Na cartilha moderna dos filmes de terror (e na cartilha clássica, também, por que não) nunca é boa ideia bater na porta de estranhos, seja para quem recebe a visita (“Bate A Porta”, de M. Night Shyamalan); seja para quem se apresenta como uma. Vem a ser exatamente esse o caso das duas incautas protagonistas deste frequentemente surpreendente “Herege”, lançado pela A24 – produtora esta que lançou inúmeros dos singulares sucessos de público e crítica do gênero de terror dos últimos anos.
“Herege”, dirigido pela dupla Scott Beck e
Brian Woods (roteiristas de “Um Lugar Silencioso”), já expõe uma insuspeita
predisposição para surpreender o público na escalação de seu antagonista – um bastante
sumido Hugh Grant que, aqui, surge com os mesmos maneirismos de bonachão que o
fizeram um comediante (e galã romântico) de sucesso no cinema décadas atrás. Agora,
com a idade a lhe pesar nitidamente nas expressões faciais e diante de um novo
contexto, todos esses maneirismos adquirem um novo viés; eles escondem uma
periculosidade, uma psicose latente que deixa, de pronto, o expectador e demais
personagens em estado de alerta.
Mas, eu estou me antecipando. Antes de tudo, as
protagonistas de “Herege” – ou “Heretic” – são as jovens Irmãs Barnes (Sophie Thatcher,
de “Acompanhante Perfeita”) e Paxton (Chloe East, de “Os Fabelmans”), missionárias
da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que – num procedimento
usado, inclusive, por congregações aqui no Brasil – percorrem residências dos
subúrbios, disseminando a palavra divina conforme os dogmas de sua religião e tentando
arregimentar seguidores para sua igreja.
Na iminência de uma tempestade, e com o
anoitecer já sinalizando sua proximidade, elas chegam numa área suburbana com
suas bicicletas até a moradia de um certo Sr. Reed.
Após baterem à sua porta, é um Hugh Grant todo hospitaleiro e sorridente
que as recebe – numa sucessão de gestos corriqueiros que já denota a escolha
interessante e muito indicativa dele para o papel: Como muitos laudos periciais
já deram conta, o perigo de um serial killer é justamente sua
capacidade de se camuflar da mais completa aparência de gentileza e
cordialidade.
As moças atendem seu convite de entrar na sua
residência – está chovendo e ele garantiu lhes trazer uma torta que a esposa
estava preparando – entretanto, uma vez dentro da casa, as garotas começam a
pressentir um perigo iminente. As conversas do Sr. Reed seguem num tom ameno e
polido, mas tomam rumos inesperados. Ele se mostra um ferrenho e inquisitivo
estudioso das religiões e, conforme o tempo passa, parece dotado de um
inconformismo quase violento para com a forma com que os preceitos da fé são
usados como massa de manobra ao longo da História.
Barnes e Paxton, despreparadas para lidar com
tanta erudição desenvolta e também com essa súbita hostilidade crescente, logo,
demonstram vontade de sair dali. Mas, sem aparentar, é quase em uma teia de
aranha que o Sr. Reed as enredou – os casacos delas, que ele gentilmente
guardou, estão com a chave que destranca o cadeado onde deixaram as bicicletas
lá fora (e elas estão a quilômetros de seu destino); as janelas visíveis são
estreitas, sem abertura, e intransponíveis, a porta está trancada e ser um
indício de como pode ser aberta, e a dita Sra. Reed, sob a qual elas,
apreensivas, já perguntaram várias vezes, nunca aparece – e provavelmente,
talvez nem exista!
É um jogo de gato e rato que começa verbal e
comedido, mas vai gradualmente se tornando mais abertamente perigoso e sádico,
e só faz piorar.






