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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Euphoria - 3ª Temporada


 A terceira temporada de “Euphoria” chega dividida entre dois pólos extremos. Vamos lá: nesses quatro anos que separam o segundo e o terceiro ano de “Euphoria”, os estrelatos tanto de Zendaya, quanto de Sydney Sweeney, se consolidaram – a ponto de muitos acreditarem que provavelmente não seria viável realizar uma terceira temporada, visto a apertada e disputada agenda das duas; isso e mais a louvável indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante recebida por Jacob Elordi no início deste ano! Contudo, o realizador, Sam Levinson, não economizou esforços a fim de materializar este terceiro ano, possivelmente, desesperado por contornar o quanto antes o fracasso retumbante da tentativa em emplacar a série “The Idol”, estrelada por The Weeknd e repudiada por público e crítica.

São esses caminhos um tanto tortos que nos levam a este terceiro e último ano de “Euphoria” que já chega ostentando duas distinções contundentes em relação aos dois primeiros anos da série: A primeira delas, sai a ambientação estudantil – os personagens já não são mais jovens estudantes (até porque alguns deles, como Alexa Demie e Maude Apatow, já não convenceriam nesse papel), e sim indivíduos dando seus primeiros passos na vida adulta. A segunda é que, desta vez, “Euphoria” já não é mais uma série tão plural, e o expectador deve estar ciente disso (e abraçar isso!), caso contrário, é melhor nem começar os oito episódios: Duas personagens se sobressaem a todas as outras, e obviamente são elas a Rue de Zendaya (que convenhamos já era protagonista desde o começo) e a Cassie Howard de Sydney Sweeney (reflexo do incontornável status que ela foi adquirindo junto ao público); todos os demais personagens, mesmo aqueles que até gozavam de alguma relevância nas temporadas anteriores acabam relegados à condição de coadjuvantes – isso aqueles que chegam à aparecer, visto que a personagem de Barbie Ferreira (de importância sensivelmente reduzida do primeiro para o segundo ano), aqui nem mesmo dá as caras, e sequer é mencionada pelas demais, consequência, segundo dizem as más línguas, de um desentendimento com Levinson.

Quando reencontramos Rue Bennett (Zendaya, também produtora), passados alguns anos, ela já desvencilhou-se da convivência com a mãe e a irmã para mergulhar numa rotina de vida que, dadas as suas predisposições para o  vício e para a infração, começa a flertar perigosamente com o crime: Trabalhando como mula para alguns traficantes, ela resolve escapulir das garras de seus empregadores – que estão prestes a matá-la, injuriados com uma dívida que ela não consegue quitar – indo trabalhar justamente para o grande rival e inimigo  declarado deles, o perverso e ameaçador Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de “Pompeia”), uma espécie de barão do crime, proprietário de uma boate onde desfilam jovens garotas capturadas no fluxo do tráfico sexual e onde a droga que ele comercializa ilegalmente chega até os usuários. Mal escapando de uma encrenca para envolver-se em outra (elementos que agregam, aqui, mais humor do que drama ao núcleo da personagem), a trajetória de Rue acaba levando-a inadvertidamente ao jugo dos agentes de DEA, que transformam ela numa informante – o que, claro, aproxima ainda mais a personagem do perigo de morte.

Por sua vez, Cassie (Sydney, abusando de seu sex-appeal) casou-se com Nate (Jacob Elordi) com quem estabeleceu um tumultuado namoro na segunda temporada. Assim sendo, com ele devendo uma vultuosa quantia em dinheiro para agiotas russos (que lhe arrancam uns dedos do pé toda a vez que surgem para cobrar a dívida!), Cassie precisa ganhar dinheiro exponencialmente rápido a fim de salvar a vida do marido, e a melhor saída é envolver-se com o Onlyfans, plataforma digital para a qual ela pode produzir conteúdo adulto (e, no processo, a série entregar a sucessão de cenas picantes que todos os fãs querem ver de Sydney Sweeney) e ganhar dinheiro o mais rápido possível. A pessoa mais indicada para gerenciá-la nessa empreitada assumindo papel de empresária, até por seu afiado tino comercial, é Maddie Perez (Alexa Demie), outrora melhor amiga de Cassie e outrora namorada de Nate (!?!)

E é isso. Esses são basicamente os arcos narrativos principais desta temporada, em torno dos quais todos os outros personagens orbitam: Há, por exemplo, Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de Cassie, que tornou-se assistente de uma produtora de Hollywood (produtora esta vivida por Sharon Stone, em participação bastante decorativa) que na primeira temporada tinha até mais importância que a irmã dentro da trama, mas que aqui é sua coadjuvante. Caso ainda mais contundente é o de Jules Vaughn (Hunter Shaffer), a amiga trans e interesse romântico de Rue que, nesta nova temporada, é escanteada a ponto de virar quase uma participação especial. O mais curioso é que a própria relação entre as duas estrelas na vida real (Zendaya e Sydney Sweeney) pareceu interferir nos rumos de “Euphoria”: Conduzindo carreiras que ganharam rumos bastante distintos (a de Zendaya pareceu mirar numa consagrada carreira de atriz séria e respeitada, enquanto que Sydney caiu nas graças do público através de filmes de apelo muito comercial e não se furtou de sucessivas polêmicas), as duas estrelas evitaram contato durante a realização da série, e isso se nota perfeitamente na narrativa – por vezes, esta terceira temporada de “Euphoria” parece tratar-se de duas obras distintas (a comédia tragicômica a envolver Rue, e a farsa tresloucada, sórdida e sexual estrelada por Cassie) entre as quais um ou outro personagem acaba transitando. Para se ter uma ideia, na totalidade de episódios da temporada inteira, mesmo que compartilhem basicamente dos mesmos coadjuvantes, Rue e Cassie se encontram na mesma cena uma única vez – e é um momento um bocado constrangedor!

Não tão pertinente, em termos artísticos ou temáticos, quando sua temporada inaugural, mas certamente ainda bastante saborosa de se assistir, esta terceira temporada de “Euphoria” encontra um arremate perfeitamente adequado no personagem do ótimo Colman Domingo, que ganha súbita importância no episódio final para conduzir o público ao desfecho.

É um encerramento curioso, anti-climático até, ainda que de acordo com o espírito inconformista que pareceu predominar na série como um todo – uma série que, podemos perceber, foi se moldando a partir das predisposições que se faziam possíveis.

Ao menos (e isso, para mim, é motivo de admiração), Sam Levinson soube que era hora de parar e deu um desenlace contundente, na medida do possível, para seus personagens; coisa que muita série que começou excelente não soube fazer...

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D


 Em 1977, o diretor Steven Spielberg lançou o filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, uma obra que sob muitos aspectos define sua carreira – as inquietações acerca da existência de vida extraterrestre são tópicos que Spielberg jamais foi capaz de deixar de lado, levando à produções como "E.T. O Extraterrestre” e outras que indiretamente abordavam tal tema. O ponto fora da curva pode ser considerado “Guerra dos Mundos”, no qual Spielberg faz nada mais que um pastiche cinematograficamente requintado de “Independence Day” – isso porque Spielberg sempre enxergou de uma maneira esperançosa a possibilidade de co-existência entre humanos e alienígenas.

Agora, do alto de uma carreira de 50 anos, Spielberg volta a focar suas lentes sobre o tema, numa obra que resgata toda a dúvida insolúvel e o interesse instigante que o levaram até “Contatos Imediatos...” – este “Dia D” é, em si, uma obra que traz Spielberg se reencontrando consigo mesmo, revendo tópicos que sempre lhe foram tão caros ao seu cinema, à luz de uma imponderável modernidade, resvalando em teorias da conspiração que soariam alarmantes nas mãos de outros realizadores, e provando, uma vez mais, o cineasta sem par que ele é.

A trama – concebida pelo roteirista David Koepp, a partir de um argumento do próprio Spielberg – se inicia audaz, sem tempo para tomar o fôlego: Daniel Kellner (o carismático Josh O’Connor, de “Rivais”) já está em fuga. Ao que parece ele roubou arquivos importantes de uma agência ultrasecreta governamental (isso e outra coisa, ainda mais importante e inconcebível!). Tal agência, denominada Wardex, sequestrou sua namorada Jane (Eve Hewson, filha de Bono Vox, o vocalista do “U2”) e agora exigem uma troca ocorrida nas dependências de um ring de luta livre lotado – e é nessas circunstâncias, com todo o intrincado enredo já em curso, que o filme começa.

Paralelo à trajetória de fuga de Daniel e Eve – na qual tentam à todo custo escapar da Wardex, controlada com mão de ferro pelo implacável Noah Scanlon (Colin Firth, sempre fantástico) – vemos também a história de Margaret Fairchild (Emily Blunt, magnífica), garota do tempo de uma emissora de TV em Kansas City que, certo dia, sem a menor explicação, começa a falar numa língua extraterrestre em pleno noticiário matutino, ao vivo!

O caso chama a atenção da Wardex que, tal e qual o fazem com Daniel, almejam agora encontrar e capturar Margaret à todo custo, enquanto um certo Dr. Hugo Wakefield (o ótimo Colman Domingo) procura estar um passo à frente de Scanlon e sua tentacular agência, a fim de driblá-los e fazer aquilo que eles tentam evitar há décadas: Revelar ao público toda a verdade.

Assim como em “Contatos Imediatos...” – cujo plot, de um ponto em diante, centralizava sua atenção no encontro iminente entre os protagonistas Roy e Jillian – em “Dia D” somos conduzidos por Spielberg na expectativa de testemunhar Daniel e Margaret se encontrarem, e descobrir o que, a partir daí, acontecerá.

Não restam dúvidas de que há muito de Spielberg em “Dia D” – não apenas o foco central no tema dos extraterrestres e da incomensurável mudança que a sua revelação causaria no mundo e nos rumos da Humanidade perpassa toda sua filmografia, como também as pertinentes referências à Segunda Guerra Mundial (o próprio título em alusão ao Dia D, na Normandia; a iminência da Terceira Guerra Mundial servindo como um pano de fundo político aos acontecimentos), a gênese de todos os mais profundos questionamentos encontrada nas memórias de infância (como é o caso dos dois protagonistas), e a própria insistência na intervenção irredutível de uma influente figura paterna (que aqui são duas, o autoritário ainda que munido de supostas boas intenções Scanlon, de Colin Firth, e o manipulador, ainda que bondoso, Wakefield, de Colman Domingo, dois atores que, diga-se, sob a direção de Spielberg, brilham como nunca).

No panorama do cinema comercial mundial, “Dia D” é uma realização distinta e exótica como só um diretor de predicados hiperlativos como Steven Spielberg seria capaz de elaborar: É inteligente, complexo, desafiador, fala da correlação entre a crença em vida extraterrestre e a transformação subsequente de paradigmas religiosos, leva a ficção científica  a um patamar que pouquíssimos filmes sobre o tema alienígenas foram capazes de chegar e tudo isso numa produção suntuosa, tecnicamente refinada com todos os aparatos que só o melhor de Hollywood pode proporcionar e mesmo tocando em temas como o acobertamento do governo acerca de assuntos delicados, surge audaciosamente em meio à blockbusters no período mais disputado do ano nos cinemas.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Sobrevivente


 Não muito tempo depois dos cinemas terem recebido “A Longa Marcha”, adaptação da primeira obra escrita por Stephen King, as telonas ganharam então este “O Sobrevivente”, também ele adaptado de um livro de King –no qual ele também utilizou o pseudônimo Richard Bachman –contudo, “O Sobrevivente” já havia sido adaptado antes, em 1987, num filme de profusa mescla entre ficção científica e pancadaria estrelado por Arnold Schwarzenegger. Nesta nova versão, ele é substituído por Glenn Powell (mas, Schwarzenegger é lembrado com sua estampa nas notas de dinheiro comercializado naquele futuro distópico!), entretanto, quem de fato dá a tônica para este novo filme é seu diretor Edgar Wright.

Habituado a realizar filmes brilhantes em sucessão um após o outro, Wright é aquele raro tipo de autor que está num patamar elevado aos demais, um esteta capaz de forjar filmes tão comercialmente satisfatórios quanto primorosamente artísticos –essa seleta lista de diretores atualmente inclui, além dele, Denis Villeneuve, Alfonso Cuarón, Paul Thomas Anderson e... bem, já começa a ficar difícil lembrar mais alguém!

Para fugir da mera pecha de filme de ação que veio atrelada à produção de 1987 (ainda que as plateias daqueles tempos não se importassem nem um pouco com isso), Edgar Wright constrói em “O Sobrevivente” –ou “The Running Man” –um futuro assolado por versões turbinadas e anabolizadas de celeumas sociais e existenciais que nos assolam hoje, desenvolvendo dentro desse cenário uma narrativa de perseguição e suspense tão urgente quanto eletrizante.

No papel de Ben Richards, um operário do futuro com problemas até o pescoço, Glenn Powell imprime uma raiva reativa que define muito do personagem (e sedimenta muito do caminho que ele trilhará): Sua filhinha pequena está doente, e sem dinheiro para custear remédios e tratamento, ela pode não passar de alguns dias de vida!

Depois de ter negado seus pedidos para obter emprego –Ben não é bem visto pelos empregadores desde que denunciou a empresa por abuso trabalhista –ele precisa engolir o orgulho e ver a esposa Sheila (Jayme Lawson, de “Pecadores”) trabalhar numa boate/lanchonete para colher gorjetas o suficiente dos clientes pagantes. Indignado e desesperado com a situação, Ben segue para a tentacular emissora Gratui-TV, disposto à participar de alguns dos programas de auditório onde telespectadores participantes embolsam alguma grana. Porém, Ben, graças ao temperamento apropriadamente explosivo que demonstra na ocasião, acaba selecionado logo para o mais letal de todos: O reality show “The Running Man”.

Atingindo picos de audiência, e capaz de proporcionar aos seus concorrentes rios de dinheiro, o “The Running Man” tem como apresentador o afiado personagem de Colman Domingo (ator indicado ao Oscar pelo filme “Rustin”) e consiste de um jogo no qual três voluntários devem tentar fugir pelas ruas da cidade (e do estado, e do país, se for o caso) por um período de trinta dias. Durante esse tempo, eles serão caçados e perseguidos por grupos de elite especializados nessas operações (instruídos a fulmina-los sem dó nem piedade), e acompanhados de drones de câmeras high-tech ao vivo.

A fim de apimentar a circunstância, a rede de TV cria narrativas mentirosas onde os sobreviventes são renegados e inescrupulosos e os caçadores, galantes agentes a serviço da justiça –o que transforma, portanto, cada pessoa da rua que o reconhecer num inimigo em potencial capaz de denunciá-lo.

Quanto mais tempo o participante conseguir ficar vivo (e poucos foram os que conseguiram passar de poucos dias; e nenhum jamais totalizou um mês!), mais dinheiro ele ganha; e quanto mais atenção o participante chama para si e para sua perseguição, maior é a audiência do programa.

Ben Richards inicia assim sua jornada tentando passar despercebido, fugindo para lugares improváveis onde crê que não será encontrado. No entanto, tão logo se torna o único a sobreviver, ele percebe a facilidade com que os caçadores se valem do sistema para rapidamente rastreá-lo –e passa então a contar com algumas poucas alianças para tentar chegar aos almejados 30 dias e, quem sabe, sobreviver e voltar para sua família, entre esses inesperados aliados estão o blogueiro e ativista Bradley Throckmorton (Daniel Ezra); seu pequeno irmão; o pinel e revolucionário Elton Parrakis (Michael Cera); e a jovem Amelia Williams (Emilia Jones, do premiado “CODA-No Ritmo do Coração”), inicialmente tomada como refém por Ben, e em princípio, crédula nas narrativas vilanescas associadas a ele, mas, aos poucos, consciente da manipulação que a Gratui-TV e seu chefão maior, o produtor Dan Killian (Josh Brolin) fazem com o público.

Com um pouco menos de ação e um pouco mais de suspense do que o filme de 1987 (ainda que, quando a ação aparece ela se dá em cenas de uma sinergia assombrosa), “O Sobrevivente” pincela o fascinante, opressor e detalhado mundo em que a trama se passa com elementos poderosos de controle midiático (inclusive com as famosas alterações de filmagens feitas com IA), de desigualdade social em níveis extremos e alarmantes e da opressão exercida pelos poderosos de formas incisivas e ultrajantes –e, apesar de tudo, nem um pouco improváveis de serem perfeitamente reais!

“O Sobrevivente”, com Arnold Schwarzenegger, é hoje um cult-movie, por sua mescla saborosa de adrenalina e futurismo (numa época em que satirizar realitys era um arrojo!), o novo filme tem até potencial para virar cult também (até porque Edgar Wright, em sua resplandecente carreira já concebeu alguns), mas sua ênfase está menos voltada para a ação e a pancadaria, e mais para a pertinente denúncia às corporações e às suas corruptíveis influências no público expectador, presente já na aflitiva obra literária de Stephen King.

sábado, 23 de maio de 2026

Michael


 Poucas vezes uma produção cinematográfica conseguiu polarizar de tal maneira as considerações da crítica e a recepção de público; se por um lado diversos críticos especializados logo apareceram apontando os defeitos estruturais da realização apaixonada do diretor Antoine Fuqua (que eventualmente estão lá), do outro lado, o público deu de ombros comparecendo em massa às salas de cinema, vibrando com as músicas e transformando o filme em um fenômeno.

“Michael”, como qualquer um à essas alturas deve saber, é a cinebiografia de Michael Jackson, nascido em meados da década de 1960 e, ainda bem pequeno (vivido por Juliano Valdi), transformado por seu pai Joe Jackson (Colman Domingo, absurdamente brilhante), no elemento central das apresentações dos Jackson Five, grupo musical que reunia Michael e seus outros quatro irmãos mais velhos – dentre os quais Jermaine Jackson, um dos produtores executivos.

Aqueles que adentrarem o filme buscando revelações inesperadas sobre Michael Jackson, ou detalhes nunca antes mostrados sobre sua vida pessoal certamente irão se decepcionar: O roteiro, assinado por John Logan (de “Gladiador” e “O Aviador”), certamente sob instrução da Família Jackson, não assume qualquer caráter investigativo. Ao invés disso, ele percorre com mal disfarçado enaltecimento todos os tópicos já bem conhecidos da trajetória de Michael Jackson – a infância perdida por conta das apresentações musicais (e uma tentativa de recuperá-la que perdurou por toda sua vida); a evolução do talento fora do normal nos anos 1970; a chegada dos anos 1980 e com eles o desejo de seguir uma carreira-solo, ainda que sempre oprimido pela sombra ameaçadora e tóxica do pai; a amizade com o empresário musical John Branca (Miles Teller); o acidente que afetou seu couro cabeludo e gradualmente tornou-o dependente de remédios para dor; os grandes e inesquecíveis sucessos.

Em sua fase já crescido, Michael é interpretado por Jaafar Jackson (filho de Jermaine e sobrinho do próprio Michael), que simplesmente desaparece dentro do personagem – não somente sua postura gestual evoca prontamente a desafiadora agilidade de Michael Jackson como também sua atuação, entonação de voz e expressividade captura todas as contradições, as vulnerabilidades e fragilidades que tornavam Jackson tão singular e fascinante, em contraponto ao artista de arrojo sem igual que ele era capaz de ser.

E é justamente nesses momentos – quando Michael dá vazão ao seu talento e à sua incontida extravagância como músico e dançarino – que o filme atinge seu ápice: O arrepiante momento em que ele cria a coreografia de “Beat It”; a inovadora realização do videoclipe de “Thriller”; a primeira vez que ele executou o famoso moonwalk ao som de “Billie Jean”; a vibrante turnê de “Bad”.

“Michael”, o filme, proporciona ao expectador uma sensação de arrebatamento muito próxima do que deveria ter sido testemunhar um dos apoteóticos shows do próprio Michael Jackson – e por isso mesmo, vê-lo na tela do cinema se faz uma prioridade – é um filme feito para fãs e não para expectadores ocasionais, e talvez nem fizesse sentido fazer algo diferente. O artista Michael Jackson pulsa em um filme feito com amor, entusiasmo e uma devoção absoluta.

A trama deixa o público no período de 1988, quando Michael finalmente se desvencilha do pai e dos Jackson Five e parte para uma fulgurante carreira-solo com o disco “Bad”. O já anunciado segundo filme, portanto, deve focar inevitavelmente nos desdobramentos mais polêmicos de sua vida e de sua carreira sucedidos justamente naqueles anos posteriores.

Não há nada disso nesta primeira parte, mais luminosa e inocente, nela somos brindados com um retrato feito com carinho, zelo e reconhecimento de um artista sem igual que passou pelo mundo trazendo uma qualidade de música e vibração que poucos foram capazes de igualar, e que buscou ainda assim viver sua vida, com esquisitices e tudo o mais, sob uma ribalta inclemente que lhe negou qualquer direito de ser imperfeito.