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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Também Conhecido Como Charlie Sheen

 


Parte 1

Tão cheio de histórias para contar (muitas inéditas até para fãs ferrenhos), este documentário da Netflix sobre a vida loca do astro Charlie Sheen resultou tão extenso que precisou ser dividido em duas partes. A verdade é que a trajetória de Charlie Sheen –nascido Carlos Irwin Estevez, filho do astro Martin Sheen –se confunde com parte da história do showbizz norte-americano, no cinema e na TV. Aqui, o próprio Charlie Sheen se expõe diante das câmeras e assume muitos de seus imensuráseis lapsos, não se furtando de comentar muitos momentos escabrosos que ele mesmo protagonizou ao longo de seus 60 anos.

O filme já começa surpreendente, revelando que Charlie Sheen (assim como seus irmãos, entre eles o também ator Emilio Estevez) foi amigo de infância de Sean Penn (que comparece prestando seu depoimento) de quem eram vizinhos! Desde muito jovem, o pequeno Charlie conviveu com os bastidores de Hollywood na companhia do pai –suas lembranças do caótico set de filmagens de “Apocalypse Now” são uma passagem marcante –assim, não chegou a ser surpresa quando, já a adentrar os anos 1980, ele e Emilio tiveram interesse em ingressar na carreira cinematográfica. Com o nome Charlie Sheen (em correspondência ao nome artístico do pai, algo que Emilio optou por não adotar), ele conseguiu seu primeiro papel num filme de terror B, “The Grizzly 2”, que foi também a estréia de George Clooney e Laura Dern (!), lamentando o fato de que, com isso, deixou escapar a chance de estrelar “Karatê Kid” (!!). No entanto, ele conseguiu se sobressair no papel seguinte, chamando a atenção numa ponta de apenas três minutos no filme “Curtindo A Vida Adoidado”.

O estrelato até que veio de forma rápida e inesperada: Ele aceitou o papel principal no drama da Guerra do Vietnam “Platoon” –até uma maneira de homenagear o próprio pai –e, no ano seguinte, enquanto filmava “Wall Street-Poder e Cobiça” com o mesmo diretor Oliver Stone viu a produção ganhar o Oscar de Melhor Filme. A badalação logo trouxe seu ônus, potencializado pela amizade dele com Nicolas Cage, outro notório bad boy do período: São inúmeras as histórias de farras, bebedeiras e excessos protagonizadas pelos dois.

Ao fim da década de 1980, começo da de 90, Charlie já demonstrava sinais preocupantes de descontrole, o que levou sua família a tentar uma intervenção e a colocá-lo, pela primeira vez, numa clínica de reabilitação. Ai sair de lá, ele logo engatou o sucesso “Top Gang-Ases Muito Loucos”, uma paródia de “Top Gun-Ases Indomáveis” –logo depois dele, Sheen estrelou a continuação (talvez, até mais famosa do que o primeiro filme!) “Top Gang 2-A Missão”, paródia, por sua vez, de “Rambo 2”. Duas coisas ficaram bem claras: A primeira, que o público conseguia perfeitamente vê-lo como um comediante; e a segunda, que mesmo visitando o fundo do poço, uma recuperação era possível.

Ainda na década de 1990, Sheen participou do filme “Tudo Por Dinheiro” (que fez mais sucesso nos EUA do que aqui no Brasil) do qual a maior e melhor consequência foi a amizade com o co-star Chris Tucker, entretanto, naquela época, um dos escândalos de maior repercussão envolvendo o nome de Charlie Sheen foi mesmo o julgamento de Heidi Fleiss, conhecida como “A Cafetina de Hollywood” por agenciar garotas de programa para vários famosos de Los Angeles –levada à julgamento por sonegação de impostos, Heidi teve sua lista de clientes revelada ao público, e quem era o cliente número 1 da lista? O próprio Charlie Sheen, cujos cheques foram encontrados em propriedade de Heidi!

Após esses e outros tantos percalços inacreditáveis, os últimos anos da década de 1990 encontraram Charlie Sheen disposto  a reconquistar a sobriedade e abandonar seus vícios. A Parte 1 se encerra, nesse ponto, contudo, todos sabem que há muito mais história para ser contada na Parte 2 –e provavelmente, ficou reservado para lá os trechos mais hardcore da vida tumultuada desse inacreditável Charlie Sheen.

Parte 2

Na segunda parte de sua trajetória pra lá de problemática e tumultuada, Charlie Sheen revela que chegou em meados de 1998 disposto a sossegar –ele pensava que a pior fase de seu vício em drogas e de suas bebedeiras havia passado e, agora que estava limpo e fora da reabilitação, seu objetivo era obter alguma estabilidade profissional. O cinema era então um mercado extremamente disputado (e, devido à sua notoriedade, os papéis rentáveis de protagonista não chegavam mais, apenas propostas para papéis coadjuvantes) e ele achou que a TV oferecia oportunidades mais consistentes para ele ganhar a vida. Foi assim que, no ano 2000, ele foi contratado para uma sitcom chamada “Spin City”, estando ela em sua quarta temporada (!). Acontece que o astro original de “Spin City”, Michael J. Fox, havia sido diagnosticado com Mal de Parkinson e, diante de sua saída da série, os produtores pensaram na arriscada possibilidade de contratar outro ator para, com outro personagem, tentar substituir o protagonista anterior –contra muitos prognóstipos, Charlie Sheen conseguiu dar uma sobrevida à série, levando à ainda mais duas temporadas, o que resultou em sua vitória como Melhor Ator em Série de Comédia e Musical no Globo de Ouro 2002, o primeiro e único prêmio de atuação que, até hoje, Charlie Sheen afirma ter conquistado!

Contudo, não há como falar de Charlie Sheen e não falar da série “Two And A Half Men” –a Warner Bros. animada com o sucesso de “Spin City”, encomendou uma série ao produtor Chuck Lorre, onde um dos personagens principais, segundo ele, “tinha um Q de Charlie Sheen!”.

Os produtores conseguiram o próprio Charlie Sheen para dar vida ao personagem Charlie Harper, dando o estopim inicial a um dos maiores sucessos da TV norte-americana. Na época, Charlie estava casado com a atriz Denise Richards (de “Tropas Estelares” e “Garotas Selvagens”) que havia conhecido no set de “Spin City” e que esteve presente na primeira temporada de “Two And A Half Men”. Ao longo daqueles anos –como é relatado pelo próprio Charlie e também por seu colega de elenco, Jon Cryer –Charlie tentou compensar a falta que começava a sentir do êxtase provocado pelas drogas e pelo álcool tomando remédios; ele simulava sintomas de doenças específicas em consultas médicas para que lhe fossem receitados remédios específicos que ele começou a consumir. O resultado desse novo vício foram alterações súbitas de humor e surtos de agressividade que culminaram no fim de seu casamento.

Não tardou para que o inquieto Charlie arrumasse uma outra esposa, desta vez a socialite Brooke Mueller, instável e viciada, cujo comportamento logo leva Charlie à retornar para o consumo de drogas. Mais tumultos e escândalos se seguem, resultando em mais um divórcio. Curiosamente, a audiência de “Two And A Half Men” só faz crescer, e com ela o cacife de Charlie Sheen junto à Warner Bros. o que o leva, em sucessivas negociações para novas temporadas, a se tornar o ator mais bem pago da história da TV norte-americana!

Tanto dinheiro leva à ainda mais excessos, e Charlie acaba contratando um traficante de drogas particular (!!), que depois tornar-se seu grande amigo, e comparece até mesmo neste documentário (!!!), prestando um descontraído depoimento (!!!!).

No auge do seu vício e acarretando muitos transtornos para a produção da série, Charlie é retirado pelos produtores de “Two And A Half Men”, nessa época ele também se casa com a atriz pornô Brett Rossi (!!!) e, após divorciar-se dela, é diagnosticado HIV positivo.

O documentário mostra suas sucessivas apresentações nos EUA –algo como apresentações de stand-up sem ser stand-up... –nas quais Charlie insistia numa richa descabida com a Warner e os produtores que o demitiram. De qualquer forma, essas apresentações serviram para consolidar Charlie Sheen como uma espécie de ícone da atualidade, arrebanhando milhões de seguidores em redes sociais, e transformando-o numa celebridade cult, com direito a memes e citações na internet; inclusive de algumas entrevistas prestadas na época, das quais hoje Charlie admite sentir tremenda vergonha.

Essa via-crusis auto-destrutiva só não o engoliu por completo porque seu traficante pessoal (lembram dele?!), por ter se tornado seu grande amigo, resolveu um dia reduzir gradativamente o conteúdo de cocaína nas drogas que Charlie consumia (isso porque o próprio Charlie afirmou que, no que dependesse dele, ele não iria parar!). Assim, em cerca de um ano, o consumo já não o estava afetando, e ele se encontrou em condições de parar definitivamente.

Desconcertante pela forma extraordinariamente despoja com que seu personagem principal se presta à expor, comentar, admitir e a fornecer seu ponto de vista da maior parte das passagens que compuseram sua atribulada trajetória (só é omitida sua tentativa, não muito eficaz, de emplacar com a série “Tratamento de Choque”), e em breves instantes, tocante na evidência de um certo arrependimento com que Charlie admite ter desperdiçado muitos momentos importantes em família por causa de seus vícios, este documentário salienta a persona singular de um ator carismático, talentoso e incorrigível que conseguiu se tornar um personagem muito mais antológico e peculiar do que qualquer outro que interpretou. A contar até a gravação deste documentário, Charlie Sheen está limpo há oito anos.

sábado, 21 de outubro de 2023

Bobby


 Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático em 2006 –tendo perdido para “Babel” de Alejandro Gonzáles Iñarritu –“Bobby” é uma obra que reúne um elenco numeroso e respeitável, todos esses atores e atrizes dando vida a personagens periféricos em torno da figura maior, sobre a qual pairam as maiores reflexões que este trabalho almeja suscitar: O então candidato à presidência dos EUA, Bobby Kennedy, irmão do mesmo John F. Kennedy, morto à tiros em Dallas cinco anos antes, que, naqueles idos de 1968, era uma esperança para a América –os EUA começavam a enxergar com contestação a Guerra do Vietnam, e os conflitos raciais (o assassinato de Martin Luther King havia sido recente) geravam turbulência em todos os cantos do país. Idealista, jovem e carismático –e representante de uma estirpe política vista com ingênua adoração pelo povo americano –Bobby era um raro caso onde tinha a seu favor a simpatia de todas as classes sociais norte-americanas. Seus discursos enalteciam a união do povo, sua verve era inteligente, polida e esperançosa. Bobby, em suma, era a última esperança para os EUA que adentravam o período mais conturbado de sua História recente.

Todavia, Bobby Kennedy foi alvejado à tiros –um exemplo macabro que parecia repercutir, de alguma forma, a tragédia de seu irmão –ao sair de um discurso, em plena cozinha do Hotel Ambassador, onde foi para comemorar a vitória de sua candidatura para presidente, em eleições a serem disputadas contra Richard Nixon no ano seguinte. O filme surpreendentemente dirigido pelo ator Emilio Estevez (cujo pai, Martin Sheen, também se encontra no filme) não cede à tentação de escalar um ator para interpretar Bobby e converter este num recorte de suas últimas horas –ao invés disso, “Bobby” usa da tragédia notória deflagrada em seu cerne para observar os seres humanos que orbitavam Bobby  naquele momento, e quais teriam sido suas expectativas, e de que maneira seus futuros foram arremessados num turbilhão de perplexidade que, à sua maneira, resumiu o subconsciente norte-americano nas décadas seguintes.

A começar a trama naquele 6 de junho de 1968, temos o gerente do hotel, Paul (William H. Macy) ocupado em administrar todos os afazeres dos inúmeros funcionários para a recepção das comemorações do Partido Democrata, o que inclui a apresentação da cantora Virginia Fallon (Demi Moore) que traz à tira-colo seu marido Tim (o próprio diretor Emilio Estevez) e todos os problemas que seu alcoolismo vem acarretando ao seu casamento. De outro lado, há o porteiro John Casey (Anthony Hopkins), viúvo e aposentado, cuja solidão o leva a enxergar o Ambassador como seu segundo lar. Ele tem a ocasional companhia do igualmente desiludido e solitário Nelson (Harry Belafonte, de “O Diabo, A Carne e O Mundo”), junto de quem tece intermináveis conversas sobre o avanço da idade regadas à muito uísque. No staff de funcionários do Ambassador, o filme concebe um pequeno microcosmos da América: Na cozinha, regida pelo insensível Timmons (Christian Slater), o jovem imigrante José (Freddy Rodriguez, de “Garotas Sem Rumo”) se ressente da folga que lhe foi negada naquela noite, embora encontre relativo alento na serenidade contagiante do cozinheiro-chefe, Edward (Laurence Fishburne, extraordinário). No salão de beleza do lugar, a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) tem de se desdobrar enquanto atende os caprichos de Virginia Fallon ao mesmo tempo em que prepara a jovem noiva Diane (Lindsay Lohan), disposta a casar com o jovem William (Elijah Wood) para livrá-lo do compromisso com o exército, e ainda descobre um inesperado adultério de seu marido –o gerente Paul, à propósito –com uma das telefonistas do hotel (Heather Graham). Entre os hóspedes, o casal Jack (Martin Sheen) e Samantha (Helen Hunt) se vê às voltas com a compulsão de compras (dela) e um resíduo de depressão (dele) enquanto lidam com as expectativas ao seu redor. E, em meio às deliberações do Partido Democrata, cujos delegados se encontram no hotel, os jovens estagiários Jimmy (Shia LaBeouf) e Cooper (Brian Geraghty) escapam de suas responsabilidades para descobrir os efeitos do LSD junto do fornecedor de drogas local (uma ponta de Ashton Kutcher).

O roteiro, escrito pelo próprio Emilio Estevez, une personagens reais e (muitos) fictícios para elaborar uma espécie de afresco que ganharia muito mais propriedade nas mãos de um diretor como Robert Altman –na verdade, parece ser o trabalho e o estilo dele que, em muitos momentos, “Bobby” busca emular, sem no entanto escapar de uma ligeira superficialidade. Felizmente, Emilio Estevez soube escolher realmente um elenco primoroso para honrar seus vários personagens (os embates interpretativos entre Sharon Stone e Demi Moore e entre Anthony Hopkins e Harry Belafonte são particular sensacionais de se assistir) e sua mescla de trama real com ficção dramatúrgica –bem como as emendas documentais com o filme propriamente dito –são executadas com primor e profissionalismo inquestionáveis.

São acertos assim que tornam “Bobby” um filme válido, e ampliam de fato a percepção dramática presente na reflexão em torno da tragédia que se sucede no desfecho –já com um considerável distanciamento de tempo em relação aos eventos traumáticos para o povo americano que reconstitui, o filme de Emilio Estevez vislumbra, sem muito ratificar, as possibilidades perdidas, os sonhos devastados e a esperanças à mingua que acontecimentos como aquele legaram ao país. No final, sua pouca inclinação ao sutil acaba tem um saldo positivo: Apesar dos pesares, não é um filme que confronta o expectador com a desesperança e a tristeza inerentes à sua época.

Se fosse Robert Altman, o papo seria outro.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Conflitos Internos / Os Infiltrados


 Conflitos Internos

Extremamente prestigiado em Hong Kong, o diretor Andrew Lau é um hábil manejador de tramas prolixas, capaz de ressaltar suas arestas de originalidade em meio à gêneros e conceitos dos quais público e crítica tendem a subestimar.

Uma de suas obras mais aclamadas –pelo menos, no Oriente, onde obteve largo sucesso –“Conflitos Internos”, o qual ele co-dirigiu em colaboração com Alan Mak no ano de 2002, não somente é um brilhante thriller policial e, a sua maneira, uma evocação apaixonada dos meandros complexos e fascinantes com os quais Francis Ford Copolla forjou a mitologia de seu “O Poderoso Chefão” como também é o imprevisto estopim (até para seus realizadores!) de uma bem-sucedida trilogia.

Neste primeiro filme, testemunhamos, em meio ao submundo criminal de Hong Kong, as trajetórias de um criminoso e de um policial, interpretados por Andy Lau (não confundir com o diretor de quem ele é quase homônimo!) e Tony Leung, respectivamente, que em paralelo se infiltram entre seus próprios inimigos. Ambos acabam ganhando a confiança nas suas áreas. Ironicamente, o policial disfarçado de bandido torna-se um dos homens de confiança do chefe da quadrilha quando surge a suspeita de que há um espião entre eles. Ao mesmo tempo, o gangster infiltrado na polícia integra uma equipe justamente para descobrir quem está entregando informações aos bandidos. Pouco a pouco, os dois estão prestes a desmascarar um ao outro.

Andrew Lau e Alan Mak trabalham maravilhosamente bem a circunstância de suspense do filme, cuja impecável atmosfera nos faz desconfiar de cada movimento, de cada olhar mal-disfarçado; é um mundo de suspeitas onde ninguém pode confiar em ninguém, e cada ato parece supervisionado por inimigos ávidos por ter alguém a quem desmascarar.

Como em toda trama de intriga, Lau e Mak justapõem os antagonistas deixando bem clara a forma preocupante com que estão inseridos entre as fileiras inimigas –mas, somente isso fica cristalino; tudo o mais (alianças, motivações, lealdades) é deixado brilhantemente ambíguo, de forma a potencializar sua tensão, que acaba coroada com um final impiedoso do qual o viés shakesperiano embutido em sua premissa converge a um eco ensurdecedor.

O segundo filme da trilogia (realizado em decorrência de seu inesperado sucesso de público, visto que esta é, evidentemente, uma história planejada com começo, meio e fim) trata-se de uma espécie de prequel que esmiuça com mais detalhes o passado dos dois personagens principais, enquanto que o terceiro termina sendo, de fato, a continuação, mostrando os desdobramentos e consequências do desfecho do primeiro filme.


Os Infiltrados

Como costuma ocorrer a um filme estrangeiro de insuspeita qualidade a destacar-se entre as milhares de obras produzidas pelo mundo ano a ano, “Conflitos Internos” –ao menos, a primeira e, de certa forma, a segunda parte –acabou sendo refilmado em 2006. E não uma refilmagem qualquer: “Os Infiltrados” ganhou direção de ninguém menos que Martin Scorsese (recém-saído de seu suntuoso épico “O Aviador”) e foi estrelado por Leonardo Dicaprio ao lado de Matt Damon, o elenco conta ainda com Jack Nicholson numa de suas últimas participações num longa-metragem antes da aposentadoria.

A trama, ainda que roteirizada pelo conceituado William Monahan (de “Cruzada”), replica a de “Conflitos Internos” com constrangedora proximidade: Um policial (Dicaprio) infiltra-se na máfia de Massachussets, em Boston, enquanto paralelamente, um espião da máfia (Damon) é plantado na força policial. Os anos se passam e cada um dos respectivos infiltrados adquire confiança em sua corporação até a descoberta de que ambas as partes possuem um espião. A trama acompanha então a nervosa investigação (e consequente duelo) para que um consiga desmascarar o outro.

Como costuma acometer nas refilmagens promovidas pelos norte-americanos, a despeito da qualidade um tanto desafiadora do material que tentam refilmar, os realizadores se esforçam bastante para incrementar os elementos já presentes no filme original; e aqui, o roteiro de William Monahan é desonestamente astuto ao aproveitar muito da trama, não apenas do primeiro, como também do segundo filme: Ao valer-se do original e de sua prequel, os realizadores de “Infiltrados” têm a chance de moldar uma obra mais robusta, com mais elementos dramáticos a oferecer diante do enxuto “Conflitos Internos” –além da presença inédita do personagem de Mark Whalberg, inexistente no original, que acrescenta um elemento mais contundente ao desfecho, ainda que algo questionável –e, embora este seja de fato um filme menor dentro de sua formidável filmografia, um filme dirigido por Martin Scorsese ainda É dirigido por Martin Scorsese: A mitologia de toda a criminalidade de Boston concebida para o filme é rica e notável em seu detalhamento, e o diretor não somente equilibra atuações de forma a todos soarem impecáveis (Jack Nicholson, nitidamente substituindo uma presença que seria regularmente de Robert De Niro, não acaba roubando a cena de ninguém como inicialmente poderíamos presumir) como também evoca um sem-fim de referências cinematográficas vastas –que vão de cortes abruptos e imprevisíveis decalcados de Glauber Rocha à sutis manobras narrativas extraídas de antigos filmes noir –regendo o que pode ser chamada de uma sinfonia de violência e psicologia.

Ainda que tímido diante de tantas obras maiúsculas que Scorsese entregou antes e depois (e certamente inferior, mesmo que com todos os seus esforços, à produção original na qual foi inspirado) coube a este pequeno épico policial a honra de ser a produção pela qual Martin Scorsese finalmente recebeu seu Oscar de Melhor Diretor. Ele traz a fúria narrativa e a costumeira maestria que um mestre como Scorsese consegue criar, mas, não tenha dúvidas, é bastante simplório na comparação com muitos de seus trabalhos.

Em tempo, no ano de 2009, houve mais uma refilmagem de “Confiltos Internos”, desta vez, realizada na Coréia do Sul (uma indústria cinematográfica a qual nunca se deve subestimar), com o título inglês de “City of Dammation”, dirigida por Dong Won Kim e concebida numa variação –pasmém –de comédia!

quinta-feira, 14 de abril de 2022

A Hora da Zona Morta


 Interessante como a obra literária de Stephen King gera material que consegue se adequar às mais diferentes personalidades dos realizadores que se encarregam dela: Brian De Palma (“Carrie-A Estranha”), Stanley Kubrick (“O Iluminado”), Rob Reiner (“Conta Comigo” e “Louca Obsessão”). A lista é longa.

A esses nomes junta-se David Cronenberg com este notável “A Hora da Zona Morta”.

Como um tigre enjaulado, à toda hora o estlio de Cronenberg ruge, inquieto com as grades da trama comercial de suspense/terror a aprisionar sua indomada criatividade.

Sente-se isso em cena: A narrativa acompanha as nuances da trama sem jamais evitar a sensação desdenhosa de análise antropológica que seu diretor lhe impõe, vislumbrando a maldade humana –um tópico sempre ressaltado no trabalho de Stephen King –como mais uma deformidade, como tantas que ocupam o centro das reflexões de Cronenberg.

Após um acidente, o protagonista Johnny Smith (Christopher Walken), desperta de um período de anos de coma para o mundo real trazendo consigo um dom inesperado: Com um simples toque, ele é capaz de vislumbrar o futuro da pessoa. Como é inerente às suas premissas, não tarda a Stephen King transformar a dádiva em uma maldição: Johnny é confrontado com um dilema atroz ao tocar a mão de um candidato à congressista norte-americano (Martin Sheen); na sua palpável premonição, o candidato se torna presidente dos EUA e, com a autoridade de tal posto, acaba deflagrando a Terceira Guerra Mundial.

Se para King essa dúvida, brotada das vastas alternativas do fantástico, já é o cerne de todo o enredo, Cronenberg lhe atribui algo mais –o questionamento, muito humano e aterrador, ao redor da validade de tal profecia. Johnny é, afinal, um vidente, ou uma aberração, como tantas, é bom lembrar, que povoam a filmografia de Cronenberg desde que ele aventurou-se pelo cinema?

Como todo bom autor mais interessado na provocação do que na mera ação, Cronenberg reluta a fornecer tal resposta –na realidade, ele não a entrega de fato. Há, na convenção de um desfecho ameno e fiel ao livro, um elemento que reconforta plateias mais comerciais com o indício de uma resolução apetecível, mas Cronenberg, atrevido que só ele, nunca deixa que seja mais que isso mesmo, um indício.

Na certeza perene de sua visão amarga e transfiguradora das pulsões humanas, o diretor não dá a esta desigual transposição de Stephen King um viés que a reduza em uma trama de simplismos factuais e sobrenaturais. Em seu conceito pleno de camadas e complexidade, Cronenberg oferece uma reflexão bem mais ampla e profunda que envolve pontos de vista, psicopatia, tragédias injustificáveis e dúvidas insolúveis.

Nos anos 1980, distraídos com sua inércia inocente, os expectadores elegeram “A Hora da Zona Morta” como uma ótima adaptação de King e só, sem atentar para as nuances pertinentes que seu diretor muito sutilmente lhe soube incutir. Resta, portanto, aos expectadores da atualidade, a chance preciosa de rever esta obra e dela extrair os significados que antes possam ter escapado.

Eles permanecem todos lá –como em quase todas as obras de Cronenberg –a transtornar os mais atentos com uma visão fatalista, algo desesperançada, da condição humana e sua mal-disfarçada incapacidade para discernir (ou mesmo determinar o que é) o bem e o mal.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Gandhi


À título de curiosidade, no ano de 1993, Steven Spielberg realizou o sucesso de público “Jurassic Park” contando no elenco com Richard Attenborough, diretor de “Gandhi”, e logo em seguida, fez o sucesso, desta vez de crítica, “A Lista de Schindler” contando, por sua vez, com Ben Kingsley, ator principal de “Gandhi”, no elenco.

Embora tenha ganhado mais fama como ator –e ele próprio insistia que nunca teve maiores pretensões em ser diretor –Richard Attenborough assumiu a direção do projeto que almejava levar a vida de Mohatma Gandhi para as telas; um objetivo pessoal que Attenborough, como produtor, acalentava desde a década de 1960. Nos letreiros iniciais, o filme já esclarece que a vida de uma pessoa dificilmente pode ser resumida com exatidão e fidelidade num único filme, embora hajam intenções salutares de que nele seja preservado seu espírito. Se isso soa como uma prova da humildade genuína com que Attenborough abraçou a produção, pro outro lado, o escopo épico empregado –e manejado com muito brilho –sugere o oposto.

Após o prólogo que já mostra a morte de Gandhi, em 1948, por meio de um atentado contra sua vida, regressamos até 1893, quando, ainda um jovem advogado indiano em viagem pela África do Sul, Mohandas K. Gandhi (Kingsley, estupendo no papel) se depara com a segregação imposta ao seu povo no convívio degradante com os colonizadores ingleses.

Gandhi se rebela, sobretudo, contra a prática de distribuírem passes aos indivíduos indianos e, a predisposição revolucionária descoberta ali passa então a definir o homem que ele se torna, seja em esfera íntima ou política –Gandhi descobre uma nova forma de protesto, aquela na qual a violência como resposta à própria violência não é considerada.

Munido dessas ideias, ele cria uma comunidade ao regressar para a Índia, e inicia um longo e árdua caminho para obter a independência de seu país do jugo da Inglaterra, que inclui a paralisação ante as leis opressores inglesas e a abnegação perante a retaliação violenta por seus protestos.

Ele encoraja a povo a fabricar suas próprias roupas (ele próprio dá o exemplo vestindo-se como um mendigo com vestimentas de algodão confeccionadas por ele mesmo!) e a preparar seu próprio sal, interferindo no ciclo vicioso que levava o próprio povo indiano a reabastecer a economia dos colonizadores ingleses.

Num cinema que remete à David Lean (por sinal, um dos diretores cogitados para o trabalho antes do próprio Attenborough assumir), somos testemunhas da trajetória de vida de Gandhi –então já nomeado ‘Mohatma’, cujo significado é Grande Espírito –em conjugação com sua abrangente influência sobre o povo indiano, e o irônico e doloroso detalhe de que, ao pregar a não-violência, acabam sendo exatamente o inverso, muitos dos efeitos suscitados por suas escolhas.

Gandhi é mostrado fazendo jejum até os extremos da desnutrição para convencer seu povo dos reais objetivos pelos quais estão lutando –e não por uma mera revanche contra seus dominadores.

Quando finalmente obtém a tão sonhada independência da Índia, Gandhi se depara com outra celeuma: Os muçulmanos (majoritários no país) não aceitam os hindus, o que coloca a Índia à beira de uma guerra civil para que seja oficializado o território do Paquistão –e para convencer todos a cessar hostilidades, lá vai Gandhi fazer mais uma greve de fome (esta, quase fatal, uma vez que já estava em avançada idade) até que a paz se instaura-se completamente.

“Gandhi” levou oito Oscar na cerimônia de 1983, incluindo Melhor Diretor para Attenborough e Melhor Ator para Ben Kingsley (cuja carreira apesar do incomensurável talento, demorou até desvencilhar-se da sombra esmagadora deste grande trabalho). São três horas e dez minutos onde presenciamos as contundentes renúncias e escolhas de vida de um personagem singular na História da Humanidade, sobre quem Albert Einstein disse: “As gerações futuras custarão a acreditar que alguém como ele, em carne e osso, realmente existiu neste mundo.” 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Apocalypse Now Redux

Lançado no Festival de Cannes de 2001, durante o advento das ‘versões especiais do diretor’ de filmes em DVD, “Apocalypse Now Redux” representava um novo e diferenciado corte de Francis Ford Coppola em relação à sua obra-prima lançada em 1979.
O “Apocalypse Now” que todos conheciam, e que não tardou a converter-se numa marco fundamental do cinema, era um cópia bruta, despida de cenas que, segundo Coppola, acrescentavam novas camadas à trama; dessa forma, esta versão “Redux” era inusitadamente acrescida por quase uma hora de material inédito que, segundo o próprio Coppola, tinha o mérito de tornar mais ágil o material.
O filme que começa é o mesmo e magistral de sempre: Ao som apoteótico e apropriadamente dramático de “The End”, do The Doors, somos apresentados ao Capitão Willard (Martin Sheen) e às suas neuroses –no Vietnam, ele anseia por voltar para casa; quando em casa, ele sente falta da guerra.
Logo, ele recebe uma missão para ocupar sua mente transtornada: Deve subir um rio até adentrar o Camboja a bordo de um barco militar, infiltrado entre a tripulação, e uma vez lá eliminar o mítico Coronel Kurtz (Marlon Brando), um oficial extremamente graduado que enlouqueceu em regiões muito distantes da civilização, e lá montou um império particular.
As primeiras diferenças em relação ao filme original surgem logo após a espetacular cena do bombardeio ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, quando Willard (um personagem sem expressões de sarcasmo na outra versão) convence os soldados a roubarem a prancha de surf do megalomaníaco oficial interpretado por Robert Duvall. Na sequência, a cena do show das coelhinhas da Playboy ganha um formidável e aprofundado acréscimo quando Willard e os outros recrutas reencontram as garotas num acampamento militar decadente transformado praticamente em prostíbulo.
Contudo, o trecho que realmente justifica a existência desta versão “Redux” é mesmo o imenso bloco de quase uma hora de duração, lá pelo início do terço final, onde Willard encontra uma fazenda mantida por militares franceses em pleno Vietnam –cena apelidada pelo diretor de “Fantasmas de Buñuel” –onde os protagonistas encontram personagens aprisionados pela própria irredutibilidade de sua ideologia.
O interlúdio de Willard com a bela moradora do lugar (Aurore Clément, de “Paris, Texas”) introduz uma inesperada dose de erotismo na ópera bélica de Coppola.
Todo seu trecho final, entretanto, manteve-se intocado (prova de que realmente não havia como tornar melhor e mais antológica toda aquela passagem), quando Willard e o que sobrou de sua tripulação, triturados pela loucura, chegam ao extremo de não-civilização onde reina Kurtz, ameaçador e icônico como só um monstro como Marlon Brando seria capaz de interpretar.
Concebido como uma livre adaptação do livro “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad –transpondo da ambientação da África colonial do Século XIX para a Guerra do Vietnam –o filme de Coppola é uma surreal jornada de pesadelo filosófico, materializada após dois anos infernais de filmagens caóticas. A versão original e oficial até então conhecida era de uma perfeição e de um assombro que dificilmente uma nova releitura seria capaz de ombrear; e, de fato, “Redux” embora fascine por trazer novos adendos à uma narrativa tão hipnótica não consegue retocar o que já era irretocável –as cenas novas esticam consideravelmente a experiência afetando-lhe o ritmo, que na versão original transcorria com exatidão e fluidez.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Querida América - Cartas do Vietnam

No objetivo que normalmente almeja um documentário, o filme realizado por Bill Couturie é certeiro: Não tarda a provocar no expectador sentimentos de indignação, de perplexidade conforme dele vai se inteirando seu assunto principal, a Guerra do Vietnam.
A fonte que Couturie utiliza é de um frescor e uma sinceridade inquestionáveis: São as cartas enviadas por soldados americanos que serviram no Vietnam endereçadas às suas famílias.
Um elenco numeroso e espetacular de astros de Hollywood (Tom Berenger, Wilen Dafoe, Martin Sheen, Robert De Niro, Robert Downey Jr., Kathleen Turner, Michael J. Fox, John Savage, Sean Penn, Robin Williams e outros) garante a devida emotividade aos relatos que determinam, sozinhos, a narrativa do filme.
A montagem intercala de maneira linear e responsável os noticiários da época (rádio e TV), com filmagens ocasionais dos próprios recrutas no front, fotos e, próximo do fim, até mesmo sequências de um filme vietnamita.
O que vemos indiretamente é a progressão da guerra através das impressões subjetivas das pessoas comuns que participaram dela. A euforia de alguns recrutas pelo oportunidade de representar sua nação e visitar, com tão pouca idade, um país exótico. O assombro e as tentativas de adequação com a chegada no campo de batalha. A rotina militar que, a medida que o conflito se intensifica, logo se torna massacrante. O miasma de emoções vividos pelos soldados que alternam responsabilidade, medo de morrer, compaixão para com os colegas e avassaladora saudade de casa. As notícias que dão conta da postura do governo americano, irredutível  na gestão de Lyndon Johnson, incerta no período de eleições (que incluiu o assassinato de Bobby Kennedy), e pessimista com a vitória de Richard Nixon; esse evidente despreparo com a guerra logo gera um sentimento crescente de indignação no povo americano –sentimento este que as cartas só veem a enfatizar dando conta, neste ponto do filme, do mais absoluto horror da guerra, e da certeza amarga de que aqueles jovens (os sobreviventes, ao menos) voltarão transfigurados e dilacerados física e espiritualmente pela experiência.
Ao expor os fatos sem nenhuma encenação ou maquiagem, Bill Couturie oferece ao público um retrato ainda mais brutal, devastador e, apesar de tudo, fascinante da guerra do que muitos de seus registros ficcionais.

sábado, 13 de maio de 2017

O Espetacular Homem-Aranha

Houve uma perceptível intenção em deixar de lado a leveza adotada por Sam Raimi nos três filmes anteriores protagonizados por Tobey Maguire neste reinício da saga do famoso personagem da Marvel.
Adotando um enfoque mais austero (e em alguns aspectos, mais fiel aos quadrinhos), o diretor Marc Webb (que entregou um belíssimo trabalho em “500 Dias Com Ela”, o quê deve ter lhe abalizado para esta empreitada) constrói uma narrativa que não parece tão interessada no tom descontraído da Marvel (com humor onipresente), mas sim num clima mais sombrio e realista, remetendo à Christopher Nolan e sua reinvenção de “Batman”.
Nem sempre isso combina satisfatoriamente com o personagem do Homem-Aranha, mas até que este primeiro filme tinha alguns elementos interessantes para que o público não saísse indignado de dentro da sessão.
Retomando uma vez mais uma história de origem –mas, alterando um bocado os fatos, e dando muito mais ênfase no mistério em torno dos pais do protagonista –o filme acompanha os primeiros passos do herói.
O colegial Peter Parker (Andrew Garfield, esmerado ainda que mais afetado que Tobey Maguire) é orfão (perdeu os pais, Richard e Mary Parker, num nebuloso acidente e desde então vive com os tios Ben e May Parker), nerd (e como todos sofre nas mãos dos valentões da escola) e apaixonado pela bela colega Gwen Stacy (Emma Stone, disparado a melhor coisa do filme) –e sendo franzino e tímido não encontra coragem para abordá-la.
Suas investigações atrás de respostas sobre seu pai o levam até as Indústrias Oscorp, onde Peter é acidentalmente mordido por uma aranha geneticamente modificada, o quê mais tarde, lhe confere fabulosos poderes, por meio dos quais ele se tornará o vigilante mascarado conhecido como Homem-Aranha.
Provavelmente de forma involuntária, este novo filme lembra também uma outra produção a adaptar um personagem de Marvel –o desigual, curioso e incompreendido “Hulk”, de Ang Lee.
Como aquele trabalho, este daqui reinventa seu protagonista em excesso, atribui novas motivações, omite elementos que julga repetitivos, acrescenta outros que soam desnecessários (a insistente trama de mistério que envolve os pais do protagonista), e ousa manipular aspectos que envolvem a mecânica da gênese de seus poderes: Nada disso melhora o filme, pelo contrário, o afasta das características que tornam o personagem tão interessante.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Prenda - Me Se For Capaz

Um dos melhores trabalhos do diretor Steven Spielberg dos últimos anos, e rapidamente deixado de lado pelo público que dele prefere ver filmes de fantasia com profusão em efeitos especiais, este “Prenda-Me Se For Capaz”, lançado em 2002, e baseado numa espantosa história real, marcava a segunda colaboração de Spielberg com Tom Hanks (haveria ainda uma terceira, com “O Terminal”, em 2008, e uma quarta, com “Ponte de Espiões”, em 2014), depois de “O Resgate do Soldado Ryan”, de 1999.
O protagonista, contudo, é Leonardo Dicaprio que, com este trabalho, somado à colaboração com Martin Scorsese em “Gangs de Nova York”, no mesmo ano, começava finalmente a deixar o fantasma de “Titanic” para trás e construir a formidável carreira que acabou seguindo.
E Dicaprio realmente mostra-se perfeito para o papel principal deste filme: Um jovem que, em meados da década de 1960, descobre em seu talento nato para a farsa, um meio de escapulir à realidade massacrante e pessimista pela qual seu pai (Christopher Walken, formidável) foi tragado.
A sensacional trajetória de Frank W. Abagnale Jr. (nome do personagem de Dicaprio) encontra alguns aspectos na do próprio Spielberg –e explicam o que levou o diretor a assumir esse projeto: Ambos eram criativamente precoces, ambos usaram a imaginação para ascender profissionalmente (guardadas as devidas comparações, claro) e para contornar os desgostos da vida real, e ambos fizeram tudo o que fizeram motivados por uma inocência que impedia (especialmente Abagnale) que enxergassem qualquer erro nisso.
É óbvio que Spileberg colocou muitos traços de si mesmo e de seu trabalho no filme, fazendo dele esta obra deliciosa, que em muitos momentos parece ser uma ode à inventividade e à capacidade de sonhar e imaginar. E tão mais empolgante ela é, ao mostrar tudo o que Abagnale conseguiu fazer!
Antes mesmo de completar 18 anos, Frank Abagnale fugiu da casa dos pais que estavam para se divorciar, e habilmente disfarçou-se ao longo dos anos de piloto de avião, médico e advogado (!), disfarces estes que lhe proporcionavam mulheres maravilhosas, viagens espetaculares e muito dinheiro (que ele obtinha falsificando cheques). Essa vida de falsário logo chamou a atenção do FBI que colocou atrás dele um agente, Carl Hanraty (personagem que Tom Hanks interpreta com uma noção magnífica de timing cômico).
Ao recuperar uma leveza e um otimismo que andavam ausentes em seus últimos filmes, orientados por temas mais sombrios, Spielberg entrega um show de direção, e nos brinda com uma maravilhosa trilha sonora de John Williams, além do saboroso duelo de interpretações entre Leonardo Dicaprio e Tom Hanks (ambos fabulosos), mas possivelmente o grande (e imperceptível) truque que sua excelência como diretor consegue obter é uma singular suspensão moral, por meio da qual ele consegue fazer qualquer expectador relevar os inúmeros percalços ilícitos de seu protagonista e (apesar de tudo) torcer por ele.

domingo, 8 de novembro de 2015

Apocalypse Now

As selvas cambojanas ilustram bem o caráter pernicioso na alegoria de Coppola: Elas têm poder de contaminar a própria psiquê humana, e nela encontrar a corrosiva neurose que tanto parece lhe interessar. 
O diretor de “O Poderoso Chefão” foi buscar em Joseph Conrad, e seu “Hearts Of Darkness” a idéia para seu filme sobre a Guerra do Vietnam, e deixou refletidos e registrados na tela todos os percalços de dificuldades sobrehumanas que enfrentou para tornar seu delírio real: e tudo, absolutamente tudo, em “Apocalypse Now” é um delírio. Da acachapante técnica cinematográfica que seu diretor emprega para compor cenas de incontornável força (como o início irônico e carregado de significado ao som de The End, do The Doors), à detalhes subliminares que ganharão força conforme o filme for visto e revisto (os camarões estranhamente relacionados  à voz espectral de Marlon Brando que ecoa de um gravador durante a tensa cena do jantar; o sangue que escorre da mão de Martin Sheen em sua primeira aparição; as cartas de baralho do capitão surtado de Robert Duvall). 
Se há um filme no cinema que materializa a loucura e suas mais circunspectas implicações, é este daqui. E parece ser de uma exatidão inquestionável a forma com que Coppola relaciona a guerra (não apenas a do Vietnam, mas todas as guerras) à loucura. E tão poderosa é essa alegoria que ela remete a cenas de um pesadelo subconsciente, com ecos de um Inferno de Dante se fazendo ouvir em diversos e inacreditáveis momentos. Enumerar as seqüências mais memoráveis é um trabalho complicado e repleto de armadilhas (eles se sucedem tantos, um a um, que é preciso tomar cuidado para não acabar enumerando todas as cenas do filme): O ataque de helicópteros ao som da “Cavalgada das Valquírias”; a aparição inesperada de um trigre; o show das coelhinhas da Playboy; a cena aterradora de Martin Sheen emergindo do rio. 
Talvez, o momento primordial seja mesmo a aparição de Marlon Brando, onde o círculo se completa, com a revelação de uma loucura essencial e pura, partindo de um princípio próprio e pessoal de mundo, e não pautado pela guerra, como tudo que vínhamos vendo até então. Como tudo o mais, ele está errado. Mas é, por sua pequena noção de revolução, que ele será punido, e não por qualquer atrocidade que por ventura tenha praticado; isso o filme já vinha mostrando aos borbotões. 
Na visão a um só tempo cru e surreal de Francis Ford Coppola, a insanidade, a guerra e o genocídio são ecos indeléveis (e mesmo assim poéticos) de um mal que marca a existência perene da raça humana: Aquele que jaz em seus próprios corações.