domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Euphoria - 3ª Temporada


 A terceira temporada de “Euphoria” chega dividida entre dois pólos extremos. Vamos lá: nesses quatro anos que separam o segundo e o terceiro ano de “Euphoria”, os estrelatos tanto de Zendaya, quanto de Sydney Sweeney, se consolidaram – a ponto de muitos acreditarem que provavelmente não seria viável realizar uma terceira temporada, visto a apertada e disputada agenda das duas; isso e mais a louvável indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante recebida por Jacob Elordi no início deste ano! Contudo, o realizador, Sam Levinson, não economizou esforços a fim de materializar este terceiro ano, possivelmente, desesperado por contornar o quanto antes o fracasso retumbante da tentativa em emplacar a série “The Idol”, estrelada por The Weeknd e repudiada por público e crítica.

São esses caminhos um tanto tortos que nos levam a este terceiro e último ano de “Euphoria” que já chega ostentando duas distinções contundentes em relação aos dois primeiros anos da série: A primeira delas, sai a ambientação estudantil – os personagens já não são mais jovens estudantes (até porque alguns deles, como Alexa Demie e Maude Apatow, já não convenceriam nesse papel), e sim indivíduos dando seus primeiros passos na vida adulta. A segunda é que, desta vez, “Euphoria” já não é mais uma série tão plural, e o expectador deve estar ciente disso (e abraçar isso!), caso contrário, é melhor nem começar os oito episódios: Duas personagens se sobressaem a todas as outras, e obviamente são elas a Rue de Zendaya (que convenhamos já era protagonista desde o começo) e a Cassie Howard de Sydney Sweeney (reflexo do incontornável status que ela foi adquirindo junto ao público); todos os demais personagens, mesmo aqueles que até gozavam de alguma relevância nas temporadas anteriores acabam relegados à condição de coadjuvantes – isso aqueles que chegam à aparecer, visto que a personagem de Barbie Ferreira (de importância sensivelmente reduzida do primeiro para o segundo ano), aqui nem mesmo dá as caras, e sequer é mencionada pelas demais, consequência, segundo dizem as más línguas, de um desentendimento com Levinson.

Quando reencontramos Rue Bennett (Zendaya, também produtora), passados alguns anos, ela já desvencilhou-se da convivência com a mãe e a irmã para mergulhar numa rotina de vida que, dadas as suas predisposições para o  vício e para a infração, começa a flertar perigosamente com o crime: Trabalhando como mula para alguns traficantes, ela resolve escapulir das garras de seus empregadores – que estão prestes a matá-la, injuriados com uma dívida que ela não consegue quitar – indo trabalhar justamente para o grande rival e inimigo  declarado deles, o perverso e ameaçador Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de “Pompeia”), uma espécie de barão do crime, proprietário de uma boate onde desfilam jovens garotas capturadas no fluxo do tráfico sexual e onde a droga que ele comercializa ilegalmente chega até os usuários. Mal escapando de uma encrenca para envolver-se em outra (elementos que agregam, aqui, mais humor do que drama ao núcleo da personagem), a trajetória de Rue acaba levando-a inadvertidamente ao jugo dos agentes de DEA, que transformam ela numa informante – o que, claro, aproxima ainda mais a personagem do perigo de morte.

Por sua vez, Cassie (Sydney, abusando de seu sex-appeal) casou-se com Nate (Jacob Elordi) com quem estabeleceu um tumultuado namoro na segunda temporada. Assim sendo, com ele devendo uma vultuosa quantia em dinheiro para agiotas russos (que lhe arrancam uns dedos do pé toda a vez que surgem para cobrar a dívida!), Cassie precisa ganhar dinheiro exponencialmente rápido a fim de salvar a vida do marido, e a melhor saída é envolver-se com o Onlyfans, plataforma digital para a qual ela pode produzir conteúdo adulto (e, no processo, a série entregar a sucessão de cenas picantes que todos os fãs querem ver de Sydney Sweeney) e ganhar dinheiro o mais rápido possível. A pessoa mais indicada para gerenciá-la nessa empreitada assumindo papel de empresária, até por seu afiado tino comercial, é Maddie Perez (Alexa Demie), outrora melhor amiga de Cassie e outrora namorada de Nate (!?!)

E é isso. Esses são basicamente os arcos narrativos principais desta temporada, em torno dos quais todos os outros personagens orbitam: Há, por exemplo, Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de Cassie, que tornou-se assistente de uma produtora de Hollywood (produtora esta vivida por Sharon Stone, em participação bastante decorativa) que na primeira temporada tinha até mais importância que a irmã dentro da trama, mas que aqui é sua coadjuvante. Caso ainda mais contundente é o de Jules Vaughn (Hunter Shaffer), a amiga trans e interesse romântico de Rue que, nesta nova temporada, é escanteada a ponto de virar quase uma participação especial. O mais curioso é que a própria relação entre as duas estrelas na vida real (Zendaya e Sydney Sweeney) pareceu interferir nos rumos de “Euphoria”: Conduzindo carreiras que ganharam rumos bastante distintos (a de Zendaya pareceu mirar numa consagrada carreira de atriz séria e respeitada, enquanto que Sydney caiu nas graças do público através de filmes de apelo muito comercial e não se furtou de sucessivas polêmicas), as duas estrelas evitaram contato durante a realização da série, e isso se nota perfeitamente na narrativa – por vezes, esta terceira temporada de “Euphoria” parece tratar-se de duas obras distintas (a comédia tragicômica a envolver Rue, e a farsa tresloucada, sórdida e sexual estrelada por Cassie) entre as quais um ou outro personagem acaba transitando. Para se ter uma ideia, na totalidade de episódios da temporada inteira, mesmo que compartilhem basicamente dos mesmos coadjuvantes, Rue e Cassie se encontram na mesma cena uma única vez – e é um momento um bocado constrangedor!

Não tão pertinente, em termos artísticos ou temáticos, quando sua temporada inaugural, mas certamente ainda bastante saborosa de se assistir, esta terceira temporada de “Euphoria” encontra um arremate perfeitamente adequado no personagem do ótimo Colman Domingo, que ganha súbita importância no episódio final para conduzir o público ao desfecho.

É um encerramento curioso, anti-climático até, ainda que de acordo com o espírito inconformista que pareceu predominar na série como um todo – uma série que, podemos perceber, foi se moldando a partir das predisposições que se faziam possíveis.

Ao menos (e isso, para mim, é motivo de admiração), Sam Levinson soube que era hora de parar e deu um desenlace contundente, na medida do possível, para seus personagens; coisa que muita série que começou excelente não soube fazer...

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Paixão de Escritório


 Hoje em dia não se fazem mais tantas comédias românticas, daí ser quase motivo de júbilo que um desses exemplares aporte, neste caso, no catálogo da Netflix. Estrelada pela mais que exuberante Jennifer Lopez – atriz que, embora nunca tenha alçado voos interpretativos a ponto de coloca-la entre intérpretes premiadas, é uma estrela mais que adequada para produções como esta, ancoradas em seu carisma, sua simpatia e sua beleza – “Paixão de Escritório” segue tópicos corriqueiros do gênero nos quais, é bom estar ciente, não importa tanto assim onde tudo vai levar (o desfecho em si já se pode presumir nos primeiros dez minutos iniciais), mas sim, como o roteiro encontrará meios para fazer os personagens chegarem até lá – e a maneira, quase sempre infalível, com que o filme conseguirá fazer o público torcer por esses personagens.

Dito isso, “Paixão de Escritório” cumpre bem sua proposta.

Jennifer é Jackie Cruz, CEO de uma empresa de aviação, cujo pai (o honorável Edward James Olmos) é até os dias de hoje um respeitado fundador. Embora esse detalhe da hereditariedade prejudique os méritos de Jackie na opinião  de alguns, ela é vista, pelos funcionários de maneira geral, como uma chefe linha-dura – características que a atuação leve, sorridente e cativante de Jennifer Lopez jamais deixam transparecer: É algo parecido com o que acontece em “A Proposta”, onde Sandra Bullock supostamente deveria desempenhar uma chefe nos moldes de “O Diabo Veste Prada”, mas logo revela as facetas encantadoras de sempre.

Na mesma empresa se encontra Daniel Blanchflower (Brett Goldstein, intérprete do personagem Hércules numa cena pós-créditos de “Thor-Amor & Trovão”), jovem advogado britânico que veio para Manhattan por motivos pessoais – a prisão da irmã, vivida por Jodie Whitaker, por razões injustas – e ocupa o cargo de advogado júnior.

Eis que o advogado sênior (vivido por Bradley Withford, de “Corra!” e “Uma Noite de Aventuras”) acaba tendo um mal-estar (se engasgando com um lanche!) e, às pressas, tem de ser substituído numa negociação de suma importância – entra em cena, então, Daniel, cuja existência, até aquele momento, era desconhecida por Jackie. Adotando uma abordagem inesperada (e, no fim das contas, certeira) para o processo, diferente do advogado anterior, Daniel consegue cair nas graças da chefe aparentemente tão exigente que passa a apresentar justificativas, a partir dali, para que seja sempre ele que esteja ao seu lado em assuntos de ordem jurídica – o que inclui, lá pelas tantas, quando a atração entre os dois já estiver quase insustentável, uma viagem de negócios para um resort na Jamaica, rapidamente convertida num fim de semana romântico.

Embora os apaixonados façam um pacto de tentar o máximo possível ocultar a relação no ambiente de trabalho, isso não se revelará algo tão simples de ser feito.

Claro que, dentro de suas modestas intenções, não existem valores cinematográficos muito elevados em “Paixão de Escritório”, no entanto, não há nele também muitas contraindicações: A produção caprichada da Netflix garante um filme visualmente bonito, fluído, e relativamente bem filmado, o par central – sobretudo, a sempre exuberante Jennifer Lopez – segura maravilhosamente bem as pontas, e são rodeados por um leque de personagens coadjuvantes quase sempre divertidos – o destaque fica para Betty Gilpin, no papel da funcionária grávida, mas obstinadamente profissional, incapaz de reconhecer que os indícios evidentes da gravidez avançada a obrigam a tirar licença maternidade!

O roteiro é previsível, a direção (a cargo de Ol Parker, roteirista de “O Exótico Hotel Marigold”) se satisfaz em fazer o básico, e os personagens são desenhados a exemplo de uma infinidade de outros personagens inseridos nesse mesmo gênero, contudo, dentro dos objetivos bem claros deixados pelo filme, “Paixão de Escritório” se sai até que bem.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Paixões Na Floresta


 Dirigido por Philip Ridley, “Paixões Na Floresta” – ou “The Passion Of Darkly Noon” – é um  cult-movie obscuro dos anos 1990 que conta com as presenças de Viggo Mortensen (bem antes de sagrar-se como Aragorn em “O Senhor dos Anéis”) e de Brendan Fraser (bem antes do sucesso de “A Múmia”, e mais ainda do Oscar de Melhor Ator por “A Baleia”).

Darkly Noon é o estranho nome do protagonista vivido por Brendan Fraser. Quando o filme começa, ele perambula a esmo por uma floresta, ferido e perturbado. Ele é encontrado inconsciente por Jude (Loren Dean, de “Gattaca-A Experiência Genética”) que o leva à casa de Callie (Ashley Judd, belíssima) situada no meio da floresta.

Jude é irmão de Clay (Viggo Mortensen), marido de Callie, que se encontra desaparecido – Clay tem episódios (que, talvez sejam esquizofrenia!) nos quais some floresta adentro por dias à fio, para então voltar como se nada tivesse acontecido.

Embora esteja sozinha, Callie resolve arriscar-se e abrigar Darkly em sua casa, mesmo na ausência de Clay e, nos dias que se seguem (dias estes que constituem o formato episódico da narrativa) ela constrói uma relação estranha e até certo ponto contraditória com Darkly: Ele (que era membro de uma espécie de seita religiosa e tornou-se o único sobrevivente de uma chacina na qual viu morrerem até seus pais!) mal consegue ocultar seu desejo por ela; já, Callie por sua vez, não deixa de insinuar-se para Darkly (não alimentem esperanças, Ashley Judd não fica nua neste filme...) embora sempre insista que é apaixonada por Clay.

Darkly – cuja sanidade já era fragmentada pelo fanatismo religioso em meio ao qual nasceu e cresceu – se vê atormentado por tal situação, que só se ressalta quando Clay retorna.

Clay, que é mudo, trabalha como marceneiro fazendo caixões, e aceita Darkly como seu ajudante, entretanto, é quase insuportável para Darkly testemunhar Callie, seu objeto de desejo, aos beijos e abraços com outro homem. Ele busca refúgio na floresta e lá acaba encontrando Roxy (Gracie Zabriskie, de “Twin Peaks”) da qual Callie já havia lhe prevenido.

Roxy, na realidade, mora num trailer nas imediações e tem por companhia apenas o seu cachorro – ela conta a Darkly que outrora morou na mesma casa em que Callie está, conta que Callie levou seu marido à morte, e que seduziu seu filho Clay (no entanto, ela nunca menciona Jude em sua versão dos fatos). Em suma, ela afirma que Callie é uma bruxa, responsável pela destruição de sua família e que Darkly deve tomar uma atitude e puni-la por seus pecados.

Impelido por seus desejos sexuais então reprimidos, por sua própria loucura latente, pelas histórias tendenciosas de Roxy, e até mesmo por alucinações onde enxerga seus pais (!) alvejados por tiros e lhe dando ordens (vividos por Mel Cobb e Katie Harper), Darkly aos poucos vai cedendo a uma predisposição homicida com a qual, num dado momento, ele invadirá a casa de Callie e Clay e, em meio à um incêndio que ele mesmo provocará, tentará matar Callie.

É um tanto quanto difícil descrever “Paixões Na Floresta” e, mais ainda, tentar decifrar, a partir do filme intrigante e excêntrico que fez, os objetivos do diretor Philip Ridley. Vindo de um filme independente que colocou seu nome no circuito alternativo – o desigual conto de vampirismo “O Reflexo do Mal”, também com Viggo Mortensen – Ridley dá continuidade às suas inquietações nesta produção de baixo orçamento que resgata os temas que ele parece incapaz de abandonar: A forma como os seres humanos cedem à impulsos insensatos a parir de suas crenças arraigadas.

Ele materializa esses tópicos numa obra curiosa que suscitou certo fascínio entre alguns cinéfilos ainda nos anos 1990, mas peca pela imperfeição gritante do material – não apenas seu argumento vem soterrado em contradições e redundâncias como muitas vezes sua própria direção não parece saber, ao certo, o rumo que deseja tomar dentro das diretrizes que desenvolve. Num momento, ele sugere um erotismo que jamais surge de fato (muito provavelmente, em função das imposições da atriz Ashley Judd, recusando cenas que talvez fossem mais ousadas no roteiro), noutro, ele conduz um suspense cujos intérpretes dos personagens envolvidos não parecem compreender por inteiro as motivações, caso de Brendan Fraser, numa progressão de desequilíbrio e psicose que soa exagerada, em muitos momentos (ainda que ancora num desempenho esforçado), ou em Loren Dean, que aparece, vez ou outra, com apego absolutamente injustificado ao personagem de Fraser.

Nas mãos de um David Lynch ou de um Michael Haneke, poderia ser uma das grandes obras dos anos 1990, nas mãos de Philip Ridley é, quando muito, um intrigante conto sobre desejo em conjugação com uma certa sanha homicida que pouco se mostra harmonioso.

terça-feira, 7 de julho de 2026

A Coisa Certa


 Este “The Sure Thing” pode perfeitamente ser enxergado como uma espécie de esboço que o diretor Rob Reiner realizou antes de conceber o clássico “Harry & Sally-Feitos Um Para O Outro”, considerado a fórmula perfeita para uma comédia romântica – e, sim, o gênero comédia romântica, em si, é basicamente uma fórmula.

Em “The Sure Thing”, os ingredientes são manuseados com alguma competência, um certo senso de experimentação e, no fim, alguns resultados até que positivos: Lá está o casal protagonista, pelo menos um deles interpretado por um ator bastante visado (ou que ainda seria muito visado) dentro do gênero – John Cusack, aqui; Meg Ryan em “Harry & Sally” – lá também estão as circunstâncias que justapõem as índoles tão opostas desse casal prestes a descobrir o amor em colisão de conceitos e de personalidades – Rob Reiner gosta, pelo jeito, de criar situações de diálogos dentro de veículos e que se desdobram, de preferência, em longas viagens.

John Cusack é Walter ‘Gib’ Gibson, jovem universitário que até não corresponde totalmente àquele arquétipo do nerd fracassado no colegial, mas que certamente não vê sua vida universitária tomar o rumo de sucesso (e de satisfação sexual!) que ele imaginava. Ele estuda Inglês em uma faculdade na Costa Leste enquanto seu amigo Lance (Anthony Edwards, de “Top Gun”) aproveita as escolas hedonistas da ensolarada Califórnia. Mas, Lance é um bom amigo: Durante as férias de fim de ano, ele prepara uma festa de arromba durante a qual planeja apresentar ao amigo uma mulher espetacular (vivida pela estreante Nicollette Sheridan) que, nas suas palavras, é ‘the sure thing’ – ou também, uma ‘garota sinal verde’, numa tradução que também serviu de título nacional secundário que o filme também recebeu aqui no Brasil.

A fim de concluir a jornada até a Califórnia e até a garota dos sonhos, Gib precisa viajar de carona, e o carro que ele toma tem, como outra carona, a CDF Alison Bradbury (Daphne Zuniga, de “Garotas Modernas”) disposta a também ir para Califórnia encontrar o noivo almofadinha, à frente do carro, e cedendo essa carona, estão o casal Gary Cooper – sim, este é o nome do personagem (!) – e Mary Ann (vividos por um Tim Robbins, ainda bem jovem e por Jane Persky). Contudo, Gib e Alison não se bicam – eles mal se suportam nas aulas em que, apesar dos pesares, têm que sentar lado a lado.

Essa animosidade, no entanto, fará Gary e Mary Ann desistir da carona que ofereceram e deixa-los na estrada para juntos ter de traçar um meio para chegar ao seu destino.

“The Sure Thing” é, pois, um road movie onde acompanhamos o casal que vive às turras avançar as etapas na sua viagem através das estradas norte-americanas, pegando ônibus, carros, caminhões e outros meios para tentar chegar onde acreditam ser seu destino sentimental – o rapaz, na garota que promete ser a mulher que ele sempre quis; a moça, no jovem que ele está convencida de que é seu parceiro ideal – obedecendo, porém, aquela máxima de que o segredo está na jornada e não no seu final, Rob Reiner deixa bem claro (na verdade, claro até demais!) que Gib e Alison se amam, e que haverão de dar-se conta disso, em meio à discussões, à brigas e reconciliações que mostrarão que, mesmo diante de suas diferenças, eles podem ser complementares num nível muito mais significativo do que os outros pares que haviam elegido.

Como muitos dos chamados ‘clássicos da sessão da tarde’ dos anos 1980, “The Sure Thing” não é nem de longe tão perfeito quanto a memória afetiva que o envolve pode levar alguns a acreditar. É uma comédia com momentos forçados (Daphne Zuniga, particularmente, padece de qualquer falta de timing cômico), com um roteiro cheio de redundâncias e de tempos mortos (nesse sentido e amparado em argumento quase idêntico, John Hugues fez um trabalho muitíssimo melhor com o sensacional “Antes Só Do Que Mal Acompanhado”). John Cusack, com o passar dos anos e com o acúmulo de experiência se tornaria um ator muito melhor, e Rob Reiner, bem, ele entregaria uma das melhores comédias românticas de todos os tempos, como foi falado, o que realmente parece converter este insípido romance juvenil num esboço, um ensaio básico para a futura realização de algo melhor.

domingo, 5 de julho de 2026

Supergirl


 Superman”, de James Gunn, foi a primeira incursão cinematográfica dentro desse novo universo compartilhado da DC Comics no cinema, ainda almejando levar todo o seu universo de personagens dos quadrinhos para a telona, após a tentativa claudicante de Zack Snyder. Agora, presenciamos a chegada do segundo longa-metragem dessa empreitada, este “Supergirl” – cuja protagonista, interpretada por Milly Alcock, já havia dado as caras, antecipando este projeto, numa cena pós-créditos de “Superman”.

Como era de se presumir, algumas pressões de ordem artística e mercadológica pairavam sobre a produção: A primeira delas, adaptar com pomba e circunstância a graphic novel “Supergirl-Woman Of Tomorrow”, de Tom King, um elogiadíssimo arco de histórias da personagem que serviu de fonte para o roteiro. As outras obrigações do filme eram introduzir ao público leigo (sem conhecimento dos quadrinhos) essa nova personagem tendo em vista a possível comparação com as versões anteriores (a primeira, no filme B de 1984, vivida no cinema por Helen Slater; as versões de séries de TV, tendo Laura Vandervoort personificado ela em “Smallville” e Melissa Benoist vivido a personagem numa série própria do Warner Channell de 2015 a 2021; e a última versão para cinema, do Snyderverse, interpretada por Sasha Calle, no irregular “Flash”), e ser, no fim das contas, um sucesso de bilheteria e um  filme bom de fato – objetivos que, na opinião de muitos, o filme inicial de James Gunn não chegou a cumprir totalmente.

Ao encontrarmos Kara Zor-El (Milly Alcock, entregando um bom e dedicado trabalho), prima do Superman, ela está junto de seu cachorro Krypto, comemorando seu aniversário num outro planeta, irradiado por sol vermelho – lá, portanto, seu metabolismo kryptoniano não apresenta os mesmos assombrosos poderes de quando está num planeta de sol amarelo como a Terra, lá ela pode beber e usufruir dos efeitos do álcool (!?!).

É nessa situação que ela cruza-se com Ruthie (Eve Ridley), sobrevivente de uma família de ferreiros espaciais dizimada pelo perverso Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts, num vilão irritante e completamente subaproveitado). Num argumento que remete muito à “Bravura Indômita”, Ruthie quer vingança, mas sabe que sua juventude e inexperiência a tornam um desafio irrisório para o seu inimigo. Naquele bar interplanetário (a exemplo dos bares habituais da saga “Star Wars”), portanto, ela está à procura de alguém que compre sua causa e a ajude a eliminar Krem.

Num primeiro momento, não é essa a intenção de Kara – como toda protagonista que se pretende descolada, ela não aceita se envolver, evitando encrenca – mas, o objetivo se torna pessoal depois que Krem e seus ‘bandoleiros do espaço’ roubam sua nave e, o pior, alvejam seu cachorro com uma flecha envenenada, cujo antídoto só ele possui. A motivação – emprestada sem qualquer disfarce de “John Wick” – dá, assim, o pontapé à narrativa e toda uma jornada espacial (a lembrar, por sua vez, um road movie) que se desenrola a partir daí com o roteiro truncado de Ana Nogueira e a direção de Craig Gillespie (do ótimo “Eu, Tonya”) fazendo o possível (e falhando) em dar ao filme alguma originalidade – isso porque a cada momento, “Supergirl” evoca uma narrativa já conhecida, e que funcionou muito melhor antes; e os exemplos são todos os filmes já citados.

Nem mesmo acréscimos que poderiam dar algum fôlego à trama (como o Lobo, vivido por Jason Momoa, deixando para trás “Aquaman” com este novo personagem) ou que poderiam aprofundar a protagonista e sua jornada (como a revelação de sua origem, extraída da graphic novel, mais sombria e distinta que a de seu primo) ajudam a tornar o resultado palatável, uma vez que as escolhas, em sua maioria soam aleatórias e sem razão de ser – uma pena: Não só a composição acertada de Milly Alcock merecia um filme muito melhor para estrelar, como também o material-base dos quadrinhos era uma história vibrante, excelente e pronta para ser adaptada fielmente, sem necessidades de alterações equivocadas.

Com um roteiro repleto de incongruências (e contradições nas quais as personagens entram a todo o momento), “Supergirl” parece evidenciar de forma cristalina as intervenções de produtores no seu resultado final: O diretor Gillespie, notoriamente um realizador bastante competente, não  parece ter tido pleno controle sobre o projeto e muito do que vemos remete nitidamente ao trabalho sintomático do produtor (e Todo-Poderoso da DC Comics atualmente) James Gunn que impõe o estilo com o qual construiu “Guardiões da Galáxia” para a Marvel Studios.

sábado, 4 de julho de 2026

Frankenstein


 A obra literária de Mary Shelley impregnou-se de maneira indissociável da cultura pop; não apenas a obra em si (com adaptações cinematográficas como a icônica versão da Universal com Boris Karloff, a rebuscada e romantizada produção “A Prometida”, com Sting, ou o inquieto “Frankenstein de Mary Shelley”, de Kenneth Branagh, se somando à dezenas, talvez centenas, já executadas) mas, até mesmo seu inusitado contexto –gira em torna justamente da gênese de sua premissa o incomum, brilhante e notável “Gothic”, de Ken Russell, sobre os eventos que levaram Lord Byron, Mary Shelley, seu noivo Percy e mais alguns outros a vivenciarem uma noite lisérgica de onde saiu a ideia do livro.

Eis que em 2025, uma nova adaptação, conduzida pelo diretor mexicano Guillermo Del Toro, ganhou a luz do dia. Se vai ser recebida ou não como a adaptação definitiva da obra só o futuro dirá (e a divisão de público e crítica entre os que amaram essa nova visão de Del Toro e aqueles que rejeitaram suas mudanças já não abre muita margem para isso), no entanto, não deixa de ser uma obra admirável exatamente pelo fato de não sairmos dela indiferentes.

Em primeiro lugar, porque Guillermo Del Toro sempre olhou com carinho e identificação os monstros que, ao longo de sua carreira, incumbiu-se de retratar – com suas lentes ele concebeu um tétrico filme de fantasmas onde são os vivos o grande mal a assombrar os inocentes (“A Espinha do Diabo”); uma fantasia onde as criaturas mais pavorosas e espantosas não rivalizavam, em perversidade, com os déspotas muito reais da Guerra Civil Espanhola (“O Labirinto do Fauno”); ou uma versão de “O Monstro da Lagoa Negra” onde o tal monstro é o personagem mais indefeso, vulnerável, cativante e romântico (!) em cena (“A Forma da Água”). Não chega a ser surpresa, portanto, que nesta versão de “Frankenstein”, imbuída de acachapante beleza visual, seja por vezes o próprio protagonista Victor Frankenstein (vivido com energia por Oscar Isaacs) quem se revela mais monstruoso do que sua criatura.

Dividido com bastante inteligência em duas partes bem distintas, o filme começa em 1857, quando a tripulação de uma embarcação dinamarquesa encalhada no gelo das calotas polares recebe um inesperado hóspede (prólogo preservado em pouquíssimas adaptações do livro): O moribundo e debilitado Dr. Victor Frankenstein.

Atrás dele, logo vem uma Criatura e sua fúria é tamanha que nem os tiros de armas de fogo da tripulação são capazes de rechaçar. Enquanto aguarda pelo inevitável no interior do navio, resta ao Dr. Frankenstein relatar ao Capitão Anderson (Lars Mikkelsen, irmão do ator Mads Mikkelsen) a sua história: Ainda bem jovem, Victor testemunhou sua mãe morrer no parto do irmão mais novo, William, restando a ele somente o autoritarismo e a exigência constante do pai (Charles Dance, de “Mank”) que cobrava  de Victor a excelência (em medicina) que nem ele era capaz de ostentar. Com o passar do tempo, a morte da mãe e a cobrança paterna moldaram o caráter de Victor –ele tornou-se obcecado em descobrir uma forma científica para contornar a morte em definitivo. Ainda que desacreditado por muitos de seus superiores, Victor chegou bem perto de tal intento: Um meio de devolver uma centelha de vida às partes mortas de um cadáver.

Sem a aprovação acadêmica, Victor obtêm recursos para suas experiências com financiamentos vindos do mercador Henrich Harlander (Christoph Watz) que vinha a ser tio de Elizabeth (Mia Goth), a noiva de seu irmão, William (Felix Kammerer, de “Nada de Novo No Front”).

Numa noite de tempestade, Victor consegue energia o suficiente para reanimar um corpo constituído de vários pedaços de cadáveres colhidos por ele em campos de batalha da Guerra da Criméia. A Criatura que surge a partir desse experimento (vivida por Jacob Elordi, da série “Euphoria”, entregando um belíssimo trabalho) é inocente e tão assustada quanto assustadora –e reflete de maneira incômoda a arrogância do próprio Dr. Frankenstein ao querer brincar de Deus.

Julgando que a experiência não saiu conforme planejava, e desejoso de apagar aquilo de sua vida, o Dr. Frankenstein tenta matar a Criatura e coloca fogo em todo seu laboratório. É nesse ponto que a segunda parte do filme (toda ela narrada pela própria Criatura!) se inicia: Sobrevivendo ao incêndio, a Criatura, ignorante de todo um mundo do lado de fora de seu cárcere, passa a errar através da floresta, testemunhando sofrimento e atrocidade até conseguir se refugiar no celeiro da cabana de uma família de montanheses. O patriarca já velho, cego e debilitado (David Bradley, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”) é deixado sozinho na cabana pelos filhos, que partem para uma temporada de caça em outra região da floresta. E assim, do convívio com o velho cego (que acredita ser ele um simples viajante) a Criatura irá adquirir algum conhecimento a partir dos livros que aprenderá a ler e das conversas com o cego.

É essa consciência –quando a tragédia tornar a procurá-lo –que fará com que a Criatura vá atrás de seu Criador, para cobrar dele uma última chance de encontrar algum pertencimento no mundo.

Narrado com paixão e perfeição técnica, este “Frankenstein” justifica plenamente o amor incondicional com o qual seu diretor lhe dedica: Muito do material extraído do livro original, Del Toro transforma em algo seu, fazendo desta uma obra bastante pessoal: Não apenas a Criatura recebe talvez o seu retrato mais humanizado e empático já feito, como a própria relação com Elizabeth (muito mais aprofundada do que, por exemplo, a atração que o Dr. Frankenstein nutre por ela) adquire fortes tonalidades de entendimento, afeto e aproximação, fazendo muito lembrar o viés a laA Bela e A Fera” que Del Toro também concebeu em seu “A Forma da Água”.