terça-feira, 26 de maio de 2026

Hamnet - A Vida Antes de Hamlet


 A diretora Chloe Zhao pode até ter ganhado o Oscar de Melhor Filme por “Nomadland” –e depois debutado na Marvel Studios com “Eternos” –mas, seu melhor trabalho até então é certamente “Hamnet”, uma obra orgânica, intimista e introspectiva que se atreve a tecer um recorte da vida do bardo William Shakespeare sem, no entanto, fazer dele o centro da narrativa: É sua esposa, Agnes (interpretada pela estupenda Jesse Buckley), quem assume o protagonismo e o cerne da questão que o filme procura esmiuçar.

Primeiramente, haverão aqueles expectadores que irão tentar estabelecer uma relação entre os eventos deste filme e aqueles mostrados no vencedor do Oscar, “Shakespeare Apaixonado” –e essa relação até pode, sim, ser estabelecida ainda que estejamos falando de filmes completamente diferentes entre si (o outro era uma comédia romântica de época; este aqui, um drama adulto e contundente), de grandezas diferentes (embora “Shakespeare Apaixonado” tenha ganhado o Oscar, ele é, hoje, nitidamente um filme bobo e superficial; enquanto que este “Hamnet” é uma obra refinada de cinema) e que, em igual medida, empregam licenças poéticas oriundas da ficção para o melhor manejo do resultado final.

A camponesa Agnes –o nome original da esposa de Shakespeare era Anne Hathaway, modificado nesta adaptação do livro de Maggie O’ Farrell para não confundir o público devido à atriz homônima, estrela de “O Diabo Veste Pradatem, assim como a mãe, fama de ser uma feiticeira no pequeno e longínquo vilarejo inglês de Stratford onde mora. Daí sua disposição é ficar sempre na floresta, imersa na vida selvagem a treinar seu falcão adestrado. Ela, no entanto, desperta o interesse de William (Paul Mescal, brilhante), o professor de latim do lugar, exercendo tal profissão por conta de uma dívida contraída do pai.

Apesar de alguma resistência inicial, Agnes e William se casam e ela não tarda a engravidar, dando à luz à uma menina, Suzanna. Com esposa e filha para sustentar (sem falar que, na sequência, a própria Agnes volta a engravidar!), William decide seguir seus planos mais ambiciosos e rumar para a capital, Londres, onde almeja se lançar como dramaturgo nos teatros locais –e é, talvez, neste ponto da narrativa que o recorte do improvável “Shakespeare Apaixonado” possa ser justaposto na trama.

Com William indo e voltando para Londres ao longo dos anos, Agnes dá à luz aos gêmeos Hamnet e Judith e, devido a um sonho que teve com a falecida mãe (no qual ela apontava que o mais frágil de seus dois filhos seria então tirado dela), e ao exaspero de ver a menina quase morrer durante o parto, passa a crer que é de Judith quem deverá sempre cuidar, temerosa de que o mau presságio se concretize. De fato, é Judith (vivida por Olivia Lynes) quando já contam cerca de onze anos, quem pega peste bubônica e adoece. O menino Hamnet (interpretado pelo cativante e comovente Jacob Jupe), porém, oferece a própria vida em lugar da irmã quando, numa manhã, acredita ter visto o Anjo da Morte a espreita-la.

Assim, Judith se recupera e é Hamnet quem acaba adoecendo. Contudo, diferente da irmã, mal há tempo para que Agnes comece a preparar suas infusões com ervas e Hamnet, em agonia, morre.

É, portanto, sobre esse luto inapelável, inegociável e incontornável de pai e (sobretudo) mãe que se debruça todo o drama discorrido no primoroso filme de Chloe Zhao. A diretora não se deixa deslumbrar pela magnífica reconstituição de época concebida pela produção, nem pelos recursos técnicos bem mais requintados à sua disposição (a produção, afinal, é assinada por ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg): “Hamnet” centra as atenções de suas lentes nos percalços íntimos de duas pessoas levadas ao limiar de uma tragédia, e na formidável atuação da atriz em seu centro –no papel de Agnes, Jesse Buckley simplesmente leva o público com ela, a flutuar entre emoções intensas que ela consegue tornar intercambiáveis entre ela própria e o expectador.

Da comiseração extrema de seu luto, William Shakespeare haverá de criar um de seus mais ressonantes e aclamados trabalhos, a peça “Hamlet”, encenada no trecho final do filme: Uma sequência de crueza, poesia e dramaticidade sem par em todo o ano de 2025 que passou, na qual o filme de Chloe Zhao consegue operar alguns milagres, como fazer com que monólogos conhecidos e ditos à exaustão num sem-fim de outras obras (“Ser ou não ser. Eis a questão.”) soem como se fossem inéditos, inesperados e subitamente tocantes, e nos conduzir, como público, ao ápice de uma catarse existencial e de uma redenção por meio da arte. Uma das grandes cenas do ano, quiçá uma das grandes cenas do cinema no Século XXI.

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