domingo, 9 de agosto de 2026

Predador - Terras Selvagens


 Durante muito tempo o público experimentou a sensação de que o clássico “O Predador”, de 1987, estrelado por Arnold Schwarzenegger e dirigido por John McTiernam, era de uma magia assim irreplicável: As suas continuações, derivados e reinvenções oscilavam entre obras honestas, porém, insuficientes (“Predador 2” e “Predadores”) e trabalhos absolutamente pífios (“O Predador”, de 2018, e “Alien X Predador”) e tão mais ridículos quando cediam à pretensão de superar o excelente filme original.

Em 2022, contudo, algo mudou; ao ser confiado ao jovem Dan Trachtenberg (do ótimo “Rua Cloverfield, 10”) a franquia finalmente mostrou o mesmo potencial de seu primeiro filme em “O Predador-A Caçada”, de lá para cá, dentro desse redescoberto universo, Trachtenberg entregou uma instigante obra de animação (“Predador-Assassino de Assassinos”) e, em seguida, o que talvez tenha sido sua mais ambiciosa cartada com este “Predador-Terras Selvagens”.

A primeira e surpreendente manobra do filme é a forma como escolhe, desta vez, o seu protagonista: Não mais um humano a ser confrontado com a famigerada espécie alienígena de caçadores interplanetários, agora, o personagem principal é Dek (vivido sob quilos de maquiagem pelo dublê Dimitrius Schuster-Koloamatangi), um espécime jovem dessa mesma raça de caçadores interplanetários! Num lance um tanto ousado, o filme de Trachtenberg converte o que antes era o antagonista (aparentemente, a regra implícita imutável de todos os filmes até aqui) no protagonista. No processo, essa alteração permite jogar alguma luz em elementos da franquia que sempre estiveram ocultos no mistério –os procedimentos na sociedade dos alienígenas Yautja, seus costumes e sua hierarquia (até mesmo uma linguagem foi concebida para servir como idioma Yautja ao longo de todo filme).

Filho mais jovem e mais fraco (lapso do qual é o tempo todo lembrado), Dek, sendo um membro da brutal raça dos Yautja tem somente uma escolha: Provar seu valor ou ser morto. Na realidade, não chega nem a ser muito uma escolha: Se dependesse de seu implacável pai, ele seria morto instantaneamente (!), é seu irmão mais velho, Kwei, quem sacrifica-se para que Dek consiga partir a bordo de uma nave para o planeta Genna, de onde só poderá voltar com um troféu que prove sua força –a cabeça de um monstro jamais caçado, o Kalisk.

O planeta Genna, no entanto, tem sua fauna e flora convertidas num emaranhado de armadilhas mortais –sendo o Kalisk apenas a mais ameaçadora de todas elas!

Mal conseguindo sobreviver às primeiras horas de sua chegada por lá, Dek encontra os restos mortais de uma androide chamada Thia (Elle Fanning), cuja metade do corpo da cintura para baixo –ela perdeu justamente num encontro com o Kalisk.

Thia é, por sinal, um autômato enviado pela empresa terrestre Weyland-Yutani (a mesma empresa que surge em “Alien X Predador”, em “Alien-Romulus”, na série “Alien-Earth” e em diversas outras produções dessas franquias) para explorar e coletar vários espécimes do planeta em geral, e o Kalisk em particular.

Ela e Dek estabelecem uma tênue parceria –ele a ajuda a encontrar o restante do seu corpo para ficar completa e ela o guia ao paradeiro do Kalisk –entretanto, o verdadeiro problema é mesmo Tessa, a androide ‘irmã’ de Thia (também ela interpretada por Elle Fanning, saindo-se maravilhosamente bem na composição de duas personagens de índoles opostas), de atitude fria, implacável e impiedosa que eliminará qualquer um em seu caminho para concluir a missão que lhe foi dada.

Promovendo uma ligeira desconstrução nos elementos já estabelecidos dessa série cinematográfica (mas, usando essa mesma desconstrução para enfatizar esses elementos e ainda trazer revelações curiosas sobre sua mitologia alienígena), “Terras Selvagens” ostenta o mesmo bom senso que norteou roteiro e direção dos dois projetos anteriores, embora tenham havido críticos detratores que não aprovaram a tentativa de fazer do próprio alienígena Yautja uma figura mais próxima, mais identificável (tirando, segundo eles, muito da atmosfera fascinante que cercava os personagens), os realizadores não deixaram de entregar uma vibrante aventura de ficção científica.

sábado, 8 de agosto de 2026

Vivo Ou Morto - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Neste “Vivo Ou Morto” já chegou-se num ponto em que o ator Daniel Craig interpreta o personagem Benôit Blanc como alguém que ele conhece e compreende integralmente (processo que ele certamente também experimentou vivenciando o agente 007), em que o roteiro e a direção de Rian Johnson já se acostumaram de tal forma a manipular o intrincados elementos do gênero policial investigativo, que sua condução é instintiva, sua descoberta das reviravoltas pontuais (e até inevitáveis) em seu plot é tão orgânica quando a capacidade de dissimulação plantada habilmente em seus personagens.

Terceira parte de uma trilogia iniciada com “Entre Facas e Segredos” e continuada com “Glass Onion” – e adquirida, do segundo exemplar em diante, pela Netflix – este “Vivo Ou Morto” traz toda a habilidade para tramas articuladas com infindável ardil por seus personagens que Johnson tão bem soube esbanjar em praticamente todas as produções que assinou, sendo superior à “Glass Onion”, porém, ainda inferior ao primeiro filme, o melhor de todos.

Antes do protagonista Benôit Blanc dar as caras, somos apresentados aos demais protagonistas desta trama – até porque, Blanc, diferente dos outros personagens, prescinde de apresentações, funcionando agora quase como um mestre de cerimônias – a começar pelo principal de todos, o padre Jud Duplenticy (o carismático Josh O’Connor, de “Dia D”), um ex-boxeador que largou os rings para dedicar-se à batina após matar um oponentes à socos. Por seu temperamento (e por saber muito bem como usar seus punhos quando provocado), Padre Jud é enviado à longínqua paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, comandada pelo Monsenhor Wicks (Josh Brolin), cujos métodos de pregação, Jud vai perceber com o passar dos dias, vão muito além do meramente não ortodoxo: Wicks possui uma oratória agressiva, egocêntrica e prepotente e mantém cativo um grupo muito específico de fiéis que aliena com sua pregação raivosa. Qualquer outra pessoa da fora (e isso inclui o próprio Jud) é excluída quase que imediatamente.

Os fiéis em questão: A serviçal da igreja Martha Delacroix (Glenn Close) e seu marido, Samson Holt (Thomas Adden Church), ambos habituados a surgirem repentinamente nos momentos mais inoportunos; o médico Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), um poço de amargura desde o abandono da ex-esposa; o escritor fracassado Lee Ross (Andrew Scott, de “1917”); a jovem violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny, de “Alien-Romulus”) presa a uma cadeira de rodas que aguarda, resignada, por um milagre; a advogada Vera Draven (Kerry Washington) obrigada pelo pai a criar um irmão adotivo com quem nunca se acertou; e o próprio irmão adotivo Cy Draven (Daryl McCormack, de “Boa Sorte, Leo Grande”), rapaz indiferente e esnobe, obcecado em fazer sucesso como influencer do youtube.

Todas pessoas ostentando neuroses que deveriam ser curadas pela fé, mas que o Monsenhor Wicks tão somente manipulou para continuarem suas fanáticas devotas. Cada um deles tinha um motivo para dar cabo do Monsenhor Wicks – principalmente após uma reunião à portas fechadas que culminou num rompimento completo entre Wicks e todos eles – e Padre Jud, mais do que todos eles, chegou a exprimir suas intenções numa confissão.

O problema é que, numa homilia matutina, o Monsenhor Wicks acaba realmente morto, esfaqueado nas costas, num recinto apertado sem espaço para uma segunda pessoa e sem quaisquer meios de ser invadido.

Como tal crime foi perpetrado? E quem está por trás dele?

A comunidade logo aponta o dedo para o novato Padre Jud que, em desespero, recorre aos conhecimentos prodigiosos de dedução e investigação do detetive Benôit Blanc chamado à cidadezinha pela xerife local, Geraldine Scott (Mila Kunis).

Tendo conferido as duas obras anteriores, é fácil para o expectador antecipar o que encontrará nesta produção aqui: Como em “Entre Facas e Segredos” e “Glass Onion”, Rian Johnson reúne, em torno de seu protagonista Blanc, um time vasto de personagens excêntricos e com motivações obscuras, interpretado por um elenco repleto de estrelas do cinema hollywoodiano. E como nos outros filmes, está aqui também o enredo muito decalcado dos clássicos intrincados de Agatha Christie, onde o crime só termina elucidado após diversas pistas se revelarem falsas e toda uma teia de segredos a interligar as mais diversas e inesperadas atitudes for revelada.

Contudo, o quê não é tão fácil assim antecipar é como Rian Johnson haverá de manejar todos esses ingredientes, sobretudo, quando e quais serão as reviravoltas surpreendentes que arremessarão os acontecimentos para rumos totalmente inesperados. Seu roteiro até mesmo brinca com essa possibilidade, sugerindo certas surpresas iminentes só para subverter algumas expectativas e seguir surpreendendo. O uso imodesto e ininterrupto de tal recurso pode soar um pouco mirabolante e improvável para o público, mas Rian Johnson o faz com tanta convicção e com tanto conhecimento de causa que o resultado mais diverte do que confunde.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Homem-Aranha - Um Novo Dia


 Em “A Brand New Day”, vemos  finalmente Peter Parker lidando com as complicadas circunstâncias nas quais foi colocado ao fim de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”: Desprovido de todo o repertório de utensílios e facilitadores tecnológicos que vinham lhe acompanhando desde “De Volta Ao Lar” – o que, na opinião de alguns fãs, não tinha muito a ver com o personagem – apagado da memória do mundo inteiro (graças a um feitiço do Dr. Estranho), incluindo seus entes mais próximos, a namoradinha M.J. (Zendaya) e o amigo Ned (Jacob Batalon), e tirado tragicamente da companhia de sua Tia May (Marisa Tomei). Em suma, completamente sozinho.

Hábil diretor de contos centrados na melancolia e em sentimentos menos falados e mais interiorizados (como atestam obras como “Temporário 12” e “O Castelo de Vidro”), Destin Daniel Cretton demonstrou alguma desenvoltura visual com a elaboração de belas e fluídas cenas de ação em “Shang-Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, sua estréia na Marvel Studios. Agora, com este “A Brand New Day”, ele ganha uma espécie de promoção e assume, no lugar de Jon Watts (diretor dos três longas anteriores do Homem-Aranha), um personagem de maior estatura dentro do MCU.

E o resultado corre o sério risco de ser o melhor filme protagonizado pelo Homem-Aranha de Tom Holland até o momento.

Vivendo mais como Homem-Aranha do que como Peter Parker, o herói, agora quase sem nenhum vínculo afetivo, passa seus dias enfrentando as constantes dificuldades que se abatem sobre a cidade de Nova York. Todavia, lá no íntimo, ele não consegue esquecer M.J. e Ned que seguiram em frente, morando juntos, estudando e, agora, prestes a se formarem. Essa angústia parece se manifestar na fisiologia de Peter: Ele é acometido de dores de cabeça e do que parecem ser mutações nas quais o lado aracnídeo de seu organismo começa a se manifestar de maneira monstruosa sobre sua persona humana.

É a fim de inibir as consequências mais imprevisíveis desse processo que Peter acaba procurando pelo Dr. Bruce Banner (Mark Rufallo), certamente um especialista em conter o monstro dentro de si (o Hulk, no caso).

Paralelamente a essas mudanças – mas, servindo de perfeito reflexo a elas a partir de um determinado ponto – está  o mistério que ocupa boa parte do enredo do filme: Uma entidade – que parece ‘possuir’ pessoas por toda a Nova York com o nebuloso objetivo de invadir a fortificada sede do Controle de Danos – está à solta e, enquanto nem Peter, nem a polícia, compreende seus propósitos e suas motivações, essa ameaça precisa ser parada.

Mais disposto a enfatizar os dilemas de jovem adulto do protagonista do que Jon Watts (que deu prioridade à euforia juvenil), Destin Daniel Cretton salienta com mais evidência e minúcia a evolução do personagem rumo a um Homem-Aranha muito mais condizente com seu retrato nos quadrinhos, o que, em si, já é suficiente para eleger este filme como um provável favorito dos fãs, no entanto, ele ainda não está completamente livre de lapsos, em especial, no que diz respeito à condição sócio-econômica do herói (nunca fica claro, afinal, do quê Peter Parker vive e em que trabalha, visto que só o vemos atuar como Homem-Aranha) ao staff do Controle de Danos (uma herança que ainda repercute de “Vingadores” e das tantas manobras a incluir laços com o Universo Marvel) e a premissa assim esboçada da mutação aracnídea – que parecia ser central no trailers, mas que, aqui, embora muito pertinente no princípio vai dando gradualmente lugar a um outro plot twist até por fim perder completamente sua importância.

Felizmente, “A Brand New Day” é aquele tipo de filme que os acertos compensam amplamente seus erros: A dinâmica entre Peter, M.J. e Ned enfim rende emoções genuínas depois de quatro filmes, e a participação do Justiceiro é uma oportunidade e tanto para conferirmos a química sem igual entre Jon Bernthal e Tom Holland. Contudo – sem revelar spoilers – o nome que, aqui, aponta de forma promissora para o futuro da Marvel nos cinemas é a jovem Sadie Sink, compondo com excelência uma personagem cuja identidade foi aguardada às sete chaves até o lançamento do filme nos cinemas e que representa uma das tantas gratas surpresas da produção – e que, ao fim, deixa o público com um entusiasmado gostinho de quero mais.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O Diabo Veste Prada 2


 Como (ou por que) fazer uma continuação de um filme que, em si, já era uma obra enxuta, fechada e redondinha? É essa pergunta que “O Diabo Veste Prada 2” tenta responder cerca de 20 anos depois do filme original observando um viés bastante pertinente nas circunstâncias atuais – e que representa uma espécie de desafio temático para muitos realizadores – o fato irreversível de que o mundo está mudando.

Sem um livro-fonte para adaptar desta vez (o primeiro filme adaptava o best-seller de Lauren Weisberger, que jamais ganhou continuações), o roteiro de Aline Brosh McKinna trabalha em duas frentes principais: Na primeira, evidentemente, contemplando os vinte anos que se passaram, os efeitos disso no mundo da moda registrado em 2006 e agora em 2026, e certamente, nos personagens principais e em suas vidas; na segunda, no elemento intrínseco que funcionou às mil maravilhas no original (e que representou um certo diferencial entre o livro e o filme que dele resultou), os próprios personagens, seus intérpretes e a rica variedade cômica de suas interações.

Agora uma jornalista premiada, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha a contradição dolorosa dos tempos modernos e desfavoráveis: Na mesma noite em que é vencedora de um prestigiado prêmio de jornalismo, ela (junto de todos os seus colegas) acaba demitida; o jornal impresso para o qual trabalhava não bancará mais matérias jornalísticas ao estilo de antigamente – somente as pautas rápidas produzidas na internet, por influenciadores e youtubers parecem importar no meio.

Paralelamente, um problema parecido está sendo enfrentado na RunWay, a revista de moda para a qual ela trabalhou no passado: A editora-chefe, a toda-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) pode estar com seu emprego ameaçado. A revista – que há tempos restringiu-se a ser digital – está passando por uma reformulação, fruto da influência cada vez maior do jovem Jay Ravitz (B.J. Novak, de “Bastardos Inglórios”) sobre o pai Irv Ravitz (Tibor Feldman), o presidente da RunWay, e também consequência do interesse cada vez maior do novo público por informação ágil.

Como se não bastasse, uma matéria desfavorável e equivocada publicada recentemente na revista afastou anunciantes, comprometendo a imagem de Miranda. A saída termina sendo contratar Andy como editora principal das reportagens da revista, buscando um tom mais sério, respeitável e que, ao mesmo tempo, alcance novos leitores.

O que vemos é, assim, um retorno às circunstâncias do primeiro filme – Andy trabalhando sob o crivo impiedoso de Miranda – desta vez, ligeiramente transfiguradas por características inerentes aos novos tempos: Ainda difícil de lidar (como atestam sucessivas situações envolvendo, sobretudo, a perplexa Andy), Miranda já não deflagra impunemente sua tirania; reclamações constantes feitas do setor de RH a obrigaram a ser mais moderada!

No entanto, é daí que o filme dirigido por David Frankel tira seu humor assim renovado – do fato de que as coisas são, agora, diferentes. O mesmo vale para alguns personagens, como Emily Charlton, vivida por Emily Blunt. Se no primeiro filme ela era uma das assistentes de Miranda, neste aqui, ela surge como uma executiva da Dior – uma das empresas que a RunWay almeja anunciar – e ganha inesperados rumos para sua personagem no terço final.

Os mais atentos notarão uma cadência quase similar e até simétrica com alguns dos acontecimentos do “Diabo Veste Prada” original – temos, mais uma vez, Nigel (Stanley Tucci) surgindo como mentor indireto de Andy; as sequências de golpe e contra-golpe se repetem na segunda metade; sem falar de todo o arco narrativo de Andy, de novo, dando a volta por cima profissionalmente; e uma repetição da clássica cena de diálogo dentro da limusine – contudo, este segundo filme acerta ao apostar num elemento que, no primeiro, já tinha sido evidentemente eficaz: A reafirmação de seus ótimos personagens, conduzidos por um elenco sensacional – desde o lançamento, há 20 anos, de “O Diabo Veste Prada” tornou-se lugar comum enaltecer a espetacular atuação de Meryl Streep (que, pra variar, está estupenda), no entanto, há que se falar dos maravilhosos trabalhos de Anne Hathaway (ela que em 2026 também esteve emA Odisseia”, de Christopher Nolan), de Emily Blunt (ela que em 2026 também esteve em “Dia D”, de Steven Spielberg) e de Stanley Tucci, aqui tão bons quanto no original, e das ótimas adições de Kenneth Branagh, Justin Theroux e Lucy Liu.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Backrooms - Um Não Lugar


 Baseado numa creepypasta originalmente surgida no 4chan em 2019, e convertida numa lenda urbana com milhares de aficionados, este filme é dirigido por Kane Parsons, youtuber cujo canal dedicou-se a inúmeros vídeos explorando justamente a curiosidade em torno das tais backrooms – salas (a lembrar o ambiente claustrofóbico de um escritório) banhadas em uma luz amarela monocromática interligadas umas às outras formando aparentemente um labirinto infinito e provavelmente fora da realidade conhecida.

Se “Backrooms”, o filme (agora concebido pela produtora A24), não chega a ser uma obra exatamente brilhante e imperdível, ele consegue se fazer interessante e digno de certa atenção graças à sua precisa inventiva e intrigante, ao seu elenco formidável e estelar (com Chiwetel Ejiofor, indicado ao Oscar 2014 de Melhor Ator por “12 Anos de Escravidão” e a norueguesa Renate Reinsve, indicada ao Oscar 2026 de Melhor Atriz por “Valor Sentimental”), e à brilhante forma com que a construção dos cenários consegue materializar os backrooms (algo de deve colocar este filme entre os indicados a Melhor Design de Produção na próxima cerimônia do Oscar).

Nos anos 1990, Clark (Chiwetel Ejiofor) é um homem em crise. Ele conduz uma loja de móveis para a qual também grava uma série de propagandas vexatórias fantasiado de pirata. A loja passa os dias às moscas e as únicas pessoas dentro dela são Clark e seus dois funcionários, o casal de namorados Bobby (Finn Bennett) e Kat (Lukita Maxwell). A vida pessoal de Clark está igualmente lastimável: Ele ainda não se recuperou do divórcio – acarretado por seu alcoolismo – e derrama muito de sua frustração nas sessões de terapia com a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), cuja infância guarda alguns traumas envolvendo a mãe agorafóbica.

Numa noite, Clark – que, desde o divórcio, passou a dormir na loja – descobre algo estranho localizado no porão de lá: Uma passagem desconhecida e invisível na parede que permite o acessar um local estranho, uma série de salas que não acabam mais. Curioso com a descoberta, Clark passa a explorar a sucessão de salas e percebe que elas são muito mais numerosas (e intermináveis!) do que tinha imaginado.

Ele tenta contar tudo à Dra. Kline e, diante da descrença dela, promete retornar com provas. Na sequência, chama Bobby e Kat para, munidos de uma câmera, enfim explorarem as tais backrooms – a passagem de tempo nunca fica clara na narrativa extremamente elíptica e intrigante do diretor Parsons, mas supõem-se que algum tempo passou, pois, Clark demonstra um conhecimento já considerável do lugar.

Nada os impede, contudo, de encontrar seres estranhos por lá, e terminarem atacados. Com o desaparecimento de Clark pelo que talvez sejam algumas semanas – de novo, a passagem de tempo não fica clara neste filme – a Dra. Kline resolve espiar em sua loja e encontra a passagem para as backrooms, e nelas tenta encontrar Clark bem como também uma saída.

A proposta de “Backrooms” mistura algo de “Cubo” e de “O Iluminado” – do primeiro, extrai o senso de suspense aliado à ficção científica a partir da ambientação que não oferece explicações fáceis, do segundo, o diretor Parsons parece aproveitar uma direção criteriosa, vasta em ângulos formidáveis de câmera e um preciosismo narrativo para com a dramaturgia e o mistério da premissa que surpreendem pelo fato deste ser tão somente seu primeiro trabalho na direção de longa-metragens.

Uma pena que nem tudo são flores: As tentativas do roteiro em aprofundar os personagens, da forma como são feitas, não acrescentam absolutamente nada ao enredo como um todo, além disso, a despeito de seu ponto de partida eficaz e envolvente, o trabalho de Parsons se mostra tão fascinado pela concretização visual das backrooms (num resultado realmente fenomenal da direção de arte) que ele toma um tempo considerável da narrativa ocupando-se de takes intermináveis e longos a mostrar os atores percorrendo o cenário, tornando – com a repetição constante dessas cenas – a duração excessiva, o ritmo lento e a condução arrastada.

domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Euphoria - 3ª Temporada


 A terceira temporada de “Euphoria” chega dividida entre dois pólos extremos. Vamos lá: nesses quatro anos que separam o segundo e o terceiro ano de “Euphoria”, os estrelatos tanto de Zendaya, quanto de Sydney Sweeney, se consolidaram – a ponto de muitos acreditarem que provavelmente não seria viável realizar uma terceira temporada, visto a apertada e disputada agenda das duas; isso e mais a louvável indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante recebida por Jacob Elordi no início deste ano! Contudo, o realizador, Sam Levinson, não economizou esforços a fim de materializar este terceiro ano, possivelmente, desesperado por contornar o quanto antes o fracasso retumbante da tentativa em emplacar a série “The Idol”, estrelada por The Weeknd e repudiada por público e crítica.

São esses caminhos um tanto tortos que nos levam a este terceiro e último ano de “Euphoria” que já chega ostentando duas distinções contundentes em relação aos dois primeiros anos da série: A primeira delas, sai a ambientação estudantil – os personagens já não são mais jovens estudantes (até porque alguns deles, como Alexa Demie e Maude Apatow, já não convenceriam nesse papel), e sim indivíduos dando seus primeiros passos na vida adulta. A segunda é que, desta vez, “Euphoria” já não é mais uma série tão plural, e o expectador deve estar ciente disso (e abraçar isso!), caso contrário, é melhor nem começar os oito episódios: Duas personagens se sobressaem a todas as outras, e obviamente são elas a Rue de Zendaya (que convenhamos já era protagonista desde o começo) e a Cassie Howard de Sydney Sweeney (reflexo do incontornável status que ela foi adquirindo junto ao público); todos os demais personagens, mesmo aqueles que até gozavam de alguma relevância nas temporadas anteriores acabam relegados à condição de coadjuvantes – isso aqueles que chegam à aparecer, visto que a personagem de Barbie Ferreira (de importância sensivelmente reduzida do primeiro para o segundo ano), aqui nem mesmo dá as caras, e sequer é mencionada pelas demais, consequência, segundo dizem as más línguas, de um desentendimento com Levinson.

Quando reencontramos Rue Bennett (Zendaya, também produtora), passados alguns anos, ela já desvencilhou-se da convivência com a mãe e a irmã para mergulhar numa rotina de vida que, dadas as suas predisposições para o  vício e para a infração, começa a flertar perigosamente com o crime: Trabalhando como mula para alguns traficantes, ela resolve escapulir das garras de seus empregadores – que estão prestes a matá-la, injuriados com uma dívida que ela não consegue quitar – indo trabalhar justamente para o grande rival e inimigo  declarado deles, o perverso e ameaçador Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de “Pompeia”), uma espécie de barão do crime, proprietário de uma boate onde desfilam jovens garotas capturadas no fluxo do tráfico sexual e onde a droga que ele comercializa ilegalmente chega até os usuários. Mal escapando de uma encrenca para envolver-se em outra (elementos que agregam, aqui, mais humor do que drama ao núcleo da personagem), a trajetória de Rue acaba levando-a inadvertidamente ao jugo dos agentes de DEA, que transformam ela numa informante – o que, claro, aproxima ainda mais a personagem do perigo de morte.

Por sua vez, Cassie (Sydney, abusando de seu sex-appeal) casou-se com Nate (Jacob Elordi) com quem estabeleceu um tumultuado namoro na segunda temporada. Assim sendo, com ele devendo uma vultuosa quantia em dinheiro para agiotas russos (que lhe arrancam uns dedos do pé toda a vez que surgem para cobrar a dívida!), Cassie precisa ganhar dinheiro exponencialmente rápido a fim de salvar a vida do marido, e a melhor saída é envolver-se com o Onlyfans, plataforma digital para a qual ela pode produzir conteúdo adulto (e, no processo, a série entregar a sucessão de cenas picantes que todos os fãs querem ver de Sydney Sweeney) e ganhar dinheiro o mais rápido possível. A pessoa mais indicada para gerenciá-la nessa empreitada assumindo papel de empresária, até por seu afiado tino comercial, é Maddie Perez (Alexa Demie), outrora melhor amiga de Cassie e outrora namorada de Nate (!?!)

E é isso. Esses são basicamente os arcos narrativos principais desta temporada, em torno dos quais todos os outros personagens orbitam: Há, por exemplo, Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de Cassie, que tornou-se assistente de uma produtora de Hollywood (produtora esta vivida por Sharon Stone, em participação bastante decorativa) que na primeira temporada tinha até mais importância que a irmã dentro da trama, mas que aqui é sua coadjuvante. Caso ainda mais contundente é o de Jules Vaughn (Hunter Shaffer), a amiga trans e interesse romântico de Rue que, nesta nova temporada, é escanteada a ponto de virar quase uma participação especial. O mais curioso é que a própria relação entre as duas estrelas na vida real (Zendaya e Sydney Sweeney) pareceu interferir nos rumos de “Euphoria”: Conduzindo carreiras que ganharam rumos bastante distintos (a de Zendaya pareceu mirar numa consagrada carreira de atriz séria e respeitada, enquanto que Sydney caiu nas graças do público através de filmes de apelo muito comercial e não se furtou de sucessivas polêmicas), as duas estrelas evitaram contato durante a realização da série, e isso se nota perfeitamente na narrativa – por vezes, esta terceira temporada de “Euphoria” parece tratar-se de duas obras distintas (a comédia tragicômica a envolver Rue, e a farsa tresloucada, sórdida e sexual estrelada por Cassie) entre as quais um ou outro personagem acaba transitando. Para se ter uma ideia, na totalidade de episódios da temporada inteira, mesmo que compartilhem basicamente dos mesmos coadjuvantes, Rue e Cassie se encontram na mesma cena uma única vez – e é um momento um bocado constrangedor!

Não tão pertinente, em termos artísticos ou temáticos, quando sua temporada inaugural, mas certamente ainda bastante saborosa de se assistir, esta terceira temporada de “Euphoria” encontra um arremate perfeitamente adequado no personagem do ótimo Colman Domingo, que ganha súbita importância no episódio final para conduzir o público ao desfecho.

É um encerramento curioso, anti-climático até, ainda que de acordo com o espírito inconformista que pareceu predominar na série como um todo – uma série que, podemos perceber, foi se moldando a partir das predisposições que se faziam possíveis.

Ao menos (e isso, para mim, é motivo de admiração), Sam Levinson soube que era hora de parar e deu um desenlace contundente, na medida do possível, para seus personagens; coisa que muita série que começou excelente não soube fazer...