sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Tina - A Verdadeira História de Tina Turner


 Em 1993 o cinema norte-americano enfim prestou um tributo a uma de suas mais reluzentes cantoras – a cinebiografia da icônica Tina Turner foi lançada trazendo no papel principal (e em uma atuação vulcânica) a formidável Angela Bassett – ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz perdendo para Holly Hunter por “O Piano”.

Dirigido pelo inglês Brian Gibson (de “Ainda Muito Loucos” e “A Jurada”), “Tina” – ou “What’s Love Got To Do With It” – não escapa de fragilidades convencionais a um filme construído a partir de conceitos formulaicos e cuja trama, plena de sofrimento e superação, convida a uma nem sempre apropriada inclinação ao melodrama, mas há um elemento quase intrínseco que se sobressai a isso tudo em algum momento e faz desta produção uma experiência comovente.

Caso você não saiba do que o filme se trata – e com isso, pode nem ter vivido neste planeta (!?) – “Tina” conta a história de Anna Mae Bullock, neste ponto interpretada pela pequena e notável Rae’Ven Kelly, menina nascida no interior do Tennessee, abandonada pela mãe e que cresceu criada pela avó. Ela veio a conhecer a própria mãe e a irmã mais velha já quase adulta, quando a avó faleceu levando-a para junto do convívio das duas na cidade de St. Louis. Frequentando o bar no qual a irmã trabalhava como bartender, Anna toma conhecimento da festejada banda local, liderada pelo carismático Ike Turner (Laurence Fishburne, também ele indicado ao Oscar de Melhor Ator perdendo para Tom Hanks por “Philadelphia”).

Tradição do local, Ike selecionava garotas entre as frequentadoras para breve tentativa como cantora ali perante o público. Após algumas noites, Anna é escolhida e demonstra para todos a capacidade vocal que, quando criança, já chamava a atenção para si no coral da igreja.

Ike enxerga nela o talento que poderia vir finalmente a fazer sua banda de Blues, The Kings of Rythm, crescer e acontecer. Com sua lábia privilegiada, ele convence a mãe de Anna a deixar a filha fazer ininterruptas jornadas noite adentro ensaiando e gravando canções com Ike e seus músicos.

Não demora para que ela passe a participar de extenuantes turnês junto da banda, e também para que Ike faça dela sua esposa – ainda que ela ignore o fato de que, pela cama de Ike, passavam todas as mulheres que integravam a banda.

Após casada, ela adota o nome artístico de Tina Turner e, embora fique óbvio que o sucesso da banda e do próprio Ike vem exclusivamente da força e do talento de Tina nos palcos, isso não impede ela de vivenciar um verdadeiro inferno e sua vida pessoal: Ike se mostra um marido negligente e extremamente abusivo e violento, revelando seu temperamento em agressões físicas que se sucediam independente dos acontecimentos serem bons ou ruins. Em alguns momentos específicos, o filme deixa bem claro, Ike agredia Tina pelo simples recalque de perceber que era ela quem o público, os fãs e os produtores musicais queriam – e ele, posando de marido controlador e empresário autoritário, tão somente aproveitava-se da situação e do talento de sua esposa.

Todo esse calvário – que perpassa a década de 1960 e vai até o final da década de 1970 – só começa a terminar quando Tina se converte para o budismo, adquirindo discernimento o suficiente para, num dado momento, dar um basta em todo aquele abuso.

O filme mostra os primeiros passos de Tina Turner em sua carreira solo, sobretudo, o lançamento de seu primeiro álbum (mais tarde, agraciado com o Grammy Awards) onde ela trocou o Blues de suas primeiras (e sofridas) décadas como cantora pelo Rock’N Roll, estilo dentro do qual ela se tornou um ícone, quando já se adentrava os anos 1980.

“Tina” poderia tranquilamente ser uma obra dramática debruçada sobre um esforço compulsivo em denunciar a agressão doméstica e oferecer um quadro de vítima e abusador corriqueiro ao público, mas não é isso que acontece.

Amparado nos desempenhos estupendos de Angela Bassett e Laurence Fishburne, o diretor Gibson concebeu um trabalho que é muito mais que a soma de suas partes – a trajetória de quatro décadas da rainha do rhythm’n blues é uma obra feita com inteligência e sensibilidade, um filme feito de uma alegria genuína a refletir o brilho de sua maravilhosa personagem principal.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Herege


 Na cartilha moderna dos filmes de terror (e na cartilha clássica, também, por que não) nunca é boa ideia bater na porta de estranhos, seja para quem recebe a visita (“Bate A Porta”, de M. Night Shyamalan); seja para quem se apresenta como uma. Vem a ser exatamente esse o caso das duas incautas protagonistas deste frequentemente surpreendente “Herege”, lançado pela A24 – produtora esta que lançou inúmeros dos singulares sucessos de público e crítica do gênero de terror dos últimos anos.

“Herege”, dirigido pela dupla Scott Beck e Brian Woods (roteiristas de “Um Lugar Silencioso”), já expõe uma insuspeita predisposição para surpreender o público na escalação de seu antagonista – um bastante sumido Hugh Grant que, aqui, surge com os mesmos maneirismos de bonachão que o fizeram um comediante (e galã romântico) de sucesso no cinema décadas atrás. Agora, com a idade a lhe pesar nitidamente nas expressões faciais e diante de um novo contexto, todos esses maneirismos adquirem um novo viés; eles escondem uma periculosidade, uma psicose latente que deixa, de pronto, o expectador e demais personagens em estado de alerta.

Mas, eu estou me antecipando. Antes de tudo, as protagonistas de “Herege” – ou “Heretic” – são as jovens Irmãs Barnes (Sophie Thatcher, de “Acompanhante Perfeita”) e Paxton (Chloe East, de “Os Fabelmans”), missionárias da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que – num procedimento usado, inclusive, por congregações aqui no Brasil – percorrem residências dos subúrbios, disseminando a palavra divina conforme os dogmas de sua religião e tentando arregimentar seguidores para sua igreja.

Na iminência de uma tempestade, e com o anoitecer já sinalizando sua proximidade, elas chegam numa área suburbana com suas bicicletas até a moradia de um certo Sr. Reed.

Após baterem à sua porta, é  um Hugh Grant todo hospitaleiro e sorridente que as recebe – numa sucessão de gestos corriqueiros que já denota a escolha interessante e muito indicativa dele para o papel: Como muitos laudos periciais já deram conta, o perigo de um  serial killer é justamente sua capacidade de se camuflar da mais completa aparência de gentileza e cordialidade.

As moças atendem seu convite de entrar na sua residência – está chovendo e ele garantiu lhes trazer uma torta que a esposa estava preparando – entretanto, uma vez dentro da casa, as garotas começam a pressentir um perigo iminente. As conversas do Sr. Reed seguem num tom ameno e polido, mas tomam rumos inesperados. Ele se mostra um ferrenho e inquisitivo estudioso das religiões e, conforme o tempo passa, parece dotado de um inconformismo quase violento para com a forma com que os preceitos da fé são usados como massa de manobra ao longo da História.

Barnes e Paxton, despreparadas para lidar com tanta erudição desenvolta e também com essa súbita hostilidade crescente, logo, demonstram vontade de sair dali. Mas, sem aparentar, é quase em uma teia de aranha que o Sr. Reed as enredou – os casacos delas, que ele gentilmente guardou, estão com a chave que destranca o cadeado onde deixaram as bicicletas lá fora (e elas estão a quilômetros de seu destino); as janelas visíveis são estreitas, sem abertura, e intransponíveis, a porta está trancada e ser um indício de como pode ser aberta, e a dita Sra. Reed, sob a qual elas, apreensivas, já perguntaram várias vezes, nunca aparece – e provavelmente, talvez nem exista!

É um jogo de gato e rato que começa verbal e comedido, mas vai gradualmente se tornando mais abertamente perigoso e sádico, e só faz piorar.

Claro que, de um ponto em diante, o roteiro e a direção de Beck e Woods escancaram o terror de sua premissa numa sucessão de momentos gráficos e inacreditáveis que abandonam completamente a sugestão da primeira metade, adquirindo todos os exageros divertidos da ficção, mas, isso é feito com profissionalismo (a construção das cenas é milimetricamente prodigiosa e o trio principal brilha do início ao fim) e dá origem a várias cenas antológicas: Minha predileta é a que mostra um ângulo de cima e mescla o designer da casa com uma maquete deixada na sala, um efeito que lembra outra cena também marcante do já clássico “Hereditário”.

sábado, 29 de agosto de 2026

Stanley Kubrick - Imagens de Uma Vida


 A partir de depoimentos colhidos por Jan Harlan (cunhado de Stanley Kubrick e produtor da maioria de seus filmes), este documentário narrado por Tom Cruise (que se tornou amigo pessoal do diretor após trabalhar com ele em “De Olhos Bem Fechados”) e lançado apropriadamente no ano 2001 busca lançar luz sobre sua carreira, pontuada de absolutas obras-primas cinematográficas, sobre o curioso e excêntrico processo de criação que ele adotava e –talvez, sua intenção mais difícil e inédita –esclarecer quem era, afinal, o ser humano Stanley Kubrick, por trás de um repertório famoso de manias e de inúmeras lendas que davam conta de alguém perfeccionista, complicado e de um comportamento frequentemente desigual.

A irmã de Jan Harlan, Catherine foi atriz no filme “Glória Feita de Sangue” – ela é a mocinha que canta na emblemática e marcante sequência final – foi quando conheceu Kubrick, diretor daquele projeto, e com ele casou-se logo depois.

Stanley Kubrick realizou treze longa-metragens para o cinema, pelo menos sete deles (ou até mais!) podem ser colocados, por muitos especialistas, entre alguns dos maiores trabalhos do cinema. “Imagens de Uma Vida” lança um olhar sobre cada um deles valendo-se de um rico arquivo de imagens e filmagens, além de depoimentos, curiosidades técnicas, críticas da época dos lançamentos – o que nos permite entender, inclusive, a repercussão que as obras, e o próprio nome Stanley Kubrick, causaram entre público e crítica.

Nascido em Nova York, no Brooklyn, no ano de 1928, Kubrick foi um aluno indisposto com o sistema educacional – não gostava de frequentar a escola. Seu hobby favorito era estudar fotografia, uma paixão herdada do pai, Jacob Leonard. Como fotógrafo, ele trabalhou para a revista “Look”, até que, no final da década de 1940, passou a produzir curta-metragens.

Seu primeiro longa-metragem foi o drama de guerra “Fear and Desire”, logo sucedido por “A Morte Passou Por Perto” e “O Grande Golpe”, realizações que já revelavam um autor rigoroso, inovador e extremamente metódico.

Em 1959, Kubrick foi convidado pelo astro e produtor Kirk Douglas (com quem Kubrick havia trabalhado em “Glória Feita de Sangue”) para substituir o então diretor do épico em produção “Spartacus”, com quem Douglas estava descontente – não é nunca mencionado, mas o diretor que Kubrick substituiu foi o renomado Anthony Mann, realizador de “O Homem do Oeste”.

Foi a partir das experiências em “Spartacus” que Kubrick decidiu jamais atuar como diretor contratado novamente, preservando sempre sua liberdade criativa e o controle total sobre seus projetos.

Nessa esteira vieram obras como “Lolita”, “Dr. Fantástico” e os seminais “2001-Uma Odisséia No Espaço” e “Laranja Mecânica”, entre outros – com o intervalo de tempo entre seus projetos aumentando cada vez mais, e os rumores sobre suas excentricidades e seu notório perfeccionismo crescendo exponencialmente!

O documentário conta com depoimentos de figuras fundamentais ao cinema como Steven Spielberg (amigo pessoal de Kubrick que dirigiu em tom de homenagem seu projeto não-finalizado “A.I. Inteligência Artificial”), Martin Scorsese, Woody Allen, Nicole Kidman, Sidney Pollack (os dois últimos tendo trabalhado com Kubrick em “De Olhos Bem Fechados”), Shelley Duvall (que passou poucas e boas nas mãos de Kubrick durante as filmagens de “O Iluminado”) e o  próprio Tom Cruise, além de outros profissionais, familiares e amigos. Todos buscam criar um perfil desse realizador icônico, recluso, indomável, controverso e, ainda assim, autor de algumas das maiores obras-primas cinematográficas.

Stanley Kubrick faleceu aos 70 anos, em 1999, após terminar o primeiro corte da edição de “De Olhos Bem Fechados”, seu último trabalho – este documentário, obrigatório para estudiosos de cinema, é um tributo ao seu gênio inquieto, à sua personalidade intransigente e incomum que moldou algumas das mais inesquecíveis imagens já concebidas para a Sétima Arte.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

The Rainbow


 “The Rainbow” é um prelúdio de “Mulheres Apaixonadas” – haja visto seu expositivo título aqui no Brasil, “O Despertar de Uma Mulher Apaixonada” – o que denota as intenções do diretor Ken Russell em regressar ao seu primeiro trabalho, o único pelo qual, em toda sua carreira, ele foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor. A verdade é que, quando surgiu, “Mulheres Apaixonadas” foi um estrondo no âmbito cinematográfico. Adaptado de um clássico literário escrito por D.H. Lawrence, o filme ousava materializar cenas a envolver nudez e sexo para transpor para as telas uma obra literária de refinado valor acadêmico e artístico. Era uma ousadia em voga, que refletia um cinema que aparentemente vinha para ficar – naquele mesmo ano concorria na categoria de diretor, com Russell, Robert Altman e sua sátira demolidora da guerra em “M.A.S.H.”, e disputando o prêmio de Melhor Filme estava “Cada Um Vive Como Quer”; um ano antes havia levado o prêmio o transgressor e audacioso “Perdidos Na Noite”, e na disputa de várias categorias estava o inquisitivo “A Noite dos Desesperados”! – moldada por toda uma nova geração de técnicos, artistas e atores alimentados pelo inconformismo.

Ou seja, entre 1969 e 1970, Ken Russell era um entre diversos novos nomes habilidosos que surgiam no panorama cinematográfico mundial dispostos a trazer uma mudança irreversível ao status quo. A diferença entre muitos de seus pares é que, sobre muitos aspectos, a maioria deles sossegou em suas ousadias a medida que consolidavam a carreira como estetas de cinema, enquanto que Russell só fez se tornar ainda mais contundente!

Na esteira de “Mulheres Apaixonadas”, em 1971, ele entregou dois projetos de vibração quase oposta, arriscados em sua intenção, provocativos em seu objetivo: O ferino, ácido e irônico “The Boyfriend-O Namoradinho”, e o avassalador, profano, ultrajante e perturbador “Os Demônios”.

Ficou claro, a partir dali (e os projetos seguintes só trataram de cristalizar isso), que Russell era uma fera indomada e indomável.

No entanto, talvez, lá no fundo, sua vaidade quisesse buscar a possibilidade de fazer as pazes com os prêmios em geral, e com o Oscar em particular, que lá naquele início de carreira ele foi capaz de obter. Daí a realização do prequel “The Rainbow”, em 1989.

Curioso notar que tais filmes – o original e este prequel – encontram Russell em estágios absolutamente distintos da carreira; e isso terá influência direta no resultado final de ambos. “The Rainbow” trazia Russell recém-saído de “A Maldição da Serpente” e “A Última Dança de Salomé”, ambos realizados no ano anterior, 1988, sendo que seu projeto seguinte seria o corrosivo “A Prostituta”.

A trama, curiosamente, não foca em Gudrun a protagonista de “Mulheres Apaixonadas”, mas em sua irmã mais velha, Ursula Brangwen, interpretada, aqui, por Sammi Davis, e no filme de 1969, por Jennie Linden (Sammi, por sinal, conseguiu o papel graças ao seu ótimo desempenho em “A Maldição da Serpente”).

A primeira dos inúmeros filhos do casal Brangwen (Glenda Jackson, que no outro filme ganhou o Oscar de Melhor Atriz vivendo Gudrun, aqui, interpreta a mãe delas), Ursula cresce e, com o aflorar de sua sexualidade, encontra inesperados meios para dar vazão à sua libido durante os últimos anos da Inglaterra Vitoriana, por volta de 1899.

Ela faz amizade com sua professora de natação, Winifred Inger (Amanda Donohoe, também ela presente em “A Maldição da Serpente” e em “Inferno Ou Paraíso”) com quem experimenta seu primeiro interlúdio sexual; com o aspirante a cadete do exército, Anton Skrebensky (Paul McGann, de “Matadores de Vampiras Lésbicas”), ela tem também sua primeira experiência heterossexual!

Ainda confusa com os sentimentos de lubricidade e apego entre Winifred e Anton, Ursula acaba, de certa forma, abandonada pelos dois – Winifred se casa com o irmão do próprio pai por conveniência apesar do inconformismo de suas atitudes; e Anton tão logo se forma parte para lutar nas guerras colonialistas na África do Sul – e decide partir para Londres lecionar numa escola primária na área pobre de East End.

Lá, Ursula se equilibra entre as esquivas do assédio sexual do diretor escolar e os transtornos corriqueiros do desrespeito dos alunos mais abusados. Ursula termina pedindo a demissão quando ambas as circunstâncias começam a se tornarem insustentáveis.

Retornando para a fazenda da família, quando o filme sugere que alguns anos podem ter passado, Ursula reencontra Winifred, e mais tarde, Anton, em situações distintas, longe das pessoas sonhadoras, irreprimíveis e supinas que um dia haviam sido.

Embora essa trajetória de uma mulher buscando sua identidade e sua voz numa sociedade pontuada de armadilhas morais seja consideravelmente mais ameno do que muitos trabalhos que Ken Russell já chegou a entregar, ainda assim,  “The Rainbow” vem carregado de reflexos naturais de suas narrativas audaciosas – o filme não se furta de comentar abertamente sobre questões diretamente sexual a envolver seus personagens e momentos potencialmente violentos e certamente politicamente incorreto não são, de forma alguma evitados.

Contudo, o que persiste é um trabalho feito com paixão e fulgor, um tratado cinematográfico onde a dedicação de um realizador está totalmente empregada do exercício de sua arte a ignorar códigos de conduta e hipocrisias pontuais de sua época ou da época ali retratada – um efetivo que sempre definiu minha particular admiração por Ken Russell.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Sem Censura - A História de Robin Byrd


 Do alto de seus 69 anos, a ex-estrela pornô e ex-apresentadora Robin Byrd é o centro deste documentário, fornecendo suas impressões no presente atual do período em que encabeçou um válido esforço para manter abertas as discussões em torno de sexualidade, orientações sexuais e doenças transmissíveis numa época em que, como tudo o mais, esses temas eram tratados como tabu.

Pouco conhecida do público brasileiro, Robin Byrd foi uma jovem nova-iorquina que, ao adquirir logo cedo independência da casa dos pais (com quem tinha uma relação no mínimo turbulenta), já envolveu-se com a cena underground de Nova York e com o ebuliente mercado dos filmes pornográficos – eram os anos 1970, e a liberdade de expressão, a contracultura e a libertinagem deram um novo enfoque à uma indústria (a da pornografia) que outrora era completamente nichada e segregada: Após um fenômeno como o do filme “Garganta Profunda”, até mesmo filmes pornôs recebiam tratamento de cinema! O filme pornô de maior sucesso e evidência a contar com Robin no elenco foi o hoje clássico “Debbie Does Dallas”.

Logo, essa abertura levou Robin para a TV, onde um canal aberto de alcance regional (o Canal J da Manhattan Cable TV) exibia um programa durante as madrugadas intitulado “Hot Legs” – inicialmente, ela fazia aparições no show, mas com a alternância na equipe técnica a frente e atrás das câmeras, Robin logo tornou-se a apresentadora e também a produtora, mudando seu título para “The Robin Byrd Show”, mais tarde, passando a ser exibido pelo Canal 35 de Nova York.

Não demorou muito para que a desenvoltura natural, o carisma fora do comum, e o despojamento admirável de Robin começasse a chamar a atenção do público que elevou consideravelmente a audiência do horário. Durante o período em que esteve no ar – que comporta basicamente de 1977 a 1998 – o “The Robin Byrd Show” abordou tópicos que se fizeram necessários e pertinentes como a desmistificação da pornografia, a inovadora campanha para o uso de camisinha em plenos anos 1980 (o auge do temor diante da AIDS, uma doença ainda desconhecida), a representatividade dos grupos homossexuais e a luta (judicial, inclusive) para o impedimento das restrições de censura às produções de cunho sexual nas grades televisivas, entre vários outros assuntos.

Entre uma e outra sequência de histórias incríveis capturadas em meio aos anos 1970, 80 ou 90 – ilustradas por um assombroso e abundante resgate de imagens de arquivo – acompanhamos uma Robin Byrd já envelhecida lidando com as consequências da demência do marido, Shelly Byrd (que atuou como diretor e administrador financeiro de seu show durante os anos em que foi realizado), e com questões como a preservação do vasto e inestimável acervo em fitas de VHS de seu programa de TV, um gesto encorajado por inúmeros amigos pessoais, mas que, por uma série de questões logísticas e técnicas, obrigaria Robin a abrir mão das milhares de fitas guardadas, a fim de que fossem convertidas em formato digital e devidamente preservadas na Biblioteca Nacional do Congresso.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Gallipoli


 Dentre os notáveis realizadores australianos dos anos 1970 e 80, Peter Weir sempre desempenhou um cinema bem mais voltado ao classicismo da Velha Hollywood em comparação com alguns de seus contraventores conterrâneos. O que não que dizer que ele não preserve, ainda assim, uma identidade singular e desigual em seus trabalhos, exatamente como costumava ocorrer ao intrigante cinema vindo da Austrália.

Tomemos como exemplo a epopéia, a um só tempo ambiciosa e intimista, que testemunhamos se desenrolar em “Gallipoli”, de 1981. Embora comumente apontado como uma das produções que revelaram Mel Gibson – o primeiro “Mad Max” havia sido lançado dois anos antes – o protagonista de fato de “Gallipoli” é Mark Lee, intérprete de Archy Hamilton, jovem australiano que, nos idos de 1915, embora tenha um promissor potencial para ascender como corredor, almeja mesmo alistar-se no Exército e lutar por seu país na Primeira Guerra Mundial.

Archy é um personagem construído com um zelo que somente um realizador realmente brilhante tem o equilíbrio e a sensatez para fazê-lo; embora seja benevolente, altruísta, idealista e convicto, ele ostenta características humanas que não o tornam bidimensional – e esses elementos, a capacidade do personagem em mostrar o melhor de si, a forma com que sua pureza encanta de imediato o público serão fundamentais mais a frente.

Mel Gibson, por sua vez, interpreta Frank Dunne, um jovem trabalhador das ferrovias do país, e por isso mesmo mais cínico, mais prático e mais, por assim dizer, egocêntrico, do que Archy – Frank é bem-intencionado, mas a ideia de adentrar na guerra, junto de outros jovens alistados, o faz pensar, primeiro, no bem-estar de sua própria pele!

Os dois se conhecem ao disputarem uma corrida de 100 metros rasos e, a despeito das personalidades distintas, ficam grandes amigos. Na ocasião, Archy desvencilha-se da família (ele vivia com o tio, que o treinava) para tentar ingressar na guerra, no entanto, é impedido pela pouca idade – tinha apenas 18 anos, enquanto que a idade mínima exigida para o alistamento militar era 21.

Ao lado de Frank, um aventureiro procurando conseguir dinheiro onde quer que vá, Archy vai clandestinamente de trem tentar o alistamento na cidade de Perth, onde as exigências militares não estabeleciam limite de idade, entretanto, o trem acaba levando-os para outro lugar, um ponto longínquo do deserto australiano. O que exige que os dois rapazes, para atingir seu objetivo atravessem a pé a imensidão do Out Back – uma travessia que se mostra desafiadora mesmo para o físico e a vitalidade desportista dos dois.

Após esses percalços, Archy enfim consegue alistar-se na Brigada Ligeira. Já, Frank, embora tenha sido convencido por Archy, nesse interím, a alistar-se também, não consegue – Frank não sabia montar, pré-requisito essencial para integrar a Brigada Ligeira. Depois da partida de Archy, Frank – que assume a partir daqui o protagonismo do filme – finalmente consegue entrar para o Exército Australiano quando alista-se para a Infantaria. Junto de seus novos companheiros, ele é designado para o Cairo, no Egito onde vive sucessivas aventuras.

Ele e Archy tornam a se encontrar durante um treinamento que reúne a Infantaria e a Brigada Ligeira da Austrália e da Nova Zelândia num mesmo campo de batalha. Eles convencem alguns oficiais a aceitar a convocação de Frank para a Brigada Ligeira e ambos são designados, junto de todo o batalhão, para a fatídica Batalha dos Dardanelos, às margens da península de Gallipoli, na Turquia. Uma área completamente tomada pelos turcos – então aliados da Alemanha – que os oficiais britânicos, ao lado dos australianos, almejam tomar a todo custo, a fim de chegar em Constantinopla. As trincheiras apertadas e estreitas cavadas na terra representavam centímetros de diferença entre a vida e a morte para os soldados, enquanto as metralhadoras inimigas retiniam sobre suas cabeças.

Nesse ponto que o filme de Peter Weir traz suas primeiras facetas de filme de guerra – quando já se acha em seu terço final! É quando Archy recomenda Frank (desde sempre temeroso com sua participação em batalha) para ser mensageiro dos oficiais em campo, devido à sua agilidade.

Os elementos acumulados pelo diretor dessa trajetória rumo à tragédia dos dois amigos, adquirem impacto justamente pela perfeição e pelo brilho com que são executados e apresentados ao expectador, nesta poderosa observação sobre o peso da guerra e dos terríveis sacrifícios que ela sempre cobra da juventude. Nesse sentido, nenhum momento é mais marcante e poderoso do que sua imagem final, congelada no tempo em um encerramento arrebatador do filme e da trajetória daquela amizade.

Mel Gibson e o diretor Peter Weir ainda fariam, logo em seguida, mais um grande filme juntos, “O Ano Que Vivemos Em Perigo”, desta vez com Sigourney Weaver, sobre o Golpe Comunista na Indonésia de 1965, mas, esta, é uma outra história...

domingo, 23 de agosto de 2026

O Garoto da Casa Ao Lado


 Como atriz e produtora, a estrela Jennifer Lopez (assim me dá a impressão) parece optar por uma estratégia onde pega um conceito de filme de sucesso, ou clássico, ou ambos, e produz com ele uma espécie de versão feminina. Explico: Ela já havia feito algo assim, anos antes, com o pseudo-suspense “Nunca Mais”, que nada mais era do que uma variação do conceito de “Karate Kid’, transposto para um viés mais adulto e feminista ao abordar, com isso, a violência doméstica. O mesmo acontece aqui, de novo, com um pseudo-suspense, onde o roteiro promove mais uma variação, desta vez, de todo o conceito do filme “Atração Fatal”, no qual um lapso de adultério deflagra um verdadeiro pesadelo na vida de um casal.

“O Garoto da Casa Ao Lado” – ou “The Boy Next Door” – é dirigido por Rob Cohen, um operário-padrão em Hollywood que realizou, entre outros, o primeiro “Velozes & Furiosos”, “Daylight” (com Sylvester Stallone), “Dragão-A História de Bruce Lee” e “Stealth-Ameaça Invisível”. Por ser um operário-padrão, Cohen desenha filmes para os estúdios e, em última instância, para os produtores, filmes sem identidade, sem uma característica autoral e, na opinião de muitos, sem alma, no entanto, como muitos desses casos, ele aborda diferentes gêneros com profissionalismo, obtendo resultados e, para bem ou para o mal, fazendo acontecer.

Do alto de sua beleza e formosura inabaláveis, Jennifer é Claire Peterson, uma professora de literatura clássica do Ensino Médio que atravessa uma fase desgastada no casamento que resultou em traição – ela está num processo de digerir o adultério de seu marido Garrett (John Corbett, de “Casamento Grego”), e começa a cogitar a possibilidade de perdoá-lo em vista da presença do filho adolescente deles, Kevin (Ian Nelson, de “Jogos Vorazes”). No entanto, para sua amiga Vicky (Kristin Chenoweth, da série “Pushing Daisies”), que é também diretora na escola que ela leciona, a alternativa mais prática e sensata é seguir em frente e encontrar outro parceiro.

Eis que é durante essa indecisão que o vizinho idoso da casa ao lado recebe a visita de seu sobrinho Noah (Ryan Guzman, de “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes”), que apresenta-se para cuidar dele – afinal, Noah não tem pais (mortos num acidente de carro cercado por circunstâncias nebulosas) e parece ser um bom rapaz.

Tão bom que, nos dias que se seguem, começa aos poucos a seduzir a própria Claire, fragilizada e solitária com os acontecimentos que vinha enfrentando. Numa noite em que Garrett e Kevin haviam saído para acampar, o interlúdio sexual entre os dois acontece e, já na manhã seguinte, Claire arrepende-se, pesando todos os prós e contras de envolver-se com um jovem com a mesma idade de um de seus alunos.

É aí que o roteiro assinado por Barbara Curry opera uma mudança e Noah revela-se o psicopata que até então sua fachada de galã vinha ocultando: Mesmo que, nesse processo, qualquer sutileza vá para o ralo, promovendo uma mudança quase radical na índole do personagem – de prestativo, atencioso e viril, ele se torna obcecado, manipulador e psicótico. Na verdade, nem a protagonista escapa desse maniqueísmo: Na ânsia de emular o suspense a la “Atração Fatal” prometido desde o início, Claire também muda; de repente, de uma mulher abandonada, vulnerável e sentimentalmente indecisa, ela vira uma defensora dos valores matrimoniais, mais do que convicta em voltar para o esposo – o personagem mais detestável do filme e que, como os outros, também tem um arco dramático dos mais patéticos!

Banal em seu suspense – que brota do nada e não leva a lugar nenhum, apenas pela força das conveniências do roteiro – e completamente relapso na construção de seus personagens, “The Boy Next Door” ainda padece de uma escalação algo equivocada dos intérpretes masculinos principais: Não obstante a armadilha de interpretarem personagens mal escritos, John Corbett e Ryan Guzman vivem respectivamente o marido bom ainda que falho e o jovem sedutor e mau caráter, mas a falta de carisma do primeiro em relação ao segundo compromete o funcionamento dessa dinâmica.

Tudo que resta é algo que já se evidencia desde o princípio: Em cena, Jennifer Lopez é capaz de fazer um pouco desse filme problemático funcionar justamente com sua presença agradável, sua atuação satisfatória e seu magnetismo pra lá de apropriado para viver uma protagonista como essa.

Só precisa encontrar filmes de mais qualidade para protagonizar.