sexta-feira, 5 de junho de 2026

Mestres do Universo


 A concepção do desenho animado “He-Man e Os Mestres do Universo” já é uma história bastante difundida na cultura pop – a de que a Mattel (empresa fabricante de “Barbie”) recusou a proposta (que mais tarde se provou milionária) de um certo George Lucas para fazer uma linha de brinquedos baseada em seu filme “Star Wars”. Com o sucesso da concorrência, a Mattel correu atrás do prejuízo tentando lançar sua própria linha de brinquedos infanto-juvenis baseado numa obra de fantasia. A ideia de fazer isso com “Conan” (personagem que vinha fazendo sucesso com o filme live-action de 1982) não vingou porque o personagem era desde a gênese deveras violento para crianças pequenas, contudo, executivos notaram que bastava mudar a cor do cabelo do personagem principal (alterado do preto para o loiro, causando um ligeiro estranhamento em contraste com a pele bronzeada) e havia toda uma linha inédita e original de brinquedos.

Sem uma obra prévia de introduzisse o conceito para as crianças consumidoras do brinquedo, a Mattel produziu breves histórias em quadrinhos que acompanhavam os bonecos a fim de lhes proporcionar um background, no entanto, logo seguiu-se a ideia de produzir toda uma série de animação (a cargo da produtora Filmation) que se encarregasse de mostrar ao público-alvo toda a mitologia concebida a partir dos bonecos – uma prática que, dado o estrondoso sucesso, tornou-se regra mercadológica nos anos 1980.

A fim de contornar as críticas – que apontavam o desenho como uma mera propaganda de marketing estendida, visando apenas divulgar um produto – os produtores acrescentaram, ao fim de cada episódio de “He-Man e Os Mestres do Universo”, uma breve mensagem moral.

E o resto, para você que tem por volta de seus 40 e tantos anos, é História.

Toda essa volta é para contextualizar as circunstâncias inusitadas por meio das quais surgiu uma das obras mais emblemáticas para quem foi criança nos anos 1980, e que culminou no filme “Mestre do Universo” lançado agora em 2026.

Não foi a primeira adaptação cinematográfica, é bom dizer: Lançado em 1987, pela produtora picareta Cannon Films, “Mestres do Universo” trazia Dolph Lundgreen escalado como He-Man numa trama cujo baixo-orçamento não permitia fidelidade absoluta ao desenho animado (uma mescla exultante entre fantasia e ficção científica) e que acabava adotando como ambientação um subúrbio qualquer de Nova York (!). Apesar dos lapsos imensos de produção, esse filme, hoje, é lembrado com carinho como uma espécie de ‘prazer culposo’.

Mas, vamos falar do filme de 2026.

Nele, o planeta Etérnia – lar dos personagens e palco dos embates entre o Bem e o Mal – surge materializado por efeitos especiais de ponta. O reino governado pelo rei Randor (James Purefoy) e pela rainha Marlena (Charlotte Riley, de “No Coração do Mar”) que, diga-se, veio da Terra, é detentor do lendário Castelo de Greyskull, cujos poderes encontram-se depositados na Espada do Poder, a ser empunhada, segundo a sábia Feiticeira (Morena Baccarin) por seu vindouro campeão. Todavia, surgem as forças do Mal manifestadas no perverso Esqueleto (Jared Leto) que ataca o reino, aprisiona o rei e a rainha, e ainda oprime todo o povo, almejando tomar para si os poderes de Greyskull. Isso só não acontece porque o príncipe Adam, ainda uma criança, sob a orientação da Feiticeira, é enviado junto da espada para o planeta Terra, outrora lar de sua mãe.

Mas, Adam acaba perdendo a espada (sua conexão com o mundo de Etérnia), levando cerca de quinze anos para reencontrá-la – e então, após esse salto temporal, já vemos Adam vivido por Nicholas Galitzine (de “Uma Ideia de Você”), o novo intérprete do personagem.

Embora essa primeira parte forneça uma apresentação simbólica e tenha uma função narrativa de origem para dar o pontapé inicial no enredo, muitos fãs torceram o nariz para essa ambientação na Terra, recordando das escolhas um tanto equivocadas do filme de 1987 (ainda que isso também abra espaço para uma divertida participação especial do próprio Dolph Lundgreen em pessoa). Contudo, o trecho da Terra é rápido, elíptico até (atropela até algumas informações importantes que podia ter fornecido do tempo em que Adam ficou por aqui) e, quando menos se espera, o expectador já foi devidamente arremessado de volta à Etérnia: Ao finalmente reencontrar sua espada, Adam consegue trazer seus aliados para a Terra – na verdade, é Teela (a maravilhosa brasileira Camila Mendes), sua amiga de infância, quem vem lhe resgatar – e seus adversários também – ele é perseguido pelo bestial Homem-Fera!

Em Etérnia, Adam – que ainda está a se adaptar aos poderes assim descobertos da espada – reencontra os guerreiros dos quais se recordava na infância – personagens característicos e clássicos da animação como o pai de Teela, Mentor (o sempre sensacional Idris Elba), Fisto (Jóhannes Haukur, de “Atômica”), Aríete (Jon Xue Zhang), Mekaneck (James Wilkinson) e Roboto (voz de Kristen Wiig) – que formam agora, uma resistência contra as forças do Esqueleto. Não demora muito para Adam finalmente descobrir os meios que a Espada do Poder tem para convertê-lo no poderoso He-Man (esse nome só é revelado no desfecho) e fazer dele o tão aguardado Campeão de Etérnia, a fim de livrar o povo do Esqueleto.

Desde exibições-testes preliminares já havia surgido o comentário sobre a imensa semelhança deste projeto com “Thor-Ragnarok” – e a similaridade, de fato, não parece ser por acaso, ela parece ser proposital: Desde o colorido característico e nada sombrio dos efeitos visuais, figurinos e direção de arte, passando pela trilha sonora que, entre outras coisas, traz o guitarrista Brian May (do “Queen”!), até o próprio roteiro que não economiza em referências e na famosa e apetecível fórmula de muita ação e aventura mesclada ao humor inofensivo e ocasional (ainda que algumas piadas revelem um duplo sentido), tudo nesta produção evoca o filme de Taika Waititi em particular, e o estilo da Marvel Studios em geral.

A direção de Travis Knight (de “Bumblebee”) se baseia integralmente na animação clássica da década de 1980 (com algumas poucas menções às reinvenções que o próprio desenho sofreu ao longo dos anos) e investe de ponta a ponta em nostalgia, buscando uma modernização por meio da identificação e humanidade dos personagens, trazendo elementos motivacionais em voga como empatia e sinergia (não à toa, o herói na Terra trabalhava no setor de Recursos Humanos!). Até mesmo o vilão Esqueleto é representativo de uma maldade translúcida, sem preocupações com um aprofundamento que lhe desvirtue uma certa galhofa inerente ao personagem.

Em resumo, “Mestres do Universo” é uma obra recheada de boas intenções, personagens pra lá de carismáticos e uma mitologia tão atraente quanto mirabolante (ainda que, com isso, pese a mão em alguns momentos de drama ou de comédia), seu sucesso comercial – notadamente almejado no estilo um pouco pedante que evoca – pode abrir as portas para toda uma nova franquia nas telas de cinema (com desdobramentos sugeridos, inclusive, numa de suas três cenas pós-créditos). Um trabalho feito com coração, mas, não sem um mal disfarçado planejamento mercadológico, aliás, exatamente como o desenho animado que lhe deu origem.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dinheiro Suspeito


 Melhores amigos na vida real, os astros Matt Damon e Ben Affleck já dividiram a cena diversas vezes em filmes como o premiado “Gênio Indomável” (praticamente a estréia dos dois) ou o bizarro “Dogma”, de Kevin Smith. Em “Dinheiro Suspeito” – ou “The Rip”, o título original – eles voltam a fazê-lo desta vez do alto de uma carreira já consagrada e com anos de experiência nas costas – o que confere a ambos bagagem suficiente para interpretar magistralmente os dois protagonistas.

Dirigido brilhantemente por Joe Carnahan (realizador extremamente talentoso para com o gênero policial tendo assinando o magnífico “Narc”), “Dinheiro Suspeito” reflete um cinema que, em grande medida, já não é mais feito – uma obra sólida, enxuta, sem firulas, sobre personagens sem firulas existindo no limiar de extremos da Lei, da violência e da criminalidade, lembra muito (como quase todo o cinema de Carnahan) as produções cheias de energia, ênfase e personalidade realizadas nos anos 1970.

“Dinheiro Suspeito” já começa sem qualquer receio de expor o expectador à diálogos carregados de densidade: Sob a atmosfera já pesada de um escritório da polícia, o Tenente Dane Dumars (Matt Damon, ótimo) tece uma conversa com seu superior. A Capitã Jackie Velez (Lina Esco, de “London”), responsável pela investigação aos desdobramentos de um cartel de drogas em Miami, acabou de ser morta num violento e misterioso atentado. A suspeita recai sobre seus próprios colegas – a corregedoria acredita que foram policiais corruptos, na folha de pagamento dos traficantes, que perpetraram o atentado, e para tanto, agentes federais, representados entre outros pelo implacável Del Byrne (Scott Adkins), mobilizam uma bateria indigesta de interrogatórios a todos os membros da Unidade de Narcóticos do Departamento de Polícia de Miami, inclusive J.D. Byrne (Ben Affleck, surpreendente), seu próprio irmão!

A suspeita paira no ar.

Para Dane, J.D. e os agentes Numa Baptiste (Teyana Taylor, de “Uma Batalha Após A Outra”), Lolo Salazar (Catalina Sandino  Moreno, de “Maria Cheia de Graça”) e Mike Ro (Steve Yeun), os demais integrantes da força-tarefa, a Cap. Velez (que, à propósito, estava envolvida com J.D.) esbarrou numa descoberta bombástica – e que talvez seja a confirmação do que até então era uma lenda urbana: Paióis de dinheiro mantidos por cardéis que armazenam quantias tão assombrosas de dinheiro do tráfico que qualquer policial, honesto ou não, se sentiria compelido a pegar um pouco para si.

Engessados pela burocracia do sistema, abalados pelos detalhes nebulosos da investigação da Cap. Velez – detalhes estes que, em grande parte, parecem ter morrido com ela – e subitamente inseguros em depositar confiança absoluta uns nos outros, J.D., Numa, Lolo e Mike resolvem seguir Dane numa apreensão de dinheiro sugerida pelo que talvez seja uma dica anônima.

Com a noite a cair sobre Miami, eles chegam a um bairro residencial de Hialeah onde mora Desi (Sasha Calle, de “Flash”), uma jovem que alega inocência e afirma tão somente estar ocupando a casa de foi de sua falecida avó. Os policiais adentram o recinto e, numa busca, descobrem um paiol com a alarmante quantia de 200 milhões de dólares (uma das maiores apreensões de dinheiro já feitas!) – quando a dica anônima sugeria meros 150 mil!

Instala-se um clima de preocupação: Um valor tão grande não pode passar despercebido aos traficantes, ou mesmo aos policiais corruptos que os ajudam – o grupo de Dane, portanto, corre perigo. É questão de tempo até que inimigos fortemente armados caiam sobre eles. No entanto, segundo a Lei, eles não podem deixar o local sem ante fazer a contagem – e, de novo, ainda pesa a questão de que talvez não possam confiar uns nos outros.

Não existem distrações redundantes nem desvios melindrosos no filme de Joe Carnahan, o que ele constrói com habilidade espantosa é um trabalho básico, tenso, decorrido numa única noite e ambientado quase que totalmente num único lugar (ainda que seu refinamento cinematográfico evite qualquer impressão teatral). Seus atores estão em ponto de bala (não me lembro quando foi a última vez que vi Ben Affleck tão bem), seu roteiro (assinado por ele próprio e por Michael McGrale) além de engenhoso e meticuloso, aborda aspectos distintos da atividade policial e gerencia elementos que desembocam em revelações surpreendentes na parte final, e sua direção extremamente segura e absorvente equilibra com rara primazia as sequências explosivas de ação (ainda que, no clímax, ele exagere um pouco nesse quesito), a tensão gradual e crescente e a manutenção louvável de um enredo sempre em desenvolvimento, trazendo até o fim novas informações ao público.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Os Implacáveis


 Considerado o último grande filme do astro Steve McQueen, “Os Implacáveis”, ou “The Getaway”, foi realizado por Sam Peckinpah um ano após ele entregar uma de suas obras-primas, “Sob O Domínio do Medo”. Em grande medida, pode-se apreender que Peckinpah tece um sutil diálogo entre esses dois trabalhos: Em ambos, há uma apurada observação do diretor sob os efeitos corrosivos que as escolhas eventuais (e justificadas por necessidades muito particulares) podem impor ao relacionamento de um casal. Claro que junto disso, Peckinpah orquestra um tratado de edição simultânea onde a ação do ser humano está em justaposição àquilo que ele pode fazer, aquilo que ele fará e o que poderia ter feito. É um jogo existencial (e certamente cruel) entre convicções, arrependimentos e reviravoltas infelizes. Mas, vocês já entenderão melhor...

Quando começa “The Getaway”, o protagonista de poucas palavras, Doc McCoy (Steve McQueen, sempre marrento e supino), se encontra encarcerado numa prisão, e a montagem simultânea, inteligente e instintiva de Peckinpah almeja, já ali, demonstrar o que se passa no âmago em ebulição desse personagem inicialmente tão impassível e inabalável. Após quatro anos e várias tentativas negadas de liberdade condicional, Doc está farto: Ele pede à esposa, a dedicada Carol (Ali MacGraw, de “Love Story”), que entre em contato com Jack Beynon (Ben Johnson), um figurão do crime, para que mexa seus pauzinhos e o tire da prisão –favor que, Doc sabe, terá de pagar com algum serviço sujo.

As engrenagens desse mundo do crime assim esboçado por Peckinpah (e roteirizado por Walter Hill, a partir do livro de Jim Thompson) não tardam a se movimentar: Doc ganha a liberdade e, com isso, deve encabeçar um pretensioso assalto a banco, de onde haverão de ser roubadas as reservas financeiras de uma refinaria de petróleo. Os capangas que irão auxiliá-lo na operação (além da própria Carol) são o jovem e errático Frank (Bo Hopkins, de “Meu Ódio Será A Sua Herança”) e o cruel e indiferente Rudy (Al Lettieri, de “Desafiando O Assassino”). Durante o assalto a afobação de Frank quase põe tudo a perder enquanto Rudy, por sua vez, não deixa de tentar um previsível ato de traição –terminando alvejado por Doc.

O pior, contudo, é o inesperado: Doc descobre que Beynon exigiu de Carol favores sexuais para que ele fosse libertado, e com isso, ela e Beynon tinham um arranjo no qual deixavam Doc para trás na intenção de ficar com o dinheiro. Na hora da revelação, Carol até se volta contra Beynon e o mata a tiros, entretanto, já é tarde: A descoberta já minou completamente a confiança que Doc tinha nela e comprometeu seriamente a possibilidade de ficarem juntos. Isso será uma sombra agourenta que haverá de pairar sobre o casal protagonista até o desfecho de “The Getaway”.

Assim sendo, por mais que tenham em seu encalço o ensandecido Rudy (que, ainda ferido, consegue sequestrar um casal e levar os dois à conduzi-lo atrás dos personagens principais), e o irmão de Beynon, Cully (Roy Jenson, de “Ouro É O Que Vale”), todos dispostos a vingarem-se e a ficar com o dinheiro, esses muitos percalços (e outros tantos que ainda virão) servem como reflexos do abalo periclitante sofrido pela relação de Doc e Carol. O protagonista, por sua natureza truculenta, machista e, hoje, certamente antiquada, não suporta conviver com o fato de que sua esposa deitou-se com outro homem, e isso haverá de atormentá-lo.

Ainda que imperfeita, a manutenção dos elementos de “The Getaway” por seu diretor Peckinpah (elementos estes que em grande medida definem seu cinema) permite enxergarmos o filme como uma grande alegoria sobre o relacionamento a dois – o casal protagonista composto pela machão (subitamente confrontado com a ilusão de sua masculinidade infalível) e a mulher (o indivíduo disposto a se sacrificar, se ferir e sangrar em nome do casal, mas sem necessariamente levar em conta as convicções do próprio marido) precisa alcançar o fundo do poço – representado, com mais ênfase, na escapada a bordo da caçamba de um caminhão de lixo, um ciclo de derrocada e redenção – para então emergir de lá renovados e reunidos sob essa nova concepção de quem um é para o outro.

Na década de 1990, “The Getaway” foi refilmado tendo o mesmo roteirista original, Walter Hill, a frente do argumento; aqui  no Brasil saiu com o título “A Fuga”, e foi estrelado por Alec Baldwin e Kim Basinger –tratava-se de uma produção que modernizou muito do enredo criminal esboçado já no livro de Thompson, mas que também agregou elementos do cinema comercial de então –mais sangue, mais violência, mais ação e uma desconcertante pitada de nudez e sexo –resultando numa obra até satisfatória, mais longe de ser memorável como este aqui.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Spider-Noir - 1ª Temporada


 Os diretores Phil Lord e Christopher Miller, de “Homem-Aranha No Aranhaverso”, na qualidade de produtores (e, portanto, plenos de controle sobre o material final) escancaram, nesta arrojada série da Amazon Prime e produzida pela Sony Pictures, o seu irreprimível apreço pelo subgênero do film noir.

Concebendo um novo personagem a partir da variante detetivesca e monocromática do Homem-Aranha que havia dado as caras em “Aranhaverso” – e que lá era, inclusive, dublada por Nicolas Cage – Lord e Miller dão origem à um novo personagem; e que difere, por sinal, até mesmo da fonte original dos quadrinhos.

Nesta série, elaborada num vistoso e atmosférico preto & branco – mas, liberada também numa versão em cores – o próprio Nicolas Cage (como não poderia deixar de ser!) comparece em carne e osso para dar vida ao personagem que antes ele dublou, o assim chamado Homem-Aranha Noir.

Cage é Ben Reilly, um detetive particular na Nova York da década de 1930 – com todas as mazelas sociais de gangsterismo, Grande Depressão e Lei Seca que o noir tão bem soube explorar – que, cinco anos antes, havia sido o herói Spider (ele abandonou a vida de vigilante após ter sido incapaz de salvar a mulher que amava). Tendo pendurado as chuteiras, Reilly agora é um detetive desiludido, ocasionalmente alcóolatra e dedicado aos casos extraconjugais de praxe, que mal pagam seu sustento e o salário da secretária Janet (Karen Rodriguez).

Até o dia em que uma série de casos coincidentemente interligados começam a revelar para Reilly uma curiosa conspiração ocorrendo em meio às sombras do submundo nova-iorquino: Um marido pouco confiável pede que Reilly recolha provas do adultério de sua alegada esposa, a cantora Kat Hardy (a sedutora Li Jun Li, de “Pecadores”) cujos encontros fortuitos são com ninguém menos do que o prefeito da cidade; o ex-combatente desaparecido inexplicavelmente adotado de poderes (relacionados ao fogo, no caso) que incendeia a mansão do chefão Cabelo de Prata (Brendan Gleeson); mais tarde, a própria Kat Hardy requisita os serviços de Reilly para encontrar outro desaparecido, seu amante e guarda-costas, Flint Marko (Jack Huston, da refilmagem de “Ben-Hur”) – em comum entre ele e o desaparecido anterior é que não apenas ambos tinham poderes (os de Marko, relacionados à areia, o que o torna uma perfeita versão noir do Homem-Areia dos quadrinhos do Aranha) como também serviram no mesmo batalhão; como se não bastasse, o Cabelo de Prata em pessoa surge querendo contratar Reilly, desta vez, para descobrir qual é a identidade do traidor que está planejando sua morte – de cujo plano, inclusive, faz parte o incêndio em sua mansão.

Seguindo com paixão e afinco cada um dos tópicos do Film Noir episódio após episódio, a série tem o bom senso de permitir que suas escolhas felizes ditem o rumo de sua realização: Nicolas Cage, pra variar, está sensacional na sua mescla empenhada do habitual caos interior com um pastiche cheio de propriedade de Humphrey Bogart (ainda que o caimento do clássico chapéu de detetive, em Cage, esteja a léguas de ficar tão bem como era em Bogart), a produção compreende os predicados do subgênero de manipulam e faz disso um dos achados da narrativa, na ênfase em sua reconstituição de época, e no preciosismo de seus figurinos, e o roteiro organiza e dispõe um novelo de tramas misteriosas, motivações nebulosas, segredos, mentiras e femme fatales, como num bom film noir para conduzir o saboroso suspense de seu  enredo.

domingo, 31 de maio de 2026

Meninas Malvadas


 Alguns cinéfilos com um pouco mais de idade certamente testemunharam o fenômeno por meio do qual filmes contemporâneos acabam se tornando clássicos; filmes lançados sem muita certeza de seu desempenho comercial ou crítico terminam virando, com o passar do tempo, referências dentro de seu gênero. Lançado em 2004 (época da qual me recordo perfeitamente), “Meninas Malvadas” –ou “Mean Girls” –dirigido por Mark Waters, é um desses casos, e a comprovação disso vem do fato de que, em 2019, ele ganhou  um remake musical na Broadway (assim como, por exemplo, “O Fantasma da Ópera”) e, vinte anos depois, em 2024, foi lançado em cinema, desta vez dirigido por Samantha Jayne e Arturo Perez Jr.

Assim, a narrativa (concebida pela roteirista Tina Fey a partir do livro de estudo comportamental “Queen Bees and Wannabes”, de Rosalind Wiseman) traz a mesma história pontuada por números musicais que tecem um comentário estilizado dos acontecimentos –agora devidamente adaptada aos novos tempos, com temas atuais como sororidade, o cancelamento social, o bullying (seja o digital ou social), o vício em mídias digitais, a diversidade, a inclusão e a independência feminina. Desnecessário dizer que muitos dos atores já presentes na versão dos palcos repetem seus personagens aqui neste filme.

É o caso de Reneé Rapp que vive a antagonista Regina George –vivida, no filme de 2004 pela sensacional Rachel McAdams. Entretanto, tudo começa mesmo com Cady Heron (Angourice Rice, de “Dois Caras Legais”, num registro bem distinto de Lindsay Lohan). Moradora do Quênia junto de sua família, Cady –que foi educada em casa –precisa se mudar para a cidade de Illinois com seus pais e, pela primeira vez, frequentar um colégio público.

Entretanto, se as matérias escolares não oferecem qualquer empecilho (Cady é uma jovem inteligente), a questão da interação social é: Inicialmente, Cady demora a conseguir fazer amigos. Aos poucos, porém, ela faz amizade com os ligeiramente desajustados Janis (Auli’i Cravalho, que dublou a protagonista da animação “Moana”) e Damian (Jaquel Spivey), e descobre, por meio deles, que há uma espécie de hierarquia muito delicada e complicada estabelecida no lugar pelas próprias garotas.

E quem ocupa o topo dessa cadeia social como a realeza do lugar são as plastic girls, o grupo das patricinhas da escola composto pela poderosa, popular (e perigosa...) Regina George, e suas, digamos, asseclas, Karen (Avantika Vandanapu, no papel que antes foi de Amanda Seyfried) e Gretchen (Bebe Wood, personagem outrora vivida por Lacey Chabert). Em meio à isso, Cady se apaixona por Aaron (Christopher Briney), um estudante de sua classe de matemática, e que vem a ser ex-namorado da própria Regina George, contudo, é a própria Cady quem acaba fazendo amizade com as plastic girls, integrando o grupo e, pouco a pouco, se tornando uma delas.

Uma obra simpática, agradável e com um elenco bem acertado (salvo Ashley Park e Jon Hamm, ligeiramente deslocados do tom), e uma ponta muito especial de Lindsay Lohan –é claro que na comparação, este “Mean Girls”, de 2024, não se equipara, na comédia demolidora e na crítica ferina, ao ótimo filme de 2004, justamente pela questão do politicamente correto que não engessava as obras de humor de antigamente como faz com as atuais (isso aquelas que ainda chegam a ser realizadas!). No mais, acredito que para todos os públicos em geral, é impossível que essa mistura de drama juvenil e comédia, conflitos adolescentes femininos e intrigas estudantis, ainda mais adornadas com descontraídos números musicais, não faça lembrar a conhecidíssima série “Glee” composta de praticamente esses mesmos expedientes e essa mesma ambientação.

sábado, 30 de maio de 2026

Avatar - Fogo e Cinzas


 Se há um filme atrelado à expectativas, esse filme é “Avatar”. Não há como se preparar para assisti-lo sem esperar por uma experiência visual sem precedentes. Esse é, pois, o fantasma que assombra as suas continuações. A primeira delas, “O Caminho da Água”, lançada catorze anos depois do filme original, revelou-se uma obra um pouco menos ambiciosa, no sentido de que se debruçava sobre uma trama mais voltada aos seus protagonistas, Jake Sully e Neittiry, e aos filhos de tiveram nesse interim, e menos ao mundo vasto, imaginativo e alienígena que os cercam. O senso de proporções épicas e míticas volta, porém, a dar o tom neste terceiro filme, “Fogo e Cinzas”, num esforço genuíno e nítido para ir além do segundo filme – e, se possível, do festejado primeiro filme também.

É curioso que James Cameron, o criador, parece consciente de que são justamente os personagens novos, criados a partir de “O Caminho da Água”, bem como as inusitadas dinâmicas entre eles, que trazem um sopro de ar fresco à trama, uma vez que ela se atreve a repetir alguns tópicos do filme original.

Após os acontecimentos do filme anterior (que, diferente do filme de 2009, se sucedem simultaneamente neste daqui, sem saltos temporais), Lo’ak, o filho de Jake e Neittiry, ainda se sente culpado pela morte do irmão, enquanto Jake e Neittiry vivenciam o luto, cada um ao seu jeito: Jake reúne armamento obcecadamente, preparando-se para as hostilidades por vir; Neittiry se refugia na oração e na fé.

O lugar onde estão instalados –lar do Clã Metkayina, os Na’Vi aquáticos –está por receber comerciantes vindos das grandes florestas –e para lá destinados a voltar. É quando Jake decide enviar com eles Spider (Jack Champion), o humano que ele e Neittiry criaram como filho. Spider é, na verdade, filho biológico de Miles Quaritch (Stephen Lang), grande vilão da história (ainda que os conceitos de vilão comecem, aqui, a serem pouco a pouco revistos), e como Spider depende de máscaras de oxigênio para não sufocar com o ar do planeta Pandora, a decisão visa deixa-lo em segurança.

A família (Jake, Neittiry, Lo’ak e as filhas Kiri –na verdade, nascida do corpo Na’Vi da Dra. Augustine, do primeiro filme –e Tuk) toda o acompanha nessa espécie de despedida. São atacados (pelo próprio pessoal de Quaritch), e muitos perdem-se nas florestas de Pandora. Descrevendo, parece uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, mas, a narrativa de “Fogo e Cinzas” evoca um tom de contemplação por meio do qual, por um tempo considerável de filme, não registramos necessariamente nenhum acontecimento –ainda que a habilidade de James Cameron na direção mantenha o andamento sempre impecável –não à toa “Fogo e Cinzas” é o mais longo dentre todos os três filmes produzidos até então.

À beira da morte quando seu oxigênio por fim se esvai, Spider é salvo quando Eywa, a divindade que habita Pandora, resolve salvá-lo modificando seu sistema nervoso, tornando-o o único humano capaz de respirar a atmosfera de lá.

Contudo, agora o Povo do Céu –como os nativos de Pandora apelidaram os insensíveis invasores humanos –quer encontrar Spider de qualquer forma: Eles compreendem que ele tem a chave para que a Humanidade possa, de uma vez por todas, se estabelecer em Pandora para extrair suas riquezas naturais. A missão de Quaritch, portanto, além da vingança contra Jake Sully esboçada no filme anterior, é também encontrar e capturar seu próprio filho.

No escopo épico (para além dos filmes anteriores) que almeja para sua obra, Cameron não se restringe somente à esse conflito: Ele também explora (tornando este o grande diferencial de “Fogo e Cinzas”) uma outra beligerante e agressiva tribo de Na’Vi em Pandora, o Povo das Cinzas, cuja cultura repele a predominante adoração à Eywa, para abraçar um culto ao fogo e à destruição que ele é capaz de promover. Sua líder é a psicótica Varang (Oona Chaplin) que, num acordo fechado com Quaritch, acaba munindo seus guerreiros com armas pesadas na intenção de sobrepujar todos os outros Na’Vi.

O outro conflito de “Fogo e Cinzas” que ganha força na metade final (e serve, de modo geral, para amarrar as pontas soltas do enredo) é a tentativa dos humanos em empreender um último ataque aos Tulkun (as gigantescas e inteligentes baleias alienígenas que sofrem dos humanos a mesma crueldade insana que as baleias reais aqui na Terra) o que pode levar à extinção da espécie –essa batalha grandiloquente ocupa todo o longo clímax final, justapondo os Na’Vi da floresta e dos mares num combate contra os exércitos dos humanos e do Povo das Cinzas (um confronto que espelha bastante a batalha final do primeiro “Avatar”), e num nível mais íntimo, temos também cada um dos personagens protagonistas, e suas peculiaridades, sendo trabalhadas ao longo do acontecimento: Lo’ak e sua complicada relação com o pai; Neittiry e sua tentativa de equilibrar a natureza de guerreira e de mãe; Spider dividido entre sua humanidade (que o relaciona aos próprios inimigos que enfrenta, incluindo o pai) e a lealdade ao povo Na’Vi; Kiri e a descoberta de suas origens e de uma conexão ainda mais profunda com Eywa.

Aliás, o aspecto espiritual é um fator da mitologia de “Avatar” que surge muito melhor explorado aqui (embora, de novo, muitas dessas ideias terminem levando à cenas de ação que correm o risco de soarem repetitivas em relação aos filmes anteriores) o que sinaliza caminhos um bocado interessantes a serem explorados nas continuações.

Desnecessário dizer que visualmente “Fogo e Cinzas” é um espetáculo atordoante (por mais incrível que possa parecer, James Cameron continua bem sucedido em superar a si mesmo, filme a filme, em termos visuais e técnicos), sobretudo, àqueles que forem conferir seu primoroso aparato em 3D, e só isso já vale, em si, toda a experiência de assistir ao filme nos cinemas, a sua trama, entretanto, carece de polimento e ostenta consideráveis lapsos de imperfeição apesar dos visíveis esforços. Mas, bem... essa já era uma característica presente desde o primeiro “Avatar” –e nunca resultou numa preocupação maior da parte de James Cameron.