sábado, 7 de novembro de 2026

Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte


 Aos olhos desavisados, “Acampamento Miasma” pode parecer mais um filme que pega carona em referências oitentistas tão em voga no cinema comercial, com suas homenagens aos clássicos do terror slasher que preservam fãs e apreciadores até hoje – e que, por isso mesmo, são uma fonte de lucro tida por inesgotável para muitos produtores picaretas.

Na verdade, “Acampamento Miasma” pode parecer inúmeras coisas: Uma sátira às franquias de terror sob o viés woke a salientar os elementos problemáticos (misoginia, homofobia, racismo e o politicamente incorreto em geral) que normalmente todas as franquias antigas compartilhavam; um exercício de estilo até que impressionante da diretora Jane Schoenbrun (de “Eu Vi O Brilho da TV”); e uma carta de amor ao subgênero slasher em geral e à “Acampamento Sinistro” em particular.

Mas, acima de tudo, “Acampamento Miasma” é uma pérola de metalinguagem, uma realização autoconsciente de toda extensão cultural do subgênero que aborda e, diante desses fatores, realiza uma reflexão humana, artística e cinematográfica de todas as suas implicações para, no fim das contas, mostrar-se aquilo que todo o filme deveria ser: Um ótimo entretenimento.

No passado (mas especificamente, nos anos 1980), a série de terror “Acampamento Miasma” fez imenso sucesso de público (o que é ilustrado nos créditos iniciais com imagens do filme, de produtos de merchandising relacionados e infindáveis matérias e capas de revista à respeito), assim como seu antagonista principal, o assim chamado Little Death (“Pequena Morte”, como os franceses apelidaram o orgasmo, não à toa o filme foi abraçado na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2026), um vilão nos mesmos moldes de Michael Meyers (“Halloween”), Jason Vorhees (“Sexta-Feira 13”), Freddy Krugger (“A Hora do Pesadelo”), Ghostface (“Pânico”) e tantos outros, com uma emblemática e impraticável máscara feita de duto de ventilação (!). Na trama do filme dentro do filme – a exemplo do que se sucedia no originalíssimo “Acampamento Sinistro” – um jovem rapaz se converte em assassino serial devido a uma avassaladora crise de identidade sexual; um aspecto que aponta a transfobia e a alegoria embutida na combinação entre jovens, sexualidade e matança que transpassava todo o gênero. Com o tempo, “Camp Miasma” sofreu o mesmo que todas as demais franquias do slasher: Teve sua qualidade diluída em dezenas de continuações medíocres, repetitivas e formulaicas que abarrotaram as prateleiras de videolocadoras dos anos 1980 e 90.

Contudo, os estúdios (como, aliás, volta e meia ocorre no mundo real) querem trazer “Camp Miasma” de volta com uma nova visão, repaginada para os novos tempos. A escolhida para a empreitada é a cineasta Kris Williams (a interessante Hanna Einbinder, a Ava Daniels da série “Hacks”) sobre quem pesa a responsabilidade de levar um novo enfoque à uma obra atrelada aos estranhos valores de uma outra época.

A fim de entender o que mais a fascinava, desde muito jovem, no “Camp Miasma” original (o enigmático olhar da protagonista na mais marcante dentre todas as cenas de morte), Kris vai a procura da estrela do primeiro filme, Billy Presley (a ótima Gillian Anderson, a Dana Scully da série “Arquivo X”) que, depois do sucesso do primeiro filme, resolveu isolar-se de tudo e de todos, como uma espécie de Norma Desmond (de “Crepúsculo dos Deuses”) com quem, aliás, é comparada em algumas ocasiões.

Dessa forma, o filme de Schoenbrun promove o encontro e o embate entre duas personagens que representam considerações opostas de períodos bastante diferentes do cinema (a atriz lembrada por um papel só, emoldurada numa imagem inatingível de diva em oposição à sua humanidade; e a jovem realizadora do cinema independente autoral cujas predisposições são reflexos de todas as vulnerabilidades e inseguranças de ordem sexual que traz consigo) e de duas espetaculares atrizes de diferentes gerações (e de duas séries marcantes em dois diferentes períodos de tempo) – entretanto, ao contrário do que se poderia supor, não é o atrito que surge desse encontro, mas sim o fascínio. E é no jogo de sedução, profundamente enraizado na correlação entre desejo e morte explorada na franquia, que o filme irá demandar boa parte de seu tempo.

O que não significa que “Camp Miasma” não seja também um filme de terror – mas, é um filme de terror inteligente, inclinado à uma intrigante observação da natureza involuntariamente psicanalítica do subgênero a que pertence, e que, em sua excelência, se irmana aos tantos títulos antológicos que o gênero ganhou nos últimos anos nessa Nova Era de Ouro do Terror nos cinemas. Dentre eles, talvez, aquele que mais me remete à “Camp Miasma” seja o sensacional “A Substância”, no qual também temos uma diretora mulher munida de duas grandes atrizes em diferentes etapas da vida e da profissão discorrendo sobre pautas e inquietações atuais em um subgênero outrora exclusivamente voltado ao exploratório e sensacionalista.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Excalibur


 Rever “Excalibur” é, para mim, revisitar uma memória de juventude: Nos idos de 1990, eu já tinha esboçada minha cinefilia – já conhecia alguns filmes; já havia lido sobre cinema; e já frequentava, sem a frequência que eu gostaria, as videolocadoras da cidade. Entretanto, quando meus pais finalmente compraram nosso primeiro aparelho de videocassete, o primeiro filme que eu aluguei, com a devida impunidade para ver no conforto de casa (até então, eu alugava filmes para ver na casa de amigos ou parentes) foi “Excalibur”.

Eu havia lido sobre ele nas páginas de um almanaque de lançamentos de homevideo – livro que eu preservo até hoje, todo surrado e desgastado! – no entanto, havia uma série de circunstâncias a rodeá-lo, das quais eu não tinha conhecimento. Eu não sabia, por exemplo, que o diretor John Boorman almejava levar uma adaptação de “O Senhor dos Anéis”, de J.R. Tolkien, para o cinema, ainda no princípio dos anos 1980. O estúdio detentor dos direitos da obra, a United Artists, considerou o projeto de Boorman arriscado demais (pra não dizer inconsequente!), afinal, ele queria realizar um live-action, com os efeitos especiais limitados da época, e ainda (o mais preocupante) encapsular toda a extensão dos três livros que compõem a saga num único filme de aproximadas duas horas de duração.

O estúdio acabou optando por uma segunda alternativa – a proposta de Ralph Baski que sugeria fazer uma animação (afinal de contas, era muito mais viável, barato e plausível reproduzir as imagens narradas por Tolkien num desenho animado do que num filme com atores) e ainda dividida originalmente em três longa-metragens. E mesmo assim, “O Senhor dosAnéis” ainda foi uma obra que dividiu opiniões, desagradou muitos dos leitores do livro e virou com o tempo, um clássico maldito.

Já, Boorman resolveu lidar com a frustração de não ver esse sonho ser realizado dedicando-se de corpo e alma à outro projeto igualmente fantasioso que pudesse, num nível existencial, preencher as lacunas emocionais e pessoais que antes ele não pôde. Um indício de que existem males que veem para bem: Esse projeto era “Excalibur”.

Adaptação cinematográfica da Lenda de Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, “Excalibur” é, e vai continuar sendo por um longo tempo, a versão em cinema definitiva dessa história. Gerações sucessoras bem que tentaram: Tivemos Anthony Fuqua e seu bem-intencionado (ainda que profundamente falho) “Rei Arthur”, ou o imensamente estiloso (e igualmente vazio) “Rei Arthur-A Lenda da Espada”, de Guy Ricthie – e essas são, entre muitas outras, as mais conhecidas – nenhuma delas é capaz de chegar sequer perto do brilho inquestionável que John Boorman acrescentou a este épico à um só tempo desmistificador e mítico, lírico e brutal, abrangente e sucinto.

“Excalibur” começa quando, num reino ainda a ser consolidado (estava mais para um punhado de províncias), Uther Pendragon (Gabriel Byrne), o guerreiro com mais aptidão de liderança – mas com equivalente beligerância de batalha – se apaixona por Ygraine (Katrine Boorman, filha de John Boorman, em audaciosas cenas de nudez!), esposa de seu rival, o Duque de Cornwall (Corin Redgrave). O desejo de Uther põe em xeque o reino que estava por ser declarado, e ele roga por uma intervenção mágica do mago Merlin (Nicol Williamson, fabuloso), o mesmo que havia lhe providenciado a imbatível espada Excalibur.

Valendo-se de seus subterfúgios, Merlin faz com que Uther tenha sua tão sonhada noite de amor com Ygraine, porém, o fruto dessa noite, que mais tarde vem a ser o bebê Arthur, é justamente o preço que Merlin cobra de Uther.

Atacado, encurralado e desprovido até mesmo de seu trono, Uther morre, não sem antes cravar a disputada Excalibur numa rocha, para que somente o Escolhido fosse capaz de removê-la. Os anos passam com Arthur (Nigel Terry) criado como filho de um camponês, até que, sem querer (ele era mero escudeiro de seu irmão adotivo, esse sim treinado como cavaleiro), Arthur remove Excalibur da pedra, sagrando-se como rei.

Durante o penoso e turbulento caminho para aprender a reinar, Arthur consegue unir as várias províncias que compunham a região que hoje seria a Grã-Bretanha, e monta um suntuoso castelo ao qual batiza de Camelot. Ele também casa-se com Guinevere (Cherie Lunghi), filha de seu mais leal apoiador Leondegrance (o saudoso Patrick Stewart) e cria a Távola Redonda, para que seus fiéis cavaleiros possam se reunir e contar histórias de batalhas. Entre eles, Lancelot (Nicholas Clay), o maior cavaleiro do reino e melhor amigo de Arthur.

Contudo, o destino – assim como Morgana Le Fey (Helen Mirren, um pitel), a maligna meia-irmã de Arthur – irá conspirar contra todos: Tomados por uma paixão embriagante, Lancelot e Guinevere traem Arthur, o que leva a uma sucessão de tragédias (a perda de Excalibur; a derrota de Merlin para a bruxaria de Morgana; o nascimento do cruel Mordred, o filho nascido de uma relação incestuosa entre Morgana e Arthur; e um mal incompreensível que leva o próprio Arthur à definhar) e ao colapso do reino de Camelot.

Cabe aos Cavaleiros da Távola Redonda em geral, e ao cavaleiro Percival (Paul Geoffrey) em especial, a tarefa de singrar o mundo em busca do poderoso Santo Graal, capaz de restabelecer Arthur e Camelot outra vez – uma tarefa que se estende por duas longas décadas.

O roteiro de Rospo Pallenberg se ampara como fonte nos textos de Thomas Malory para conceber uma narrativa que encaixe essa trajetória épica, fragmentada, plural, abstrata e fantástica num filme de duas horas de duração – o resultado é de tamanho primor que até hoje, produções de cinema, muitas voltadas para esse mesmo gênero, não são capazes de igualar o esplendor de “Excalibur”.

Ele faz parte das três únicas obras-primas incontestes que John Boorman entregou em sua filmografia (que traz dezenas de títulos) – as outras duas são “Amargo Pesadelo” (indicado a Melhor Filme no mesmo ano de um certo “O Poderoso Chefão”) e “Esperança e Glória” (indicado à Melhor Filme e Melhor Diretor). Dentre eles, “Excalibur” só não desfrutou da mesma consagração em premiações (exceto pelas indicações de Melhor Fotografia e Melhor Figurino no Oscar 1982) por tratar-se de uma obra de fantasia – gênero que custou a receber o mesmo reconhecimento dos outros por não ser visto como ‘cinema sério’. Se essa circunstância mudou com o passar do tempo, certamente, um dos maiores responsáveis foi esta realização sem par, memorável, arrebatadora e excelente em todos os quesitos entregue por John Boorman.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Inferno Selvagem


 O lendário filme dono da única cena de sexo da carreira de Sandra Bullock passa à crônica cinematográfica exatamente por isso; por trazer a belíssima e consagrada estrela (à época, 1993, ainda uma desconhecida) numa sequência erótica que, apesar do sexo simulado, traz um despojamento que a faz parecer quase explícita. Não é por acaso, portanto, que este trabalho, engavetado pelos próprios realizadores à época da produção, descontentes com o pífio resultado final, só foi lançado em homevideo no final da década, depois que Sandra havia sido catapultada ao estrelato.

“Inferno Selvagem” – ou “Fire On The Amazon” – já evidencia em sua procedência que nada muito promissor haveria de emergir dali: O diretor é o peruano Luis Llosa, realizador do clássico B non-sense “Anaconda” (como todos sabem, memorável por sua ruindade!) e de um dos mais destrambelhados filmes de ação estrelados por Sylvester Stallone nos anos 1990, “O Especialista”. Já, a produção é assinada por Roger Corman que, longe das elegantes adaptações de Edgar Allan Poe dos anos 1960 e das ficções inventivas (ainda que vulgares) dos anos 1980, resolveu bancar, nos anos 1990, algumas das produções mais mambembes de sua carreira.

“Fire On The Amazon” possui, em algum lugar entre seus tantos equívocos, um enredo que busca expor os malefícios do desmatamento e a tentacular corrupção entre os seringueiros da floresta amazônica. Seu protagonista, o displicente fotojornalista R.J. O’Brian (o péssimo Craig Sheffer, de “Nada É Para Sempre”) cai de paraquedas no que parece ser uma conspiração: Correspondente americano na Bolívia, ele fica sabendo do assassinato de um líder seringueiro dedicado ao ativismo ambiental e à proteção da floresta contra os desmatadores.

Disposto a investigar as causas do assassinato (cujas pistas plantadas apontam deliberadamente para os índios da tribo Zingari), R.J. acaba preso por policiais corruptos na mesma cela em que se encontra um índio, capturado para servir de bode expiatório nessa mesma investigação.

Libertado graças à influência de Alyssa Rothman (Sandra Bullock, de longe, a única coisa satisfatória e relevante no filme), uma ativista relutante que ele conheceu dias antes, no velório do falecido, R.J. resolve seguir o corpo do dito ‘culpado pelo crime’ – que rápida e convenientemente apareceu morto! – levado pelos membros de sua tribo rio acima para os procedimentos fúnebres.

Na tribo, após alguns percalços pela mata, R.J. e Alyssa conhecem o líder Ataninde (Juan Fernández, de “Crocodilo Dundee 2” e “Kinjite-Desejos Proibidos”), ciente da tentativa das autoridades locais em tentar incriminar seu povo, mas avesso à buscar, entre eles, alguma justiça – entretanto, é óbvio para qualquer um os rumos previsíveis no arco narrativo desse e dos demais personagens.

Percebe-se, em várias frentes, o quanto as intenções do diretor Luis Llosa (aqui também produtor) e das roteiristas Luana Andrews, Catherine Cyran e Beverly Gray miravam numa obra de engajamento, urgência e fervor como “Salvador-O Martírio de Um Povo”, de Oliver Stone (que, inclusive, contava com Juan Fernández em seu elenco), mas, acabaram desembocando numa mescla desajeitada de filme investigativo, aventura selvagem e ação policial terceiro-mundista com sua pobreza orçamentária ficando evidente em quase todos os momentos – até mesmo naqueles em que a produção lança mão de artifícios para parecer maior do que é.

Mas, e a tal cena de sexo de Sandra Bullock?

Transcorrida no trecho em que a personagem dela e a de Craig Sheffer vão parar na tribo Zingari e transam sob efeito de algum chá alucinógeno (!), a cena é elíptica e ao mesmo tempo reveladora, e embora até venha de encontro às tendências do cinema comercial de então (as telas dos anos 1990 eram chacoalhadas por obras como “Instinto Selvagem” e “Proposta Indecente”) não tem a menor relevância para com a trama ou o arco de seus protagonistas – eles mal chegam a engrenar um romance...

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Selena


 Existem perdas que doem demais. Pessoas que, se não tivessem partido tão cedo, teriam brilhado mais do que todas as outras, sem a menor sombra de dúvida. É com um sentimento assim agridoce que nos deixa o filme de Gregory Nava, um registro pessoal (ainda que imperfeito) da trajetória fugaz e fulgurante da cantora Selena Quintanilla, consolidada como um dos maiores ícones latinos no fim dos anos 1980, início dos 90.

“Selena” já começa numa sequência de um show da cantora (ocorrido em Nashville) expondo logo de cara seu maior trunfo: A composição certeira, plena de identificação, da atriz Jennifer Lopez que, tal e qual a personagem verídica que interpreta, canta e dança com perfeição – também ali vemos a janela de aspecto escolhida pelo diretor de fotografia (Edward Lachman, mesmo de “Carol” e “As Virgens Suicidas”) que começa intencionalmente no formato 4:3 (simulando o antigo padrão quadrado de TV) para evocar essas memórias e então se expande dinamicamente para a proporção widescreen (e para o glorioso e panorâmico 2.39:1, padrão das telas de cinema) quando as cortinas do palco se abrem.

O filme então volta no tempo (até demais) para contar a juventude, não somente de Selena, mas de seu pai (!), Abraham Quintanilla que, mais tarde, será interpretado pelo veterano Edward James Olmos (que voltou a interpretar o pai de Jennifer Lopez vinte e nove anos depois na comédia romântica “Paixão de Escritório”): Abraham sonhava em fazer sucesso como cantor num conjunto musical, no entanto, o forte preconceito norte-americano com descendentes de mexicanos lhe podou esse sonho, que ele terminou transferindo para os três filhos pequenos que ele, desde muito cedo, incentivou a formarem uma banda.

Eram o menino A.B., no contrabaixo, a menina Suzette, na bateria, e a caçula, Selena (vivida pela jovem Rebecca Lee Meza) no vocal. Apesar dessa ser claramente uma vontade mais de seu pai do que deles, logo, as crianças (sobretudo, Selena) adquiriram o gosto pelas apresentações musicais – que ocorriam principalmente no restaurante que Abraham mais tarde comprou.

Com a chegada da juventude (e dos anos 1980), e já ostentando o nome “Selena Y Los Dinos”, eles passaram a se apresentar em parques de diversões, rodeios e outros eventos, arrebanhando, ao longo de uma década, cada vez mais fãs e admiradores, todos capturados pelo magnetismo e pela presença de palco sem igual de Selena que, crescida, converteu-se não somente numa talentosíssima cantora, mas também numa linda mulher.

As apresentações da banda terminam por leva-los ao México, onde Selena é desafiada a cantar músicas mexicanas perante plateias que falavam mexicano legítimo, e é por lá que ela inicia sua meteórica trajetória como a “Rainha da Música Trejana”, já retornando aos EUA como uma estrela ante o olhar do público latino. Na vida afetiva, Selena se apaixona pelo guitarrista Chris Perez (o inexpressivo Jon Seda, de “O Pagamento Final”) com quem se envolve e se casa a despeito da inicial objeção paterna.

Seu amargo desfecho chega após a consagração no Grammy (de onde Selena saiu com o prêmio de Melhor Álbum Mexicano/Americano e um contrato para um álbum em inglês que jamais viu concluído) quando ela é baleada e morta por Yolanda Saldívar (Lupe Ontiveros, de “Os Goonies” e “Melhor É Impossível”), chefe de seu fã-clube e ex-gerente de sua franquia de butiques, “Selena Etc.”.

Lançado em 1997, “Selena”, o filme, foi realizado com um intervalo notadamente curto de tempo em relação à morte da cantora – ocorrida em 1995, dois anos antes do filme – por isso, seu sentimento de pesar é quase transbordante. Por mais protagonista e onipresente em cena que seja Selena, parece que nunca estamos com ela tempo suficiente, seja pela profunda sensação de perda que o filme nos passa (foi produzido pelo próprio Abraham, pai e empresário dela, o que confere um tom deliberadamente solene), seja pelo encanto sem igual que Jennifer Lopez consegue evocar com sua presença.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Vingadores - Ultimato Encore


 Com a iminência do lançamento de “Vingadores-Doomsday” nas salas de cinema de todo o mundo, a Marvel Studios almejou mais uma vez um daqueles eventos que, de tempos em tempos, eles são capazes de articular na cultura pop. Desta vez, a ideia foi relançar nos cinemas seu maior sucesso “Vingadores-Ultimato” – que, no ano de 2019, sagrou-se como uma das maiores bilheterias de todos os tempos – acrescido de cenas novas que, de acordo com o produtor Kevin Feige, estabelecem uma conexão narrativa entre os eventos de “Ultimato” (que se encarregou de encerrar a chamada “Saga do Infinito”) e os eventos do vindouro “Doomsday” (que se encarregará de encerrar a chamada “Saga do Multiverso”).

Não vou, aqui, trazer de volta uma descrição de toda a trama de “Vingadores-Ultimato”, até porque já fiz isso na resenha que ele recebeu na época, mas vou apontar as cenas extras que são, sim, a grande justificativa para o relançamento em cinema. Em primeiro lugar é preciso fazer uma advertência: Caso você seja um daqueles expectadores que vai ao cinema na expectativa de uma nova experiência, com novidades e surpresas à todo o momento, cuidado! Este é exatamente o mesmo “Vingadores-Ultimato” que tantas e tantas pessoas já viram, sem tirar nem pôr (e com as mesmas extensas três horas de duração!), as novidades ficam por conta de alguns segundos na cena final, de duas cenas pós-créditos (o “Ultimato” original não possuía nenhuma) e de um breve relance ao fim – tudo isso totaliza pouco mais que três minutos de material inédito.

Para alguns isso está longe de bastar e, se você é uma dessas pessoas, nem perca seu tempo assistindo “Encore”.

A primeira novidade de “Encore” surge justamente na cena final, a sequência em que Steve Rogers (Chris Evans) aparece dançando com Peggy Carter (Hayley Atwell). Nos segundos que prolongam a cena, ouvimos alguém bater à porta, é Loki (Tom Hiddleston), saído diretamente de sua própria série, inclusive com o uniforme de agente da AVT (Autoridade de Variância Temporal) – não fica claro em qual momento das duas temporadas da série esta sequência pode ter transcorrido – Loki diz à Peggy e à Steve que está lá para ajuda-los, e a cena acaba.

Vem então a primeira cena pós-créditos, mostrando Bruce Banner (Mark Ruffalo) no que parece ser uma espécie de bunker subterrâneo a muitos metros debaixo da terra. Diante de uma câmera, Banner afirma que teve seu primeiro incidente envolvendo o Hulk em uma década (referindo-se provavelmente aos eventos ocorridos em “Homem-Aranha Um Novo Dia”) e que está lá para tentar, mais uma vez, encontrar uma cura. Surge então uma voz misteriosa com sotaque do leste europeu (possivelmente o Dr. Destino, vivido por Robert Downey Jr.), e então Banner desaparece deixando no local uma energia esverdeada em forma de runas, indícios do uso de magia.

A segunda cena pós-créditos se sucede nas dependências da própria AVT, supostamente após os eventos da segunda temporada de “Loki”. Ali vemos Mobius (Owen Wilson), Ouroboros (Ke Huy Quan) e os demais funcionários às voltas com uma inesperada incursão (quando dois universos diferentes colidem entre si, aniquilando-se), são a Terra-100005 (dos filmes dos X-Men da antiga 20th Century Fox Studios) e a Terra-1127. Em seguida, uma sucessão vertiginosa de outras incursões começa a ocorrer nos monitores, mostrando a destruição de centenas, milhares de realidades.

“O Multiverso está entrando em colapso!” afirma Ouroboros.

A última mudança de “Encore” está lá no fim dos créditos. No “Ultimato” original, os últimos segundos dos créditos finais traziam apenas um efeito sonoro de um martelo moldando ferro, uma homenagem ao primeiro “Homem de Ferro”, de 2008, o filme que deu o pontapé inicial ao Universo Marvel Cinematográfico, evocando o já clássico momento em que Tony Stark (interpretado por Robert Downey Jr.) finalmente forja a máscara do Homem de Ferro. Em “Encore”, o mesmo efeito sonoro se repete, mas, desta vez, com a adição de rápidos flashes mostrando a máscara não do herói Homem de Ferro, mas do vilão Victor Von Doom, o antagonista do ainda vindouro “Vingadores-Doomsday” (e que, numa manobra quase metalinguística, curiosa para uns, estranha para outros, vem a ser também interpretado por Robert Downey Jr.).

Levantando deliberadamente mais perguntas do que respostas, este “Vingadores-Ultimato Encore” cumpre seu papel de aguçar o interesse do público e criar uma ponte entre os filmes já consagrados junto aos fãs da Marvel e seu próximo evento cinematográfico, “Doomsday”, que promete preencher todas as lacunas deixadas quando estrear nos cinemas, em 18 de dezembro de 2026.

sábado, 19 de setembro de 2026

O Fim da Rua


 Num primeiro momento, os indícios em torno do filme “O Fim da Rua” – ou “The End Of Oak Street”, no original – não eram animadores: O trailer parecia convencional e genérico (fruto de um péssimo desempenho da equipe de marketing), o seu produtor creditado era J.J. Abrahams (cujo último trabalho em cinema foi dirigindo a atrocidade “Star Wars-A Ascensão Skywalker”), sem falar de uma, digamos, defasagem sofrida pelo tema “dinossauros” aos olhos do público após os filmes um tanto irregulares e medíocres da franquia “Jurassic World”. Mas, havia um detalhe despercebido: A direção e o roteiro estavam à cargo de David Robert Mitchell, realizador vindo das fileiras de filmes independentes e autor de algumas pérolas do gênero terror, entre elas o notável “A Corrente do Mal”. E eis que esse é um detalhe que fez toda a diferença.

Ambientado nos anos 1980 (mais precisamente julho de 1982), “O Fim da Rua” acompanha a Família Platt, formada pela mãe, Denise (Anne Hathaway), o pai, Gregg (o sempre eficaz Ewan McGregor), e os filhos, a jovem Audrey (Maisy Stella), e o adolescente Brian (Christian Convery, de “O Urso do Pó Branco”). Os primeiros minutos de filme serve maravilhosamente a uma construção minuciosa de personagens que já não é mais tão usual ao preguiçoso cinema comercial de hoje em dia: Denise foge das frustrações domésticas dedicando-se à uma atividade de escrito de esconde de todos os seus familiares; e Gregg, que não contou a ninguém que perdeu o emprego à algumas semanas, busca compensar isso fazendo bicos de entregador de pizza. São moradores de um bairro norte-americano absolutamente normal de subúrbio com suas casas lado a lado das residências de outros vizinhos. Numa noite, entretanto, a normalidade vira de pernas pro ar: Após uma súbito clarão branco, e uma estranha mudança na impressão das coisas – a chuva que caia simplesmente desaparece e alguns deles sentem seus ouvidos estalando (sinal de uma alteração na pressão atmosférica) – eles descobrem, no outro dia, que a vizinhança conta agora que alguns animais bastante ameaçadores: Seres pré-históricos, dinossauros que existiram na Terra há milhões de anos atrás.

Logo, eles descobrem que não são os dinossauros que estão no tempo errado: De alguma forma, todo o perímetro que envolve o bairro inteiro foi transportado para a Pré-História!

O traquejo do diretor Mitchell em trabalhar o terror e a tensão veem bem a calhar: A sensação de urgência e de perigo que ele consegue imprimir à narrativa devem muito ao Steven Spielberg da década de 1980 e de 1990 (vide, óbvio, “Jurassic Park”) – os excelentes efeito visuais que materializam os dinossauros trazem uma interessante realidade animal, e tal qual o realizador de “Tubarão”, Mitchell emprega essas ferramentas digitais com criatividade e inteligência, sabendo explorar a sugestão, embora Spielberg dificilmente fosse criar cenas de tão elevado teor sangrento como ele faz em alguns momentos de ataques de dinossauros. O recado é dado e permeia todo o filme: Ninguém está seguro, nem mesmo os personagens principais!

“O Fim da Rua”, portanto, ao moldar uma premissa que mais parece um episódio de “Além da Imaginação” com tanto fervor, autenticidade e competência em praticamente todas as suas áreas (Anne Hathaway, particularmente, está ótima e vivendo um 2026 impressionante!), acaba irmanando-se àquelas aventuras escapistas, mas nem por isso menos sensacionais que abrilhantavam as telas da década de 1980.

Talvez, a melhor surpresa do ano.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O Menino Que Queria Ser Rei


 Depois do ótimo desempenho de público e crítica de “Ataque Ao Prédio”, lançado em 2011, o diretor Joe Cornish adquiriu o que se costuma chamar de “benção do projeto seguinte”: Liberdade criativa total para tocar a ideia que lhe viesse à cabeça e o aval de sua produtora (a britânica Working Title, no caso) para um orçamento mais polpudo. O trabalho que ele concebeu tinha muitas características já notadas em “Ataque...”: Um conceito de fantasia (a remeter obras dos anos 1980), uma roupagem juvenil sem, no entanto, abrir mão de certo discernimento autoral e, neste caso em específico, uma proposta inglesa até a medula. Afinal de contas, o épico cult “Excalibur” (dos anos 1980, aliás, perceba o padrão!) é uma das produções favoritas de diversos outros cineastas, vide Zack Snyder, que acrescentou inúmeras referências ao filme de John Boorman em seu “Batman Vs Superman”.

Pois, em muitos momentos, “The Kid Who Would Be King” é quase uma declaração de amor à “Excalibur” e à lenda arturiana dos cavaleiros da Távola Redonda; em outros, ele é quase uma colagem desengonçada e cara de pau...

O protagonista Alex (Louis George Serkis, de “Extermínio-O Templo dos Ossos”, filho de Andy Serkis) é um jovem meio nerd daqueles que invariavelmente acabam protagonizando aventuras ao estilo oitentista – é vítima de bullying no colégio, mas ainda conserva um coração valoroso, justo e disposto a ajudar os fracos e oprimidos, que neste caso costuma ser, quase todos os dias, seu melhor amigo, Bedivere (Dean Chaumoo), afrontado pelos valentões escolares Lance (Tom Taylor, de “A Torre Negra”) e Kay (Rhianna Dorris).

Vivendo só com a mãe (Denise Gough, da série “Andor”), Alex sabe muito pouco a respeito do pai que nem chegou a conhecer – as pistas mais significativas parecem ser as deixadas num livro antigo para crianças que conta justamente a lenda do Rei Arthur e de sua espada mágica Excalibur. Por meio do livro, Alex descobre (e nós também, como público) que a inimiga jurada de Arthur, sua meia-irmã Morgana Le Fey (Rebecca Ferguson, pouco aproveitada como poderia ter sido) foi confinada pelo mago Merlin e pelos Cavaleiros da Távola Redonda num sepulcro subterrâneo, de onde, seus poderes, na atualidade, logo haverão de retirá-la.

É quando a própria espada Excalibur se apresenta para Alex, como o escolhido, e ele conhece um garoto com uns parafusos a menos, na realidade, o mago Merlin disfarçado (o jovem e histriônico Angus Imrie, de “Mickey 17”) que, como é seu papel, haverá de guiar esse novo escolhido no embate contra Morgana e suas forças maléficas.

E a situação é mais ou menos assim: Ao longo de quatro dias, um eclipse solar permitirá que Morgana e seus lacaios (soldados esqueléticos em chamas) invadam a Inglaterra e o mundo, até lá, eles só podem fazê-lo à noite, quando apenas Alex e seus companheiros terão o poder de enxerga-los. Instruído por Merlin (que ocasionalmente consegue assumir sua forma real, na qual é interpretado por Patrick Stewart), Alex deve primeiro encontrar seus cavaleiros – que, além de Bedivere, vem a ser também Lance (cujo antagonismo evoca a mesma intriga que havia entre Arthur e Lancelot) e Kay – e depois, descobrir, na qualidade de escolhido, o caminho para eliminar Morgana.

O que Joe Cornish almejou com esta produção foi resgatar a história do Rei Arthur com uma roupagem modernista de um “Harry Potter” – não à toa, todas essas referências pop, e muitas outras, são constantemente feitas – aproveitando com proximidade quase que constrangedora os elementos (visuais inclusive) que se mostraram marcantes em “Excalibur” – temos, por exemplo, os reflexos esverdeados nas aparições da espada Excalibur, o mesmo registro visual conferido à Dama do Lago, elementos estéticos praticamente decalcados nas armaduras medievais que os protagonistas usam de um ponto em diante, e basicamente todos os tópicos de roteiro na narrativa do épico ressurgem aqui, embalados num viés de escapismo juvenil – todo esse esforço não é, nem de longe, o suficiente para tornar “The Kid Who Would Be King” o mesmo filme estupendo que é “Excalibur”. O diretor Joe Cornish não se mostra tão inspirado quanto em “Ataque Ao Prédio”, e suas recriações de alguns dos eventos da trama arturiana carecem de empolgação e ritmo, sem falar de dois clímax sem muita razão de ser que prejudicam o andamento e tornam o resultado ainda mais enfadonho, além de fazer o filme ficar longo demais para a proposta descompromissada que aparentava ter.