Rever “Excalibur” é, para mim, revisitar uma memória de juventude: Nos idos de 1990, eu já tinha esboçada minha cinefilia – já conhecia alguns filmes; já havia lido sobre cinema; e já frequentava, sem a frequência que eu gostaria, as videolocadoras da cidade. Entretanto, quando meus pais finalmente compraram nosso primeiro aparelho de videocassete, o primeiro filme que eu aluguei, com a devida impunidade para ver no conforto de casa (até então, eu alugava filmes para ver na casa de amigos ou parentes) foi “Excalibur”.
Eu havia lido sobre ele nas páginas de um
almanaque de lançamentos de homevideo – livro que eu preservo até hoje, todo
surrado e desgastado! – no entanto, havia uma série de circunstâncias a
rodeá-lo, das quais eu não tinha conhecimento. Eu não sabia, por exemplo, que o
diretor John Boorman almejava levar uma adaptação de “O Senhor dos Anéis”, de
J.R. Tolkien, para o cinema, ainda no princípio dos anos 1980. O estúdio
detentor dos direitos da obra, a United Artists, considerou o projeto de
Boorman arriscado demais (pra não dizer inconsequente!), afinal, ele queria
realizar um live-action, com os efeitos especiais limitados da época, e ainda
(o mais preocupante) encapsular toda a extensão dos três livros que compõem a
saga num único filme de aproximadas duas horas de duração.
O estúdio acabou optando por uma segunda
alternativa – a proposta de Ralph Baski que sugeria fazer uma animação (afinal
de contas, era muito mais viável, barato e plausível reproduzir as imagens
narradas por Tolkien num desenho animado do que num filme com atores) e ainda
dividida originalmente em três longa-metragens. E mesmo assim, “O Senhor dosAnéis” ainda foi uma obra que dividiu opiniões, desagradou muitos dos leitores
do livro e virou com o tempo, um clássico maldito.
Já, Boorman resolveu lidar com a frustração de
não ver esse sonho ser realizado dedicando-se de corpo e alma à outro projeto
igualmente fantasioso que pudesse, num nível existencial, preencher as lacunas
emocionais e pessoais que antes ele não pôde. Um indício de que existem males
que veem para bem: Esse projeto era “Excalibur”.
Adaptação cinematográfica da Lenda de Arthur e
os Cavaleiros da Távola Redonda, “Excalibur” é, e vai continuar sendo por um
longo tempo, a versão em cinema definitiva dessa história. Gerações sucessoras
bem que tentaram: Tivemos Anthony Fuqua e seu bem-intencionado (ainda que
profundamente falho) “Rei Arthur”, ou o imensamente estiloso (e igualmente
vazio) “Rei Arthur-A Lenda da Espada”, de Guy Ricthie – e essas são, entre muitas
outras, as mais conhecidas – nenhuma delas é capaz de chegar sequer perto do
brilho inquestionável que John Boorman acrescentou a este épico à um só tempo
desmistificador e mítico, lírico e brutal, abrangente e sucinto.
“Excalibur” começa quando, num reino ainda a
ser consolidado (estava mais para um punhado de províncias), Uther Pendragon
(Gabriel Byrne), o guerreiro com mais aptidão de liderança – mas com
equivalente beligerância de batalha – se apaixona por Ygraine (Katrine Boorman,
filha de John Boorman, em audaciosas cenas de nudez!), esposa de seu rival, o
Duque de Cornwall (Corin Redgrave). O desejo de Uther põe em xeque o reino que
estava por ser declarado, e ele roga por uma intervenção mágica do mago Merlin
(Nicol Williamson, fabuloso), o mesmo que havia lhe providenciado a imbatível
espada Excalibur.
Valendo-se de seus subterfúgios, Merlin faz com
que Uther tenha sua tão sonhada noite de amor com Ygraine, porém, o fruto dessa
noite, que mais tarde vem a ser o bebê Arthur, é justamente o preço que Merlin
cobra de Uther.
Atacado, encurralado e desprovido até mesmo de
seu trono, Uther morre, não sem antes cravar a disputada Excalibur numa rocha,
para que somente o Escolhido fosse capaz de removê-la. Os anos passam com
Arthur (Nigel Terry) criado como filho de um camponês, até que, sem querer (ele
era mero escudeiro de seu irmão adotivo, esse sim treinado como cavaleiro),
Arthur remove Excalibur da pedra, sagrando-se como rei.
Durante o penoso e turbulento caminho para
aprender a reinar, Arthur consegue unir as várias províncias que compunham a
região que hoje seria a Grã-Bretanha, e monta um suntuoso castelo ao qual
batiza de Camelot. Ele também casa-se com Guinevere (Cherie Lunghi), filha de
seu mais leal apoiador Leondegrance (o saudoso Patrick Stewart) e cria a Távola
Redonda, para que seus fiéis cavaleiros possam se reunir e contar histórias de
batalhas. Entre eles, Lancelot (Nicholas Clay), o maior cavaleiro do reino e
melhor amigo de Arthur.
Contudo, o destino – assim como Morgana Le Fey
(Helen Mirren, um pitel), a maligna meia-irmã de Arthur – irá conspirar contra
todos: Tomados por uma paixão embriagante, Lancelot e Guinevere traem Arthur, o
que leva a uma sucessão de tragédias (a perda de Excalibur; a derrota de Merlin
para a bruxaria de Morgana; o nascimento do cruel Mordred, o filho nascido de
uma relação incestuosa entre Morgana e Arthur; e um mal incompreensível que
leva o próprio Arthur à definhar) e ao colapso do reino de Camelot.
Cabe aos Cavaleiros da Távola Redonda em geral,
e ao cavaleiro Percival (Paul Geoffrey) em especial, a tarefa de singrar o
mundo em busca do poderoso Santo Graal, capaz de restabelecer Arthur e Camelot
outra vez – uma tarefa que se estende por duas longas décadas.
O roteiro de Rospo Pallenberg se ampara como
fonte nos textos de Thomas Malory para conceber uma narrativa que encaixe essa
trajetória épica, fragmentada, plural, abstrata e fantástica num filme de duas
horas de duração – o resultado é de tamanho primor que até hoje, produções de
cinema, muitas voltadas para esse mesmo gênero, não são capazes de igualar o
esplendor de “Excalibur”.






