“Superman”, de James Gunn, foi a primeira incursão cinematográfica dentro desse novo universo compartilhado da DC Comics no cinema, ainda almejando levar todo o seu universo de personagens dos quadrinhos para a telona, após a tentativa claudicante de Zack Snyder. Agora, presenciamos a chegada do segundo longa-metragem dessa empreitada, este “Supergirl” – cuja protagonista, interpretada por Milly Alcock, já havia dado as caras, antecipando este projeto, numa cena pós-créditos de “Superman”.
Como era de se presumir, algumas pressões de
ordem artística e mercadológica pairavam sobre a produção: A primeira delas,
adaptar com pomba e circunstância a graphic
novel “Supergirl-Woman Of Tomorrow”, de Tom King, um elogiadíssimo arco de
histórias da personagem que serviu de fonte para o roteiro. As outras
obrigações do filme eram introduzir ao público leigo (sem conhecimento dos
quadrinhos) essa nova personagem tendo em vista a possível comparação com as
versões anteriores (a primeira, no filme B de 1984, vivida no cinema por Helen
Slater; as versões de séries de TV, tendo Laura Vandervoort personificado ela
em “Smallville” e Melissa Benoist vivido a personagem numa série própria do
Warner Channell de 2015 a 2021; e a última versão para cinema, do Snyderverse, interpretada por Sasha
Calle, no irregular “Flash”), e ser, no fim das contas, um sucesso de
bilheteria e um filme bom de fato –
objetivos que, na opinião de muitos, o filme inicial de James Gunn não chegou a
cumprir totalmente.
Ao encontrarmos Kara Zor-El (Milly Alcock,
entregando um bom e dedicado trabalho), prima do Superman, ela está junto de
seu cachorro Krypto, comemorando seu aniversário num outro planeta, irradiado
por sol vermelho – lá, portanto, seu metabolismo kryptoniano não apresenta os
mesmos assombrosos poderes de quando está num planeta de sol amarelo como a
Terra, lá ela pode beber e usufruir dos efeitos do álcool (!?!).
É nessa situação que ela cruza-se com Ruthie (Eve
Ridley), sobrevivente de uma família de ferreiros espaciais dizimada pelo
perverso Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts, num vilão irritante e
completamente subaproveitado). Num argumento que remete muito à “Bravura Indômita”, Ruthie quer vingança, mas sabe que sua juventude e inexperiência a
tornam um desafio irrisório para o seu inimigo. Naquele bar interplanetário (a
exemplo dos bares habituais da saga “Star Wars”), portanto, ela está à procura
de alguém que compre sua causa e a ajude a eliminar Krem.
Num primeiro momento, não é essa a intenção de
Kara – como toda protagonista que se pretende descolada, ela não aceita se
envolver, evitando encrenca – mas, o objetivo se torna pessoal depois que Krem
e seus ‘bandoleiros do espaço’ roubam sua nave e, o pior, alvejam seu cachorro
com uma flecha envenenada, cujo antídoto só ele possui. A motivação –
emprestada sem qualquer disfarce de “John Wick” – dá, assim, o pontapé à
narrativa e toda uma jornada espacial (a lembrar, por sua vez, um road movie) que se desenrola a partir
daí com o roteiro truncado de Ana Nogueira e a direção de Craig Gillespie (do
ótimo “Eu, Tonya”) fazendo o possível (e falhando) em dar ao filme alguma
originalidade – isso porque a cada momento, “Supergirl” evoca uma narrativa já
conhecida, e que funcionou muito melhor antes; e os exemplos são todos os filmes
já citados.
Nem mesmo acréscimos que poderiam dar algum
fôlego à trama (como o Lobo, vivido por Jason Momoa, deixando para trás
“Aquaman” com este novo personagem) ou que poderiam aprofundar a protagonista e
sua jornada (como a revelação de sua origem, extraída da graphic novel, mais sombria e distinta que a de seu primo) ajudam a
tornar o resultado palatável, uma vez que as escolhas, em sua maioria soam
aleatórias e sem razão de ser – uma pena: Não só a composição acertada de Milly
Alcock merecia um filme muito melhor para estrelar, como também o material-base
dos quadrinhos era uma história vibrante, excelente e pronta para ser adaptada
fielmente, sem necessidades de alterações equivocadas.






