Na cerimônia do Oscar de 1942, “Cidadão Kane” levou tão somente o Oscar de Melhor Roteiro Original dentre outras nove indicações, e é, em parte, as explicações para esse prêmio que o filme de David Fincher oferece. Ele também dá ao público um panorama curioso do revelo político de uma época (e assim, uma analogia para o revelo político do tempo presente), um vislumbre cheio de propriedade do showbusiness visto por outro ângulo (o de dentro de sua engrenagem criativa) e uma reflexão a um só tempo amarga e agridoce sobre a vaidade em oposição ao talento e ao arrependimento.
Ainda no fim da década de 1930, o roteirista
Herman J. Mankiewicz, também conhecido como Mank (Gary Oldman, sempre
brilhante) é contratado pelo assim chamado garoto-prodígio de Nova York, Orson
Welles (Tom Burke, de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”), a fim de escrever o roteiro
para sua aguardadíssima estréia cinematográfica. Mank é enviado pelo taxativo
Welles para uma pousada no meio do deserto, aos cuidados da enfermeira Fräulein
Frieda (Monika Gossmann), e sobretudo, da jovem secretária britânica Rita
Alexander (Lilly Collins), instruída a ajudá-lo na escrita do roteiro –que ele
tem menos de noventa dias para concluir! Na ocasião, Mank se vê fisicamente
imobilizado na cama –resultado de um acidente automobilístico que sofrera
semanas antes –mas, sua maior moléstia é o roteiro em si: Mank quer escrever
uma audaciosa biografia disfarçada de William Randolph Hearst, poderoso magnata
da imprensa de então, e as consequências desse ato podem ser caras tanto a ele
quanto ao seu parceiro de empreitada, Orson Welles.
Tecnicamente, “Mank” é uma obra prodigiosa
–Fincher filmou em preto & branco, além de utilizar enquadramentos com foco
profundo no primeiro plano e na imagem de fundo simultaneamente tal e qual
Welles fez em “Cidadão Kane”, na realidade, o próprio Fincher já havia
demonstrado seu imenso apreço por “Kane” em referências um pouco mais sutis no
brilhante “A Rede Social”, contudo, a história contada aqui é, também ela,
notável –o roteirista é Jack Fincher, irmão do diretor. Nela, testemunhamos
idas e vindas no tempo (flashbacks, a
exemplo da estrutura narrativa do próprio clássico retratado) vamos daquele
recluso hotel no deserto ao ano de 1934 quando Mank teve contato com William
Randolph Hearst (Charles Dance) e forjou com ele o que parecia ser o princípio
de uma genuína amizade. Willy, como era chamado, já havia consolidado seu
império jornalístico na Costa Leste e começava a estender seus domínios para o
cinema e os estúdios de Hollywood –ele compreendia que o futuro se encontrava
nos filmes falados e que o cinema mudo tinha seus dias contados. Não lhe
faltavam bajuladores (entre eles, o influente e inclemente Louis B. Meyer,
chefe da MGM, vivido por Arliss Howard, de “Nascido Para Matar”), e talvez por
isso, Willy dava inesperada importância aos comentários pra lá de afiados que
partiam de Mank, colocando-o sempre ao seu lado durante as festas em sua
mansão. É lá que Mank conhece Marion Davies (Amanda Seyfried, genial), caso
amoroso de Willy, décadas mais jovem que ele e, frequentemente, favorecida
entre os estúdios (Marion era atriz) por sua relação.
A amizade entre Mank e Marion é bela e
verdadeira, no entanto, ela não deixa de sofrer com os contratempos que mudavam
o mundo de então: De uma influência avassaladora e venal, Willy leva os
estúdios da MGM a bancar a oposição contra a eleição do democrata Upton
Sinclair, criando curta-metragens tendenciosos, demagógicos e numa escala
inédita para a época que conseguem, em pouco tempo, mudar os rumos da campanha
causando desinformação entre os eleitores. Fiel aos seus ideais, Mank se opõe à
essas posturas e acaba caindo em desgraça junto ao círculo pessoal de Willy,
que incluía entre outros o produtor Irvin Thalberg (Ferdinand Kingsley).
São essas experiências que levam ao roteiro não
despido de rancor que ele tece naquele quarto no deserto, retratando Hearst
como um homem político, populista e oportunista, reservando algumas farpas até
mesmo para Marion, fazendo uma impiedosa caricatura dela e de seu
relacionamento.
Espelhado no próprio “Cidadão Kane” em diversos
aspectos, não apenas na forte referência visual monocromática ou no formato
desafiador de seu enredo, “Mank” também constrói um personagem cheio de camadas
de ambiguidade e dubiedade moral que, mesmo diante de algumas boas intenções e
certamente alimentado por suas convicções políticas, urgiu uma obra a partir do
ressentimento e do desdém. Uma obra que não escapou de ser um dos melhores
filmes de todos os tempos.






