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domingo, 7 de abril de 2024

10 Histórias em Quadrinhos que poderiam render grandes filmes - Parte 2


 Fun Home-Uma Tragicomédia Em Quadrinhos –As recordações um tanto dolorosas da quadrinista Alison Bechdel que cresceu numa família disfuncional onde seu próprio pai, Bruce Bechdel, era professor e homossexual enrustido. Centralizando a figura dele numa trama que oscila entre o humor e o drama, Bechdel reflete a descoberta de sua própria homossexualidade anos depois, numa trama construída de primor, personalidade e detalhes preciosos.

Em 2014, a narrativa de “Fun Home” foi convertida em uma peça musical na Broadway, recebendo fartos elogios, não muito tempo depois, foi noticiado que o astro Jake Gyllenhaal havia acertado para ser produtor e protagonista (no papel de Bruce) de uma adaptação cinematográfica –quem sabe um filme de “Fun Home” não esteja próximo?


Sgt. Rock –
Personagem extremamente realista, inserido num contexto também ele realista, o Sgt. Rock comanda um destacamento de soldados numa fria e inóspita missão na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O roteiro e os desenhos de Joe Kubert, responsável pela icônica graphic-novel “A Profecia”, com esse personagem, transformam o que tinha tudo para ser uma trama genérica num envolvente e brilhante drama de suspense, perfeita para ser traduzida numa versão cinematográfica.


A Casta dos Metabarões –
O diretor, escritor, poeta, dramaturgo e exotérico (!) Alejandro Jodorowsky demorou a se livrar do fantasma de “Duna”, a superprodução que planejou e jamais realizou. Dentre as obras que acabaram sendo realizadas com ideias inicialmente concebidas para “Duna”, Jodorowsky escreveu a HQ “O Incal”, até hoje uma das mais prestigiadas do segmento, e este derivado, “A Casta dos Metabarões”, focado num personagem secundário, mas, infinitamente fascinante que surge naquela trama. Num enredo épico, nos mais diversos sentidos, o texto complexo, simbolista e audacioso de Jodorowsky conta a história de várias gerações dos Metabarões e sua relação com outras casas de nobreza da galáxia a medida que se envolvem em guerras nas estrelas que não têm absolutamente nada da ingenuidade de George Lucas.


Nascido No Campo de Batalha –
Depois que os direitos autorais do personagem Conan, O Bárbaro foram para a editora Dark Horse (isso depois de pertencerem à Marvel Comics décadas antes), muitos dos clássicos contos de Robert E. Howard com esse personagem ganharam nova roupagem, porém, uma história de origem nunca havia sido devidamente contada, até o renomado roteirista Kurt Busiek arregaçar as mangas. Mesmo os filmes já realizados para cinema não chegavam a esboçar esse aspecto do personagem –o “Conan” de 1982, com Arnold Schwarzenegger, porque se diferenciava muito dos contos de Howard, e o “Conan” de 2011, com Jason Momoa, porque era, deveras, uma catástrofe! –sendo assim, Busiek e o artista Greg Ruth, com base em inúmeros elementos, menções, referências e pistas deixadas pelo próprio Robert E. Howard compuseram uma perfeita e incontestável (além de emocionante) história de origem que merece ser adaptada tão logo algum estúdio resolva levar novamente esse grande personagem para o cinema.


Ranxerox –
Uma das mais curiosas e pulsantes histórias em quadrinhos já concebidas, “Ranxerox”, do italiano Stefano Tamburini pegava carona na atitude raivosa do Movimento Punk dos anos 1980 para moldar um mundo escatológico, sensual e satírico de ficção científica. Alguns podem alegar que “Ranxerox” já ganhou uma espécie de adaptação cinematográfica: Muito se alardeou que “O Profissional”, de Luc Besson, era uma adaptação disfarçada de “Ranxerox”, contudo, trata-se de uma obra que, queira ou não, carecia de respaldo oficial dos criadores e também (por isso mesmo) modificava inúmeros aspectos da premissa e dos personagens –e os fãs de quadrinhos sempre querem fidelidade absoluta!

Dessa forma, seria sensacional ter, por exemplo, Ron Perlman (isso enquanto ele ainda tem idade, claro) interpretando o personagem principal, Ranxerox, um ciborgue de baixo custo num futuro caótico que procura servir às maluquices e caprichos de Lubna, uma ninfeta endiabrada.


Liberty Meadows –
Desenhar belas mulheres é uma especialidade do ilustrador Frank Cho, entretanto, ele quis provar, com a graphic novel “Liberty Meadows” que seu talento ia muito além disso. Embora seja protagonizado por uma veterinária extremamente deliciosa (a encantadora Brandy), a trama de “Liberty Meadows” foca mesmo no humor e na alegoria da crítica social ao trazer personagens que são bichinhos fofinhos –e lembram até alguns personagens da Disney num primeiro momento –mas que surgem assolados pelos mais variados vícios e neuroses muito humanos como a hipocondria, a ansiedade e o stress cotidiano.

E antes que você me pergunte se teria como fazer um longa-metragem real com tantos personagens animais, fique sabendo que isso não é nenhuma novidade, visto os avanços no campo da computação gráfica o que permitiu a realização de filmes como “Sonic” ou o live-action de “O Rei Leão".


Habibi –
Embora seja magistral, “Retalhos” –do qual eu falei na lista anterior –não é a obra-prima do escritor e ilustrador Craig Thompson; essa honra, por incrível que possa parecer, cabe ao seu trabalho seguinte, este arrebatador, doloroso e genial “Habibi”.

Um épico avassalador e distinto que acompanha as trajetórias ora paralelas, ora cruzadas, da jovem Dodola e do garoto Zam, ambos órfãos numa inclemente sociedade do Oriente Médio. Oscilando entre os estágios de tempo em que a história de amor entre eles se desdobra –a fuga da vida de escravos, ainda quando eram crianças; o amadurecimento, quase lúdico, isolados num deserto, quando os primeiros choques com a dura realidade da vida começam a assombrar suas vidas; a separação e as reviravoltas imprevisíveis e inacreditáveis que ameaçam afastá-los para todo o sempre; e lá pelas tantas, uma improvável chance de reencontro –estão as histórias que Dodola, uma contadora de histórias nata, vai relatando e que transformam “Habibi” num monumento dos quadrinhos.

Até hoje nenhuma obra de Craig Thompson –nem mesmo o primordial “Retalhos” –foi adaptada para cinema. Certamente, “Habibi” com sua trama fortíssima de denúncia dos abusos sociais a que mulheres, crianças e pobres são submetidos em sociedades mais retrógradas renderia um trabalho que suscitaria muitos debates nas redes sociais de hoje.


Verão Índio –
Muito apreciado, sobretudo nos nichos de quadrinhos eróticos, o italiano Milo Manara foi um dos poucos que conseguiu vencer essa barreira graças à qualidade inconteste de sua arte –ele chegou até mesmo a desenhar uma revista dos “X-Men”! Para muitos, seu trabalho mais adulto e despido da pornografia redundante que fez sua fama (embora haja, sim, algum resquício de erotismo) é “Verão Índio” que mergulha principalmente na colonização européia das indomadas pradarias norte-americanas quando ainda eram de domínio de irredutíveis tribos nativas. A trama poderia até lembrar um faroeste dos anos 1940, mas Milo Manara e seu roteirista Hugo Pratt (criador do clássico “Corto Maltese”) proporcionam uma desmistificadora visão européia à esses elementos, transformando “Verão Índio” numa obra singular.


Camelot 3000 –
Uma das mais brilhantes sagas de quadrinhos dos anos 1980, “Camelot 3000” foi escrita por Mike W. Barr e desenhada por Brian Bolland (o mesmo de “Batman-A Piada Mortal”), autores ingleses que sabiam muito bem o que estavam fazendo quando retomaram a história da Lenda do Rei Arthur levando ele e todo seu séquito de lendários personagens coadjuvantes (o mago Merlin, o cavaleiro Lancelot, a rainha Guinevere e outros) a despertar em pleno Século XXI a fim de deter uma invasão alienígena ao planeta Terra comandada pela própria feiticeira Morgana Le Fay.

Desde o filmaço “Excalibur”, de John Boorman, também da década de 1980, nenhum diretor ou estúdio foi capaz de recontar com pompa e circunstância (e qualidade) a Lenda do Rei Arthur novamente, quem sabe não seja hora de alguém perceber o enorme potencial cinematográfico desta HQ?


Hard Boiled-À Queima Roupa –
Houve um tempo em que Frank Miller (assim como Alan Moore) era um autor incansável, criando uma obra memorável atrás da outra em ritmo de pasteleiro (!). Concebido no início dos anos 1990, “Hard Boiled” era uma ficção científica anárquica, similar ao que já vinha sendo feito nas página da audaciosa revista “Heavy Metal”, sua premissa se desenrolava na mente de Carl Seltz (personagem cuja aparência faz lembrar Daniel Graig), marido e pai exemplar no ano de 2029 (está quase perto...); ou seria na mente de Nixon, um cobrador às voltas com implantes de memória em seu cérebro que podem, ou não, serem responsáveis pelo surto homicida no qual ele converteu a cidade em um matadouro; ou mais, seria no banco de memória da Unidade Quatro, o mais avançado modelo de robô já feito, tão avançado que poderia ostentar simulações de lembranças humanas –ou seria, isso tudo, também um implante de memória do próprio Nixon? Ou do próprio Carl? Aliás, não seriam eles e Unidade Quatro um mesmo indivíduo cibernético?

Pegando carona no ebuliente gênero cyberpunk que havia tomada de assalto a literatura na década anterior, e antecipando muitas ousadias narrativas que os quadrinhos só viriam a assimilar anos mais tarde, Miller constrói uma sucessão de cenas de ação raivosas, surreais e inacreditáveis, cortesia da identidade visual singular do ilustrador Geof Darrow. Em 2007, em meio ao sucesso de “300”, “Hard Boiled” foi uma das inúmeras obras de Miller cogitadas para uma adaptação para cinemas, certamente, os realizadores logo esbarraram na complexidade incontornável de seu argumento.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Matador de Aluguel


 O cult-movie “Donnie Darko” foi o primeiro filme de Jake Gyllenhaal e o último de Patrick Swayze –é essa coincidência irônica, a entrelaçar os astros do filme original, de 1989, e desta refilmagem, um dos elementos que parece orientar a inspiração do diretor Doug Liman.

Num primeiro momento, tem-se a impressão que o “Matador de Aluguel” original pertence aos anos 1980, e somente nele (e nas circunstâncias sempre inusitadas daquela década) haveria de funcionar; é com um senso irresistível e afiado de escapismo e diversão que Doug Liman se vale para contrariar essa ideia. Este seu “Road House” –o título original –é tão vibrante, viril e memorável quanto o clássico estrelado por Swayze, e essa afirmação, no cinema de hoje, povoado por refilmagens e reboots incapazes de ombrear a criatividade de seus exemplares originais, é quase a constatação de um milagre!

Ex-lutador de UFC –a modalidade de luta do momento –o outsider Elwood Dalton (Gyllenhaal, no personagem que, aqui, enfim recebe nome e sobrenome) vive de brigas clandestinas em bares norte-americanos, em grande medida, beneficiando-se de sua má fama (no passado, ele esmurrou um adversário até a morte!) para intimidar oponentes. Contudo, de alguma forma, isso impressiona a jovem Frankie (Jessica Williams, de “Animais Fantásticos-Os Crimes de Grindelwald”) que o contrata como segurança para botar ordem no bar que ela herdou de seu tio. Localizado na Flórida, na cidadezinha de Glass Key, o bar se chama “A Taberna” e monopoliza a atividade social noturna da região, atraindo também os desordeiros mais violentos.

Logo, Dalton começa a colocar as coisas em seus devidos lugares –mais uma vez, se valendo da fama que seu nome precede –no entanto, ele compreende que as arruaças e agressividades ocorridas no bar de Frankie não são meros contratempos; há alguém interessado em tornar a manutenção daquele estabelecimento um inferno até que seja vendido ou fechado, e esse alguém é o milionário e filho de papai –e vilãozinho da vez –Ben Brandt (Billy Magnussen, de “Twelve-Vidas Sem Rumo” e “007-Sem Tempo Para Morrer"), cujos negócios ilícitos com tráfico de drogas terão especial rendimento se ele dispuser de controle sobre o terreno onde se acha a “Taverna”.

Assim, sem mudar muito as circunstâncias que faziam da trama de “Road House” uma aventura oitentista tão prazerosa, o diretor Doug Liman altera pequenos elementos, acrescenta uma pitada de drama ali, um pouco de mistério bem administrado ali, e transfere a história para a atualidade –na qual ela perde muito daquela aura de maluquice aventuresca dos anos 1980 –fazendo uma produção que transborda tanta alta voltagem e desperta tanto interesse quando o filme original.

Para isso, muito ajuda a presença serena e sólida de Jake Gyllenhaal, um ator cuja convicção em cena ajuda a dissipar o fato de que seu personagem ostenta uma confiança sob pressão por vezes inverossímil –além do background dado ao personagem torná-lo mais crível e humano –e, se o protagonista ganha camadas interessantes, os antagonistas também: Billy Magnussen é um líder de gangue desprezível, detestável, mimado e hilariante, mas seu capanga-mor, o psicótico Knox, é de uma periculosidade palpitante e verdadeira, e seu intérprete, o ex-lutador Conor McGregor, estreia com o pé direito em longa-metragens, entregando uma atuação vulcânica, carismática e exuberante.

No final das contas, é a direção atenciosa e intrépida de Doug Liman (um especialista que entregou obras que vão de “A Identidade Bourne” até “Sr. & Sra. Smith”) que equaciona a diversão deste “Road House” com a do delicioso exemplar oitentista que ele se propõe a recriar, usando de artifícios que poderiam parecer até bastante óbvios (personagens construídos com zelo; atores bem dirigidos; e cenas de ação e pancadaria executadas com perícia e inventividade), mas, continuam sendo de conhecimento de poucos realizadores realmente perspicazes na concepção de um filme simplesmente bom.

domingo, 15 de outubro de 2023

De Guy Ritchie O Pacto


 Desde sua estréia, em “Jogos, Trapaças e DoisCanos Fumegantes”, o diretor Guy Ritchie se mostrou habilidoso e versátil no manejo dos mas diversos gêneros, estilos e narrativas. Embora em sua filmografia tenha sempre predominado uma característica brutal, inclinada à truculência de diferentes microcosmos masculinos, ele realizou de tudo um pouco –até mesmo um inusitado romance (“Por Um Destino Insólito”, com sua então esposa Madonna, talvez seu único filme ruim) e um live action da Disney (o válido e fulgurante “Aladdin”) ele tem em seu currículo! Em comum, suas obras apresentam, apesar dos elementos vastos que as diferenciam, uma proximidade inapelável para com seus protagonistas, o que faz de cada um de seus filmes um projeto quase pessoal: É essa proximidade que converte suas narrativas numa experiência sensorial, onde sentimos os mesmos exasperos, e somos levados, pelo inconformismo de sua direção, ao centro dos enredos deflagrados.

Em “O Pacto” –ou “The Covenant” –o centro desse enredo é o Sargento John Kinley, interpretado com a excelência de sempre por Jake Gyllenhaal. Soldado do exército norte-americano, Kinley esteve, como tantos outros, na linha de frente, na guerra contra o terror promovida pelos EUA no Oriente Médio, após os ataques de 11 de Setembro de 2001, e que se estendeu pelas duas décadas seguintes. Em 2018, quando a trama tem início, Kinley é um sargento-mestre numa equipe de soldados incumbidos de incursões por vilarejos e cidades do Afeganistão em busca de armas contrabandeadas pelo Talibã.

Ao perder seu último intérprete –tradutores colhidos pelo exército entre a própria população muçulmana que arriscavam suas vidas e de suas famílias, em troca de vistos de imigração pelo auxílio às tropas –o Sgt. Kinley recebe em sua equipe o taciturno Ahmed (o magnífico Dar Salim, de “Êxodo-Deuses e Reis”), competente, esperto e eficiente, ainda que ligeiramente indisposto com autoridades. A confiança custa a nascer entre Ahmed e o Sgt. Kinley; até porque não eram raros os homens em serviço que denunciavam as tropas americanas ao Talibã em troca de algum suborno.

Ao obter, por meios um tanto ambíguos, a localização de um esconderijo de armas dos terroristas, a equipe de Kinley parece dar um passo maior que as pernas e cai numa cilada difícil de se desvencilhar: Todos são mortos, exceto por Ahmed e Kinley. Os dois têm então que empreender um regresso à base americana, à mais de cem quilômetros de distância (!), sem o uso de automóveis –as estradas se encontram patrulhadas pelos homens do Talibã que toma a captura dos dois como uma questão de honra –e, de um ponto em diante, com Ahmed precisando carregar o Sgt. Kinley, alvejado de tiros pelos inimigos.

Embora esse trecho tenso e angustiante do filme faça lembrar e muito “O Grande Herói”, de Peter Berg (e ambos os filmes contem inclusive com um mesmo nome no elenco, o jovem Alexander Ludwig, de “Jogos Vorazes”), o diretor Ritchie até que não se detêm tanto nele: Ahmed e Kinley se salvam, com o americano voltando para casa alguns meses depois. Entretanto, Kinley agora compreende ter uma dívida de vida para com Ahmed que, como muitos outros intérpretes a servir no exército dos EUA naqueles anos, foi deixado desamparado e sob risco de morte no Afeganistão.

A marcha engrenada por Ritchie, nesse sufocante, aflitivo e vertiginoso terço final, lembra vagamente o clássico “Os Gritos do Silêncio”; o norte-americano, triturado por crises de consciência do alto de sua confortável e segura posição de cidadão de primeiro mundo, quer honrar a consideração que o estrangeiro lhe dedicou e salvá-lo dos revezes perigosos de sua própria terra.

Concebido com uma exuberância técnica que chega quase a ombrear o primoroso “Falcão Negro Em Perigo”, de Ridley Scott, este trabalho de Guy Ritchie serve para expor em boa luz –até muito mais do que seus descompromissados e usuais projetos comerciais –as suas capacidades incontestes como diretor. Ele realmente conduz com propriedade os desdobramentos ora folhetinescos, ora pirotécnicos deste drama de guerra, e sua duração considerável (que se prolonga uns vinte ou trinta minutos para além do necessário) e seu exagero pontual nos quesitos sangue e violência só não levam a narrativa a sofrer pela pressão de seu excesso justamente por conta dessa notável e criativa condução.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O Céu de Outubro

Um ótimo esteta, o diretor Joe Johnston sempre provou que foi –é dele a premiada direção de arte de “Os Caçadores da Arca Perdida”, além de ter dirigido “Querida, Encolhi As Crianças”, “Rocketeer” e “Jumanji”, excelentes exemplos de filmes visualmente elaborados –faltava, no entanto, sedimentar sua eficácia quanto ao drama humano.
E a história real de Homer Hickam veio bem a calhar.
Um adolescente no fim dos anos 1950, morador da cidadezinha de Coalwood, província mineradora do estado da Virgínia, Homer (vivido com competência surpreendente pelo jovem Jake Gyllenhaal, antes mesmo da revelação em “Donnie Darko”) é um dos muitos norte-americanos surpreendidos pela notícia de que os russos colocaram um satélite no espaço, o “Sputnik”.
Basta identificar seu pontinho luminoso no céu noturno, e Homer já sabe o que quer da vida: Ele quer ser um dos engenheiros que colaboraram na Corrida Espacial, e projetar foguetes em Cabo Canaveral.
No entanto, na mentalidade de seu pai, John (Chris Cooper), tal feito é um sonho impossível; bem mais provável e acessível é trabalhar ganhando a vida como mineiro, herdando assim o ofício do qual se ocupa todo homem nascido e crescido em Coalwood.
Aliado à dois amigos Roy Lee (William Lee Scott, de “Pearl Harbor” e “Gattaca-A Experiência Genética”) e O’Dell (Chad Lindberg, de “Velozes e Furiosos” e “Doce Vingança”), ambos destinados à ocupação proletariada das minas como ele, Homer resolve que este não será o seu destino. Ele faz amizade com o inteligente nerd desprezado da escola Quentin (Chris Owen, de “American Pie”) e com ele termina integrando o quarteto de ‘fogueteiros’ que desenvolvem, a partir de planejamentos matemáticos calculados na raça por eles mesmos, formas de criar foguetes e fazê-los voar para o céu.
Os garotos insistem na tarefa usando erro e tentativa: Seus primeiros foguetes explodem como bombas de fogos de artifício. Eles aprendem a resistência necessária ao aço da confecção do projétil (e que esse aço não é nada barato), descobrem regras científicas de aerodinâmica e aprendem uma série de equações matemáticas por conta própria.
Suas tentativas sistemáticas de lançar foguetes atraem a atenção da cidade inteira que passa a fazer dos lançamentos um evento onde todos se reúnem para assistir.
Como na melhor tradição dos dramas sobre juventude em choque contra o patriarcado, o diretor Johnston leva seu protagonista a colidir com as pressões do meio familiar: Seu pai ressente-se do filho não escolher a mina como herança para sua vida adulta.
Não só ele: O diretor da escola (Chris Ellis, de “A Ilha”, “Armageddon” e “Meu Primo Vinny”) não vê com bons olhos os alunos sonhando com algo que não seja o usual –esses e outros obstáculos vão sendo superados por Homer com o encorajamento de sua professora, Srta. Riley (Laura Dern) que sugere aos ‘fogueteiros’ uma inscrição na feira de ciências; se conseguirem ganhar, eles poderão concorrer ao primeiro prêmio na Feira de Ciências Nacional de Indianápolis, através da qual poderão conseguir bolsas de estudo para as grandes faculdades do país, e com isso, passagem direta para a realização de suas ambições.
Ao encarar um projeto corajosamente voltado para a manejo de emoções  e respaldado no rendimento da atuação do elenco –na contramão das orientações técnicas que definiram seus filmes anteriores –Joe Johnston entregou um trabalho emotivo e significativo de sua capacidade como contador de histórias; seu estilo continua lá –no esmero técnico focado na reconstituição de época, por exemplo, e na observação apaixonada de valores norte-americanos, essenciais à sua narrativa, com uma referência à famoso foto dos soldados em Iwo Jima, central à duologia de guerra de Clint Eastwood (afinal, Johhston dirigiu “Capitão América”!) e num novo ângulo por meio do qual a Corrida Espacial é vista, distinto de “Os Eleitos” –no entanto, aqui a afiada conjugação do diretor, de um cinema à moda antiga aliado à tecnologia de ponta para moldá-lo, serve a uma trama real e autêntica, sem retoques que escondam, ou substituam, as emoções humanas com as quais o público invariavelmente vem a se conectar.
E é belíssimo o resultado de tal atrevimento.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Homem-Aranha - Longe de Casa

Apesar do jovem Tom Holland ser o intérprete que melhor reuniu as características de Peter Parker/Homem-Aranha no cinema, muitos foram os que torceram o nariz para a versão do personagem inserida no Universo Marvel Cinematográfico, sob a alegação de que ele foi descaracterizado, perdendo muito de sua essência ao ser atrelado ao Homem de Ferro de Tony Stark, o que deixou de lado certos elementos seus tidos por determinantes.
Há um pouco de razão nisso; e tais reclamações tendem a se intensificar ainda mais com este “Homem-Aranha Longe de Casa”.
Vindo de uma esteira de mais de vinte filmes, e dando continuidade a um dos mais impactantes dentre eles (o absolutamente espetacular “Vingadores-Ultimato”), o novo filme do Homem-Aranha padece de um problema semelhante ao que acarretou em “Homem de Ferro 2”: Os realizadores, conscientes de que sua narrativa particular integra todo um universo rico, vasto e compartilhado, por vezes se esquecem de focar em seu protagonista e em sua história afundando com frequência num mar de referências sobre acontecimentos que já se sucederam –ou que ainda haverão de se suceder.
É difícil, por exemplo, abordar “Longe de Casa” como uma narrativa independente –coisa que ele não é, e os críticos mais vorazes terão de aceitar o fato que daqui para frente será assim –ele se inicia meses após os acontecimentos de “Ultimato”, ou seja, depois de todas as pessoas dizimadas pelo estalar de dedos de Thanos (fenômeno nomeado aqui como ‘Blip’) serem novamente trazidas à vida –o que inclui o protagonista Peter Parker (Tom Holland, mais adequado ao papel do que nunca) e quase todo seu séquito de coadjuvantes; sua bela Tia May (Marisa Tomei), seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon), seu interesse amoroso M.J. (Zendaya), seu rival Flash Thompson (Tony Revolori) e alguns outros.
Aqui, todo o núcleo estudantil daquele elenco arruma as malas para um tour pela Europa –o que confere ao filme as belas ambientações do Velho Continente como Veneza, Praga e Paris. Porém, é claro que os planos de Peter –de conseguir se declarar em grande estilo à garota que ama –serão frustrados por Nick Fury (Samuel L. jackson) que irá requisitar as habilidades de sua identidade super-heróica; um dos poucos disponíveis após as inúmeras baixas e desistências ocorridas em “Ultimato” (algumas delas mostradas em um clip intencionalmente dramático, mas involuntariamente cômico, visto no início).
Fury precisa do auxílio de Peter, ou melhor, do Homem-Aranha, porque gigantescas criaturas desconhecidas, os Elementais, apareceram no mundo criando caos e destruição. O único a se opor a elas vem a ser Quentin Beck (Jake Gyllehhaal, ótimo), segundo o próprio, um superherói vindo de uma realidade paralela ostentando poderes que fazem dele o único salvador à mão –Peter seria assim uma espécie de ajudante.
Até quase a metade de sua duração, “Longe de Casa” divide-se assim entre as tentativas algo atrapalhadas de Peter em ser um adolescente normal –tentando flertar com M.J., inventando estratagemas elaborados para encobrir sua vida dupla ou simplesmente buscando se desvencilhar das exigências de Fury –e seus esforços para conter a ameaça dos Elementais ao lado de Quentin Beck.
No entanto, não é surpresa para ninguém que tenha lido quadrinhos ou tenha um mínimo de conhecimento da mitologia do Homem-Aranha que Quentin Beck é, na verdade, o vilão ilusionista Mysterio –e essa revelação não tarda a ocorrer dando uma guinada até previsível, mas bastante interessante à trama; tão mais interessante pela maneira orgânica com que os roteiristas souberam enraiza-la no contexto do Universo Marvel dando, inclusive, ao Mysterio toda uma funcionalidade cinematográfica que chega a nos fazer perguntar por que esse antagonista não havia sido aproveitado antes.
Como pano de fundo, as paisagens européias de cartão-postal.
Há outro pano de fundo também: A ressonar como um dos empuxos morais e sentimentais da trama está o tempo todo a lembrança de que Tony Stark, o mentor de Peter Parker, não vive mais; e o peso (um tanto quanto grande para o jovem rapaz) de que é ele quem deve herdar agora esse legado.
Eis aí, portanto, um dos motivos para a maior grita dos fãs mais devotados do Aranha: A de que Tony Stark ocupa aqui o papel existencial que seria de direito e de fato do Tio Ben nesta nova versão do herói –o exemplo de sacrifício, heroísmo e responsabilidade que o empurra para frente e o motiva a continuar sendo o Homem-Aranha.
Da forma como é concebido, o filme paga um tributo desmedido ao herói tombado e, na opinião de alguns, descaracteriza seu protagonista real: “Longe de Casa” segue os tópicos narrativos dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro (dirigidos por Jon Favreau que aliás tem aqui um papel também ele fundamental), com tamanha preservação de referências e analogias que Peter quase deixa de ser o Homem-Aranha para ser uma espécie de Homem de Ferro Jr.(!)
Quase. Porque uma série de elementos genuínos do herói ainda estão lá. Porque Tom Holland é encantador e inescapavelmente certeiro em sua personificação. E porque o diretor Jon Watts compreende aqui de maneira ainda melhor que em “Homem-Aranha De Volta Ao Lar” que aquilo que define o herói é sua condição perene e periclitante de um ser humano falho passível de se meter em enrascadas mais do que em escapar delas, e com todos esses atributos a lhe pesar ainda tenta salvar o dia e seus entes queridos.
A lição primordial –e à época inovadora –deixada pelo criador Stan Lee, que o Homem-Aranha incorpora como nenhum outro e que a Marvel Studios (mais que qualquer outra produtora) compreende como ninguém.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Abutre

Não obstante a faceta amarga e sombria da sociedade que por vezes evoca, este é certamente um projeto em família: O diretor e roteirista Dan Gilroy juntou-se aos irmãos Tony (que escreveu a “Trilogia Bourne” e “Conduta de Risco”) e John, produtor e montador deste filme respectivamente, e ainda deu a sua esposa, Rene Russo, uma ótima personagem à qual ela dá brilhante ênfase dramática
“O Abutre” é um retrato compenetrado e comprometido da imprensa marrom e das diretrizes imorais da busca por manchetes que comprometem até mesmo a execução da lei.
Seu protagonista, Louis Bloom ganha, de Jake Gyllenhaal, uma atuação minuciosa nos trejeitos irrequietos que denunciam uma ausência absoluta de escrúpulos.
Da frustração e júbilo que experimenta, às tragédias e ocorrências que testemunha, o olhar de Louis é sempre o mesmo, vítreo e atento, denotando sua falta de empatia. Para tanto, quando o filme começa, o vemos roubando cabos para ganhar algum dinheiro. Contudo, atividades ilícitas não são o bastante e ele procura uma ocupação.
O que ele encontra na noite em que resolve parar, por curiosidade, para ver um grave acidente às margens de uma rodovia: Logo após os policiais e paramédicos chegam os repórteres com suas câmeras.
Louis fareja uma oportunidade ali e, em poucos dias, está com sua própria câmera a postos, acompanhando a frequência do rádio da polícia em busca de algo para filmar e assim poder barganhar com as redes de noticiários sensacionalistas sempre atrás desse material.
Sem saber, Louis encontra seu habitat: É de fato um ambiente perfeito para alguém inescrupuloso e calculista crescer e ascender, um âmbito onde sua indiferença para com a vida alheia represente uma vantagem que o permite focar-se naquilo que almeja.
Ele consegue, de certa forma, aliados: De um lado, a editora de um telejornal obscuro (a própria Rene Russo), cujas filmagens, quanto mais sanguinárias, mais garante a audiência de que ela própria precisa para manter seu cargo.
Do outro, um jovem assistente, Rick (Riz Ahmed, o violãozinho de “Venom”) cujos questionamentos morais aos poucos começam a representar empecilhos para o próprio Louis.
Obtendo êxito cada vez maior com seu ofício de esfregar a câmera na cara de pessoas afrontadas por acidentes, assaltos, homicídios e toda sorte de tragédias urbanas, Louis adquiri tanta proximidade com o crime que aos poucos passa a imbricar por ele: Começa fazendo pequenas alterações em locais de acidente (mudando corpos de posição para conseguir um ângulo mais dramático), evolui para um acidente automobilístico forjado (sabotando os freios da furgão de um câmera concorrente, vivido por Bill Paxton) e culmina em sua participação desprezível e ilegal num caso de assassinato –Louis chega antes da polícia no palco de uma chacina e captura imagens inéditas com sua câmera (imagens estas que não tardam a lhe proporcionar um crescimento exponencial na carreira), o que inclui –sem que a polícia seja notificada –gravações dos rostos e do carro dos assassinos.
Louis retêm essas imagens para que possa encontrar os bandidos com ela, denunciá-los à polícias, e obter assim uma nova manchete bombástica.
Envolvente e absolutamente intrigante no registro de uma fauna tão presente e tão despercebida, inclusive nas telas da TV brasileira também, o filme de Dan Gilroy se mostra incisivo e desconcertante na justaposição inteligente que faz dos profissionais dessa área que sobrepõem interesses pessoais à valores éticos.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O Homem Duplicado

Após dirigir uma série de filmes magistrais (dos quais muitos não tiveram ainda o devido reconhecimento do grande público) como os ótimos “32 de Agosto Na Terra”, “Redemoinho”, “Polytechnique”, “Incêndios” e "Os Suspeitos", o canadense Denis Villeneuve enveredou pela concepção de um filme que se encaixa muito bem no perfil de sua personalíssima filmografia: “O Homem Duplicado” é uma espécie de filme-enigma, fadado a se tornar um objeto de estudo (senão até mesmo de culto) por muitos de seus expectadores.
Tudo começa com Anthonie (o arrojado Jake Gyllenhall), um professor de história tão pacato quanto passivo. Sua rotina resume-se rigorosamente em dar aulas, ir para casa, transar com a namorada, Mary (a francesa Melanie Laurent, sempre linda), e recomeçar tudo de novo no outro dia.
Em um momento banal de laser doméstico, ele descobre, num filme, alguém exatamente igual a ele. Conhecê-lo acaba tornando-se então uma obsessão. Esse alguém, mais tarde, ele descobre, é Adam Bell (uma atuação distinta de Gyllenhall, rica em equivalências contrapostas a sutilezas diferenciadas) um ator, casado, cuja esposa Helen (a bela e fria Sarah Gadon, de inúmeros filmes da fase recente de David Cronenberg) se encontra grávida de seis meses.
Eles não apenas são parecidos, são praticamente duplicatas um do outro, e a descoberta desse detalhe leva ambos a um jogo perturbador de troca de identidades: Adam, na frustração vilipendiosa de sua incapacidade em ascender como ator, quer uma chance de transar com Mary, e disso extrair algo que o faça sentir-se menos medíocre.
Já, Anthonie, na seqüência da reação absolutamente passiva que tem ao plano de seu duplo, vê nessa oportunidade uma chance de aproximação de Helen, em um momento cheio de tensão e expectativa; ela não é tão ingênua quanto se presume, e tem conhecimento deles serem duplicatas.
Não obstante esse fervilhante conto de dúbio significado moral –e a maneira intrigante e inquietante com que Villeneuve o narra –há, no filme, uma pontuação de cenas, desde o início, que entregam indícios que podem estar fora da cronologia (ou em sonhos) e que mostram cenas que remetem à seres aracnídeos (sempre eles relacionados à personagem de Sarah). Tais cenas culminam na imagem final, um instante tão absurdamente surreal que chega a provocar uma ligeira interjeição de surpresa no expectador –para descobrir, no instante seguinte, que o diretor acabou o filme ali e aquela é, portanto, sua cena final.

Villeneuve adapta a obra de José Saramago preservando suas características desafiadoras (até mesmo acrescentando algumas camadas novas) e embutindo em sua narrativa observações alegóricas carregadas de significado que, após esse enigmático final, podem oferecer alguma elucidação para a misteriosa forma com a qual se encerra.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Vida

Em princípio, percebe-se uma característica seguida à risca pelo diretor Daniel Espinosa, neste filme, vinda da cartilha elaborada por Ridley Scott desde que realizou “Alien” e suas tentativas de prólogo, “Prometheus” e “Alien-Covenant”: A escolha incomum e criteriosa de intérpretes interessantes e diversificados para viver o número reduzido de personagens.
Habitando a Estação Espacial Internacional, em órbita na Terra, estão, portanto, o veterano das Forças Armadas Norte-Americanas convertido em voluntário espacial Jordan (Jake Gyllenhaal, sempre eficiente), a astronauta inglesa Miranda (Rebecca Ferguson, de “Missão Impossível-Nação Secreta”), o cientista sul-africano Derry (Ariyon Bakare), o encarregado canadense dos procedimentos de segurança Adams (Ryan Reynolds, o “Deadpool” em pessoa que já havia participado de “Protegendo O Inimigo”, um dos trabalhos anteriores de Espinosa), a suboficial russa Golovkina (Olga Dihovichnaya) e o capitão japonês Sho (Hiroyuki Sanada, que já havia sido capitão na espaçonave de “Sunshine-Alerta Solar).
Munido desse elenco, de uma premissa tão básica que já se imagina o plot do filme ao olhar para seu pôster, e centrado na intenção de fazer uma agradável fusão narrativa entre os elementos icônicos do “Alien” original com os aspectos mais autênticos e realistas (e, por isso mesmo, mais amedrontadores) da obra-prima “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, Espinosa conseguiu construir um terror espacial que supera com folgas as duas últimas tentativas do próprio Scott em refazer seu “Alien”.
Orbitando nosso planeta, a tripulação da Estação Espacial Internacional intercepta uma sonda vinda de Marte e a recebe com o entusiasmo de quem sabe que ela trás descoberta incalculáveis para a ciência.
A maior delas, um ser protozoário logo batizado Calvin, será fonte de inúmeras surpresas: Com o tratamento adequado, a forma de vida desperta de sua inanição e passa a crescer em ritmo exponencial. Logo, ganha tamanho suficiente para caber na mão do encantado Derry, a despeito dos alertas constantes dos demais tripulantes, sobretudo, Jordan e Adams, os mais interessados na segurança.
Como é sintomático nos personagens envolvidos em tramas aterrorizantes, sejam elas num casarão, ou numa espaçonave, o assombro irá interferir na objetividade e o pânico será disparado na primeira atitude incoerente: Uma falha na segurança levará eles a temer pela vida de Calvin, e assim tentar um procedimento de desfibrilação. Mas, a forma de vida interpreta aquilo como uma tentativa de ataque e volta-se contra todos eles, revelando, na evolução implacável de seu organismo um perigo mortal para todos eles.
Espelhado no ser concebido por Ridley Scott, a criatura de “Vida” cresce a muda de forma, avançando por estágios da mesma maneira que alcança novas áreas da estação e elimina um a um dos tripulantes.
Se, na visão de Scott, a criatura alienígena agregava mais significado à medida que evoluía, junto com sua narrativa, de um perigo justificadamente orgânico, para um simbologismo que contaminava a própria nave, no trabalho profundamente referencial de Espinosa, as analogias meio que se perdem na tentativa única e até válida de realizar um grande trabalho de suspense –o quê muitos nem isso conseguem hoje em dia.
Seu final, contudo, é de uma inesperada contundência ao deixar de lado o reflexo involuntário do cinema comercial onde os protagonistas prevalecem por meio de soluções implausíveis e surpreender o expectador com uma crueldade verdade extraída de Darwin: Viver para uma determinada forma de vida significa levar outra forma de vida a morrer.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os Suspeitos

“Prisoners” é um filme que levanta diversas questões: É justo que se estabeleça um limite ético para um pai que deseja salvar seus filhos? Até que ponto a lei pode ser torcida para salvar uma vida? Existe realmente culpa quando ela vem impelida por certa insanidade?
“Prisoners” é também mais um dos grandes trabalhos de Denis Villeneuve. Aqui, ele adota um tom inquietante, um ritmo parcimoniosamente lento (tão mais lento nos momentos em que não gostaríamos que fossem) e muitas das características que já o definem como cineasta para colocar isso tudo a serviço de uma obra de suspense.
Cidade de Boston. Duas meninas por volta dos sete anos de idade desaparecem para aflição de suas famílias. O detetive designado para o caso (Jake Gyllenhaal, excelente) logo prende o principal suspeito (Paul Dano), um rapaz esquisito com mentalidade debilitada. Em seu trailer não há indício algum do seqüestro o que obriga a polícia a libertá-lo, para desespero do pai de uma delas (Hugh Jackman, tão magistral quanto Gyllenhaal).
Villeneuve permite que a circunstância atroz em torno da qual a narrativa respira (as crianças foram raptadas? Continuam vivas?) tangencie o próprio tempo para perplexidade do expectador: Sente-se cada segundo de agonia que passa enquanto ele insiste em não revelar o paradeiro das meninas.
Este é, portanto, um filme que não poupa o público. Nem seu protagonista: Inconformado, o personagem de Hugh Jackman aprisiona o rapaz mentalmente incapaz (ainda que altamente suspeito) a fim de torturá-lo até confessar o paradeiro das crianças.
Mas, o angustiante silêncio dele torna os dias que se passam um suplício para todos os envolvidos.
O diretor encontra assim uma oportunidade impactante e poderosa para esmiuçar as engrenagens que conduzem à justiça com as próprias mãos em contraponto à lentidão alarmante das investigações, todavia, seu registro não privilegia posturas dando largo espaço para refletir à esse respeito numa obra carregada de pontas soltas que se amarram com primor nos trinta minutos finais.
O desfecho do filme oferece igualmente pouca margem para aspectos comemorativos –o quê indica a procedência nada americana do diretor (ele é canadense): O interesse de Villeneuve está nos extremos da dramaturgia, nos caminhos inéditos por onde pode levar seu elenco e na construção exemplar de uma narrativa vigorosa que mescla autenticidade e força emocional.

P/S: Não confundir este com o celebrado filme “Os Suspeitos”, de Brian Singer, dos anos 1990.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Animais Noturnos

Elegância é a palavra chave no cinema de Tom Ford. A elegância que já impregnava cada detalhe em cena de sua auspiciosa estréia, “Direito de Amar”, continua a ditar o visual acachapante e lindo deste seu novo e notável trabalho.
Todavia, como atestam as desconcertantes cenas iniciais, existe espaço também, nesse esmero visual, para a feiúra: Em enquadramentos milimetricamente bem escolhidos e bem iluminados, mulheres velhas, gordas e nuas dançam em câmera lenta diante de uma câmera que parece fetichizá-las.
O grotesco, como veremos mais a frente, será um tópico que o filme de Ford perseguirá durante toda sua duração –e seu contraponto com a beleza gráfica, e com o curioso dado de que ela não trás plena felicidade, é um dos estranhos questionamentos que ele levanta.
Amy Adams, em toda sua beleza e excelência, é Suzan, curadora de um museu de arte moderna em Los Angeles. Ela se ressente pelo fato de sua vida e seu casamento de aparências não lhe proporcionarem satisfação: Isso não a deixa dormir.
Ela já havia sido casada antes, com Edward (Jake Gyllenhaal, que interpreta também o protagonista na história dentro da história), um escritor que ela deixou há dezenove anos.
Uma noite, Suzan recebe uma encomenda: Um manuscrito de um livro que Edward escreveu em sua homenagem.
Ela começa a leitura (cada vez mais obsessiva) do tal livro cuja trama guarda, de forma alegórica, uma inesperada ressonância com o matrimônio que tiveram. Não fosse a direção refinada de Ford, essa trama serviria também, à uma típica produção exploitation dos anos 1970: Família composta pelo marido (Gyllenhaal), pela esposa (Isla Fisher) e pela filha adolescente atravessa os desertos do centro-oeste americano à noite.
Tentam ultrapassar um carro ocupado por desordeiros liderados pelo ameaçador Ray (Aaron Taylor-Johnson), mas acabam arrumando encrenca com o grupo. Eles fazem seu carro parar e, após uma discussão extremamente tensa, carregam a mulher e a filha para outro lugar, deixando o marido à pé na estrada.
Com a ajuda de um policial (Michael Shannon) ele as procura dando início a uma escalada de momentos trágicos.
A condução vai assim contrabalançando essa trama árdua, violenta e desesperadora, com o dia a dia de Suzan e suas memórias ocasionais e elípticas da relação que teve com Edward, deixando que quaisquer analogias que sejam estabelecidas entre essas três linhas narrativas fiquem por conta do expectador.
Uma obra que justapõe as percepções da violência reprimida e/ou extravasada, os diferentes âmbitos de mundo em que elas se deflagram, e as conseqüências disso tudo no íntimo dos personagens, narrada com enorme perícia.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Segredo de Brokeback Mountain

Um dos grandes trabalhos da carreira de Ang Lee, pelo qual ele conquistou seu primeiro Oscar de Melhor Diretor (o segundo viria por “As Aventuras de Pi”), este filme vinha, como era de se imaginar, embalado num tema controverso: O romance proibido entre dois homens.
O curioso é que o tratamento dado pelo diretor Lee conduzia a história como qualquer romance, ignorando o gênero dos protagonistas envolvidos: Uma forma austera e admirável de se abordar uma trama que poderia involuntariamente resvalar em várias posturas sócio-políticas.
O filme em si agradou público e crítica e a maior polêmica que o cercou envolvia mais os veículos de mídia que não lhe davam o devido enaltecimento, e os prêmios que lhe eram negados por um suposto preconceito (um deles, o Oscar de Melhor Filme).
A narrativa de Lee, que se estenderá pelo filme ao longo de décadas, começa nos anos 1960, ao apresentar, com minúcia exclusiva e detalhamento cuidadoso os dois cowboys que serão protagonistas do filme, Ennis Del Mar e Jack Twist (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, ambos de um brilhantismo interpretativo à toda prova).
E aí já tem-se a primeira manobra notável de sua premissa: Os personagens principais deste romance homossexual são também figuras emblemáticas de um gênero cuja postura e atitude é sempre relacionada à uma arraigada masculinidade tradicional: O western.
Ennis e Jack empregam-se para trabalhar como pastores de ovelhas durante uma temporada na montanha de Brokeback, para juntar dinheiro cada um movido por suas próprias razões.
Durante o longo período em que têm tão somente a companhia um do outro, os dois homens acostumados e criados num ambiente de rústica masculinidade apaixonam-se, contra tudo aquilo que lhes foi ensinado. E o tempo que Ang Lee dispõe para relatar o nascimento dessa ligação afetiva é uma das muitas escolhas brilhantes que passam despercebidas do expectador: Tão certeira, centrada e incisiva é sua direção e o tratamento com o qual aborda o roteiro que corremos o risco de achar que este grande trabalho foi feito com facilidade.
Ao voltarem da montanha, e de volta cada um para suas próprias vidas (Jack é peão de rodeio; Ennis, um pobre criador de gado) eles casam-se e têm filhos, sem jamais se esquecerem. Durante as décadas que virão, os dois buscarão momentos fugazes juntos na montanha Brokeback, único lugar onde podem expressar seu amor.
Tudo neste filme tematicamente ousado evita a panfletagem, ou o escândalo. Sereno, Ang Lee reveste o filme com uma percepção apurada de que todos os seres têm uma equivalente necessidade em querer ser feliz, e sobre inúmeros aspectos, esse é o norte para o qual apontam as motivações de seus personagens e de sua própria história. O preconceito, quando existe, é registrado como algo irrisório que pouco, no final das contas, importará.

Como em todos os seus magistrais trabalhos, Ang Lee, aqui, também volta seu olhar para aqueles que mais lhe interessam: Os personagens cuja inadequação para com as normas vigentes serve de empecilho para que se tornem aquilo que desejam ser, e em sua grandeza, por vezes, se resignam à miserável condição do drama humano.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Donnie Darko

Tentar discorrer sobre “Donnie Darko” é um desafio para qualquer mente sã. O filme de Richard Kelly é um conto lisérgico sobre as armadilhas da mente e sobre as possibilidades infinitas entre a dicotomia de realidades alternativas, além de ser uma obra que supera as expectativas de seu próprio criador: Kelly até tentou reproduzir algo que tivesse a mesma aura enigmática de “Donnie Darko” dirigindo e roteirizando o bem mais endinheirado “Southland Tales-O Fim do Mundo”, com um resultado frustrante.
Ao que parece, o culto em torno de um filme é algo sobre o qual nada nem ninguém tem exato controle; e nisso está incluída a suposta qualidade artística da obra (que neste caso aqui é estratosférica!).
O jovem Donnie Darko (o surpreendente Jake Gyllenhaal), protagonista da história, é um sonâmbulo que tem a sorte de escapar de ser esmagado por uma turbina de avião que cai e destrói seu quarto (o quê hipoteticamente –na teoria de muitos expectadores –o arremessa num universo paralelo!). 
A partir de então, ele passa a ter visões de um estranho e assustador coelho que revela a quantidade de dias que faltam para o mundo se acabar (três) e lhe instrui a cometer atos de vandalismos por toda a cidade (Seriam então as intervenções de personagens oriundos desse universo tangente e que, ao identificar a anomalia, o visitante –Donnie, no caso –adquirem características sobrenaturais que serão necessárias para que o desequilíbrio seja corrigido).
Seu relacionamento com uma garota (Jena Malone) é um dos elementos que permeiam de mistério esta trama desafiadora que leva o espectador através de acontecimentos por vezes inexplicáveis. 
Cult absoluto, “Donnie Darko” é um filme de baixo orçamento que surgiu do nada e pegou o público e a crítica de surpresa com uma miscelânea das mais curiosas, uma mistura de “filme de David Lynch” (e como tal, onírico e repleto de dúvidas insolúveis), histórias de heróis em quadrinhos (entre tantas referências, há o nome do protagonista com iniciais que se repetem) e um clima sci-fi estranhamente atemporal (com músicas do Tears For Fears e outras referências aos anos 1980).
Em tempo: “Donnie Darko” ganhou uma continuação das mais desnecessárias anos depois, “S. Darko-Um Conto de Donnie Darko”, sem a participação de Richard Kelly e sem o ator Jake Gyllenhaal, focada na irmã mais jovem de Donnie, Samantha, que no filme original é pouco mais que uma figurante. Uma perda de tempo...

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Contra O Tempo

Os bons autores reconhecem, no gênero da ficção científica, o terreno onde suas tramas acomodam inquietações que refletem nossa sociedade, seja de ordem política, filosófica, existencial ou pessoal.
“Contra O Tempo” embora não seja a mais espetacular das realizações (talvez, peque pelo peso excessivo que a narrativa dá ao seu andamento), é um trabalho no qual essas características casam com perfeição.
Ele conta uma história onde um capitão do exército norte-americano desperta num trem de Chicago, na companhia de uma moça que desconhece. Nos oito minutos seguintes, ele descobrirá que todos naquele trem morreram num atentado a bomba, e que ele, como parte de uma experiência do governo, tem a missão de reviver as últimas lembranças de um ocupante do trem até descobrir o responsável.
Diretor do instigante "Lunar", Duncan Jones criou aqui mais uma vez um belo conto de ficção científica onde ele questiona os limites da mente e da realidade, com base na gradual conscientização de seu protagonista (o ótimo Jake Gyllenhall) da situação fantástica em que está metido.