Durante muito tempo o público experimentou a sensação de que o clássico “O Predador”, de 1987, estrelado por Arnold Schwarzenegger e dirigido por John McTiernam, era de uma magia assim irreplicável: As suas continuações, derivados e reinvenções oscilavam entre obras honestas, porém, insuficientes (“Predador 2” e “Predadores”) e trabalhos absolutamente pífios (“O Predador”, de 2018, e “Alien X Predador”) e tão mais ridículos quando cediam à pretensão de superar o excelente filme original.
Em 2022, contudo, algo mudou; ao ser confiado
ao jovem Dan Trachtenberg (do ótimo “Rua Cloverfield, 10”) a franquia
finalmente mostrou o mesmo potencial de seu primeiro filme em “O Predador-A Caçada”, de lá para cá, dentro desse redescoberto universo, Trachtenberg
entregou uma instigante obra de animação (“Predador-Assassino de Assassinos”)
e, em seguida, o que talvez tenha sido sua mais ambiciosa cartada com este
“Predador-Terras Selvagens”.
A primeira e surpreendente manobra do filme é a
forma como escolhe, desta vez, o seu protagonista: Não mais um humano a ser
confrontado com a famigerada espécie alienígena de caçadores interplanetários,
agora, o personagem principal é Dek (vivido sob quilos de maquiagem pelo dublê Dimitrius
Schuster-Koloamatangi), um espécime jovem dessa mesma raça de caçadores
interplanetários! Num lance um tanto ousado, o filme de Trachtenberg converte o
que antes era o antagonista (aparentemente, a regra implícita imutável de todos
os filmes até aqui) no protagonista. No processo, essa alteração permite jogar
alguma luz em elementos da franquia que sempre estiveram ocultos no mistério
–os procedimentos na sociedade dos alienígenas Yautja, seus costumes e sua
hierarquia (até mesmo uma linguagem foi concebida para servir como idioma
Yautja ao longo de todo filme).
Filho mais jovem e mais fraco (lapso do qual é
o tempo todo lembrado), Dek, sendo um membro da brutal raça dos Yautja tem
somente uma escolha: Provar seu valor ou ser morto. Na realidade, não chega nem
a ser muito uma escolha: Se dependesse de seu implacável pai, ele seria morto
instantaneamente (!), é seu irmão mais velho, Kwei, quem sacrifica-se para que Dek
consiga partir a bordo de uma nave para o planeta Genna, de onde só poderá
voltar com um troféu que prove sua força –a cabeça de um monstro jamais caçado,
o Kalisk.
O planeta Genna, no entanto, tem sua fauna e
flora convertidas num emaranhado de armadilhas mortais –sendo o Kalisk apenas a
mais ameaçadora de todas elas!
Mal conseguindo sobreviver às primeiras horas
de sua chegada por lá, Dek encontra os restos mortais de uma androide chamada
Thia (Elle Fanning), cuja metade do corpo –da
cintura para baixo –ela perdeu justamente num encontro com o Kalisk.
Thia é, por sinal, um autômato enviado pela
empresa terrestre Weyland-Yutani (a mesma empresa que surge em “Alien X
Predador”, em “Alien-Romulus”, na série “Alien-Earth” e em diversas outras
produções dessas franquias) para explorar e coletar vários espécimes do planeta
em geral, e o Kalisk em particular.
Ela e Dek estabelecem uma tênue parceria –ele a
ajuda a encontrar o restante do seu corpo para ficar completa e ela o guia ao
paradeiro do Kalisk –entretanto, o verdadeiro problema é mesmo Tessa, a
androide ‘irmã’ de Thia (também ela interpretada por Elle Fanning, saindo-se
maravilhosamente bem na composição de duas personagens de índoles opostas), de
atitude fria, implacável e impiedosa que eliminará qualquer um em seu caminho
para concluir a missão que lhe foi dada.






