Como (ou por que) fazer uma continuação de um filme que, em si, já era uma obra enxuta, fechada e redondinha? É essa pergunta que “O Diabo Veste Prada 2” tenta responder cerca de 20 anos depois do filme original observando um viés bastante pertinente nas circunstâncias atuais – e que representa uma espécie de desafio temático para muitos realizadores – o fato irreversível de que o mundo está mudando.
Sem um livro-fonte para adaptar desta vez (o
primeiro filme adaptava o best-seller de Lauren Weisberger, que jamais ganhou
continuações), o roteiro de Aline Brosh McKinna trabalha em duas frentes
principais: Na primeira, evidentemente, contemplando os vinte anos que se
passaram, os efeitos disso no mundo da moda registrado em 2006 e agora em 2026,
e certamente, nos personagens principais e em suas vidas; na segunda, no
elemento intrínseco que funcionou às mil maravilhas no original (e que
representou um certo diferencial entre o livro e o filme que dele resultou), os
próprios personagens, seus intérpretes e a rica variedade cômica de suas
interações.
Agora uma jornalista premiada, Andy Sachs (Anne
Hathaway) testemunha a contradição dolorosa dos tempos modernos e
desfavoráveis: Na mesma noite em que é vencedora de um prestigiado prêmio de
jornalismo, ela (junto de todos os seus colegas) acaba demitida; o jornal
impresso para o qual trabalhava não bancará mais matérias jornalísticas ao
estilo de antigamente – somente as pautas rápidas produzidas na internet, por
influenciadores e youtubers parecem importar no meio.
Paralelamente, um problema parecido está sendo
enfrentado na RunWay, a revista de moda para a qual ela trabalhou no passado: A
editora-chefe, a toda-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) pode estar com
seu emprego ameaçado. A revista – que há tempos restringiu-se a ser digital –
está passando por uma reformulação, fruto da influência cada vez maior do jovem
Jay Ravitz (B.J. Novak, de “Bastardos Inglórios”) sobre o pai Irv Ravitz (Tibor
Feldman), o presidente da RunWay, e também consequência do interesse cada vez
maior do novo público por informação ágil.
Como se não bastasse, uma matéria desfavorável
e equivocada publicada recentemente na revista afastou anunciantes,
comprometendo a imagem de Miranda. A saída termina sendo contratar Andy como
editora principal das reportagens da revista, buscando um tom mais sério,
respeitável e que, ao mesmo tempo, alcance novos leitores.
O que vemos é, assim, um retorno às
circunstâncias do primeiro filme – Andy trabalhando sob o crivo impiedoso de
Miranda – desta vez, ligeiramente transfiguradas por características inerentes
aos novos tempos: Ainda difícil de lidar (como atestam sucessivas situações
envolvendo, sobretudo, a perplexa Andy), Miranda já não deflagra impunemente
sua tirania; reclamações constantes feitas do setor de RH a obrigaram a ser
mais moderada!
No entanto, é daí que o filme dirigido por
David Frankel tira seu humor assim renovado – do fato de que as coisas são,
agora, diferentes. O mesmo vale para alguns personagens, como Emily Charlton,
vivida por Emily Blunt. Se no primeiro filme ela era uma das assistentes de
Miranda, neste aqui, ela surge como uma executiva da Dior – uma das empresas
que a RunWay almeja anunciar – e ganha inesperados rumos para sua personagem no
terço final.






