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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Conflitos Internos / Os Infiltrados


 Conflitos Internos

Extremamente prestigiado em Hong Kong, o diretor Andrew Lau é um hábil manejador de tramas prolixas, capaz de ressaltar suas arestas de originalidade em meio à gêneros e conceitos dos quais público e crítica tendem a subestimar.

Uma de suas obras mais aclamadas –pelo menos, no Oriente, onde obteve largo sucesso –“Conflitos Internos”, o qual ele co-dirigiu em colaboração com Alan Mak no ano de 2002, não somente é um brilhante thriller policial e, a sua maneira, uma evocação apaixonada dos meandros complexos e fascinantes com os quais Francis Ford Copolla forjou a mitologia de seu “O Poderoso Chefão” como também é o imprevisto estopim (até para seus realizadores!) de uma bem-sucedida trilogia.

Neste primeiro filme, testemunhamos, em meio ao submundo criminal de Hong Kong, as trajetórias de um criminoso e de um policial, interpretados por Andy Lau (não confundir com o diretor de quem ele é quase homônimo!) e Tony Leung, respectivamente, que em paralelo se infiltram entre seus próprios inimigos. Ambos acabam ganhando a confiança nas suas áreas. Ironicamente, o policial disfarçado de bandido torna-se um dos homens de confiança do chefe da quadrilha quando surge a suspeita de que há um espião entre eles. Ao mesmo tempo, o gangster infiltrado na polícia integra uma equipe justamente para descobrir quem está entregando informações aos bandidos. Pouco a pouco, os dois estão prestes a desmascarar um ao outro.

Andrew Lau e Alan Mak trabalham maravilhosamente bem a circunstância de suspense do filme, cuja impecável atmosfera nos faz desconfiar de cada movimento, de cada olhar mal-disfarçado; é um mundo de suspeitas onde ninguém pode confiar em ninguém, e cada ato parece supervisionado por inimigos ávidos por ter alguém a quem desmascarar.

Como em toda trama de intriga, Lau e Mak justapõem os antagonistas deixando bem clara a forma preocupante com que estão inseridos entre as fileiras inimigas –mas, somente isso fica cristalino; tudo o mais (alianças, motivações, lealdades) é deixado brilhantemente ambíguo, de forma a potencializar sua tensão, que acaba coroada com um final impiedoso do qual o viés shakesperiano embutido em sua premissa converge a um eco ensurdecedor.

O segundo filme da trilogia (realizado em decorrência de seu inesperado sucesso de público, visto que esta é, evidentemente, uma história planejada com começo, meio e fim) trata-se de uma espécie de prequel que esmiuça com mais detalhes o passado dos dois personagens principais, enquanto que o terceiro termina sendo, de fato, a continuação, mostrando os desdobramentos e consequências do desfecho do primeiro filme.


Os Infiltrados

Como costuma ocorrer a um filme estrangeiro de insuspeita qualidade a destacar-se entre as milhares de obras produzidas pelo mundo ano a ano, “Conflitos Internos” –ao menos, a primeira e, de certa forma, a segunda parte –acabou sendo refilmado em 2006. E não uma refilmagem qualquer: “Os Infiltrados” ganhou direção de ninguém menos que Martin Scorsese (recém-saído de seu suntuoso épico “O Aviador”) e foi estrelado por Leonardo Dicaprio ao lado de Matt Damon, o elenco conta ainda com Jack Nicholson numa de suas últimas participações num longa-metragem antes da aposentadoria.

A trama, ainda que roteirizada pelo conceituado William Monahan (de “Cruzada”), replica a de “Conflitos Internos” com constrangedora proximidade: Um policial (Dicaprio) infiltra-se na máfia de Massachussets, em Boston, enquanto paralelamente, um espião da máfia (Damon) é plantado na força policial. Os anos se passam e cada um dos respectivos infiltrados adquire confiança em sua corporação até a descoberta de que ambas as partes possuem um espião. A trama acompanha então a nervosa investigação (e consequente duelo) para que um consiga desmascarar o outro.

Como costuma acometer nas refilmagens promovidas pelos norte-americanos, a despeito da qualidade um tanto desafiadora do material que tentam refilmar, os realizadores se esforçam bastante para incrementar os elementos já presentes no filme original; e aqui, o roteiro de William Monahan é desonestamente astuto ao aproveitar muito da trama, não apenas do primeiro, como também do segundo filme: Ao valer-se do original e de sua prequel, os realizadores de “Infiltrados” têm a chance de moldar uma obra mais robusta, com mais elementos dramáticos a oferecer diante do enxuto “Conflitos Internos” –além da presença inédita do personagem de Mark Whalberg, inexistente no original, que acrescenta um elemento mais contundente ao desfecho, ainda que algo questionável –e, embora este seja de fato um filme menor dentro de sua formidável filmografia, um filme dirigido por Martin Scorsese ainda É dirigido por Martin Scorsese: A mitologia de toda a criminalidade de Boston concebida para o filme é rica e notável em seu detalhamento, e o diretor não somente equilibra atuações de forma a todos soarem impecáveis (Jack Nicholson, nitidamente substituindo uma presença que seria regularmente de Robert De Niro, não acaba roubando a cena de ninguém como inicialmente poderíamos presumir) como também evoca um sem-fim de referências cinematográficas vastas –que vão de cortes abruptos e imprevisíveis decalcados de Glauber Rocha à sutis manobras narrativas extraídas de antigos filmes noir –regendo o que pode ser chamada de uma sinfonia de violência e psicologia.

Ainda que tímido diante de tantas obras maiúsculas que Scorsese entregou antes e depois (e certamente inferior, mesmo que com todos os seus esforços, à produção original na qual foi inspirado) coube a este pequeno épico policial a honra de ser a produção pela qual Martin Scorsese finalmente recebeu seu Oscar de Melhor Diretor. Ele traz a fúria narrativa e a costumeira maestria que um mestre como Scorsese consegue criar, mas, não tenha dúvidas, é bastante simplório na comparação com muitos de seus trabalhos.

Em tempo, no ano de 2009, houve mais uma refilmagem de “Confiltos Internos”, desta vez, realizada na Coréia do Sul (uma indústria cinematográfica a qual nunca se deve subestimar), com o título inglês de “City of Dammation”, dirigida por Dong Won Kim e concebida numa variação –pasmém –de comédia!

domingo, 25 de setembro de 2022

O Juiz


 O sucesso sempre costuma ser uma faca de dois gumes: Notadamente relacionado ao Homem de Ferro, da Marvel Studios, que interpretou ao longo das últimas duas décadas (e cuja identificação intérprete/personagem salvou sua carreira), o astro Robert Downey Jr., como em outros casos, a despeito de seu colossal e reconhecido talento, encontrou dificuldades em ir além da sombra de seu famoso personagem, sobretudo, aos olhos de uma nova geração de expectadores que não conferiram suas brilhantes atuações numa fase mais jovem (como, por exemplo, “Chaplin”).

Assim sendo, este drama de tribunal “O Juiz”, dirigido por David Dobkin (diretor de “Eu Queria Ter A Sua Vida” e de “Penetras Bons de Bico”) contraria as tendências notavelmente cômicas de seu realizador –ainda que em menor grau elas estejam lá –para explorar as sutilezas dramáticas de seu astro principal.

De volta à cidadezinha onde cresceu –e para onde pretendia nunca mais voltar –em razão do falecimento de sua mãe, Hank Palmer (Downey Jr. provando amplamente sua funcionalidade), um ambicioso advogado retoma a complicada relação com o pai, Joseph (Robert Duvall que, em 2014, cravou ironicamente uma indicação ao Oscar que a campanha promocional tanto tentou obter para Downey Jr.), um juiz rígido e linha dura.

Dias depois, surge uma acusação de atropelamento e homicídio contra Joseph que se vê então no banco dos réus. O filho irá defendê-lo, trazendo a tona, assim, vários rancores do passado que podem ou não ajudar a elucidar o ocorrido.

Acima de tudo, este eficiente (ainda que bem longo) drama de tribunal é um veículo para o astro Robert Downey Jr. cuja participação parece onipresente em cena –potencializada possivelmente pelo fato dele ser um dos produtores executivos e de sua esposa, Suzan Downey, ser produtora do filme.

Ele faz por merecer: sua atuação, como sempre, é afiada, equilibrada, temperada de lampejos espirituosos de humor, e nunca fora do tom. Ele é auxiliado pelo sempre excelente Robert Duvall e pelo ótimo elenco de apoio.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Gavião Arqueiro


 Dentre os heróis originais a integrarem os Vingadores, o único que jamais conseguiu ganhar um filme-solo foi, infelizmente, o Gavião Arqueiro, vivido pelo competente Jeremy Renner. Na verdade, o Gavião Arqueiro foi (e, em grande medida, ainda é) sistematicamente subaproveitado dentro do Universo Marvel –basta lembrarmos de sua participação, boa parte dela como um comparsa hipnotizado de vilão, em “Vingadores”. A série “Hawkeye”, do Disney Plus, prometia corrigir esse lapso.

Como todas as demais séries lançadas pela Marvel em 2021 –“WandaVision”, “Falcão & Soldado Invernal” e “Loki” –esta chega narrativamente atrelada a todos os diversos filmes da Marvel Studios que a precederam, e seus acontecimentos, certamente irão reverberar em inúmeros projetos que ainda estão por vir. Na verdade, isso é bem nítido: Como parece ser inerente aos trabalhos mais recentes da Marvel, “Gavião Arqueiro” é uma trama sobre a passagem de bastão, onde uma nova geração surge para preencher o lugar dos combatentes veteranos e cansados, e nesse sentido, a série é também sobre Kate Bishop (a maravilhosa Hailee Steinfeld), até mais do que sobre Clint Barton, codinome do Gavião Arqueiro –detalhe que ameaça colocá-lo para escanteio dentro da própria série que protagoniza.

O primeiro episódio, dentre seis, começa inspirado: Testemunhamos os eventos de 2021, do primeiro filme dos Vingadores, contudo, não do já conhecido ponto de vista dos heróis, mas do ângulo da pequena Kate, então uma garotinha de apenas nove anos, que vê, estarrecida, das dependências em frangalhos de seu apartamento, a devastadora Batalha de Nova York. Algo em meio àquele caos chama a atenção de Kate: Um herói, munido de arco e flecha, enfrenta os alienígenas e salva a vida das pessoas (incluindo a dela própria). ele não é provido de superpoderes, não tem um martelo mágico, nem uma armadura tecnológica. Ele conta apenas com sua habilidade e vigor. É o Gavião Arqueiro.

Nos dias atuais, Kate já é uma moça com vinte e tantos anos, mas a inspiração do Gavião Arqueiro, de certa forma a definiu: Ela é prodigiosa em arcoaria. Já, a Batalha de Nova York foi devidamente assimilada pela cultura pop; Foi convertida em um musical –“Rogers-The Musical” –exibido nos palcos off-Broadway; é essa peça teatral que vemos Clint Barton assistindo com os filhos enquanto ainda digere os acontecimentos de “Vingadores-Ultimato”, entre eles, a morte de sua melhor amiga, Natasha Romanoff (Scarlett Johansson). Esses contratempos e mais as árduas missões ao longo dos anos passaram a afetar seriamente a sua audição –numa manobra oriunda dos premiados quadrinhos escritos por Matt Fraction, que serve de produtor-consultor desta série,

Os caminhos de Kate e Clint, é óbvio, estão fadados a se cruzarem. E isso ocorre quando, por acaso, Kate veste o traje de Ronin –a identidade vigilante adotada por Clint quando sua família foi blipada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –e acaba na mira de uma gangue nova-iorquina ávida por vingança, a Gangue do Agasalho (?!), também oriunda da graphic-novel de Matt Fraction.

Clint então precisa livrar Kate –que na empolgação assume o papel de sua parceira/pupila/ajudante –do encalço da Gangue do Agasalho, e de sua perigosa líder, Maya (Alaqua Cox), uma surda-muda hábil em artes-marciais, enquanto corre contra o tempo para tentar passar o Dia de Natal junto de sua família –a série busca emular assim, as narrativas ágeis e descontraídas de alguns filmes natalinos, aos quais, inclusive, a produção faz referência. Entretanto, tudo é somente a ponta do iceberg: A trama de “Gavião Arqueiro” se ramifica a medida que descobrimos mais a respeito de seus inúmeros personagens, como Eleanor Bishop (a ótima Vera Farmiga), mãe de Kate, que guarda terríveis segredos envolvendo o assassinato de um ricaço; ou o noivo dela, o bon vivant Jack Duquesne (Tony Dalton), um espadachim de habilidade um tanto suspeita (na realidade, ele próprio um importante personagem de histórias mais antigas da Marvel); até mesmo Laura Barton (Linda Cardelini), esposa de Clint, dona de um passado misterioso que ameaça voltar para persegui-la, algo que seu marido não pode deixar; ou Yelena Belova (a sempre sensacional Florence Pugh) que, desde a cena pós-créditos de “Viúva Negra” sabemos ter Clint Barton na mira por acreditar ser ele o responsável pela morte de sua irmã, Natasha Romanoff; e, para a alegria de inúmeros fãs de quadrinhos, a aparição-surpresa, já nos episódios finais, do verdadeiro vilão da trama, um personagem (e um ator) que fará o público vibrar.

De fato, mais do que enfim conceder um tão aguardado protagonismo ao Gavião Arqueiro –embora nesse quesito ele também seja compensador –esta série prepara o terreno para os novos personagens que estão chegando ao Universo Marvel, sendo a mais notável aqui a mocinha Kate Bishop, que a talentosa Haille Steinfeld transforma numa heroína  com a qual é impossível o público não se encantar. Mas, não é só ela: A produção dedica quase um episódio inteiro para evidenciar a química extraordinária que ela compartilha com a Yelena Belova de Florence Pugh –certamente as caras mais proeminentes daqueles que estarão a frente dos Vingadores no futuro. A produção sempre competentíssima de Kevin Feige tira imenso proveito do formato estendido e episódico da série e trabalha seus carismáticos personagens com minúcia, parcimônia e minimalismo, fazendo com que acompanhá-los, seja em momentos de ação, de humor ou de drama, torne-se  uma experiência nunca menos que deliciosa.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Godzilla II - O Rei dos Monstros


 Último capítulo que faltava ser assistido do assim chamado ‘Monsterverse’ –eu e minha mania de assistir filmes sequenciados fora de ordem... –este “Godzilla II” se ambienta após “Godzilla” (do qual é continuação direta) e “Kong-AIlha da Caveira”, e pouco antes de “GodzillaVs Kong”.

O universo compartilhado de filmes estrelados por monstros gigantes icônicos do cinema terminou funcionando com mais eficiência do que o Universo da DC, no qual os Estúdios da Warner depositavam muito mais expectativa. Grande parte disso se deve, ironicamente, pelo pouco caso que o próprio estúdio fez dessa série de filmes –o que proporcionou liberdade criativa aos realizadores.

Certamente, a simplicidade da fórmula também ajudou muito: Amparadas assumidamente na pirotecnia, nenhuma dessas produções ocultava o fato de que os personagens humanos serviam como um tênue e tímido suporte às sequências de destruição promovidas pelos embates dos monstros. A trama aqui soa como uma obrigação burocrática. Um pretexto que os próprios realizadores reconhecem como sendo enfadonho e necessário; e, para tanto, transformam tais passagens em momentos básicos, fugazes e simplórios. Nem mesmo a presença de um elenco estelar ameniza esse descaso.

Os protagonistas humanos de “Godzilla II” são a garota Maddison (Millie Bobby Brown, da série “Stranger Things”), seus pais, a Dra. Emma Russell (a maravilhosa Vera Farmiga) e o Dr. Mark Russell (Kyle Chandler, de “Super 8”) e os cientistas ao redor deles, movidos por ocasionais e conflitantes motivações, interpretados por Charles Dance, Ken Watanabe, Sally Hawkins e Zhang ZiYi. São os nomes mais proeminentes que cobrem o núcleo humano e se encarregam dos diálogos só para que os produtores possam argumentar que seu filme tem sim uma história, contudo, a razão de ser de “Godzilla II” são mesmo os monstros gigantescos –denominados Titans –materializados em cena graças aos efeitos visuais de última geração.

Na comparação com os demais filmes do ‘Monsterverse’, “Godzilla II” traz a reunião mais numerosa de monstros em cena: Além do personagem principal, Godzilla –cujo surgimento no filme de 2014 despertou o interesse de diversos cientistas mundiais, inclusive aqueles a frente do Programa Monarch –aparecem também os míticos Mothra (uma mariposa gigantesca, tal como Godzilla, oriunda dos mesmos filmes japoneses dos estúdios Toho), Rodan (um pterodáctilo gigante constituído de fogo), Ghidorah (o grande vilão, uma espécie de dragão de três cabeças) e muitos outros.

Isso por conta de uma constatação megalomaníaca (e, no fim das contas, um tanto idiota) de alguns cientistas de que a raça humana é uma infecção no planeta, e os monstros representam glóbulos brancos criados pela natureza para combater esse “vírus”. Assim sendo, os monstros –ou Titans –seriam uma correção natural para as catástrofes climáticas acarretadas pela superpopulação mundial. Entretanto, o volume exorbitante de Titans que acabam despertando excede de tal forma o previsto que, liderados pelo mortífero Ghidorah, podem fazer com que a humanidade entre em extinção.

Como é inevitável, esse argumento coloca o poderoso Godzilla, uma vez mais, como a última esperança para que os seres humanos sejam salvos.

Haviam pequenos e pertinentes detalhes em cada um dos filmes realizados dentro do ‘Monsterverse’, a maioria deles, reflexos do manejo eventualmente inspirados de seus diretores: No primeiro “Godzilla”, a percepção de espetáculo a um só tempo intimista e épico de Gareth Edwards conferia-lhe diferenciação; em “Kong” o diretor Jordan Vogt-Roberts oferece um senso singular de cinema, enfatizando sua paixão por um sem-número de produções dos anos 1970 (onde a trama era ambientada); e no posterior “Godzilla Vs Kong” (para muitos, o melhor exemplar de todos), o diretor Adam Wingard uniu com propriedade e esperteza todas essas e outras facetas mais para construir um espetáculo feito de todos os elementos funcionais dos filmes anteriores. Aqui, neste segundo “Godzilla”, a narrativa perspicaz de ritmo e clímax do diretor Michael Dougherty (também ele vindo das fileiras do gênero terror como muitos dos outros) até compreende os inúmeros pontos positivos da produção e corre para valorizá-los, no entanto, a grandiosidade dos embates não chega a oferecer algo novo, os efeitos visuais não contribuem com qualquer sentimento de ineditismo ao que os filmes anteriores já trouxeram, e sua trama –que ousa apenas no detalhe de reunir o maior coletivo de monstros gigantes até então –se estende em debates e considerações verborrágicos que apenas preenchem tempo de filme.

Nunca aquela máxima de que a história apenas justifica a ação foi tão bem ilustrada quanto em “Godzilla II-O Rei dos Monstros”.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Menino do Pijama Listrado


Em 2008, esta adaptação da obra de John Boyne emocionou muitos expectadores (e ainda emociona) com sua trama sobre os típicos horrores da Segunda Guerra Mundial aliada a uma denúncia que inclui o sofrimento de personagens infantis –uma manobra que invariavelmente arrebata qualquer indiferença do público.
Entretanto, poucos pararam para notar o quanto esta produção pega emprestado de uma obra muito superior: O clássico francês "Adeus, Meninos" de Louis Malle.
Como nele, é pelos olhos de um garotinho que enxergamos uma rotina cujos pequenos e incipientes detalhes fazem nossa percepção de adultos notar o horror que as distraídas crianças não notam –e já se pode debitar do mestre Malle um dos elementos mais notáveis desse filme.
O garotinho em questão, protagonista deste filme, é Bruno (Asa Butterfield, de “A Invenção de Hugo Cabret”), o filho de sete anos de um graduado oficial nazista (David Thewlis, sempre tirando de letra a ambigüidade desses personagens).
De pura ascendência alemã, Bruno vai com seu pai e sua mãe (a maravilhosa Vera Farmiga) e um campo de concentração onde seu pai é promovido como comandante.
Entediado pelas restritivas regras do lugar, Bruno encontra uma brecha no muro que separa a mansão onde sua família mora e todo o resto do lugar –que, sob rígida orientação, ele não deve visitar.
Inocente quanto às razões da guerra, o garotinho se intriga com a vestimenta das pessoas que encontra perambulando pelo campo de concentração.
Na ingenuidade de Bruno aqueles trajes parecem pijamas (na realidade, são prisioneiros judeus) e diante disso, ele não vê porque não se tornar amigo de um menino que conhece do outro lado da cerca. O menino é Shmuel (Jack Scanlon). É careca, está sempre vestido com o mesmo pijama que os outros prisioneiros e, embora tenha a idade de Bruno, não tem o mesmo tamanho nem o físico saudável que ele.
O diretor Mark Herman trabalha em cima de uma história que dificilmente seria ignorada por uma parcela do público ávida por uma tragédia historicamente relevante e comercialmente pasteurizada –e é exatamente isso que o filme é: Um produto que almeja bilheteria e consagração em cima de atrocidades reais tão mais forçosamente tocante pela maneira com que faz lembrar, nas entrelinhas, que esse é um sofrimento que o expectador está isento de experimentar.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Faces da Verdade


Difícil dizer se este filme do ex-crítico de cinema Rob Lurie é uma crítica aos aspectos unilaterais do jornalismo ou uma ode à postura constrita de alguns profissionais.
O que dá para dizer é que, em algum ponto até chegar na relevância que almejou, ele perdeu-se no caminho.
Na trama na instiga indiferença no expectador, pelo contrário, a impressão é que seu resultado é inverso ao que a história quer demandar.
Temos aqui uma jornalista americana (Kate Beckinsale, mais a vontade em maluquices como “Anjos da Noite”) cuja reportagem bombástica por ela publicada expõe uma agente secreta da CIA (Vera Farmiga, de “Amor Sem Escalas”).
Pressionada pelos representantes do governo, interessados em detectar imediatamente um traidor entre seus funcionários, a jornalista é levada a julgamento por acobertar a delatação ao alegar fidelidade à sua fonte. Dos tribunais ela é levada à detenção, onde é mantida graças às maquinações governamentais enquanto assiste com o passar do tempo, o esfacelamento de seu casamento e da relação com o filho.
O diretor Rob Lurie retoma um tema similar ao da sua estréia no ótimo "A Conspiração", o das implicações éticas e morais no plano político, quando o direito individual sofre uma pressão além de seus limites. Mas naquele filme ele tinha a ótima Joan Allen.
Aqui a protagonista é a bela, porém pouco capaz Kate Beckinsale.
Mais; O elenco de apoio é povoado por boas escolhas (há Matt Dillon, ótimo no papel de procurador federal, o impecável veterano Alan Alda, e a sensacional Vera Farmiga numa participação mais curta do que gostaríamos –pensando bem, ela é quem deveria ser a protagonista), entretanto, como a partir de um determinado ponto todos depõem contra a personagem principal: O filme de Lurie sofre de um desequilíbrio que tira a funcionalidade de sua narrativa –o expectador simpatiza com os coadjuvantes, muitos colocados ali com função antagônica, e se ressente com a irritante protagonista a ponto de vibrar com as fatalidades de seu destino, que deveriam soar dramáticas.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Invocação do Mal

Saudado pela crítica e público como o melhor filme de terror de 2013 (embora seus competidores não fossem, por assim dizer, fortes), “Invocação do Mal” revelou-se um belo exemplo do domínio de narrativa do diretor James Wan, um verdadeiro especialista no gênero que realizou o primeiro filme da série "Jogos Mortais" (uma das produções que determinou as características de todo um filão de filmes de terror da década de 2000) e o bem-sucedido "Sobrenatural-Insidious".
O que James Wan faz não tem absolutamente nada de inovador: Ele tão somente manipula com precisão e bom senso (essas sim, características raras entre diretores mais jovens) os mesmo elementos explorados com perfeição pioneira no clássico “O Exorcista” –um filme ao qual este “Invocação do Mal” presta um incalculável tributo.
Anos 1970. Renomados demonólogos, o casal Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga, ambos ótimos) especializou-se em esconjurar entidades malignas que perturbavam pessoas comuns nos mais diversos casos, como o célebre episódio da boneca Annabelle –mais tarde, ele próprio transformado num filme.
Embora esta atividade lhes tenha cobrado, por vezes, um preço alto.
Este filme é baseado no que é considerado por eles mesmos, seu caso mais assombroso: A progressão terrível e violenta das aparições de um espírito para uma família americana de classe média, numa casa que antes pertencera a uma mulher acusada de bruxaria.
A despeito da veracidade inconteste e alardeada de sua trama –um fator empregado à exaustão no marketing do filme a fim de valorizar seus sustos –a história, da forma como é apresentada no filme tem inevitáveis reformulações hollywoodianas e liberdades poéticas em prol de uma narrativa fechada e otimista; na vida real, os demonólogos não foram capazes de livrar a família dos espíritos e eles tiveram que simplesmente deixar a casa.

Em tempo: Os casos do casal Warren inspiraram outros filmes mais ou menos conhecidos de terror como “Horror em Amityville” e “Invocando Espíritos”.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Contra O Tempo

Os bons autores reconhecem, no gênero da ficção científica, o terreno onde suas tramas acomodam inquietações que refletem nossa sociedade, seja de ordem política, filosófica, existencial ou pessoal.
“Contra O Tempo” embora não seja a mais espetacular das realizações (talvez, peque pelo peso excessivo que a narrativa dá ao seu andamento), é um trabalho no qual essas características casam com perfeição.
Ele conta uma história onde um capitão do exército norte-americano desperta num trem de Chicago, na companhia de uma moça que desconhece. Nos oito minutos seguintes, ele descobrirá que todos naquele trem morreram num atentado a bomba, e que ele, como parte de uma experiência do governo, tem a missão de reviver as últimas lembranças de um ocupante do trem até descobrir o responsável.
Diretor do instigante "Lunar", Duncan Jones criou aqui mais uma vez um belo conto de ficção científica onde ele questiona os limites da mente e da realidade, com base na gradual conscientização de seu protagonista (o ótimo Jake Gyllenhall) da situação fantástica em que está metido.