Como atriz e produtora, a estrela Jennifer Lopez (assim me dá a impressão) parece optar por uma estratégia onde pega um conceito de filme de sucesso, ou clássico, ou ambos, e produz com ele uma espécie de versão feminina. Explico: Ela já havia feito algo assim, anos antes, com o pseudo-suspense “Nunca Mais”, que nada mais era do que uma variação do conceito de “Karate Kid’, transposto para um viés mais adulto e feminista ao abordar, com isso, a violência doméstica. O mesmo acontece aqui, de novo, com um pseudo-suspense, onde o roteiro promove mais uma variação, desta vez, de todo o conceito do filme “Atração Fatal”, no qual um lapso de adultério deflagra um verdadeiro pesadelo na vida de um casal.
“O Garoto da Casa Ao Lado” – ou “The Boy Next
Door” – é dirigido por Rob Cohen, um operário-padrão em Hollywood que realizou,
entre outros, o primeiro “Velozes & Furiosos”, “Daylight” (com Sylvester
Stallone), “Dragão-A História de Bruce Lee” e “Stealth-Ameaça Invisível”. Por
ser um operário-padrão, Cohen desenha filmes para os estúdios e, em última
instância, para os produtores, filmes sem identidade, sem uma característica
autoral e, na opinião de muitos, sem alma, no entanto, como muitos desses
casos, ele aborda diferentes gêneros com profissionalismo, obtendo resultados
e, para bem ou para o mal, fazendo acontecer.
Do alto de sua beleza e formosura inabaláveis,
Jennifer é Claire Peterson, uma professora de literatura clássica do Ensino
Médio que atravessa uma fase desgastada no casamento que resultou em traição –
ela está num processo de digerir o adultério de seu marido Garrett (John
Corbett, de “Casamento Grego”), e começa a cogitar a possibilidade de perdoá-lo
em vista da presença do filho adolescente deles, Kevin (Ian Nelson, de “Jogos Vorazes”). No entanto, para sua amiga Vicky (Kristin Chenoweth, da série
“Pushing Daisies”), que é também diretora na escola que ela leciona, a
alternativa mais prática e sensata é seguir em frente e encontrar outro
parceiro.
Eis que é durante essa indecisão que o vizinho
idoso da casa ao lado recebe a visita de seu sobrinho Noah (Ryan Guzman, de
“Jovens, Loucos e Mais Rebeldes”), que apresenta-se para cuidar dele – afinal, Noah
não tem pais (mortos num acidente de carro cercado por circunstâncias
nebulosas) e parece ser um bom rapaz.
Tão bom que, nos dias que se seguem, começa aos
poucos a seduzir a própria Claire, fragilizada e solitária com os
acontecimentos que vinha enfrentando. Numa noite em que Garrett e Kevin haviam
saído para acampar, o interlúdio sexual entre os dois acontece e, já na manhã
seguinte, Claire arrepende-se, pesando todos os prós e contras de envolver-se
com um jovem com a mesma idade de um de seus alunos.
É aí que o roteiro assinado por Barbara Curry
opera uma mudança e Noah revela-se o psicopata que até então sua fachada de
galã vinha ocultando: Mesmo que, nesse processo, qualquer sutileza vá para o
ralo, promovendo uma mudança quase radical na índole do personagem – de
prestativo, atencioso e viril, ele se torna obcecado, manipulador e psicótico.
Na verdade, nem a protagonista escapa desse maniqueísmo: Na ânsia de emular o
suspense a la “Atração Fatal”
prometido desde o início, Claire também muda; de repente, de uma mulher
abandonada, vulnerável e sentimentalmente indecisa, ela vira uma defensora dos
valores matrimoniais, mais do que convicta em voltar para o esposo – o personagem
mais detestável do filme e que, como os outros, também tem um arco dramático
dos mais patéticos!
Banal em seu suspense – que brota do nada e não
leva a lugar nenhum, apenas pela força das conveniências do roteiro – e
completamente relapso na construção de seus personagens, “The Boy Next Door”
ainda padece de uma escalação algo equivocada dos intérpretes masculinos
principais: Não obstante a armadilha de interpretarem personagens mal escritos,
John Corbett e Ryan Guzman vivem respectivamente o marido bom ainda que falho e
o jovem sedutor e mau caráter, mas a falta de carisma do primeiro em relação ao
segundo compromete o funcionamento dessa dinâmica.
Tudo que resta é algo que já se evidencia desde
o princípio: Em cena, Jennifer Lopez é capaz de fazer um pouco desse filme
problemático funcionar justamente com sua presença agradável, sua atuação
satisfatória e seu magnetismo pra lá de apropriado para viver uma protagonista
como essa.






