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sábado, 29 de agosto de 2026

Stanley Kubrick - Imagens de Uma Vida


 A partir de depoimentos colhidos por Jan Harlan (cunhado de Stanley Kubrick e produtor da maioria de seus filmes), este documentário narrado por Tom Cruise (que se tornou amigo pessoal do diretor após trabalhar com ele em “De Olhos Bem Fechados”) e lançado apropriadamente no ano 2001 busca lançar luz sobre sua carreira, pontuada de absolutas obras-primas cinematográficas, sobre o curioso e excêntrico processo de criação que ele adotava e –talvez, sua intenção mais difícil e inédita –esclarecer quem era, afinal, o ser humano Stanley Kubrick, por trás de um repertório famoso de manias e de inúmeras lendas que davam conta de alguém perfeccionista, complicado e de um comportamento frequentemente desigual.

A irmã de Jan Harlan, Catherine foi atriz no filme “Glória Feita de Sangue” – ela é a mocinha que canta na emblemática e marcante sequência final – foi quando conheceu Kubrick, diretor daquele projeto, e com ele casou-se logo depois.

Stanley Kubrick realizou treze longa-metragens para o cinema, pelo menos sete deles (ou até mais!) podem ser colocados, por muitos especialistas, entre alguns dos maiores trabalhos do cinema. “Imagens de Uma Vida” lança um olhar sobre cada um deles valendo-se de um rico arquivo de imagens e filmagens, além de depoimentos, curiosidades técnicas, críticas da época dos lançamentos – o que nos permite entender, inclusive, a repercussão que as obras, e o próprio nome Stanley Kubrick, causaram entre público e crítica.

Nascido em Nova York, no Brooklyn, no ano de 1928, Kubrick foi um aluno indisposto com o sistema educacional – não gostava de frequentar a escola. Seu hobby favorito era estudar fotografia, uma paixão herdada do pai, Jacob Leonard. Como fotógrafo, ele trabalhou para a revista “Look”, até que, no final da década de 1940, passou a produzir curta-metragens.

Seu primeiro longa-metragem foi o drama de guerra “Fear and Desire”, logo sucedido por “A Morte Passou Por Perto” e “O Grande Golpe”, realizações que já revelavam um autor rigoroso, inovador e extremamente metódico.

Em 1959, Kubrick foi convidado pelo astro e produtor Kirk Douglas (com quem Kubrick havia trabalhado em “Glória Feita de Sangue”) para substituir o então diretor do épico em produção “Spartacus”, com quem Douglas estava descontente – não é nunca mencionado, mas o diretor que Kubrick substituiu foi o renomado Anthony Mann, realizador de “O Homem do Oeste”.

Foi a partir das experiências em “Spartacus” que Kubrick decidiu jamais atuar como diretor contratado novamente, preservando sempre sua liberdade criativa e o controle total sobre seus projetos.

Nessa esteira vieram obras como “Lolita”, “Dr. Fantástico” e os seminais “2001-Uma Odisséia No Espaço” e “Laranja Mecânica”, entre outros – com o intervalo de tempo entre seus projetos aumentando cada vez mais, e os rumores sobre suas excentricidades e seu notório perfeccionismo crescendo exponencialmente!

O documentário conta com depoimentos de figuras fundamentais ao cinema como Steven Spielberg (amigo pessoal de Kubrick que dirigiu em tom de homenagem seu projeto não-finalizado “A.I. Inteligência Artificial”), Martin Scorsese, Woody Allen, Nicole Kidman, Sidney Pollack (os dois últimos tendo trabalhado com Kubrick em “De Olhos Bem Fechados”), Shelley Duvall (que passou poucas e boas nas mãos de Kubrick durante as filmagens de “O Iluminado”) e o  próprio Tom Cruise, além de outros profissionais, familiares e amigos. Todos buscam criar um perfil desse realizador icônico, recluso, indomável, controverso e, ainda assim, autor de algumas das maiores obras-primas cinematográficas.

Stanley Kubrick faleceu aos 70 anos, em 1999, após terminar o primeiro corte da edição de “De Olhos Bem Fechados”, seu último trabalho – este documentário, obrigatório para estudiosos de cinema, é um tributo ao seu gênio inquieto, à sua personalidade intransigente e incomum que moldou algumas das mais inesquecíveis imagens já concebidas para a Sétima Arte.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D


 Em 1977, o diretor Steven Spielberg lançou o filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, uma obra que sob muitos aspectos define sua carreira – as inquietações acerca da existência de vida extraterrestre são tópicos que Spielberg jamais foi capaz de deixar de lado, levando à produções como "E.T. O Extraterrestre” e outras que indiretamente abordavam tal tema. O ponto fora da curva pode ser considerado “Guerra dos Mundos”, no qual Spielberg faz nada mais que um pastiche cinematograficamente requintado de “Independence Day” – isso porque Spielberg sempre enxergou de uma maneira esperançosa a possibilidade de co-existência entre humanos e alienígenas.

Agora, do alto de uma carreira de 50 anos, Spielberg volta a focar suas lentes sobre o tema, numa obra que resgata toda a dúvida insolúvel e o interesse instigante que o levaram até “Contatos Imediatos...” – este “Dia D” é, em si, uma obra que traz Spielberg se reencontrando consigo mesmo, revendo tópicos que sempre lhe foram tão caros ao seu cinema, à luz de uma imponderável modernidade, resvalando em teorias da conspiração que soariam alarmantes nas mãos de outros realizadores, e provando, uma vez mais, o cineasta sem par que ele é.

A trama – concebida pelo roteirista David Koepp, a partir de um argumento do próprio Spielberg – se inicia audaz, sem tempo para tomar o fôlego: Daniel Kellner (o carismático Josh O’Connor, de “Rivais”) já está em fuga. Ao que parece ele roubou arquivos importantes de uma agência ultrasecreta governamental (isso e outra coisa, ainda mais importante e inconcebível!). Tal agência, denominada Wardex, sequestrou sua namorada Jane (Eve Hewson, filha de Bono Vox, o vocalista do “U2”) e agora exigem uma troca ocorrida nas dependências de um ring de luta livre lotado – e é nessas circunstâncias, com todo o intrincado enredo já em curso, que o filme começa.

Paralelo à trajetória de fuga de Daniel e Eve – na qual tentam à todo custo escapar da Wardex, controlada com mão de ferro pelo implacável Noah Scanlon (Colin Firth, sempre fantástico) – vemos também a história de Margaret Fairchild (Emily Blunt, magnífica), garota do tempo de uma emissora de TV em Kansas City que, certo dia, sem a menor explicação, começa a falar numa língua extraterrestre em pleno noticiário matutino, ao vivo!

O caso chama a atenção da Wardex que, tal e qual o fazem com Daniel, almejam agora encontrar e capturar Margaret à todo custo, enquanto um certo Dr. Hugo Wakefield (o ótimo Colman Domingo) procura estar um passo à frente de Scanlon e sua tentacular agência, a fim de driblá-los e fazer aquilo que eles tentam evitar há décadas: Revelar ao público toda a verdade.

Assim como em “Contatos Imediatos...” – cujo plot, de um ponto em diante, centralizava sua atenção no encontro iminente entre os protagonistas Roy e Jillian – em “Dia D” somos conduzidos por Spielberg na expectativa de testemunhar Daniel e Margaret se encontrarem, e descobrir o que, a partir daí, acontecerá.

Não restam dúvidas de que há muito de Spielberg em “Dia D” – não apenas o foco central no tema dos extraterrestres e da incomensurável mudança que a sua revelação causaria no mundo e nos rumos da Humanidade perpassa toda sua filmografia, como também as pertinentes referências à Segunda Guerra Mundial (o próprio título em alusão ao Dia D, na Normandia; a iminência da Terceira Guerra Mundial servindo como um pano de fundo político aos acontecimentos), a gênese de todos os mais profundos questionamentos encontrada nas memórias de infância (como é o caso dos dois protagonistas), e a própria insistência na intervenção irredutível de uma influente figura paterna (que aqui são duas, o autoritário ainda que munido de supostas boas intenções Scanlon, de Colin Firth, e o manipulador, ainda que bondoso, Wakefield, de Colman Domingo, dois atores que, diga-se, sob a direção de Spielberg, brilham como nunca).

No panorama do cinema comercial mundial, “Dia D” é uma realização distinta e exótica como só um diretor de predicados hiperlativos como Steven Spielberg seria capaz de elaborar: É inteligente, complexo, desafiador, fala da correlação entre a crença em vida extraterrestre e a transformação subsequente de paradigmas religiosos, leva a ficção científica  a um patamar que pouquíssimos filmes sobre o tema alienígenas foram capazes de chegar e tudo isso numa produção suntuosa, tecnicamente refinada com todos os aparatos que só o melhor de Hollywood pode proporcionar e mesmo tocando em temas como o acobertamento do governo acerca de assuntos delicados, surge audaciosamente em meio à blockbusters no período mais disputado do ano nos cinemas.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Hamnet - A Vida Antes de Hamlet


 A diretora Chloe Zhao pode até ter ganhado o Oscar de Melhor Filme por “Nomadland” –e depois debutado na Marvel Studios com “Eternos” –mas, seu melhor trabalho até então é certamente “Hamnet”, uma obra orgânica, intimista e introspectiva que se atreve a tecer um recorte da vida do bardo William Shakespeare sem, no entanto, fazer dele o centro da narrativa: É sua esposa, Agnes (interpretada pela estupenda Jesse Buckley), quem assume o protagonismo e o cerne da questão que o filme procura esmiuçar.

Primeiramente, haverão aqueles expectadores que irão tentar estabelecer uma relação entre os eventos deste filme e aqueles mostrados no vencedor do Oscar, “Shakespeare Apaixonado” –e essa relação até pode, sim, ser estabelecida ainda que estejamos falando de filmes completamente diferentes entre si (o outro era uma comédia romântica de época; este aqui, um drama adulto e contundente), de grandezas diferentes (embora “Shakespeare Apaixonado” tenha ganhado o Oscar, ele é, hoje, nitidamente um filme bobo e superficial; enquanto que este “Hamnet” é uma obra refinada de cinema) e que, em igual medida, empregam licenças poéticas oriundas da ficção para o melhor manejo do resultado final.

A camponesa Agnes –o nome original da esposa de Shakespeare era Anne Hathaway, modificado nesta adaptação do livro de Maggie O’ Farrell para não confundir o público devido à atriz homônima, estrela de “O Diabo Veste Pradatem, assim como a mãe, fama de ser uma feiticeira no pequeno e longínquo vilarejo inglês de Stratford onde mora. Daí sua disposição é ficar sempre na floresta, imersa na vida selvagem a treinar seu falcão adestrado. Ela, no entanto, desperta o interesse de William (Paul Mescal, brilhante), o professor de latim do lugar, exercendo tal profissão por conta de uma dívida contraída do pai.

Apesar de alguma resistência inicial, Agnes e William se casam e ela não tarda a engravidar, dando à luz à uma menina, Suzanna. Com esposa e filha para sustentar (sem falar que, na sequência, a própria Agnes volta a engravidar!), William decide seguir seus planos mais ambiciosos e rumar para a capital, Londres, onde almeja se lançar como dramaturgo nos teatros locais –e é, talvez, neste ponto da narrativa que o recorte do improvável “Shakespeare Apaixonado” possa ser justaposto na trama.

Com William indo e voltando para Londres ao longo dos anos, Agnes dá à luz aos gêmeos Hamnet e Judith e, devido a um sonho que teve com a falecida mãe (no qual ela apontava que o mais frágil de seus dois filhos seria então tirado dela), e ao exaspero de ver a menina quase morrer durante o parto, passa a crer que é de Judith quem deverá sempre cuidar, temerosa de que o mau presságio se concretize. De fato, é Judith (vivida por Olivia Lynes) quando já contam cerca de onze anos, quem pega peste bubônica e adoece. O menino Hamnet (interpretado pelo cativante e comovente Jacob Jupe), porém, oferece a própria vida em lugar da irmã quando, numa manhã, acredita ter visto o Anjo da Morte a espreita-la.

Assim, Judith se recupera e é Hamnet quem acaba adoecendo. Contudo, diferente da irmã, mal há tempo para que Agnes comece a preparar suas infusões com ervas e Hamnet, em agonia, morre.

É, portanto, sobre esse luto inapelável, inegociável e incontornável de pai e (sobretudo) mãe que se debruça todo o drama discorrido no primoroso filme de Chloe Zhao. A diretora não se deixa deslumbrar pela magnífica reconstituição de época concebida pela produção, nem pelos recursos técnicos bem mais requintados à sua disposição (a produção, afinal, é assinada por ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg): “Hamnet” centra as atenções de suas lentes nos percalços íntimos de duas pessoas levadas ao limiar de uma tragédia, e na formidável atuação da atriz em seu centro –no papel de Agnes, Jesse Buckley simplesmente leva o público com ela, a flutuar entre emoções intensas que ela consegue tornar intercambiáveis entre ela própria e o expectador.

Da comiseração extrema de seu luto, William Shakespeare haverá de criar um de seus mais ressonantes e aclamados trabalhos, a peça “Hamlet”, encenada no trecho final do filme: Uma sequência de crueza, poesia e dramaticidade sem par em todo o ano de 2025 que passou, na qual o filme de Chloe Zhao consegue operar alguns milagres, como fazer com que monólogos conhecidos e ditos à exaustão num sem-fim de outras obras (“Ser ou não ser. Eis a questão.”) soem como se fossem inéditos, inesperados e subitamente tocantes, e nos conduzir, como público, ao ápice de uma catarse existencial e de uma redenção por meio da arte. Uma das grandes cenas do ano, quiçá uma das grandes cenas do cinema no Século XXI.

sábado, 30 de agosto de 2025

Tubarão - Por Trás de Um Clássico


 Dirigido por Laurent Bouzereau, este documentário comemora o aniversário de 50 anos da obra-prima “Tubarão”, de Steven Spielberg, esmiuçando passo à passo a criação deste filme lendário que marcou profundamente a cultura pop, contando com imagens de arquivo, bastidores e depoimentos.

É o próprio Steven Spielberg quem dá início ao filme, revelando que “Tubarão” representou um divisor de águas em sua carreira: Com um início ativo na TV, Spielberg já havia dirigido episódios de séries, feito o longa-metragem televisivo “Encurralado”, tão bom que chegou a ser exibido em salas de cinema (como atesta o fã Guillermo Del Todo), e estreado no cinema com o drama “Louca Escapada”. Seu projeto seguinte, portanto, definiria a percepção que o público, a crítica e a indústria teriam dele como cineasta dali para frente.

E quis o destino que esse projeto fosse “Tubarão”.

Escrito pelo romacista Peter Benchley, inspirado em ideias nascidas de suas experiências litorâneas e do documentário sobre vida marinha “Morte Branca em Água Azul”, o livro “Tubarão”, com sua mistura de suspense, informação e ambientação pouco usual, havia se tornado um sucesso editorial, despertando o interesse dos produtores Richard D. Zanuck e David Brown que logo compraram os direitos de adaptação. Foi o próprio Spielberg, então com 26 anos, quem ofereceu-se para dirigir o filme.

As locações escolhidas, a fim de recriar o ambiente muito pitoresco da cidadezinha fictícia de Amity, foram na cidade costeira de Martha’s Vineyard, em Massachusetts, e a pré-produção foi iniciada a partir do momento em que o designer de efeitos práticos Joe Alves junto de sua esmerada equipe deram início à construção do tubarão –uma criatura animatrônica de 8 metros de extensão, mais tarde, batizada por Spielberg de ‘Bruce’ em alusão ao nome de seu advogado!

Os principais nomes escalados para os protagonistas foram Roy Scheider, Robert Shaw e um jovem Richard Dreyfuss –fora outros cinco nomes hollywodianos, aqui e ali, do elenco coadjuvante (tais como Lorraine Garry, Murray Hamilton e Susan Blacklinie, a mocinha presente na impactante sequência de abertura), todos os demais personagens e participações foram deliberadamente escolhidos por Spielberg entre as pessoas da própria comunidade de Martha’s Vineyard, a fim de garantir a maior autenticidade regional possível.

“Tubarão” teve suas filmagens iniciadas sem um roteiro integralmente definido –havia certa indecisão dos produtores e do diretor quanto aos elementos que deveriam ser removidos do livro, como um romance (que julgavam desnecessário) e os aspectos pontuais –e esse foi só o primeiro dos inúmeros contratempos: Quando chegou a hora de usar o tubarão Bruce, cujo aspecto artesanal recriava magnificamente um tubarão-branco real, a equipe se deu conta de que haviam construído um animatrônico para funcionar em água doce; na água salgada, ele apresentava mau-funcionamento uma vez que a salubridade comprometia o equipamento eletrônico –isso levou o diretor Spielberg a valer-se de criatividade, sugerindo a presença da criatura através de inúmeros truques de cena inspirados na linguagem de suspense do mestre Alfred Hitchcock. Também outros acidentes são relatados, como o afundamento de um dos barcos da produção, a bordo do qual estavam câmeras, a equipe técnica, o diretor e toda a aparelhagem de som.

É, porém, na bem-humorada implicância dos atores Robert Shaw (falecido em 1978) e Richard Dreyfuss que alguns dos depoimentos mais se detêm. Representando personagens antagônicos, os dois intérpretes, um veterano e calejado, outro jovem e ávido, levaram parte desse antagonismo para a realidade, fazendo com que o diretor Spielberg a criasse subterfúgios com os quais improvisava cena após cena a fim de capturar o realismo daquela dinâmica. Fruto desse processo é a cena da qual, segundo Spielberg, ele mais se orgulha em todo o filme: O momento em que os três protagonistas estão dentro da cabine do barco, à noite, compartilhando experiências. O monólogo maravilhoso perpetrado por Robert Shaw (onde é incluído na narrativa o precedente real do fatídico ocorrido com os marinheiros americanos do U.S.S. Indianápolis, durante a Segunda Guerra Mundial) foi acrescentado de última hora no filme pelo co-roteirista Carl Gottlieb e depois lapidado, na noite anterior à filmagem, pelo próprio Robert Shaw (ele mesmo, um escritor e dramaturgo já renomado).

É contado que, nos meses de sua realização, em função das alardeadas complicações nos bastidores, o cronograma de “Tubarão” estourou, levando Spielberg e sua equipe a experimentar um pesadelo –muitos foram aqueles que chegaram a afirmar para Spielberg que aquele filme arruinaria sua carreira.

Já durante a pós-produção, após finalmente ser concluída uma filmagem que parecia interminável, o músico John Williams (colaborador de Spielberg desde “Louca Escapada”) revela ter se inspirado nos acordes de Bernard Herman para “Psicose” a fim de criar a icônica trilha sonora de “Tubarão”, sem sombra de dúvidas, uma das mais marcantes do cinema.

Quando aportou nos cinemas em 1975, “Tubarão” recompensou o empenho e o talento de Spielberg quando tornou-se o primeiro blockbuster da era moderna –as filas de cinema contornavam quarteirões, dando origem a um fenômeno de bilheteria que teria continuidade dois anos depois com “Star Wars”, de George Lucas. Indicado ao Oscar de Melhor Filme (perdendo para “Um Estranho No Ninho”) e vencendo os de Melhor Trilha Sonora, Melhor Som e Melhor Montagem, “Tubarão” deu a Spielberg o status de autor cinematográfico com o qual, a partir dali, foi capaz de decidir o corte final de cada uma de suas obras (a começar por seu projeto seguinte, o personalíssimo “Contatos Imediatos do 3º Grau”). A influência e admiração irrestritas que a obra desperta são perceptíveis nos depoimentos de diretores como James Cameron, Steve Sodenberg e J.J. Abrahams, e de colegas próximos de Spielberg, como George Lucas, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e John Milius.

Num misto de nostalgia e alívio, Spielberg relembra os apuros que passou durante a realização de “Tubarão”, e as impressões traumáticas que continuaram acompanhando-o por muitos anos depois, a despeito do avassalador sucesso que o filme lhe proporcionou, ajudando a convertê-lo num dos maiores diretores de cinema de todos os tempos.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Por Que Odiamos?


 Durante a produção de “Amor Sublime Amor”, o diretor Steven Spielberg se deparou com uma inevitável reflexão em torno do tema que norteava sua obra, o filme de 1961 que ele refilmava, e a peça teatral da qual era adaptado: A intolerância.

É a intolerância, mais do que qualquer outra coisa, o combustível que alimenta as tragédias do ser humano, e que, à sua maneira, está presente nas mais diversas expressões humanistas do trabalho de Spielberg. Ao se dar conta de que “Amor Sublime Amor” era um filme sobre intolerância, mais do que sobre amor, Spielberg decidiu ir mais a fundo, e produziu esta brilhante série documental pela Discovery –dividida em seis primorosos episódios –que se presta a mergulhar nos mais diversos mecanismos (históricos, sociais, comportamentais, científicos) que levam um ser humano a antagonizar seu semelhante. Não é um documentário simples, no sentido de que, não exige, em dado momento, nervos de aço do expectador –como é anunciado no início de cada capítulo, a obra não se exime de mostrar cenas atrozes, de conflito, violência e barbárie, para ilustrar o quão selvagem o ser humano é capaz de se tornar quando suas ações se deixam alimentar pela irracionalidade do ódio, no entanto, ele é –para aqueles que forem capazes de lhe fazer a travessia –uma obra recompensadora, esclarecedora e lúcida sobre as mazelas abissais do subconsciente humano e os esforços salutares para enfrentá-las.

No primeiro episódio, “Origem”, somos conduzidos pelo antropologista evolucionário Brian Hare que nos explica que o ódio nutrido entre os seres humanos tem, entre outros gatilhos, uma gênese na nossa própria evolução animal, que remota a milhões de anos –comportamentos flagrados entre pessoas polarizadas por política ou quaisquer outras razões se assemelha ao de grupos de animais, como os chimpanzés, que foram nossos antepassados na escala evolutiva.

No segundo episódio, “Tribalismo”, uma reflexão um pouco semelhante leva a Dra. Laurie Santos, uma cientista cognitiva, a discorrer sobre o modo como o ser humano age e pensa em coletividade: Genes que remontam da época das cavernas (das tribos), que são essenciais à sobrevivência da espécie (e, portanto, à evolução) nos levam a adotar um grupo e a ele defender com unhas e dentes, sejam por motivos territoriais, religiosos políticos, étnicos ou algum outro –um impulso, explica ela, através do qual somos impelidos a abraçar uma ideologia e defender ferrenhamente aqueles que concordam conosco, na mesma medida em que antagonizamos de maneira quase irracional aqueles que se opõem ao nosso modo de ser. É neste episódio que surgem, como perfeito exemplo do tribalismo, as torcidas de futebol organizadas que hostilizam violentamente seus adversários –os chamados hooligans –e justificam todos os seus atos pelo amor ao esporte e dedicação ao seu time.

O terceiro episódio, “Ferramentas e Táticas”, traz o depoimento do jornalista e historiador Jelani Cobb, cujo objetivo é registrar e comentar a História –compreender e analisar o passado, acredita ele, é uma forma de prevenir e conscientizar o futuro dos erros cometidos. Ao mesmo tempo, sua pesquisa busca incessantemente descobrir quais foram os ‘instrumentos’ que levaram pessoas a perder a capacidade de enxergar outros como seus semelhantes (a ‘desumanização’) e assim perpetrar atos de ódio e crueldade inicialmente tidos por impraticáveis.

No quarto episódio, “Extremismo”, é a vez de Sasha Avlicek, uma especialista no estudo do extremismo, expor sua experiência como filha de imigrantes iugoslavos na Inglaterra, e testemunha, desde tenra idade, do terrível genocídio perpetrado no Leste Europeu –na vida adulta, seu objetivo passou a ser compreender e enfrentar o processo de radicalização que leva a manifestações contundentes de violência. Paralelamente, conhecemos a história do ex-skinhead Frank Meeink, cuja criação brutal e negligente da parte de seus tutores o empurrou para a delinquência. Um ambiente do qual ele foi capaz de se desvencilhar. É nesse episódio também que é citado o famoso Experimento Social de Stanford –no qual voluntários capturados entre os alunos da universidade simularam uma situação de “carcereiros e encarcerados” por dias a fio, até que a encenação (e o antagonismo) entre eles começou a se tornar perigosamente real –acontecimento retratado no filme alemão “A Experiência” e em outras produções.

Em “Crimes Contra A Humanidade”, o quinto episódio, acompanhamos a advogada especializada em crimes internacionais, Patricia Viseur Sellers, evocando casos como o Massacre de Ruanda, o Genocídio Indígena durante a colonização da América, a Escravidão no Sul dos EUA, o Apartheid, a Revolução do Khmer Vermelho no Camboja e, obviamente, o Holocausto Nazista. São observadas assim as circunstâncias por meio das quais contextos historicamente turbulentos distorcem valores humanos aos olhos de toda uma coletividade de forma a conduzirem matanças e atos de ódio inicialmente tidos por inacreditáveis.

No sexto e último episódio, “Esperança”, o neurocientista Emile Bruneau compartilha de seus intensos estudos acerca das divisões que separam pessoas que tinham tudo para compartilharem uma relação pacífica, tomando como exemplos moradores e aldeões da América do Sul em oposição a ex-integrantes das F.A.R.C. (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Para Bruneau, o pensamento crítico, o ‘conhecer para entender’ pode levar a um esclarecimento das ações do outro que remove a névoa por meio da qual as pessoas se veem como inimigos.

Embora não lance mão de cenas verdadeiramente chocantes (não se vê nenhum momento tão brutal ou agressivo como num filme de terror, por exemplo), a série possui um viés profundamente perturbador em sua essência, na veracidade acachapante dos registros absolutamente autênticos que expõe ao expectador e no teor sem amenidades com que compartilha categoricamente atrocidades reais cometidas pelo mundo todo –e, para tanto, cada episódio alerta o público do poder desestabilizador de suas imagens. A despeito disso tudo, como na filmografia de Spielberg, “Por Que Odiamos?” exala conciliação e fé na raça humana ao expor, mais do que os autores de tantos malefícios, os especialistas salutares que almejam usar todos esses exemplos para aprender sobre o passado e, no processo, construir um futuro melhor.

sábado, 29 de julho de 2023

Amor Sublime Amor


 Um dos sonhos do diretor Steven Spielberg sempre foi realizar um filme musical –para tanto, ele fez toda a sequência inicial de “Indiana Jones e O Templo da Perdição” –intenção que ele finalmente conseguiu concretizar em 2021, com pompa e circunstância: Refilmando, nada mais nada menos, do que um dos grandes musicais do cinema, único a conquistar a marca de 10 prêmios Oscar, o arrojado e fascinante “Amor Sublime Amor”, de 1961.

Consta que, quando jovem, o primeiro musical com o qual Spielberg teve contato foi o próprio “Amor Sublime Amor”, logo, com sua carreira consolidada como um dos grandes diretores de cinema de todos os tempos, Spielberg agora quer, pelo que se nota em seus projetos, buscar a gênese do fascínio em seu passado, e que moldou quem ele é hoje. Ele compartilha, em “Amor Sublime Amor”, de uma memória afetiva irreprimível pelo filme original –do qual o roteiro de Tony Kushner transfigura pequenos elementos se aproximando mais da peça original de Arthur Larents, Leonard Bernstein e Stephen Sondheim que do filme de Jerome Robbins e Robert Wise –o que curiosamente enfatiza a extraordinária atualidade ainda presente na obra acerca de seus temas sobre intolerância.

1957. O lado oeste de Manhattan, em Nova York, é assolado por uma periclitante guerra de gangues juvenis alimentada pelo ódio: De um lado, o grupo predominante, os Jets –liderados pelo irascível Riff (Mike Faist) –busca impor seu território temerosos de que sejam sobrepujados pela chegada dos Sharks –liderados pelo arredio Bernardo (David Alvarez) –gangue composta pelos imigrantes porto-riquenhos. No contorno hábil que, vez ou outra, o cinema consegue fazer da violência gratuita e descartável, o embate entre os Jets e os Sharks é registrado em forma de dança –a coreografia de Justin Peck, ao capturar a ideia central brilhantemente executada no filme de 1961, converte a violência numa sucessão bela e contagiante de movimentos corporais.

Contudo, “Amor Sublime Amor” não é a história dos Jets e dos Sharks, ele é a história de Tony (o ótimo Ansel Elgort) e de Maria (a fenomenal Rachel Zegler). Ele, descendente de italianos e, portanto, ex-membro dos Jets (dos quais se afastou após um período na cadeia); ela, descendentes de porto-riquenhos –e, para piorar as coisas, irmã mais nova do próprio Bernardo! Num baile promovido para tentar uma vã e mal-fadada conciliação entre os grupos, Tony e Maria se conhecem, e são assaltados por um amor incontornável e cinematográfico que irá definir seu destino até o final do longa-metragem.

Não há qualquer dúvida a respeito da inspiração desta obra em “Romeu & Julieta”, de William Shakespeare, e diferente das tendências dramaticamente redundantes do cinema (e do entretenimento) atual, o filme não busca amenizar o teor de tragédia inerente à obra do bardo: O filme de Spielberg brilha com música, coreografia e beleza visual, contamina o expectador com seu apreço transbordante pelo deslumbre do cinema inocente à moda antiga, e expressa um romantismo que Spielberg sempre buscou esconder, mas, ele não evita os percalços lamentáveis e as tristezas indeléveis quando a incapacidade de aceitar seus semelhantes leva alguns dos personagens principais a enveredar pelo caminho do trágico. Bernardo não é capaz de aceitar a união entre Tony e Maria, e tudo que ele enxerga é a necessidade de tomar o território dos Jets por meio da força, mesmo contra os esforços conciliatórios de sua compreensiva esposa, Anita (a maravilhosa Ariane DeBose, como Rita Moreno antes dela, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante). Tudo culmina num encontro entre Jets e Sharks num depósito de sal onde as richas supostamente seriam resolvidas em definitivo.

Munido das intenções nobres de colocar um ponto final nas animosidades, Tony tenta um diálogo com Bernardo, mas, tal e qual Romeu em seu esforço para apaziguar-se com Teobaldo, só consegue a morte de Mercúcio –ali se inicia a ciranda de tragédias imprevistas que farão sombria a jornada dos personagens até o final: Numa sucessão de entraves súbitos, Bernardo esfaqueia e mata Riff, enquanto que Tony, levado pelo calor do momento, esfaqueia e mata Bernardo.

Embora o amor leve Maria a perdoar Tony –e mais tarde, até mesmo Anita a perdoá-lo também –as engrenagens trágicas continuam a se mover: Tony planeja partir de Nova York junto a Maria para sempre, no entanto, quando esta tenta enviar-lhe uma mensagem por meio de Anita, ela acaba quase estuprada no reduto dos Jets, o que a leva, indignada, a mentir que Maria morreu. Transtornado, Tony acaba perseguindo Chino (Josh Andres Rivera) de posse de uma arma de fogo, e da promessa de vingar Bernardo com sangue.

Os tons trágicos e dramáticos presentes na narrativa de “Amor Sublime Amor” se acentuam na parte final e, diferente do que o cinema comercial tem acostumado o público nas últimas décadas, essa marcha segue implacável até o desfecho.

Expectadores familiarizados com o filme de Jerome Robbins e Robert Wise perceberão uma similaridade poderosa entre as duas obras. A repaginação de Spielberg prefere se ocupar de pequenos detalhes e intensificar os aspectos onde o cinema evoluiu exponencialmente –como a direção de fotografia (de Janus Kaminski) de um esplendor irradiante –para oferecer um espetáculo sobre humanismo e amor e um discurso de oposição à intolerância sem igual no cinema de hoje.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Os Fabelmans


 Steven Spielberg cresceu em uma família amorosa ainda que disfuncional e cheia de seus próprios contratempos. Filmes como “Louca Escapada” ou “E.T. O Extraterrestre” evidenciam, em pequenos detalhes aqui e ali, as inquietações de nível pessoal que sempre o perseguiram –o distanciamento paterno; a opressão acarretada pela realidade adulta; a fuga sempre imaginativa para um refúgio de fantasia; a visão aventuresca com a qual usava o cinema para romantizar a vida. A gênese de cada uma dessas facetas pode ser contemplada e apreciada agora que Steven Spielberg pôde realizar seu filme mais pessoal, “Os Fabelmans”, no qual ele compartilha com o público um pouco de sua própria história.

Conhecemos assim o personagem que representa o próprio Spielberg, Sammy Fabelman, aos sete anos de idade, prestes a entrar num cinema pela primeira vez, junto de seus pais, Burt (Paul Dano) e Mitzi (Michelle Williams), para assistir a “O Maior Espetáculo da Terra”. Metódico, Burt explica ao pequeno Sammy toda a mecânica que envolve o cinematógrafo, enquanto que Mitzi, de uma irreprimível veia artística, enxerga ali a materialização dos sonhos; o protagonista mal sabe, mas sua índole será definida pelo ajuste emocional dessas duas influências aparentemente tão distintas.

Imediatamente capturado pela sequência onde uma colisão de trem leva vários vagões a descarrilar dos trilhos, o pequeno Fabelman pede de presente, fascinado, um trem de brinquedo, para poder reencenar várias e várias vezes aquele momento de colisão. Contudo, Burt não deseja ver o filho destruir um brinquedo que ele poupou para comprar. A saída, bolada por Mitzi, é filmar o descarrilamento de brinquedo, e tê-lo gravado em película para vê-lo e revê-lo sem parar. E é nesse detalhe, a repetição de uma memória feliz reproduzida em cores vivas e num processo tecnológico palpável, que se encontra o cerne da grande paixão do pequeno Fabelman.

Incapaz de olhar o mundo a não ser pela lente de uma câmera, Sammy (então interpretado por Gabriel LaBelle) passa o restante de sua juventude fazendo filmes caseiros, inicialmente tendo suas irmãs como protagonistas de suas produções –que variam de comédias sobre dentistas até filmes de horror com múmias feitas a partir do papel higiênico de casa (!) –e mais tarde, arregimentando até mesmo os colegas de classe e seus amigos do grupo de escoteiros.

É através do cinema que Sammy descobre uma identidade que o define, mas é também através dele que os primeiros rancores com a vida adulta são revelados: Num filme gravado aleatoriamente, Sammy flagra, sem querer, Mitzi junto de Bennie (Seth Rogen), um grande amigo de seu pai. A descoberta do adultério da mãe é um choque tamanho para Sammy que, quando a família se muda do Arizona para a Califórnia, ele decide abandonar em definitivo o hábito de filmar.

Ainda assim, o cinema persiste no caminho do jovem Fabelman: Ele tem a oportunidade de realizar um filme tradicional para o evento anual da formatura, no qual deposita toda sua habilidade e talento, mesmo que com os aspectos pessoais da vida entrando numa espécie de colapso: Mitzi, à essa altura, já não suporta mais o afastamento de Bennie e pede o divórcio à Burt, enquanto que os valentões da escola, sabendo das origens judaicas de Sammy, o acuam de todas as formas.

Se percebemos, nessa terna e delicada trajetória familiar, que o pendor artístico e o fascínio pelo processo criativo, Sammy puxou de Mitzi, notamos também que o minimalismo técnico e a obsessão profissional, ele puxou de Burt, não apenas isso, é o caminho de altos e baixos vivenciados por seu amor (pois, apesar de tudo, do início ao fim, eles nunca deixam de se amar) que define a visão pueril, ligeiramente sombria para com as harmonias familiares, que irá determinar o cineasta que ele virá a ser.

Para aqueles pouco inteirados da trajetória de Spielberg como diretor de cinema, “Os Fabelmans” significará bem pouco, e fará sentido menos ainda; esta é uma obra muito pessoal, feita para materializar uma história sobre pessoas imperfeitas que se dispuseram a construir uma família presumidamente perfeita, e no processo, moldaram um dos maiores gênios do cinema de todos os tempos.

Spielberg dirige o filme com bom humor, despido de amargura –até mesmo o personagem de Seth Rogen ganha um retrato carinhoso –e plenamente disposto a exorcizar quaisquer fantasmas de seu passado e de sua vida em família. Consegue realizar uma obra delicada e sincera sobre o poder transformador do cinema que, apropriadamente, se encerra no encontro mítico dele (Spielberg) com um dos maiores diretores norte-americanos de todos os tempos –John Ford, cujo “Depois do Vendaval” Spielberg tão bem homenageou numa cena de “E.T.” –a quem o diretor Spielberg coloca em cena interpretado por um dos grande diretores vivos da atualidade (senão o maior), o incomparável David Lynch.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Os Indicados Ao Oscar 2023


 E foram anunciados então os indicados ao prêmio máximo do cinema (será que ainda é?). A premiação deste ano aparentemente parece tentar enaltecer as produções que trouxeram o público e as grandes bilheterias de volta às salas de cinema após o marasmo financeiro que foram os dois anos de pandemia. O que explica a presença de praticamente todos os grandes blockbusters do ano em muitas das categorias –com “The Batman” e “Pantera Negra-Wakanda Forever” recebendo muitas nomeações técnicas. Sem mais delongas, vamos à lista dos indicados:

FILME

“All Quiet on the Western Front”

Avatar-The Way of Water

“The Banshees of Inisherin”

“Elvis”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

“Tár”

Top Gun-Maverick

“Triangle of Sadness”

“Women Talking”

DIREÇÃO

Martin McDonagh por “The Banshees of Inisherin”

Daniel Kwan, Daniel Scheinert por “Everything Everywhere All at Once”

Steven Spielberg por “The Fabelmans”

Todd Field por “Tár”

Ruben Ostlund por “Triangle of Sadness”

A ausência de Spielberg e seu “The Fabelmans” nas indicações do SAG (o mais confiável dentre todos os termômetros do Oscar) lançou uma ligeira incerteza entre os favoritos, deixando margem para o crescimento vertiginoso do consagrado “The Banshees of Inisherin” e, sobretudo, do já icônico “Everything Everywhere All at Once” (o líder em indicações, com 11). Mas, essas considerações ficaram em segundo plano diante da inclusão de “Top Gun-Maverick” na categoria de Melhor Filme, seguindo uma tendência muito semelhante à de “Mad Max-Estrada da Fúria” em 2016: A continuação tardia de um clássico dos anos 1980, surpreendendo público e crítica com um nível assombroso e imprevisto de qualidade. Esperem por sua menção em várias categorias técnicas.

ATRIZ

Cate Blanchett por “Tár”

Ana de Armas por “Blonde”

Andrea Risenborough por "To Leslie"

Michelle Williams por “The Fabelmans”

Michelle Yeoh por “Everything Everywhere All at Once”

Um dia após “Blonde” receber uma leva considerável de indicações ao Framboesa de Ouro (os Piores do Ano), a Academia de Artes Cinematográficas decidiu honrar aquela que é, de longe, a maior qualidade do filme; sua atriz principal, a fabulosa Ana de Armas. Contudo, o nome a ser batido nesta categoria (sempre uma das mais disputadas da cerimônia) é Cate Blanchett que surge fortíssima e bem cotada por seu tour-de-force em “Tár” –há quem diga que, por conta disso, os prêmios ao filme podem se restringir apenas a esse. Ainda assim, pode haver alguma esperança para os belíssimos trabalhos das duas Michelles: a Williams, vivendo nada menos que a mãe de Steven Spielberg em “Fabelmans” e, em especial, a Yeoh, que encantou meio mundo, fazendo rir, chorar e vibrar em “Everything Everywhere All at Once”.

ATOR

Austin Butler por “Elvis”

Colin Farrell por “The Banshees of Inisherin”

Brendan Fraser por “The Whale”

Paul Mescal por “Aftersun”

Bill Nighy por “Living”

Desde antes de seu emocionante discurso quando ganhou o prêmio de Melhor Ator no Critics Choice Awards, Brendan Fraser já era certo nesta categoria, assim como seus mais fortes concorrentes, Colin Farrell e o jovem Austin Butler (arrebatando público e crítica no desafiador papel de Elvis Presley), todos eles, experimentando a primeira indicação ao Oscar de suas carreiras. Meu palpite é que a briga fique mesmo entre Brendan Fraser e Austin Butler.

EFEITOS VISUAIS

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar: The Way of Water”

“The Batman”

“Black Panther: Wakanda Forever”

“Top Gun: Maverick”

FOTOGRAFIA

"All Quiet on the Western Front”James Friend

“Bardo-False Chronicle of a Handful of Truths” Darius Khondji

“Elvis” Mandy Walker

“Empire of Light” Roger Deakins

“Tár” Florian Hoffmeister

MONTAGEM

“The Banshees of Inisherin” Mikkel E.G. Nielsen

“Elvis” Jonathan Redmond, Matt Villa

“Everything Everywhere All at Once” Paul Rogers

“Tár” Monika Willi

“Top Gun-Maverick” Eddie Hamilton

DIREÇÃO DE ARTE

“All Quiet on the Western Front” Christian M. Goldbeck

"Avatar-The Way of Water” Dylan Cole, Ben Procter

"Babylon” Florencia Martin

"Elvis” Catherine Martin, Karen Murphy

"The Fabelmans” Rick Carter

MAQUIAGEM E CABELO

“All Quiet on the Western Front”

“The Batman”

“Black Panther-Wakanda Forever”

“Elvis”

“The Whale”

As premiações técnicas, este ano, tendem a ser mais democráticas –e não concentrarem-se num único ganhador, como ocorre em muitos outros anos –até para que a Academia possa honrar e consagrar os diversos campeões de bilheteria de 2022. Dito isso, os Efeitos Visuais provavelmente ficarão com “Avatar”; Fotografia e Montagem devem ficar com “Everything Everywhere All at Once” (mas, eu não me surpreenderia se “Top Gun-Maverick” levasse esse último); Direção de Arte parece já estar nas mãos da equipe de “Babylon” (a menos que “All Quiet on the Western Front” prove o contrário); e Maquiagem e Cabelo, embora eu aprecie também o trabalho realizado em “The Whale”, deve ficar mesmo com “The Batman”.

ANIMAÇÃO

“Guillermo del Toro’s Pinocchio”

“Marcel the Shell With Shoes On”

“Puss in Boots-The Last Wish” (DreamWorks Animation)

“Turning Red”

“The Sea Beast”

FILME INTERNACIONAL

“Argentina, 1985” (Argentina”

“Close” (Bélgica)

“All Quiet on the Western Front” (Alemanha)

“The Quiet Girl” (Irlanda)

“EO” (Polônia)

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

“The Elephant Whisperers”

“Haulout”

“How Do You Measure a Year?”

“The Martha Mitchell Effect”

“Stranger at the Gate”

DOCUMENTÁRIO

“All That Breathes”

“All the Beauty and the Bloodshed”

“Fire of Love”

“A House Made of Splinters”

“Navalny”

ATOR COADJUVANTE

Brendan Gleeson por “The Banshees of Inisherin”

Brian Tyree Henry por “Causeway”

Judd Hirsch por “The Fabelmans”

Barry Keoghan por “The Banshees of Inisherin”

Ke Huy Quan por “Everything Everywhere All at Once”

Não deixa de ser uma surpresa a presença de Brian Tyree Henry (de “Eternos”) entre os indicados a Coadjuvante pelo drama de guerra, “Causeway” –a atriz principal, Jennifer Lawrence, também estava cotada para concorrer na época do lançamento do filme, mas, com o tempo, perdeu consideravelmente a força. Não há dúvidas de que o grande favorito (e, de repente, o grande merecedor também) seja o extremamente carismático Ke Huy Quan que tem como grandes competidores o talento nato, exigindo reconhecimento, do jovem Barry Keoghan (que, veja só, também estava no elenco de “Eternos”) e as fortes presenças dos veteranos Brendan Gleeson e Judd Hirsch.

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

“The Boy, The Mole, The Fox and The Horse”

“The Flying Sailor”

“Ice Merchants”

“My Year of Dicks”

“An Ostrich Told Me the World Is Fake and I Think I Believe It”

CURTA-METRAGEM LIVE ACTION

“An Irish Goodbye”

“Ivalu”

“Le Pupille”

“Night Ride”

“The Red Suitcase”

ROTEIRO ORIGINAL

“The Banshees of Inisherin” de Martin McDonagh

“Everything Everywhere All at Once” de Daniel Kwan, Daniel Scheinert

“The Fabelmans” de Tony Kushner, Steven Spielberg

“Tár” de Todd Field

“Triangle of Sadness” de Ruben Östlund

ROTEIRO ADAPTADO

“All Quiet on the Western Front” de Edward Berger, Lesley Paterson, Ian Stokell

“Glass Onion-A Knives Out Mystery” de Rian Johnson

“Living” de Kazuo Ishiguro

“Top Gun-Maverick” de Christopher McQuarrie, Eric Warren Singer, Ehren Kruger

“Women Talking” de Sarah Polley

O fato de “Top Gun-Maverick” concorrer ao prêmio de Roteiro já é, em si, uma grata surpresa –e ainda por cima Roteiro Adaptado (segundo as normas da Academia, o fato de ser uma continuação o habilita para essa categoria) –numa disputa que tem como favorito o engajado “Women Talking”, além da excelência sempre premiável de Rian Johnson em “Glass Onion”. Já, entre os Roteiros Originais, a briga será feia: O dramaturgo Tony Kushner surge com ligeira vantagem na semi-biografia do próprio Spielberg, mas pode ficar para trás a medida que o magnífico trabalho dos ‘Daniels’, Kwan e Scheinert –“Everything Everywhere All at Once” –adquira mais favoritismo, e o mesmo vale para “The Banshees of Inisherin” (os trabalhos de Martin McDonagh têm no roteiro suas maiores forças).

CANÇÃO

“Lift Me Up” de “Black Panther-Wakanda Forever”

“This Is A Life” de “Everything Everywhere All at Once”

“Naatu Naatu” de “RRR”

“Applause” de “Tell It like a Woman”

“Hold My Hand” de “Top Gun-Maverick”

TRILHA SONORA

“All Quiet on the Western Front”

“Babylon”

“The Banshees of Inisherin”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

FIGURINOS

“Babylon” Mary Zophres

“Black Panther-Wakanda Forever” Ruth E. Carter

“Elvis” Catherine Martin

“Everything Everywhere All at Once” Shirley Kurata

“Mrs. Harris Goes to Paris” Jenny Beavan

Parece ter tido larga aprovação a inclusão do descontraído épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção –bem como o premiação deste no Globo de Ouro –o que pode roubar de “Top Gun-Maverick” uma antecipada vantagem na busca por essa estatueta. Seja como for, o prêmio de Trilha Sonora deve ficar entre “Fabelmans” –John Williams já nem deve saber mais quantos Oscars já tem na prateleira! –e “Babylon”, o favorito na categoria de Figurinos, prêmio que ele disputa diretamente com “Wakanda Foverer”, cuja figurinista, Ruth E. Carter, já levou um Oscar pelo primeiro “Pantera Negra

SOM

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Batman”

“Elvis”

“Top Gun-Maverick”

ATRIZ COADJUVANTE

Angela Bassett por “Black Panther-Wakanda Forever”

Hong Chau por “The Whale”

Kerry Condon por “The Banshees of Inisherin”

Jamie Lee Curtis por “Everything Everywhere All at Once”

Stephanie Hsu por “Everything Everywhere All at Once”

É interessante que a mais cotada para ganhar seja a magnífica veterana Angela Bassett, justamente por seu papel num filme da Marvel Studios –ela que já amedalhou o Globo de Ouro. Entretanto, há que se prestar atenção nos trabalhos de Hong Chau (de “Pequena Grande Vida”) em “The Whale” e na forte dobradinha das coadjuvantes de “Everything Everywhere All at Once”, Stephanie Hsu e Jamie Lee Curtis, em especial, essa última.

E é isso. Os vencedores nós descobriremos no domingo, dia 12 de março de 2023, quando a entrega de todos esses prêmios for realizada.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Os Vencedores do Globo de Ouro 2023


 Assim como quem não quer nada, foi realizada a entrega do Globo de Ouro 2023 –em meio à outros acontecimentos nacionais e internacionais, foi algo que passou quase batido já que nenhum canal brasileiro transmitiu o evento –segue, portanto, a lista dos vencedores nas categorias cinematográficas:

MELHOR FILME DE DRAMA

 Os Fabelmans

MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL

 Os Banshees de Inisherin

Na categoria drama, se de um lado havia os sucessos de bilheteria incontestes dos aclamados “Top Gun-Maverick” e “Avatar-O Caminho da Água”, do outro, havia a extraordinária aceitação de crítica dos elogiadíssimos “Elvis” e “Tár”, entretanto, nada disso foi mais impactante para o membros da Impressa Estrangeira de Hollywood do que a produção autobiográfica de Steven Spielberg.

Já entre os filmes de comédia e musical, o forte favoritismo de “Tudo Em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” –o qual se expressa na sua presença em todas as premiações até aqui –acabou dando espaço para o primor discreto ainda que indelével de “Os Banshees de Inisherin”. No cômputo geral, as duas obras têm mais chance no Oscar?

Sim e não.

Já faz algum tempo que o Golden Globe não reflete com tanta exatidão as predisposições da Academia de Artes Cinematográficas –esse mérito pertence mais aos prêmios dos Sindicatos –contudo, a premiação revelou sensata e criteriosa, laureando duas obras (sobretudo, a de Spielberg) que trazem muitas razões para seu reconhecimento, e esta é uma posição que o Oscar não deve deixar de adotar.

MELHOR ATOR DE DRAMA

 Austin Butler (Elvis)

MELHOR ATRIZ DE DRAMA

 Cate Blanchett (TÁR)

MELHOR ATOR DE COMÉDIA/MUSICAL

 Colin Farrell (Os Banshees de Inisherin)

MELHOR ATRIZ DE COMÉDIA/MUSICAL

 Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

 Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

 Angela Bassett (Pantera Negra-Wakanda Para Sempre)

O jovem Austin Butler confirmou o que muitas previsões vinham indicando e, após esta vitória, segue fortíssimo ao Oscar, ainda que a presença, na mesma categoria de Brendan Fraser por “The Whale” não deva ser ignorada; e Colin Farrell vence pela segunda vez um Globo de Ouro de Melhor Ator num filme de Martin McDonagh (a primeira foi por “Na Mira do Chefe” em 2009).

Entre as atrizes, a competição, embora acirrada, permanece se afunilando entre as agora premiadas no Golden Globes Cate Balnchett e Michelle Yeoh –ao que tudo indica, com certa vantagem para a primeira. Concorrentes capazes de ombreá-las seriam Viola Davis (por “A Mulher-Rei”) e Michelle Williams (por “The Fabelmans”); embora esteja perdendo rapidamente sua força, eu ainda torço por uma lembrança de Ana De Armas e sua corajosa composição em “Blonde”.

É entre os coadjuvantes que a coisa fica curiosa: Se Ke Huy Quan já vinha a muito sendo prestigiado por seu trabalho –e penso que ele e seus outros concorrentes na categoria não devem encontrar dificuldades em chegar ao Oscar, em especiel Brendan Gleeson e Barry Keoghan, ambos por “Banshees de Inisherin” –a vencedora entre as atrizes foi uma relativa surpresa; é a primeira vez que um prêmio principal, de relativa expressão, contempla um filme da Marvel Studios, premiando a literalmente majestosa Angela Basset quando todas as apostas pareciam se inclinar para a disputa entre Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) e Kerry Condon (Banshees de Inisherin).

MELHOR DIREÇÃO

 Steven Spielberg (Os Fabelmans)

MELHOR ROTEIRO

 Os Banshees de Inisherin (Martin McDonagh)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

 Babilônia (Justin Hurwitz)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

 RRR: Revolta, Rebelião, Revolução ("Naatu Naatu") de M.M. Keeravani, Kaala Bhairava e Rahul Sipligunj.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

 Argentina, 1985 (Argentina)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

 Pinóquio (Guillermo del Toro e Mark Gustafson)

Os prêmios de Direção e Roteiro enfatizaram a predileção de “Fabelmans” e “Inisherin” certamente fortes competidores daqui para frente –embora hajam filmes que devem ser lembrados por outras premiações –surpreendeu a vitória do épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção onde o favorito era “Top Gun” e a música composta por Lady Gaga.

Houve algo de inesperado em alguns dos escolhidos do Golden Globe 2023, não há dúvida, mas é muito provável que essas surpresas acabem se tornando atitude isoladas do que tendências as serem adotadas na temporada de premiações que ainda virá.