“Sedução” é o genérico título nacional dado à esta produção espanhola dirigida por Fernando Trueba, vencedora do Oscar 1994 de Melhor Filme Estrangeiro –embora o filme tenha sido realizado e lançado em 1992, os percalços vagarosos do circuito comercial da época o levaram a vencer o prêmio somente dois anos depois. O título original remete à uma espécie de nostalgia, e talvez esse seja o caminho mais lúcido para explicar o clima de descontração associado a uma certa liberdade de pensamento que contamina os desdobramentos romântica e sexualmente um tanto improváveis da trajetória do protagonista Fernando (um alter-ego, talvez?) interpretado com inesperada simpatia por Jorge Sanz.
É inverno de 1931 e, na Espanha de Franco, a
Guerra Civil corre solta quando um jovem soldado decide-se por desertar –numa
cena que já define o tom inusitadamente tragicômico do filme, o jovem Fernando
é flagrado, em sua deserção, por dois oficiais da polícia, sogro e genro. Os
dois, porém, discordam da ideologia da situação: O sogro quer soltar Fernando,
ciente de que a guerra, com seu desfecho iminente, não precisa interferir no
destino daquele pobre coitado; já o genro quer porque quer seguir a Lei à risca
ameaçando atirar em Fernando e no próprio sogro se for contrariado! Os ânimos
se acirram e, sentindo-se desafiado, o genro atira no peito do sogro (!),
matando-o ali mesmo, somente para, no instante seguinte, seu arrependimento
leva-lo a suicidar-se (!!!). Todavia, a trama de fato se inicia na cena
subsequente, quando Fernando pede pouso num prostíbulo onde conhece o ocasional
frequentador, o Sr. Manolo (Fernando Fernán Gómez, de “Tudo Sobre Minha Mãe”),
que não apenas simpatiza com ele por suas posições políticas (Fernando é a
favor que seja instaurada a República) como também se prontifica a livrá-lo das
algemas que, desde a malograda cena inicial, ele não conseguiu tirar.
Fernando acaba pernoitando por algumas noites
na casa do solitário Sr. Manolo e com ele constrói uma profunda amizade, mas
logo o momento de pegar o trem para Madri se aproxima e, segundo o próprio
Sr. Manolo, ele mesmo não irá ficar
sozinho por muito tempo: Virão, também de Madri, todas as suas quatro filhas
para visita-lo.
Na estação, no dia em que partiria, Fernando
recebe, ao lado do Sr. Manolo, suas filhas e fica absorto com a beleza
acachapante delas –são elas, a mais insinuante
Rocio (a sensualíssima Maribel Verdú), a mais velha Clara (Miriam Díaz Aroca),
então viúva do marido, a bela ainda que ligeiramente andrógina Violeta (Ariadna
Gil, de “A Dançarina e O Ladrão”) e a caçula Luz (uma bem jovem Penelope Cruz,
antes de tornar-se uma estrela).
Atraído pela formosura e pela atmosfera de
alegria que todas elas conseguem trazer ao lugar, Fernando retorna à casa do
Sr. Manolo afirmando que perdera o trem, e por lá fica alguns dias, ao longo
dos quais, por incrível que pareça, conseguirá estabelecer um vínculo afetivo
com cada uma delas!
Fernando Trueba conduz essa espécie de variação
romântica e cômica de “O Estranho Que Nós Amamos” incrementando-a de certa
lascívia espanhola: Cobiçada pelo riquinho e inconstante Juanito (Gabino Diego),
Rocio é a primeira que se engraça com Fernando; depois dela, o jovem ex-soldado
consegue despertar, apenas brevemente, o interesse carnal de Violeta durante
uma festa à fantasia tão somente porque esta se veste de soldado e ele de
camareira (!) –a inversão de valores que ambos promovem durante a cena da dança
de tango é divertida –já, Clara se joga nos braços
dele num momento de imediato saudosismo dos carinhos do marido (no exato
instante em que passavam pelo rio em que ele se afogou!); tudo isso tendo Luz,
talvez, a única das irmãs genuinamente apaixonada por ele, como indignada
testemunha.
%201.jpg)





