O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!
Como contador de histórias, Nolan sentiu que
havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias
da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas
que vieram depois – “A Odisseia”.
O próprio cinema de Christopher Nolan deve
muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais
(por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um
sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras
obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto
sobre ele enquanto cineasta.
Logo, diante da sensação de ter chegado ao
topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em
que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.
Não que não houvessem tentado adaptá-la (e
muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato
longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores
característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para
diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem
diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.
Era hora de aventurar-se a adaptar a obra
original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E
o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso,
abrangente, épico e assombroso.
Antiguidade. Já conta mais de uma década dos
feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas
forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt
Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo
conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa
Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que
morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu
retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de
pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando
da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert
Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa
os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação
escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de
Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que
ele não conheceu.
É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu
em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de
Nolan.
Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do
Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em
regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu
retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima
que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na
primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então
desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais
puro terror.
Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus
homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai
uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com
Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de
exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu –
que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os
gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima),
a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora
mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as
sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso
(Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha,
destituído de suas lembranças, por sete longos anos.
Não há um único membro do elenco que, sob a
batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das
atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e
Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de
todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em
permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o
menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a
memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e
perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.






