domingo, 21 de junho de 2026

Imperdoável


 Produzido pela Netflix (assim como “Bird Box”, outro grande sucesso estrelado por Sandra Bullock), “Imperdoável” –ou “Unforgivable” é adaptado da série de TV inglesa, “Unforgiven”, inédita no Brasil, estrelada por Suranne Jones e dirigida por David Evans. De fato, nota-se o quanto o enredo de “Imperdoável” se ramifica em diversos outros personagens atrelados ao drama de sua protagonista, multiplicando suas sub-tramas num recurso que remete mesmo aos expedientes das séries de TV.

Contudo, a opção aqui, apesar desses despercebidos elementos narrativos, é dar uma solidez cinematográfica ao material, e nisso o trabalho da diretora Nora Fingscheidt acaba lembrando muito os contundentes dramas independentes norte-americanos.

Sandra interpreta (e muito bem) a protagonista, Ruth Slater que, quando a trama começa, está saindo da penitenciária na qual permaneceu encarcerada nos últimos vinte anos. Depois de tanto tempo presa, Ruth já não parece ser capaz de funcionar em sociedade. É uma pessoa calada, acuada e introspectiva. E para piorar, além das severas circunstâncias em que precisa se manter durante esse frágil período de liberdade condicional, existem as complicações do crime pelo qual ela foi condenada –do qual inicialmente, não sabemos muito, mas cujos elípticos flashbacks vão, aos poucos, tentando nos esclarecer.

Ruth matou um policial quando tinha vinte anos –um crime ao que tudo indica acidental, todavia, nada disso serve de atenuante para aqueles que se voltam contra ela, por pura simpatia à polícia.

Na árdua tentativa de se readaptar, Ruth vai morar num albergue suburbano, arruma emprego numa fábrica processadora de pescados (o único que ela obtém apesar de possuir referências melhores) e consegue uma segunda ocupação ao ajudar uma OMG na construção de um abrigo para sem-tetos. Enquanto se incumbe dessa rotina, ela recebe ocasionais visitas de seu rigoroso agente da condicional, Vincent Cross (o ótimo Rob Morgan, de “Não Olhe Para Cima” e “Confronto No Pavilhão 99”) e estabelece uma relutante amizade com o colega de trabalho Blake (Jon Bernthal).

Existem ainda os filhos do policial que ela matou, o irascível Keith (Tom Guiry, de “Tigerland-O Caminho da Guerra”) e o retraído Steve (Will Pullen) que eram crianças na ocasião do homicídio –mas que agora, diante da revoltante notícia da liberdade de Ruth, pensam seriamente em planejar um ato de justiça com as próprias mãos.

Há o casal, formado por Vincent D’Onofrio e Viola Davis, novos moradores da casa onde Ruth morou, e dentro da qual se sucedeu o tal crime; sendo advogado, John Ingram (personagem de D’Onofrio) é procurado por Ruth para que encontre meios legais, que não burlem as rígidas regras da condicional, a fim de estabelecer um contato entre Ruth e sua irmã pequena que, desde o nascimento Ruth havia criado, e desde que foi presa nunca mais teve notícias, apesar das milhares de cartas que, nesses anos todos, ela escreveu.

A irmã de Ruth, Katie (Aisling Franciosi, de “Drácula-A Última Viagem do Demeter”), agora com 25 anos, mal lembra dela e vive com seus pais adotivos, Michael e Rachel Malcolm (Richard Thomas, da versão televisiva de “It-A Coisa” e Linda Emond, de “Old Boy” e “Across The Universe”) e com sua irmã Emily (Emma Nelson).

Todos são fios narrativos que, de uma maneira ou de outra, convergem para a trama principal de Ruth, revelando já próximo do final algumas informações surpreendentes que podem alterar a percepção de alguns expectadores sobre muito do que vinha sendo mostrado no filme, ainda que dificilmente isso haveria de dissipar a excelente composição dramática de Sandra Bullock, provando pela enésima vez que é uma atriz muito mais versátil e capaz do que as bem-sucedidas comédias românticas levavam a crer. O filme cresce quando ela está acompanhada por bons parceiros de cena, caso de Rob Morgan, Vincent D’Onofrio, Viola Davis e –vá lá –Jon Bernthal, mas se percebe o ritmo moroso e o andamento desanimado da direção toda a vez que os membros mais frágeis do elenco dão as caras.

sábado, 20 de junho de 2026

Risqué - A Vingança


 Desde os primeiros segundos se percebe algo de desavergonhado no filme que o diretor Tony Dean Smith está entregando com ares de quem quer fazer uma obra com status cult. Risqué é o nome da boate de strip-tease que aglomera praticamente todos os personagens da produção – e na qual a trama irá se ambientar em sua quase totalidade. No início, logo depois de créditos iniciais cafonas e um tanto suspeitos, vemos a protagonista Jess (a charmosa Leah Gibson) adentrando o lugar trajada com lingeries (!) e armada de uma escopeta (!!) – para então, retrocedermos alguns dias no tempo e elucidarmos, pouco e pouco, a história que a levou até aquele momento, que descobriremos mais tarde tratar-se do clímax da trama.

Para Jess, o trabalho de dançarina de stripper, que já não era nenhuma maravilha, começa a apresentar aborrecimentos incontornáveis: Além de suportar os clientes libidinosos (que, no geral, não costumam respeitar a regra de não tocá-las) e de aguentar a importunação do asqueroso Big Boy Billy (Andi Jashy), segurança do lugar, metido a besta por simplesmente ser primo do dono, Jess tem que ouvir do gerente local (Tomi May) que, aos quarenta anos, já não tem mais a idade das demais garotas, e que, portanto, deve se aposentar.

Quando acaba despedida, Jess mergulha nas neuroses e angústias de praxe que culminam, claro, em bebedeiras nos bares locais. Mas, é quando ela encontra Mike (David Newman), até então, o sempre ignorado e despercebido barman do Risqué. Mike tem um plano, e quer Jess como sua parceira na empreitada: No período em que esteve na prisão, ele conheceu dois entregadores que trabalharam levando e trazendo dinheiro de fontes ilícitas (leia-se, tráfico de drogas) no Risqué. Para Mike, eles contaram detalhadamente o procedimento com o qual levavam mochilas cheias de dinheiros (em torno de milhões!) e guardavam num cofre localizado embaixo da cadeira do escritório do cara com quem negociavam.

Após sair da cadeia, Mike passou alguns meses como barman no Risqué, tempo suficiente para confirmar todas as circunstâncias que seus colegas de cárcere tinham relatado. O plano dele é invadir do escritório do Risqué na noite de uma apresentação para os clientes inspirada em “De Olhos Bem Fechados”, quando todas as strippers estarão usando máscaras – e, portanto, não poderão ser identificadas – e roubar todo o dinheiro contido no cofre secreto. Para tanto, Mike precisa da ajuda de Jess e de outras strippers de confiança do lugar. Jess recruta suas quatro melhores amigas, Shelby (Eloise Lovell Anderson), uma quase evangélica um pouco sem noção (!), Carmem (Silvia Orduna), a latina do grupo, injuriada por sustentar o namorado com quem mora e que não deixa o sofá e o jogo de videogame por nada, Kiko (Julia Strowski), uma oriental cujo sotaque a faz soar, muitas vezes, incompreensível, e Bianka (Rex Adams), imigrante húngara com fama de ter assassinado tranquilamente alguns homens que a importunaram (!!).

O filme avança em meio aos usuais preparativos para o grande golpe como qualquer outra produção que se preze do gênero – e até com ininterruptas referências cinematográficas à “Golpe de Mestre”, “Onze Homens e Um Segredo” e tantos outros – mas, o diretor Tony Dean Smith, malandro, aproveita todas as chances possíveis, para despir o numeroso elenco feminino em cena, entregando sequências que oscilam entre o cômico, o vulgar e o erótico – fazendo, nesse sentido, lembrar o despudorado Paul Verhoeven e seu “Showgirls”.

Lá pelas tantas, surge uma complicação: Da forma mais aleatória e mais non-sense possível – estavam todas a treinar tiro ao alvo numa floresta... – Shelby acaba alvejando Mike sem querer com um tiro, e ele morre (!?!). Sem o seu mentor no golpe, as garotas resolvem dar continuidade ao plano mesmo assim, contudo, tanto Kiko quanto Bianka, comunicaram seus próprios conhecidos (a Yakuza e a Máfia Russa, respectivamente) para tentar burlar as comparsas e sair na vantagem.

“Risqué” é um filme que parece almejar um certo estilo de cinema como aquele muito reverenciado por Quentin Tarantino, e que urgiu realizações desiguais, tais como “Vingador Tóxico”, “Faster, Pussycat, Kill! Kill!” ou “Os Irmãos Cara-de-Pau”, um cinema de imediato reconhecimento visual, peculiar, mirabolante em suas inverossimilhanças e nem um pouco levado à sério – neste caso, com a imagem de strippers armadas até os dentes em mente – o objetivo só não termina totalmente alcançado devido ao insistente mau gosto do diretor que impõe um ritmo irregular,  concebe cenas inteiras de teor esdrúxulo (ainda que haja um bom desempenho da direção de fotografia), e não consegue extrair do elenco interpretações mais bem alinhadas à sua proposta – acabam se sobressaindo os atores a atrizes que, quando muito, tem um pouco mais de carisma.

Ele quis fazer um cult-movie, ignorando o fato de que não existe uma fórmula para fazer isso – cults nascem exatamente de circunstâncias incomuns nas quais contrariam qualquer fórmula.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Grande Inundação


 Como em muitas produções advindas da Coréia do Sul, o filme de Kim Byung-woo, produzido pela Netflix, é uma miscelânea de gêneros que soa, num primeiro momento, incomum pela ausência de compatibilidade entre esses conceitos, como consequência disso, o roteiro passeia por guinadas imprevisíveis que flertam com o absurdo e muitos de seus momentos exigem certa boa vontade do expectador para melhor serem apreciados e, digamos, digeridos. No entanto, em termos de acabamento narrativo e no âmbito técnico de modo geral o filme mostra-se sempre notável.

O início intimista flagra a jovem Gu An-na (Kim Da-mi), junto de seu filho pequeno Ja-in (Kwon Eun-seong) dentro do apartamento onde moram, no terceiro andar de um edifício residencial da Coréia. Uma chuva torrencial cai sem parar lá fora e Ja-in, como toda criança, está irrequieto. Em algum momento, An-na irá se dar conta da água que começa a chegar no chão de seu apartamento. No terceiro andar!

Uma inundação sem precedentes aflige o local de moradia dos personagens e, na esteira da tentativa muita humana de contornar o problema, o filme irá trazer revelações acerca de quem eles são, e algumas surpresas também: An-na, que é uma requisitada cientista especializada na área de inteligência artificial, tem uma espécie de guarda-costas, Son Hee-jo (Park Hae-soo, da série “Round 6” também da Netflix), designado para tirá-la do prédio em segurança. Tal prédio, abarrotada de pessoas desesperadas para fugir do avanço implacável das águas, não tarda a entrar em colapso, inclusive por conta de sucessivas ondas monstruosas que pioram ainda mais a situação.

É Son Hee-jo quem trará uma revelação ainda mais bombástica: Segundo o Serviço Secreto (para quem aparentemente trabalha), um asteroide colidiu horas antes com a Antártida e provocou um derretimento súbito das calotas polares, a reação em cadeia não somente levou àquela inundação de gigantescas proporções, mas provocou uma série de fenômenos que logo haverão de extinguir a raça humana da face do planeta!

Daí sua missão: Algumas poucas mentes brilhantes (como a da Dra. An-na) devem ser salvas a fim de garantir que, com suas habilidades, eles sejam capacidades de produzir uma nova geração de seres conscientes e pensantes. E, na missão de Son Hee-jo, não estão considerados os demais seres humanos aflitos que eles encontram em seu caminho (eles devem subir os andares do prédio até a cobertura quando um helicóptero virá resgatá-los), nem tampouco o pequeno Ja-in que, como toda criança, tem uma habilidade desigual para sistematicamente desaparecer das vistas toda a vez que sua mãe se distrai!

Todos esses elementos em combinação já seriam o bastante para tornar este filme algo bastante inusitado, mas o plot twist contido em algum momento de seu segundo terço é algo imprevisível (e se você, leitor, é aquele expectador que não tolera spoilers, sugiro não ler mais a partir daqui!).

Num momento em que o filme dirigido por Kim Byung-woo já sugere um desfecho (um tanto quanto cedo demais para sua duração de duas horas), eis que uma guinada leva os protagonistas de volta à cena do começo: Tal e qual “Corra Lola Corra” ou “Feitiço do Tempo”, a partir daí, tanto An-na quando o pequeno Ja-in, retornarão sucessivas vezes para o início daquele mesmo fatídico dia, para contemplar diferentes tentativas de chegarem vivos e juntos ao topo do prédio e serem levados pelo helicóptero. Nesse interim, não apenas situações irão se repetir com diferentes desfechos a depender da diferença na atitude por eles tomada, mas revelações surpreendentes também ocorrerão (tais como a inesperada importância de Ja-in junto ao enredo) a ponto de “A Grande Inundação” facilmente deixar de ser um mero filme-catástrofe para adentrar irreversivelmente o terreno mirabolante da ficção científica.

É provável que esta produção não alcance o brilhantismo inquestionável de algumas obras-primas sul-coreanas na manutenção de um argumento munido de surpresas sistemáticas (como “Old Boy” ou “Parasita”, infinitamente mais bem resolvidos), mas ainda assim, diante da facilidade com que  direção e roteiro poderiam ter se perdido ao longo desta proposta arrojada, o resultado final até que cumpre muito bem seu papel de surpreender, entreter e envolver.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mank


 Na cerimônia do Oscar de 1942, “Cidadão Kane” levou tão somente o Oscar de Melhor Roteiro Original dentre outras nove indicações, e é, em parte, as explicações para esse prêmio que o filme de David Fincher oferece. Ele também dá ao público um panorama curioso do revelo político de uma época (e assim, uma analogia para o revelo político do tempo presente), um vislumbre cheio de propriedade do showbusiness visto por outro ângulo (o de dentro de sua engrenagem criativa) e uma reflexão a um só tempo amarga e agridoce sobre a vaidade em oposição ao talento e ao arrependimento.

Ainda no fim da década de 1930, o roteirista Herman J. Mankiewicz, também conhecido como Mank (Gary Oldman, sempre brilhante) é contratado pelo assim chamado garoto-prodígio de Nova York, Orson Welles (Tom Burke, de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”), a fim de escrever o roteiro para sua aguardadíssima estréia cinematográfica. Mank é enviado pelo taxativo Welles para uma pousada no meio do deserto, aos cuidados da enfermeira Fräulein Frieda (Monika Gossmann), e sobretudo, da jovem secretária britânica Rita Alexander (Lilly Collins), instruída a ajudá-lo na escrita do roteiro –que ele tem menos de noventa dias para concluir! Na ocasião, Mank se vê fisicamente imobilizado na cama –resultado de um acidente automobilístico que sofrera semanas antes –mas, sua maior moléstia é o roteiro em si: Mank quer escrever uma audaciosa biografia disfarçada de William Randolph Hearst, poderoso magnata da imprensa de então, e as consequências desse ato podem ser caras tanto a ele quanto ao seu parceiro de empreitada, Orson Welles.

Tecnicamente, “Mank” é uma obra prodigiosa –Fincher filmou em preto & branco, além de utilizar enquadramentos com foco profundo no primeiro plano e na imagem de fundo simultaneamente tal e qual Welles fez em “Cidadão Kane”, na realidade, o próprio Fincher já havia demonstrado seu imenso apreço por “Kane” em referências um pouco mais sutis no brilhante “A Rede Social”, contudo, a história contada aqui é, também ela, notável –o roteirista é Jack Fincher, irmão do diretor. Nela, testemunhamos idas e vindas no tempo (flashbacks, a exemplo da estrutura narrativa do próprio clássico retratado) vamos daquele recluso hotel no deserto ao ano de 1934 quando Mank teve contato com William Randolph Hearst (Charles Dance) e forjou com ele o que parecia ser o princípio de uma genuína amizade. Willy, como era chamado, já havia consolidado seu império jornalístico na Costa Leste e começava a estender seus domínios para o cinema e os estúdios de Hollywood –ele compreendia que o futuro se encontrava nos filmes falados e que o cinema mudo tinha seus dias contados. Não lhe faltavam bajuladores (entre eles, o influente e inclemente Louis B. Meyer, chefe da MGM, vivido por Arliss Howard, de “Nascido Para Matar”), e talvez por isso, Willy dava inesperada importância aos comentários pra lá de afiados que partiam de Mank, colocando-o sempre ao seu lado durante as festas em sua mansão. É lá que Mank conhece Marion Davies (Amanda Seyfried, genial), caso amoroso de Willy, décadas mais jovem que ele e, frequentemente, favorecida entre os estúdios (Marion era atriz) por sua relação.

A amizade entre Mank e Marion é bela e verdadeira, no entanto, ela não deixa de sofrer com os contratempos que mudavam o mundo de então: De uma influência avassaladora e venal, Willy leva os estúdios da MGM a bancar a oposição contra a eleição do democrata Upton Sinclair, criando curta-metragens tendenciosos, demagógicos e numa escala inédita para a época que conseguem, em pouco tempo, mudar os rumos da campanha causando desinformação entre os eleitores. Fiel aos seus ideais, Mank se opõe à essas posturas e acaba caindo em desgraça junto ao círculo pessoal de Willy, que incluía entre outros o produtor Irvin Thalberg (Ferdinand Kingsley).

São essas experiências que levam ao roteiro não despido de rancor que ele tece naquele quarto no deserto, retratando Hearst como um homem político, populista e oportunista, reservando algumas farpas até mesmo para Marion, fazendo uma impiedosa caricatura dela e de seu relacionamento.

Espelhado no próprio “Cidadão Kane” em diversos aspectos, não apenas na forte referência visual monocromática ou no formato desafiador de seu enredo, “Mank” também constrói um personagem cheio de camadas de ambiguidade e dubiedade moral que, mesmo diante de algumas boas intenções e certamente alimentado por suas convicções políticas, urgiu uma obra a partir do ressentimento e do desdém. Uma obra que não escapou de ser um dos melhores filmes de todos os tempos.

Os percalços mais do que impressionantes do caminho de “Kane” até seu lançamento –e do embate fenomenal entre Welles e Hearst –estão muito bem registrados no brilhante documentário “A Batalha Por Cidadão Kane”, aqui, nesta produção, Fincher se concentra em outra coisa: Num personagem que influenciou Welles, e que esteve no centro de alguns acontecimentos decisivos para os rumos do cinema e da política norte-americano na primeira metade do Século XX. Não interessa à Fincher algumas obviedades como capturar bastidores já conhecidos ou repetir um possível enaltecimento à “Kane”, sua obra é inteligente e loquaz (como em “Zodíaco”, os atores têm de declamar o roteiro, em diversas cenas, com o dobro ou o triplo de agilidade para que as falas não extrapolem uma duração usual), complexa em termos emocionais e factuais, adulta e aberta a diversas reflexões.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A História de Um Casamento


 Talvez o ápice do refinamento do cinema de Noah Baumbach, no qual os sentimentos e as relações ganham sempre uma avaliação plena de honestidade e atenção às minúcias improváveis da vida, “A História de Um Casamento” – ou “Marriage Story” – é uma obra que habilmente oscila entre o humor e o drama, alternando esses gêneros distintos com uma serenidade e uma fluidez que chegam a impressionar.

Quando a trama começa, vemos os dois protagonistas, Charlie e Nicole (Adam Driver e Scarlet Johansson, ambos estupendos), afirmando o que cada um ama no outro. Charlie e Nicole constituem um casal, mas não por muito tempo; Nicole entrou com um pedido de divórcio.

No entanto, como o filme brilhantemente reflexivo de Baumbach vai deixar bem claro, as coisas são infinitamente mais complicadas – não é que falte amor, ou mesmo respeito no casamento dos dois: Há uma falta de compatibilidade, uma ausência de diálogo, uma doação unilateral que sufoca Nicole, e ela já não suporta mais.

Ainda assim, apesar de um ou outro contratempo, oriundo do fato razoável de que nenhum dos dois está muito pronto para lidar com a situação, ambos concordam que tudo – inclusive a guarda compartilhada de seu amado filho Henry (Azhy Robertson) – pode ser resolvido sem a intervenção de advogados.

Charlie é um dramaturgo e diretor teatral em Nova York; Nicole é uma atriz – foi assim que se conheceram (durante a montagem de uma peça do próprio Charlie). Nicole, porém, é de Los Angeles, onde mora toda sua família, a mãe (Juie Hagerty, de “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu!”, hilária em suas aparições) e a irmã (Merritt Wever, de “Sinais”), e para onde, durante todo o período em que estiveram juntos, ela sempre tentou convencer Charlie a se mudar.

Com a separação, Nicole agora almeja uma promissora vaga num filme-piloto para TV em Los Angeles que, se for aprovado, pode tornar-se uma série, o que a levaria a se mudar definitivamente para a Costa Oeste, junto com Henry. É justamente ao longo desse processo que ela recebe a sugestão de uma conhecida para que, apesar do que combinaram, ela contrate de fato um advogado a fim de mediar o divórcio, e assim entra na história, provocando um inesperado turbilhão, a advogada especialista em divórcio Nora Fanshaw (Laura Dern, sensacional, vencedora do Oscar 2020 de Melhor Atriz Coadjuvante).

Arremessados para dentro das engrenagens jurídicas – e de todo o viés de antagonismo que acompanham esses processos – Charlie e Nicole passam por estágios de ressentimento, de profunda transformação das próprias perspectivas financeiras (o dinheiro que poderiam guardar para a faculdade do filho é ironicamente investido nos honorários dos advogados que atuam para brigar pela guarda justamente de seu filho!), de idas e vindas, de atritos e de reconciliações, tudo na ânsia de chegar a um entendimento que a vida insiste em não concretizar.

Nada mais, o filme deixa claro, será como antes.

Charlie, tão avesso à ensolarada e superficial Los Angeles, agora tem de atravessar o país a fim de ter seus momentos com o filho, e de, não raro, sair atrás de advogados que lhe representem. Dois deles se destacam: O veterano, resignado e desenvolto Bert Spitz (o divertidíssimo Alan Alda), e o tubarão implacável, histriônico e, no fim das contas, hilariante, Jay Marotta (o saudoso Ray Liotta).

Divertido, tocante, dono de um sem fim de cenas maravilhosas (minhas preferidas, entre outras, são a engraçadíssima sequência da visita de uma avaliadora, vivida por Martha Kelly, ao apartamento de Charlie em Los Angeles; e o momento inebriante, já quase perto do fim, em que ele canta “Being Alive” num bar de karaokê em Nova York), “Marriage Story” é, como era de se imaginar, baseado na história do próprio Noah Baumbach e de seu casamento com a atriz Jennifer Jason Leight. De fato, trata-se de um trabalho verdadeiro demais para ser uma mera invenção – a traição dele brevemente mencionada numa passagem, ocorreu com a também atriz Greta Gerwig, com quem mais tarde ele acabou casando. A expiação dessas mazelas íntimas terminou rendendo uma das melhores e mais sensíveis obras a tratar do colapso de uma relação a dois em choque com diferentes realidades profissionais, financeiras e pessoais.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Nas Montanhas dos Gorilas


 Calcada em cima da interpretação espetacular de Sigourney Weaver – pela qual ela foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática e indicada ao Oscar de Melhor atriz ao lado de Glenn Close (“Ligações Perigosas”), Melanie Griffith (por “Uma Secretária de Futuro”, filme que também contava com Sigourney no elenco, tendo sido indicada, naquele ano, também a Melhor Atriz Coadjuvante por este trabalho), Meryl Strep (“Um Grito na Escuridão”) e, a vencedora, Jodie Foster (“Acusados”) – este belo trabalho reconstitui com alguma pomba e circunstância –e uma imodesta tendência à romantização –a vida de Dian Fossey, estudiosa pioneira em primatologia, o estudo dos primatas em geral e dos gorilas em particular.

1965. Os gorilas são uma espécie em extinção e não há, num futuro imediato, esperança de reverter esse quadro desesperador. Durante uma palestra do Dr. Louis Leakey (Iain Cuthbertson), a professora Dian Fossey (Sigourney), até então com experiência apenas com crianças portadoras de deficiência, se apresenta voluntariamente disposta a embarcar para a África e realizar o tão almejado e difícil senso dos animais restantes, a fim de colher dados para saber quantos haviam restado – e quanto tempo ainda existiriam.

Enfrentando severos obstáculos num primeiro momento, (a região escolhida para a pesquisa na África do Sul, se encontrava imersa numa violenta guerra civil, impossibilitando a permanência dela por lá), ela e o fiel carregador Sembagare (John Omirah Miluwi) encontram o lugar ideal numa afastada e enevoada montanha em Ruanda, na qual uma vasta família de gorilas estabeleceu morada.

Obtendo uma gradual aproximação dos animais, Fossey não apenas consegue o dados para a pesquisa como faz espetaculares descobertas sobre a vida animal e se torna uma defensora ferrenha de suas vidas, chegando  a ser tomada como uma bruxa pelos nativos locais, os Batwa, que até então caçavam gorilas para vender suas mãos e suas cabeças como troféu para caçadores no mercado negro.

Ela se envolve com o fotógrafo da financiadora da pesquisa, a National Geographyc, Bob Campbell (Bryan Brown, de “Os Pássaros Feridos”) e com o passar dos anos ganha reconhecimento entre núcleos acadêmicos por todo o mundo, a ponto de arregimentar – através de acordos com políticos – um grupo de seguranças para o perímetro das montanhas, e até mesmo novos estudantes dispostos a tentar seguir seus passos.

No entanto, para Dian, tudo o que importa são os gorilas e sua preservação e sobrevivência, um sacrifício que, até o fim, ela se dispôs a levar à extremos.

O diretor Michael Apted – em geral, um desenvolto operário-padrão que nunca se preocupou com expressões mais autorais – se equilibra entre uma realização assombrada por convencionalismo (e nesse sentido, há aspectos do filme que envelheceram mal, bem como passagens inteiras que se revelam extremamente datadas) e momentos bastante inspirados (há impressionantes imagens que capturam a desmedida Sigourney Weaver se aproximando realmente dos imensos gorilas e recriando muitos momentos experimentados pela verdadeira Dian Fossey).

Hoje considerado um clássico, “Nas Montanhas dos Gorilas” teve cinco indicações ao Oscar: Além de Melhor Atriz (Sigourney com sua brilhante atuação é sem sombra de dúvida o grande suporte da produção), Melhor Roteiro Adaptado (entre outros pequenos detalhes notáveis, repare na sutil crítica ao hábito tabagista da protagonista que vai deteriorando sua saúde ao longo dos anos), Melhor Montagem (cujo vencedor foi “Uma Cilada Para Roger Rabbit”), Melhor Trilha Sonora (acima de tudo, um gesto de homenagem ao veterano Maurice Jarre, de produções como “A Filha de Ryan” e “A Missão”) e Melhor Mixagem de Som.

domingo, 14 de junho de 2026

Encontro de Amor


 O cinema do diretor Wayne Wang sempre foi fascinado por comunidades, não à toa, seu melhor e mais ressonante trabalho é o emocionante “Clube da Felicidade e da Sorte” – daí ser até natural que, ao ser contratado por um estúdio (a Columbia Pictures) para conduzir uma comédia romântica, não seja tanto o enredo e seu desenrolar cheio de encontros e desencontros que surgem com desenvolvimento mais apaixonado da parte direção, mas sim a caracterização e contextualização das circunstâncias que cercam a protagonista feminina da trama, vivida pela graciosa e radiante Jennifer Lopez – aqui, num dos sucessos de bilheteria responsáveis pela consolidação do status de estrela de sua carreira.

Lançado em 2002, “Encontro de Amor” – ou “Maid In Manhattan”, seu título original – não esconde, e nem conseguiria mesmo esconder, as semelhanças quase constrangedoras com “Um Lugar Chamado Notting Hill” (um grande sucesso do ano de 1999). Como naquele filme (mas, muito melhor realizado lá...), “Maid In Manhattan” busca unir num divertido, hesitante e cativante enlace amoroso dois indivíduos de mundos absolutamente distintos, sendo que um deles vem dos holofotes da fama, enquanto o outro do anonimato da plateia. Em “Notting Hill” havia a estrela de cinema e o plebeu desconhecido, vividos respectivamente por Julia Roberts e Hugh Grant; aqui, temos o candidato ao senado e a um só tempo sex-simbol das mulheres mais despachadas, Chris Marshall, interpretado por Ralph Fiennes (num papel bem mais leve e inesperado para os rumos usuais de sua carreira), e a camareira Marisa Ventura, vivida por Jennifer Lopez – que, num truque de inversão típico do demagógico cinema norte-americano, vem a ser, ela sim, um sex-simbol.

Mãe solteira, Marisa trabalha no ostensivo hotel de luxo Beresford, em Manhattan, no coração de Nova York, onde os procedimentos dos funcionários, visando o atendimento aos hóspedes ricaços, beira o rigor militar. Criando sozinha o pequeno Ty (Tyler Posey), Marisa almeja uma vaga disponibilizada para uma das gerências do hotel, contudo, tal cargo jamais foi ocupado antes por uma camareira – o que dificulta mais o objetivo de Marisa e faz das semanas seguintes decisivas para a avaliação de sua postura profissional (que, até então, era impecável).

Entretanto, eis que o Beresford recebe o candidato ao senado Chris Marshall que, junto de seu staff, liderado pelo inquieto e paranoico Jerry (Stanley Tucci, que décadas depois reuniu-se com Fiennes no elenco do fenomenal “Conclave”), se encontra num momento crítico da campanha – justamente quando as lentes dos paparazzi estão focadas nele, esperando qualquer deslize para virar manchete!

Numa série de mal-entendidos – daqueles típicos de uma comédia romântica – Marisa acaba sendo confundida por Chris como uma das hóspedes do hotel – ela e uma colega estavam numa travessura, experimentando o casaco Golce & Gabbana de uma hóspede real, a socialite Caroline Laine (a saudosa Natasha Richardson) quando o imbróglio acontece. Marisa aceita o convite para um passeio no parque, tentando se livrar da situação o mais rápido possível, mas, evidentemente, nesse meio tempo, a magia hollywoodiana se opera: Um interesse surge de ambas as partes e, agora, Chris quer saber quem é aquela maravilhosa mulher que ele conheceu – e tê-la como convidada para um importante jantar a ser realizado no próprio hotel!

Já, Marisa, também atraída por Chris, precisa se desvencilhar do cerco cerrado dos demais funcionários do hotel, incluindo superiores que podem farejar sua farsa, da inconveniente Caroline que pensa ser ela a convidada de Chris, e da própria situação em que se encontra, mentindo para o homem por quem está se apaixonando, e escondendo dele quem é.

“Maid In Manhattan” tem, portanto, todos os elementos narrativos de uma comédia romântica, organizados e apresentados com fidelidade formulaica – o desfecho descaradamente decalcado de “Notting Hil” é particularmente constrangedor...

Todavia, o que notamos saltar aos olhos ao longo do filme, é o amor com que o diretor Wayne Wang retrata o dia-a-dia de Marisa, sejam as regras rígidas, permeadas por subterfúgios de malandragem, que os funcionários precisam seguir em sua rotina de ‘agentes invisíveis’ dentro do hotel (que fazem lembrar o britânico “Coisas Belas e Sujas”), sejam os pequenos embates entre ela e a mãe (a cantora Priscilla Lopez, apesar do sobrenome, nenhum parentesco com Jennifer) carregados tanto de ternura quanto de ressentimento, sejam as relações amistosas, fraternais até, entre Marisa e suas colegas camareiras (talvez, os momentos mais divertidos do filme), ou os diálogos com o dedicado e minimalista mordomo Lionel (o saudoso Bob Hoskins, interpretando o personagem com dignidade e solidez). As manobras do roteiro (assinado por Kevin Wade) parecem menos importar ao diretor do que essas facetas da produção que dele recebem muito mais entusiasmo e cuidado.

Curiosidade: O argumento do filme foi idealizado pelo saudoso John Hughes (de “O Clube dos Cinco”) que não aparece creditado. No lugar de seu nome vemos um ‘Story by Edmond Dantes’, que vem a ser o herói fictício de “O Conde de Monte Cristo”!