terça-feira, 26 de maio de 2026

Hamnet - A Vida Antes de Hamlet


 A diretora Chloe Zhao pode até ter ganhado o Oscar de Melhor Filme por “Nomadland” –e depois debutado na Marvel Studios com “Eternos” –mas, seu melhor trabalho até então é certamente “Hamnet”, uma obra orgânica, intimista e introspectiva que se atreve a tecer um recorte da vida do bardo William Shakespeare sem, no entanto, fazer dele o centro da narrativa: É sua esposa, Agnes (interpretada pela estupenda Jesse Buckley), quem assume o protagonismo e o cerne da questão que o filme procura esmiuçar.

Primeiramente, haverão aqueles expectadores que irão tentar estabelecer uma relação entre os eventos deste filme e aqueles mostrados no vencedor do Oscar, “Shakespeare Apaixonado” –e essa relação até pode, sim, ser estabelecida ainda que estejamos falando de filmes completamente diferentes entre si (o outro era uma comédia romântica de época; este aqui, um drama adulto e contundente), de grandezas diferentes (embora “Shakespeare Apaixonado” tenha ganhado o Oscar, ele é, hoje, nitidamente um filme bobo e superficial; enquanto que este “Hamnet” é uma obra refinada de cinema) e que, em igual medida, empregam licenças poéticas oriundas da ficção para o melhor manejo do resultado final.

A camponesa Agnes –o nome original da esposa de Shakespeare era Anne Hathaway, modificado nesta adaptação do livro de Maggie O’ Farrell para não confundir o público devido à atriz homônima, estrela de “O Diabo Veste Pradatem, assim como a mãe, fama de ser uma feiticeira no pequeno e longínquo vilarejo inglês de Stratford onde mora. Daí sua disposição é ficar sempre na floresta, imersa na vida selvagem a treinar seu falcão adestrado. Ela, no entanto, desperta o interesse de William (Paul Mescal, brilhante), o professor de latim do lugar, exercendo tal profissão por conta de uma dívida contraída do pai.

Apesar de alguma resistência inicial, Agnes e William se casam e ela não tarda a engravidar, dando à luz à uma menina, Suzanna. Com esposa e filha para sustentar (sem falar que, na sequência, a própria Agnes volta a engravidar!), William decide seguir seus planos mais ambiciosos e rumar para a capital, Londres, onde almeja se lançar como dramaturgo nos teatros locais –e é, talvez, neste ponto da narrativa que o recorte do improvável “Shakespeare Apaixonado” possa ser justaposto na trama.

Com William indo e voltando para Londres ao longo dos anos, Agnes dá à luz aos gêmeos Hamnet e Judith e, devido a um sonho que teve com a falecida mãe (no qual ela apontava que o mais frágil de seus dois filhos seria então tirado dela), e ao exaspero de ver a menina quase morrer durante o parto, passa a crer que é de Judith quem deverá sempre cuidar, temerosa de que o mau presságio se concretize. De fato, é Judith (vivida por Olivia Lynes) quando já contam cerca de onze anos, quem pega peste bubônica e adoece. O menino Hamnet (interpretado pelo cativante e comovente Jacob Jupe), porém, oferece a própria vida em lugar da irmã quando, numa manhã, acredita ter visto o Anjo da Morte a espreita-la.

Assim, Judith se recupera e é Hamnet quem acaba adoecendo. Contudo, diferente da irmã, mal há tempo para que Agnes comece a preparar suas infusões com ervas e Hamnet, em agonia, morre.

É, portanto, sobre esse luto inapelável, inegociável e incontornável de pai e (sobretudo) mãe que se debruça todo o drama discorrido no primoroso filme de Chloe Zhao. A diretora não se deixa deslumbrar pela magnífica reconstituição de época concebida pela produção, nem pelos recursos técnicos bem mais requintados à sua disposição (a produção, afinal, é assinada por ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg): “Hamnet” centra as atenções de suas lentes nos percalços íntimos de duas pessoas levadas ao limiar de uma tragédia, e na formidável atuação da atriz em seu centro –no papel de Agnes, Jesse Buckley simplesmente leva o público com ela, a flutuar entre emoções intensas que ela consegue tornar intercambiáveis entre ela própria e o expectador.

Da comiseração extrema de seu luto, William Shakespeare haverá de criar um de seus mais ressonantes e aclamados trabalhos, a peça “Hamlet”, encenada no trecho final do filme: Uma sequência de crueza, poesia e dramaticidade sem par em todo o ano de 2025 que passou, na qual o filme de Chloe Zhao consegue operar alguns milagres, como fazer com que monólogos conhecidos e ditos à exaustão num sem-fim de outras obras (“Ser ou não ser. Eis a questão.”) soem como se fossem inéditos, inesperados e subitamente tocantes, e nos conduzir, como público, ao ápice de uma catarse existencial e de uma redenção por meio da arte. Uma das grandes cenas do ano, quiçá uma das grandes cenas do cinema no Século XXI.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A Cela


 Em sua pressuposta originalidade e em sua forçosa diferenciação, “A Cela” quer ser vários filmes, todos eles de uma certa natureza cult, todavia, do começo ao fim e sem lá muita esperança, o roteiro de Mark Protosevich (de “Doutor Estranho” e “Eu Sou A Lenda”) luta contra o fato inerente e incontornável de que, no final das contas, o filme dirigido por Tarsem Singh (de “Imortais” e “Espelho Espelho Meu”) é uma produção hollywoodiana infectada por cada um dos reflexos condicionados de uma obra presunçosa e genérica. E a despeito dos esforços para agregar elementos transgressores e experimentais aqui e ali (todos com timidez flagrante) são os clichês que prevalecem.

O  primeiro filme que “A Cela” quer ser é “Seven-Os Sete Crimes Capitais”, e isso se vê num sem-fim de tentativas de imitar e aludir às muitas das cenas da obra-prima de David Fincher; não à toa, “A Cela”, num primeiro momento é sobre a caçada à um psicopata. Tal psicopata, construído (como os demais personagens) sem um aprofundamento mais contundente que lhe dê respaldo ou maiores ressonâncias junto à trama, é interpretado por Vincent D’Onofrio, ótimo ator que, aqui, faz curiosamente o oposto do que fez em “Nascido Para Matar”, de Stanley Kubrick. Explica-se: Em “Nascido Para Matar”, D’Onofrio era o único ator a desempenhar um personagem de fato, o único a possuir todo um arco de transformação e mudança (no qual seu personagem, ingênuo e desajeitado, tinha sua mente espatifada numa insanidade homicida) enquanto todos os outros assumiam arquétipos básicos para o enredo. Em “A Cela” é nada mais que um arquétipo o personagem que D’Onofrio vivencia, um psicopata que mata mulheres, em circunstâncias específicas (no caso, ele as sequestra e, após deixá-las para morrer aos poucos num tanque de água, desova seus corpos pelas estradas) e que tem tirado o sono dos agentes do FBI, mais especialmente o Ag. Peter Novak (Vince Vaughn) obcecado em encontrar a última jovem dada como desaparecida, Julia (Tara Subkoff, de “Foxcatcher”), que Novak tem certeza ser uma de suas mais recentes vítimas.

Numa manobra (que, de novo, lembra sucessivamente “Seven” em seus desdobramentos), Novak e seu parceiro do FBI, Gordon Ramsey (Jake Webber), conseguem capturar o psicopata, de nome Carl Stargher, contudo, ele sucumbe a uma infecção viral causada pela esquizofrenia e entra em coma.

Sem qualquer pista do paradeiro de Julia (que, segundo o modus operandi de Starguer, deverá morrer nas próximas 40 horas quando o tanque de água se encher automaticamente), só resta aos agentes um recurso quase radical: Um procedimento experimental onde uma psicóloga, a Dra. Catherine Deane (Jennifer Lopez, jovem, belíssima e terrível atriz!), consegue invadir através de realidade virtual a mente de um paciente comatoso. O problema é que a Dra. Deane é uma psicóloga infantil, e seus pacientes consistem basicamente de crianças, enquanto Stargher é um psicopata!

Ainda assim, convencida pela urgência em salvar a vida da desaparecida, a Dra. Deane aceita o pedido do Ag. Novak e usa da tecnologia para adentrar a mente repleta de distorções e perversidades de Stargher.

Muito do resultado final de “A Cela” não seria o mesmo sem os esforços do designer de produção Tom Foden (de “A Vila”), ou os figurinos de Eiko Ishioka (de “Drácula de Bram Stoker”) e a maquiagem de Michele Burke (categoria na qual o filme foi indicado ao Oscar 2001, perdendo para “O Grinch”), embora o filme de Tarsem Singh se esforce na busca por um radicalismo estético e uma contundência embutida na própria proposta de adentrar uma mente psicótica, a obra só não afunda completamente no risível de suas limitações narrativas graças ao aparato visual que manifesta imagens bastante interessantes da psiquê deturpada, convertida em cenários e ambientações de pesadelo com forte referência nos quadros de artistas como Damien Hirst, Odd Nerdrum e H.R. Giger.

A viagem ao interior de mente só ganharia uma realização válida, satisfatória enquanto cinema e brilhante em sua execução, muitos anos depois, com a animação “Divertida Mente”.

domingo, 24 de maio de 2026

A Hora do Mal


 Ao lado do anterior “Noites Brutais”, este “A Hora do Mal” inscreve o diretor Zach Cregger (produtor de outro filme de terror do ano de 2025, o bom “Acompanhante Perfeita”) entre os mais geniais estetas do terror na atualidade –o que ele nos entrega aqui é uma obra que compreende as dinâmicas de uma narrativa e as emprega para contar (e muito bem) uma história construída com zelo e maneirismo, brilhantemente inclusa naquela característica categoria onde os contos assim relatados têm a peculiar capacidade para nos envolver e nos amedrontar em igual  medida.

O subúrbio de Maybrook, na Pensilvânia, viveu (como relata a pueril narração em off do início) um caso singular na misteriosa noite em que 17 crianças despareceram sem deixar vestígios. Elas apenas levantaram de suas camas às 2:17 da madrugada (como atestaram as câmeras de segurança de algumas das casas) e simplesmente saíram correndo pela noite, com os braços abertos (numa possível alusão à Kim Phuc Phan, a menina vista pelo mundo todo em filmagens dos anos 1960, ao ser uma das vítimas atingidas por napalm durante a Guerra do Vietnam), para não mais serem vistas.

O caso alarma a comunidade e intriga as autoridades, e na esteira desse mistério, o diretor Zach Cregger fragmenta seu filme em seis personagens específicos que assumem certo protagonismo (cada um nomeando um dos capítulos que compõem o filme) e cujas trajetórias particulares acabam gradualmente elucidando um mistério que em princípio aparentava ser insolúvel.

A primeira é “Justine” (interpretada por Julia Garner, a Surfista Prateada de “Quarteto Fantástico-Primeiros Passos”), obviamente, a professora dos alunos que desapareceram –sim, as 17 crianças eram todos alunos de uma mesma sala de aula! e que, por conta da mórbida coincidência, torna-se a principal suspeita do desaparecimento aos olhos da comunidade e dos pais aflitos.

Logo depois vem “Archer” (Josh Brolin, também um dos produtores executivos), pai indignado de um dos meninos desaparecidos disposto a mover uma investigação por conta própria –e passar por cima de quem for preciso para descobrir a verdade.

O terceiro é “Paul” (Alden Ehrenreich), policial do distrito outrora romanticamente envolvido com a própria Justine, agora, entretanto, casado, às voltas com seus próprios problemas e confusões: Além de ex-alcóolatra é um policial relativamente destemperado o que acirra seus ânimos perante do Chefe de Polícia (seu sogro ainda por cima!).

O quarto é “Anthony” (Austin Abrams, da série “Euphoria”, quase irreconhecível) sem-teto e viciado local, cujo hábito ilícito de invadir propriedades atrás de pequenos furtos o fará ser o primeiro a descobrir o real paradeiro das crianças, e a tentar tomar alguma atitude de olho na gorda recompensa de 50.000 dólares oferecida pelos pais.

Em quinto lugar vem “Marcus” (Benedict Wong, de “Doutor Estranho”) o diretor homossexual da escola, o primeiro a deparar-se com a grande personagem do filme, a horrivelmente peculiar e perversamente exótica Tia Gladys (vivida primorosamente pela veterana Amy Madigan, ganhadora do Oscar 2026 de Melhor Atriz Coadjuvante), que traz consigo todas as respostas (e todos os spoilers) da trama.

O sexto e último protagonista (e, logo, aquele cujo enredo preenche todas as lacunas) é “Alex” (o pequeno Cary Christopher), o 18º aluno da classe de Justine, exatamente o único que, por motivos nebulosos, não desapareceu junto com os demais.

Concebendo uma narrativa plural amparada nesses múltiplos personagens (e manipulando a tensão e o suspense justamente a partir de tudo aquilo que o público não sabe), o diretor Zach Cregger dá a oportunidade de vermos as pontas soltas do enredo irem gradualmente se amarando, com requinte inconteste, e elabora uma das obras-primas do terror dos últimos anos, oferecendo ao expectador um trabalho seguro, sólido, objetivo e feito com rara primazia dentro do gênero.

sábado, 23 de maio de 2026

Michael


 Poucas vezes uma produção cinematográfica conseguiu polarizar de tal maneira as considerações da crítica e a recepção de público; se por um lado diversos críticos especializados logo apareceram apontando os defeitos estruturais da realização apaixonada do diretor Antoine Fuqua (que eventualmente estão lá), do outro lado, o público deu de ombros comparecendo em massa às salas de cinema, vibrando com as músicas e transformando o filme em um fenômeno.

“Michael”, como qualquer um à essas alturas deve saber, é a cinebiografia de Michael Jackson, nascido em meados da década de 1960 e, ainda bem pequeno (vivido por Juliano Valdi), transformado por seu pai Joe Jackson (Colman Domingo, absurdamente brilhante), no elemento central das apresentações dos Jackson Five, grupo musical que reunia Michael e seus outros quatro irmãos mais velhos – dentre os quais Jermaine Jackson, um dos produtores executivos.

Aqueles que adentrarem o filme buscando revelações inesperadas sobre Michael Jackson, ou detalhes nunca antes mostrados sobre sua vida pessoal certamente irão se decepcionar: O roteiro, assinado por John Logan (de “Gladiador” e “O Aviador”), certamente sob instrução da Família Jackson, não assume qualquer caráter investigativo. Ao invés disso, ele percorre com mal disfarçado enaltecimento todos os tópicos já bem conhecidos da trajetória de Michael Jackson – a infância perdida por conta das apresentações musicais (e uma tentativa de recuperá-la que perdurou por toda sua vida); a evolução do talento fora do normal nos anos 1970; a chegada dos anos 1980 e com eles o desejo de seguir uma carreira-solo, ainda que sempre oprimido pela sombra ameaçadora e tóxica do pai; a amizade com o empresário musical John Branca (Miles Teller); o acidente que afetou seu couro cabeludo e gradualmente tornou-o dependente de remédios para dor; os grandes e inesquecíveis sucessos.

Em sua fase já crescido, Michael é interpretado por Jaafar Jackson (filho de Jermaine e sobrinho do próprio Michael), que simplesmente desaparece dentro do personagem – não somente sua postura gestual evoca prontamente a desafiadora agilidade de Michael Jackson como também sua atuação, entonação de voz e expressividade captura todas as contradições, as vulnerabilidades e fragilidades que tornavam Jackson tão singular e fascinante, em contraponto ao artista de arrojo sem igual que ele era capaz de ser.

E é justamente nesses momentos – quando Michael dá vazão ao seu talento e à sua incontida extravagância como músico e dançarino – que o filme atinge seu ápice: O arrepiante momento em que ele cria a coreografia de “Beat It”; a inovadora realização do videoclipe de “Thriller”; a primeira vez que ele executou o famoso moonwalk ao som de “Billie Jean”; a vibrante turnê de “Bad”.

“Michael”, o filme, proporciona ao expectador uma sensação de arrebatamento muito próxima do que deveria ter sido testemunhar um dos apoteóticos shows do próprio Michael Jackson – e por isso mesmo, vê-lo na tela do cinema se faz uma prioridade – é um filme feito para fãs e não para expectadores ocasionais, e talvez nem fizesse sentido fazer algo diferente. O artista Michael Jackson pulsa em um filme feito com amor, entusiasmo e uma devoção absoluta.

A trama deixa o público no período de 1988, quando Michael finalmente se desvencilha do pai e dos Jackson Five e parte para uma fulgurante carreira-solo com o disco “Bad”. O já anunciado segundo filme, portanto, deve focar inevitavelmente nos desdobramentos mais polêmicos de sua vida e de sua carreira sucedidos justamente naqueles anos posteriores.

Não há nada disso nesta primeira parte, mais luminosa e inocente, nela somos brindados com um retrato feito com carinho, zelo e reconhecimento de um artista sem igual que passou pelo mundo trazendo uma qualidade de música e vibração que poucos foram capazes de igualar, e que buscou ainda assim viver sua vida, com esquisitices e tudo o mais, sob uma ribalta inclemente que lhe negou qualquer direito de ser imperfeito.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Wicked - Parte 2


 O Mal é um ponto de vista.

A primeira parte de “Wicked” era um filme brilhante: Ao trazer para a luz as origens não conhecidas da Bruxa Má do Oeste, Elphaba, e da Bruxa Boa, Glinda, o diretor Jon M. Chu compôs um musical arrojado, ainda mais surpreendente por oferecer um novo enfoque para uma personagem sempre vista como vilã (Elphaba) e, por meio dessa observação, trazer à tona questões um tanto profundas sobre empatia, pertencimento e manipulação midiática.

Dividido em duas partes (com a segunda tendo ganhado a ribalta um ano após a estréia da primeira), “Wicked”, agora, finalmente está completo e pode ser conferido na íntegra pelo público. O grande problema dessa segunda parte, no entanto, termina sendo a expectativa gerada justamente pela inesperada qualidade estratosférica revelada pelo filme anterior; que chegou na cerimônia do Oscar 2025 com nada menos do que 10 indicações!

Embora ainda ostente excelência técnica em todos os quesitos, esta “Parte 2” não consegue trazer de volta toda aquela magia da primeira parte –talvez, o encanto tenha um pouco se esgotado; talvez, a novidade do primeiro filme seja um adendo que não se percebe mais tanto aqui; ou talvez, nós, enquanto expectadores, sejamos difíceis de satisfazer mesmo...

Depois dos bombásticos acontecimentos do final do filme anterior, quando Elphaba é decretada inimiga pública Nº 1 em Oz e Glinda, por sua vez, se torna o rosto da propaganda através da qual os governantes (o Mágico e Madame Morrible) querem vender tranquilidade aos moradores, nós reencontramos todos os personagens após algum tempo.

O Mágico de Oz (Jeff Goldblum), que de mágico não tem nada, promoveu a construção da Estrada de Tijolos Amarelos, destinada a conectar todos os recôncavos do reino, contudo, tal empreendimento é realizado às custas de um cruel e inclemente trabalho escravo dos animais e Elphaba (Cynthia Erivo), ferrenha opositora a esses maus tratos, tem atacado sistematicamente os locais de atividade. Para a calculista Madame Morrible (Michelle Yeoh) ela é um grande problema a ser solucionado: Afinal, diferente da maioria no reino, Elphaba é genuinamente dotada de magia –outros, como o mágico e a própria Glinda, devem fingir ante a população, lançando mão de truques de ilusionismo (como aquele no qual Glinda projeta uma bolha e sai flutuando por aí).

A oportunidade para neutralizar Elphaba, logo é providenciada: Madame Morrible conjura um tornado que traz, de algum lugar muito distante, uma casa dentro da qual uma menina perdida, chamada Dorothy, chega na Aldeia dos Munchkins, soterrando a própria irmã de Elphaba, Nessarose (Marissa Bode) que àquelas alturas já vinha ganhando poderosas tintas de vilania.

Assim sendo, diferente da “Parte 1”, que se apresentava como um prequel do clássico “O Mágico de Oz”, esta “Parte 2” não só chega no ponto em que a trama do filme de 1939 se inicia, como também a adentra, dando-lhe uma perspectiva completamente nova ao entregar cenas que “ficaram faltando” e ainda se estender para além de seu já famoso desfecho. Pena que essa costura não soe nem um pouco harmoniosa: Àqueles que tiverem a memória fresca de “O Mágico de Oz” vão verificar nítidas algumas mudanças pontuais no roteiro (como o encontro protelado de Elphaba e Dorothy; a índole tão distinta do Espantalho; e as motivações do Homem de Lata; além de sequências no clássico em que realmente vemos Glinda valer-se de magia quando, aqui, ela não possui nenhuma).

Não deixa de ser surpreendente (e até indicativo de certa coragem) vermos que alguns personagens da “Parte 1” eram figuras icônicas do clássico, como os próprios Espantalho e Homem de Lata, o que dá às suas sub-tramas um viés quase trágico.

Entretanto, é às suas protagonistas que está reservado o verdadeiro esmero do roteiro e da direção: A amizade entre Elphaba e Glinda que, ao longo do filme anterior e deste aqui, luta para superar o antagonismo e os papéis opositores (nada condizentes com a realidade) que o destino lhe resguarda, sobretudo, no caso de Elphaba, cujas boas intenções e a própria retidão ao não se corromper a colocam como a grande vilã no unilateral enredo vivenciado por Dorothy.

Afinal, o Mal é um ponto de vista.

Belle Epoque


 “Sedução” é o genérico título nacional dado à esta produção espanhola dirigida por Fernando Trueba, vencedora do Oscar 1994 de Melhor Filme Estrangeiro embora o filme tenha sido realizado e lançado em 1992, os percalços vagarosos do circuito comercial da época o levaram a vencer o prêmio somente dois anos depois. O título original remete à uma espécie de nostalgia, e talvez esse seja o caminho mais lúcido para explicar o clima de descontração associado a uma certa liberdade de pensamento que contamina os desdobramentos romântica e sexualmente um tanto improváveis da trajetória do protagonista Fernando (um alter-ego, talvez?) interpretado com inesperada simpatia por Jorge Sanz.

É inverno de 1931 e, na Espanha de Franco, a Guerra Civil corre solta quando um jovem soldado decide-se por desertar –numa cena que já define o tom inusitadamente tragicômico do filme, o jovem Fernando é flagrado, em sua deserção, por dois oficiais da polícia, sogro e genro. Os dois, porém, discordam da ideologia da situação: O sogro quer soltar Fernando, ciente de que a guerra, com seu desfecho iminente, não precisa interferir no destino daquele pobre coitado; já o genro quer porque quer seguir a Lei à risca ameaçando atirar em Fernando e no próprio sogro se for contrariado! Os ânimos se acirram e, sentindo-se desafiado, o genro atira no peito do sogro (!), matando-o ali mesmo, somente para, no instante seguinte, seu arrependimento leva-lo a suicidar-se (!!!). Todavia, a trama de fato se inicia na cena subsequente, quando Fernando pede pouso num prostíbulo onde conhece o ocasional frequentador, o Sr. Manolo (Fernando Fernán Gómez, de “Tudo Sobre Minha Mãe”), que não apenas simpatiza com ele por suas posições políticas (Fernando é a favor que seja instaurada a República) como também se prontifica a livrá-lo das algemas que, desde a malograda cena inicial, ele não conseguiu tirar.

Fernando acaba pernoitando por algumas noites na casa do solitário Sr. Manolo e com ele constrói uma profunda amizade, mas logo o momento de pegar o trem para Madri se aproxima e, segundo o próprio Sr.  Manolo, ele mesmo não irá ficar sozinho por muito tempo: Virão, também de Madri, todas as suas quatro filhas para visita-lo.

Na estação, no dia em que partiria, Fernando recebe, ao lado do Sr. Manolo, suas filhas e fica absorto com a beleza acachapante delas são elas, a mais insinuante Rocio (a sensualíssima Maribel Verdú), a mais velha Clara (Miriam Díaz Aroca), então viúva do marido, a bela ainda que ligeiramente andrógina Violeta (Ariadna Gil, de “A Dançarina e O Ladrão”) e a caçula Luz (uma bem jovem Penelope Cruz, antes de tornar-se uma estrela).

Atraído pela formosura e pela atmosfera de alegria que todas elas conseguem trazer ao lugar, Fernando retorna à casa do Sr. Manolo afirmando que perdera o trem, e por lá fica alguns dias, ao longo dos quais, por incrível que pareça, conseguirá estabelecer um vínculo afetivo com cada uma delas!

Fernando Trueba conduz essa espécie de variação romântica e cômica de “O Estranho Que Nós Amamos” incrementando-a de certa lascívia espanhola: Cobiçada pelo riquinho e inconstante Juanito (Gabino Diego), Rocio é a primeira que se engraça com Fernando; depois dela, o jovem ex-soldado consegue despertar, apenas brevemente, o interesse carnal de Violeta durante uma festa à fantasia tão somente porque esta se veste de soldado e ele de camareira (!) –a inversão de valores que ambos promovem durante a cena da dança de tango é divertida já, Clara se joga nos braços dele num momento de imediato saudosismo dos carinhos do marido (no exato instante em que passavam pelo rio em que ele se afogou!); tudo isso tendo Luz, talvez, a única das irmãs genuinamente apaixonada por ele, como indignada testemunha.

À esses desdobramentos de ordem afetiva, Trueba confere uma leveza temperada por sarcasmo europeu que acompanham também as observações políticas e religiosas embutidas nos diálogos que se seguem.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os Vencedores do Oscar 2026


 Nunca antes, na história do Oscar, houve uma adesão tão grande ao gênero de terror. Está certo que não bastou para que um filme de terror ganhasse o prêmio principal (conquistado por “Uma Batalha Após A Outra”, coroando-o como o grande filme de 2025, e finalmente consagrando o já bastante aclamado diretor Paul Thomas Anderson), mas já houve as históricas 16 indicações para “Pecadores” (fazendo dele o mais indicado da História, com duas indicações a mais que os recordistas anteriores “A Malvada”, de 1951, e “Titanic”, de 1998, com 14 cada um), convertidas em 4 prêmios (inclusive os de Melhor Ator para Michael B. Jordan e Melhor Roteiro Original para Ryan Coogler) e o surpreendente prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para a sensacional Amy Madigan por “A Hora do Mal”.

No mais, como costuma ser, o Oscar evitou surpresas com o mais que merecido prêmio de Melhor Atriz para Jessie Buckley, por “Hamnet” e o de Melhor Filme Internacional para “Valor Sentimental” superando da concorrência do brasileiro “O Agente Secreto”, contudo, guardadas as devidas ressalvas dos infindáveis detratores da internet (que ficaram insatisfeitos com a derrota do Brasil), o filme é merecedor e digno: Além de ser uma obra excelente, o filme de Joaquim Trier finalmente levou um Oscar para a Noruega, que até então nunca tinha conquistado a estatueta.

MELHOR FILME

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR DIREÇÃO

"Uma Batalha Após A Outra", Paul Thomas Anderson

MELHOR DIREÇÃO DE ELENCO

"Uma Batalha Após A Outra", Cassandra Kulukundis

MELHOR ATRIZ

Jessie Buckley, "Hamnet-A Vida Antes de Hamlet"

MELHOR ATOR

Michael B. Jordan, "Pecadores"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Amy Madigan, "A Hora do Mal"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Sean Penn, " Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Guerreiras do K-Pop"

MELHOR FOTOGRAFIA

"Pecadores"

MELHOR FILME INTERNACIONAL

"Valor Sentimental" (Noruega)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Avatar-Fogo e Cinzas"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Girl Who Cried Pearls"

MELHOR FIGURINO

"Frankenstein"

MELHOR SOM
"F1"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

"Frankenstein"

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

"Frankenstein"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“Mr Nobbody Against Putin"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"All The Empty Rooms"

MELHOR CURTA-METRAGEM

“The Singers"

“Two People Exchanging Saliva"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Golden", de "Guerreiras do K-Pop"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR MONTAGEM

"Uma Batalha Após A Outra"