Baseado num livro de Andy Weir (o mesmo autor do livro que deu origem à “Perdido Em Marte”), Devoradores de Estrelar” – ou “Project Hail Mary” – traz o mesmo fascínio pela astronomia e pelas mais mirabolantes possibilidades científicas daquele trabalho. A diferença é que aqui o autor elevou a aposta e a ambição.
O herói de “Project Hail Mary” é Ryland Grace
(Ryan Gosling, sempre sensacional), biólogo, professor primário e solitário
compulsivo que, um belo dia, acorda sem memórias dentro de uma nave espacial
(!). Seus companheiros de tripulação – duas pessoas, de países distintos –
estão mortos (!!), só ele sobreviveu. Ele não se lembra do porque está ali, a
milhares de anos-luz longe da Terra, mas os indícios indicam que é para salvar
a Humanidade (!!!). Gradualmente, enquanto sua memória retrocede vamos
descobrindo junto com ele os percalços que o levaram àquela aflitiva situação.
Na Terra, Ryland acabou cooptado pela
especialista Eva Stratt (Sandra Huller, de “Zona de Interesse”) que não tardou
a notar que ele se encaixava à perfeição para uma das especialidades de sua
operação – micróbios desconhecidos da raça humana, logo intitulados
‘Astrofágicos’ estavam se “alimentando” do Sol; todos os sistemas solares por
onde passaram simplesmente definharam e morreram. E algo parecido estava
destinado a acontecer ao nosso Sistema Solar. Entra então a audaz operação
encabeçada pela Dra. Stratt e formada por diversos especialistas nas mais
vastas áreas do mundo todo, incluindo Ryland.
Em algum lugar longínquo do sistema estelar Tau
Ceti, houve uma estrela cujo núcleo se manteve imune aos ‘Astrofágicos’ – a
missão de uma tripulação de astronautas previamente treinados é, portanto, ir
até lá (levando o tempo que levar) e encontrar o que está protegendo aquele
sistema dos ‘Astrofágicos’ e enviar sondas para a Terra coma resposta, salvando
assim a Humanidade.
Detalhe: A possibilidade de regresso, dadas as
circunstâncias, é nula. O que faz dessa uma missão suicida.
Assim, “Devoradores de Estrelas” vai, aos
poucos, esmiuçando os detalhes um tanto irônicos que fizeram Ryland ir parar
naquela nave, ao passo que nos permite também acompanhar a situação atual dele:
Num primeiro momento, perdido dentro de uma nave que nem tem certeza se sabe
pilotar, Ryland entra em contato com uma forma de vida alienígena (!).
Um ser aparentemente feito de pedras a quem ele
dá o nome de Rocky (!) (dublado e manuseado qual uma marionete por James Ortoz)
e que revela ser um astronauta, vindo de seu planeta-natal com o mesmo
propósito, achar um meio de salvar seu mundo dos ‘Astrofágicos’.
Empregando um linguajar técnico difícil e cheio
de termos inacessíveis – mas, ainda assim, vital para os desdobramentos da
trama – o filme ainda ostenta uma duração desafiadoramente longa que dividiu a
opinião e a disposição de alguns expectadores. No entanto, não apenas o ator
Ryan Gosling dá conta maravilhosamente bem do recado (provando a cada filme que
tira de letra qualquer gênero que lhe incumbem, seja drama, comédia ou ação)
como também os diretores Phil Lord e Christopher Miller (ambos da animação
“Homem-Aranha No Aranhaverso”) executam um belíssimo trabalho, registrando o
espaço sideral em tonalidades contrastantes de cores, numa das mais belas
paletas visuais empregadas na ficção científica (a fotografia é de Greig
Fraser, de “Duna – Parte 2”), e conferindo, de um ponto em diante do filme, uma
inesperada importância emocional ao personagem Rocky, cuja concepção acaba
atendendo diversos expedientes anteriormente engatilhados.






