quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Sobrevivente


 Não muito tempo depois dos cinemas terem recebido “A Longa Marcha”, adaptação da primeira obra escrita por Stephen King, as telonas ganharam então este “O Sobrevivente”, também ele adaptado de um livro de King –no qual ele também utilizou o pseudônimo Richard Bachman –contudo, “O Sobrevivente” já havia sido adaptado antes, em 1987, num filme de profusa mescla entre ficção científica e pancadaria estrelado por Arnold Schwarzenegger. Nesta nova versão, ele é substituído por Glenn Powell (mas, Schwarzenegger é lembrado com sua estampa nas notas de dinheiro comercializado naquele futuro distópico!), entretanto, quem de fato dá a tônica para este novo filme é seu diretor Edgar Wright.

Habituado a realizar filmes brilhantes em sucessão um após o outro, Wright é aquele raro tipo de autor que está num patamar elevado aos demais, um esteta capaz de forjar filmes tão comercialmente satisfatórios quanto primorosamente artísticos –essa seleta lista de diretores atualmente inclui, além dele, Denis Villeneuve, Alfonso Cuarón, Paul Thomas Anderson e... bem, já começa a ficar difícil lembrar mais alguém!

Para fugir da mera pecha de filme de ação que veio atrelada à produção de 1987 (ainda que as plateias daqueles tempos não se importassem nem um pouco com isso), Edgar Wright constrói em “O Sobrevivente” –ou “The Running Man” –um futuro assolado por versões turbinadas e anabolizadas de celeumas sociais e existenciais que nos assolam hoje, desenvolvendo dentro desse cenário uma narrativa de perseguição e suspense tão urgente quanto eletrizante.

No papel de Ben Richards, um operário do futuro com problemas até o pescoço, Glenn Powell imprime uma raiva reativa que define muito do personagem (e sedimenta muito do caminho que ele trilhará): Sua filhinha pequena está doente, e sem dinheiro para custear remédios e tratamento, ela pode não passar de alguns dias de vida!

Depois de ter negado seus pedidos para obter emprego –Ben não é bem visto pelos empregadores desde que denunciou a empresa por abuso trabalhista –ele precisa engolir o orgulho e ver a esposa Sheila (Jayme Lawson, de “Pecadores”) trabalhar numa boate/lanchonete para colher gorjetas o suficiente dos clientes pagantes. Indignado e desesperado com a situação, Ben segue para a tentacular emissora Gratui-TV, disposto à participar de alguns dos programas de auditório onde telespectadores participantes embolsam alguma grana. Porém, Ben, graças ao temperamento apropriadamente explosivo que demonstra na ocasião, acaba selecionado logo para o mais letal de todos: O reality show “The Running Man”.

Atingindo picos de audiência, e capaz de proporcionar aos seus concorrentes rios de dinheiro, o “The Running Man” tem como apresentador o afiado personagem de Colman Domingo (ator indicado ao Oscar pelo filme “Rustin”) e consiste de um jogo no qual três voluntários devem tentar fugir pelas ruas da cidade (e do estado, e do país, se for o caso) por um período de trinta dias. Durante esse tempo, eles serão caçados e perseguidos por grupos de elite especializados nessas operações (instruídos a fulmina-los sem dó nem piedade), e acompanhados de drones de câmeras high-tech ao vivo.

A fim de apimentar a circunstância, a rede de TV cria narrativas mentirosas onde os sobreviventes são renegados e inescrupulosos e os caçadores, galantes agentes a serviço da justiça –o que transforma, portanto, cada pessoa da rua que o reconhecer num inimigo em potencial capaz de denunciá-lo.

Quanto mais tempo o participante conseguir ficar vivo (e poucos foram os que conseguiram passar de poucos dias; e nenhum jamais totalizou um mês!), mais dinheiro ele ganha; e quanto mais atenção o participante chama para si e para sua perseguição, maior é a audiência do programa.

Ben Richards inicia assim sua jornada tentando passar despercebido, fugindo para lugares improváveis onde crê que não será encontrado. No entanto, tão logo se torna o único a sobreviver, ele percebe a facilidade com que os caçadores se valem do sistema para rapidamente rastreá-lo –e passa então a contar com algumas poucas alianças para tentar chegar aos almejados 30 dias e, quem sabe, sobreviver e voltar para sua família, entre esses inesperados aliados estão o blogueiro e ativista Bradley Throckmorton (Daniel Ezra); seu pequeno irmão; o pinel e revolucionário Elton Parrakis (Michael Cera); e a jovem Amelia Williams (Emilia Jones, do premiado “CODA-No Ritmo do Coração”), inicialmente tomada como refém por Ben, e em princípio, crédula nas narrativas vilanescas associadas a ele, mas, aos poucos, consciente da manipulação que a Gratui-TV e seu chefão maior, o produtor Dan Killian (Josh Brolin) fazem com o público.

Com um pouco menos de ação e um pouco mais de suspense do que o filme de 1987 (ainda que, quando a ação aparece ela se dá em cenas de uma sinergia assombrosa), “O Sobrevivente” pincela o fascinante, opressor e detalhado mundo em que a trama se passa com elementos poderosos de controle midiático (inclusive com as famosas alterações de filmagens feitas com IA), de desigualdade social em níveis extremos e alarmantes e da opressão exercida pelos poderosos de formas incisivas e ultrajantes –e, apesar de tudo, nem um pouco improváveis de serem perfeitamente reais!

“O Sobrevivente”, com Arnold Schwarzenegger, é hoje um cult-movie, por sua mescla saborosa de adrenalina e futurismo (numa época em que satirizar realitys era um arrojo!), o novo filme tem até potencial para virar cult também (até porque Edgar Wright, em sua resplandecente carreira já concebeu alguns), mas sua ênfase está menos voltada para a ação e a pancadaria, e mais para a pertinente denúncia às corporações e às suas corruptíveis influências no público expectador, presente já na aflitiva obra literária de Stephen King.

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