domingo, 16 de agosto de 2026

A Fogueira das Vaidades


 O esteta cinematográfico Brian De Palma se popularizou com grandes obras de suspense – são aclamadas as suas variações de Alfred Hitchcock nos anos 1970 e 80 como “Trágica Obsessão”, “Dublê de Corpo” e “Vestida Para Matar” – contudo, durante a própria década de 1980, ele chegou a experimentar com alguns gêneros diferentes; tais como filme de guerra (“Pecados de Guerra”), épico gangster (“Scarface” e depois, “Os Intocáveis”), comédia (“Quem Tudo Quer Tudo Perde”) e outros. Essa busca o levou, já quase adentrando os anos 1990, à adaptação do best-seller de Tom Wolf, “A Fogueira das Vaidades” e, com isso, a uma espinhosa recepção da crítica com a qual o normalmente elogiado e enaltecido De Palma não estava muito acostumado.

Tudo começa num espetacular plano-sequência (um dos tantos exemplos de arrojo e virtuosismo técnico que De Palma adora plantar em seus filmes) onde vemos o jornalista beberrão Peter Fallow (Bruce Willis) experimentando um improvável momento de glória com a publicação de seu livro “The Real McCoy and The Forgotten Lamb”. Automaticamente percebemos que a condição de Fallow normalmente nunca foi assim de bajulação – e o próprio Fallow, com sua narração em off, irá retroceder no tempo a fim de esclarecer como ele chegou nesse improvável momento, além de também revelar, segundo ele, o verdadeiro protagonista da história, Sherman McCoy, interpretado por Tom Hanks.

Corretor de Wall Street, bem-apessoado, anglo-saxão e protestante, Sherman McCoy aparenta ser, num primeiro momento, promissor em todos os âmbitos de sua vida seja o profissional (o emprego lhe garante uma rica moradia em Manhattan) ou o pessoal (é casado com a melindrosa e perdulária socialite Judy, interpretada por Kim Cattrall). Sherman tem também como amante a insinuante Maria Ruskin (Melanie Griffith), casada com um milionário italiano muito mais velho.

Numa de suas escapadas, Sherman resolve buscar Maria no aeroporto – em regresso de uma de suas corriqueiras viagens ostensivas à Europa – e, ao decidir passar a noite com ela, envolve-se numa sucessão de eventos banais que, mais tarde, se revelam ser o estopim de sua derrocada: Na rodovia, ele perde a saída rumo à Manhattan e acaba indo parar com seu carro (e com Maria de carona) no Bronx, onde a vizinhança normalmente mais temerosa que a elegância de Manhattan logo começa a amedrontá-los. Ao parar e sair do veículo para remover um pneu que obstruía o caminho, Sherman se envolve num incidente com dois jovens moradores. Maria se apavora e, na sucessão de acontecimentos, os dois partem em alta velocidade do local, buscando voltar para onde moram e esquecer aquele breve apuro.

No entanto, um dos rapazes aparentemente machucou-se com mais gravidade do que poderia se imaginar: Ele – um certo Henry Lamb – bateu com a cabeça (logo seus familiares presumem que foi atropelado), e a escalada de complicações o deixa em coma no hospital, com sua mãe inconsolável, e com o pastor local, o irascível Reverendo Bacon (John Hancock), comprando briga com a mídia a fim de fazer estardalhaço, chamando a atenção para as causas sociais de sua comunidade.

Logo, é uma bola de neve que começa a se formar: O outrora desacreditado jornalista Peter Fallow fica sabendo da história e elabora uma matéria bombástica sobre o assunto, demonizando o motorista misterioso que não parou para prestar ajuda. A repercussão cada vez maior do caso chega ao prefeito, Abe Weiss (F. Murray Abraham), que, de olho numa reeleição, transforma a procura pelo tal motorista num circo midiático.

Quando – contra todas as hipóteses – as investigações finalmente chegam à Sherman McCoy, ele, transtornado pela culpa, cede à pressão e confessa, ainda que tenha sido Maria quem estivesse no volante na ocasião do incidente.

Os apreciadores do livro de Tom Wolf se revoltaram com o tratamento dado ao brilhante painel de cinismo e interesses políticos traçado pelo autor que resultou no filme de De Palma, em grande medida devido ao roteiro reducionista e acomodado do dramaturgo Michael Christopher (de “As Bruxas de Eastwick” e “Gia-Fama e Destruição”) que simplificou as índoles de diversos personagens a ponto de descaracterizá-los. Uma pena, visto o time de talentos sem dúvida notáveis que foi reunido – Tom Hanks havia acabado de fazer “Joe Contra O Vulcão” e anos antes tivera uma indicação ao Oscar por “Quero Ser Grande”; Bruce Willis havia se consagrado em Hollywood com “Duro de Matar” e sua continuação; e Melanie Griffith fizera só dois anos antes “Uma Secretária de Futuro”, até hoje o melhor trabalho de sua carreira, e o filme ainda tinha uma ponta de Kirsten Dunst, ainda criança, além de uma participação sólida e contundente do grande Morgan Freeman. Entretanto, aqueles que não chegaram a ler o livro de Tom Wolf ainda podem se interessar pelo resultado de quase comédia de humor negro obtido pelo diretor e pelos desenlaces novelescos de ligeiro viés moral que se sucedem em seu terço final.

Planeta Fantástico


 Uma animação francesa realizada nos anos 1970 e que pode ter, ou não, influenciado James Cameron e seu “Avatar” (sabe-se que foi nessa década que o diretor teve o vislumbre do esboço inicial do roteiro): As semelhanças vão desde a cor azul dos alienígenas em ambos os filmes, como também o antagonismo –proporcionando uma reflexiva inversão de valores –que surge entre eles e a raça humana.

Se em “Avatar”, a inversão de valores se dá porque são os humanos os invasores alienígenas na trama, em “La Planète Sauvage” –seu título original –isso ocorre porque são os humanos (chamados Oms) as criaturas usadas como animais de estimação pelos Draags (os tais alienígenas azuis, e gigantescos), recebendo inclusive aquele mesmo tratamento de cruel paternalismo que, por vezes, usamos para tratar nossos próprios animais de estimação.

Adaptado de um romance escrito em 1957 pelo autor francês Stefan Wul, intitulado "Oms", "Planeta fantástico" se passa no planeta Ygam, onde os Draags sequestram humanos terráqueos (ou, pelo menos, seres muitíssimo parecidos com humanos, aqueles que chamam de Oms), para os criarem como animais de estimação. Consequentemente, os Oms são muito maltratados pelos Draags, fazendo com que inúmeros deles acabem morrendo, enquanto outros ainda conseguem fugir. Ainda um bebê, o jovem protagonista Teer tem sua mãe cruelmente morta por crianças Draags. Acolhido como um animal de estimação, Terr cresce sempre próximo de uma jovem Draag chamada Tiwa. Ao longo do tempo em que convive com os Draags, Teer acaba aprendendo ensinamentos semelhantes aos de Tiwa, se tornando um ser humano consciente –algo semelhante, como dá pra notar, ao enredo da superprodução de James Cameron, embora lá ele não se furte de trazer os humanos como antagonistas, é provável que, nos anos 1970, mesmo em obras experimentais, ainda se cultivasse uma certa esperança na Humanidade.

Enfim, continuando a trama: Já crescido, Teer consegue fugir de seus captores Draags e encontra outros humanos refugiados da sociedade Draag. Munido de seus conhecimentos, Teer acaba ensinando aos outros humanos tudo aquilo que aprendeu, fomentando entre eles a ideia de um levante, uma guerra contra os Draags. Entretanto, diante da superioridade física dos Draags, os Oms precisam se unir para valer-se de inteligência emocional e estratégia a fim de sobrepujar seus agigantados inimigos.

Embora haja certa complexidade no desenvolvimento do diretor René Laloux para esta animação frequentemente filosófica, não há muitas dúvidas acerca de suas reflexões finais –no embate dos reduzidos e oprimidos Oms contra os imensos e indiferentes Draags, “Planeta Fantástico” fala sobre o desleixo humano no trato com outras formas de vida (os animais); sobre a luta de classes entre desfavorecidos e a elite; e sobre como o subconsciente coletivo consegue facilmente desumanizar um oponente quando as diferenças e divergências apagam qualquer chance de identificação.

Longe de ser uma obra apetecível, ou mesmo para crianças, Planeta Fantástico” trata-se de uma ficção científica que lança mão de questões metafísicas em seu enredo, soando hoje, para as plateias atuais, distantes do clima lisérgico dos anos 1970 com o qual foi criado, como uma realização surreal, bizarra e exótica. Esse esforço criativo rumo à um trabalho de propostas quase transcendentais em sua original imersão foi agraciado com o Grand Prix no Festival de Cannes de 1973.

sábado, 15 de agosto de 2026

Amores Materialistas


 Dakota Johnson é uma atriz injustiçada: Alçada à fama pela infame trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, lançada a partir de 2015 (onde, também lá, ela demonstrava talento e carisma), Dakota experimentou uma exposição na carreira um pouco parecida com a de Robert Patinson e Kristen Stewart através da “Saga Crepúsculo”; fama, sim, e até algum sucesso de bilheteria, mas tudo isso atrelado a um filme mediano e à personagens péssimos que levavam púbico e crítica à percepção de que seus intérpretes eram ruins também. No caso de Dakota, ela não se ajudou estrelando, anos depois, o ainda pior “Madame Teia”, em 2024. Aos mais atentos, contudo, houveram indícios de sua competência, no remake de “Suspiria”, de 2018, conduzido por Lucca Guadagnino, e no desafiador “Papai”, de 2023 (um filme narrativamente espartano ambientado quase todo dentro de um carro), ao lado de Sean Penn.

Foi em 2025 que Dakota pode mostrar em dois belos e consistentes projetos a atriz maravilhosa, intuitiva, encantadora e promissora (características que espelhavam sua mãe, a veterana Melanie Griffith) que ela é: “Amores À Parte” e este “Amores Materialistas”.

Após do sucesso de seu “Vidas Passadas”, a diretora Celine Song mergulhou num projeto de predisposições emocionais similares ainda que mais audacioso na questão comercial e nos valores de produção.

O trio de astros (além de Dakota, o “Capitão América” Chris Evans e o Reed Richards de “Quarteto Fantástico-Primeiros Passos” Pedro Pascal) interpreta as três pontas de um triângulo  amoroso que parece levantar questões sobre objetivos práticos de vida em conflito constante com sentimentos de ordem mais abstrata (como o amor) ainda que essenciais na procura pela felicidade, propósito, afinal, de todos nós.

Dakota é Lucy Mason o que poderia se chamar de uma casamenteira moderna: Trabalha numa empresa especializada em providenciar aos clientes (sejam homens ou mulheres) o encontro perfeito; combinando preferências, escolhas e dados de perfil, eles promovem encontros que podem levar à descoberta do tão sonhado par perfeito.

Orgulhosa de ser uma das mais proeminentes em sua empresa, Lucy conquista pela nona vez um encontro que resulta em casamento, comparecendo na cerimônia, ela encontra dois extremos na forma de pretendentes muito reais: De um lado, o irmão do noivo, Harry Castillo (Pascal), rico, charmoso e atraente, aquela espécie de companheiro de tal maneira perfeito e inalcançável que, na empresa de Lucy, chamam de ‘unicórnio’ ele insiste em chamar Lucy para sair, no que é, inicialmente, rejeitado; do outro lado, ela reencontra John Pitts (Evans), ex-namorado dos tempos de juventude, trabalhando como garçom do buffet contratado, o relacionamento com John, a despeito do sentimento genuíno e duradouro envolvido, não foi para frente, devido às ambições materiais de Lucy. Ela almejava uma estabilidade financeira não apenas confortável, mas exuberante; já John não somente era um aspirante à ator pobretão como continuava a ser um aspirante à ator pobretão –e sem muitas esperanças de deixar de sê-lo...

O dilema com o qual a protagonista se defronta é até óbvio (o amor real interessado e inquestionável de John, embora atrelado às provações da classe média-baixa em contrapartida à vida de luxo e riqueza sugerida pelo mais que adequado Harry), mas aqui não deixa de ser contado com charme, observação social apurada e insuspeita primazia, seja na encenação, na direção de atores e na condução do roteiro.

Ainda que excelente, “Amores Materialistas” teve uma repercussão algo problemática entre o público, uma vez que sua equivocada campanha de marketing tentou vende-lo como uma comédia romântica, o que ele definitivamente não é: Celine Song constrói aqui um charmoso drama romântico (adornado, de fato, com muitos dos elementos sedutores das comédias românticas hollywoodianas) sobre a banalização das relações interpessoais, convertidas numa mercadoria intercambiável, manejada por meio de números e estatísticas (uma frase recorrente no roteiro é “A combinação era perfeita!”) despida cada vez mais da empatia para com o outro.

Essa notável perspicácia crítica pode ter feito o público alvo ressentir-se do resultado final, mas, transformou “Amores Materialistas” numa obra inteligente, sensata e anos-luz a frente, qualitativamente falando, de um mero filme de romance.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Lado Sombrio de Hollywood - 1ª Temporada


 Lançada pela HBO, esta série documental em seis episódios esmiúça algumas das situações mais alarmantes surgidas nos bastidores de Hollywood, revelando ao público informações que talvez não fossem de seu conhecimento e mostrando que desdobramentos ocasionados atrás das câmeras podem ser infinitamente mais sórdidos do que podemos imaginar. Com duração de um longa-metragem (cerca de uma hora e vinte e oito minutos), cada episódio traz as observações técnicas, profissionais e éticas da jornalista Scaachi Koul e do psiquiatra Dr, Drew Pinsky, as duas únicas presenças recorrentes em toda série.

No primeiro episódio, somos introduzidos à trama que provavelmente mais escapou ao conhecimento do público (até porque, entre outras coisas, sucedeu-se num período em que a internet não trazia tanta abrangência assim), as obscuras revelações sobre o ator Stephen Collins. Revelado ainda nos anos 1970, graças à participações em “Jornada Nas Estrelas-O Filme” e na série de TV “Tales of Gold Monkey”, Collins rapidamente subiu ao estrelato graças a uma soma favorável de predicados como boas atuações, carisma e ótimas relações-públicas, no entanto, o depoimento de uma jovem que encontrou-se com ele nos anos 1980 – e que transcorre, paralelo à sua ascensão nos anos 1990 – vai desmascarar um lado sombrio que passou completamente despercebido do público e do meio hollywoodiano que o havia enaltecido.

Indícios já estavam lá, desde sempre, como aponta o Dr. Pinsky ao notar sua propensão para escrever romances de cunho erótico com estranhos desvios de comportamento, porém, a reputação de Collins seguia inabalável, ainda mais solidificada depois que ele foi escolhido para interpretar o Pastor Eric Camden na série de apelo religioso/familiar “7º Céu”. Elogiada como uma das mais salutares séries da TV da época pelos valores que passava episódio após episódio (e tendo revelado a estrela Jessica Biel), “7º Céu” durou impressionantes 11 temporadas (de 1996 até 2007) e Stephen Collins foi ovacionado como um dos mais queridos atores da televisão norte-americana por público e crítica.

Foi somente em 2014 que a bomba explodiu e revelações da ex-esposa expuseram Stephen Collins que, em rede nacional, admitiu ter cometido abusos sexuais contra meninas menores de idade nos anos 1970.

No episódio 2 são mostrados alguns casos problemáticos de atores-mirins que enfrentaram revezes imensuráveis quando deixaram de ser criança.

Como Brian Bonsall, intérprete do jovem Andy Keaton, na época com apenas seis anos de idade, na série “Family Ties” – ou “Caras & Caretas” – aquela que revelou Michael J. Fox, antes mesmo de “De Volta Para O Futuro”. Encerrada a série após sete temporadas, Brian (como é passível de acontecer a muitas crianças pequenas no meio) não soube lidar com o término de sua “família” fictícia – que para ele era real – e o resultado foi uma adolescência e juventude problemática, envolvida com drogas e marginalidade.

São mostrados também os casos de Dee Jay Daniels (jovem ator afro-descendente que fez sucesso interpretando o caçula do seriado “The Hugleys”, de 1998 a 2002), de Zachery Ty Bryan (que aos sete anos fez parte do elenco da série de Tim Allen, “Home Improvement”) e Orlando Brown (parte do elenco de “That’s So Haven”, do Disney Channell, de 2003 a 2007). Todos foram incapazes de lidar com a fama quando ela revelou, em algum momento, suas facetas fugazes e ilusórios – e todos decaíram no consumo de drogas ilícitas, no envolvimento com a criminalidade – embora alguns, como Brian e Dee Jay tivessem sido capazes de se reabilitar.

O episódio 3 fala sobre os percalços de abuso profissional perpetrados na famosa série infanto-juvenil dos anos 1990, “Power Rangers”, que começou como um aproveitamento picareta da parte do criador  Haim Saban de sobras de seriados japoneses com direitos autorais comprados a preço de banana (!), com o inesperado sucesso avassalador na TV, a prática de utilizar somente as cenas de ação (e acrescentar cenas de diálogos com elenco norte-americano) transformou “Power Rangers” num fenômeno e seu jovem elenco, em astros. Contudo, o sucesso não trouxe garantias nem estabilidades: O produtor Saban submetia os atores à jornadas físicas extenuantes (a série, afinal, envolvia artes marciais) e seus salários eram negociados por valores irrisórios. As temporadas que se seguiram (num total de assombrosas 28 temporadas, além de especiais para a TV e longas de cinema!), ainda que cada vez mais endinheiradas na produção graças ao sucesso de audiência, provaram que os atores eram descartáveis; eles podiam ser substituídos por outros, sempre que reclamassem, exigissem pagamentos mais justos ou condições  menos severas -e o documentário mostra que foi exatamente esse o destino de Audri Bubois, intérprete original da Ranger Amarela, substituída ainda no episódio-piloto pela asiática Thuy Trang por discordar das políticas de pagamento, e da própria Thuy Trang, que enfrentou, mais tarde, terríveis revezes por tentar lutar por seus direitos e os de seus colegas. O episódio, entretanto, reserva um tempo todo especial para falar de Jason David Frank, intérprete de Tommy Oliver, inicialmente o Ranger Branco e, depois, o Ranger Verde -de longe, o mais icônico dentre todos os atores que participaram de “Powers Rangers” (e o mais duradouro dentre todos também), Jason David Frank se tornou, para os fãs, uma espécie de representante da série em infindáveis excursões por convenções em todo solo norte-americano. Porém, todo o carinho dos fãs não foi capaz de afastá-lo de seus problemas pessoais, do vício em drogas e das crises de depressão que culminaram em seu suicídio em 19 de novembro de 2022.

O quarto episódio foca no reallity show do Canal Bravo, “The Real Housewifes” e seus bastidores pra lá de conturbados, sobretudo, a origem da fortuna de Danielle Staub (uma das estrelas da edição de Nova Jersey do programa), relacionada ao tráfico de drogas; a situação ilícita de Jen Shah (da edição de Salt Lake City), condenada por fraude e lavagem de dinheiro; e (o  relato mais alarmante dentre todos) a terrível condição de violência doméstica sofrida por Taylor Armstrong nas mãos de seu então marido.

O quinto episódio é sobre a Família Von Erich cujos seis irmãos, filhos do lutador Fritz ‘Iron Claw’ Von Erich se tornaram famosos entre os anos 1960 e 70. Entretanto, como uma espécie de maldição reservado à algumas celebridades, cada um dos seis – Jack, Kerry, Kevin, Chris, Mike e David – encontrou um desfecho trágico acometido por diferentes transtornos psicológicos, restando somente Kevin (o principal entrevistado) como único sobrevivente.

Os percalços da Família Von Erich foram transformados num longa-metragem para cinema, “Garra de Ferro”, dirigido por Sean Durkin (de “Martha, Marcy, May, Marlene”), com Zach Efron, Lilly James e Harris Dickinson no elenco, no entanto, as liberdades poéticas em relação à realidade foram tantas que diversos depoimentos (incluindo o do próprio Kevin Von Erich) surgem tentando esclarecer ou corrigir muitas passagens do filme.

O sexto e último episódio aborda várias situações que envolvem stalkers das Celebridades – quando fãs perdem a consciência de seus limites e transformam a admiração por seus ídolos em obsessão – inclusive trazendo o caso mais famoso e aqui tratado com mais superficialidade: O stalker que chegou a invadir a casa de Sandra Bullock!

São também esmiuçados os casos das cantoras Taylor Swift e, em especial (com depoimento da própria), Ashanti, entre outros.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Morra, Amor


 A casa para onde o casal Jackson e Grace (Robert Pattinson e Jennifer Lawrence, ótimos) vão morar foi onde o tio dele outrora se matou. E esse elemento, o do fatalismo inerente, será um dado que irá perpassar toda a trajetória dessa vida a dois investigada com olhar aguçado pela diretora Lynne Ramsay.

Conhecedores do cinema dessa cineasta escocesa sabem que ela não se interessa por realidades felizes ou idealizadas, sabem que a autenticidade de seus personagens se revela aos poucos, gradativamente desfraldando celeumas profundas, algumas inapeláveis. E não deixa de ser algo exatamente assim que ela investiga aqui, contando desta vez com o inestimável talento da estrela Jennifer Lawrence, num papel que guarda inúmeros ecos do mesmo desempenho que ela entregou no filme “Mãe!” – como lá, temos aqui uma jovem confrontada com as difíceis e imprevistas facetas da maternidade, ao mesmo tempo que afastada de todos ao morar num local longínquo. Pois, uma vez instalados na casa – que à propósito, trata-se de uma casa isolada numa área rural de Montana – Jackson e Grace acabam tendo um filho que nasce uns meses depois, ao qual o jovem casal se decide por não dar ainda nome nenhum. Contudo, Grace aos poucos vai experimentando a negligência do marido à medida que ele se afasta cada vez mais sob a justificativa do trabalho. São pequenos, mas pertinentes, os indícios que Lynne Ramsay planta, aqui e ali, de seu distanciamento (a sequência do telefonema em que Grace percebe, pelos sons diegéticos, que ele se encontra em uma lanchonete) e de sua infidelidade (as caixas com preservativos, de existência injustificada, que ela encontra sucessivamente dentro do carro) – e é necessário também mencionar o trabalho sólido e perspicaz de Robert Pattinson numa composição despida de qualquer vaidade.

Todos esses pequenos percalços e atribulações fazem com que Grace comece a se dar conta de que ser esposa e mãe demanda alguns sentimentos de vazio, solidão e desamparo com os quais ela não estava preparada para lidar.

O isolamento – pelo menos, na ótica não muito circunspecta de Jackson – serviria para Grace, uma aspirante a romancista, escrever seu próximo livro, entretanto, o ímpeto para escrever jamais vem, substituído, em vez disso, por uma perda gradual de sua própria identidade, por um vazio que a consome nos dias e noites que se seguem.

O cinema moderno tem sido contumaz num objetivo resgate das celeumas intimistas de uma depressão pós-parto acometida às mulheres em obras mais recentes como “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” ou “Pieces Of A Woman”. A fim de executar uma sondagem de aspectos similares, Lynne Ramsay, neste seu “Die, My Love”, lança mão de circunstâncias peculiares, tão alarmantes quanto mundanas (o ambiente familiar e social onde Grace e Jackson vivem não dá muita margem para a compreensão da condição dela, sendo que os coadjuvantes mais recorrentes são sempre a mãe e o pai dele, vividos por Sissy Spacek e Nick Nolte, respectivamente), de situações incertas onde o cinema permeia aquela fronteira ambivalente entre sonho e realidade, delírio e lucidez (as sequências nebulosas e enigmáticas onde vemos um motoqueiro – a lembrar um intrigante personagem do cultMal do Século” – vivido por Lakeith Stanfield, de “Corra!”, rodeando e cercando a casa de Grace e, mais tarde, convertendo-se numa espécie de amante dela!), e de observações de ordem alegórica (o incêndio a consumir a floresta que circunda a fazenda, mostrado no início do filme e retomado já na sua cena final).

O som e a música contribuem muito para essa desestabilização dos sentidos, num reflexo do estado interior da protagonista e sua luta conta fantasmas internos – o latido de um cachorro comprado por Jackson que, ao longo dos dias, inferniza Grace sem parar; os acordes repentinos de trilha sonora, nem sempre adequada, que irrompem nas cenas apenas para remover o público de qualquer sensação de conforto.

Há um momento, quase inebriante, já perto do desfecho, em que Ramsay chega a sinalizar com a possibilidade de uma final ameno e feliz, um instante onde o amor parece capaz de prevalecer – é quando o casal, a despeito de suas crises, entoa uma mesma música que toca no rádio do carro. Poderia ser até o final do filme, e nele, os talentos de Jennifer e Robert realmente conseguem tirar leite de pedra e emocionar o expectador, mas, Ramsay (como atestam seus trabalhos contundentes e irrefreáveis) não é adepta de finais felizes abruptos. Ela conduz seu filme à já citada sequência do incêndio, justamente para que seu impacto nos faça entender que ela não está, nem de longe, brincando com coisa tão séria.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A Isca


 Um conto peculiar de crime urbano perpetrado por Bertrand Tavernier ainda em meados da década de 1990 que, em si, serve como um espelho das tendências pós-modernas do cinema francês de então, “L’Appât” é uma obra que abraça o clima de estranheza que persiste durante boa parte de sua duração – até, pelo menos, ser substituído pela urgência dramática de um mergulho cada vez maior na crueldade humana – certamente, fruto de uma forte inclinação ao improviso que moveu muitas obras europeias.

A começar o filme, temos a personagem vivida por Marie Gillain (vencedora do Kikito de Melhor Atriz no Festival de Gramado 1995), Nathalie, uma jovem que não se furta em tentar ascender socialmente em Paris usando de sua beleza e juventude; ela guarda consigo uma lista de homens proeminentes e abastados que, noite após noite, encontra para flertes que nunca dão em nada. Nathalie – sem muita certeza do que de fato quer – se equilibra entre uma certa permissividade e uma vontade de preservar sua dignidade e não ceder por completo à prostituição.

Contudo, Nathalie mora com um rapaz – ou melhor, com dois! Ela vive no mesmo apartamento que Eric (Olivier Sitruk) e, junto deste, sempre está seu melhor amigo Bruno (Bruno Putzulu) – Eric mora com Nathalie, mas Bruno é tão onipresente na relação que praticamente mora com eles também.

De início não fica muito clara a dinâmica – resultado muito provavelmente do fato de que o roteiro, escrito pelo próprio Bertrando Tavernier, foi sendo concebido aos poucos, à medida que os realizadores foram compreendendo e moldando os personagens (ainda que mais tarde tenham declarado que a trama foi inspirada no ‘Caso Valérie Subra’, um crime muito comentado à época) – mas, a impressão inicial é a de que Eric e Bruno são dois amigos gays (um casal, talvez) que vivem com Nathalie. Ela até mesmo fica nua de maneira desinibida na frente deles, que agem com indiferença. Contudo, logo notamos: Nathalie é, na verdade, namorada de Eric que, aos poucos se mostra mais violento e truculento, diferente do que demonstrava no começo – ainda que ele e Bruno sejam flagrados assistindo “Scarface” de forma quase hipnotizada (um indício, de repente, da predisposição dos personagens).

Alimentando a ambição de ir para os EUA e lá abrir uma boutique – onde acreditam piamente que irão prosperar – Eric e Bruno têm a ideia de levantar capital o mais rápido possível a fim de custear a viagem deles e a de Nathalie: Roubando.

Não demora para que eles percebam, na lista elaborada por Nathalie, uma forma ideal para procurar alvos em potencial. Em teoria, o discurso de Eric faz a ideia parecer bastante simples: Nathalie telefona para uma das vítimas e marca um encontro, de preferência, na residência do dito-cujo. Aproveitando-se de um momento de distração, Nathalie destranca a porta para que Eric e Bruno (devidamente mascarados) possam entrar, fazendo-se passar por assaltantes aleatórios, sem qualquer relação com Nathalie, que fingirá surpresa enquanto eles saqueiam o que houver de mais valioso no local – dinheiro escondido, de preferência.

Entretanto, o plano que eles acreditavam com tanta certeza que funcionaria logo demonstra suas fragilidades. Cada casa, mansão ou residência é diferente – ora têm um alarme que pode acionar a polícia; ora tem algum convidado capaz de aparecer no momento mais inoportuno, ou qualquer outra coisa – oferecendo algum imprevisto aos jovens criminosos.

Quando enfim eles conseguem concluir as invasões planejadas, outro contratempo: Suas vítimas em geral, os homens de meia-idade que ostentavam um padrão de vida elevado aos olhos de Nathalie, não são assim tão ricos – quanto têm dinheiro, têm em contas bancárias somente; ou usufruem de algum patrimônio, não necessariamente possuindo riqueza dentro de casa.

É parte dessa frustração (além do medo de preservar testemunhas de suas ações) que leva Eric e Bruno a adotar cada vez mais violência para com suas vítimas – o que leva à alguns homicídios, trazendo para eles a atenção da polícia.

Nathalie não deixa de notar um beco sem saída surgir diante de si – conforme as mortes se multiplicam sem, no entanto, não acarretar um ganho financeiro de fato, a circunstância vai deixando Eric ainda mais instável, explosivo e perigoso – embora ela siga servindo de isca para as desafortunadas vítimas.

Em algum lugar dessa obra febril, juvenil, cheia de energia e estranheza, o diretor Tavernier consegue ressaltar, como seu tópico mais contundente, a banalização do mal, ancorando essa reflexão na identificação do público com sua protagonista: Embora sua personagem principal seja amoral e egocêntrica, a atriz que a interpreta, Marie Gillain (de “Inferno” e “Caixa Preta”), consegue ser cativante o suficiente para conduzir o filme de ponta a ponta e ainda conquistar algum interesse do expectador.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tróia


 Em 2004, a superprodução “Tróia” – ou “Troy”, no original – era uma promessa e tanto nos cinemas: Um épico dirigido pelo tarimbado Wolfgang Petersen (diretor alemão que trazia em seu currículo o elogiado “O Barco-Inferno No Mar” e a fantasia “História Sem Fim”), roteirizado por David Benioff (roteirista do lastimável “X-Men-Origens-Wolverine” e da aclamada série "Game of Thrones"), adaptando o poema “A Ilíada”, de Homero, e que ostentava um elenco com nomes como Brad Pitt, Eric Bana, Peter O’Toole, Julie Christie, Orlando Bloom (então em alta com a Trilogia “O Senhor dos Anéis”), Brian Cox, Garrett Hedlund e muitos outros.

Todavia, ao aportar nos cinemas, a empolgação rapidamente foi substituída por um certo descaso: A direção de Petersen era burocrática, desanimada, indicativa de uma carreira que logo chegaria ao seu crepúsculo (depois de “Tróia”, ele só lançou “Poseidon”, de 2006, em Hollywood, e a comédia “Vier Gegen Die Bank”, de 2016, em sua Alemanha natal, até falecer em 2022) e o roteiro (que pretendia-se realista) omitia a intervenção das divindades da mitologia grega nos acontecimentos, preservando elementos pouco palatáveis nos personagens protagonistas que foram mantidos – um dos grandes lapsos em “Tróia” é que, num elenco numeroso e adornado de estrelas de cinema, quase ninguém traz um personagem bem desenvolvido ou uma atuação capaz de se sobressair ao todo – com muita boa vontade, talvez, somente à exceção de Eric Bana...

Uma pena, uma vez que “Tróia” era (ou deveria ser) uma obra onde as ações servem de consequências aos vícios e às virtudes humanas.

1184 A.C. Grécia Antiga. Em Esparta, o Rei Menelau (Brendan Gleeson) recebe os príncipes de Tróia, os irmãos Hector (Eric Bana) e Paris (Orlando Bloom), de índoles distintas – enquanto que Hector, o mais velho, carrega consigo a austeridade como herança de seu reinado e de suas responsabilidades, o mais jovem, Paris, é um jovem mimado e imaturo, cujo semblante de agradável beleza lhe permite colecionar conquistas amorosas.

Será uma dessas conquistas o estopim para uma celeuma sem precedentes: A Rainha Helena, tida como a mulher mais linda do mundo (vivida pela convincente e radiante Diane Kruger) e esposa de Menelau, encanta-se por Paris, tornando-se seu amante e pondo em prática o plano de fugir junto dele para Tróia.

Afrontado, Menelau convoca seu irmão, Agamenon (Brian Cox), um convencido senhor da guerra e, juntando forças, decidem arremessar seus exércitos para cima das defesas de Tróia. A confiança de Agamenon, contudo, tem lá sua razão de ser: Entre suas fileiras está o imbatível guerreiro Aquiles (Brad Pitt, exalando soberba), segundo dizem, abençoado pelos deuses para ser invencível no campo de batalha.

Munido de milhares de outros soldados – entre eles, o estrategista Odisseu (Sean Bean, aqui chamado de Ulisses) e o primo de Aquiles, Pátroclo (Garrett Hedlund, de “Inside Llewyn Davis-Balada de Um HomemComum”) – as forças de Menelau e Agamenon rumam mar adentro em direção à Tróia, governada pelo Rei Príamo (Peter O’Toole), disposto a proteger seus filhos e seu povo das hostilidades iminentes.

Condensada numa obra de profundas intenções comerciais (na qual nota-se com nitidez a predisposição em enfatizar as cenas de batalhas em detrimento de qualquer enredo), esta versão pasteurizada de “A Ilíada” negligencia o potencial de seus personagens – Aquiles, Agamenon, Paris e Menelau surgem reduzidos à estereótipos apáticos, como arrogante, intolerante, mimado e obsequioso, respectivamente – não fornecendo ao expectador um protagonista válido e digno ao qual ancorar seu investimento emocional.

Esse detalhe um tanto prejudicial torna irrelevante alguns dos predicados positivos da produção como a execução caprichada de suas sequências épicas (ainda mais impressionantes hoje, em que o cinema já não entrega tanto empenho na confecção de efeitos práticos, e superproduções em geral padecem de seriedade e dramaturgia) e a beleza física de seu elenco jovem paulatinamente explorada – além de Orlando, Diane, Eric e Brad há também Rose Byrne (no papel de Briseis) e Saffron Burrows (Andrómaca, esposa de Hector).