quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Empregada


 Usualmente um realizador de comédias (são dele o remake feminista “As Caça-Fantasmas”, “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas” entre outros) Paul Feig se esforça aqui em busca de uma guinada comercial em sua carreira ao abraçar um projeto orientado pelo refinado gênero do suspense. Contudo, já em seus primeiros momentos, “The Housemaid” entrega uma série de lapsos que apontam o desconforto de seu diretor, como um descuidado (em alguns momentos até descabido!) desenho de som, e uma montagem indecisa que demora além do tempo habitual para encontrar o ritmo correto, acelerando demais a narrativa em alguns momentos e dilatando desnecessariamente certas passagens em outros.

Best-seller da escritora Freida McFadden, “The Housemail” era uma bem-sucedida série literária (agora, sinalizando o surgimento de uma bem-sucedida série cinematográfica) cujo enredo, se não era um primor de acabamento e dramaturgia, mostrava-se certeiro e envolvente no manejo dos plot-twists que se seguiam com revelações pontuais sobre seus interessantes personagens.

A protagonista é Millie Calloway, vivida pela belíssima Sydney Sweeney –e, no status de estrela em ascensão que evoca, Sydney surge como uma escolha apropriada e pontual, nem tanto por suas capacidades interpretativas (que ora satisfazem, ora deixam a desejar) mas, sim, pelo magnetismo imediato, pela instantânea empatia que ela, uma vez dentro da personagem, consegue despertar no público. E isso será muito importante como veremos a frente.

Millie precisa obter um emprego. Recém-saída da prisão (a despeito de ser jovem), ele precisa de um lugar para morar (até então, dorme dentro de seu carro em estacionamentos), de um emprego que sossegue a vigilância dos oficiais da condicional sobre seus passos e de dinheiro para se manter. Tudo isso parece vir num mesmo pacote quando ela presta uma entrevista de emprego à ricaça Nina Winchester (Amanda Seyried, menos carismática do que Sydney, mas bem mais competente como atriz, numa personagem desafiadora e cheia de camadas). Acontece que Nina está grávida (seu marido, afirma ela, ainda não sabe) e ela precisa imediatamente de uma empregada para dar conta de sua filha mais velha de 11 anos, Cecelia (Indiana Elle) e das atividades domésticas da mansão luxuosa onde moram.

Como empregada particular, Millie poderá morar dentro da casa, num quarto localizado no sótão e, embora haja certa suspeita no fato de Millie possuir credenciais demais para candidatar-se a uma vaga de empregada, Nina a quer o quanto antes.

Uma vez trabalhando para o casal –que, além de Nina inclui certamente também seu marido, Andrew (Brandon Sklenar, de “Drop-Ameaça Anônima”) –Millie vai descobrindo que o emprego, que aparentava ser um paraíso durante a entrevista, não é tão maravilhoso assim: Bipolar, Nina confronta Millie com situações complicadas, tentando incriminá-la de erros que não cometeu e tecendo uma ardilosa a aparentemente inexplicada teia de intrigas e acusações que só não comprometem ainda mais a situação de Millie graças à intervenção de Andrew.

Por conta dessa circunstância, pouco a pouco, Millie e Andrew vão estabelecendo uma proximidade que, diante da cada vez mais real possibilidade de um adultério assim consumado, pode desembocar em alguma tragédia. Contudo, na narrativa urgida pela escritora Freida McFadden, nada é o que parece ser. E é exatamente aí (nas informações omitidas ao expectador) que “The Housemaid” guarda seus trunfos.

Toda essa explicação à seguir, conterá spoilers (!): Nina não é o que parece ser, uma vez que, ao contrário da megera intratável que se mostrava durante todos os dois primeiros terços de filme, ela era na realidade uma vítima da situação, presa num casamento abusivo e tóxico, e portanto, desesperada para encontrar um meio de fuga. E tal meio, terminou sendo Millie.

Com efeito, Andrew também não é o príncipe encantado que parecia ser, revelando-se o vilão sádico, psicótico e abusador de fato.

Contudo, outra grande manobra da premissa de Freida McFadden é que a própria Millie, toda doce, desprotegida e indefesa, também não é o que  parece ser: As razões para ela ter sido presa (e encontrar-se, agora, em liberdade condicional) não reveladas antes, são elementos diretamente influentes no desfecho e no porque, agora, foi o perverso Andrew quem meteu-se com a pessoa errada –e é por isso que a escalação de Sydney Sweeney ajuda muito o filme nesse sentido: Uma vez que só saberemos de toda a verdade sobre Millie no momento quase clímax de sua reviravolta, tudo o que sabemos sobre ela é vago, ainda que seja essa a protagonista. No entanto, com Sydney Sweeney interpretando-a, Millie conquista o público já nos primeiros minutos. Mesmo que não saibamos quem ela é, ou o que ela fez, o encanto natural de Sydney faz todo o trabalho nos levando a torcer pela heroína que descobrimos, ao fim, ser bem diferente de quem supúnhamos ser.

“The Housemaid” pode ter falhas homéricas na direção, pode ter um roteiro equivocado e impreciso (as mudanças na adaptação particularmente reforçam o tom exagerado do filme), mas foi um acerto muito feliz na escalação de suas duas protagonistas: Enquanto Sydney é uma ótima presença emprestando magnetismo e simpatia genuínos à Millie; Amanda reforça a grande atriz que é interpretando uma personagem que também está interpretando na maior parte do tempo (e de forma deliberadamente histriônica ainda!) só revelando suas intenções mais humanas quando o filme já estiver em seu ápice.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

1975 - O Ano do Colapso


 Narrado por Jodie Foster, este documentário produzido pela Netflix e dirigido por Morgan Nevile observa os acontecimentos de ordem social, política e existencial que cercaram os EUA naquele ano específico colocando em pauta os reflexos dessas mudanças nos filmes lançados em cinema na época, e até algumas séries que passaram na TV.

A verdade é que 1975 foi um ano no qual convergiram diversos tópicos que a América vinha enfrentando e que, naqueles anos, mudaram radicalmente a sociedade; nunca transformações de valores e de comportamentos se sucederam num período tão curto de tempo – e isso tudo refletiu-se num período de turbulência, onde o povo norte-americano se viu tão perdido quanto desiludido.

E, à sua maneira, tudo isso se refletiu no cinema.

Se havia um ator que parecia encapsular a efervescência desses novos tempos, esse ator era Jack Nicholson. Revelado anos antes em “Sem Destino” – um dos tantos filmes que contribuiu para uma nova visão dos EUA – Nicholson, logo alçado à condição de astro, se encontrava presente em três obras ressonantes para o público e a crítica: O inconformista “A Última Missão” (cujas características representavam bem a postura questionadora da Nova Hollywood de então), o fenomenal “Chinatown” (que, embora fosse um neo-noir passado nos anos 1950, ostentava uma melancolia emblemática na qual as plateias identificavam as tramas arrojadas de então, onde a justiça não era capaz de prevalecer sobre certas facetas da vilania) e o brilhante “Um  Estranho No Ninho” (uma audaz produção que mostrava um abusador confinado num manicômio e encontrando todo o tipo de aborrecimento ao tentar colidir com as regras vigentes; por sinal, o filme premiado com o Oscar no início do ano seguinte).

Os EUA estavam ainda a processar os traumas do Escândalo de Watergate e da Guerra do Vietnam. Do primeiro, surgiu o magnífico “Todos Os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, no qual os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein (Robert Redford e Dustin Hoffman) desmascaravam as tramoias do presidente Richard Nixon – as paranoias e o medo de confiar em demasia nas instituições haviam contaminado o cidadão norte-americano e isso era mostrado em filmes como “Três Dias do Condor”, de Sydney Pollack (também com participação de Redford) e no formidável “A Conversação”, de Francis Ford Coppola.

Já o trauma do Vietman ainda demoraria para começar a render produções de cinema: O primeiro filme sobre o Vietnam, “Os Boinas-Verdes”, de 1968, com John Wayne, havia sido execrado pela opinião pública por sua iludida e irreal postura pró-governo. No entanto, falava-se sobre o Vietnam (ainda que alegoricamente) em obras como “M.A.S.H.”, a série de TV baseada no filme de 1970 (cujo roteiro disfarçava com uma nada convincente ambientação na Guerra da Coréia), e no pungente “Taxi Driver”, de Martin Scorsese (nele, Travis Birckle, um ex-combatente do Vietnam, é um indivíduo cujas neuroses se acumulam e culminam na violenta busca por redenção simbolizada na personagem de uma ainda jovem Jodie Foster e na catarse sangrenta que termina sendo sua cena final).

O presidente norte-americano que ocupou o lugar deixado por Nixon, Gerard Ford, não revelou-se alguém capaz de corresponder aos anseios norte-americanos, abrindo assim as portas para a ascensão da campanha do republicano Ronald Reagan, que não surtiu efeito imediato nas eleições do ano seguinte, mas resultou em sua candidatura nos anos 1980.

Muitos ideais atingiram um ápice de desilusão crônica: A luta pelos direitos civis que, pelo menos na cultura pop levou aos filmes da blaxploitation e ao estrelado do indomável comediante Richard Pryor, encontrava seus extertores em comentários carregados de certo cinismo na série de TV “Família Às Avessas” –logo depois, a mesma TV começou a investir na nostalgia com a série “Dias Felizes”, uma prática que dentro em breve, chegaria ao cinema. Este, ainda buscava a relevância das novas configurações sociais e familiares, como é o caso de “Alice Não Mora Mais Aqui”, um emblemático estudo da situação da mulher naqueles novos tempos, dirigido também por Martin Scorsese, que do alto de seus oitenta e poucos anos aparece prestando seus depoimentos.

Até mesmo a ficção científica trazia um registro futurista visando comentar o presente: O estranho suspense “Mulheres Perfeitas” que logo dá espaço para um pesadelo tecnológico onde as mulheres eram substituídas por seres automatizados.

Houve em 1975, a audácia narrativa de “Nashville” (um mergulho numa América fragmentada e perdida), a onda dos filmes-catástrofes “Inferno Na Torre” e “O Destino do Poseidon” (reflexos de um pavor recorrente onde o americano médio não sentia-se mais seguro), o magistral e contundente “Rede de Intrigas” (uma observação demolidora e honesta de toda a indignação do público) e o pulsante “Um Dia de Cão” (sobre um sequestro num assalto à banco que expunha as inversões de valores acarretadas por insatisfação política e causas sociais falidas).

Mas, como foi dito, tudo estava para mudar. Em 1976, os cinemas receberiam o filme “Rocky-Um Lutador”, uma obra comercial na contramão de toda aquela crítica social traduzida em desilusão que, em vez disso, oferecia uma catarse ao público (ao qual Scorsese e outros críticos se opunham com veemência) e ainda naquele período o cinema veria um sucesso sem precedentes na forma do seminal “Tubarão” de Steven Spielberg, a obra inaugural do fenômeno que depois passou a ser conhecido como blockbuster, e que teria, em 1977, sua pedra fundamental com a estréia avassaladora de “Star Wars”.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sonhos de Trem


 Quando começamos a achar que não se faz mais cinema assim (dotado de uma percepção artística toda lenta, introspectiva, melancólica), vem a própria Netflix (a mais popular dentre todas as plataformas de streaming) e lança “Sonhos de Trem” –ou “Train Dreams” no original –adaptação de um livro escrito por Denis Johnson em 2011, e carregado com ecos do cinema de Terence Malick (“Cinzas No Paraíso”, “Além da Linha Vermelha”, “Árvore da Vida”), contemplativo, abstrato, muito mais inclinado à reflexão do que à ação.

 "Sonhos de Trem" é a história de Robert Grainier (Joel Edgerton, irrepreensível) e, desde o início, o narrador (voz do ator Will Patton) nos informa que Grainier viveu até os 80 anos.

Filhos de pais que jamais chegou a conhecer, ele chega em Bonners Ferry, estado de Idaho, ainda criança e, desde cedo, desenvolve uma personalidade calada, introvertida, sempre dedicado ao cotidiano braçal das ocupações daquele fim do Século XIX início do Século XX.

Adulto, Grainier passa a trabalhar como lenhador, derrubando árvores por todo o país, muitas vezes para a construção de estradas de ferro, situação que o deixa sempre próximo do universo ferroviário norte-americano, e em contato com outros madeireiros, operários braçais que vem e vão ao longo dos anos, também eles com suas peculiares histórias.

Desse segmento, aqueles que se sobressaem na narrativa certamente são o chinês (Alfred Hsing, de “Jogador Nº1”) abruptamente descartados dos serviços junto a ferrovia por ser um imigrante ilegal (uma visão que passa a atormentar Grainier o resto da vida); o homem religioso e falastrão (Paul Schneider, de “A Garota Ideal”) inesperadamente morto por a tiros por um homem negro em busca de uma vingança pessoal; e o operário veterano vivido por William H. Macy, um curioso contador de histórias que se torna seu amigo e que parte de forma trágica.

Há também uma expressiva participação, já na segunda metade da atriz Kerry Condon (de “Banshees de Inisherin” e “F1”).

O cerne de sua trama, contudo, é a relação com Gladys (Felicity Jones), jovem por quem ele se apaixona, com quem casa e, logo depois, decide construir uma cabana na floresta à beira de um rio. Os anos não tardam a passar. Eles têm uma filha, a pequena Kate, e para sustentar sua família, Grainier passa a trabalhar temporadas inteiras bem longe do lar, cortando madeira nos mais diferentes recôncavos do país.

Seus retornos para casa são poéticos e carregados de felicidade, mas a falta de dinheiro sempre o obriga a voltar. E é justamente num desses retornos que ele é surpreendido por um terrível incêndio acometido na floresta onde moram, fazendo com que Gladys e Kate fiquem desaparecidas.

Seus 80 anos de vida não são definidos por acontecimentos extraordinários, muito pelo contrário, Robert Grainier não poderia ser um indivíduo mais comum. Ainda assim, essa trajetória de vida assim registrada não deixa de acompanhar de perto as notáveis transformações testemunhadas por esse mesmo homem comum durante os EUA da primeira metade do Século XX: “Train Dreams” vai até a segunda metade dos anos 1960, acompanhando nesse processo a modernização do sistema de transporte ferroviário norte-americano (mostrado sem qualquer viés didático) e chegando inclusive a trazer as notícias sobre a ida do Homem ao espaço.

Lançado originalmente no Festival de Sundance de 2025, onde o trabalho do diretor Clint Bentley e a atuação de Edgerton saíram aclamados pelos críticos, “Train Dreams” é uma obra cuja narrativa definida pela contemplação mantém sempre em foco a relação do Homem com a Natureza, não à toa, suas imagens deslumbrantes desde a primeira cena são o ponto forte: A direção de fotografia, concebida na janela de aspecto 1,46:1, é assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (de “Tungstênio” e ‘Rodantes”).

Não espere sair feliz e saltitante do filme: É um trabalho que foca em agruras íntimas, em tristezas inapeláveis de uma vida árdua, fadada a não encontrar quaisquer outras alternativas para que árdua deixe de ser. Expectadores adeptos de narrativas comerciais certamente vão se ressentir dessa lentidão e dessa desesperança, no entanto, em muitos momentos a realização de Bentley revela-se uma obra sublime.

domingo, 7 de junho de 2026

Sweet Movie


 Em 1974, a Iugoslávia ainda existia quando o diretor Dusan Makavejev (oriundo de lá) perpetrou esta pérola da escatologia e do ultraje conhecida como “Sweet Movie”. Uma co-produção entre Iugoslávia, França e Canadá, “Sweet Movie” é frequentemente comparado, em fóruns de análises pela internet afora, com o igualmente famigerado e perturbador "Salo – 120 Dias de Sodoma" de Pier Paolo Pasolini, lançado um ano depois.

Em ambos os casos até existem razões históricas e sociais para a existência de tamanho tratado sobre a degradação humana: Dusan Makavejv cresceu numa Iugoslávia em ebulição política, à sombra de guerras e genocídios que se desdobraram em terríveis transformações sócio-políticas – todas essas incertezas, acerca da moralidade, da segurança física e existencial e da própria sobrevivência em si, estão embutidas em sua atordoante alegoria. A verdade é que quem conhece o cinema de Dusan Makavejev sabe de sua profunda desilusão para com sistemas governamentais – seja o comunismo, seja o capitalismo – e do quanto ele só consegue enxergar nas organizações do poder uma ordem falha e contraditória que neutraliza a liberdade.

O resultado desse inconformismo é, aqui, uma obra que desafia alguns conceitos de libertinagem e permissividade – é difícil acreditar, por exemplo, que todo um elenco e toda uma equipe técnica se propuseram a conceber as cenas que testemunhamos ao longo dos insanos noventa e oito minutos de duração. Hoje, é desnecessário dizer, “Sweet Movie” jamais teria aval e autorização para ser feito.

Em princípio, “Sweet Movie” foi planejado com uma única linha narrativa, na qual a vencedora do fictício Miss Monde 1984, no Canadá, um concurso de beleza e castidade para jovens virgens (!), é a malfadada protagonista interpretada por Carole Laure. Após ter seu hímen eleito o mais belo (!?!), a jovem é oferecida para se casar com um milionário esbanjador e prepotente, o Sr. Aristole Alplanalpe (John Vernon, colaborador de diversos filmes de Jess Franco). Ao se mudar para a mansão dele, ela vivencia uma sucessão inacreditável de abusos e passa literalmente pelas mãos de vários homens (todos representativos do que seria visto hoje como masculinidade tóxica) como o guarda-costas estuprador (!) Jeremiah Muscle (o fisiculturista canadense Roy Callender) ou o mexicano El Macho (Sami Frey, de “Band À Part” e “Anthony Zimmer-A Caçada”, uma caricatura afetadíssima de amante latino). Sequestrada, a jovem é levada à Paris onde termina em uma comunidade de artistas e hippies vienenses (entre eles, a morena Marpessa Dawn, que apareceu em “Orfeu Negro”) e, após intermináveis situações tão humilhantes quanto nauseantes, junta-se ao marinheiro Potemkin (Pierre Clémenti, de “A Bela da Tarde” e “O Conformista”) em um relacionamento que acaba fulminando-o, para então envolver-se em uma campanha publicitária de chocolate (uma espécie de símbolo para o capitalismo) na qual protagoniza uma das cenas mais emblemáticas do filme.

Entretanto, nem todas as sandices imaginadas por Makavejev foram filmadas: Indignada e contrariada com o extremismo das cenas de abuso a que foi submetida, a atriz canadense Carole Laure (de “Fuga Para A Vitória”) abandonou o projeto obrigando o diretor Makavejev a criar uma segunda linha narrativa, igualmente controversa e problemática. Nela, uma comunista fanática, Anna Planeta (Anna Prucnal, de “Cidade das Mulheres”, de Fellini) navega por um rio de Amsterdã em seu barco adornado com uma carranca de Karl Marx e enfeitado de ponta a ponta com doces coloridos, capturando jovens em meio aos transeuntes das margens, a fim de torna-los seus amantes, seduzi-los e, por fim, matá-los (!) – em sequências do mais descabido abuso infantil!

Todas as perversidades humanas parecem retratadas sem pudor nesta ciranda de euforia e decadência feita sob o pretexto das alusões políticas, entretanto, parece ser consenso que Dusan Makavejev foi longe demais: Seu filme não é apenas um desfile de cenas de orgia, coprofagia, estupros, mortes e toda sorte de cenas envolvendo líquidos corporais, ele inclui também sequências documentais da desova de cadáveres no histórico massacre de Katyn, na Polônia.

A natureza explícita, repelente e francamente indigesta dessas cenas torna “Sweet Movie” um filme difícil de ser recomendado, salvo para públicos muitíssimo específicos.

sábado, 6 de junho de 2026

Bugonia


 Sem jamais abandonar um estilo idiossincrático de moldar obras desiguais, desconfortáveis, quase sempre perturbadoras (característica que fez chamar a atenção para si no cinema de sua Grécia-natal), o diretor Yorgos Lanthimos conseguiu conquistar a colaboração de improváveis aliados (como a estrela Emma Stone, aqui na quarta parceria com o diretor) e uma parcela do público e da crítica que sempre parecem entusiasmados com mais um novo atrevimento do mesmo realizador de “A Favorita”.

Etimologicamente falando, o título de “Bugonia” surgiu das expressões gregas, Boures (boi) e Góné (geração), significando a geração, o surgimento de insetos como moscas ou abelhas a partir de uma carcaça de boi em decomposição.

“Bugonia”, em princípio, parece se debruçar sobre um absurdo sem precedentes: Os primos Teddy Gatz (o ótimo Jesse Plemmons) e Don (o ator autista Aidan Delbis) são a própria personificação de norte-americanos alienados; creem em teorias da conspiração e tem recursos e disponibilidade para pôr algumas de suas sandices em prática. Teddy passa seu tempo livre cuidando de abelhas como apicultor (atenção a este detalhe!) e também trabalha como operário numa empresa do conglomerado farmacêutico Auxolith. Ele acredita piamente que a CEO, Michele Fuller (Emma Stone), é uma alienígena enviada à Terra com um plano contundente para capitanear uma invasão gradual e insidiosa.

Seu plano é, portanto, sequestra-la, com o auxílio de Don, (e sua convicção para isso é tanta que chegam a ingerir um castrador químico para que não sejam afetados pela presença feminina da refém!) e durante o cárcere extrair dela (nem que seja sob tortura!) os meios para teleportar-se à sua nave-mãe (!), onde haverão de encontrar um meio de sabotar a invasão alienígena (!!). O enredo, em sua descrição, parece pertencer à uma comédia de ficção científica ou algo minimamente próximo disso, entretanto, a direção de Yorgos Lanthimos o transforma em algo completamente diferente.

Refilmado e reimaginado a partir do filme sul-coreano “Save The Planet Green” (ou “Jigureul Jikyeora!”, no idioma original), lançado em 2003 (este, sim, uma comédia de ficção científica de fato, infinitamente menos sombrio e pessimista que este daqui), “Bugonia” reflete sobre os indivíduos de índole escorregadia e de convicções questionáveis que surgem a partir de sociedades cujos valores entram numa espécie de apatia. Logo, é uma habilmente disfarçada reflexão sobre as arestas não aparadas dessa América de Trump que Lanthimos nos entrega.

Os realizadores de “Save The Planet Green” (jamais lançado aqui no Brasil, infelizmente) afirmaram que tiveram a ideia do enredo básico ao assistirem o filme “Louca Obsessão”, o que os deixou insatisfeitos devido à falta de profundidade explorada na personagem da sequestradora; em “Save The Planet Green”, eles tomaram a decisão de conceber um roteiro sob o ponto de vista torpe do próprio sequestrador. Isso, aliado à uma notícia da internet (onde uma teoria da conspiração cogitava a possibilidade do astro Leonardo Dicaprio ser um alienígena!) rendeu a ideia que, por fim, se tornou “Save The Planet Green”.

No entanto, se naquele filme, os realizadores sul-coreanos fizeram uma alucinada comédia de humor negro, aqui, em “Bugonia”, o diretor Lanthimos tece uma obra de conotações mais desafiadoras: Ele justapõe personagens brilhantemente bem escritos (a CEO implacável ainda que paradoxalmente indefesa de Emma Stone e o sequestrador ignorante de Jesse Plemmons potencialmente perigoso justamente por sua ignorância) num duelo de convicções e num constante e mutável jogo de negociação entre verdade, determinação e duplicidade.

O desfecho de “Bugonia”, com seu desconcertante plot twist reforça a observação impiedosa que Yorgos Lanthimos sempre fez da condição humana: Se, como na crença da Antiguidade, a raça humana emergiu das carcaças de outra espécie assim neutralizada (os dinossauros), através do fenômeno da Bugonia, de novo isso torna a acontecer, agora, com a raça humana, moribunda em seus conceitos falhos e no fato de que plantou as sementes para a própria auto-destruição, originando talvez uma nova forma de vida, dando continuidade ao ciclo.

Ainda que altamente irônico e cruel, esse talvez seja o mais perto de algum otimismo que o diretor Yorgos Lanthimos seja capaz de chegar.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestres do Universo


 A concepção do desenho animado “He-Man e Os Mestres do Universo” já é uma história bastante difundida na cultura pop – a de que a Mattel (empresa fabricante de “Barbie”) recusou a proposta (que mais tarde se provou milionária) de um certo George Lucas para fazer uma linha de brinquedos baseada em seu filme “Star Wars”. Com o sucesso da concorrência, a Mattel correu atrás do prejuízo tentando lançar sua própria linha de brinquedos infanto-juvenis baseado numa obra de fantasia. A ideia de fazer isso com “Conan” (personagem que vinha fazendo sucesso com o filme live-action de 1982) não vingou porque o personagem era desde a gênese deveras violento para crianças pequenas, contudo, executivos notaram que bastava mudar a cor do cabelo do personagem principal (alterado do preto para o loiro, causando um ligeiro estranhamento em contraste com a pele bronzeada) e havia toda uma linha inédita e original de brinquedos.

Sem uma obra prévia de introduzisse o conceito para as crianças consumidoras do brinquedo, a Mattel produziu breves histórias em quadrinhos que acompanhavam os bonecos a fim de lhes proporcionar um background, no entanto, logo seguiu-se a ideia de produzir toda uma série de animação (a cargo da produtora Filmation) que se encarregasse de mostrar ao público-alvo toda a mitologia concebida a partir dos bonecos – uma prática que, dado o estrondoso sucesso, tornou-se regra mercadológica nos anos 1980.

A fim de contornar as críticas – que apontavam o desenho como uma mera propaganda de marketing estendida, visando apenas divulgar um produto – os produtores acrescentaram, ao fim de cada episódio de “He-Man e Os Mestres do Universo”, uma breve mensagem moral.

E o resto, para você que tem por volta de seus 40 e tantos anos, é História.

Toda essa volta é para contextualizar as circunstâncias inusitadas por meio das quais surgiu uma das obras mais emblemáticas para quem foi criança nos anos 1980, e que culminou no filme “Mestre do Universo” lançado agora em 2026.

Não foi a primeira adaptação cinematográfica, é bom dizer: Lançado em 1987, pela produtora picareta Cannon Films, “Mestres do Universo” trazia Dolph Lundgreen escalado como He-Man numa trama cujo baixo-orçamento não permitia fidelidade absoluta ao desenho animado (uma mescla exultante entre fantasia e ficção científica) e que acabava adotando como ambientação um subúrbio qualquer de Nova York (!). Apesar dos lapsos imensos de produção, esse filme, hoje, é lembrado com carinho como uma espécie de ‘prazer culposo’.

Mas, vamos falar do filme de 2026.

Nele, o planeta Etérnia – lar dos personagens e palco dos embates entre o Bem e o Mal – surge materializado por efeitos especiais de ponta. O reino governado pelo rei Randor (James Purefoy) e pela rainha Marlena (Charlotte Riley, de “No Coração do Mar”) que, diga-se, veio da Terra, é detentor do lendário Castelo de Greyskull, cujos poderes encontram-se depositados na Espada do Poder, a ser empunhada, segundo a sábia Feiticeira (Morena Baccarin) por seu vindouro campeão. Todavia, surgem as forças do Mal manifestadas no perverso Esqueleto (Jared Leto) que ataca o reino, aprisiona o rei e a rainha, e ainda oprime todo o povo, almejando tomar para si os poderes de Greyskull. Isso só não acontece porque o príncipe Adam, ainda uma criança, sob a orientação da Feiticeira, é enviado junto da espada para o planeta Terra, outrora lar de sua mãe.

Mas, Adam acaba perdendo a espada (sua conexão com o mundo de Etérnia), levando cerca de quinze anos para reencontrá-la – e então, após esse salto temporal, já vemos Adam vivido por Nicholas Galitzine (de “Uma Ideia de Você”), o novo intérprete do personagem.

Embora essa primeira parte forneça uma apresentação simbólica e tenha uma função narrativa de origem para dar o pontapé inicial no enredo, muitos fãs torceram o nariz para essa ambientação na Terra, recordando das escolhas um tanto equivocadas do filme de 1987 (ainda que isso também abra espaço para uma divertida participação especial do próprio Dolph Lundgreen em pessoa). Contudo, o trecho da Terra é rápido, elíptico até (atropela até algumas informações importantes que podia ter fornecido do tempo em que Adam ficou por aqui) e, quando menos se espera, o expectador já foi devidamente arremessado de volta à Etérnia: Ao finalmente reencontrar sua espada, Adam consegue trazer seus aliados para a Terra – na verdade, é Teela (a maravilhosa brasileira Camila Mendes), sua amiga de infância, quem vem lhe resgatar – e seus adversários também – ele é perseguido pelo bestial Homem-Fera!

Em Etérnia, Adam – que ainda está a se adaptar aos poderes assim descobertos da espada – reencontra os guerreiros dos quais se recordava na infância – personagens característicos e clássicos da animação como o pai de Teela, Mentor (o sempre sensacional Idris Elba), Fisto (Jóhannes Haukur, de “Atômica”), Aríete (Jon Xue Zhang), Mekaneck (James Wilkinson) e Roboto (voz de Kristen Wiig) – que formam agora, uma resistência contra as forças do Esqueleto. Não demora muito para Adam finalmente descobrir os meios que a Espada do Poder tem para convertê-lo no poderoso He-Man (esse nome só é revelado no desfecho) e fazer dele o tão aguardado Campeão de Etérnia, a fim de livrar o povo do Esqueleto.

Desde exibições-testes preliminares já havia surgido o comentário sobre a imensa semelhança deste projeto com “Thor-Ragnarok” – e a similaridade, de fato, não parece ser por acaso, ela parece ser proposital: Desde o colorido característico e nada sombrio dos efeitos visuais, figurinos e direção de arte, passando pela trilha sonora que, entre outras coisas, traz o guitarrista Brian May (do “Queen”!), até o próprio roteiro que não economiza em referências e na famosa e apetecível fórmula de muita ação e aventura mesclada ao humor inofensivo e ocasional (ainda que algumas piadas revelem um duplo sentido), tudo nesta produção evoca o filme de Taika Waititi em particular, e o estilo da Marvel Studios em geral.

A direção de Travis Knight (de “Bumblebee”) se baseia integralmente na animação clássica da década de 1980 (com algumas poucas menções às reinvenções que o próprio desenho sofreu ao longo dos anos) e investe de ponta a ponta em nostalgia, buscando uma modernização por meio da identificação e humanidade dos personagens, trazendo elementos motivacionais em voga como empatia e sinergia (não à toa, o herói na Terra trabalhava no setor de Recursos Humanos!). Até mesmo o vilão Esqueleto é representativo de uma maldade translúcida, sem preocupações com um aprofundamento que lhe desvirtue uma certa galhofa inerente ao personagem.

Em resumo, “Mestres do Universo” é uma obra recheada de boas intenções, personagens pra lá de carismáticos e uma mitologia tão atraente quanto mirabolante (ainda que, com isso, pese a mão em alguns momentos de drama ou de comédia), seu sucesso comercial – notadamente almejado no estilo um pouco pedante que evoca – pode abrir as portas para toda uma nova franquia nas telas de cinema (com desdobramentos sugeridos, inclusive, numa de suas três cenas pós-créditos). Um trabalho feito com coração, mas, não sem um mal disfarçado planejamento mercadológico, aliás, exatamente como o desenho animado que lhe deu origem.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dinheiro Suspeito


 Melhores amigos na vida real, os astros Matt Damon e Ben Affleck já dividiram a cena diversas vezes em filmes como o premiado “Gênio Indomável” (praticamente a estréia dos dois) ou o bizarro “Dogma”, de Kevin Smith. Em “Dinheiro Suspeito” – ou “The Rip”, o título original – eles voltam a fazê-lo desta vez do alto de uma carreira já consagrada e com anos de experiência nas costas – o que confere a ambos bagagem suficiente para interpretar magistralmente os dois protagonistas.

Dirigido brilhantemente por Joe Carnahan (realizador extremamente talentoso para com o gênero policial tendo assinando o magnífico “Narc”), “Dinheiro Suspeito” reflete um cinema que, em grande medida, já não é mais feito – uma obra sólida, enxuta, sem firulas, sobre personagens sem firulas existindo no limiar de extremos da Lei, da violência e da criminalidade, lembra muito (como quase todo o cinema de Carnahan) as produções cheias de energia, ênfase e personalidade realizadas nos anos 1970.

“Dinheiro Suspeito” já começa sem qualquer receio de expor o expectador à diálogos carregados de densidade: Sob a atmosfera já pesada de um escritório da polícia, o Tenente Dane Dumars (Matt Damon, ótimo) tece uma conversa com seu superior. A Capitã Jackie Velez (Lina Esco, de “London”), responsável pela investigação aos desdobramentos de um cartel de drogas em Miami, acabou de ser morta num violento e misterioso atentado. A suspeita recai sobre seus próprios colegas – a corregedoria acredita que foram policiais corruptos, na folha de pagamento dos traficantes, que perpetraram o atentado, e para tanto, agentes federais, representados entre outros pelo implacável Del Byrne (Scott Adkins), mobilizam uma bateria indigesta de interrogatórios a todos os membros da Unidade de Narcóticos do Departamento de Polícia de Miami, inclusive J.D. Byrne (Ben Affleck, surpreendente), seu próprio irmão!

A suspeita paira no ar.

Para Dane, J.D. e os agentes Numa Baptiste (Teyana Taylor, de “Uma Batalha Após A Outra”), Lolo Salazar (Catalina Sandino  Moreno, de “Maria Cheia de Graça”) e Mike Ro (Steve Yeun), os demais integrantes da força-tarefa, a Cap. Velez (que, à propósito, estava envolvida com J.D.) esbarrou numa descoberta bombástica – e que talvez seja a confirmação do que até então era uma lenda urbana: Paióis de dinheiro mantidos por cardéis que armazenam quantias tão assombrosas de dinheiro do tráfico que qualquer policial, honesto ou não, se sentiria compelido a pegar um pouco para si.

Engessados pela burocracia do sistema, abalados pelos detalhes nebulosos da investigação da Cap. Velez – detalhes estes que, em grande parte, parecem ter morrido com ela – e subitamente inseguros em depositar confiança absoluta uns nos outros, J.D., Numa, Lolo e Mike resolvem seguir Dane numa apreensão de dinheiro sugerida pelo que talvez seja uma dica anônima.

Com a noite a cair sobre Miami, eles chegam a um bairro residencial de Hialeah onde mora Desi (Sasha Calle, de “Flash”), uma jovem que alega inocência e afirma tão somente estar ocupando a casa de foi de sua falecida avó. Os policiais adentram o recinto e, numa busca, descobrem um paiol com a alarmante quantia de 200 milhões de dólares (uma das maiores apreensões de dinheiro já feitas!) – quando a dica anônima sugeria meros 150 mil!

Instala-se um clima de preocupação: Um valor tão grande não pode passar despercebido aos traficantes, ou mesmo aos policiais corruptos que os ajudam – o grupo de Dane, portanto, corre perigo. É questão de tempo até que inimigos fortemente armados caiam sobre eles. No entanto, segundo a Lei, eles não podem deixar o local sem ante fazer a contagem – e, de novo, ainda pesa a questão de que talvez não possam confiar uns nos outros.

Não existem distrações redundantes nem desvios melindrosos no filme de Joe Carnahan, o que ele constrói com habilidade espantosa é um trabalho básico, tenso, decorrido numa única noite e ambientado quase que totalmente num único lugar (ainda que seu refinamento cinematográfico evite qualquer impressão teatral). Seus atores estão em ponto de bala (não me lembro quando foi a última vez que vi Ben Affleck tão bem), seu roteiro (assinado por ele próprio e por Michael McGrale) além de engenhoso e meticuloso, aborda aspectos distintos da atividade policial e gerencia elementos que desembocam em revelações surpreendentes na parte final, e sua direção extremamente segura e absorvente equilibra com rara primazia as sequências explosivas de ação (ainda que, no clímax, ele exagere um pouco nesse quesito), a tensão gradual e crescente e a manutenção louvável de um enredo sempre em desenvolvimento, trazendo até o fim novas informações ao público.