Neste “Vivo Ou Morto” já chegou-se num ponto em que o ator Daniel Craig interpreta o personagem Benôit Blanc como alguém que ele conhece e compreende integralmente (processo que ele certamente também experimentou vivenciando o agente 007), em que o roteiro e a direção de Rian Johnson já se acostumaram de tal forma a manipular o intrincados elementos do gênero policial investigativo, que sua condução é instintiva, sua descoberta das reviravoltas pontuais (e até inevitáveis) em seu plot é tão orgânica quando a capacidade de dissimulação plantada habilmente em seus personagens.
Terceira parte de uma trilogia iniciada com
“Entre Facas e Segredos” e continuada com “Glass Onion” – e adquirida, do
segundo exemplar em diante, pela Netflix – este “Vivo Ou Morto” traz toda a
habilidade para tramas articuladas com infindável ardil por seus personagens
que Johnson tão bem soube esbanjar em praticamente todas as produções que
assinou, sendo superior à “Glass Onion”, porém, ainda inferior ao primeiro
filme, o melhor de todos.
Antes do protagonista Benôit Blanc dar as
caras, somos apresentados aos demais protagonistas desta trama – até porque,
Blanc, diferente dos outros personagens, prescinde de apresentações,
funcionando agora quase como um mestre de cerimônias – a começar pelo principal
de todos, o padre Jud Duplenticy (o carismático Josh O’Connor, de “Dia D”), um
ex-boxeador que largou os rings para
dedicar-se à batina após matar um oponentes à socos. Por seu temperamento (e
por saber muito bem como usar seus punhos quando provocado), Padre Jud é
enviado à longínqua paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, comandada
pelo Monsenhor Wicks (Josh Brolin), cujos métodos de pregação, Jud vai perceber
com o passar dos dias, vão muito além do meramente não ortodoxo: Wicks possui
uma oratória agressiva, egocêntrica e prepotente e mantém cativo um grupo muito
específico de fiéis que aliena com sua pregação raivosa. Qualquer outra pessoa
da fora (e isso inclui o próprio Jud) é excluída quase que imediatamente.
Os fiéis em questão: A serviçal da igreja Martha
Delacroix (Glenn Close) e seu marido, Samson Holt (Thomas Adden Church), ambos
habituados a surgirem repentinamente nos momentos mais inoportunos; o médico
Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), um poço de amargura desde o abandono da
ex-esposa; o escritor fracassado Lee Ross (Andrew Scott, de “1917”); a jovem
violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny, de “Alien-Romulus”) presa a uma
cadeira de rodas que aguarda, resignada, por um milagre; a advogada Vera Draven
(Kerry Washington) obrigada pelo pai a criar um irmão adotivo com quem nunca se
acertou; e o próprio irmão adotivo Cy Draven (Daryl McCormack, de “Boa Sorte,
Leo Grande”), rapaz indiferente e esnobe, obcecado em fazer sucesso como influencer do youtube.
Todas pessoas ostentando neuroses que deveriam
ser curadas pela fé, mas que o Monsenhor Wicks tão somente manipulou para
continuarem suas fanáticas devotas. Cada um deles tinha um motivo para dar cabo
do Monsenhor Wicks – principalmente após uma reunião à portas fechadas que
culminou num rompimento completo entre Wicks e todos eles – e Padre Jud, mais
do que todos eles, chegou a exprimir suas intenções numa confissão.
O problema é que, numa homilia matutina, o
Monsenhor Wicks acaba realmente morto, esfaqueado nas costas, num recinto
apertado sem espaço para uma segunda pessoa e sem quaisquer meios de ser
invadido.
Como tal crime foi perpetrado? E quem está por
trás dele?
A comunidade logo aponta o dedo para o novato
Padre Jud que, em desespero, recorre aos conhecimentos prodigiosos de dedução e
investigação do detetive Benôit Blanc chamado à cidadezinha pela xerife local, Geraldine
Scott (Mila Kunis).
Tendo conferido as duas obras anteriores, é
fácil para o expectador antecipar o que encontrará nesta produção aqui: Como em
“Entre Facas e Segredos” e “Glass Onion”, Rian Johnson reúne, em torno de seu
protagonista Blanc, um time vasto de personagens excêntricos e com motivações
obscuras, interpretado por um elenco repleto de estrelas do cinema
hollywoodiano. E como nos outros filmes, está aqui também o enredo muito
decalcado dos clássicos intrincados de Agatha Christie, onde o crime só termina
elucidado após diversas pistas se revelarem falsas e toda uma teia de segredos
a interligar as mais diversas e inesperadas atitudes for revelada.






