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sexta-feira, 5 de março de 2021

Viagem A Darjeeling


 Uma vez mais voltando um olhar carinhoso ao exótico, o diretor e roteirista Wes Anderson emoldura este tragicômico drama familiar com as cores berrantes da cultura indiana onde ele ambientou sua trama numa manobra que em princípio parece aleatória.

No entanto, no aprofundamento dos conceitos de renascimento pessoal encontrados em sua premissa e na ideia universal de trajetórias individuais escritas pelas divindades a conectar os seres humanos podemos compreender então o quão deliberada é a relação que o diretor estabelece entre sua obra e a cultura que retrata.

Não que seu filme supere a barreira do elitismo que as vezes assola o cinema alternativo: Manhoso em suas expressões dramáticas e narrativas, “Viagem A Darjeeling” resulta numa das obras menos acessíveis de um diretor com grande pendor artístico, é verdade, mas cujos maiores méritos costumam ser a forma com que suas incursões no estranho e no absurdo cativam de imediato o expectador.

Não aqui: Separados por uma variedade de incompatibilidades pessoais, emocionais e triviais, três irmãos, Peter, Francis e Jack (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman, respectivamente) se veem, por uma série de casualidades, lado a lado numa viagem empreendida através da Índia, num trem, logo após deixarem uma cerimônia de casamento –prólogo revelado durante um flashback.

Cada um se vê martirizado por um fator diferente: Peter chafurda na futilidade em que se refugiou a fim de proteger-se da influência dos familiares; Francis reflete os transtornos de sua alma nos ferimentos físicos muitos reais que carrega (e que o levam a ostentar bandagens no cabeça durante todo o filme); e Jack não é capaz de sentir-se vivo se não houver, em seus discursos lamuriosos, uma mulher pela qual choramingar.

Nesse trajetória geográfica –e, portanto, física –esses três irmãos, três almas torturadas pelas próprias escolhas, irão perpetrar uma busca espiritual –e, portanto, metafísica –atrás da expiação de suas neuroses, o que os leva assim, ao reencontro carregado de expectativa e preenchimento, com a mãe, vivida por Anjelica Huston, em tese, a gênese indireta de todas as neuroses que exibem na vida adulta.

Diretor e roteirista, Wes Anderson vislumbra as fissuras emocionais de uma família disfuncional através de um filme deliberadamente desigual, onde as cenas obedecem bem menos à orientação de um melodrama convencional, e muito mais ao absurdo alegórico de um cinema alternativo feito de sarcasmo e linguagem avidamente simbólica.

Diferente de outros projetos seus, não foi desta vez que o talento de Anderson foi capaz de tornar adorável e envolvente uma mistura tão esquisita e improvável.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quem Quer Ser Um Milionário?

Quando se inicia o notável filme de Danny Boyle, Jamal (o eficiente Dev Patel), o jovem indiano crescido nas inóspitas favelas de Bombai, nem parece estar a alguns passos de se tornar um milionário no popular programa de perguntas e respostas na TV: Nós o vemos numa delegacia de polícia, amarrado ao teto pelos pulsos e sofrendo torturas por alguns relapsos policiais do lugar, a mando do inspetor (o grande Irffan Khan), titubeante quanto ao tratamento dado a ele, mas convicto de que deve encontrar ali a verdade.
Afinal de contas, ao longo de toda a sua participação no programa (descortinada pelos pontuais flashbacks que acompanham seu depoimento), Jamal demonstra um conhecimento que um "cão favelado" jamais teria, e por isso, sob suspeita de fraude, acaba duramente interrogado pela polícia.
Durante o interrogatório, ele relembra sua vida atribulada desde a infância pobre ao lado do irmão, Salim, que ao contrário dele aderiu ao crime, e de seu grande amor, a jovem e bela Latika (interpretada na fase adulta pela bela Freida Pinto). Encontrá-la, por sinal, é a grande razão pela qual Jamal está participando do programa.
Já se vê, então, nessa audaciosa estrutura um dos trunfos do qual se beneficia este trabalho eficiente, bem-acabado e divertido: Um roteiro inventivo, hábil em condensar as variadas e variantes facetas de sua trama em inteligentes idas e vindas no tempo, permitindo que a história se explique, se esclareça e se complemente de maneira envolvente para o público.
Inteiramente rodado na Índia com elenco local e amparado num estilo narrativo bastante referencial ao cinema realizado lá –a indústria cinematográfica local é conhecida como ‘Bollywood’ –este notável, e relevante vencedor do Oscar (oito estatuetas, inclusive Melhor Diretor e Melhor Filme em 2008) é uma oportunidade de conferir, com bastante evidência, o profissionalismo do versátil diretor Danny Boyle, embora ele já gozasse de considerável prestígio graças à obras de insuspeita qualidade como “Trainspotting-Sem Limites” ou “Sunshine-Alerta Solar”.
Ele assimila magnificamente as qualidades comerciais dos filmes realizados na Índia, onde as produções são notórias pelos gêneros artísticos que se alternam simultaneamente –o filme começa tenso, adquire ares de comédia e de aventura, oscila para o drama e o romance em diversos momentos, para se encerrar numa cena musical.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

As Aventuras de Pi

As produções que Ang Lee assume parecem ser desafios pessoais tamanha é a guinada narrativa, técnica e visual que normalmente representam quando comparados uns aos outros.
Se em sua primeira fase, em Taiwan, ele conquistou prestígio conduzindo ótimos dramas neo-realistas muito homogêneos entre si, depois que passou a trabalhar no Ocidente –com sua estréia sendo “Razão e Sensibilidade” –ele visitou as mais inesperadas e audaciosas propostas; incluindo aí também o seu magnífico épico de artes marciais falado em mandarim, “O Tigre e O Dragão”.
Nesse panorama –e certamente em meio à tão exuberante filmografia –o projeto de “As Aventuras de Pi” não chega a ser tão surpreendente, embora tenha cativado a crítica a ponto de Lee ganhar seu segundo Oscar de Melhor Diretor (o primeiro foi por “O Segredo de Brokeback Mountain”), embora ironicamente nenhum de seus trabalhos tenha levado o Oscar de Melhor Filme.
Aos seus quarenta e tantos anos, o indiano Piscine Molitor Patel (um inspiradíssimo Irrfan Khan) relata a um jovem escritor (Rafe Spall) uma história inacreditável ocorrida com ele aos seus quinze anos (então vivido pelo estreante Suraj Sharma): Quando sua família deixou a Índia rumo ao Canadá levando consigo os animais do zoológico que mantinham, o navio em que estavam afundou deixando o jovem Pi como único sobrevivente ao lado de Richard Parker, um ameaçador tigre de bengala (os companheiros iniciais dessa jornada, uma zebra, um rato, um orangotango e uma hiena logo sucumbem) à bordo da limitada embarcação de um bote salva-vidas.
Se Richard Parker acaba sendo para Pi uma preocupação a mais, ele também representa um incentivo poderoso para que ele queira sobreviver.
Durante essa tortuosa jornada em alto-mar, o garoto e o tigre experimentam inesperadas situações, narradas com distinção e exotismo pelo diretor Lee, a medida que constroem uma espécie de vínculo existencial.
A grande propriedade do trabalho de Ang Lee é o modo com que administra, para efeitos dramáticos, os muitos recursos de que dispõe para a construção desta sua aventura filosófica e alegórica: Realmente saltam aos olhos o refinamento dos efeitos visuais (vencedores do Oscar) e o emprego lúcido e inventivo dos efeitos 3D, ainda que o cinema americano tenha tantos grandes exemplares neste quesito que “Pi” corre o risco de logo ficar datado.
No que diz respeito à trama, uma sacada bastante interessante (mas, pouco aproveitada pelo roteiro) é a natureza dúbia dos relatos de Pi: No trecho final é levantada a possibilidade de outra história, mais trágica e verossímil, ter transcorrido e todo o enredo que envolve o tigre Richard Parker ser uma fuga criada por ele da triste realidade.
Mas, a narrativa de Lee não se permite essa divagação por muito tempo e torna a reiterar a trama que contou, valorizando os efeitos visuais, os atores indianos maravilhosos que conseguiu e a beleza etérea da jornada que narrou.
Faltou pouco para ser tão genial quanto outros de seus trabalhos.

sábado, 13 de maio de 2017

O Espetacular Homem-Aranha

Houve uma perceptível intenção em deixar de lado a leveza adotada por Sam Raimi nos três filmes anteriores protagonizados por Tobey Maguire neste reinício da saga do famoso personagem da Marvel.
Adotando um enfoque mais austero (e em alguns aspectos, mais fiel aos quadrinhos), o diretor Marc Webb (que entregou um belíssimo trabalho em “500 Dias Com Ela”, o quê deve ter lhe abalizado para esta empreitada) constrói uma narrativa que não parece tão interessada no tom descontraído da Marvel (com humor onipresente), mas sim num clima mais sombrio e realista, remetendo à Christopher Nolan e sua reinvenção de “Batman”.
Nem sempre isso combina satisfatoriamente com o personagem do Homem-Aranha, mas até que este primeiro filme tinha alguns elementos interessantes para que o público não saísse indignado de dentro da sessão.
Retomando uma vez mais uma história de origem –mas, alterando um bocado os fatos, e dando muito mais ênfase no mistério em torno dos pais do protagonista –o filme acompanha os primeiros passos do herói.
O colegial Peter Parker (Andrew Garfield, esmerado ainda que mais afetado que Tobey Maguire) é orfão (perdeu os pais, Richard e Mary Parker, num nebuloso acidente e desde então vive com os tios Ben e May Parker), nerd (e como todos sofre nas mãos dos valentões da escola) e apaixonado pela bela colega Gwen Stacy (Emma Stone, disparado a melhor coisa do filme) –e sendo franzino e tímido não encontra coragem para abordá-la.
Suas investigações atrás de respostas sobre seu pai o levam até as Indústrias Oscorp, onde Peter é acidentalmente mordido por uma aranha geneticamente modificada, o quê mais tarde, lhe confere fabulosos poderes, por meio dos quais ele se tornará o vigilante mascarado conhecido como Homem-Aranha.
Provavelmente de forma involuntária, este novo filme lembra também uma outra produção a adaptar um personagem de Marvel –o desigual, curioso e incompreendido “Hulk”, de Ang Lee.
Como aquele trabalho, este daqui reinventa seu protagonista em excesso, atribui novas motivações, omite elementos que julga repetitivos, acrescenta outros que soam desnecessários (a insistente trama de mistério que envolve os pais do protagonista), e ousa manipular aspectos que envolvem a mecânica da gênese de seus poderes: Nada disso melhora o filme, pelo contrário, o afasta das características que tornam o personagem tão interessante.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Inferno

O escritor Dan Brown criou uma fórmula, e dela se valeu para construir seus sucessos. Uma trama de suspense, tão rocambolesca que flerta com o inverossímil. Um repertório bastante interessante e francamente admirável de elementos históricos pesquisados a fundo e tão entranhados na trama mirabolante que fica difícil discernir o que é invenção fictícia do autor e o que é fato espantoso.
E seu protagonista: O cuidadosamente descuidado especialista em simbologia (e especialista em atrair para si os mais inacreditáveis apuros!) professor Robert Langdom –interpretado, em todos os três filmes até aqui, com tranqüilidade até excessiva por Tom Hanks.
A história de “Inferno” (na ordem de livros estrelados por Lagdom, diferente dos filmes, este já é o quarto), a fim de oferecer um ligeiro diferencial na trama –nas quais basicamente, Langdom é sempre recrutado para usar seus dons privilegiados de decifrador de símbolos para achar pistas ocultas nas mais diversas obras da antiguidade –começa quando Langdom concorda em um hospital, com um ferimento na cabeça e a memória toda embaralhada.
Suas roupas estão ensangüentadas e, embora se recorde de estar nos EUA, ele se encontra em Florença, na Itália.
A única pessoa que parece oferecer-lhe auxílio é a jovem médica que o atendeu, Dra. Sienna Brooks (a linda Felicity Jones, de “Rogue One”, tão no piloto automático quanto Tom Hanks) e, tal e qual todas as jovens bonitas dos outros filmes, ela passará quase toda a duração deste correndo alucinadamente ao lado do personagem de Hanks.
Como de praxe, há personagens ainda nebulosos e de intenções misteriosas no encalço de Langdom (são eles, o talentoso francês Omar Sy, de “Intocáveis”, a dinamarquesa  Sidse Babett Knudsen, e o indiano Irrfan Khan, talvez a melhor presença do elenco).
Como é mais de praxe ainda, ele logo estará decifrando uma série de enigmas cuja solução faz repousar sobre seus ombros –e dele fazer, afinal, o herói da história –a responsabilidade de salvar assim, milhares de vidas.
Regendo todos esses elementos que, somados e intensificados gradativamente ao longo dos cento e vinte e dois minutos de filme viram quase um samba do crioulo doido (!), está o oscilante diretor Ron Howard, um veterano que ora faz trabalhos de insuspeita maestria (caso de “Apollo 13”, com o próprio Hanks, “Uma Mente Brilhante”, “Frost/Nixon” ou “Rush-No Limite da Emoção”), ora realiza produções nas quais perde a mão, exagerando em vários quesitos (caso de “No Coração do Mar”, “O Código Da Vinci” e todas as suas seqüências até este daqui).
Howard adapta com relativa fidelidade a obra de Dan Brown, mas esquece de preservar o elemento que a faz antológica: Não é soma de todas as melindrosas peças de seu intrincado quebra-cabeça (cujo excesso de detalhes, já no terço final do filme começa a cansar e a irritar o expectador), mas na verdade o clima de deliciosa furtividade que ele obtém desta e daquela cena, sucessivamente, por meio das quais a trama vai avançando. Em prol de encapsular o máximo possível do livro, Howard sacrifica esses pequenos momentos inspirados e termina com um todo formulaico, apressado e esquizofrênico.
Alfred Hitchcock, em suas brilhantes obras de antigamente, soube fazer muito, muito melhor.

domingo, 26 de julho de 2015

Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros

Assistir um filme é uma questão de circunstância. Melhor, GOSTAR (ou conforme o caso até ODIAR) é uma questão de circunstância. Já me vi em situações em que detestei um filme que todos amavam e diziam ser excelente (como "Além da Linha Vermelha" ou "Dogville") ou acabei adorando um filme que todos diziam ser ruim (como o sueco "Guerreiro Silencioso").
Talvez, esse não seja o caso de "Jurassic World", já que o filme parece estar agradando a muita gente -esta semana entrou para terceira posição entre as maiores bilheterias de todos os tempos (!!!).
Mas, muitos amigos meus disseram que era um filme ruim, que não gostaram, e que provavelmente, eu não iria gostar. Assim, foi com a expectativa baixíssima -mais um sentimento de adoração em relação ao original de Steven Spielberg -que eu fui ver o filme numa de suas últimas sensações antes de sair de cartaz.
E, olha... ouso dizer que até me diverti bastante!
Não é um filme perfeito. Não é, nem por um decreto, o melhor blockbuster do ano (honra que por enquanto parece estar sendo disputada apenas por "Mad Max-Estrada da Fúria" e "Homem-Formiga"). E, certamente, não é melhor que o "Jurassic Park", de Spielberg, que inacreditavelmente foi feito lá atrás, em 1993, e permanece insuperável! E o próprio filme parece saber disso...
As suas referências ao trabalho de Spielberg (aqui como produtor executivo) são inúmeras e até emocionantes, como a aplicação sensata e nostálgica da bela trilha sonora de John Willians, incrivelmente desperdiçada nas duas inferiores continuações; ou a "participação especial" de pequenos objetos de cena, tais como a camisa vintage de um dos funcionários, o capacete de visão noturna e o jipe antigo que surge numa cena.
São detalhes interessantes, mas que no fim não determinam se o filme é bom ou ruim. O que o faz é o trabalho do diretor, e aqui Colin Trevorrow, se não é genial, ao menos, faz tudo com bom senso: acrescenta ritmo à narrativa, enxuga, na medida do possível, todas gorduras do roteiro, e utiliza muito bem a câmera para que a generosa produção apareça esplendidamente na tela.
É um filme para ser visto no cinema. Daqueles que, muito possivelmente, quando eu rever em DVD, perceberei que não era tão empolgante assim.
Enfim, como eu falei: Assistir filmes é uma questão de circunstância.