domingo, 7 de junho de 2026

Sweet Movie


 Em 1974, a Iugoslávia ainda existia quando o diretor Dusan Makavejev (oriundo de lá) perpetrou esta pérola da escatologia e do ultraje conhecida como “Sweet Movie”. Uma co-produção entre Iugoslávia, França e Canadá, “Sweet Movie” é frequentemente comparado, em fóruns de análises pela internet afora, com o igualmente famigerado e perturbador "Salo – 120 Dias de Sodoma" de Pier Paolo Pasolini, lançado um ano depois.

Em ambos os casos até existem razões históricas e sociais para a existência de tamanho tratado sobre a degradação humana: Dusan Makavejv cresceu numa Iugoslávia em ebulição política, à sombra de guerras e genocídios que se desdobraram em terríveis transformações sócio-políticas – todas essas incertezas, acerca da moralidade, da segurança física e existencial e da própria sobrevivência em si, estão embutidas em sua atordoante alegoria. A verdade é que quem conhece o cinema de Dusan Makavejev sabe de sua profunda desilusão para com sistemas governamentais – seja o comunismo, seja o capitalismo – e do quanto ele só consegue enxergar nas organizações do poder uma ordem falha e contraditória que neutraliza a liberdade.

O resultado desse inconformismo é, aqui, uma obra que desafia alguns conceitos de libertinagem e permissividade – é difícil acreditar, por exemplo, que todo um elenco e toda uma equipe técnica se propuseram a conceber as cenas que testemunhamos ao longo dos insanos noventa e oito minutos de duração. Hoje, é desnecessário dizer, “Sweet Movie” jamais teria aval e autorização para ser feito.

Em princípio, “Sweet Movie” foi planejado com uma única linha narrativa, na qual a vencedora do fictício Miss Monde 1984, no Canadá, um concurso de beleza e castidade para jovens virgens (!), é a malfadada protagonista interpretada por Carole Laure. Após ter seu hímen eleito o mais belo (!?!), a jovem é oferecida para se casar com um milionário esbanjador e prepotente, o Sr. Aristole Alplanalpe (John Vernon, colaborador de diversos filmes de Jess Franco). Ao se mudar para a mansão dele, ela vivencia uma sucessão inacreditável de abusos e passa literalmente pelas mãos de vários homens (todos representativos do que seria visto hoje como masculinidade tóxica) como o guarda-costas estuprador (!) Jeremiah Muscle (o fisiculturista canadense Roy Callender) ou o mexicano El Macho (Sami Frey, de “Band À Part” e “Anthony Zimmer-A Caçada”, uma caricatura afetadíssima de amante latino). Sequestrada, a jovem é levada à Paris onde termina em uma comunidade de artistas e hippies vienenses (entre eles, a morena Marpessa Dawn, que apareceu em “Orfeu Negro”) e, após intermináveis situações tão humilhantes quanto nauseantes, junta-se ao marinheiro Potemkin (Pierre Clémenti, de “A Bela da Tarde” e “O Conformista”) em um relacionamento que acaba fulminando-o, para então envolver-se em uma campanha publicitária de chocolate (uma espécie de símbolo para o capitalismo) na qual protagoniza uma das cenas mais emblemáticas do filme.

Entretanto, nem todas as sandices imaginadas por Makavejev foram filmadas: Indignada e contrariada com o extremismo das cenas de abuso a que foi submetida, a atriz canadense Carole Laure (de “Fuga Para A Vitória”) abandonou o projeto obrigando o diretor Makavejev a criar uma segunda linha narrativa, igualmente controversa e problemática. Nela, uma comunista fanática, Anna Planeta (Anna Prucnal, de “Cidade das Mulheres”, de Fellini) navega por um rio de Amsterdã em seu barco adornado com uma carranca de Karl Marx e enfeitado de ponta a ponta com doces coloridos, capturando jovens em meio aos transeuntes das margens, a fim de torna-los seus amantes, seduzi-los e, por fim, matá-los (!) – em sequências do mais descabido abuso infantil!

Todas as perversidades humanas parecem retratadas sem pudor nesta ciranda de euforia e decadência feita sob o pretexto das alusões políticas, entretanto, parece ser consenso que Dusan Makavejev foi longe demais: Seu filme não é apenas um desfile de cenas de orgia, coprofagia, estupros, mortes e toda sorte de cenas envolvendo líquidos corporais, ele inclui também sequências documentais da desova de cadáveres no histórico massacre de Katyn, na Polônia.

A natureza explícita, repelente e francamente indigesta dessas cenas torna “Sweet Movie” um filme difícil de ser recomendado, salvo para públicos muitíssimo específicos.

sábado, 6 de junho de 2026

Bugonia


 Sem jamais abandonar um estilo idiossincrático de moldar obras desiguais, desconfortáveis, quase sempre perturbadoras (característica que fez chamar a atenção para si no cinema de sua Grécia-natal), o diretor Yorgos Lanthimos conseguiu conquistar a colaboração de improváveis aliados (como a estrela Emma Stone, aqui na quarta parceria com o diretor) e uma parcela do público e da crítica que sempre parecem entusiasmados com mais um novo atrevimento do mesmo realizador de “A Favorita”.

Etimologicamente falando, o título de “Bugonia” surgiu das expressões gregas, Boures (boi) e Góné (geração), significando a geração, o surgimento de insetos como moscas ou abelhas a partir de uma carcaça de boi em decomposição.

“Bugonia”, em princípio, parece se debruçar sobre um absurdo sem precedentes: Os primos Teddy Gatz (o ótimo Jesse Plemmons) e Don (o ator autista Aidan Delbis) são a própria personificação de norte-americanos alienados; creem em teorias da conspiração e tem recursos e disponibilidade para pôr algumas de suas sandices em prática. Teddy passa seu tempo livre cuidando de abelhas como apicultor (atenção a este detalhe!) e também trabalha como operário numa empresa do conglomerado farmacêutico Auxolith. Ele acredita piamente que a CEO, Michele Fuller (Emma Stone), é uma alienígena enviada à Terra com um plano contundente para capitanear uma invasão gradual e insidiosa.

Seu plano é, portanto, sequestra-la, com o auxílio de Don, (e sua convicção para isso é tanta que chegam a ingerir um castrador químico para que não sejam afetados pela presença feminina da refém!) e durante o cárcere extrair dela (nem que seja sob tortura!) os meios para teleportar-se à sua nave-mãe (!), onde haverão de encontrar um meio de sabotar a invasão alienígena (!!). O enredo, em sua descrição, parece pertencer à uma comédia de ficção científica ou algo minimamente próximo disso, entretanto, a direção de Yorgos Lanthimos o transforma em algo completamente diferente.

Refilmado e reimaginado a partir do filme sul-coreano “Save The Planet Green” (ou “Jigureul Jikyeora!”, no idioma original), lançado em 2003 (este, sim, uma comédia de ficção científica de fato, infinitamente menos sombrio e pessimista que este daqui), “Bugonia” reflete sobre os indivíduos de índole escorregadia e de convicções questionáveis que surgem a partir de sociedades cujos valores entram numa espécie de apatia. Logo, é uma habilmente disfarçada reflexão sobre as arestas não aparadas dessa América de Trump que Lanthimos nos entrega.

Os realizadores de “Save The Planet Green” (jamais lançado aqui no Brasil, infelizmente) afirmaram que tiveram a ideia do enredo básico ao assistirem o filme “Louca Obsessão”, o que os deixou insatisfeitos devido à falta de profundidade explorada na personagem da sequestradora; em “Save The Planet Green”, eles tomaram a decisão de conceber um roteiro sob o ponto de vista torpe do próprio sequestrador. Isso, aliado à uma notícia da internet (onde uma teoria da conspiração cogitava a possibilidade do astro Leonardo Dicaprio ser um alienígena!) rendeu a ideia que, por fim, se tornou “Save The Planet Green”.

No entanto, se naquele filme, os realizadores sul-coreanos fizeram uma alucinada comédia de humor negro, aqui, em “Bugonia”, o diretor Lanthimos tece uma obra de conotações mais desafiadoras: Ele justapõe personagens brilhantemente bem escritos (a CEO implacável ainda que paradoxalmente indefesa de Emma Stone e o sequestrador ignorante de Jesse Plemmons potencialmente perigoso justamente por sua ignorância) num duelo de convicções e num constante e mutável jogo de negociação entre verdade, determinação e duplicidade.

O desfecho de “Bugonia”, com seu desconcertante plot twist reforça a observação impiedosa que Yorgos Lanthimos sempre fez da condição humana: Se, como na crença da Antiguidade, a raça humana emergiu das carcaças de outra espécie assim neutralizada (os dinossauros), através do fenômeno da Bugonia, de novo isso torna a acontecer, agora, com a raça humana, moribunda em seus conceitos falhos e no fato de que plantou as sementes para a própria auto-destruição, originando talvez uma nova forma de vida, dando continuidade ao ciclo.

Ainda que altamente irônico e cruel, esse talvez seja o mais perto de algum otimismo que o diretor Yorgos Lanthimos seja capaz de chegar.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestres do Universo


 A concepção do desenho animado “He-Man e Os Mestres do Universo” já é uma história bastante difundida na cultura pop – a de que a Mattel (empresa fabricante de “Barbie”) recusou a proposta (que mais tarde se provou milionária) de um certo George Lucas para fazer uma linha de brinquedos baseada em seu filme “Star Wars”. Com o sucesso da concorrência, a Mattel correu atrás do prejuízo tentando lançar sua própria linha de brinquedos infanto-juvenis baseado numa obra de fantasia. A ideia de fazer isso com “Conan” (personagem que vinha fazendo sucesso com o filme live-action de 1982) não vingou porque o personagem era desde a gênese deveras violento para crianças pequenas, contudo, executivos notaram que bastava mudar a cor do cabelo do personagem principal (alterado do preto para o loiro, causando um ligeiro estranhamento em contraste com a pele bronzeada) e havia toda uma linha inédita e original de brinquedos.

Sem uma obra prévia de introduzisse o conceito para as crianças consumidoras do brinquedo, a Mattel produziu breves histórias em quadrinhos que acompanhavam os bonecos a fim de lhes proporcionar um background, no entanto, logo seguiu-se a ideia de produzir toda uma série de animação (a cargo da produtora Filmation) que se encarregasse de mostrar ao público-alvo toda a mitologia concebida a partir dos bonecos – uma prática que, dado o estrondoso sucesso, tornou-se regra mercadológica nos anos 1980.

A fim de contornar as críticas – que apontavam o desenho como uma mera propaganda de marketing estendida, visando apenas divulgar um produto – os produtores acrescentaram, ao fim de cada episódio de “He-Man e Os Mestres do Universo”, uma breve mensagem moral.

E o resto, para você que tem por volta de seus 40 e tantos anos, é História.

Toda essa volta é para contextualizar as circunstâncias inusitadas por meio das quais surgiu uma das obras mais emblemáticas para quem foi criança nos anos 1980, e que culminou no filme “Mestre do Universo” lançado agora em 2026.

Não foi a primeira adaptação cinematográfica, é bom dizer: Lançado em 1987, pela produtora picareta Cannon Films, “Mestres do Universo” trazia Dolph Lundgreen escalado como He-Man numa trama cujo baixo-orçamento não permitia fidelidade absoluta ao desenho animado (uma mescla exultante entre fantasia e ficção científica) e que acabava adotando como ambientação um subúrbio qualquer de Nova York (!). Apesar dos lapsos imensos de produção, esse filme, hoje, é lembrado com carinho como uma espécie de ‘prazer culposo’.

Mas, vamos falar do filme de 2026.

Nele, o planeta Etérnia – lar dos personagens e palco dos embates entre o Bem e o Mal – surge materializado por efeitos especiais de ponta. O reino governado pelo rei Randor (James Purefoy) e pela rainha Marlena (Charlotte Riley, de “No Coração do Mar”) que, diga-se, veio da Terra, é detentor do lendário Castelo de Greyskull, cujos poderes encontram-se depositados na Espada do Poder, a ser empunhada, segundo a sábia Feiticeira (Morena Baccarin) por seu vindouro campeão. Todavia, surgem as forças do Mal manifestadas no perverso Esqueleto (Jared Leto) que ataca o reino, aprisiona o rei e a rainha, e ainda oprime todo o povo, almejando tomar para si os poderes de Greyskull. Isso só não acontece porque o príncipe Adam, ainda uma criança, sob a orientação da Feiticeira, é enviado junto da espada para o planeta Terra, outrora lar de sua mãe.

Mas, Adam acaba perdendo a espada (sua conexão com o mundo de Etérnia), levando cerca de quinze anos para reencontrá-la – e então, após esse salto temporal, já vemos Adam vivido por Nicholas Galitzine (de “Uma Ideia de Você”), o novo intérprete do personagem.

Embora essa primeira parte forneça uma apresentação simbólica e tenha uma função narrativa de origem para dar o pontapé inicial no enredo, muitos fãs torceram o nariz para essa ambientação na Terra, recordando das escolhas um tanto equivocadas do filme de 1987 (ainda que isso também abra espaço para uma divertida participação especial do próprio Dolph Lundgreen em pessoa). Contudo, o trecho da Terra é rápido, elíptico até (atropela até algumas informações importantes que podia ter fornecido do tempo em que Adam ficou por aqui) e, quando menos se espera, o expectador já foi devidamente arremessado de volta à Etérnia: Ao finalmente reencontrar sua espada, Adam consegue trazer seus aliados para a Terra – na verdade, é Teela (a maravilhosa brasileira Camila Mendes), sua amiga de infância, quem vem lhe resgatar – e seus adversários também – ele é perseguido pelo bestial Homem-Fera!

Em Etérnia, Adam – que ainda está a se adaptar aos poderes assim descobertos da espada – reencontra os guerreiros dos quais se recordava na infância – personagens característicos e clássicos da animação como o pai de Teela, Mentor (o sempre sensacional Idris Elba), Fisto (Jóhannes Haukur, de “Atômica”), Aríete (Jon Xue Zhang), Mekaneck (James Wilkinson) e Roboto (voz de Kristen Wiig) – que formam agora, uma resistência contra as forças do Esqueleto. Não demora muito para Adam finalmente descobrir os meios que a Espada do Poder tem para convertê-lo no poderoso He-Man (esse nome só é revelado no desfecho) e fazer dele o tão aguardado Campeão de Etérnia, a fim de livrar o povo do Esqueleto.

Desde exibições-testes preliminares já havia surgido o comentário sobre a imensa semelhança deste projeto com “Thor-Ragnarok” – e a similaridade, de fato, não parece ser por acaso, ela parece ser proposital: Desde o colorido característico e nada sombrio dos efeitos visuais, figurinos e direção de arte, passando pela trilha sonora que, entre outras coisas, traz o guitarrista Brian May (do “Queen”!), até o próprio roteiro que não economiza em referências e na famosa e apetecível fórmula de muita ação e aventura mesclada ao humor inofensivo e ocasional (ainda que algumas piadas revelem um duplo sentido), tudo nesta produção evoca o filme de Taika Waititi em particular, e o estilo da Marvel Studios em geral.

A direção de Travis Knight (de “Bumblebee”) se baseia integralmente na animação clássica da década de 1980 (com algumas poucas menções às reinvenções que o próprio desenho sofreu ao longo dos anos) e investe de ponta a ponta em nostalgia, buscando uma modernização por meio da identificação e humanidade dos personagens, trazendo elementos motivacionais em voga como empatia e sinergia (não à toa, o herói na Terra trabalhava no setor de Recursos Humanos!). Até mesmo o vilão Esqueleto é representativo de uma maldade translúcida, sem preocupações com um aprofundamento que lhe desvirtue uma certa galhofa inerente ao personagem.

Em resumo, “Mestres do Universo” é uma obra recheada de boas intenções, personagens pra lá de carismáticos e uma mitologia tão atraente quanto mirabolante (ainda que, com isso, pese a mão em alguns momentos de drama ou de comédia), seu sucesso comercial – notadamente almejado no estilo um pouco pedante que evoca – pode abrir as portas para toda uma nova franquia nas telas de cinema (com desdobramentos sugeridos, inclusive, numa de suas três cenas pós-créditos). Um trabalho feito com coração, mas, não sem um mal disfarçado planejamento mercadológico, aliás, exatamente como o desenho animado que lhe deu origem.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dinheiro Suspeito


 Melhores amigos na vida real, os astros Matt Damon e Ben Affleck já dividiram a cena diversas vezes em filmes como o premiado “Gênio Indomável” (praticamente a estréia dos dois) ou o bizarro “Dogma”, de Kevin Smith. Em “Dinheiro Suspeito” – ou “The Rip”, o título original – eles voltam a fazê-lo desta vez do alto de uma carreira já consagrada e com anos de experiência nas costas – o que confere a ambos bagagem suficiente para interpretar magistralmente os dois protagonistas.

Dirigido brilhantemente por Joe Carnahan (realizador extremamente talentoso para com o gênero policial tendo assinando o magnífico “Narc”), “Dinheiro Suspeito” reflete um cinema que, em grande medida, já não é mais feito – uma obra sólida, enxuta, sem firulas, sobre personagens sem firulas existindo no limiar de extremos da Lei, da violência e da criminalidade, lembra muito (como quase todo o cinema de Carnahan) as produções cheias de energia, ênfase e personalidade realizadas nos anos 1970.

“Dinheiro Suspeito” já começa sem qualquer receio de expor o expectador à diálogos carregados de densidade: Sob a atmosfera já pesada de um escritório da polícia, o Tenente Dane Dumars (Matt Damon, ótimo) tece uma conversa com seu superior. A Capitã Jackie Velez (Lina Esco, de “London”), responsável pela investigação aos desdobramentos de um cartel de drogas em Miami, acabou de ser morta num violento e misterioso atentado. A suspeita recai sobre seus próprios colegas – a corregedoria acredita que foram policiais corruptos, na folha de pagamento dos traficantes, que perpetraram o atentado, e para tanto, agentes federais, representados entre outros pelo implacável Del Byrne (Scott Adkins), mobilizam uma bateria indigesta de interrogatórios a todos os membros da Unidade de Narcóticos do Departamento de Polícia de Miami, inclusive J.D. Byrne (Ben Affleck, surpreendente), seu próprio irmão!

A suspeita paira no ar.

Para Dane, J.D. e os agentes Numa Baptiste (Teyana Taylor, de “Uma Batalha Após A Outra”), Lolo Salazar (Catalina Sandino  Moreno, de “Maria Cheia de Graça”) e Mike Ro (Steve Yeun), os demais integrantes da força-tarefa, a Cap. Velez (que, à propósito, estava envolvida com J.D.) esbarrou numa descoberta bombástica – e que talvez seja a confirmação do que até então era uma lenda urbana: Paióis de dinheiro mantidos por cardéis que armazenam quantias tão assombrosas de dinheiro do tráfico que qualquer policial, honesto ou não, se sentiria compelido a pegar um pouco para si.

Engessados pela burocracia do sistema, abalados pelos detalhes nebulosos da investigação da Cap. Velez – detalhes estes que, em grande parte, parecem ter morrido com ela – e subitamente inseguros em depositar confiança absoluta uns nos outros, J.D., Numa, Lolo e Mike resolvem seguir Dane numa apreensão de dinheiro sugerida pelo que talvez seja uma dica anônima.

Com a noite a cair sobre Miami, eles chegam a um bairro residencial de Hialeah onde mora Desi (Sasha Calle, de “Flash”), uma jovem que alega inocência e afirma tão somente estar ocupando a casa de foi de sua falecida avó. Os policiais adentram o recinto e, numa busca, descobrem um paiol com a alarmante quantia de 200 milhões de dólares (uma das maiores apreensões de dinheiro já feitas!) – quando a dica anônima sugeria meros 150 mil!

Instala-se um clima de preocupação: Um valor tão grande não pode passar despercebido aos traficantes, ou mesmo aos policiais corruptos que os ajudam – o grupo de Dane, portanto, corre perigo. É questão de tempo até que inimigos fortemente armados caiam sobre eles. No entanto, segundo a Lei, eles não podem deixar o local sem ante fazer a contagem – e, de novo, ainda pesa a questão de que talvez não possam confiar uns nos outros.

Não existem distrações redundantes nem desvios melindrosos no filme de Joe Carnahan, o que ele constrói com habilidade espantosa é um trabalho básico, tenso, decorrido numa única noite e ambientado quase que totalmente num único lugar (ainda que seu refinamento cinematográfico evite qualquer impressão teatral). Seus atores estão em ponto de bala (não me lembro quando foi a última vez que vi Ben Affleck tão bem), seu roteiro (assinado por ele próprio e por Michael McGrale) além de engenhoso e meticuloso, aborda aspectos distintos da atividade policial e gerencia elementos que desembocam em revelações surpreendentes na parte final, e sua direção extremamente segura e absorvente equilibra com rara primazia as sequências explosivas de ação (ainda que, no clímax, ele exagere um pouco nesse quesito), a tensão gradual e crescente e a manutenção louvável de um enredo sempre em desenvolvimento, trazendo até o fim novas informações ao público.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Os Implacáveis


 Considerado o último grande filme do astro Steve McQueen, “Os Implacáveis”, ou “The Getaway”, foi realizado por Sam Peckinpah um ano após ele entregar uma de suas obras-primas, “Sob O Domínio do Medo”. Em grande medida, pode-se apreender que Peckinpah tece um sutil diálogo entre esses dois trabalhos: Em ambos, há uma apurada observação do diretor sob os efeitos corrosivos que as escolhas eventuais (e justificadas por necessidades muito particulares) podem impor ao relacionamento de um casal. Claro que junto disso, Peckinpah orquestra um tratado de edição simultânea onde a ação do ser humano está em justaposição àquilo que ele pode fazer, aquilo que ele fará e o que poderia ter feito. É um jogo existencial (e certamente cruel) entre convicções, arrependimentos e reviravoltas infelizes. Mas, vocês já entenderão melhor...

Quando começa “The Getaway”, o protagonista de poucas palavras, Doc McCoy (Steve McQueen, sempre marrento e supino), se encontra encarcerado numa prisão, e a montagem simultânea, inteligente e instintiva de Peckinpah almeja, já ali, demonstrar o que se passa no âmago em ebulição desse personagem inicialmente tão impassível e inabalável. Após quatro anos e várias tentativas negadas de liberdade condicional, Doc está farto: Ele pede à esposa, a dedicada Carol (Ali MacGraw, de “Love Story”), que entre em contato com Jack Beynon (Ben Johnson), um figurão do crime, para que mexa seus pauzinhos e o tire da prisão –favor que, Doc sabe, terá de pagar com algum serviço sujo.

As engrenagens desse mundo do crime assim esboçado por Peckinpah (e roteirizado por Walter Hill, a partir do livro de Jim Thompson) não tardam a se movimentar: Doc ganha a liberdade e, com isso, deve encabeçar um pretensioso assalto a banco, de onde haverão de ser roubadas as reservas financeiras de uma refinaria de petróleo. Os capangas que irão auxiliá-lo na operação (além da própria Carol) são o jovem e errático Frank (Bo Hopkins, de “Meu Ódio Será A Sua Herança”) e o cruel e indiferente Rudy (Al Lettieri, de “Desafiando O Assassino”). Durante o assalto a afobação de Frank quase põe tudo a perder enquanto Rudy, por sua vez, não deixa de tentar um previsível ato de traição –terminando alvejado por Doc.

O pior, contudo, é o inesperado: Doc descobre que Beynon exigiu de Carol favores sexuais para que ele fosse libertado, e com isso, ela e Beynon tinham um arranjo no qual deixavam Doc para trás na intenção de ficar com o dinheiro. Na hora da revelação, Carol até se volta contra Beynon e o mata a tiros, entretanto, já é tarde: A descoberta já minou completamente a confiança que Doc tinha nela e comprometeu seriamente a possibilidade de ficarem juntos. Isso será uma sombra agourenta que haverá de pairar sobre o casal protagonista até o desfecho de “The Getaway”.

Assim sendo, por mais que tenham em seu encalço o ensandecido Rudy (que, ainda ferido, consegue sequestrar um casal e levar os dois à conduzi-lo atrás dos personagens principais), e o irmão de Beynon, Cully (Roy Jenson, de “Ouro É O Que Vale”), todos dispostos a vingarem-se e a ficar com o dinheiro, esses muitos percalços (e outros tantos que ainda virão) servem como reflexos do abalo periclitante sofrido pela relação de Doc e Carol. O protagonista, por sua natureza truculenta, machista e, hoje, certamente antiquada, não suporta conviver com o fato de que sua esposa deitou-se com outro homem, e isso haverá de atormentá-lo.

Ainda que imperfeita, a manutenção dos elementos de “The Getaway” por seu diretor Peckinpah (elementos estes que em grande medida definem seu cinema) permite enxergarmos o filme como uma grande alegoria sobre o relacionamento a dois – o casal protagonista composto pela machão (subitamente confrontado com a ilusão de sua masculinidade infalível) e a mulher (o indivíduo disposto a se sacrificar, se ferir e sangrar em nome do casal, mas sem necessariamente levar em conta as convicções do próprio marido) precisa alcançar o fundo do poço – representado, com mais ênfase, na escapada a bordo da caçamba de um caminhão de lixo, um ciclo de derrocada e redenção – para então emergir de lá renovados e reunidos sob essa nova concepção de quem um é para o outro.

Na década de 1990, “The Getaway” foi refilmado tendo o mesmo roteirista original, Walter Hill, a frente do argumento; aqui  no Brasil saiu com o título “A Fuga”, e foi estrelado por Alec Baldwin e Kim Basinger –tratava-se de uma produção que modernizou muito do enredo criminal esboçado já no livro de Thompson, mas que também agregou elementos do cinema comercial de então –mais sangue, mais violência, mais ação e uma desconcertante pitada de nudez e sexo –resultando numa obra até satisfatória, mais longe de ser memorável como este aqui.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Spider-Noir - 1ª Temporada


 Os diretores Phil Lord e Christopher Miller, de “Homem-Aranha No Aranhaverso”, na qualidade de produtores (e, portanto, plenos de controle sobre o material final) escancaram, nesta arrojada série da Amazon Prime e produzida pela Sony Pictures, o seu irreprimível apreço pelo subgênero do film noir.

Concebendo um novo personagem a partir da variante detetivesca e monocromática do Homem-Aranha que havia dado as caras em “Aranhaverso” – e que lá era, inclusive, dublada por Nicolas Cage – Lord e Miller dão origem à um novo personagem; e que difere, por sinal, até mesmo da fonte original dos quadrinhos.

Nesta série, elaborada num vistoso e atmosférico preto & branco – mas, liberada também numa versão em cores – o próprio Nicolas Cage (como não poderia deixar de ser!) comparece em carne e osso para dar vida ao personagem que antes ele dublou, o assim chamado Homem-Aranha Noir.

Cage é Ben Reilly, um detetive particular na Nova York da década de 1930 – com todas as mazelas sociais de gangsterismo, Grande Depressão e Lei Seca que o noir tão bem soube explorar – que, cinco anos antes, havia sido o herói Spider (ele abandonou a vida de vigilante após ter sido incapaz de salvar a mulher que amava). Tendo pendurado as chuteiras, Reilly agora é um detetive desiludido, ocasionalmente alcóolatra e dedicado aos casos extraconjugais de praxe, que mal pagam seu sustento e o salário da secretária Janet (Karen Rodriguez).

Até o dia em que uma série de casos coincidentemente interligados começam a revelar para Reilly uma curiosa conspiração ocorrendo em meio às sombras do submundo nova-iorquino: Um marido pouco confiável pede que Reilly recolha provas do adultério de sua alegada esposa, a cantora Kat Hardy (a sedutora Li Jun Li, de “Pecadores”) cujos encontros fortuitos são com ninguém menos do que o prefeito da cidade; o ex-combatente desaparecido inexplicavelmente adotado de poderes (relacionados ao fogo, no caso) que incendeia a mansão do chefão Cabelo de Prata (Brendan Gleeson); mais tarde, a própria Kat Hardy requisita os serviços de Reilly para encontrar outro desaparecido, seu amante e guarda-costas, Flint Marko (Jack Huston, da refilmagem de “Ben-Hur”) – em comum entre ele e o desaparecido anterior é que não apenas ambos tinham poderes (os de Marko, relacionados à areia, o que o torna uma perfeita versão noir do Homem-Areia dos quadrinhos do Aranha) como também serviram no mesmo batalhão; como se não bastasse, o Cabelo de Prata em pessoa surge querendo contratar Reilly, desta vez, para descobrir qual é a identidade do traidor que está planejando sua morte – de cujo plano, inclusive, faz parte o incêndio em sua mansão.

Seguindo com paixão e afinco cada um dos tópicos do Film Noir episódio após episódio, a série tem o bom senso de permitir que suas escolhas felizes ditem o rumo de sua realização: Nicolas Cage, pra variar, está sensacional na sua mescla empenhada do habitual caos interior com um pastiche cheio de propriedade de Humphrey Bogart (ainda que o caimento do clássico chapéu de detetive, em Cage, esteja a léguas de ficar tão bem como era em Bogart), a produção compreende os predicados do subgênero de manipulam e faz disso um dos achados da narrativa, na ênfase em sua reconstituição de época, e no preciosismo de seus figurinos, e o roteiro organiza e dispõe um novelo de tramas misteriosas, motivações nebulosas, segredos, mentiras e femme fatales, como num bom film noir para conduzir o saboroso suspense de seu  enredo.