Em 1993 o cinema norte-americano enfim prestou um tributo a uma de suas mais reluzentes cantoras – a cinebiografia da icônica Tina Turner foi lançada trazendo no papel principal (e em uma atuação vulcânica) a formidável Angela Bassett – ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz perdendo para Holly Hunter por “O Piano”.
Dirigido pelo inglês Brian Gibson (de “Ainda
Muito Loucos” e “A Jurada”), “Tina” – ou “What’s Love Got To Do With It” – não
escapa de fragilidades convencionais a um filme construído a partir de
conceitos formulaicos e cuja trama, plena de sofrimento e superação, convida a
uma nem sempre apropriada inclinação ao melodrama, mas há um elemento quase intrínseco
que se sobressai a isso tudo em algum momento e faz desta produção uma experiência
comovente.
Caso você não saiba do que o filme se trata – e
com isso, pode nem ter vivido neste planeta (!?) – “Tina” conta a história de
Anna Mae Bullock, neste ponto interpretada pela pequena e notável Rae’Ven Kelly,
menina nascida no interior do Tennessee, abandonada pela mãe e que cresceu
criada pela avó. Ela veio a conhecer a própria mãe e a irmã mais velha já quase
adulta, quando a avó faleceu levando-a para junto do convívio das duas na
cidade de St. Louis. Frequentando o bar no qual a irmã trabalhava como bartender, Anna toma conhecimento da
festejada banda local, liderada pelo carismático Ike Turner (Laurence Fishburne,
também ele indicado ao Oscar de Melhor Ator perdendo para Tom Hanks por “Philadelphia”).
Tradição do local, Ike selecionava garotas entre
as frequentadoras para breve tentativa como cantora ali perante o público. Após
algumas noites, Anna é escolhida e demonstra para todos a capacidade vocal que,
quando criança, já chamava a atenção para si no coral da igreja.
Ike enxerga nela o talento que poderia vir
finalmente a fazer sua banda de Blues, The
Kings of Rythm, crescer e acontecer. Com sua lábia privilegiada, ele
convence a mãe de Anna a deixar a filha fazer ininterruptas jornadas noite
adentro ensaiando e gravando canções com Ike e seus músicos.
Não demora para que ela passe a participar de
extenuantes turnês junto da banda, e também para que Ike faça dela sua esposa –
ainda que ela ignore o fato de que, pela cama de Ike, passavam todas as
mulheres que integravam a banda.
Após casada, ela adota o nome artístico de Tina
Turner e, embora fique óbvio que o sucesso da banda e do próprio Ike vem
exclusivamente da força e do talento de Tina nos palcos, isso não impede ela de
vivenciar um verdadeiro inferno e sua vida pessoal: Ike se mostra um marido
negligente e extremamente abusivo e violento, revelando seu temperamento em
agressões físicas que se sucediam independente dos acontecimentos serem bons ou
ruins. Em alguns momentos específicos, o filme deixa bem claro, Ike agredia
Tina pelo simples recalque de perceber que era ela quem o público, os fãs e os
produtores musicais queriam – e ele, posando de marido controlador e empresário
autoritário, tão somente aproveitava-se da situação e do talento de sua esposa.
Todo esse calvário – que perpassa a década de
1960 e vai até o final da década de 1970 – só começa a terminar quando Tina se
converte para o budismo, adquirindo discernimento o suficiente para, num dado
momento, dar um basta em todo aquele abuso.
O filme mostra os primeiros passos de Tina Turner
em sua carreira solo, sobretudo, o lançamento de seu primeiro álbum (mais
tarde, agraciado com o Grammy Awards) onde ela trocou o Blues de suas primeiras
(e sofridas) décadas como cantora pelo Rock’N Roll, estilo dentro do qual ela
se tornou um ícone, quando já se adentrava os anos 1980.
“Tina” poderia tranquilamente ser uma obra
dramática debruçada sobre um esforço compulsivo em denunciar a agressão doméstica
e oferecer um quadro de vítima e abusador corriqueiro ao público, mas não é
isso que acontece.






