domingo, 14 de junho de 2026

Encontro de Amor


 O cinema do diretor Wayne Wang sempre foi fascinado por comunidades, não à toa, seu melhor e mais ressonante trabalho é o emocionante “Clube da Felicidade e da Sorte” – daí ser até natural que, ao ser contratado por um estúdio (a Columbia Pictures) para conduzir uma comédia romântica, não seja tanto o enredo e seu desenrolar cheio de encontros e desencontros que surgem com desenvolvimento mais apaixonado da parte direção, mas sim a caracterização e contextualização das circunstâncias que cercam a protagonista feminina da trama, vivida pela graciosa e radiante Jennifer Lopez – aqui, num dos sucessos de bilheteria responsáveis pela consolidação do status de estrela de sua carreira.

Lançado em 2002, “Encontro de Amor” – ou “Maid In Manhattan”, seu título original – não esconde, e nem conseguiria mesmo esconder, as semelhanças quase constrangedoras com “Um Lugar Chamado Notting Hill” (um grande sucesso do ano de 1999). Como naquele filme (mas, muito melhor realizado lá...), “Maid In Manhattan” busca unir num divertido, hesitante e cativante enlace amoroso dois indivíduos de mundos absolutamente distintos, sendo que um deles vem dos holofotes da fama, enquanto o outro do anonimato da plateia. Em “Notting Hill” havia a estrela de cinema e o plebeu desconhecido, vividos respectivamente por Julia Roberts e Hugh Grant; aqui, temos o candidato ao senado e a um só tempo sex-simbol das mulheres mais despachadas, Chris Marshall, interpretado por Ralph Fiennes (num papel bem mais leve e inesperado para os rumos usuais de sua carreira), e a camareira Marisa Ventura, vivida por Jennifer Lopez – que, num truque de inversão típico do demagógico cinema norte-americano, vem a ser, ela sim, um sex-simbol.

Mãe solteira, Marisa trabalha no ostensivo hotel de luxo Beresford, em Manhattan, no coração de Nova York, onde os procedimentos dos funcionários, visando o atendimento aos hóspedes ricaços, beira o rigor militar. Criando sozinha o pequeno Ty (Tyler Posey), Marisa almeja uma vaga disponibilizada para uma das gerências do hotel, contudo, tal cargo jamais foi ocupado antes por uma camareira – o que dificulta mais o objetivo de Marisa e faz das semanas seguintes decisivas para a avaliação de sua postura profissional (que, até então, era impecável).

Entretanto, eis que o Beresford recebe o candidato ao senado Chris Marshall que, junto de seu staff, liderado pelo inquieto e paranoico Jerry (Stanley Tucci, que décadas depois reuniu-se com Fiennes no elenco do fenomenal “Conclave”), se encontra num momento crítico da campanha – justamente quando as lentes dos paparazzi estão focadas nele, esperando qualquer deslize para virar manchete!

Numa série de mal-entendidos – daqueles típicos de uma comédia romântica – Marisa acaba sendo confundida por Chris como uma das hóspedes do hotel – ela e uma colega estavam numa travessura, experimentando o casaco Golce & Gabbana de uma hóspede real, a socialite Caroline Laine (a saudosa Natasha Richardson) quando o imbróglio acontece. Marisa aceita o convite para um passeio no parque, tentando se livrar da situação o mais rápido possível, mas, evidentemente, nesse meio tempo, a magia hollywoodiana se opera: Um interesse surge de ambas as partes e, agora, Chris quer saber quem é aquela maravilhosa mulher que ele conheceu – e tê-la como convidada para um importante jantar a ser realizado no próprio hotel!

Já, Marisa, também atraída por Chris, precisa se desvencilhar do cerco cerrado dos demais funcionários do hotel, incluindo superiores que podem farejar sua farsa, da inconveniente Caroline que pensa ser ela a convidada de Chris, e da própria situação em que se encontra, mentindo para o homem por quem está se apaixonando, e escondendo dele quem é.

“Maid In Manhattan” tem, portanto, todos os elementos narrativos de uma comédia romântica, organizados e apresentados com fidelidade formulaica – o desfecho descaradamente decalcado de “Notting Hil” é particularmente constrangedor...

Todavia, o que notamos saltar aos olhos ao longo do filme, é o amor com que o diretor Wayne Wang retrata o dia-a-dia de Marisa, sejam as regras rígidas, permeadas por subterfúgios de malandragem, que os funcionários precisam seguir em sua rotina de ‘agentes invisíveis’ dentro do hotel (que fazem lembrar o britânico “Coisas Belas e Sujas”), sejam os pequenos embates entre ela e a mãe (a cantora Priscilla Lopez, apesar do sobrenome, nenhum parentesco com Jennifer) carregados tanto de ternura quanto de ressentimento, sejam as relações amistosas, fraternais até, entre Marisa e suas colegas camareiras (talvez, os momentos mais divertidos do filme), ou os diálogos com o dedicado e minimalista mordomo Lionel (o saudoso Bob Hoskins, interpretando o personagem com dignidade e solidez). As manobras do roteiro (assinado por Kevin Wade) parecem menos importar ao diretor do que essas facetas da produção que dele recebem muito mais entusiasmo e cuidado.

Curiosidade: O argumento do filme foi idealizado pelo saudoso John Hughes (de “O Clube dos Cinco”) que não aparece creditado. No lugar de seu nome vemos um ‘Story by Edmond Dantes’, que vem a ser o herói fictício de “O Conde de Monte Cristo”!

sábado, 13 de junho de 2026

O Palácio dos Anjos


 Produção realizada a partir de um acordo de cooperação cinematográfica com financiadores franceses, "O Palácio dos Anjos" –cujo título internacional foi o pomposo “Le Palais Des Anges Érotiques Et Des Plaisirs Secrets” ou “O Palácio dos Anjos Eróticos e dos Prazeres Secretos” –havia sido enviado à França para concorrer à Palma de ouro no Festival de Cannes de 1970 representando o Brasil ao lado de “Azyllo Muito Louco”, de Nelson Pereira dos Santos (uma transgressora adaptação de “O Alienista”, de Machado de Assis). Lançado depois de “As Amorosas” (1968), onde o diretor Walter Hugo Khouri explorava a figura de seu personagem-chave Marcelo, sob um usual prisma de referência à Antonioni, e antes de “As Deusas” (1972), no qual entra em voga uma formidável alusão à Ingmar Bergman em geral e à “Persona” em particular, "O Palácio dos Anjos", na brilhante cartilha cinematográfica que Khouri foi construindo ao longo dos anos, não era nem uma coisa nem outra: A história era, sim, baseada nas experiências de uma amiga de Khouri da época da faculdade –daí o fato de não se enxergar tanta proximidade assim em relação à outras manifestações artísticas que Khouri havia feito e que ainda faria.

Todavia, não há que se negar o mérito de “Palácio dos Anjos” ao trazer três mulheres protagonistas ao centro de questões que envolvem a luta por independência num mundo esmagador, misógino e machista.

Essas três protagonistas são Barbara (a francesa Geneviève Grad, dublada em português por Lilian Lemmertz), Ana Lúcia (Adriana Prieto) e Mariazinha (Rosana Ghessa, de “Convite Ao Prazer”), amigas que dividem um mesmo apartamento e trabalham numa mesma instituição financeira. Lá, elas sofrem assédio constante dos homens, em especial, a belíssima Barbara, cujo patrão, o inescrupuloso Ricardo (Luc Merenda, de “Torso”) a vê como seu objeto de desejo. Quando Barbara o recusa, ela é demitida. Entra na história então a personagem de Rose (Joana Fomm), uma proprietária de um bordel que sugere à Barbara trabalhar como acompanhante de luxo. Sem ceder à ideia desconfortável de expor-se num bordel, Barbara convence suas outras amigas à valer-se da lista de clientes milionários da instituição para trabalharem como prostitutas tendo como local de atendimento o próprio apartamento onde vivem, que passa a ser chamado de “Palácio dos Anjos”.

Ainda que o filme também conte com uma elegante trilha sonora de Rogério Duprat, sem falar das ótimas presenças das três atrizes principais (sempre um ponto forte numa obra de Khouri) –além de uma participação especial de Norma Bengell –“Palácio dos Anjos” foi apontado pela crítica (inclusive em Cannes) como uma desajeitada apologia à prostituição, vista na narrativa como uma solução quase mágica aos problemas financeiros e sociais das assalariadas paulistanas.

Embora seja uma obra fotografada com competência por Peter Overbeck, o filme não agradou a Khouri e nem aos seus críticos por tratar-se somente de sua segunda experiência em filmar à cores (a primeira havia sido “Fronteiras do Inferno” em 1959), resultando num inoportuno espectro cromático que ocasionalmente descamba para a poluição visual. Em projetos posteriores, Khouri aprenderia a trabalhar com a fotografia colorizada, indo muito além do mero acréscimo de cores às imagens para, com elas, construir magníficas metáforas visuais em realizações vindouras cheias de propriedade.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D


 Em 1977, o diretor Steven Spielberg lançou o filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, uma obra que sob muitos aspectos define sua carreira – as inquietações acerca da existência de vida extraterrestre são tópicos que Spielberg jamais foi capaz de deixar de lado, levando à produções como "E.T. O Extraterrestre” e outras que indiretamente abordavam tal tema. O ponto fora da curva pode ser considerado “Guerra dos Mundos”, no qual Spielberg faz nada mais que um pastiche cinematograficamente requintado de “Independence Day” – isso porque Spielberg sempre enxergou de uma maneira esperançosa a possibilidade de co-existência entre humanos e alienígenas.

Agora, do alto de uma carreira de 50 anos, Spielberg volta a focar suas lentes sobre o tema, numa obra que resgata toda a dúvida insolúvel e o interesse instigante que o levaram até “Contatos Imediatos...” – este “Dia D” é, em si, uma obra que traz Spielberg se reencontrando consigo mesmo, revendo tópicos que sempre lhe foram tão caros ao seu cinema, à luz de uma imponderável modernidade, resvalando em teorias da conspiração que soariam alarmantes nas mãos de outros realizadores, e provando, uma vez mais, o cineasta sem par que ele é.

A trama – concebida pelo roteirista David Koepp, a partir de um argumento do próprio Spielberg – se inicia audaz, sem tempo para tomar o fôlego: Daniel Kellner (o carismático Josh O’Connor, de “Rivais”) já está em fuga. Ao que parece ele roubou arquivos importantes de uma agência ultrasecreta governamental (isso e outra coisa, ainda mais importante e inconcebível!). Tal agência, denominada Wardex, sequestrou sua namorada Jane (Eve Hewson, filha de Bono Vox, o vocalista do “U2”) e agora exigem uma troca ocorrida nas dependências de um ring de luta livre lotado – e é nessas circunstâncias, com todo o intrincado enredo já em curso, que o filme começa.

Paralelo à trajetória de fuga de Daniel e Eve – na qual tentam à todo custo escapar da Wardex, controlada com mão de ferro pelo implacável Noah Scanlon (Colin Firth, sempre fantástico) – vemos também a história de Margaret Fairchild (Emily Blunt, magnífica), garota do tempo de uma emissora de TV em Kansas City que, certo dia, sem a menor explicação, começa a falar numa língua extraterrestre em pleno noticiário matutino, ao vivo!

O caso chama a atenção da Wardex que, tal e qual o fazem com Daniel, almejam agora encontrar e capturar Margaret à todo custo, enquanto um certo Dr. Hugo Wakefield (o ótimo Colman Domingo) procura estar um passo à frente de Scanlon e sua tentacular agência, a fim de driblá-los e fazer aquilo que eles tentam evitar há décadas: Revelar ao público toda a verdade.

Assim como em “Contatos Imediatos...” – cujo plot, de um ponto em diante, centralizava sua atenção no encontro iminente entre os protagonistas Roy e Jillian – em “Dia D” somos conduzidos por Spielberg na expectativa de testemunhar Daniel e Margaret se encontrarem, e descobrir o que, a partir daí, acontecerá.

Não restam dúvidas de que há muito de Spielberg em “Dia D” – não apenas o foco central no tema dos extraterrestres e da incomensurável mudança que a sua revelação causaria no mundo e nos rumos da Humanidade perpassa toda sua filmografia, como também as pertinentes referências à Segunda Guerra Mundial (o próprio título em alusão ao Dia D, na Normandia; a iminência da Terceira Guerra Mundial servindo como um pano de fundo político aos acontecimentos), a gênese de todos os mais profundos questionamentos encontrada nas memórias de infância (como é o caso dos dois protagonistas), e a própria insistência na intervenção irredutível de uma influente figura paterna (que aqui são duas, o autoritário ainda que munido de supostas boas intenções Scanlon, de Colin Firth, e o manipulador, ainda que bondoso, Wakefield, de Colman Domingo, dois atores que, diga-se, sob a direção de Spielberg, brilham como nunca).

No panorama do cinema comercial mundial, “Dia D” é uma realização distinta e exótica como só um diretor de predicados hiperlativos como Steven Spielberg seria capaz de elaborar: É inteligente, complexo, desafiador, fala da correlação entre a crença em vida extraterrestre e a transformação subsequente de paradigmas religiosos, leva a ficção científica  a um patamar que pouquíssimos filmes sobre o tema alienígenas foram capazes de chegar e tudo isso numa produção suntuosa, tecnicamente refinada com todos os aparatos que só o melhor de Hollywood pode proporcionar e mesmo tocando em temas como o acobertamento do governo acerca de assuntos delicados, surge audaciosamente em meio à blockbusters no período mais disputado do ano nos cinemas.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Empregada


 Usualmente um realizador de comédias (são dele o remake feminista “As Caça-Fantasmas”, “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas” entre outros) Paul Feig se esforça aqui em busca de uma guinada comercial em sua carreira ao abraçar um projeto orientado pelo refinado gênero do suspense. Contudo, já em seus primeiros momentos, “The Housemaid” entrega uma série de lapsos que apontam o desconforto de seu diretor, como um descuidado (em alguns momentos até descabido!) desenho de som, e uma montagem indecisa que demora além do tempo habitual para encontrar o ritmo correto, acelerando demais a narrativa em alguns momentos e dilatando desnecessariamente certas passagens em outros.

Best-seller da escritora Freida McFadden, “The Housemail” era uma bem-sucedida série literária (agora, sinalizando o surgimento de uma bem-sucedida série cinematográfica) cujo enredo, se não era um primor de acabamento e dramaturgia, mostrava-se certeiro e envolvente no manejo dos plot-twists que se seguiam com revelações pontuais sobre seus interessantes personagens.

A protagonista é Millie Calloway, vivida pela belíssima Sydney Sweeney –e, no status de estrela em ascensão que evoca, Sydney surge como uma escolha apropriada e pontual, nem tanto por suas capacidades interpretativas (que ora satisfazem, ora deixam a desejar) mas, sim, pelo magnetismo imediato, pela instantânea empatia que ela, uma vez dentro da personagem, consegue despertar no público. E isso será muito importante como veremos a frente.

Millie precisa obter um emprego. Recém-saída da prisão (a despeito de ser jovem), ele precisa de um lugar para morar (até então, dorme dentro de seu carro em estacionamentos), de um emprego que sossegue a vigilância dos oficiais da condicional sobre seus passos e de dinheiro para se manter. Tudo isso parece vir num mesmo pacote quando ela presta uma entrevista de emprego à ricaça Nina Winchester (Amanda Seyried, menos carismática do que Sydney, mas bem mais competente como atriz, numa personagem desafiadora e cheia de camadas). Acontece que Nina está grávida (seu marido, afirma ela, ainda não sabe) e ela precisa imediatamente de uma empregada para dar conta de sua filha mais velha de 11 anos, Cecelia (Indiana Elle) e das atividades domésticas da mansão luxuosa onde moram.

Como empregada particular, Millie poderá morar dentro da casa, num quarto localizado no sótão e, embora haja certa suspeita no fato de Millie possuir credenciais demais para candidatar-se a uma vaga de empregada, Nina a quer o quanto antes.

Uma vez trabalhando para o casal –que, além de Nina inclui certamente também seu marido, Andrew (Brandon Sklenar, de “Drop-Ameaça Anônima”) –Millie vai descobrindo que o emprego, que aparentava ser um paraíso durante a entrevista, não é tão maravilhoso assim: Bipolar, Nina confronta Millie com situações complicadas, tentando incriminá-la de erros que não cometeu e tecendo uma ardilosa a aparentemente inexplicada teia de intrigas e acusações que só não comprometem ainda mais a situação de Millie graças à intervenção de Andrew.

Por conta dessa circunstância, pouco a pouco, Millie e Andrew vão estabelecendo uma proximidade que, diante da cada vez mais real possibilidade de um adultério assim consumado, pode desembocar em alguma tragédia. Contudo, na narrativa urgida pela escritora Freida McFadden, nada é o que parece ser. E é exatamente aí (nas informações omitidas ao expectador) que “The Housemaid” guarda seus trunfos.

Toda essa explicação à seguir, conterá spoilers (!): Nina não é o que parece ser, uma vez que, ao contrário da megera intratável que se mostrava durante todos os dois primeiros terços de filme, ela era na realidade uma vítima da situação, presa num casamento abusivo e tóxico, e portanto, desesperada para encontrar um meio de fuga. E tal meio, terminou sendo Millie.

Com efeito, Andrew também não é o príncipe encantado que parecia ser, revelando-se o vilão sádico, psicótico e abusador de fato.

Contudo, outra grande manobra da premissa de Freida McFadden é que a própria Millie, toda doce, desprotegida e indefesa, também não é o que  parece ser: As razões para ela ter sido presa (e encontrar-se, agora, em liberdade condicional) não reveladas antes, são elementos diretamente influentes no desfecho e no porque, agora, foi o perverso Andrew quem meteu-se com a pessoa errada –e é por isso que a escalação de Sydney Sweeney ajuda muito o filme nesse sentido: Uma vez que só saberemos de toda a verdade sobre Millie no momento quase clímax de sua reviravolta, tudo o que sabemos sobre ela é vago, ainda que seja essa a protagonista. No entanto, com Sydney Sweeney interpretando-a, Millie conquista o público já nos primeiros minutos. Mesmo que não saibamos quem ela é, ou o que ela fez, o encanto natural de Sydney faz todo o trabalho nos levando a torcer pela heroína que descobrimos, ao fim, ser bem diferente de quem supúnhamos ser.

“The Housemaid” pode ter falhas homéricas na direção, pode ter um roteiro equivocado e impreciso (as mudanças na adaptação particularmente reforçam o tom exagerado do filme), mas foi um acerto muito feliz na escalação de suas duas protagonistas: Enquanto Sydney é uma ótima presença emprestando magnetismo e simpatia genuínos à Millie; Amanda reforça a grande atriz que é interpretando uma personagem que também está interpretando na maior parte do tempo (e de forma deliberadamente histriônica ainda!) só revelando suas intenções mais humanas quando o filme já estiver em seu ápice.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

1975 - O Ano do Colapso


 Narrado por Jodie Foster, este documentário produzido pela Netflix e dirigido por Morgan Nevile observa os acontecimentos de ordem social, política e existencial que cercaram os EUA naquele ano específico colocando em pauta os reflexos dessas mudanças nos filmes lançados em cinema na época, e até algumas séries que passaram na TV.

A verdade é que 1975 foi um ano no qual convergiram diversos tópicos que a América vinha enfrentando e que, naqueles anos, mudaram radicalmente a sociedade; nunca transformações de valores e de comportamentos se sucederam num período tão curto de tempo – e isso tudo refletiu-se num período de turbulência, onde o povo norte-americano se viu tão perdido quanto desiludido.

E, à sua maneira, tudo isso se refletiu no cinema.

Se havia um ator que parecia encapsular a efervescência desses novos tempos, esse ator era Jack Nicholson. Revelado anos antes em “Sem Destino” – um dos tantos filmes que contribuiu para uma nova visão dos EUA – Nicholson, logo alçado à condição de astro, se encontrava presente em três obras ressonantes para o público e a crítica: O inconformista “A Última Missão” (cujas características representavam bem a postura questionadora da Nova Hollywood de então), o fenomenal “Chinatown” (que, embora fosse um neo-noir passado nos anos 1950, ostentava uma melancolia emblemática na qual as plateias identificavam as tramas arrojadas de então, onde a justiça não era capaz de prevalecer sobre certas facetas da vilania) e o brilhante “Um  Estranho No Ninho” (uma audaz produção que mostrava um abusador confinado num manicômio e encontrando todo o tipo de aborrecimento ao tentar colidir com as regras vigentes; por sinal, o filme premiado com o Oscar no início do ano seguinte).

Os EUA estavam ainda a processar os traumas do Escândalo de Watergate e da Guerra do Vietnam. Do primeiro, surgiu o magnífico “Todos Os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, no qual os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein (Robert Redford e Dustin Hoffman) desmascaravam as tramoias do presidente Richard Nixon – as paranoias e o medo de confiar em demasia nas instituições haviam contaminado o cidadão norte-americano e isso era mostrado em filmes como “Três Dias do Condor”, de Sydney Pollack (também com participação de Redford) e no formidável “A Conversação”, de Francis Ford Coppola.

Já o trauma do Vietman ainda demoraria para começar a render produções de cinema: O primeiro filme sobre o Vietnam, “Os Boinas-Verdes”, de 1968, com John Wayne, havia sido execrado pela opinião pública por sua iludida e irreal postura pró-governo. No entanto, falava-se sobre o Vietnam (ainda que alegoricamente) em obras como “M.A.S.H.”, a série de TV baseada no filme de 1970 (cujo roteiro disfarçava com uma nada convincente ambientação na Guerra da Coréia), e no pungente “Taxi Driver”, de Martin Scorsese (nele, Travis Birckle, um ex-combatente do Vietnam, é um indivíduo cujas neuroses se acumulam e culminam na violenta busca por redenção simbolizada na personagem de uma ainda jovem Jodie Foster e na catarse sangrenta que termina sendo sua cena final).

O presidente norte-americano que ocupou o lugar deixado por Nixon, Gerard Ford, não revelou-se alguém capaz de corresponder aos anseios norte-americanos, abrindo assim as portas para a ascensão da campanha do republicano Ronald Reagan, que não surtiu efeito imediato nas eleições do ano seguinte, mas resultou em sua candidatura nos anos 1980.

Muitos ideais atingiram um ápice de desilusão crônica: A luta pelos direitos civis que, pelo menos na cultura pop levou aos filmes da blaxploitation e ao estrelado do indomável comediante Richard Pryor, encontrava seus extertores em comentários carregados de certo cinismo na série de TV “Família Às Avessas” –logo depois, a mesma TV começou a investir na nostalgia com a série “Dias Felizes”, uma prática que dentro em breve, chegaria ao cinema. Este, ainda buscava a relevância das novas configurações sociais e familiares, como é o caso de “Alice Não Mora Mais Aqui”, um emblemático estudo da situação da mulher naqueles novos tempos, dirigido também por Martin Scorsese, que do alto de seus oitenta e poucos anos aparece prestando seus depoimentos.

Até mesmo a ficção científica trazia um registro futurista visando comentar o presente: O estranho suspense “Mulheres Perfeitas” que logo dá espaço para um pesadelo tecnológico onde as mulheres eram substituídas por seres automatizados.

Houve em 1975, a audácia narrativa de “Nashville” (um mergulho numa América fragmentada e perdida), a onda dos filmes-catástrofes “Inferno Na Torre” e “O Destino do Poseidon” (reflexos de um pavor recorrente onde o americano médio não sentia-se mais seguro), o magistral e contundente “Rede de Intrigas” (uma observação demolidora e honesta de toda a indignação do público) e o pulsante “Um Dia de Cão” (sobre um sequestro num assalto à banco que expunha as inversões de valores acarretadas por insatisfação política e causas sociais falidas).

Mas, como foi dito, tudo estava para mudar. Em 1976, os cinemas receberiam o filme “Rocky-Um Lutador”, uma obra comercial na contramão de toda aquela crítica social traduzida em desilusão que, em vez disso, oferecia uma catarse ao público (ao qual Scorsese e outros críticos se opunham com veemência) e ainda naquele período o cinema veria um sucesso sem precedentes na forma do seminal “Tubarão” de Steven Spielberg, a obra inaugural do fenômeno que depois passou a ser conhecido como blockbuster, e que teria, em 1977, sua pedra fundamental com a estréia avassaladora de “Star Wars”.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sonhos de Trem


 Quando começamos a achar que não se faz mais cinema assim (dotado de uma percepção artística toda lenta, introspectiva, melancólica), vem a própria Netflix (a mais popular dentre todas as plataformas de streaming) e lança “Sonhos de Trem” –ou “Train Dreams” no original –adaptação de um livro escrito por Denis Johnson em 2011, e carregado com ecos do cinema de Terence Malick (“Cinzas No Paraíso”, “Além da Linha Vermelha”, “Árvore da Vida”), contemplativo, abstrato, muito mais inclinado à reflexão do que à ação.

 "Sonhos de Trem" é a história de Robert Grainier (Joel Edgerton, irrepreensível) e, desde o início, o narrador (voz do ator Will Patton) nos informa que Grainier viveu até os 80 anos.

Filhos de pais que jamais chegou a conhecer, ele chega em Bonners Ferry, estado de Idaho, ainda criança e, desde cedo, desenvolve uma personalidade calada, introvertida, sempre dedicado ao cotidiano braçal das ocupações daquele fim do Século XIX início do Século XX.

Adulto, Grainier passa a trabalhar como lenhador, derrubando árvores por todo o país, muitas vezes para a construção de estradas de ferro, situação que o deixa sempre próximo do universo ferroviário norte-americano, e em contato com outros madeireiros, operários braçais que vem e vão ao longo dos anos, também eles com suas peculiares histórias.

Desse segmento, aqueles que se sobressaem na narrativa certamente são o chinês (Alfred Hsing, de “Jogador Nº1”) abruptamente descartados dos serviços junto a ferrovia por ser um imigrante ilegal (uma visão que passa a atormentar Grainier o resto da vida); o homem religioso e falastrão (Paul Schneider, de “A Garota Ideal”) inesperadamente morto por a tiros por um homem negro em busca de uma vingança pessoal; e o operário veterano vivido por William H. Macy, um curioso contador de histórias que se torna seu amigo e que parte de forma trágica.

Há também uma expressiva participação, já na segunda metade da atriz Kerry Condon (de “Banshees de Inisherin” e “F1”).

O cerne de sua trama, contudo, é a relação com Gladys (Felicity Jones), jovem por quem ele se apaixona, com quem casa e, logo depois, decide construir uma cabana na floresta à beira de um rio. Os anos não tardam a passar. Eles têm uma filha, a pequena Kate, e para sustentar sua família, Grainier passa a trabalhar temporadas inteiras bem longe do lar, cortando madeira nos mais diferentes recôncavos do país.

Seus retornos para casa são poéticos e carregados de felicidade, mas a falta de dinheiro sempre o obriga a voltar. E é justamente num desses retornos que ele é surpreendido por um terrível incêndio acometido na floresta onde moram, fazendo com que Gladys e Kate fiquem desaparecidas.

Seus 80 anos de vida não são definidos por acontecimentos extraordinários, muito pelo contrário, Robert Grainier não poderia ser um indivíduo mais comum. Ainda assim, essa trajetória de vida assim registrada não deixa de acompanhar de perto as notáveis transformações testemunhadas por esse mesmo homem comum durante os EUA da primeira metade do Século XX: “Train Dreams” vai até a segunda metade dos anos 1960, acompanhando nesse processo a modernização do sistema de transporte ferroviário norte-americano (mostrado sem qualquer viés didático) e chegando inclusive a trazer as notícias sobre a ida do Homem ao espaço.

Lançado originalmente no Festival de Sundance de 2025, onde o trabalho do diretor Clint Bentley e a atuação de Edgerton saíram aclamados pelos críticos, “Train Dreams” é uma obra cuja narrativa definida pela contemplação mantém sempre em foco a relação do Homem com a Natureza, não à toa, suas imagens deslumbrantes desde a primeira cena são o ponto forte: A direção de fotografia, concebida na janela de aspecto 1,46:1, é assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (de “Tungstênio” e ‘Rodantes”).

Não espere sair feliz e saltitante do filme: É um trabalho que foca em agruras íntimas, em tristezas inapeláveis de uma vida árdua, fadada a não encontrar quaisquer outras alternativas para que árdua deixe de ser. Expectadores adeptos de narrativas comerciais certamente vão se ressentir dessa lentidão e dessa desesperança, no entanto, em muitos momentos a realização de Bentley revela-se uma obra sublime.

domingo, 7 de junho de 2026

Sweet Movie


 Em 1974, a Iugoslávia ainda existia quando o diretor Dusan Makavejev (oriundo de lá) perpetrou esta pérola da escatologia e do ultraje conhecida como “Sweet Movie”. Uma co-produção entre Iugoslávia, França e Canadá, “Sweet Movie” é frequentemente comparado, em fóruns de análises pela internet afora, com o igualmente famigerado e perturbador "Salo – 120 Dias de Sodoma" de Pier Paolo Pasolini, lançado um ano depois.

Em ambos os casos até existem razões históricas e sociais para a existência de tamanho tratado sobre a degradação humana: Dusan Makavejv cresceu numa Iugoslávia em ebulição política, à sombra de guerras e genocídios que se desdobraram em terríveis transformações sócio-políticas – todas essas incertezas, acerca da moralidade, da segurança física e existencial e da própria sobrevivência em si, estão embutidas em sua atordoante alegoria. A verdade é que quem conhece o cinema de Dusan Makavejev sabe de sua profunda desilusão para com sistemas governamentais – seja o comunismo, seja o capitalismo – e do quanto ele só consegue enxergar nas organizações do poder uma ordem falha e contraditória que neutraliza a liberdade.

O resultado desse inconformismo é, aqui, uma obra que desafia alguns conceitos de libertinagem e permissividade – é difícil acreditar, por exemplo, que todo um elenco e toda uma equipe técnica se propuseram a conceber as cenas que testemunhamos ao longo dos insanos noventa e oito minutos de duração. Hoje, é desnecessário dizer, “Sweet Movie” jamais teria aval e autorização para ser feito.

Em princípio, “Sweet Movie” foi planejado com uma única linha narrativa, na qual a vencedora do fictício Miss Monde 1984, no Canadá, um concurso de beleza e castidade para jovens virgens (!), é a malfadada protagonista interpretada por Carole Laure. Após ter seu hímen eleito o mais belo (!?!), a jovem é oferecida para se casar com um milionário esbanjador e prepotente, o Sr. Aristole Alplanalpe (John Vernon, colaborador de diversos filmes de Jess Franco). Ao se mudar para a mansão dele, ela vivencia uma sucessão inacreditável de abusos e passa literalmente pelas mãos de vários homens (todos representativos do que seria visto hoje como masculinidade tóxica) como o guarda-costas estuprador (!) Jeremiah Muscle (o fisiculturista canadense Roy Callender) ou o mexicano El Macho (Sami Frey, de “Band À Part” e “Anthony Zimmer-A Caçada”, uma caricatura afetadíssima de amante latino). Sequestrada, a jovem é levada à Paris onde termina em uma comunidade de artistas e hippies vienenses (entre eles, a morena Marpessa Dawn, que apareceu em “Orfeu Negro”) e, após intermináveis situações tão humilhantes quanto nauseantes, junta-se ao marinheiro Potemkin (Pierre Clémenti, de “A Bela da Tarde” e “O Conformista”) em um relacionamento que acaba fulminando-o, para então envolver-se em uma campanha publicitária de chocolate (uma espécie de símbolo para o capitalismo) na qual protagoniza uma das cenas mais emblemáticas do filme.

Entretanto, nem todas as sandices imaginadas por Makavejev foram filmadas: Indignada e contrariada com o extremismo das cenas de abuso a que foi submetida, a atriz canadense Carole Laure (de “Fuga Para A Vitória”) abandonou o projeto obrigando o diretor Makavejev a criar uma segunda linha narrativa, igualmente controversa e problemática. Nela, uma comunista fanática, Anna Planeta (Anna Prucnal, de “Cidade das Mulheres”, de Fellini) navega por um rio de Amsterdã em seu barco adornado com uma carranca de Karl Marx e enfeitado de ponta a ponta com doces coloridos, capturando jovens em meio aos transeuntes das margens, a fim de torna-los seus amantes, seduzi-los e, por fim, matá-los (!) – em sequências do mais descabido abuso infantil!

Todas as perversidades humanas parecem retratadas sem pudor nesta ciranda de euforia e decadência feita sob o pretexto das alusões políticas, entretanto, parece ser consenso que Dusan Makavejev foi longe demais: Seu filme não é apenas um desfile de cenas de orgia, coprofagia, estupros, mortes e toda sorte de cenas envolvendo líquidos corporais, ele inclui também sequências documentais da desova de cadáveres no histórico massacre de Katyn, na Polônia.

A natureza explícita, repelente e francamente indigesta dessas cenas torna “Sweet Movie” um filme difícil de ser recomendado, salvo para públicos muitíssimo específicos.