quinta-feira, 18 de junho de 2026

Mank


 Na cerimônia do Oscar de 1942, “Cidadão Kane” levou tão somente o Oscar de Melhor Roteiro Original dentre outras nove indicações, e é, em parte, as explicações para esse prêmio que o filme de David Fincher oferece. Ele também dá ao público um panorama curioso do revelo político de uma época (e assim, uma analogia para o revelo político do tempo presente), um vislumbre cheio de propriedade do showbusiness visto por outro ângulo (o de dentro de sua engrenagem criativa) e uma reflexão a um só tempo amarga e agridoce sobre a vaidade em oposição ao talento e ao arrependimento.

Ainda no fim da década de 1930, o roteirista Herman J. Mankiewicz, também conhecido como Mank (Gary Oldman, sempre brilhante) é contratado pelo assim chamado garoto-prodígio de Nova York, Orson Welles (Tom Burke, de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”), a fim de escrever o roteiro para sua aguardadíssima estréia cinematográfica. Mank é enviado pelo taxativo Welles para uma pousada no meio do deserto, aos cuidados da enfermeira Fräulein Frieda (Monika Gossmann), e sobretudo, da jovem secretária britânica Rita Alexander (Lilly Collins), instruída a ajudá-lo na escrita do roteiro –que ele tem menos de noventa dias para concluir! Na ocasião, Mank se vê fisicamente imobilizado na cama –resultado de um acidente automobilístico que sofrera semanas antes –mas, sua maior moléstia é o roteiro em si: Mank quer escrever uma audaciosa biografia disfarçada de William Randolph Hearst, poderoso magnata da imprensa de então, e as consequências desse ato podem ser caras tanto a ele quanto ao seu parceiro de empreitada, Orson Welles.

Tecnicamente, “Mank” é uma obra prodigiosa –Fincher filmou em preto & branco, além de utilizar enquadramentos com foco profundo no primeiro plano e na imagem de fundo simultaneamente tal e qual Welles fez em “Cidadão Kane”, na realidade, o próprio Fincher já havia demonstrado seu imenso apreço por “Kane” em referências um pouco mais sutis no brilhante “A Rede Social”, contudo, a história contada aqui é, também ela, notável –o roteirista é Jack Fincher, irmão do diretor. Nela, testemunhamos idas e vindas no tempo (flashbacks, a exemplo da estrutura narrativa do próprio clássico retratado) vamos daquele recluso hotel no deserto ao ano de 1934 quando Mank teve contato com William Randolph Hearst (Charles Dance) e forjou com ele o que parecia ser o princípio de uma genuína amizade. Willy, como era chamado, já havia consolidado seu império jornalístico na Costa Leste e começava a estender seus domínios para o cinema e os estúdios de Hollywood –ele compreendia que o futuro se encontrava nos filmes falados e que o cinema mudo tinha seus dias contados. Não lhe faltavam bajuladores (entre eles, o influente e inclemente Louis B. Meyer, chefe da MGM, vivido por Arliss Howard, de “Nascido Para Matar”), e talvez por isso, Willy dava inesperada importância aos comentários pra lá de afiados que partiam de Mank, colocando-o sempre ao seu lado durante as festas em sua mansão. É lá que Mank conhece Marion Davies (Amanda Seyfried, genial), caso amoroso de Willy, décadas mais jovem que ele e, frequentemente, favorecida entre os estúdios (Marion era atriz) por sua relação.

A amizade entre Mank e Marion é bela e verdadeira, no entanto, ela não deixa de sofrer com os contratempos que mudavam o mundo de então: De uma influência avassaladora e venal, Willy leva os estúdios da MGM a bancar a oposição contra a eleição do democrata Upton Sinclair, criando curta-metragens tendenciosos, demagógicos e numa escala inédita para a época que conseguem, em pouco tempo, mudar os rumos da campanha causando desinformação entre os eleitores. Fiel aos seus ideais, Mank se opõe à essas posturas e acaba caindo em desgraça junto ao círculo pessoal de Willy, que incluía entre outros o produtor Irvin Thalberg (Ferdinand Kingsley).

São essas experiências que levam ao roteiro não despido de rancor que ele tece naquele quarto no deserto, retratando Hearst como um homem político, populista e oportunista, reservando algumas farpas até mesmo para Marion, fazendo uma impiedosa caricatura dela e de seu relacionamento.

Espelhado no próprio “Cidadão Kane” em diversos aspectos, não apenas na forte referência visual monocromática ou no formato desafiador de seu enredo, “Mank” também constrói um personagem cheio de camadas de ambiguidade e dubiedade moral que, mesmo diante de algumas boas intenções e certamente alimentado por suas convicções políticas, urgiu uma obra a partir do ressentimento e do desdém. Uma obra que não escapou de ser um dos melhores filmes de todos os tempos.

Os percalços mais do que impressionantes do caminho de “Kane” até seu lançamento –e do embate fenomenal entre Welles e Hearst –estão muito bem registrados no brilhante documentário “A Batalha Por Cidadão Kane”, aqui, nesta produção, Fincher se concentra em outra coisa: Num personagem que influenciou Welles, e que esteve no centro de alguns acontecimentos decisivos para os rumos do cinema e da política norte-americano na primeira metade do Século XX. Não interessa à Fincher algumas obviedades como capturar bastidores já conhecidos ou repetir um possível enaltecimento à “Kane”, sua obra é inteligente e loquaz (como em “Zodíaco”, os atores têm de declamar o roteiro, em diversas cenas, com o dobro ou o triplo de agilidade para que as falas não extrapolem uma duração usual), complexa em termos emocionais e factuais, adulta e aberta a diversas reflexões.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A História de Um Casamento


 Talvez o ápice do refinamento do cinema de Noah Baumbach, no qual os sentimentos e as relações ganham sempre uma avaliação plena de honestidade e atenção às minúcias improváveis da vida, “A História de Um Casamento” – ou “Marriage Story” – é uma obra que habilmente oscila entre o humor e o drama, alternando esses gêneros distintos com uma serenidade e uma fluidez que chegam a impressionar.

Quando a trama começa, vemos os dois protagonistas, Charlie e Nicole (Adam Driver e Scarlet Johansson, ambos estupendos), afirmando o que cada um ama no outro. Charlie e Nicole constituem um casal, mas não por muito tempo; Nicole entrou com um pedido de divórcio.

No entanto, como o filme brilhantemente reflexivo de Baumbach vai deixar bem claro, as coisas são infinitamente mais complicadas – não é que falte amor, ou mesmo respeito no casamento dos dois: Há uma falta de compatibilidade, uma ausência de diálogo, uma doação unilateral que sufoca Nicole, e ela já não suporta mais.

Ainda assim, apesar de um ou outro contratempo, oriundo do fato razoável de que nenhum dos dois está muito pronto para lidar com a situação, ambos concordam que tudo – inclusive a guarda compartilhada de seu amado filho Henry (Azhy Robertson) – pode ser resolvido sem a intervenção de advogados.

Charlie é um dramaturgo e diretor teatral em Nova York; Nicole é uma atriz – foi assim que se conheceram (durante a montagem de uma peça do próprio Charlie). Nicole, porém, é de Los Angeles, onde mora toda sua família, a mãe (Juie Hagerty, de “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu!”, hilária em suas aparições) e a irmã (Merritt Wever, de “Sinais”), e para onde, durante todo o período em que estiveram juntos, ela sempre tentou convencer Charlie a se mudar.

Com a separação, Nicole agora almeja uma promissora vaga num filme-piloto para TV em Los Angeles que, se for aprovado, pode tornar-se uma série, o que a levaria a se mudar definitivamente para a Costa Oeste, junto com Henry. É justamente ao longo desse processo que ela recebe a sugestão de uma conhecida para que, apesar do que combinaram, ela contrate de fato um advogado a fim de mediar o divórcio, e assim entra na história, provocando um inesperado turbilhão, a advogada especialista em divórcio Nora Fanshaw (Laura Dern, sensacional, vencedora do Oscar 2020 de Melhor Atriz Coadjuvante).

Arremessados para dentro das engrenagens jurídicas – e de todo o viés de antagonismo que acompanham esses processos – Charlie e Nicole passam por estágios de ressentimento, de profunda transformação das próprias perspectivas financeiras (o dinheiro que poderiam guardar para a faculdade do filho é ironicamente investido nos honorários dos advogados que atuam para brigar pela guarda justamente de seu filho!), de idas e vindas, de atritos e de reconciliações, tudo na ânsia de chegar a um entendimento que a vida insiste em não concretizar.

Nada mais, o filme deixa claro, será como antes.

Charlie, tão avesso à ensolarada e superficial Los Angeles, agora tem de atravessar o país a fim de ter seus momentos com o filho, e de, não raro, sair atrás de advogados que lhe representem. Dois deles se destacam: O veterano, resignado e desenvolto Bert Spitz (o divertidíssimo Alan Alda), e o tubarão implacável, histriônico e, no fim das contas, hilariante, Jay Marotta (o saudoso Ray Liotta).

Divertido, tocante, dono de um sem fim de cenas maravilhosas (minhas preferidas, entre outras, são a engraçadíssima sequência da visita de uma avaliadora, vivida por Martha Kelly, ao apartamento de Charlie em Los Angeles; e o momento inebriante, já quase perto do fim, em que ele canta “Being Alive” num bar de karaokê em Nova York), “Marriage Story” é, como era de se imaginar, baseado na história do próprio Noah Baumbach e de seu casamento com a atriz Jennifer Jason Leight. De fato, trata-se de um trabalho verdadeiro demais para ser uma mera invenção – a traição dele brevemente mencionada numa passagem, ocorreu com a também atriz Greta Gerwig, com quem mais tarde ele acabou casando. A expiação dessas mazelas íntimas terminou rendendo uma das melhores e mais sensíveis obras a tratar do colapso de uma relação a dois em choque com diferentes realidades profissionais, financeiras e pessoais.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Nas Montanhas dos Gorilas


 Calcada em cima da interpretação espetacular de Sigourney Weaver – pela qual ela foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática e indicada ao Oscar de Melhor atriz ao lado de Glenn Close (“Ligações Perigosas”), Melanie Griffith (por “Uma Secretária de Futuro”, filme que também contava com Sigourney no elenco, tendo sido indicada, naquele ano, também a Melhor Atriz Coadjuvante por este trabalho), Meryl Strep (“Um Grito na Escuridão”) e, a vencedora, Jodie Foster (“Acusados”) – este belo trabalho reconstitui com alguma pomba e circunstância –e uma imodesta tendência à romantização –a vida de Dian Fossey, estudiosa pioneira em primatologia, o estudo dos primatas em geral e dos gorilas em particular.

1965. Os gorilas são uma espécie em extinção e não há, num futuro imediato, esperança de reverter esse quadro desesperador. Durante uma palestra do Dr. Louis Leakey (Iain Cuthbertson), a professora Dian Fossey (Sigourney), até então com experiência apenas com crianças portadoras de deficiência, se apresenta voluntariamente disposta a embarcar para a África e realizar o tão almejado e difícil senso dos animais restantes, a fim de colher dados para saber quantos haviam restado – e quanto tempo ainda existiriam.

Enfrentando severos obstáculos num primeiro momento, (a região escolhida para a pesquisa na África do Sul, se encontrava imersa numa violenta guerra civil, impossibilitando a permanência dela por lá), ela e o fiel carregador Sembagare (John Omirah Miluwi) encontram o lugar ideal numa afastada e enevoada montanha em Ruanda, na qual uma vasta família de gorilas estabeleceu morada.

Obtendo uma gradual aproximação dos animais, Fossey não apenas consegue o dados para a pesquisa como faz espetaculares descobertas sobre a vida animal e se torna uma defensora ferrenha de suas vidas, chegando  a ser tomada como uma bruxa pelos nativos locais, os Batwa, que até então caçavam gorilas para vender suas mãos e suas cabeças como troféu para caçadores no mercado negro.

Ela se envolve com o fotógrafo da financiadora da pesquisa, a National Geographyc, Bob Campbell (Bryan Brown, de “Os Pássaros Feridos”) e com o passar dos anos ganha reconhecimento entre núcleos acadêmicos por todo o mundo, a ponto de arregimentar – através de acordos com políticos – um grupo de seguranças para o perímetro das montanhas, e até mesmo novos estudantes dispostos a tentar seguir seus passos.

No entanto, para Dian, tudo o que importa são os gorilas e sua preservação e sobrevivência, um sacrifício que, até o fim, ela se dispôs a levar à extremos.

O diretor Michael Apted – em geral, um desenvolto operário-padrão que nunca se preocupou com expressões mais autorais – se equilibra entre uma realização assombrada por convencionalismo (e nesse sentido, há aspectos do filme que envelheceram mal, bem como passagens inteiras que se revelam extremamente datadas) e momentos bastante inspirados (há impressionantes imagens que capturam a desmedida Sigourney Weaver se aproximando realmente dos imensos gorilas e recriando muitos momentos experimentados pela verdadeira Dian Fossey).

Hoje considerado um clássico, “Nas Montanhas dos Gorilas” teve cinco indicações ao Oscar: Além de Melhor Atriz (Sigourney com sua brilhante atuação é sem sombra de dúvida o grande suporte da produção), Melhor Roteiro Adaptado (entre outros pequenos detalhes notáveis, repare na sutil crítica ao hábito tabagista da protagonista que vai deteriorando sua saúde ao longo dos anos), Melhor Montagem (cujo vencedor foi “Uma Cilada Para Roger Rabbit”), Melhor Trilha Sonora (acima de tudo, um gesto de homenagem ao veterano Maurice Jarre, de produções como “A Filha de Ryan” e “A Missão”) e Melhor Mixagem de Som.

domingo, 14 de junho de 2026

Encontro de Amor


 O cinema do diretor Wayne Wang sempre foi fascinado por comunidades, não à toa, seu melhor e mais ressonante trabalho é o emocionante “Clube da Felicidade e da Sorte” – daí ser até natural que, ao ser contratado por um estúdio (a Columbia Pictures) para conduzir uma comédia romântica, não seja tanto o enredo e seu desenrolar cheio de encontros e desencontros que surgem com desenvolvimento mais apaixonado da parte direção, mas sim a caracterização e contextualização das circunstâncias que cercam a protagonista feminina da trama, vivida pela graciosa e radiante Jennifer Lopez – aqui, num dos sucessos de bilheteria responsáveis pela consolidação do status de estrela de sua carreira.

Lançado em 2002, “Encontro de Amor” – ou “Maid In Manhattan”, seu título original – não esconde, e nem conseguiria mesmo esconder, as semelhanças quase constrangedoras com “Um Lugar Chamado Notting Hill” (um grande sucesso do ano de 1999). Como naquele filme (mas, muito melhor realizado lá...), “Maid In Manhattan” busca unir num divertido, hesitante e cativante enlace amoroso dois indivíduos de mundos absolutamente distintos, sendo que um deles vem dos holofotes da fama, enquanto o outro do anonimato da plateia. Em “Notting Hill” havia a estrela de cinema e o plebeu desconhecido, vividos respectivamente por Julia Roberts e Hugh Grant; aqui, temos o candidato ao senado e a um só tempo sex-simbol das mulheres mais despachadas, Chris Marshall, interpretado por Ralph Fiennes (num papel bem mais leve e inesperado para os rumos usuais de sua carreira), e a camareira Marisa Ventura, vivida por Jennifer Lopez – que, num truque de inversão típico do demagógico cinema norte-americano, vem a ser, ela sim, um sex-simbol.

Mãe solteira, Marisa trabalha no ostensivo hotel de luxo Beresford, em Manhattan, no coração de Nova York, onde os procedimentos dos funcionários, visando o atendimento aos hóspedes ricaços, beira o rigor militar. Criando sozinha o pequeno Ty (Tyler Posey), Marisa almeja uma vaga disponibilizada para uma das gerências do hotel, contudo, tal cargo jamais foi ocupado antes por uma camareira – o que dificulta mais o objetivo de Marisa e faz das semanas seguintes decisivas para a avaliação de sua postura profissional (que, até então, era impecável).

Entretanto, eis que o Beresford recebe o candidato ao senado Chris Marshall que, junto de seu staff, liderado pelo inquieto e paranoico Jerry (Stanley Tucci, que décadas depois reuniu-se com Fiennes no elenco do fenomenal “Conclave”), se encontra num momento crítico da campanha – justamente quando as lentes dos paparazzi estão focadas nele, esperando qualquer deslize para virar manchete!

Numa série de mal-entendidos – daqueles típicos de uma comédia romântica – Marisa acaba sendo confundida por Chris como uma das hóspedes do hotel – ela e uma colega estavam numa travessura, experimentando o casaco Golce & Gabbana de uma hóspede real, a socialite Caroline Laine (a saudosa Natasha Richardson) quando o imbróglio acontece. Marisa aceita o convite para um passeio no parque, tentando se livrar da situação o mais rápido possível, mas, evidentemente, nesse meio tempo, a magia hollywoodiana se opera: Um interesse surge de ambas as partes e, agora, Chris quer saber quem é aquela maravilhosa mulher que ele conheceu – e tê-la como convidada para um importante jantar a ser realizado no próprio hotel!

Já, Marisa, também atraída por Chris, precisa se desvencilhar do cerco cerrado dos demais funcionários do hotel, incluindo superiores que podem farejar sua farsa, da inconveniente Caroline que pensa ser ela a convidada de Chris, e da própria situação em que se encontra, mentindo para o homem por quem está se apaixonando, e escondendo dele quem é.

“Maid In Manhattan” tem, portanto, todos os elementos narrativos de uma comédia romântica, organizados e apresentados com fidelidade formulaica – o desfecho descaradamente decalcado de “Notting Hil” é particularmente constrangedor...

Todavia, o que notamos saltar aos olhos ao longo do filme, é o amor com que o diretor Wayne Wang retrata o dia-a-dia de Marisa, sejam as regras rígidas, permeadas por subterfúgios de malandragem, que os funcionários precisam seguir em sua rotina de ‘agentes invisíveis’ dentro do hotel (que fazem lembrar o britânico “Coisas Belas e Sujas”), sejam os pequenos embates entre ela e a mãe (a cantora Priscilla Lopez, apesar do sobrenome, nenhum parentesco com Jennifer) carregados tanto de ternura quanto de ressentimento, sejam as relações amistosas, fraternais até, entre Marisa e suas colegas camareiras (talvez, os momentos mais divertidos do filme), ou os diálogos com o dedicado e minimalista mordomo Lionel (o saudoso Bob Hoskins, interpretando o personagem com dignidade e solidez). As manobras do roteiro (assinado por Kevin Wade) parecem menos importar ao diretor do que essas facetas da produção que dele recebem muito mais entusiasmo e cuidado.

Curiosidade: O argumento do filme foi idealizado pelo saudoso John Hughes (de “O Clube dos Cinco”) que não aparece creditado. No lugar de seu nome vemos um ‘Story by Edmond Dantes’, que vem a ser o herói fictício de “O Conde de Monte Cristo”!

sábado, 13 de junho de 2026

O Palácio dos Anjos


 Produção realizada a partir de um acordo de cooperação cinematográfica com financiadores franceses, "O Palácio dos Anjos" –cujo título internacional foi o pomposo “Le Palais Des Anges Érotiques Et Des Plaisirs Secrets” ou “O Palácio dos Anjos Eróticos e dos Prazeres Secretos” –havia sido enviado à França para concorrer à Palma de ouro no Festival de Cannes de 1970 representando o Brasil ao lado de “Azyllo Muito Louco”, de Nelson Pereira dos Santos (uma transgressora adaptação de “O Alienista”, de Machado de Assis). Lançado depois de “As Amorosas” (1968), onde o diretor Walter Hugo Khouri explorava a figura de seu personagem-chave Marcelo, sob um usual prisma de referência à Antonioni, e antes de “As Deusas” (1972), no qual entra em voga uma formidável alusão à Ingmar Bergman em geral e à “Persona” em particular, "O Palácio dos Anjos", na brilhante cartilha cinematográfica que Khouri foi construindo ao longo dos anos, não era nem uma coisa nem outra: A história era, sim, baseada nas experiências de uma amiga de Khouri da época da faculdade –daí o fato de não se enxergar tanta proximidade assim em relação à outras manifestações artísticas que Khouri havia feito e que ainda faria.

Todavia, não há que se negar o mérito de “Palácio dos Anjos” ao trazer três mulheres protagonistas ao centro de questões que envolvem a luta por independência num mundo esmagador, misógino e machista.

Essas três protagonistas são Barbara (a francesa Geneviève Grad, dublada em português por Lilian Lemmertz), Ana Lúcia (Adriana Prieto) e Mariazinha (Rosana Ghessa, de “Convite Ao Prazer”), amigas que dividem um mesmo apartamento e trabalham numa mesma instituição financeira. Lá, elas sofrem assédio constante dos homens, em especial, a belíssima Barbara, cujo patrão, o inescrupuloso Ricardo (Luc Merenda, de “Torso”) a vê como seu objeto de desejo. Quando Barbara o recusa, ela é demitida. Entra na história então a personagem de Rose (Joana Fomm), uma proprietária de um bordel que sugere à Barbara trabalhar como acompanhante de luxo. Sem ceder à ideia desconfortável de expor-se num bordel, Barbara convence suas outras amigas à valer-se da lista de clientes milionários da instituição para trabalharem como prostitutas tendo como local de atendimento o próprio apartamento onde vivem, que passa a ser chamado de “Palácio dos Anjos”.

Ainda que o filme também conte com uma elegante trilha sonora de Rogério Duprat, sem falar das ótimas presenças das três atrizes principais (sempre um ponto forte numa obra de Khouri) –além de uma participação especial de Norma Bengell –“Palácio dos Anjos” foi apontado pela crítica (inclusive em Cannes) como uma desajeitada apologia à prostituição, vista na narrativa como uma solução quase mágica aos problemas financeiros e sociais das assalariadas paulistanas.

Embora seja uma obra fotografada com competência por Peter Overbeck, o filme não agradou a Khouri e nem aos seus críticos por tratar-se somente de sua segunda experiência em filmar à cores (a primeira havia sido “Fronteiras do Inferno” em 1959), resultando num inoportuno espectro cromático que ocasionalmente descamba para a poluição visual. Em projetos posteriores, Khouri aprenderia a trabalhar com a fotografia colorizada, indo muito além do mero acréscimo de cores às imagens para, com elas, construir magníficas metáforas visuais em realizações vindouras cheias de propriedade.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D


 Em 1977, o diretor Steven Spielberg lançou o filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, uma obra que sob muitos aspectos define sua carreira – as inquietações acerca da existência de vida extraterrestre são tópicos que Spielberg jamais foi capaz de deixar de lado, levando à produções como "E.T. O Extraterrestre” e outras que indiretamente abordavam tal tema. O ponto fora da curva pode ser considerado “Guerra dos Mundos”, no qual Spielberg faz nada mais que um pastiche cinematograficamente requintado de “Independence Day” – isso porque Spielberg sempre enxergou de uma maneira esperançosa a possibilidade de co-existência entre humanos e alienígenas.

Agora, do alto de uma carreira de 50 anos, Spielberg volta a focar suas lentes sobre o tema, numa obra que resgata toda a dúvida insolúvel e o interesse instigante que o levaram até “Contatos Imediatos...” – este “Dia D” é, em si, uma obra que traz Spielberg se reencontrando consigo mesmo, revendo tópicos que sempre lhe foram tão caros ao seu cinema, à luz de uma imponderável modernidade, resvalando em teorias da conspiração que soariam alarmantes nas mãos de outros realizadores, e provando, uma vez mais, o cineasta sem par que ele é.

A trama – concebida pelo roteirista David Koepp, a partir de um argumento do próprio Spielberg – se inicia audaz, sem tempo para tomar o fôlego: Daniel Kellner (o carismático Josh O’Connor, de “Rivais”) já está em fuga. Ao que parece ele roubou arquivos importantes de uma agência ultrasecreta governamental (isso e outra coisa, ainda mais importante e inconcebível!). Tal agência, denominada Wardex, sequestrou sua namorada Jane (Eve Hewson, filha de Bono Vox, o vocalista do “U2”) e agora exigem uma troca ocorrida nas dependências de um ring de luta livre lotado – e é nessas circunstâncias, com todo o intrincado enredo já em curso, que o filme começa.

Paralelo à trajetória de fuga de Daniel e Eve – na qual tentam à todo custo escapar da Wardex, controlada com mão de ferro pelo implacável Noah Scanlon (Colin Firth, sempre fantástico) – vemos também a história de Margaret Fairchild (Emily Blunt, magnífica), garota do tempo de uma emissora de TV em Kansas City que, certo dia, sem a menor explicação, começa a falar numa língua extraterrestre em pleno noticiário matutino, ao vivo!

O caso chama a atenção da Wardex que, tal e qual o fazem com Daniel, almejam agora encontrar e capturar Margaret à todo custo, enquanto um certo Dr. Hugo Wakefield (o ótimo Colman Domingo) procura estar um passo à frente de Scanlon e sua tentacular agência, a fim de driblá-los e fazer aquilo que eles tentam evitar há décadas: Revelar ao público toda a verdade.

Assim como em “Contatos Imediatos...” – cujo plot, de um ponto em diante, centralizava sua atenção no encontro iminente entre os protagonistas Roy e Jillian – em “Dia D” somos conduzidos por Spielberg na expectativa de testemunhar Daniel e Margaret se encontrarem, e descobrir o que, a partir daí, acontecerá.

Não restam dúvidas de que há muito de Spielberg em “Dia D” – não apenas o foco central no tema dos extraterrestres e da incomensurável mudança que a sua revelação causaria no mundo e nos rumos da Humanidade perpassa toda sua filmografia, como também as pertinentes referências à Segunda Guerra Mundial (o próprio título em alusão ao Dia D, na Normandia; a iminência da Terceira Guerra Mundial servindo como um pano de fundo político aos acontecimentos), a gênese de todos os mais profundos questionamentos encontrada nas memórias de infância (como é o caso dos dois protagonistas), e a própria insistência na intervenção irredutível de uma influente figura paterna (que aqui são duas, o autoritário ainda que munido de supostas boas intenções Scanlon, de Colin Firth, e o manipulador, ainda que bondoso, Wakefield, de Colman Domingo, dois atores que, diga-se, sob a direção de Spielberg, brilham como nunca).

No panorama do cinema comercial mundial, “Dia D” é uma realização distinta e exótica como só um diretor de predicados hiperlativos como Steven Spielberg seria capaz de elaborar: É inteligente, complexo, desafiador, fala da correlação entre a crença em vida extraterrestre e a transformação subsequente de paradigmas religiosos, leva a ficção científica  a um patamar que pouquíssimos filmes sobre o tema alienígenas foram capazes de chegar e tudo isso numa produção suntuosa, tecnicamente refinada com todos os aparatos que só o melhor de Hollywood pode proporcionar e mesmo tocando em temas como o acobertamento do governo acerca de assuntos delicados, surge audaciosamente em meio à blockbusters no período mais disputado do ano nos cinemas.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Empregada


 Usualmente um realizador de comédias (são dele o remake feminista “As Caça-Fantasmas”, “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas” entre outros) Paul Feig se esforça aqui em busca de uma guinada comercial em sua carreira ao abraçar um projeto orientado pelo refinado gênero do suspense. Contudo, já em seus primeiros momentos, “The Housemaid” entrega uma série de lapsos que apontam o desconforto de seu diretor, como um descuidado (em alguns momentos até descabido!) desenho de som, e uma montagem indecisa que demora além do tempo habitual para encontrar o ritmo correto, acelerando demais a narrativa em alguns momentos e dilatando desnecessariamente certas passagens em outros.

Best-seller da escritora Freida McFadden, “The Housemail” era uma bem-sucedida série literária (agora, sinalizando o surgimento de uma bem-sucedida série cinematográfica) cujo enredo, se não era um primor de acabamento e dramaturgia, mostrava-se certeiro e envolvente no manejo dos plot-twists que se seguiam com revelações pontuais sobre seus interessantes personagens.

A protagonista é Millie Calloway, vivida pela belíssima Sydney Sweeney –e, no status de estrela em ascensão que evoca, Sydney surge como uma escolha apropriada e pontual, nem tanto por suas capacidades interpretativas (que ora satisfazem, ora deixam a desejar) mas, sim, pelo magnetismo imediato, pela instantânea empatia que ela, uma vez dentro da personagem, consegue despertar no público. E isso será muito importante como veremos a frente.

Millie precisa obter um emprego. Recém-saída da prisão (a despeito de ser jovem), ele precisa de um lugar para morar (até então, dorme dentro de seu carro em estacionamentos), de um emprego que sossegue a vigilância dos oficiais da condicional sobre seus passos e de dinheiro para se manter. Tudo isso parece vir num mesmo pacote quando ela presta uma entrevista de emprego à ricaça Nina Winchester (Amanda Seyried, menos carismática do que Sydney, mas bem mais competente como atriz, numa personagem desafiadora e cheia de camadas). Acontece que Nina está grávida (seu marido, afirma ela, ainda não sabe) e ela precisa imediatamente de uma empregada para dar conta de sua filha mais velha de 11 anos, Cecelia (Indiana Elle) e das atividades domésticas da mansão luxuosa onde moram.

Como empregada particular, Millie poderá morar dentro da casa, num quarto localizado no sótão e, embora haja certa suspeita no fato de Millie possuir credenciais demais para candidatar-se a uma vaga de empregada, Nina a quer o quanto antes.

Uma vez trabalhando para o casal –que, além de Nina inclui certamente também seu marido, Andrew (Brandon Sklenar, de “Drop-Ameaça Anônima”) –Millie vai descobrindo que o emprego, que aparentava ser um paraíso durante a entrevista, não é tão maravilhoso assim: Bipolar, Nina confronta Millie com situações complicadas, tentando incriminá-la de erros que não cometeu e tecendo uma ardilosa a aparentemente inexplicada teia de intrigas e acusações que só não comprometem ainda mais a situação de Millie graças à intervenção de Andrew.

Por conta dessa circunstância, pouco a pouco, Millie e Andrew vão estabelecendo uma proximidade que, diante da cada vez mais real possibilidade de um adultério assim consumado, pode desembocar em alguma tragédia. Contudo, na narrativa urgida pela escritora Freida McFadden, nada é o que parece ser. E é exatamente aí (nas informações omitidas ao expectador) que “The Housemaid” guarda seus trunfos.

Toda essa explicação à seguir, conterá spoilers (!): Nina não é o que parece ser, uma vez que, ao contrário da megera intratável que se mostrava durante todos os dois primeiros terços de filme, ela era na realidade uma vítima da situação, presa num casamento abusivo e tóxico, e portanto, desesperada para encontrar um meio de fuga. E tal meio, terminou sendo Millie.

Com efeito, Andrew também não é o príncipe encantado que parecia ser, revelando-se o vilão sádico, psicótico e abusador de fato.

Contudo, outra grande manobra da premissa de Freida McFadden é que a própria Millie, toda doce, desprotegida e indefesa, também não é o que  parece ser: As razões para ela ter sido presa (e encontrar-se, agora, em liberdade condicional) não reveladas antes, são elementos diretamente influentes no desfecho e no porque, agora, foi o perverso Andrew quem meteu-se com a pessoa errada –e é por isso que a escalação de Sydney Sweeney ajuda muito o filme nesse sentido: Uma vez que só saberemos de toda a verdade sobre Millie no momento quase clímax de sua reviravolta, tudo o que sabemos sobre ela é vago, ainda que seja essa a protagonista. No entanto, com Sydney Sweeney interpretando-a, Millie conquista o público já nos primeiros minutos. Mesmo que não saibamos quem ela é, ou o que ela fez, o encanto natural de Sydney faz todo o trabalho nos levando a torcer pela heroína que descobrimos, ao fim, ser bem diferente de quem supúnhamos ser.

“The Housemaid” pode ter falhas homéricas na direção, pode ter um roteiro equivocado e impreciso (as mudanças na adaptação particularmente reforçam o tom exagerado do filme), mas foi um acerto muito feliz na escalação de suas duas protagonistas: Enquanto Sydney é uma ótima presença emprestando magnetismo e simpatia genuínos à Millie; Amanda reforça a grande atriz que é interpretando uma personagem que também está interpretando na maior parte do tempo (e de forma deliberadamente histriônica ainda!) só revelando suas intenções mais humanas quando o filme já estiver em seu ápice.