O cinema do diretor Wayne Wang sempre foi fascinado por comunidades, não à toa, seu melhor e mais ressonante trabalho é o emocionante “Clube da Felicidade e da Sorte” – daí ser até natural que, ao ser contratado por um estúdio (a Columbia Pictures) para conduzir uma comédia romântica, não seja tanto o enredo e seu desenrolar cheio de encontros e desencontros que surgem com desenvolvimento mais apaixonado da parte direção, mas sim a caracterização e contextualização das circunstâncias que cercam a protagonista feminina da trama, vivida pela graciosa e radiante Jennifer Lopez – aqui, num dos sucessos de bilheteria responsáveis pela consolidação do status de estrela de sua carreira.
Lançado em 2002, “Encontro de Amor” – ou “Maid
In Manhattan”, seu título original – não esconde, e nem conseguiria mesmo
esconder, as semelhanças quase constrangedoras com “Um Lugar Chamado Notting Hill” (um grande sucesso do ano de 1999). Como naquele filme (mas, muito melhor
realizado lá...), “Maid In Manhattan” busca unir num divertido, hesitante e
cativante enlace amoroso dois indivíduos de mundos absolutamente distintos,
sendo que um deles vem dos holofotes da fama, enquanto o outro do anonimato da
plateia. Em “Notting Hill” havia a estrela de cinema e o plebeu desconhecido,
vividos respectivamente por Julia Roberts e Hugh Grant; aqui, temos o candidato
ao senado e a um só tempo sex-simbol
das mulheres mais despachadas, Chris Marshall, interpretado por Ralph Fiennes
(num papel bem mais leve e inesperado para os rumos usuais de sua carreira), e
a camareira Marisa Ventura, vivida por Jennifer Lopez – que, num truque de
inversão típico do demagógico cinema norte-americano, vem a ser, ela sim, um sex-simbol.
Mãe solteira, Marisa trabalha no ostensivo
hotel de luxo Beresford, em Manhattan, no coração de Nova York, onde os
procedimentos dos funcionários, visando o atendimento aos hóspedes ricaços, beira
o rigor militar. Criando sozinha o pequeno Ty (Tyler Posey), Marisa almeja uma
vaga disponibilizada para uma das gerências do hotel, contudo, tal cargo jamais
foi ocupado antes por uma camareira – o que dificulta mais o objetivo de Marisa
e faz das semanas seguintes decisivas para a avaliação de sua postura
profissional (que, até então, era impecável).
Entretanto, eis que o Beresford recebe o
candidato ao senado Chris Marshall que, junto de seu staff, liderado pelo inquieto e paranoico Jerry (Stanley Tucci, que
décadas depois reuniu-se com Fiennes no elenco do fenomenal “Conclave”), se
encontra num momento crítico da campanha – justamente quando as lentes dos paparazzi estão focadas nele, esperando
qualquer deslize para virar manchete!
Numa série de mal-entendidos – daqueles típicos
de uma comédia romântica – Marisa acaba sendo confundida por Chris como uma das
hóspedes do hotel – ela e uma colega estavam numa travessura, experimentando o
casaco Golce & Gabbana de uma
hóspede real, a socialite Caroline Laine (a saudosa Natasha Richardson) quando
o imbróglio acontece. Marisa aceita o convite para um passeio no parque,
tentando se livrar da situação o mais rápido possível, mas, evidentemente,
nesse meio tempo, a magia hollywoodiana se opera: Um interesse surge de ambas as
partes e, agora, Chris quer saber quem é aquela maravilhosa mulher que ele
conheceu – e tê-la como convidada para um importante jantar a ser realizado no
próprio hotel!
Já, Marisa, também atraída por Chris, precisa
se desvencilhar do cerco cerrado dos demais funcionários do hotel, incluindo
superiores que podem farejar sua farsa, da inconveniente Caroline que pensa ser
ela a convidada de Chris, e da própria situação em que se encontra, mentindo
para o homem por quem está se apaixonando, e escondendo dele quem é.
“Maid In Manhattan” tem, portanto, todos os
elementos narrativos de uma comédia romântica, organizados e apresentados com
fidelidade formulaica – o desfecho descaradamente decalcado de “Notting Hil” é
particularmente constrangedor...
Todavia, o que notamos saltar aos olhos ao
longo do filme, é o amor com que o diretor Wayne Wang retrata o dia-a-dia de
Marisa, sejam as regras rígidas, permeadas por subterfúgios de malandragem, que
os funcionários precisam seguir em sua rotina de ‘agentes invisíveis’ dentro do
hotel (que fazem lembrar o britânico “Coisas Belas e Sujas”), sejam os pequenos
embates entre ela e a mãe (a cantora Priscilla Lopez, apesar do sobrenome,
nenhum parentesco com Jennifer) carregados tanto de ternura quanto de
ressentimento, sejam as relações amistosas, fraternais até, entre Marisa e suas
colegas camareiras (talvez, os momentos mais divertidos do filme), ou os
diálogos com o dedicado e minimalista mordomo Lionel (o saudoso Bob Hoskins,
interpretando o personagem com dignidade e solidez). As manobras do roteiro
(assinado por Kevin Wade) parecem menos importar ao diretor do que essas
facetas da produção que dele recebem muito mais entusiasmo e cuidado.






