domingo, 31 de maio de 2026

Meninas Malvadas


 Alguns cinéfilos com um pouco mais de idade certamente testemunharam o fenômeno por meio do qual filmes contemporâneos acabam se tornando clássicos; filmes lançados sem muita certeza de seu desempenho comercial ou crítico terminam virando, com o passar do tempo, referências dentro de seu gênero. Lançado em 2004 (época da qual me recordo perfeitamente), “Meninas Malvadas” –ou “Mean Girls” –dirigido por Mark Waters, é um desses casos, e a comprovação disso vem do fato de que, em 2019, ele ganhou  um remake musical na Broadway (assim como, por exemplo, “O Fantasma da Ópera”) e, vinte anos depois, em 2024, foi lançado em cinema, desta vez dirigido por Samantha Jayne e Arturo Perez Jr.

Assim, a narrativa (concebida pela roteirista Tina Fey a partir do livro de estudo comportamental “Queen Bees and Wannabes”, de Rosalind Wiseman) traz a mesma história pontuada por números musicais que tecem um comentário estilizado dos acontecimentos –agora devidamente adaptada aos novos tempos, com temas atuais como sororidade, o cancelamento social, o bullying (seja o digital ou social), o vício em mídias digitais, a diversidade, a inclusão e a independência feminina. Desnecessário dizer que muitos dos atores já presentes na versão dos palcos repetem seus personagens aqui neste filme.

É o caso de Reneé Rapp que vive a antagonista Regina George –vivida, no filme de 2004 pela sensacional Rachel McAdams. Entretanto, tudo começa mesmo com Cady Heron (Angourice Rice, de “Dois Caras Legais”, num registro bem distinto de Lindsay Lohan). Moradora do Quênia junto de sua família, Cady –que foi educada em casa –precisa se mudar para a cidade de Illinois com seus pais e, pela primeira vez, frequentar um colégio público.

Entretanto, se as matérias escolares não oferecem qualquer empecilho (Cady é uma jovem inteligente), a questão da interação social é: Inicialmente, Cady demora a conseguir fazer amigos. Aos poucos, porém, ela faz amizade com os ligeiramente desajustados Janis (Auli’i Cravalho, que dublou a protagonista da animação “Moana”) e Damian (Jaquel Spivey), e descobre, por meio deles, que há uma espécie de hierarquia muito delicada e complicada estabelecida no lugar pelas próprias garotas.

E quem ocupa o topo dessa cadeia social como a realeza do lugar são as plastic girls, o grupo das patricinhas da escola composto pela poderosa, popular (e perigosa...) Regina George, e suas, digamos, asseclas, Karen (Avantika Vandanapu, no papel que antes foi de Amanda Seyfried) e Gretchen (Bebe Wood, personagem outrora vivida por Lacey Chabert). Em meio à isso, Cady se apaixona por Aaron (Christopher Briney), um estudante de sua classe de matemática, e que vem a ser ex-namorado da própria Regina George, contudo, é a própria Cady quem acaba fazendo amizade com as plastic girls, integrando o grupo e, pouco a pouco, se tornando uma delas.

Uma obra simpática, agradável e com um elenco bem acertado (salvo Ashley Park e Jon Hamm, ligeiramente deslocados do tom), e uma ponta muito especial de Lindsay Lohan –é claro que na comparação, este “Mean Girls”, de 2024, não se equipara, na comédia demolidora e na crítica ferina, ao ótimo filme de 2004, justamente pela questão do politicamente correto que não engessava as obras de humor de antigamente como faz com as atuais (isso aquelas que ainda chegam a ser realizadas!). No mais, acredito que para todos os públicos em geral, é impossível que essa mistura de drama juvenil e comédia, conflitos adolescentes femininos e intrigas estudantis, ainda mais adornadas com descontraídos números musicais, não faça lembrar a conhecidíssima série “Glee” composta de praticamente esses mesmos expedientes e essa mesma ambientação.

sábado, 30 de maio de 2026

Avatar - Fogo e Cinzas


 Se há um filme atrelado à expectativas, esse filme é “Avatar”. Não há como se preparar para assisti-lo sem esperar por uma experiência visual sem precedentes. Esse é, pois, o fantasma que assombra as suas continuações. A primeira delas, “O Caminho da Água”, lançada catorze anos depois do filme original, revelou-se uma obra um pouco menos ambiciosa, no sentido de que se debruçava sobre uma trama mais voltada aos seus protagonistas, Jake Sully e Neittiry, e aos filhos de tiveram nesse interim, e menos ao mundo vasto, imaginativo e alienígena que os cercam. O senso de proporções épicas e míticas volta, porém, a dar o tom neste terceiro filme, “Fogo e Cinzas”, num esforço genuíno e nítido para ir além do segundo filme – e, se possível, do festejado primeiro filme também.

É curioso que James Cameron, o criador, parece consciente de que são justamente os personagens novos, criados a partir de “O Caminho da Água”, bem como as inusitadas dinâmicas entre eles, que trazem um sopro de ar fresco à trama, uma vez que ela se atreve a repetir alguns tópicos do filme original.

Após os acontecimentos do filme anterior (que, diferente do filme de 2009, se sucedem simultaneamente neste daqui, sem saltos temporais), Lo’ak, o filho de Jake e Neittiry, ainda se sente culpado pela morte do irmão, enquanto Jake e Neittiry vivenciam o luto, cada um ao seu jeito: Jake reúne armamento obcecadamente, preparando-se para as hostilidades por vir; Neittiry se refugia na oração e na fé.

O lugar onde estão instalados –lar do Clã Metkayina, os Na’Vi aquáticos –está por receber comerciantes vindos das grandes florestas –e para lá destinados a voltar. É quando Jake decide enviar com eles Spider (Jack Champion), o humano que ele e Neittiry criaram como filho. Spider é, na verdade, filho biológico de Miles Quaritch (Stephen Lang), grande vilão da história (ainda que os conceitos de vilão comecem, aqui, a serem pouco a pouco revistos), e como Spider depende de máscaras de oxigênio para não sufocar com o ar do planeta Pandora, a decisão visa deixa-lo em segurança.

A família (Jake, Neittiry, Lo’ak e as filhas Kiri –na verdade, nascida do corpo Na’Vi da Dra. Augustine, do primeiro filme –e Tuk) toda o acompanha nessa espécie de despedida. São atacados (pelo próprio pessoal de Quaritch), e muitos perdem-se nas florestas de Pandora. Descrevendo, parece uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, mas, a narrativa de “Fogo e Cinzas” evoca um tom de contemplação por meio do qual, por um tempo considerável de filme, não registramos necessariamente nenhum acontecimento –ainda que a habilidade de James Cameron na direção mantenha o andamento sempre impecável –não à toa “Fogo e Cinzas” é o mais longo dentre todos os três filmes produzidos até então.

À beira da morte quando seu oxigênio por fim se esvai, Spider é salvo quando Eywa, a divindade que habita Pandora, resolve salvá-lo modificando seu sistema nervoso, tornando-o o único humano capaz de respirar a atmosfera de lá.

Contudo, agora o Povo do Céu –como os nativos de Pandora apelidaram os insensíveis invasores humanos –quer encontrar Spider de qualquer forma: Eles compreendem que ele tem a chave para que a Humanidade possa, de uma vez por todas, se estabelecer em Pandora para extrair suas riquezas naturais. A missão de Quaritch, portanto, além da vingança contra Jake Sully esboçada no filme anterior, é também encontrar e capturar seu próprio filho.

No escopo épico (para além dos filmes anteriores) que almeja para sua obra, Cameron não se restringe somente à esse conflito: Ele também explora (tornando este o grande diferencial de “Fogo e Cinzas”) uma outra beligerante e agressiva tribo de Na’Vi em Pandora, o Povo das Cinzas, cuja cultura repele a predominante adoração à Eywa, para abraçar um culto ao fogo e à destruição que ele é capaz de promover. Sua líder é a psicótica Varang (Oona Chaplin) que, num acordo fechado com Quaritch, acaba munindo seus guerreiros com armas pesadas na intenção de sobrepujar todos os outros Na’Vi.

O outro conflito de “Fogo e Cinzas” que ganha força na metade final (e serve, de modo geral, para amarrar as pontas soltas do enredo) é a tentativa dos humanos em empreender um último ataque aos Tulkun (as gigantescas e inteligentes baleias alienígenas que sofrem dos humanos a mesma crueldade insana que as baleias reais aqui na Terra) o que pode levar à extinção da espécie –essa batalha grandiloquente ocupa todo o longo clímax final, justapondo os Na’Vi da floresta e dos mares num combate contra os exércitos dos humanos e do Povo das Cinzas (um confronto que espelha bastante a batalha final do primeiro “Avatar”), e num nível mais íntimo, temos também cada um dos personagens protagonistas, e suas peculiaridades, sendo trabalhadas ao longo do acontecimento: Lo’ak e sua complicada relação com o pai; Neittiry e sua tentativa de equilibrar a natureza de guerreira e de mãe; Spider dividido entre sua humanidade (que o relaciona aos próprios inimigos que enfrenta, incluindo o pai) e a lealdade ao povo Na’Vi; Kiri e a descoberta de suas origens e de uma conexão ainda mais profunda com Eywa.

Aliás, o aspecto espiritual é um fator da mitologia de “Avatar” que surge muito melhor explorado aqui (embora, de novo, muitas dessas ideias terminem levando à cenas de ação que correm o risco de soarem repetitivas em relação aos filmes anteriores) o que sinaliza caminhos um bocado interessantes a serem explorados nas continuações.

Desnecessário dizer que visualmente “Fogo e Cinzas” é um espetáculo atordoante (por mais incrível que possa parecer, James Cameron continua bem sucedido em superar a si mesmo, filme a filme, em termos visuais e técnicos), sobretudo, àqueles que forem conferir seu primoroso aparato em 3D, e só isso já vale, em si, toda a experiência de assistir ao filme nos cinemas, a sua trama, entretanto, carece de polimento e ostenta consideráveis lapsos de imperfeição apesar dos visíveis esforços. Mas, bem... essa já era uma característica presente desde o primeiro “Avatar” –e nunca resultou numa preocupação maior da parte de James Cameron.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Devoradores de Estrelas


 Baseado num livro de Andy Weir (o mesmo autor do livro que deu origem à “Perdido Em Marte”), Devoradores de Estrelar” – ou “Project Hail Mary” – traz o mesmo fascínio pela astronomia e pelas mais mirabolantes possibilidades científicas daquele trabalho. A diferença é que aqui o autor elevou a aposta e a ambição.

O herói de “Project Hail Mary” é Ryland Grace (Ryan Gosling, sempre sensacional), biólogo, professor primário e solitário compulsivo que, um belo dia, acorda sem memórias dentro de uma nave espacial (!). Seus companheiros de tripulação – duas pessoas, de países distintos – estão mortos (!!), só ele sobreviveu. Ele não se lembra do porque está ali, a milhares de anos-luz longe da Terra, mas os indícios indicam que é para salvar a Humanidade (!!!). Gradualmente, enquanto sua memória retrocede vamos descobrindo junto com ele os percalços que o levaram àquela aflitiva situação.

Na Terra, Ryland acabou cooptado pela especialista Eva Stratt (Sandra Huller, de “Zona de Interesse”) que não tardou a notar que ele se encaixava à perfeição para uma das especialidades de sua operação – micróbios desconhecidos da raça humana, logo intitulados ‘Astrofágicos’ estavam se “alimentando” do Sol; todos os sistemas solares por onde passaram simplesmente definharam e morreram. E algo parecido estava destinado a acontecer ao nosso Sistema Solar. Entra então a audaz operação encabeçada pela Dra. Stratt e formada por diversos especialistas nas mais vastas áreas do mundo todo, incluindo Ryland.

Em algum lugar longínquo do sistema estelar Tau Ceti, houve uma estrela cujo núcleo se manteve imune aos ‘Astrofágicos’ – a missão de uma tripulação de astronautas previamente treinados é, portanto, ir até lá (levando o tempo que levar) e encontrar o que está protegendo aquele sistema dos ‘Astrofágicos’ e enviar sondas para a Terra coma resposta, salvando assim a Humanidade.

Detalhe: A possibilidade de regresso, dadas as circunstâncias, é nula. O que faz dessa uma missão suicida.

Assim, “Devoradores de Estrelas” vai, aos poucos, esmiuçando os detalhes um tanto irônicos que fizeram Ryland ir parar naquela nave, ao passo que nos permite também acompanhar a situação atual dele: Num primeiro momento, perdido dentro de uma nave que nem tem certeza se sabe pilotar, Ryland entra em contato com uma forma de vida alienígena (!).

Um ser aparentemente feito de pedras a quem ele dá o nome de Rocky (!) (dublado e manuseado qual uma marionete por James Ortoz) e que revela ser um astronauta, vindo de seu planeta-natal com o mesmo propósito, achar um meio de salvar seu mundo dos ‘Astrofágicos’.

Empregando um linguajar técnico difícil e cheio de termos inacessíveis – mas, ainda assim, vital para os desdobramentos da trama – o filme ainda ostenta uma duração desafiadoramente longa que dividiu a opinião e a disposição de alguns expectadores. No entanto, não apenas o ator Ryan Gosling dá conta maravilhosamente bem do recado (provando a cada filme que tira de letra qualquer gênero que lhe incumbem, seja drama, comédia ou ação) como também os diretores Phil Lord e Christopher Miller (ambos da animação “Homem-Aranha No Aranhaverso”) executam um belíssimo trabalho, registrando o espaço sideral em tonalidades contrastantes de cores, numa das mais belas paletas visuais empregadas na ficção científica (a fotografia é de Greig Fraser, de “Duna – Parte 2”), e conferindo, de um ponto em diante do filme, uma inesperada importância emocional ao personagem Rocky, cuja concepção acaba atendendo diversos expedientes anteriormente engatilhados.

O resultado é uma obra que exibe o mesmo desembaraço com a ciência de “Perdido Em Parte” – também pudera, é o mesmo autor! – um repertório técnico que almeja a exuberância de “Gravidade”, uma dinâmica que constantemente faz referência a “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” – inclusive aproveitando a icônica trilha sonora – e uma jornada épica de viés sentimental que muito remete à “Interestelar”.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sonhos


 Não confundir esta produção com o maravilhoso “Sonhos”, de Akira Kurosawa, de uma proposta muito mais lúdica e original do que este árido filme independente norte-americano. Dirigido por Michel Franco (de “Depois de Lúcia”), esta realização vem com muito de sua visão pessimista sobre as irredutíveis escalas de valores na hierarquia social; nos dramas humanos de Franco as boas intenções, os sentimentos e qualquer outro expediente ficcional não haverão de mudar o fato de que os ricos e poderosos irão persistir no topo enquanto os despossuídos permanecerão exercendo o papel de explorados.

E, para pontuar esses tópicos neste filme de Franco (imbuído de algumas amenidades tipicamente hollywoodianas, em comparação com sua filmografia) é necessário esmiuçar sua trama até os desdobramentos finais, quando spoilers poderão se fazer inevitáveis.

O mexicano Fernando (Isaac Hernández) é um imigrante ilegal a tentar obstinadamente a sorte nos EUA. Tal obstinação passa pelo risco da morte, como atesta a cena inicial onde ele escapa, por muito pouco, de uma captura pelas autoridades, e termina singrando as estradas americanas quase transfigurado pela sede, pela fome e pelo cansaço. Uma forte sensação de que adentramos a história com ela já em curso se apodera do expectador quando, por fim, Fernando encontra (ou reencontra) Jennifer (Jessica Chastain), membro de uma poderosa família cujos programas assistenciais da empresa que possuem incluem projetos culturais de dança, entre os quais aquele que trouxe Fernando para os EUA pela primeira vez (ele é um bailarino profissional extremamente talentoso). Acontece que Jennifer e Fernando são amantes e, nessa revelação, o protagonismo é então transferido dele, para ela.

Passamos assim a conhecer as circunstâncias de Jennifer, a sutil pressão pessoal e profissional dentro da empresa onde ela trabalha ao lado do pai (Marshall Bell, de “Cherry 2000”) e do irmão (Rupert Friend, que atuou ao lado de Jessica num de seus primeiros trabalhos, “Jolene”), lutando também para equilibrar as expectativas dos dois em relação a ela. Daí que Jennifer, mesmo que romântica e sexualmente envolvida com Fernando, não se sente confortável em assumi-lo perante a família e os conhecidos.

O diretor Franco (amparado no roteiro escrito por ele próprio) faz dessa dualidade afetiva o impulso de todos os conflitos deflagrados: Fernando quer viver por conta própria e, se possível, ascender na dança, e afasta-se de Jennifer, ainda que por pouco tempo; ela não deixa de tentar rastreá-lo usando seus recursos e nem ele, tampouco, consegue se convencer de que deseja distância dela.

É um drama contundente, sempre com foco nas mazelas sociais dos imigrantes latinos nos EUA, mas com conotações românticas. No fim das contas, é sobre Jennifer e Fernando, e a manutenção de seu relacionamento que a narrativa irá sempre se desdobrar. Mesmo quando sequências mais tensas surgirem, a envolver a extradição de Fernando de volta para o México e sua consequente impossibilidade (exceto, pelos recursos ilegais e perigosos) de voltar para seu sonho nos EUA.

Já adentrando seu terço final, quando os dois se reencontram numa casa no México, descobrimos que foi Jennifer quem delatou Fernando para a Imigração; ela o fez por uma série de pretextos mal esboçados: Porque na iminência de tornar-se uma estrela dos palcos, os dois podiam não mais ficar juntos. Porque o caminho que Fernando estava a trilhar em São Francisco beneficiava ele, mas não a ela, dentro da relação. E porque ela queria, de alguma forma, que ele seguisse dependendo dela e de sua influência.

Transfigurado pelo rancor, Fernando decide converter a circunstância doméstica em que eles estão num arremedo alegórico da própria situação dos imigrantes (e dele próprio) nos EUA, a fim de fazer Jennifer compreender: Ele a prende dentro do quarto, sem que possa sair pra fora da casa ou ir ao banheiro (as necessidades fisiológicas e higiênicas ela deve fazer no recluso quintal da varanda, munida de papel higiênico e garrafas d’água!).

É óbvio que a situação não se sustenta, e tudo caminha para um desfecho que fará Jennifer priorizar menos seu afeto por Fernando (agora seriamente comprometido) e mais sua condição de socialite norte-americana.

As obras de Franco têm essa característica (dos objetivos mais inocentes e puros em oposição desfavorável à realidade incontornável e esmagadora) e, desde pelo menos “Memory”, ele soube aproveitar o talento dramático de Jessica Chastain em personagens capazes de evidenciar essas inquietações. Aqui não apenas ela se revela esperta na condução de sua carreira (como produtora do projeto, ela mostra-se consciente dos papéis que lhe ressaltem a excelente atriz que é) como também se entrega a sequências eróticas e/ou sugestivas extremamente contundentes para uma estrela da sua estatura.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Sobrevivente


 Não muito tempo depois dos cinemas terem recebido “A Longa Marcha”, adaptação da primeira obra escrita por Stephen King, as telonas ganharam então este “O Sobrevivente”, também ele adaptado de um livro de King –no qual ele também utilizou o pseudônimo Richard Bachman –contudo, “O Sobrevivente” já havia sido adaptado antes, em 1987, num filme de profusa mescla entre ficção científica e pancadaria estrelado por Arnold Schwarzenegger. Nesta nova versão, ele é substituído por Glenn Powell (mas, Schwarzenegger é lembrado com sua estampa nas notas de dinheiro comercializado naquele futuro distópico!), entretanto, quem de fato dá a tônica para este novo filme é seu diretor Edgar Wright.

Habituado a realizar filmes brilhantes em sucessão um após o outro, Wright é aquele raro tipo de autor que está num patamar elevado aos demais, um esteta capaz de forjar filmes tão comercialmente satisfatórios quanto primorosamente artísticos –essa seleta lista de diretores atualmente inclui, além dele, Denis Villeneuve, Alfonso Cuarón, Paul Thomas Anderson e... bem, já começa a ficar difícil lembrar mais alguém!

Para fugir da mera pecha de filme de ação que veio atrelada à produção de 1987 (ainda que as plateias daqueles tempos não se importassem nem um pouco com isso), Edgar Wright constrói em “O Sobrevivente” –ou “The Running Man” –um futuro assolado por versões turbinadas e anabolizadas de celeumas sociais e existenciais que nos assolam hoje, desenvolvendo dentro desse cenário uma narrativa de perseguição e suspense tão urgente quanto eletrizante.

No papel de Ben Richards, um operário do futuro com problemas até o pescoço, Glenn Powell imprime uma raiva reativa que define muito do personagem (e sedimenta muito do caminho que ele trilhará): Sua filhinha pequena está doente, e sem dinheiro para custear remédios e tratamento, ela pode não passar de alguns dias de vida!

Depois de ter negado seus pedidos para obter emprego –Ben não é bem visto pelos empregadores desde que denunciou a empresa por abuso trabalhista –ele precisa engolir o orgulho e ver a esposa Sheila (Jayme Lawson, de “Pecadores”) trabalhar numa boate/lanchonete para colher gorjetas o suficiente dos clientes pagantes. Indignado e desesperado com a situação, Ben segue para a tentacular emissora Gratui-TV, disposto à participar de alguns dos programas de auditório onde telespectadores participantes embolsam alguma grana. Porém, Ben, graças ao temperamento apropriadamente explosivo que demonstra na ocasião, acaba selecionado logo para o mais letal de todos: O reality show “The Running Man”.

Atingindo picos de audiência, e capaz de proporcionar aos seus concorrentes rios de dinheiro, o “The Running Man” tem como apresentador o afiado personagem de Colman Domingo (ator indicado ao Oscar pelo filme “Rustin”) e consiste de um jogo no qual três voluntários devem tentar fugir pelas ruas da cidade (e do estado, e do país, se for o caso) por um período de trinta dias. Durante esse tempo, eles serão caçados e perseguidos por grupos de elite especializados nessas operações (instruídos a fulmina-los sem dó nem piedade), e acompanhados de drones de câmeras high-tech ao vivo.

A fim de apimentar a circunstância, a rede de TV cria narrativas mentirosas onde os sobreviventes são renegados e inescrupulosos e os caçadores, galantes agentes a serviço da justiça –o que transforma, portanto, cada pessoa da rua que o reconhecer num inimigo em potencial capaz de denunciá-lo.

Quanto mais tempo o participante conseguir ficar vivo (e poucos foram os que conseguiram passar de poucos dias; e nenhum jamais totalizou um mês!), mais dinheiro ele ganha; e quanto mais atenção o participante chama para si e para sua perseguição, maior é a audiência do programa.

Ben Richards inicia assim sua jornada tentando passar despercebido, fugindo para lugares improváveis onde crê que não será encontrado. No entanto, tão logo se torna o único a sobreviver, ele percebe a facilidade com que os caçadores se valem do sistema para rapidamente rastreá-lo –e passa então a contar com algumas poucas alianças para tentar chegar aos almejados 30 dias e, quem sabe, sobreviver e voltar para sua família, entre esses inesperados aliados estão o blogueiro e ativista Bradley Throckmorton (Daniel Ezra); seu pequeno irmão; o pinel e revolucionário Elton Parrakis (Michael Cera); e a jovem Amelia Williams (Emilia Jones, do premiado “CODA-No Ritmo do Coração”), inicialmente tomada como refém por Ben, e em princípio, crédula nas narrativas vilanescas associadas a ele, mas, aos poucos, consciente da manipulação que a Gratui-TV e seu chefão maior, o produtor Dan Killian (Josh Brolin) fazem com o público.

Com um pouco menos de ação e um pouco mais de suspense do que o filme de 1987 (ainda que, quando a ação aparece ela se dá em cenas de uma sinergia assombrosa), “O Sobrevivente” pincela o fascinante, opressor e detalhado mundo em que a trama se passa com elementos poderosos de controle midiático (inclusive com as famosas alterações de filmagens feitas com IA), de desigualdade social em níveis extremos e alarmantes e da opressão exercida pelos poderosos de formas incisivas e ultrajantes –e, apesar de tudo, nem um pouco improváveis de serem perfeitamente reais!

“O Sobrevivente”, com Arnold Schwarzenegger, é hoje um cult-movie, por sua mescla saborosa de adrenalina e futurismo (numa época em que satirizar realitys era um arrojo!), o novo filme tem até potencial para virar cult também (até porque Edgar Wright, em sua resplandecente carreira já concebeu alguns), mas sua ênfase está menos voltada para a ação e a pancadaria, e mais para a pertinente denúncia às corporações e às suas corruptíveis influências no público expectador, presente já na aflitiva obra literária de Stephen King.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Hamnet - A Vida Antes de Hamlet


 A diretora Chloe Zhao pode até ter ganhado o Oscar de Melhor Filme por “Nomadland” –e depois debutado na Marvel Studios com “Eternos” –mas, seu melhor trabalho até então é certamente “Hamnet”, uma obra orgânica, intimista e introspectiva que se atreve a tecer um recorte da vida do bardo William Shakespeare sem, no entanto, fazer dele o centro da narrativa: É sua esposa, Agnes (interpretada pela estupenda Jesse Buckley), quem assume o protagonismo e o cerne da questão que o filme procura esmiuçar.

Primeiramente, haverão aqueles expectadores que irão tentar estabelecer uma relação entre os eventos deste filme e aqueles mostrados no vencedor do Oscar, “Shakespeare Apaixonado” –e essa relação até pode, sim, ser estabelecida ainda que estejamos falando de filmes completamente diferentes entre si (o outro era uma comédia romântica de época; este aqui, um drama adulto e contundente), de grandezas diferentes (embora “Shakespeare Apaixonado” tenha ganhado o Oscar, ele é, hoje, nitidamente um filme bobo e superficial; enquanto que este “Hamnet” é uma obra refinada de cinema) e que, em igual medida, empregam licenças poéticas oriundas da ficção para o melhor manejo do resultado final.

A camponesa Agnes –o nome original da esposa de Shakespeare era Anne Hathaway, modificado nesta adaptação do livro de Maggie O’ Farrell para não confundir o público devido à atriz homônima, estrela de “O Diabo Veste Pradatem, assim como a mãe, fama de ser uma feiticeira no pequeno e longínquo vilarejo inglês de Stratford onde mora. Daí sua disposição é ficar sempre na floresta, imersa na vida selvagem a treinar seu falcão adestrado. Ela, no entanto, desperta o interesse de William (Paul Mescal, brilhante), o professor de latim do lugar, exercendo tal profissão por conta de uma dívida contraída do pai.

Apesar de alguma resistência inicial, Agnes e William se casam e ela não tarda a engravidar, dando à luz à uma menina, Suzanna. Com esposa e filha para sustentar (sem falar que, na sequência, a própria Agnes volta a engravidar!), William decide seguir seus planos mais ambiciosos e rumar para a capital, Londres, onde almeja se lançar como dramaturgo nos teatros locais –e é, talvez, neste ponto da narrativa que o recorte do improvável “Shakespeare Apaixonado” possa ser justaposto na trama.

Com William indo e voltando para Londres ao longo dos anos, Agnes dá à luz aos gêmeos Hamnet e Judith e, devido a um sonho que teve com a falecida mãe (no qual ela apontava que o mais frágil de seus dois filhos seria então tirado dela), e ao exaspero de ver a menina quase morrer durante o parto, passa a crer que é de Judith quem deverá sempre cuidar, temerosa de que o mau presságio se concretize. De fato, é Judith (vivida por Olivia Lynes) quando já contam cerca de onze anos, quem pega peste bubônica e adoece. O menino Hamnet (interpretado pelo cativante e comovente Jacob Jupe), porém, oferece a própria vida em lugar da irmã quando, numa manhã, acredita ter visto o Anjo da Morte a espreita-la.

Assim, Judith se recupera e é Hamnet quem acaba adoecendo. Contudo, diferente da irmã, mal há tempo para que Agnes comece a preparar suas infusões com ervas e Hamnet, em agonia, morre.

É, portanto, sobre esse luto inapelável, inegociável e incontornável de pai e (sobretudo) mãe que se debruça todo o drama discorrido no primoroso filme de Chloe Zhao. A diretora não se deixa deslumbrar pela magnífica reconstituição de época concebida pela produção, nem pelos recursos técnicos bem mais requintados à sua disposição (a produção, afinal, é assinada por ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg): “Hamnet” centra as atenções de suas lentes nos percalços íntimos de duas pessoas levadas ao limiar de uma tragédia, e na formidável atuação da atriz em seu centro –no papel de Agnes, Jesse Buckley simplesmente leva o público com ela, a flutuar entre emoções intensas que ela consegue tornar intercambiáveis entre ela própria e o expectador.

Da comiseração extrema de seu luto, William Shakespeare haverá de criar um de seus mais ressonantes e aclamados trabalhos, a peça “Hamlet”, encenada no trecho final do filme: Uma sequência de crueza, poesia e dramaticidade sem par em todo o ano de 2025 que passou, na qual o filme de Chloe Zhao consegue operar alguns milagres, como fazer com que monólogos conhecidos e ditos à exaustão num sem-fim de outras obras (“Ser ou não ser. Eis a questão.”) soem como se fossem inéditos, inesperados e subitamente tocantes, e nos conduzir, como público, ao ápice de uma catarse existencial e de uma redenção por meio da arte. Uma das grandes cenas do ano, quiçá uma das grandes cenas do cinema no Século XXI.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A Cela


 Em sua pressuposta originalidade e em sua forçosa diferenciação, “A Cela” quer ser vários filmes, todos eles de uma certa natureza cult, todavia, do começo ao fim e sem lá muita esperança, o roteiro de Mark Protosevich (de “Doutor Estranho” e “Eu Sou A Lenda”) luta contra o fato inerente e incontornável de que, no final das contas, o filme dirigido por Tarsem Singh (de “Imortais” e “Espelho Espelho Meu”) é uma produção hollywoodiana infectada por cada um dos reflexos condicionados de uma obra presunçosa e genérica. E a despeito dos esforços para agregar elementos transgressores e experimentais aqui e ali (todos com timidez flagrante) são os clichês que prevalecem.

O  primeiro filme que “A Cela” quer ser é “Seven-Os Sete Crimes Capitais”, e isso se vê num sem-fim de tentativas de imitar e aludir às muitas das cenas da obra-prima de David Fincher; não à toa, “A Cela”, num primeiro momento é sobre a caçada à um psicopata. Tal psicopata, construído (como os demais personagens) sem um aprofundamento mais contundente que lhe dê respaldo ou maiores ressonâncias junto à trama, é interpretado por Vincent D’Onofrio, ótimo ator que, aqui, faz curiosamente o oposto do que fez em “Nascido Para Matar”, de Stanley Kubrick. Explica-se: Em “Nascido Para Matar”, D’Onofrio era o único ator a desempenhar um personagem de fato, o único a possuir todo um arco de transformação e mudança (no qual seu personagem, ingênuo e desajeitado, tinha sua mente espatifada numa insanidade homicida) enquanto todos os outros assumiam arquétipos básicos para o enredo. Em “A Cela” é nada mais que um arquétipo o personagem que D’Onofrio vivencia, um psicopata que mata mulheres, em circunstâncias específicas (no caso, ele as sequestra e, após deixá-las para morrer aos poucos num tanque de água, desova seus corpos pelas estradas) e que tem tirado o sono dos agentes do FBI, mais especialmente o Ag. Peter Novak (Vince Vaughn) obcecado em encontrar a última jovem dada como desaparecida, Julia (Tara Subkoff, de “Foxcatcher”), que Novak tem certeza ser uma de suas mais recentes vítimas.

Numa manobra (que, de novo, lembra sucessivamente “Seven” em seus desdobramentos), Novak e seu parceiro do FBI, Gordon Ramsey (Jake Webber), conseguem capturar o psicopata, de nome Carl Stargher, contudo, ele sucumbe a uma infecção viral causada pela esquizofrenia e entra em coma.

Sem qualquer pista do paradeiro de Julia (que, segundo o modus operandi de Starguer, deverá morrer nas próximas 40 horas quando o tanque de água se encher automaticamente), só resta aos agentes um recurso quase radical: Um procedimento experimental onde uma psicóloga, a Dra. Catherine Deane (Jennifer Lopez, jovem, belíssima e terrível atriz!), consegue invadir através de realidade virtual a mente de um paciente comatoso. O problema é que a Dra. Deane é uma psicóloga infantil, e seus pacientes consistem basicamente de crianças, enquanto Stargher é um psicopata!

Ainda assim, convencida pela urgência em salvar a vida da desaparecida, a Dra. Deane aceita o pedido do Ag. Novak e usa da tecnologia para adentrar a mente repleta de distorções e perversidades de Stargher.

Muito do resultado final de “A Cela” não seria o mesmo sem os esforços do designer de produção Tom Foden (de “A Vila”), ou os figurinos de Eiko Ishioka (de “Drácula de Bram Stoker”) e a maquiagem de Michele Burke (categoria na qual o filme foi indicado ao Oscar 2001, perdendo para “O Grinch”), embora o filme de Tarsem Singh se esforce na busca por um radicalismo estético e uma contundência embutida na própria proposta de adentrar uma mente psicótica, a obra só não afunda completamente no risível de suas limitações narrativas graças ao aparato visual que manifesta imagens bastante interessantes da psiquê deturpada, convertida em cenários e ambientações de pesadelo com forte referência nos quadros de artistas como Damien Hirst, Odd Nerdrum e H.R. Giger.

A viagem ao interior de mente só ganharia uma realização válida, satisfatória enquanto cinema e brilhante em sua execução, muitos anos depois, com a animação “Divertida Mente”.