Em 2004, a superprodução “Tróia” – ou “Troy”, no original – era uma promessa e tanto nos cinemas: Um épico dirigido pelo tarimbado Wolfgang Petersen (diretor alemão que trazia em seu currículo o elogiado “O Barco-Inferno No Mar” e a fantasia “História Sem Fim”), roteirizado por David Benioff (roteirista do lastimável “X-Men-Origens-Wolverine” e da aclamada série "Game of Thrones"), adaptando o poema “A Ilíada”, de Homero, e que ostentava um elenco com nomes como Brad Pitt, Eric Bana, Peter O’Toole, Julie Christie, Orlando Bloom (então em alta com a Trilogia “O Senhor dos Anéis”), Brian Cox, Garrett Hedlund e muitos outros.
Todavia, ao aportar nos cinemas, a empolgação
rapidamente foi substituída por um certo descaso: A direção de Petersen era
burocrática, desanimada, indicativa de uma carreira que logo chegaria ao seu
crepúsculo (depois de “Tróia”, ele só lançou “Poseidon”, de 2006, em Hollywood,
e a comédia “Vier Gegen Die Bank”, de 2016, em sua Alemanha natal, até falecer
em 2022) e o roteiro (que pretendia-se realista) omitia a intervenção das
divindades da mitologia grega nos acontecimentos, preservando elementos pouco
palatáveis nos personagens protagonistas que foram mantidos – um dos grandes
lapsos em “Tróia” é que, num elenco numeroso e adornado de estrelas de cinema, quase
ninguém traz um personagem bem desenvolvido ou uma atuação capaz de se
sobressair ao todo – com muita boa vontade, talvez, somente à exceção de Eric
Bana...
Uma pena, uma vez que “Tróia” era (ou deveria
ser) uma obra onde as ações servem de consequências aos vícios e às virtudes
humanas.
1184 A.C. Grécia Antiga. Em Esparta, o Rei
Menelau (Brendan Gleeson) recebe os príncipes de Tróia, os irmãos Hector (Eric
Bana) e Paris (Orlando Bloom), de índoles distintas – enquanto que Hector, o
mais velho, carrega consigo a austeridade como herança de seu reinado e de suas
responsabilidades, o mais jovem, Paris, é um jovem mimado e imaturo, cujo
semblante de agradável beleza lhe permite colecionar conquistas amorosas.
Será uma dessas conquistas o estopim para uma celeuma
sem precedentes: A Rainha Helena, tida como a mulher mais linda do mundo
(vivida pela convincente e radiante Diane Kruger) e esposa de Menelau,
encanta-se por Paris, tornando-se seu amante e pondo em prática o plano de
fugir junto dele para Tróia.
Afrontado, Menelau convoca seu irmão, Agamenon
(Brian Cox), um convencido senhor da guerra e, juntando forças, decidem
arremessar seus exércitos para cima das defesas de Tróia. A confiança de
Agamenon, contudo, tem lá sua razão de ser: Entre suas fileiras está o
imbatível guerreiro Aquiles (Brad Pitt, exalando soberba), segundo dizem,
abençoado pelos deuses para ser invencível no campo de batalha.
Munido de milhares de outros soldados – entre
eles, o estrategista Odisseu (Sean Bean, aqui chamado de Ulisses) e o primo de
Aquiles, Pátroclo (Garrett Hedlund, de “Inside Llewyn Davis-Balada de Um HomemComum”) – as forças de Menelau e Agamenon rumam mar adentro em direção à Tróia,
governada pelo Rei Príamo (Peter O’Toole), disposto a proteger seus filhos e
seu povo das hostilidades iminentes.
Condensada numa obra de profundas intenções
comerciais (na qual nota-se com nitidez a predisposição em enfatizar as cenas
de batalhas em detrimento de qualquer enredo), esta versão pasteurizada de “A
Ilíada” negligencia o potencial de seus personagens – Aquiles, Agamenon, Paris
e Menelau surgem reduzidos à estereótipos apáticos, como arrogante,
intolerante, mimado e obsequioso, respectivamente – não fornecendo ao
expectador um protagonista válido e digno ao qual ancorar seu investimento
emocional.






