamente, Jessie embarca numa jornada que irá leva-la a rever momentos de seu passado traumático (mostrados em “Toy Story 2”) quando foi abandonada por sua primeira criança  quando esta cresceu.

Há ainda uma divertida trama paralela, na qual acompanhamos um grupo numeroso de astronautas de brinquedo, todos da linha de Buzz Lightyear, que despertam quando suas caixas abrem após o naufrágio do contêiner onde todos eram transportados. Tal e qual o Buzz original no primeiro “Toy Story”, todos eles acreditam ser patrulheiros espaciais legítimos (!), e seguem os indícios que creem leva-los até o Comando Estelar – e que acabam fazendo-os cruzar com os protagonistas de modo um tanto engraçado.

Dirigido pelo veterano Andrew Stanton (realizador de “Procurando Nemo” e “Wall-E”), “Toy Story 5” foi um projeto no qual a Pixar não mediu esforços para que se revelasse pertinente e necessário para muito além das questões financeiras (os últimos lançamentos da Pixar e da Disney como um todo andaram deixando a desejar nas bilheterias). Assim, sem demonizar ou vilanizar a tecnologia (afinal, foi a tecnologia quem permitiu a concretização de todas as obras feitas em Computação Gráfica da Pixar Studios), os realizadores expõe as circunstâncias nas quais as telas e os aplicativos parecem, de alguma forma, acelerar o processo de infância dos pequenos, levando-os a se afastar precocemente do mundo imaginativo oferecido pelos brinquedos. Essa reflexão ganha contornos emocionais ainda mais profundos, graças aos seus personagens, conhecidos de longa data do expectador – a franquia “Toy Story”, iniciada em 1995, afinal, evoluiu junto com a Computação Gráfica no cinema, aliás, o seu público infantil cresceu junto com ela. O que nos permite, neste quinto filme, enxergar os personagens de Jessie, Woody e Buzz como alegorias dos próprios pais: Estão sempre próximos às crianças, querem o melhor para elas e sofrem, lá no fundo, ao perceber que crescendo um pouquinho, dia a dia, deixam de ser crianças.