sábado, 23 de maio de 2026

Michael


 Poucas vezes uma produção cinematográfica conseguiu polarizar de tal maneira as considerações da crítica e a recepção de público; se por um lado diversos críticos especializados logo apareceram apontando os defeitos estruturais da realização apaixonada do diretor Antoine Fuqua (que eventualmente estão lá), do outro lado, o público deu de ombros comparecendo em massa às salas de cinema, vibrando com as músicas e transformando o filme em um fenômeno.

“Michael”, como qualquer um à essas alturas deve saber, é a cinebiografia de Michael Jackson, nascido em meados da década de 1960 e, ainda bem pequeno (vivido por Juliano Valdi), transformado por seu pai Joe Jackson (Colman Domingo, absurdamente brilhante), no elemento central das apresentações dos Jackson Five, grupo musical que reunia Michael e seus outros quatro irmãos mais velhos – dentre os quais Jermaine Jackson, um dos produtores executivos.

Aqueles que adentrarem o filme buscando revelações inesperadas sobre Michael Jackson, ou detalhes nunca antes mostrados sobre sua vida pessoal certamente irão se decepcionar: O roteiro, assinado por John Logan (de “Gladiador” e “O Aviador”), certamente sob instrução da Família Jackson, não assume qualquer caráter investigativo. Ao invés disso, ele percorre com mal disfarçado enaltecimento todos os tópicos já bem conhecidos da trajetória de Michael Jackson – a infância perdida por conta das apresentações musicais (e uma tentativa de recuperá-la que perdurou por toda sua vida); a evolução do talento fora do normal nos anos 1970; a chegada dos anos 1980 e com eles o desejo de seguir uma carreira-solo, ainda que sempre oprimido pela sombra ameaçadora e tóxica do pai; a amizade com o empresário musical John Branca (Miles Teller); o acidente que afetou seu couro cabeludo e gradualmente tornou-o dependente de remédios para dor; os grandes e inesquecíveis sucessos.

Em sua fase já crescido, Michael é interpretado por Jaafar Jackson (filho de Jermaine e sobrinho do próprio Michael), que simplesmente desaparece dentro do personagem – não somente sua postura gestual evoca prontamente a desafiadora agilidade de Michael Jackson como também sua atuação, entonação de voz e expressividade captura todas as contradições, as vulnerabilidades e fragilidades que tornavam Jackson tão singular e fascinante, em contraponto ao artista de arrojo sem igual que ele era capaz de ser.

E é justamente nesses momentos – quando Michael dá vazão ao seu talento e à sua incontida extravagância como músico e dançarino – que o filme atinge seu ápice: O arrepiante momento em que ele cria a coreografia de “Beat It”; a inovadora realização do videoclipe de “Thriller”; a primeira vez que ele executou o famoso moonwalk ao som de “Billie Jean”; a vibrante turnê de “Bad”.

“Michael”, o filme, proporciona ao expectador uma sensação de arrebatamento muito próxima do que deveria ter sido testemunhar um dos apoteóticos shows do próprio Michael Jackson – e por isso mesmo, vê-lo na tela do cinema se faz uma prioridade – é um filme feito para fãs e não para expectadores ocasionais, e talvez nem fizesse sentido fazer algo diferente. O artista Michael Jackson pulsa em um filme feito com amor, entusiasmo e uma devoção absoluta.

A trama deixa o público no período de 1988, quando Michael finalmente se desvencilha do pai e dos Jackson Five e parte para uma fulgurante carreira-solo com o disco “Bad”. O já anunciado segundo filme, portanto, deve focar inevitavelmente nos desdobramentos mais polêmicos de sua vida e de sua carreira sucedidos justamente naqueles anos posteriores.

Não há nada disso nesta primeira parte, mais luminosa e inocente, nela somos brindados com um retrato feito com carinho, zelo e reconhecimento de um artista sem igual que passou pelo mundo trazendo uma qualidade de música e vibração que poucos foram capazes de igualar, e que buscou ainda assim viver sua vida, com esquisitices e tudo o mais, sob uma ribalta inclemente que lhe negou qualquer direito de ser imperfeito.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Wicked - Parte 2


 O Mal é um ponto de vista.

A primeira parte de “Wicked” era um filme brilhante: Ao trazer para a luz as origens não conhecidas da Bruxa Má do Oeste, Elphaba, e da Bruxa Boa, Glinda, o diretor Jon M. Chu compôs um musical arrojado, ainda mais surpreendente por oferecer um novo enfoque para uma personagem sempre vista como vilã (Elphaba) e, por meio dessa observação, trazer à tona questões um tanto profundas sobre empatia, pertencimento e manipulação midiática.

Dividido em duas partes (com a segunda tendo ganhado a ribalta um ano após a estréia da primeira), “Wicked”, agora, finalmente está completo e pode ser conferido na íntegra pelo público. O grande problema dessa segunda parte, no entanto, termina sendo a expectativa gerada justamente pela inesperada qualidade estratosférica revelada pelo filme anterior; que chegou na cerimônia do Oscar 2025 com nada menos do que 10 indicações!

Embora ainda ostente excelência técnica em todos os quesitos, esta “Parte 2” não consegue trazer de volta toda aquela magia da primeira parte –talvez, o encanto tenha um pouco se esgotado; talvez, a novidade do primeiro filme seja um adendo que não se percebe mais tanto aqui; ou talvez, nós, enquanto expectadores, sejamos difíceis de satisfazer mesmo...

Depois dos bombásticos acontecimentos do final do filme anterior, quando Elphaba é decretada inimiga pública Nº 1 em Oz e Glinda, por sua vez, se torna o rosto da propaganda através da qual os governantes (o Mágico e Madame Morrible) querem vender tranquilidade aos moradores, nós reencontramos todos os personagens após algum tempo.

O Mágico de Oz (Jeff Goldblum), que de mágico não tem nada, promoveu a construção da Estrada de Tijolos Amarelos, destinada a conectar todos os recôncavos do reino, contudo, tal empreendimento é realizado às custas de um cruel e inclemente trabalho escravo dos animais e Elphaba (Cynthia Erivo), ferrenha opositora a esses maus tratos, tem atacado sistematicamente os locais de atividade. Para a calculista Madame Morrible (Michelle Yeoh) ela é um grande problema a ser solucionado: Afinal, diferente da maioria no reino, Elphaba é genuinamente dotada de magia –outros, como o mágico e a própria Glinda, devem fingir ante a população, lançando mão de truques de ilusionismo (como aquele no qual Glinda projeta uma bolha e sai flutuando por aí).

A oportunidade para neutralizar Elphaba, logo é providenciada: Madame Morrible conjura um tornado que traz, de algum lugar muito distante, uma casa dentro da qual uma menina perdida, chamada Dorothy, chega na Aldeia dos Munchkins, soterrando a própria irmã de Elphaba, Nessarose (Marissa Bode) que àquelas alturas já vinha ganhando poderosas tintas de vilania.

Assim sendo, diferente da “Parte 1”, que se apresentava como um prequel do clássico “O Mágico de Oz”, esta “Parte 2” não só chega no ponto em que a trama do filme de 1939 se inicia, como também a adentra, dando-lhe uma perspectiva completamente nova ao entregar cenas que “ficaram faltando” e ainda se estender para além de seu já famoso desfecho. Pena que essa costura não soe nem um pouco harmoniosa: Àqueles que tiverem a memória fresca de “O Mágico de Oz” vão verificar nítidas algumas mudanças pontuais no roteiro (como o encontro protelado de Elphaba e Dorothy; a índole tão distinta do Espantalho; e as motivações do Homem de Lata; além de sequências no clássico em que realmente vemos Glinda valer-se de magia quando, aqui, ela não possui nenhuma).

Não deixa de ser surpreendente (e até indicativo de certa coragem) vermos que alguns personagens da “Parte 1” eram figuras icônicas do clássico, como os próprios Espantalho e Homem de Lata, o que dá às suas sub-tramas um viés quase trágico.

Entretanto, é às suas protagonistas que está reservado o verdadeiro esmero do roteiro e da direção: A amizade entre Elphaba e Glinda que, ao longo do filme anterior e deste aqui, luta para superar o antagonismo e os papéis opositores (nada condizentes com a realidade) que o destino lhe resguarda, sobretudo, no caso de Elphaba, cujas boas intenções e a própria retidão ao não se corromper a colocam como a grande vilã no unilateral enredo vivenciado por Dorothy.

Afinal, o Mal é um ponto de vista.

Belle Epoque


 “Sedução” é o genérico título nacional dado à esta produção espanhola dirigida por Fernando Trueba, vencedora do Oscar 1994 de Melhor Filme Estrangeiro embora o filme tenha sido realizado e lançado em 1992, os percalços vagarosos do circuito comercial da época o levaram a vencer o prêmio somente dois anos depois. O título original remete à uma espécie de nostalgia, e talvez esse seja o caminho mais lúcido para explicar o clima de descontração associado a uma certa liberdade de pensamento que contamina os desdobramentos romântica e sexualmente um tanto improváveis da trajetória do protagonista Fernando (um alter-ego, talvez?) interpretado com inesperada simpatia por Jorge Sanz.

É inverno de 1931 e, na Espanha de Franco, a Guerra Civil corre solta quando um jovem soldado decide-se por desertar –numa cena que já define o tom inusitadamente tragicômico do filme, o jovem Fernando é flagrado, em sua deserção, por dois oficiais da polícia, sogro e genro. Os dois, porém, discordam da ideologia da situação: O sogro quer soltar Fernando, ciente de que a guerra, com seu desfecho iminente, não precisa interferir no destino daquele pobre coitado; já o genro quer porque quer seguir a Lei à risca ameaçando atirar em Fernando e no próprio sogro se for contrariado! Os ânimos se acirram e, sentindo-se desafiado, o genro atira no peito do sogro (!), matando-o ali mesmo, somente para, no instante seguinte, seu arrependimento leva-lo a suicidar-se (!!!). Todavia, a trama de fato se inicia na cena subsequente, quando Fernando pede pouso num prostíbulo onde conhece o ocasional frequentador, o Sr. Manolo (Fernando Fernán Gómez, de “Tudo Sobre Minha Mãe”), que não apenas simpatiza com ele por suas posições políticas (Fernando é a favor que seja instaurada a República) como também se prontifica a livrá-lo das algemas que, desde a malograda cena inicial, ele não conseguiu tirar.

Fernando acaba pernoitando por algumas noites na casa do solitário Sr. Manolo e com ele constrói uma profunda amizade, mas logo o momento de pegar o trem para Madri se aproxima e, segundo o próprio Sr.  Manolo, ele mesmo não irá ficar sozinho por muito tempo: Virão, também de Madri, todas as suas quatro filhas para visita-lo.

Na estação, no dia em que partiria, Fernando recebe, ao lado do Sr. Manolo, suas filhas e fica absorto com a beleza acachapante delas são elas, a mais insinuante Rocio (a sensualíssima Maribel Verdú), a mais velha Clara (Miriam Díaz Aroca), então viúva do marido, a bela ainda que ligeiramente andrógina Violeta (Ariadna Gil, de “A Dançarina e O Ladrão”) e a caçula Luz (uma bem jovem Penelope Cruz, antes de tornar-se uma estrela).

Atraído pela formosura e pela atmosfera de alegria que todas elas conseguem trazer ao lugar, Fernando retorna à casa do Sr. Manolo afirmando que perdera o trem, e por lá fica alguns dias, ao longo dos quais, por incrível que pareça, conseguirá estabelecer um vínculo afetivo com cada uma delas!

Fernando Trueba conduz essa espécie de variação romântica e cômica de “O Estranho Que Nós Amamos” incrementando-a de certa lascívia espanhola: Cobiçada pelo riquinho e inconstante Juanito (Gabino Diego), Rocio é a primeira que se engraça com Fernando; depois dela, o jovem ex-soldado consegue despertar, apenas brevemente, o interesse carnal de Violeta durante uma festa à fantasia tão somente porque esta se veste de soldado e ele de camareira (!) –a inversão de valores que ambos promovem durante a cena da dança de tango é divertida já, Clara se joga nos braços dele num momento de imediato saudosismo dos carinhos do marido (no exato instante em que passavam pelo rio em que ele se afogou!); tudo isso tendo Luz, talvez, a única das irmãs genuinamente apaixonada por ele, como indignada testemunha.

À esses desdobramentos de ordem afetiva, Trueba confere uma leveza temperada por sarcasmo europeu que acompanham também as observações políticas e religiosas embutidas nos diálogos que se seguem.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os Vencedores do Oscar 2026


 Nunca antes, na história do Oscar, houve uma adesão tão grande ao gênero de terror. Está certo que não bastou para que um filme de terror ganhasse o prêmio principal (conquistado por “Uma Batalha Após A Outra”, coroando-o como o grande filme de 2025, e finalmente consagrando o já bastante aclamado diretor Paul Thomas Anderson), mas já houve as históricas 16 indicações para “Pecadores” (fazendo dele o mais indicado da História, com duas indicações a mais que os recordistas anteriores “A Malvada”, de 1951, e “Titanic”, de 1998, com 14 cada um), convertidas em 4 prêmios (inclusive os de Melhor Ator para Michael B. Jordan e Melhor Roteiro Original para Ryan Coogler) e o surpreendente prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para a sensacional Amy Madigan por “A Hora do Mal”.

No mais, como costuma ser, o Oscar evitou surpresas com o mais que merecido prêmio de Melhor Atriz para Jessie Buckley, por “Hamnet” e o de Melhor Filme Internacional para “Valor Sentimental” superando da concorrência do brasileiro “O Agente Secreto”, contudo, guardadas as devidas ressalvas dos infindáveis detratores da internet (que ficaram insatisfeitos com a derrota do Brasil), o filme é merecedor e digno: Além de ser uma obra excelente, o filme de Joaquim Trier finalmente levou um Oscar para a Noruega, que até então nunca tinha conquistado a estatueta.

MELHOR FILME

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR DIREÇÃO

"Uma Batalha Após A Outra", Paul Thomas Anderson

MELHOR DIREÇÃO DE ELENCO

"Uma Batalha Após A Outra", Cassandra Kulukundis

MELHOR ATRIZ

Jessie Buckley, "Hamnet-A Vida Antes de Hamlet"

MELHOR ATOR

Michael B. Jordan, "Pecadores"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Amy Madigan, "A Hora do Mal"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Sean Penn, " Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Guerreiras do K-Pop"

MELHOR FOTOGRAFIA

"Pecadores"

MELHOR FILME INTERNACIONAL

"Valor Sentimental" (Noruega)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Avatar-Fogo e Cinzas"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Girl Who Cried Pearls"

MELHOR FIGURINO

"Frankenstein"

MELHOR SOM
"F1"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

"Frankenstein"

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

"Frankenstein"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“Mr Nobbody Against Putin"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"All The Empty Rooms"

MELHOR CURTA-METRAGEM

“The Singers"

“Two People Exchanging Saliva"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Golden", de "Guerreiras do K-Pop"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Pecadores"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Uma Batalha Após A Outra"

MELHOR MONTAGEM

"Uma Batalha Após A Outra"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Eccho Valley


Com o apelo de trazer duas belas e talentosas atrizes de diferentes gerações, "Eccho Valley" se sustenta com um roteiro tensos, equilibrado entre revelações bombásticas, amparado no trabalho de um elenco ora funcional, ora básico que, na medida do possível, entrega um filme válido ao expectador que souber conter suas expectativas.

Julianne Moore é Kate Garrett, personagem às voltas com um cotidiano amargo, a sair de um período depressivo –não muito tempo atrás, ela perdeu a companheira, alguém por quem abandonou o casamento com Richard (Kyle McLachlan). O fruto de tal casamento é a jovem Claire (Sydney Sweeney, jovem estrela em ascensão, num papel que aparenta ser protagonista, mas que se revela quase uma coadjuvante), garota problemática, envolvida com drogas e companhias nada confiáveis.

Enquanto passa seus dias na fazenda de cavalos Eccho Valey, localizada no sul da Pensilvânia, dando aulas de equitação, e mantida financeiramente por Richard com cada vez mais relutância, Kate testemunha Claire ir e vir de sua vida sem maiores explicações. Quando Claire precisa de dinheiro ela aparece. Quando precisa de um celular novo, ou de qualquer outra coisa também; na sequência, ela retorna para a vida desregrada de sempre.

Numa dessas ocasiões, ela é seguida por Ryan (Edmund Donovan), seu namorado traficante, e por Jackie (Doomhall Gleeson), o perigoso fornecedor de drogas dele.

Embora os problemas, juntos desses personagens, sinalizem à distância com sua chegada, para o público, e até mesmo para a própria Kate, ela não evita sua aproximação –porque Claire é sua filha, e o fato de amá-la a torna conivente para com todos os seus lapsos.

As coisas começam a se complicar de verdade quando Claire aparece numa noite completamente abalada, afirmando ter matado Ryan acidentalmente –e deixado seu cadáver envolto em plástico dentro do carro!

O diretor Michael Pearce consegue construir um clima de tensão relativamente satisfatório e intenso durante toda a duração do filme, sua grande conquista é manter o público alheio às pontuais guinadas narrativas que começam a se suceder na segunda metade (algumas delas, muito bem-vindas), todavia, “Eccho Valley” está anos-luz de ser uma obra perfeita: Embora conte com intérpretes funcionais e competentes na maior parte do tempo (além dos já citados, temos também Fiona Shaw, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”, num papel fundamental), os personagens são construídos com um rigor que lhe drena todo o magnetismo, levando o expectador, na maior parte das situações esboçadas, a irritar-se com suas falhas, os exemplos mais usuais e frequentes são, claro, as protagonistas, a mãe conivente, muitas vezes omissa e repetidamente passiva de Julianne Moore, e a filha problemática, dissimulada, manipuladora e vitimista de Sydney Sweeney –o carisma e o encanto natural das duas atrizes por muito pouco sobrevive à essa dura prova de fogo!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Uma Batalha Após A Outra


 Tal como “Vício Inerente”, este novo projeto do diretor Paul Thomas Anderson é baseado num livro de Thomas Pynchon, o romance “Vineland”. Se a obra anterior era voltada para uma narrativa de mistério e de idas e vindas ao sabor de muitos delírios psicodélicos, aqui reflete-se sobre a paranóia e as consequências morais de se dedicar integralmente (e cegamente) a uma causa.

A distopia na qual Anderson ambienta seu filme coloca um grupo organizado de resistência, intitulado French 75, em busca de uma revolução em plenos EUA mais xenófobos do que nunca –uma clara alusão à América de Trump ainda que o olhar de Anderson não se furte de mostrar também os revolucionários como partidários de uma causa que facilmente resvala para o terrorismo. Não interesse, deveras, ao diretor dizer quem está certo ou errado; interessa, sim, contemplar os personagens desiguais e intrigantes que desse caldo emergiram.

Entre eles, está Ghetto Pat (Leonardo Dicaprio, excelente), um especialista em explosivos e traquitanas tecnológicas que adere à causa por razões um tanto prosaicas, e por razões prosaicas haverá também de abandoná-la, mais a frente. Ele se envolve com a belíssima Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor, vibrante), uma revolucionária afro-descendente selvagem e indomada. Em algum ponto, entre as noites de atentados planejados e os discursos inflamados, Perfidia engravida –e não tarda a ressentir-se do papel convencional de mãe que a situação lhe impôs.

No entanto, Perfidia, numa manobra carregada de ambiguidade do filme, envolveu-se também com o militar Steven J. Lockjaw (Sean Penn, também excelente, como aliás estão excelentes todos os integrantes deste elenco), um violento inimigo do outro lado do conflito –e, por isso mesmo, um amante de possibilidades ainda mais excitantes e transgressoras para Perfidia.

Tanto Ghetto Pat quanto Lockjaw correm, portanto, o risco de serem pais da filha de Perfidia. Ghetto Pat a cria com amor, e não pestaneja em deixar a French 75 tão logo as circunstâncias se tornem ameaçadoras para sua família. Contudo, algo ainda pior acontece: Durante uma operação, Perfidia é capturada e, favorecida pelo amante Lockjaw por baixo dos panos, acaba delatando boa parte de seus companheiros, obrigando Ghetto Pat à fugir com sua filha, e assumir uma outra identidade.

Dezesseis anos depois, Ghetto Pat agora com o nome de Bob Fergunson cria a filha adolescente Willa (Chase Infiniti, fantástica) na cidade de Baktan Cross, uma cidade santuário que flexibiliza as leis de imigração nas proximidades da fronteira com o México. Tudo segue com tranquilidade até que Lockjaw, agora sob a patente de coronel, obtêm a sonhada chance de ingressar num restrito clube de supremacistas brancos, os Aventureiros Natalinos. No entanto, as regras do clube são severas e segregacionistas –não são toleradas interações com pessoas de outra raça.

A fim de conquistar a chance de ser um dos Aventureiros Natalinos, o Coronel Lockjaw precisa varrer para debaixo do tapete todos os indícios do caso que teve com Perfídia no passado (ela que, por sinal, fugiu do programa de proteção à testemunha e nunca mais foi vista), o que inclui a possibilidade dele ser pai de Willa.

Sob esses pretextos um tanto torpes –e justificados oficialmente por outros mais torpes ainda! –o Coronel move um destacamento de soldados de elite para Baktan Cross, a fim de matar Bob Fergunson e capturar Willa tão logo obtêm a informação do paradeiro deles e da identidade que assumiram.

O que se segue, na sequência, é um filme brilhante, magistralmente equilibrado entre um fino senso de humor (repare na sensacional trilha sonora, a cargo de Jonny Greenwood, do “Radiohead”, que comenta ora com sarcasmo, ora com urgência cada uma das cenas), um afiado drama humano sobre os desdobramentos práticos de uma oposição ao sistema e uma costura fina da trajetória de personagens construídos e interpretados com primazia, uma produção digna de um dos mais habilidosos diretores da atualidade.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Freira Assassina


 Os anos 1960 e 70 no cinema foram, sob certa ótica, irresponsáveis: Uma profusão de gêneros atrelados ao exploitation aflorou, usando (e abusando) do princípio básico de que, uma vez libertos das amarras restritivas do Código Hays, que então perdia exponencialmente sua força e sua influência, os filmes de baixo orçamento poderiam competir nas bilheterias diretamente com obras de estúdio, oferecendo ao público doses cavalares de audácia e perversão que aquelas produções não tinham o aval nem o atrevimento de mostrar.

Muitos foram os subgêneros de dali nasceram –e eventualmente já falei de muitos deles por aqui –um desses foi o nunsploitation, cujo fetiche centrava em freiras sendo mostradas a praticar os mais improváveis, libidinosos e chocantes atos –iam desde assassinatos até prevaricações e satanismos! É consenso entre críticos e especialistas que a gênese do nunsploitation ocorreu em 1971, com o atroz “Os Demônios”, de Ken Russel. Na esteira dessa obra atordoante, inúmeros outros títulos brotaram nas fileiras do cinema B e, como se sabe, na época, os italianos e seu infame cinema comercial, estavam reciclando todo o tipo de barbaridade –vide o famigerado Ciclo Canibal... –e foi de lá da Itália que veio uma das obras mais comentadas do nunsploitation,

Baseado numa já alarmante história real ocorrida na Bélgica –a da freira Cécile Bombeek, viciada em morfina cuja sanha assassina a levou a cometer uma série de assassinatos num hospital geriátrico em Wetteren, entre os anos de 1976 a 1978 –“A Freira Assassina” (ou "Suor Omicidi", seu título original) dirigido por Giulio Berruti foi, por um longo tempo, uma daquelas produções murmuradas em conversas cinéfilas sorrateiras, acerca das polêmicas que ele suscitou, das cenas cabeludas que ostentava a envolver freiras e do fato de ter sido até mesmo proibido no Reino Unido no seu lançamento (1979) –e, por tratar-se de uma época sem o acesso rápido da internet, esses comentários passaram a rondar a fama do filme, convertendo-o numa lenda cult.

Retornando ao trabalho em um hospital católico para idosos após uma cirurgia de retirada de um tumor cerebral, a Irmã Gertrudes (Anita Ekberg, de "A Doce Vida", protagonista da famosa cena na Fontana di Trevi) sofre de ansiedade e crê que seu câncer ainda não está curado. Sua colega de quarto, Irmã Mathieu (Paola Morra, do também pernicioso “Atrás dos Muros do Convento”) é quem consegue às escondidas morfina e ópio para aplacar os desatinos de Gertrudes, uma vez que a Madre Superiora (Alida Valli, dos clássicos "O Terceiro Homem", "Sedução da Carne" e "Suspiria") não acredita nas mazelas pós-cirúrgicas alegadas por Gertrudes, afirmando serem elas nada mais que hipocondria.

Sem que todos sabiam, Gertrudes passa a levar uma vida dupla, fugindo à noite para a cidade, vestindo-se de forma sexy, experimentando aventuras sexuais com estranhos, e gradualmente demonstrando uma nova personalidade, mais ninfomaníaca, selvagem e agressiva, inclusive com os pacientes. A forte atração sexual que a Irmã Mathieu sente por Gertrudes não a deixa suspeitar de tal súbita mudança, nem mesmo depois que seu próprio avô aparece assassinado, na primeira das inúmeras mortes que se seguem. Esses crimes levam inicialmente à demissão do clínico geral, o Dr. Poirret (Massimo Serato, de “Inverno de Sangue em Veneza”), substituído pelo jovem Dr. Rowland (Joe Dalessandro, ator-fetiche de Andy Warhol e Paul Morrisey, em filmes como “Sangue Para Drácula” e “Carne Para Frankenstein”). Contudo, o Dr. Poirret segue investigando as mortes, tendo Gertrudes como sua suspeita Nº 1.

Visto hoje, “Suor Omicidi” não conserva tanto do teor assombroso que o perseguiu no fim dos anos 1970, é uma obra datada, cafona, construída com as inverossimilhanças e redundâncias características do giallo de então, e para as tarimbadas plateias atuais certamente não vai corresponder, em violência e erotismo, à toda controvérsia que suscitou. Seus maiores apelos, que ainda o fazem bastante curioso e atrativo, são a trilha sonora e o desleixo quase proposital com que elabora situações libidinosas, perversas e até profanas com seu elenco feminino sempre trajando figurinos de freiras –a essência, afinal, do nunspolitation.