domingo, 28 de junho de 2026

Licorice Pizza


 O termo “Licorice Pizza” – traduzido do inglês, Pizza de Alcaçuz! – é o nome de uma rede de lojas antigas que vendiam discos de vinil, em referência ao fato de que o formato do vinil, em si, lembrava uma pizza, isso lá nos EUA dos anos 1970 (época e ambientação do filme) um gatilho emocional e nostálgico para seu realizador, daí a dica: Estamos diante de um filme profundamente pessoal para seu diretor, roteirista e produtor Paul Thomas Anderson, no qual ele evoca, com irreprimível e contagiante emoção, lembranças de sua própria juventude, somadas às outras memórias, extraídas por sua vez das experiências do grande amigo Gary Goetzman, produtor de cinema e ex-ator mirim (estrelou a versão original de “Os Seus, Os Meus e Os Nossos”).

Muito tem se falado de uma vertente recente de cinema no qual grandes cineastas revisitam seu passado, como no caso de Spielberg (“Os Fabelmans”), Kenneth Branagh (“Belfast”) ou James Gray (“Armageddon Time”), no entanto, filmes de perfil autobiográfico estão aí desde os tempo de Fellini e seu “Amarcord”, vide as obras de John Boorman (“Esperança e Glória”) e Woody Allen (“A Era do Rádio”), só para citar alguns.

“Licorice Pizza” acompanha os percalços do amor experimentado por Gary Valentine (Cooper Hoffman, de “A Longa Marcha”, filho do ator Phillip Seymour Hoffman), a partir do momento em que ele avista Alana Kane (a premiada cantora Alana Haim) numa fila para fotos do anuário estudantil – Alana é uma das muitas jovens trabalhando como assistente de fotografia.

Como sempre (apesar do entusiasmo e da auto-confiança do jovem), há empecilhos para o romance: Ele tem apenas 15 anos; ela tem 25. Ele vem de uma família liberal (sua mãe aprova e incentiva muitas das ideias até mirabolantes do filho); ela vem de uma família de judeus conservadores (as irmãs e os pais de Alana Kane na vida real, inclusive, aparecem interpretando a família de sua personagem no filme).  Ele é um jovem ator numa fase incerta da carreira – as oportunidades como ator minguam à sombra de sua puberdade enquanto cresce nele uma disposição para o empreendedorismo – ela se encontra ainda na indecisão da juventude (seja essa indecisão afetiva ou profissional) e as ironias turbulentas dos anos 1970 não ajudam em nada.

Apesar disso, uma química e uma sintonia inconteste se estabelece entre os dois. Sem levar muito o garoto a sério, Alana o acompanha até Nova York, numa apresentação – onde chega a flertar com o colega um pouco mais velho Lance (Skyler Gisondo, de “Superman” e "O Dilema das Redes"). Eles passam a trabalhar juntos em projetos que o ambicioso Gary vai tocando ao sabor dos improvisos e dos acontecimentos: Ele se torna vendedor de colchões d’água; ela tenta carreira como atriz. Duas cenas notáveis: Numa, Alana e Gary fazem ciúme um no outro, enquanto ela usufrui da companhia do ator veterano Jack Holden (Sean Penn, cujo “Picardias Estudantis” foi uma inspiração declarada para este filme) e do produtor pinel vivido por Tom Waits; Na outra, Gary, Alana e uma equipe de pessoas de confiança vão instalar um colchão d’água na mansão de um alardeado produtor hollywoodiano (Bradley Cooper, fazendo uma caricatura aloprada do produtor Jon Peters), e envolvem-se numa série de confusões relacionadas ao Embargo do Petróleo, que encareceu e escasseou o combustível de veículos naqueles idos dos anos 1970.

No terço final, Alana torna-se voluntária na campanha para prefeito de Los Angeles do vereador Joel Wachs (o diretor Benny Safdie), enquanto Gary abre uma loja de fliperamas inspirado pela súbita legalização dessas máquinas no estado da Califórnia.

Todos esses percalços, entretanto, não passam de idas e vindas extremamente divertidas, às vezes tocantes, entre o amor de Gary e Alana que nunca encontra meios de se expressar harmoniosamente em meio à esses contratempos.

Primoroso, como costuma ser cada trabalho na filmografia de Paul Thomas Anderson, “Licorice Pizza” é exemplar na construção inspirada de suas cenas, no desenvolvimento quase hipnótico de seus personagens e na recriação assombrosa de uma Los Angeles setentista em ebulição, seja na direção de arte (irrepreensível), nos figurinos ou na trilha sonora.

Uma jóia preciosa.

sábado, 27 de junho de 2026

Toy Story 5


 A franquia que por razões ora mercadológicas, ora afetivas, nem a Pixar nem a Disney conseguem deixar de lado, está de volta. Isso depois de um desfecho (em “Toy Story 4”) que parecia encerrar em definitivo a história dos brinquedos que ganham vida quando os humanos não estão olhando.

Agora, com o protagonismo transferido de Woody e Buzz Lightyear (que ainda são importantes ao plot, não tenha dúvidas) para a vaqueira Jessie (a exemplo do que já havia sido experimentado com sucesso no curta-metragem “Toy Story de Terror”), encontramos Bonnie, a dona dos brinquedos desde “Toy Story 3”, um pouco mais crescida, com cerca de seus oito anos de idade. Bonnie encontra obstáculos em fazer amigos entre as outras crianças das redondezas por uma razão peculiar: Bonnie é daquelas crianças à moda antiga, ou seja, gosta de brincar com brinquedos, diferente das outras que agora, descoladas, têm todas um tablet para lhes prender a atenção.

É a tecnologia e o chamado tempo de tela (uma pauta que tem preocupado muito os pais e os especialistas) finalmente entrando num assunto de discussão dentro da franquia.

A fim de ajudar Bonnie a socializar, os pais lhe compram um tablet do momento, Lillypad (voz de Greta Lee, de “Vidas Passadas”) que rapidamente captura por inteiro a atenção da criança – outrora sempre a brincar com Jessie e os outros, agora, Bonnie passa as horas do dia vidrada na tela do aplicativo.

É assim que Jessie, Buzz e os demais brinquedos recorrem à Woody, que agora atua como um salvador de brinquedos perdidos ao lado da destemida Betty – cada vez mais e mais brinquedos são deixados de lado por conta do acesso dos pequenos à tecnologia.

Entretanto, a verdadeira saída para resolver os problemas de Bonnie é encontrar para ela uma amiguinha que compartilhe de suas mesmas afinidades – ou seja, que também goste de brincar com brinquedos – e, ao compreender isso instintivamente, Jessie embarca numa jornada que irá leva-la a rever momentos de seu passado traumático (mostrados em “Toy Story 2”) quando foi abandonada por sua primeira criança  quando esta cresceu.

Há ainda uma divertida trama paralela, na qual acompanhamos um grupo numeroso de astronautas de brinquedo, todos da linha de Buzz Lightyear, que despertam quando suas caixas abrem após o naufrágio do contêiner onde todos eram transportados. Tal e qual o Buzz original no primeiro “Toy Story”, todos eles acreditam ser patrulheiros espaciais legítimos (!), e seguem os indícios que creem leva-los até o Comando Estelar – e que acabam fazendo-os cruzar com os protagonistas de modo um tanto engraçado.

Dirigido pelo veterano Andrew Stanton (realizador de “Procurando Nemo” e “Wall-E”), “Toy Story 5” foi um projeto no qual a Pixar não mediu esforços para que se revelasse pertinente e necessário para muito além das questões financeiras (os últimos lançamentos da Pixar e da Disney como um todo andaram deixando a desejar nas bilheterias). Assim, sem demonizar ou vilanizar a tecnologia (afinal, foi a tecnologia quem permitiu a concretização de todas as obras feitas em Computação Gráfica da Pixar Studios), os realizadores expõe as circunstâncias nas quais as telas e os aplicativos parecem, de alguma forma, acelerar o processo de infância dos pequenos, levando-os a se afastar precocemente do mundo imaginativo oferecido pelos brinquedos. Essa reflexão ganha contornos emocionais ainda mais profundos, graças aos seus personagens, conhecidos de longa data do expectador – a franquia “Toy Story”, iniciada em 1995, afinal, evoluiu junto com a Computação Gráfica no cinema, aliás, o seu público infantil cresceu junto com ela. O que nos permite, neste quinto filme, enxergar os personagens de Jessie, Woody e Buzz como alegorias dos próprios pais: Estão sempre próximos às crianças, querem o melhor para elas e sofrem, lá no fundo, ao perceber que crescendo um pouquinho, dia a dia, deixam de ser crianças.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Jubiabá


 Da filmografia de Nelson Pereira dos Santos, agora sendo restaurada num esforço de preservação da Labo Cine através do Programa Petrobrás Cultural, “Jubiabá” é um exemplar tímido diante de suas mais consagradas realizações. Adaptado da obra de Jorge Amado (e contando com o próprio em meio ao seu time de roteiristas), “Jubiabá” não escapa do tom novelesco que prevalece em inúmeras de suas passagens, e nem é uma obra que prima tanto pelo fôlego narrativo, uma vez que, nota-se, é pontuada por sequências convencionais, corriqueiras e redundantes.

Na Bahia, ainda pequeno, o negro Antônio Balduíno, apelidado por todos de Baldo (vivido então pelo pequeno Antônio José Santana), testemunha a própria tia (Ruth de Souza) que o criava sofrer um surto de loucura; segundo alguns, devido ao enorme peso sobre sua cabeça da imensa bandeja que levava para trabalhar todos os dias e todas as noites. Órfão, Baldo fica sob os cuidados de seu avô, o pai de santo Jubiabá (Grande Otelo) que sabe, mais do que ninguém, que não leva jeito algum para criar uma criança. Assim, ele entrega Baldo para ser criado por uma família abastada da vizinhança, os Ferreira nos anos seguintes, Jubiabá passará a exercer, quando muito, mais um papel de mentor espiritual e existencial para ele.

Conforme vai crescendo, Baldo até que consegue uma certa aceitação do pai da família, o Comendador Ferreira (Raymond Pellegrin), entretanto, ele se enrabicha pela jovem filha dele, Lindinalva (interpretada, na fase criança, por Tatiana Issa, que mais tarde se tornaria diretora de documentários), enquanto consegue o ódio e a desaprovação da empregada da família, a rancorosa Amélie (Catherine Rouvel). É ela quem denuncia para o Comendador as segundas intenções de Baldo, levando-o a ser expulso da casa. O restante de sua juventude, Baldo viverá nas ruas de Salvador ao lado do amiguinho Gordo (Romeu Evaristo), com quem aprenderá a cometer crimes e a entrar em constante atrito com a polícia –irritadiço e de pavio curto, Baldo bate de frente com os policiais, sobretudo, os mais intratáveis, o que lhe garante sucessivas idas para a cadeia local.

Mais adulto (agora interpretado por Charles Baiano), Baldo conhece Luigi (Julien Guiomar), empreendedor, mais sonhador do que prático, que percebe sua desenvoltura para brigar e o coloca para disputar lutas de boxe. Entre surras e vitórias, Baldo arruma problemas quando se recusa a contribuir com o sistema corrupto não se deixando subornar numa luta comprada.

Enquanto isso, a situação da família de Lindinalva (agora vivida pela atriz francesa Françoise Goussard, com uma pavorosa dublagem brasileira!) não vai nada bem. Afogado em dívidas (as quais, em dado momento, lhe obrigam a vender a casa) o Comendador acaba tirando a própria vida dentro do bordel de Madame Zaira (Betty Faria, também ela produtora do filme), e é para o bordel de Madame Zaira que a própria Lindinalva terá de ir, a fim de continuar sobrevivendo, desta vez, sem o pai.

Ao deixar o mundo do boxe, Baldo segue trilhando o caminho artístico sugerido por Luigi e se torna o homem forte do circo, onde conhece e se envolve com Rozenda, personagem de Zezé Motta.

Num recurso que a direção de Nelson Pereira sempre insiste em manter, em todos os romances que tanto Baldo, quanto Lindinalva, vivenciam ao longo da juventude e da vida adulta (sejam eles fortuitos ou um pouco mais duradouros), ambos só conseguem dar continuidade ao imaginar um ao outro no lugar de seus parceiros; é como se para Baldo só existisse Lindinalva e para Lindinalva só existisse Baldo –ainda que eles nunca tenham conseguido, de fato, se envolver.

Uma nova tragédia –desta vez, a morte de Luigi que encerra sua vida numa noite em que, bêbado, tenta reencenar um número no trapézio, o mesmo onde anos antes perdeu a amada –afasta em definitivo Baldo do mundo do circo. Ele volta a morar nas proximidades de Jubiabá e de seu terreiro de umbanda, trabalhando como estivador no cais do porto quando os trabalhadores braçais tentam, à duras penas, organizar uma greve.

É nessas condições que Baldo reencontra Lindinalva agora com um filho pequeno e padecendo de severos males físicos e mentais, consequentes da vida que levou.

À sua maneira ácida e poética, o texto de Jorge Amado, em conjugação com a direção dramaticamente contundente de Nelson Pereira dos Santos estabelece uma trajetória na qual seu personagem principal descobre (de uma maneira um tanto torta) as três emoções mais básicas do ser humano: A magia do aprendizado; a descoberta do amor; e a conscientização política.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Memory


 Nesta sua primeira colaboração com a estrela Jessica Chastain, o diretor mexicano Michel Franco conta, à sua maneira, uma história de amor, contudo, nem um pouco adornada do romantismo com o qual estamos acostumados –Franco conta a história de seus personagens atento às arestas de crítica social, às nuances de uma dramaturgia corrosiva e à uma narrativa que privilegia o senso naturalista ante qualquer idealização cinematográfica, e na grande maioria dos projetos que encabeçou, Jessica Chastain, de fato, sempre buscou mais expressões autorais, e menos comerciais, em suas empreitadas interpretativas.

Aqui, ela vive Sylvia, uma mulher suburbana, encarregada de um subemprego numa casa de cuidados especiais. Ela luta para criar a filha, Ana (Brooke Timber, do seriado “Boneca Russa”) e manter-se firme nas reuniões do A.A. (em meio a uma das quais o filme começa) para afastar-se do alcoolismo que quase a consumiu na juventude.

Sem quase nenhum traquejo social (cujas razões compreenderemos aos poucos), Sylvia é chamada pela irmã mais nova, Olivia (Merritt Wever, de “A História de Um Casamento”) para uma festa de reunião dos ex-estudantes da escola Woodbury, onde ambas estudaram, no entanto, Sylvia não poderia se sentir mais deslocada: Ela não é capaz de partilhar dos momentos festivos, sempre a envolver bebidas alcóolicas, e os poucos que a conhecem se constrangem com sua presença. Ao sair de lá, Sylvia é seguida por alguém que inicialmente não sabemos de quem se trata: Um estranho que a acompanha de longe até a porta de sua casa.

No outro dia, o estranho ainda está lá (?), e ela acaba chamando alguém para vir buscá-lo.

Pouco a pouco, vamos descobrindo de quem se trata: Ele se chama Saul Shapiro (Peter Sarsgaard, em inspirada atuação) e é portador de demência leve. Ele tem memórias nítidas de sua vida passada, de quando era casado, até então enviuvar, mas sua mente não conserva com perfeição memórias novas, perdendo-se com muita facilidade.

Inicialmente, Sylvia recusa a proposta do irmão dele, Isaac (Josh Charles, de “Sociedade dos Poetas Mortos”) para ser cuidadora de Saul, acreditando que, quando jovens, ele foi um dos tantos que se aproveitou do alcoolismo dela para abusá-la. No entanto, quando descobre que Saul é inocente, Sylvia volta atrás, e passa a tomar conta dele todos os dias.

A medida que o tempo vai passando, Sylvia e Saul conseguem impactar na vida um do outro e um vínculo mais forte e improvável começa a se formar.

É curiosa a forma com que o estilo do diretor Franco muda radicalmente as impressões do filme; tivesse algum outro diretor, este “Memory” seria uma obra agridoce, melodramática e muito provavelmente romântica: Sob a batuta de Michel Franco, contudo, “Memory” é uma obra enxuta, sucinta e sólida na qual os meandros de uma relação a dois vão surgindo em minimalismos cotidianos, sem qualquer enfeite ou ênfase. Se isso por um lado remove completamente o filme do gênero romance ao qual poderia pertencer, por outro, ele confere uma cadência realista aos acontecimentos a ponto de não oferecer ao expectador muitas certezas acerca do rumo que o enredo haverá de tomar.

Nesta realização um bocado modesta e válida, as únicas impressões estranhas ficam por conta da própria Jessica Chastain: Ela está maravilhosa como sempre, não me entendam mal (e foi ela mesma quem recomendou ao diretor Franco a excelente escolha de Peter Sarsgaard para o papel), contudo, tão magnética, atrativa e bela que é, ela não convence como uma mãe solteira moradora do subúrbio sem muitas opções na vida a não ser envolver-se com um homem de meia-idade portador de demência.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O Chamado


 Lançado em 2002, pegando o gancho comercial de “O Sexto Sentido”, de 1999, que havia despertado no público o interesse por tramas macabras, sobrenaturais e pontuadas por guinadas surpreendentes, “O Chamado” atreveu-se a refilmar “Ringu”, de Hideo Nakata, que por sua vez tratava-se da adaptação de um mangá (quadrinho japonês) de terror da autoria de Koji Suzuki.

A década de 1990, no Japão, havia sido prolífica para que realizadores de cinema explorassem o medo por meio de uma emergente tecnologia que mudava irreversivelmente a vida e os relacionamentos modernos –o advento da internet e da telefonia móvel com os celulares –com isso, os japoneses observaram, antes de todo mundo, o viés pessimista até mesmo fatalista, que esses elementos poderiam acarretar como a alienação, o isolamento e a insegurança. Surgiram daí obras como as produções perpetradas por Kiyoshi Kurosawa, “Cure” e “Kairo” (este também refilmado nos EUA, como “Pulse”), e “Uma Chamada Perdida” (o original de Takashi Miike, sobre um celular amaldiçoado, também depois refilmado). Com “O Chamado”, Hollywood importou para os EUA essas inquietações que, concretizadas em bons e eficientes filmes, faziam sucesso no Japão e começavam a gerar cultuadores em todo o mundo.

Dirigido por Gore Verbinski (festejado diretor vindo da publicidade que viria a dirigir a primeira trilogia de filmes de “Piratas do Caribe”), “O Chamado” –ou “The Ring” –soube substituir o contexto japonês pelo norte-americano com uma sucessão de boas ideias e escolhas felizes que fizeram do projeto uma produção certeira e bem calibrada.

Na cidade de Seatle (ambientação norte-americana que substitui com exatidão apropriada os subúrbios de clima chuvoso do filme japonês), a jornalista Rachel Keller (a bela Naomi Watts, então recém-revelada no espetacular “Cidade dos Sonhos”) descobre durante o funeral de sua sobrinha um mistério que desperta sua curiosidade profissional: Uma adolescente saudável que morreu sem explicações dentro do próprio quarto.

Rachel descobre que não apenas sua sobrinha, mas outras três amigas também morreram misteriosamente, segundo constam os boatos, após assistir uma fita de VHS misteriosa cujo conteúdo ninguém sabe. Uma lenda urbana: Muitos afirmam à ela que toda pessoa que assistir tal fita morrerá em uma semana.

É claro que, em suas investigações, Rachel não irá demorar para encontrar a tal fita amaldiçoada e assisti-la –em princípio, uma série de estranha imagens que não parecem fazer sentido algum –e, no decorrer dos sete dias antes que a maldição se concretize (a estrutura básica da narrativa) ela tentará elucidar o mistério, descobrir de onde a fita vem, como surgiu, porque deflagra tal maldição aos incautos que têm acesso à ela e, o mais importante, procurar encontrar um meio de neutralizar seu efeito e tentar sobreviver.

Nesse percurso sombrio, onde desdobramentos inesperados ocorrem –não só seu ex-esposo (Martin Henderson) assiste a fita logo depois como também, inadvertidamente, o seu filho pequeno de sete anos, Aidan (David Dorfman, de “O Massacre da Serra Elétrica”), tornando a investigação ainda mais urgente e pessoal –Rachel se depara com a sinistra história de Samara (Daveigh Chase, de “Donnie Darko”), uma jovem paranormal morta décadas antes, diretamente relacionada à essa maldição.

Bem dirigido, bem interpretado e roteirizado com relativa satisfação (salvo algumas alterações microscópicas relacionadas à bem-amarrada trama principal), este remake norte-americano se sobressai em relação ao original japonês graças à direção sofisticada de Gore Verbinski, em comparação ao trabalho de Hideo Nakata, demasiadamente fiel aos expedientes do terror japonês dos anos 1990 (“Ringu” é de 1998).

terça-feira, 23 de junho de 2026

Obsessão


 Não confundir este filme de terror de 2026 com “The Paperboy”, filme de Lee Daniels, com Nicole Kidman, que no Brasil foi distribuído com esse mesmo título nacional.

Dirigido por Curry Barker, um youtuber norte-americano conhecido por um canal de esquetes de comédia, “Obsessão” é um título que soma-se à safra de surpreendentes e excelentes filmes de terror que o cinema norte-americano (em especial, o cinema independente) tem entregado nos últimos anos. Sua compreensão do macabro embutido nos expedientes narrativos do gênero, bem como a precisão em conceber esses conceitos por meio de um prisma de comentário sócio-comportamental, é algo sensacional.

Em princípio, “Obsessão” parte de um pretexto que, inserido em outros gêneros (como romance ou comédia romântica), seria absolutamente inofensivo: Um amor não correspondido.

É o amor que o pra lá de tímido Bear (Michael Johnston) sente a cerca de sete anos pela amiga Nikki (a excelente Inde Navarrette) sem, no entanto, jamais ser capaz de verbalizar. A cena que abre o filme, por sinal, já estabelece todas as notáveis dinâmicas do roteiro – e expõe o talento do diretor Barker: Bear está a ensaiar sua vã tentativa de declarar-se para Nikki, em frente à outra amiga, Sarah (Megan Lawless), ignorante de que é ela, por sua vez, quem tem interesse nele. A ouvi-lo com ares de confidente, está Ian (Cooper Tomlinson, parceiro de Barker em seu canal no Youtube), que também tem lá sua parcela de interesse em Nikki, embora isso não o impeça de ser amigo de Bear. Todos esses quatro personagens – Nikki, Bear, Sarah e Ian – trabalham numa mesma loja de aparelhos musicais. E todos se reúnem no mesmo local para o happy hour, quando, mais uma vez, Bear fracassa em revelar seus sentimentos à Nikki.

Entretanto, numa visita a uma lojinha de produtos exotéricos, ele encontra um certo idem chamado One Wish Willow – consiste de um graveto de salgueiro que pode realizar magicamente o pedido de um usuário que o quebrar ao meio, num feitiço que lembra o mesmo procedimento mostrado no primoroso “A Hora do Mal”.

Sem muito acreditar nessa propaganda, Bear compra o artefato mesmo assim, deseja que Nikki o ame mais que qualquer outra pessoa no mundo, e o quebra. A partir daí uma mudança se opera em Nikki – ainda mais perceptível e impressionante graças ao competente trabalho da atriz. Ela passa a demonstrar um amor avassalador e irreprimível por Bear. Logo, eles estão juntos, morando na mesma casa, dormindo na mesma cama, mas o conto de fadas de Bear não dura muito: Numa continuidade distorcida de seu desejo, o amor de Nikki se torna cada vez mais obcecado – ela não suporta mais suas ausências, ou que ele dê um mínimo de atenção para outras pessoas, e quando estão junto de outros conhecidos, ela simplesmente não consegue parar de fazer juras de amor inconvenientes e fora de hora.

Mais do que expor uma faceta tóxica do amor abusivo que só faz aumentar, o diretor Curry Barker usa dessas circunstâncias para criar cenas que não apenas ilustram as consequências extremas de um pedido atendido em sua totalidade, como também mostra sutilmente a crueldade inerente de uma vontade unilateral – a verdadeira Nikki, aquela que se manifesta em pequenos gestos na atuação quase psicótica de Inde Navarrette, ou cuja voz ouvimos numa cena específica, triste e apavorante, não quer aquela situação, o que faz de Bear, com todas as suas boas intenções amorosas, todo o seu  jeito acanhado, hesitante e tímido, o verdadeiro vilão da história.

Essa observação executada dentro da premissa de terror vem adornada, em muitos momentos, com um senso de humor aguçado e perverso (uma das especialidades do diretor), e sequências primordiais que oscilam entre o constrangedor, o palpitante e o assustador, mas ele não deixa de galgar os acontecimentos em direção a uma série de desenlaces que elevam brutalmente o teor de barbárie à que “Obsessão” é capaz de chegar, tendo em vista que vimos todo o enredo começar com um singelo amor não correspondido.

O filme de Curry Barker não poupa nada nem ninguém em seu arremate sangrento, violento e impiedoso das consequências terríveis que podem surgir de um desejo egoísta cujos anseios não levam em conta o livre arbítrio das pessoas ao redor.

domingo, 21 de junho de 2026

Imperdoável


 Produzido pela Netflix (assim como “Bird Box”, outro grande sucesso estrelado por Sandra Bullock), “Imperdoável” –ou “Unforgivable” é adaptado da série de TV inglesa, “Unforgiven”, inédita no Brasil, estrelada por Suranne Jones e dirigida por David Evans. De fato, nota-se o quanto o enredo de “Imperdoável” se ramifica em diversos outros personagens atrelados ao drama de sua protagonista, multiplicando suas sub-tramas num recurso que remete mesmo aos expedientes das séries de TV.

Contudo, a opção aqui, apesar desses despercebidos elementos narrativos, é dar uma solidez cinematográfica ao material, e nisso o trabalho da diretora Nora Fingscheidt acaba lembrando muito os contundentes dramas independentes norte-americanos.

Sandra interpreta (e muito bem) a protagonista, Ruth Slater que, quando a trama começa, está saindo da penitenciária na qual permaneceu encarcerada nos últimos vinte anos. Depois de tanto tempo presa, Ruth já não parece ser capaz de funcionar em sociedade. É uma pessoa calada, acuada e introspectiva. E para piorar, além das severas circunstâncias em que precisa se manter durante esse frágil período de liberdade condicional, existem as complicações do crime pelo qual ela foi condenada –do qual inicialmente, não sabemos muito, mas cujos elípticos flashbacks vão, aos poucos, tentando nos esclarecer.

Ruth matou um policial quando tinha vinte anos –um crime ao que tudo indica acidental, todavia, nada disso serve de atenuante para aqueles que se voltam contra ela, por pura simpatia à polícia.

Na árdua tentativa de se readaptar, Ruth vai morar num albergue suburbano, arruma emprego numa fábrica processadora de pescados (o único que ela obtém apesar de possuir referências melhores) e consegue uma segunda ocupação ao ajudar uma OMG na construção de um abrigo para sem-tetos. Enquanto se incumbe dessa rotina, ela recebe ocasionais visitas de seu rigoroso agente da condicional, Vincent Cross (o ótimo Rob Morgan, de “Não Olhe Para Cima” e “Confronto No Pavilhão 99”) e estabelece uma relutante amizade com o colega de trabalho Blake (Jon Bernthal).

Existem ainda os filhos do policial que ela matou, o irascível Keith (Tom Guiry, de “Tigerland-O Caminho da Guerra”) e o retraído Steve (Will Pullen) que eram crianças na ocasião do homicídio –mas que agora, diante da revoltante notícia da liberdade de Ruth, pensam seriamente em planejar um ato de justiça com as próprias mãos.

Há o casal, formado por Vincent D’Onofrio e Viola Davis, novos moradores da casa onde Ruth morou, e dentro da qual se sucedeu o tal crime; sendo advogado, John Ingram (personagem de D’Onofrio) é procurado por Ruth para que encontre meios legais, que não burlem as rígidas regras da condicional, a fim de estabelecer um contato entre Ruth e sua irmã pequena que, desde o nascimento Ruth havia criado, e desde que foi presa nunca mais teve notícias, apesar das milhares de cartas que, nesses anos todos, ela escreveu.

A irmã de Ruth, Katie (Aisling Franciosi, de “Drácula-A Última Viagem do Demeter”), agora com 25 anos, mal lembra dela e vive com seus pais adotivos, Michael e Rachel Malcolm (Richard Thomas, da versão televisiva de “It-A Coisa” e Linda Emond, de “Old Boy” e “Across The Universe”) e com sua irmã Emily (Emma Nelson).

Todos são fios narrativos que, de uma maneira ou de outra, convergem para a trama principal de Ruth, revelando já próximo do final algumas informações surpreendentes que podem alterar a percepção de alguns expectadores sobre muito do que vinha sendo mostrado no filme, ainda que dificilmente isso haveria de dissipar a excelente composição dramática de Sandra Bullock, provando pela enésima vez que é uma atriz muito mais versátil e capaz do que as bem-sucedidas comédias românticas levavam a crer. O filme cresce quando ela está acompanhada por bons parceiros de cena, caso de Rob Morgan, Vincent D’Onofrio, Viola Davis e –vá lá –Jon Bernthal, mas se percebe o ritmo moroso e o andamento desanimado da direção toda a vez que os membros mais frágeis do elenco dão as caras.