sexta-feira, 22 de maio de 2026

Belle Epoque


 “Sedução” é o genérico título nacional dado à esta produção espanhola dirigida por Fernando Trueba, vencedora do Oscar 1994 de Melhor Filme Estrangeiro embora o filme tenha sido realizado e lançado em 1992, os percalços vagarosos do circuito comercial da época o levaram a vencer o prêmio somente dois anos depois. O título original remete à uma espécie de nostalgia, e talvez esse seja o caminho mais lúcido para explicar o clima de descontração associado a uma certa liberdade de pensamento que contamina os desdobramentos romântica e sexualmente um tanto improváveis da trajetória do protagonista Fernando (um alter-ego, talvez?) interpretado com inesperada simpatia por Jorge Sanz.

É inverno de 1931 e, na Espanha de Franco, a Guerra Civil corre solta quando um jovem soldado decide-se por desertar –numa cena que já define o tom inusitadamente tragicômico do filme, o jovem Fernando é flagrado, em sua deserção, por dois oficiais da polícia, sogro e genro. Os dois, porém, discordam da ideologia da situação: O sogro quer soltar Fernando, ciente de que a guerra, com seu desfecho iminente, não precisa interferir no destino daquele pobre coitado; já o genro quer porque quer seguir a Lei à risca ameaçando atirar em Fernando e no próprio sogro se for contrariado! Os ânimos se acirram e, sentindo-se desafiado, o genro atira no peito do sogro (!), matando-o ali mesmo, somente para, no instante seguinte, seu arrependimento leva-lo a suicidar-se (!!!). Todavia, a trama de fato se inicia na cena subsequente, quando Fernando pede pouso num prostíbulo onde conhece o ocasional frequentador, o Sr. Manolo (Fernando Fernán Gómez, de “Tudo Sobre Minha Mãe”), que não apenas simpatiza com ele por suas posições políticas (Fernando é a favor que seja instaurada a República) como também se prontifica a livrá-lo das algemas que, desde a malograda cena inicial, ele não conseguiu tirar.

Fernando acaba pernoitando por algumas noites na casa do solitário Sr. Manolo e com ele constrói uma profunda amizade, mas logo o momento de pegar o trem para Madri se aproxima e, segundo o próprio Sr.  Manolo, ele mesmo não irá ficar sozinho por muito tempo: Virão, também de Madri, todas as suas quatro filhas para visita-lo.

Na estação, no dia em que partiria, Fernando recebe, ao lado do Sr. Manolo, suas filhas e fica absorto com a beleza acachapante delas são elas, a mais insinuante Rocio (a sensualíssima Maribel Verdú), a mais velha Clara (Miriam Díaz Aroca), então viúva do marido, a bela ainda que ligeiramente andrógina Violeta (Ariadna Gil, de “A Dançarina e O Ladrão”) e a caçula Luz (uma bem jovem Penelope Cruz, antes de tornar-se uma estrela).

Atraído pela formosura e pela atmosfera de alegria que todas elas conseguem trazer ao lugar, Fernando retorna à casa do Sr. Manolo afirmando que perdera o trem, e por lá fica alguns dias, ao longo dos quais, por incrível que pareça, conseguirá estabelecer um vínculo afetivo com cada uma delas!

Fernando Trueba conduz essa espécie de variação romântica e cômica de “O Estranho Que Nós Amamos” incrementando-a de certa lascívia espanhola: Cobiçada pelo riquinho e inconstante Juanito (Gabino Diego), Rocio é a primeira que se engraça com Fernando; depois dela, o jovem ex-soldado consegue despertar, apenas brevemente, o interesse carnal de Violeta durante uma festa à fantasia tão somente porque esta se veste de soldado e ele de camareira (!) –a inversão de valores que ambos promovem durante a cena da dança de tango é divertida já, Clara se joga nos braços dele num momento de imediato saudosismo dos carinhos do marido (no exato instante em que passavam pelo rio em que ele se afogou!); tudo isso tendo Luz, talvez, a única das irmãs genuinamente apaixonada por ele, como indignada testemunha.

À esses desdobramentos de ordem afetiva, Trueba confere uma leveza temperada por sarcasmo europeu que acompanham também as observações políticas e religiosas embutidas nos diálogos que se seguem.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os Vencedores do Oscar 2026


 Nunca antes, na história do Oscar, houve uma adesão tão grande ao gênero de terror. Está certo que não bastou para que um filme de terror ganhasse o prêmio principal (conquistado por “Uma Batalha Após A Outra”, coroando-o como o grande filme de 2025, e finalmente consagrando o já bastante aclamado diretor Paul Thomas Anderson), mas já houve as históricas 16 indicações para “Pecadores” (fazendo dele o mais indicado da História, com duas indicações a mais que os recordistas anteriores “A Malvada”, de 1951, e “Titanic”, de 1998, com 14 cada um), convertidas em 4 prêmios (inclusive os de Melhor Ator para Michael B. Jordan e Melhor Roteiro Original para Ryan Coogler) e o surpreendente prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para a sensacional Amy Madigan por “A Hora do Mal”.

No mais, como costuma ser, o Oscar evitou surpresas com o mais que merecido prêmio de Melhor Atriz para Jessie Buckley, por “Hamnet” e o de Melhor Filme Internacional para “Valor Sentimental” superando da concorrência do brasileiro “O Agente Secreto”, contudo, guardadas as devidas ressalvas dos infindáveis detratores da internet (que ficaram insatisfeitos com a derrota do Brasil), o filme é merecedor e digno: Além de ser uma obra excelente, o filme de Joaquim Trier finalmente levou um Oscar para a Noruega, que até então nunca tinha conquistado a estatueta.

MELHOR FILME

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR DIREÇÃO

"Uma Batalha Após A Outra", Paul Thomas Anderson

MELHOR DIREÇÃO DE ELENCO

"Uma Batalha Após A Outra", Cassandra Kulukundis

MELHOR ATRIZ

Jessie Buckley, "Hamnet-A Vida Antes de Hamlet"

MELHOR ATOR

Michael B. Jordan, "Pecadores"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Amy Madigan, "A Hora do Mal"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Sean Penn, " Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Guerreiras do K-Pop"

MELHOR FOTOGRAFIA

"Pecadores"

MELHOR FILME INTERNACIONAL

"Valor Sentimental" (Noruega)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Avatar-Fogo e Cinzas"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Girl Who Cried Pearls"

MELHOR FIGURINO

"Frankenstein"

MELHOR SOM
"F1"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

"Frankenstein"

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

"Frankenstein"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“Mr Nobbody Against Putin"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"All The Empty Rooms"

MELHOR CURTA-METRAGEM

“The Singers"

“Two People Exchanging Saliva"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Golden", de "Guerreiras do K-Pop"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR MONTAGEM

"Uma Batalha Após A Outra"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Eccho Valley


Com o apelo de trazer duas belas e talentosas atrizes de diferentes gerações, "Eccho Valley" se sustenta com um roteiro tensos, equilibrado entre revelações bombásticas, amparado no trabalho de um elenco ora funcional, ora básico que, na medida do possível, entrega um filme válido ao expectador que souber conter suas expectativas.

Julianne Moore é Kate Garrett, personagem às voltas com um cotidiano amargo, a sair de um período depressivo –não muito tempo atrás, ela perdeu a companheira, alguém por quem abandonou o casamento com Richard (Kyle McLachlan). O fruto de tal casamento é a jovem Claire (Sydney Sweeney, jovem estrela em ascensão, num papel que aparenta ser protagonista, mas que se revela quase uma coadjuvante), garota problemática, envolvida com drogas e companhias nada confiáveis.

Enquanto passa seus dias na fazenda de cavalos Eccho Valey, localizada no sul da Pensilvânia, dando aulas de equitação, e mantida financeiramente por Richard com cada vez mais relutância, Kate testemunha Claire ir e vir de sua vida sem maiores explicações. Quando Claire precisa de dinheiro ela aparece. Quando precisa de um celular novo, ou de qualquer outra coisa também; na sequência, ela retorna para a vida desregrada de sempre.

Numa dessas ocasiões, ela é seguida por Ryan (Edmund Donovan), seu namorado traficante, e por Jackie (Doomhall Gleeson), o perigoso fornecedor de drogas dele.

Embora os problemas, juntos desses personagens, sinalizem à distância com sua chegada, para o público, e até mesmo para a própria Kate, ela não evita sua aproximação –porque Claire é sua filha, e o fato de amá-la a torna conivente para com todos os seus lapsos.

As coisas começam a se complicar de verdade quando Claire aparece numa noite completamente abalada, afirmando ter matado Ryan acidentalmente –e deixado seu cadáver envolto em plástico dentro do carro!

O diretor Michael Pearce consegue construir um clima de tensão relativamente satisfatório e intenso durante toda a duração do filme, sua grande conquista é manter o público alheio às pontuais guinadas narrativas que começam a se suceder na segunda metade (algumas delas, muito bem-vindas), todavia, “Eccho Valley” está anos-luz de ser uma obra perfeita: Embora conte com intérpretes funcionais e competentes na maior parte do tempo (além dos já citados, temos também Fiona Shaw, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”, num papel fundamental), os personagens são construídos com um rigor que lhe drena todo o magnetismo, levando o expectador, na maior parte das situações esboçadas, a irritar-se com suas falhas, os exemplos mais usuais e frequentes são, claro, as protagonistas, a mãe conivente, muitas vezes omissa e repetidamente passiva de Julianne Moore, e a filha problemática, dissimulada, manipuladora e vitimista de Sydney Sweeney –o carisma e o encanto natural das duas atrizes por muito pouco sobrevive à essa dura prova de fogo!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Uma Batalha Após A Outra


 Tal como “Vício Inerente”, este novo projeto do diretor Paul Thomas Anderson é baseado num livro de Thomas Pynchon, o romance “Vineland”. Se a obra anterior era voltada para uma narrativa de mistério e de idas e vindas ao sabor de muitos delírios psicodélicos, aqui reflete-se sobre a paranóia e as consequências morais de se dedicar integralmente (e cegamente) a uma causa.

A distopia na qual Anderson ambienta seu filme coloca um grupo organizado de resistência, intitulado French 75, em busca de uma revolução em plenos EUA mais xenófobos do que nunca –uma clara alusão à América de Trump ainda que o olhar de Anderson não se furte de mostrar também os revolucionários como partidários de uma causa que facilmente resvala para o terrorismo. Não interesse, deveras, ao diretor dizer quem está certo ou errado; interessa, sim, contemplar os personagens desiguais e intrigantes que desse caldo emergiram.

Entre eles, está Ghetto Pat (Leonardo Dicaprio, excelente), um especialista em explosivos e traquitanas tecnológicas que adere à causa por razões um tanto prosaicas, e por razões prosaicas haverá também de abandoná-la, mais a frente. Ele se envolve com a belíssima Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor, vibrante), uma revolucionária afro-descendente selvagem e indomada. Em algum ponto, entre as noites de atentados planejados e os discursos inflamados, Perfidia engravida –e não tarda a ressentir-se do papel convencional de mãe que a situação lhe impôs.

No entanto, Perfidia, numa manobra carregada de ambiguidade do filme, envolveu-se também com o militar Steven J. Lockjaw (Sean Penn, também excelente, como aliás estão excelentes todos os integrantes deste elenco), um violento inimigo do outro lado do conflito –e, por isso mesmo, um amante de possibilidades ainda mais excitantes e transgressoras para Perfidia.

Tanto Ghetto Pat quanto Lockjaw correm, portanto, o risco de serem pais da filha de Perfidia. Ghetto Pat a cria com amor, e não pestaneja em deixar a French 75 tão logo as circunstâncias se tornem ameaçadoras para sua família. Contudo, algo ainda pior acontece: Durante uma operação, Perfidia é capturada e, favorecida pelo amante Lockjaw por baixo dos panos, acaba delatando boa parte de seus companheiros, obrigando Ghetto Pat à fugir com sua filha, e assumir uma outra identidade.

Dezesseis anos depois, Ghetto Pat agora com o nome de Bob Fergunson cria a filha adolescente Willa (Chase Infiniti, fantástica) na cidade de Baktan Cross, uma cidade santuário que flexibiliza as leis de imigração nas proximidades da fronteira com o México. Tudo segue com tranquilidade até que Lockjaw, agora sob a patente de coronel, obtêm a sonhada chance de ingressar num restrito clube de supremacistas brancos, os Aventureiros Natalinos. No entanto, as regras do clube são severas e segregacionistas –não são toleradas interações com pessoas de outra raça.

A fim de conquistar a chance de ser um dos Aventureiros Natalinos, o Coronel Lockjaw precisa varrer para debaixo do tapete todos os indícios do caso que teve com Perfídia no passado (ela que, por sinal, fugiu do programa de proteção à testemunha e nunca mais foi vista), o que inclui a possibilidade dele ser pai de Willa.

Sob esses pretextos um tanto torpes –e justificados oficialmente por outros mais torpes ainda! –o Coronel move um destacamento de soldados de elite para Baktan Cross, a fim de matar Bob Fergunson e capturar Willa tão logo obtêm a informação do paradeiro deles e da identidade que assumiram.

O que se segue, na sequência, é um filme brilhante, magistralmente equilibrado entre um fino senso de humor (repare na sensacional trilha sonora, a cargo de Jonny Greenwood, do “Radiohead”, que comenta ora com sarcasmo, ora com urgência cada uma das cenas), um afiado drama humano sobre os desdobramentos práticos de uma oposição ao sistema e uma costura fina da trajetória de personagens construídos e interpretados com primazia, uma produção digna de um dos mais habilidosos diretores da atualidade.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Freira Assassina


 Os anos 1960 e 70 no cinema foram, sob certa ótica, irresponsáveis: Uma profusão de gêneros atrelados ao exploitation aflorou, usando (e abusando) do princípio básico de que, uma vez libertos das amarras restritivas do Código Hays, que então perdia exponencialmente sua força e sua influência, os filmes de baixo orçamento poderiam competir nas bilheterias diretamente com obras de estúdio, oferecendo ao público doses cavalares de audácia e perversão que aquelas produções não tinham o aval nem o atrevimento de mostrar.

Muitos foram os subgêneros de dali nasceram –e eventualmente já falei de muitos deles por aqui –um desses foi o nunsploitation, cujo fetiche centrava em freiras sendo mostradas a praticar os mais improváveis, libidinosos e chocantes atos –iam desde assassinatos até prevaricações e satanismos! É consenso entre críticos e especialistas que a gênese do nunsploitation ocorreu em 1971, com o atroz “Os Demônios”, de Ken Russel. Na esteira dessa obra atordoante, inúmeros outros títulos brotaram nas fileiras do cinema B e, como se sabe, na época, os italianos e seu infame cinema comercial, estavam reciclando todo o tipo de barbaridade –vide o famigerado Ciclo Canibal... –e foi de lá da Itália que veio uma das obras mais comentadas do nunsploitation,

Baseado numa já alarmante história real ocorrida na Bélgica –a da freira Cécile Bombeek, viciada em morfina cuja sanha assassina a levou a cometer uma série de assassinatos num hospital geriátrico em Wetteren, entre os anos de 1976 a 1978 –“A Freira Assassina” (ou "Suor Omicidi", seu título original) dirigido por Giulio Berruti foi, por um longo tempo, uma daquelas produções murmuradas em conversas cinéfilas sorrateiras, acerca das polêmicas que ele suscitou, das cenas cabeludas que ostentava a envolver freiras e do fato de ter sido até mesmo proibido no Reino Unido no seu lançamento (1979) –e, por tratar-se de uma época sem o acesso rápido da internet, esses comentários passaram a rondar a fama do filme, convertendo-o numa lenda cult.

Retornando ao trabalho em um hospital católico para idosos após uma cirurgia de retirada de um tumor cerebral, a Irmã Gertrudes (Anita Ekberg, de "A Doce Vida", protagonista da famosa cena na Fontana di Trevi) sofre de ansiedade e crê que seu câncer ainda não está curado. Sua colega de quarto, Irmã Mathieu (Paola Morra, do também pernicioso “Atrás dos Muros do Convento”) é quem consegue às escondidas morfina e ópio para aplacar os desatinos de Gertrudes, uma vez que a Madre Superiora (Alida Valli, dos clássicos "O Terceiro Homem", "Sedução da Carne" e "Suspiria") não acredita nas mazelas pós-cirúrgicas alegadas por Gertrudes, afirmando serem elas nada mais que hipocondria.

Sem que todos sabiam, Gertrudes passa a levar uma vida dupla, fugindo à noite para a cidade, vestindo-se de forma sexy, experimentando aventuras sexuais com estranhos, e gradualmente demonstrando uma nova personalidade, mais ninfomaníaca, selvagem e agressiva, inclusive com os pacientes. A forte atração sexual que a Irmã Mathieu sente por Gertrudes não a deixa suspeitar de tal súbita mudança, nem mesmo depois que seu próprio avô aparece assassinado, na primeira das inúmeras mortes que se seguem. Esses crimes levam inicialmente à demissão do clínico geral, o Dr. Poirret (Massimo Serato, de “Inverno de Sangue em Veneza”), substituído pelo jovem Dr. Rowland (Joe Dalessandro, ator-fetiche de Andy Warhol e Paul Morrisey, em filmes como “Sangue Para Drácula” e “Carne Para Frankenstein”). Contudo, o Dr. Poirret segue investigando as mortes, tendo Gertrudes como sua suspeita Nº 1.

Visto hoje, “Suor Omicidi” não conserva tanto do teor assombroso que o perseguiu no fim dos anos 1970, é uma obra datada, cafona, construída com as inverossimilhanças e redundâncias características do giallo de então, e para as tarimbadas plateias atuais certamente não vai corresponder, em violência e erotismo, à toda controvérsia que suscitou. Seus maiores apelos, que ainda o fazem bastante curioso e atrativo, são a trilha sonora e o desleixo quase proposital com que elabora situações libidinosas, perversas e até profanas com seu elenco feminino sempre trajando figurinos de freiras –a essência, afinal, do nunspolitation.

domingo, 23 de novembro de 2025

Emmanuelle


 Visto por toda uma geração como um inconteste clássico erótico –em grande parte graças à inesquecível presença de sua estrela Sylvia Kristel –“Emmanuelle”, de 1974, de Justin Jaeckin, ganhou em 2025 uma refilmagem que filtra seu conceito num prisma de inúmeras pautas da atualidade que consequentemente transfiguram a premissa a ponto de render, no fim das contas, um filme completamente diferente.

Dirigido por uma mulher, a francesa Audrey Diwan, o novo “Emmanuelle” revê conceitos paradigmáticos de erotismo (na maioria das vezes, empregados como fetiche e estímulo para a parcela masculina do público, mas, não aqui), avalia com diferentes posturas a busca por satisfação sexual de sua protagonista e, na atmosfera requintada, elíptica e ansiosamente distanciada do vulgar e do mundano, evoca elementos que fazem lembrar, e muito, “Encontros e Desencontros”, de Sofia Coppola.

Vivida pela francesa Noémie Merlant (coadjuvante em “Lee”, dona de um corpo escultural e de um charme inabalável, como tinha de ser), Emmanuelle –ou, pelo menos, presume-se que esse seja o seu nome, visto que não é mencionado durante do filme todo! –é, aqui, uma funcionária de altíssimo nível de uma rede de hotéis de luxo. A começar o filme, ela é designada para o Rosefield Hotel, em Hong Kong –e a mudança da protagonista para um local de ares asiáticos é um dos poucos tópicos no filme que realmente o aproximam do “Emmanuelle” original (no qual a heroína vai passar as núpcias na Tailândia)–contudo, esta Emmanuelle não está em lua-de-mel, ou atrelada à um homem como a Emmanuelle de Sylvia Kristel. A narrativa de incontornáveis bases feministas (ainda que amenizadas por um tratamento europeu mais sensato) faz dela uma mulher com uma missão: Seu papel é avaliar o desempenho do Hotel como um todo na recepção dos hóspedes (algo que, desde o início, se percebe ser de altíssimo nível) e da gerência de sua adminstradora, Margot Parson, vivida por Naomi Watts. O motivo: O Rosefield Hotel caiu algumas posições num importante ranking de avaliações, e os proprietários querem que Emmanuelle descubra o porquê. Aliás, mais do que isso, eles querem que ela encontre um erro na administração de Margot para poder fazer dela um bode expiatório nessa questão –e caso não encontre tal erro (nas entrelinhas, caso demonstre alguma compaixão por ela), Emmanuelle pode colocar em risco o próprio emprego.

Na sinopse, este novo “Emmanuelle”, portanto, se desvencilha completamente das redundâncias nas quais poderia se apontar a trama como um mero pretexto para a sucessão de cenas de nudez e sexo, convertendo-o num filme erótico convencional –o que, sejamos honestos, o “Emmanuelle” original já era, e ainda mais suas banais continuações. No entanto, há, sim, erotismo de sobra na obra da diretora Diwan: Emmanuelle é uma mulher independente, disponível e plena em sua sexualidade (adjetivos que não necessariamente espelhavam a primeira Emmanuelle), e uma vez instalada no Rosefield Hotel, em Hong Kong, ela não deixa passar despercebido as oportunidades para desempenhar sua libido; na piscina do hotel, ela identifica a atividade constante de uma discreta e clandestina rede de acompanhantes sexuais, entre os quais a jovem Zelda (Chacha Huang), que eventualmente se torna amante da própria Emanuelle; todavia, a presença que, aos poucos, desestabiliza Emmanuelle de fato é Kei Shinohara (Will Sharpe, da série “The White Lotus”), um hóspede misterioso (nunca dorme em seu quarto, ninguém sabe ao certo sua ocupação e vive como um fantasma pelos corredores) cujas atitudes a confundem e a intrigam a ponto de levar Emmanuelle, em determinado momento, a questionar sua postura diante das exigências profissionais.

A verdade é que, nesta produção, sobrou muito pouco da “Emmanuelle” como ela é lembrada pelos seus fãs mais ardorosos –o filme poderia tranquilamente ter qualquer outro nome que, efetivamente, não teria qualquer conexão com o filme estrelado por Sylvia Kristel, lembrando que, apesar disso tudo, ambos são, alegadamente, adaptações de um mesmo livro, “Emmanuelle”, publicado em 1967 pela autora Emmanuelle Arsan –o que a diretora Audrey Diwan, aliada à atriz Noémie Merlant, fez aqui foi repaginar radicalmente os conceitos que norteiam sua personagem. Não há qualquer vestígio de dependência de homens nesta Emmanuelle –eles, quando muito, surgem como uma ferramenta de preenchimento à suas carências eventuais, como o homem sem nome no início dentro do avião (que lhe proporciona sexo casual) ou o próprio Kei Shinohara (quase um guia espiritual para suas crises existenciais, e não interesse romântico de fato) –e o filme que ela protagoniza termina sendo uma realização que vai muito mais de encontro às fantasias femininas do que às fantasias masculinas: A Emmanuelle de Noémie Merlant é uma mulher mergulhada em luxo e beleza inesgotáveis; possui o trabalho dos sonhos e um guarda-roupa de celebridade; é empoderada, objetiva e altiva com pouquíssimos momentos a explorar sua vulnerabilidade; e absolutamente confortável com a própria sexualidade.

Um exemplo do que toda mulher almeja ter –muito mais do que sexo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Twin Peaks - Segunda Temporada


 A segunda temporada de “Twin Peaks” é praticamente simultânea em relação à primeira –os eventos estão intimamente ligados, a ponto de serem indivisíveis. Quando reencontramos os personagens, todos eles estão ainda no turbilhão dos acontecimentos do episódio final da primeira temporada, em especial, o Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) alvejado misteriosamente por um tiro! A diferença é que, se nos episódios finais do primeiro ano, “Twin Peaks” incorporou tintas mais convencionais de um suspense investigativo, aqui, no episódio de uma hora e meia que inicia a segunda temporada, a estranheza retorna com força total –sem sombra de dúvidas porque David Lynch (um tanto ausente ao longo de alguns episódios da temporada anterior) retorna aqui como diretor –e o estilo de Lynch logo se impõe sobre a narrativa, deixando em evidência o quanto as características de sua direção se diferenciam, e muito, dos demais realizadores que se revezaram na série (que incluem, entre outros, Leslie Linka Glatter, Uli Edel, James Foley e até mesmo a atriz Diane Keaton). O primeiro episódio da segunda temporada é surreal, intrigante, excêntrico, bizarro e desafiador.

Nessa sucessão de momentos desconcertantes temos, portanto, a situação do Ag. Cooper, baleado e sangrando no chão de seu quarto de hotel, enquanto um velhinho, mordomo do lugar, lhe serve leite, parecendo incapaz de perceber a gravidade do ocorrido. Ao mesmo tempo, Audrey Horne (Sherilyn Fenn) se vê quase como uma refém dentro do prostíbulo financiado pelo próprio pai (Richard Beymer), indefesa e perdida, fruto de suas tentativas em investigar por conta própria os suspeitos do assassinato de Laura Palmer –o mistério que impulsiona, afinal, boa parte da série.

Outros acontecimentos que marcam a segunda temporada são os trágicos desdobramentos da investigação pessoal de Donna (Lara Flynn Boyle), James (James Marshall) e Maddie (Sheryl Lee, que interpreta também a própria Laura Palmer), e a descoberta de Donna de um diário secreto de Laura, em posse do estranho e alienado Harold (Lenny von Dohlen, de “Amores Eletrônicos”); e a nova dinâmica que surge entre os amantes Bobby (Dana Ashbrook) e Shelly (Madchen Amick) depois que o marido dela, Leo (Eric Da Re), é baleado e volta para casa em estado completamente vegetativo.

Contudo, as coisas não são somente flores na segunda temporada de “Twin Peaks”: Bem mais extensa que a primeira (que possuía apenas oito episódios contra os quase intermináveis vinte e dois desta aqui), esta sessão teve de lidar o momentâneo abandono de David Lynch, certamente, a grande força criativa e fonte da singular originalidade que diferenciava a série. Ausente da série por conta de outros projetos e desentendimentos com os produtores, Lynch, que dirigiu três dos (excelentes) episódios na primeira leva desta segunda temporada, praticamente abandonou “Twin Peaks” por volta do oitavo episódio –e essa ausência é tremendamente sentida! –deixando um vácuo criativo que diminui a qualidade da série, torna seu enredo mais disperso e convencional, e resguarda muito do mistério à um suspense mais genérico e sem personalidade. É irônico que seja, mais ou menos nesse ponto, que o grande enigma da série (“Quem matou Laura Palmer?”) comece a ser respondido –de uma forma, por sinal, que vai na contramão à revelação bombástica que poderia estar se esperando.

A nítida impressão é a de que este segundo ano é mais do que uma única temporada: Essa ruptura diferencia completamente a primeira dezena de episódios dos demais; a morte de Laura Palmer deixa de ser o mote central do enredo, substituída por um jogo nebuloso de gato e rato entre o Ag. Cooper e um vingativo ex-parceiro do FBI, Windom Earl (Kenneth Welsh), cujas ameaças e crimes cometidos vão alterando as dinâmicas entre muitos dos personagens a ponto de alguns deles perderem sua relevância dentro da premissa. Donna e James, por exemplo, mergulham numa oscilação banal entre o suspense de uma intriga paralela e os resquícios de um romance pouco válido; Audrey, após idas e vindas desinteressantes entre situações nada pertinentes ganha um novo interesse amoroso (vivido por Billy Zane); Bobby e Shelly veem sua trama se dispersar (tentam viver juntos até que Leo, de quem cuidavam, foge) até virarem quase figurantes em tramas de outrem; e o Ag. Cooper, destituído do posto de agente do FBI, após alguns estranhos contratempos, acaba auxiliando o delegado (Michael Ontkean) em seus casos usuais –quando uma série não sabe o que fazer com seu próprio protagonista, isso é o indício de que algo está errado! –é aqui também que o Ag. Cooper ganha um novo (e insosso) interesse amoroso nas formas da atriz Heather Graham, onde aparece o personagem vivido por David Duchovny (que anos depois faria história protagonizando a série “Arquivo X”), um agente do DEA travesti chamado Denis/Denise, e o grande enigma de “Twin Peaks” –bem mais até do que a morte de Laura –passa a ser a origem da maligna entidade Bob (interpretado pelo assustador Frank Silva) e os segredos em torno do misterioso black lodge.

Ainda assim, a partir de um certo ponto, é o carisma desses personagens que sustenta “Twin Peaks”, na falta do mistério que até então atraia a curiosidade dos expectadores, mas, por sorte, Lynch retorna, em algum ponto dos últimos quatro episódios para, com seu talento desigual, devolver à “Twin Peaks” sua singularidade: Embora muitos dos episódios continuem maçantes (ele volta à interpretar o chefe de departamento do FBI, Gordon Cole, surdo como uma porta!), Lynch se encarrega da direção do episódio final, trazendo nele toda sua habilidade em manejar o surreal, o onírico e o intrigante.

Apesar de demasiada longa, e certamente testando a paciência do expectador em muitos dos capítulos que se seguem, a segunda (e à epoca considerada a última) temporada de “Twin Peaks” se encerra resgatando a atmosfera desafiadora com a qual se iniciou, e termina sem terminar coisa alguma –muitos (senão todos) os personagens são abandonados numa espécie de encruzilhada onde são deixados (e ao expectador) num vácuo indiferente de destinos nebulosos e inconclusos.

Mais David Lynch que isso, impossível!