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sábado, 23 de maio de 2026

Michael


 Poucas vezes uma produção cinematográfica conseguiu polarizar de tal maneira as considerações da crítica e a recepção de público; se por um lado diversos críticos especializados logo apareceram apontando os defeitos estruturais da realização apaixonada do diretor Antoine Fuqua (que eventualmente estão lá), do outro lado, o público deu de ombros comparecendo em massa às salas de cinema, vibrando com as músicas e transformando o filme em um fenômeno.

“Michael”, como qualquer um à essas alturas deve saber, é a cinebiografia de Michael Jackson, nascido em meados da década de 1960 e, ainda bem pequeno (vivido por Juliano Valdi), transformado por seu pai Joe Jackson (Colman Domingo, absurdamente brilhante), no elemento central das apresentações dos Jackson Five, grupo musical que reunia Michael e seus outros quatro irmãos mais velhos – dentre os quais Jermaine Jackson, um dos produtores executivos.

Aqueles que adentrarem o filme buscando revelações inesperadas sobre Michael Jackson, ou detalhes nunca antes mostrados sobre sua vida pessoal certamente irão se decepcionar: O roteiro, assinado por John Logan (de “Gladiador” e “O Aviador”), certamente sob instrução da Família Jackson, não assume qualquer caráter investigativo. Ao invés disso, ele percorre com mal disfarçado enaltecimento todos os tópicos já bem conhecidos da trajetória de Michael Jackson – a infância perdida por conta das apresentações musicais (e uma tentativa de recuperá-la que perdurou por toda sua vida); a evolução do talento fora do normal nos anos 1970; a chegada dos anos 1980 e com eles o desejo de seguir uma carreira-solo, ainda que sempre oprimido pela sombra ameaçadora e tóxica do pai; a amizade com o empresário musical John Branca (Miles Teller); o acidente que afetou seu couro cabeludo e gradualmente tornou-o dependente de remédios para dor; os grandes e inesquecíveis sucessos.

Em sua fase já crescido, Michael é interpretado por Jaafar Jackson (filho de Jermaine e sobrinho do próprio Michael), que simplesmente desaparece dentro do personagem – não somente sua postura gestual evoca prontamente a desafiadora agilidade de Michael Jackson como também sua atuação, entonação de voz e expressividade captura todas as contradições, as vulnerabilidades e fragilidades que tornavam Jackson tão singular e fascinante, em contraponto ao artista de arrojo sem igual que ele era capaz de ser.

E é justamente nesses momentos – quando Michael dá vazão ao seu talento e à sua incontida extravagância como músico e dançarino – que o filme atinge seu ápice: O arrepiante momento em que ele cria a coreografia de “Beat It”; a inovadora realização do videoclipe de “Thriller”; a primeira vez que ele executou o famoso moonwalk ao som de “Billie Jean”; a vibrante turnê de “Bad”.

“Michael”, o filme, proporciona ao expectador uma sensação de arrebatamento muito próxima do que deveria ter sido testemunhar um dos apoteóticos shows do próprio Michael Jackson – e por isso mesmo, vê-lo na tela do cinema se faz uma prioridade – é um filme feito para fãs e não para expectadores ocasionais, e talvez nem fizesse sentido fazer algo diferente. O artista Michael Jackson pulsa em um filme feito com amor, entusiasmo e uma devoção absoluta.

A trama deixa o público no período de 1988, quando Michael finalmente se desvencilha do pai e dos Jackson Five e parte para uma fulgurante carreira-solo com o disco “Bad”. O já anunciado segundo filme, portanto, deve focar inevitavelmente nos desdobramentos mais polêmicos de sua vida e de sua carreira sucedidos justamente naqueles anos posteriores.

Não há nada disso nesta primeira parte, mais luminosa e inocente, nela somos brindados com um retrato feito com carinho, zelo e reconhecimento de um artista sem igual que passou pelo mundo trazendo uma qualidade de música e vibração que poucos foram capazes de igualar, e que buscou ainda assim viver sua vida, com esquisitices e tudo o mais, sob uma ribalta inclemente que lhe negou qualquer direito de ser imperfeito.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Top Gun - Maverick


 A carreira do astro Tom Cruise ascendeu de fato com “Top Gun-Ases Indomáveis” em 1986. De lá para cá, o filme curiosamente resistiu ao teste do tempo de uma forma um tanto quanto estranha: Ele se revela datado no que diz respeito a muitos de seus quesitos técnicos (embora as sequências aéreas sigam empolgando), seu romantismo soa por vezes descabido na justaposição da atitude impávida e atrevida de seu protagonista, e o resultado da soma de suas partes é a um só tempo brega, estiloso, extravagante e arrojado –características que o tornaram um “prazer culposo” na opinião que grande parte de público e crítica. Entretanto, ninguém consegue esquecer “Top Gun”. Nem seu astro Tom Cruise.

Prova de uma qualidade quase indefinível que ele ostentou todo esse tempo é o fato dele ganhar edições especiais em outras mídias, e ser lembrado em várias listas que apontam os filmes mais relevantes e/ou famosos de Tom Cruise. E “Top Gun” não tardou a ser cogitado quando diversos revivals apareceram no cinema hollywoodiano para resgatar narrativas dos anos 1980 com remakes, reboots ou continuações.

Após alguns anos de atraso de seu lançamento original por conta da pandemia, eis que enfim o público teve a chance de descobrir como é a continuação de um filme que, a rigor, não necessitava de continuação alguma –tanto é que o próprio Tom Cruise jamais envolveu-se em qualquer projeto para uma sequência ao longo dos anos, construindo uma sólida carreira com produções novas e inéditas.

“Maverick”  reflete as circunstâncias que definem seu protagonista dentro e, sobretudo, fora das telas: Em 1986, Tom Cruise era um jovem astro emergente, e “Top Gun” foi a prova cabal que ele deu a Hollywood de sua capacidade para hipnotizar o público e carregar um filme inteiro nas costas. Agora, em 2022, ele é um dos maiores, senão o maior astro hollywoodiano, e conduz uma carreira de produtor desde 1996, com “Missão Impossível” –ele assina “Maverick” também como produtor e a ficha técnica do filme é um reflexo claro de escolhas feitas por ele próprio. No lugar do diretor original, Tony Scott, falecido em 2012, entra Joseph Kosinski que dirigiu Cruise em “Oblivion”, e demonstrou plena capacidade de potencializar e atualizar narrativas dos anos 1980 com “Tron-O Legado”. Entre os roteiristas, salta aos olhos o nome de Christopher McQuarie, diretor dos quatro últimos filmes da franquia “Missão Impossível”, e escritor especializado em melhorar e valorizar a qualidade do material que tem em mãos. Todas essas decisões levam ao belíssimo filme que chegou ao cinema, trazendo um alívio bem-vindo ao público, já desiludido com um baixo nível de qualidade nesta temporada.

Quando reencontramos o personagem icônico de Tom Cruise, o piloto de caça Pete “Maverick” Mitchell, já se passaram trinta e seis anos desde a última vez que o vimos. Contudo, ele permanece sendo o mesmo piloto intrépido e indomável de antes, o que justifica o porque de, apesar de colecionar feitos louváveis em combate, ele se mantém no posto de capitão –no início do filme, ele desafia a autoridade de um almirante da Força-Aérea (ponta de Ed Harris) para provar que pilotos humanos ainda são relevantes numa época em que os drones com inteligência artificial começam a substituir o instinto humano.

Dessa enrascada, ele é resgatado por ninguém mais, ninguém menos do que o Almirante “Iceman” Kazansky –o retorno de Val Kilmer para esse personagem é, inclusive, um dos momentos mais comentados pelo público, pelo bonito gesto de Tom Cruise em lutar para ter Val Kilmer (acometido de um câncer na garganta que, em 2020, o levou a uma traqueostomia) e proporcionar a ele uma chance de brilhar, mesmo que inserindo sua voz na pós-produção com recursos digitais. Além disso tudo –e do bom ator que ele sempre foi –o personagem de Kilmer, ainda que breve, tem uma importância vital: É com a autoridade de almirante que Iceman leva Maverick a ser escolhido como instrutor para os novos cadetes do curso conhecido como ‘ases indomáveis’, o mesmo que ambos disputaram no passado.

A tarefa de Maverick é espinhosa e complicada: Seu trabalho é treinar para uma missão tão complexa quanto suicida (o bombardeio sincronizado a uma fábrica subterrânea com poucas chances de retorno seguro) um grupo de jovens pilotos de caça competitivos, rebeldes e narcisistas. E não deixa de ser curioso o fato de que esta produção, deliberadamente ou não, acabe fazendo alusão, em sua premissa, à um elemento que existia na trama de “Águia de Aço” –o desafio dos caças-aéreos seguir por um cânion apertadíssimo em com sérios riscos de colisão –justamente um dos filmes B imitando “Top Gun” que afloraram nos anos 1980; tanto que seu apelido pejorativo era “Top Gun dos pobres” (!) Para dificultar a situação de Maverick, há um detalhe pessoal envolvido; um dos competidores é “Rooster” Bradshaw (Miles Teller), filho do melhor amigo de Maverick, Gooze, morto em uma das missões do filme anterior.

Diferente, portanto, do filme original, “Maverick” alcança seu protagonista num outro ponto de sua vida. Agora um veterano, Maverick tenta equilibrar sua ousadia com a necessidade de ser mentor de toda uma nova geração de pilotos, enquanto tenta estabelecer um vínculo afetuoso com seu passado. Nessa jornada de auto-descoberta, o fator romântico acaba ainda mais negligenciado que antes –a linda e oscarizada Jennifer Connelly, substituindo adequadamente Kelly McGillis, tem uma personagem de pouca ou quase nenhuma influência dentro da trama. No entanto, a direção de Kosinski transforma “Top Gun-Maverick” num espetáculo visual e cinético crucial para ser visto em cinema: A mescla dos efeitos práticos, tomadas digitais, sequências aéreas reais e a tenacidade notória do astro Tom Cruise transformaram as cenas de combate no ar em passagens prodigiosamente impactantes que, diferente dos trechos no filme original, dificilmente serão sobrepujadas pelo tempo.

Contrariando a máxima de que continuações nunca repetem o fascínio do primeiro filme –ainda mais sendo esse primeiro filme um cult de características peculiares e valor singular intrínseco na cultura pop –“Maverick” se mostra um primor de acabamento técnico (as referências ao marcante estilo visual e musical do primeiro filme são um show à parte), um roteiro ponderado e sensato (se não é genial em sua construção, ele corresponde perfeitamente ao que se espera de sua premissa) e um resgate digno e empolgante, mesmo para os saudosistas, de uma das mais envolventes narrativas comerciais da década de 1980.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Reencontrando A Felicidade

Sempre um belo trabalho do diretor John Cameron Mitchell, este “Reencontrando A Felicidade” é uma audaciosa incursão no melodrama assumido, coisa que muitos diretores ‘cool’ na indústria cinematográfica de hoje tendem a evitar.
Os dias passam com certo vagar para Becca (Nicole Kidman). Sua casa é linda. Seu marido (Aaron Eckhart), carinhoso e atencioso. Ainda sim, não faltam momentos em que ela contempla o nada, perdida numa dimensão sombria de tristeza. E logo descobrimos o porquê: já contam oito meses que ela e Howie perderam seu filho Danny de quatro anos num acidente. Desde então nada funciona para tirar Becca de sua aflição. Ainda que a vida continue. Talvez, apenas talvez, sua recuperação possa estar relacionada com uma possível aproximação do angustiado adolescente também envolvido no tal acidente (um iniciante Miles Teller).

Nicole Kidman está realmente um primor neste belo e delicado conto sobre a árdua superação do luto, seu melhor trabalho em anos pelo qual ela recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz em 2010.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Quarteto Fantástico

Talvez, o filme mais massacrado pela crítica e ignorado pelo público do ano. 
Mas, falando francamente, não chega a ser essa bomba que muitos falam. Não chega, também, a ser bom. Entretanto, não acho que mereça ganhar, por exemplo, o prêmio de Pior Filme de 2015, no Framboesa de Ouro (embora essa possibilidade exista). 
É uma ficção científica esmerada em sua maior parte do tempo, e com boa e caprichada produção. O problema desse novo “Quarteto Fantástico” é que suas qualidades ficam à sombra de seus erros, que depõem contra o bom produto que poderia ter sido. E em seu terço final, a narrativa se ressente dos problemas do filme, empalidecendo, cedendo à essa pressão, e concluindo muitas cenas com artifícios que beiram o ridículo, o quê é terrível para um filme que começa pretendendo-se realista, no nível dos filmes de Christopher Nolan. 
Outra influência que o filme parece ter é o “Hulk” de Ang Lee: Ele, por vezes, parece desviar-se de muitas características enraizadas dos quadrinhos (e que foram respeitadas à risca nas adaptações anteriores feitas em 1988, por Roger Corman –e nunca lançada comercialmente –e 2005, por Tim Story), para abraçar um conceito de gênero mais específico, mais calcado em alterações artisticamente justificáveis. Mas, o diretor Josh Trank (do muito mediano “Poder Sem Limites”) não tem aquela profunda noção de narrativa de Ang Lee, que permitiu a ele dar a seu “Hulk” uma atmosfera tão pouco usual. Na verdade, não falta somente essa noção de narrativa à Trank; falta-lhe também uma certeza do que, de fato, ele quer, qual é a direção que, afinal, pretende dar a seu filme. É isso tudo que prejudica as coisas, e faz com que o roteiro, o elenco, e todo o mais se perca em dado momento. 
Cenas particularmente ridículas: Quando resolvem fazer a tal viagem interdimensional, Reed Richards tem a idéia de levar seu melhor amigo com eles, Ben Grimm, que nada mais é do que um latoeiro trabalhando num ferro-velho. Por quê? Porque morando próximos um do outro quando eram crianças, e ele é seu amigo! Outra: Ao fazerem a viagem (Reed, Ben, e mais Johnny Storm e Victor Von Doom), eles esquecem (ou talvez a produção tenha esquecido...) do outro membro do quarteto fantástico, Sue Storm, a futura mulher-invisível; ela fica na Terra (!). Mas, como ela obtem seus poderes? Bem, isso não é muito bem explicado pelo filme, mas parece que ela os adquire quando a nave retorna, e emite uma espécie de explosão de energia. Mas, o mesmo acontece em outros momentos do filme (a viagem interdimensional com essa explosão de energia), pelo menos umas outras três vezes, e em todas elas, outras pessoas estão ali presentes, sem que nada lhes aconteça! 
Agora, eu percebo que, se for elaborar todos os deslizes que vão se sucedendo no filme a partir de determinado ponto, este se tornará um texto grande demais. Resumindo: “Quarteto Fantástico” nos faz perceber que, embora façam parecer fácil, as adaptações bem-sucedidas e bem feitas da DC Comics e, em especial, da Marvel Studios são trabalhos feitos com cuidado e critério, que merecem nosso reconhecimento.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Whiplash - Em Busca da Perfeição

Um dos filmes mais surpreendentes de 2015, este grande trabalho debruça-se sobre o bullying e faz uma análise expressiva sobre os desdobramentos psicológico do mau trato, sem jamais adotar os vícios do melodrama: À direção, interessa somente os elementos paradigmáticos da ação, ou do terror (!), empregados de maneira tão inusitada quanto brilhante nesta obra fantástica.
Obtendo uma vaga na prestigiada Escola de Música Shaffer, o obstinado baterista Andrew Neiman (Miles Teller) arruma também uma posição na banda do perfeccionista Terence Fletcher (J.K. Simmons, até então famoso como o J.J. Jameson da Trilogia “Homem-Aranha”, dirigida por Sam Raimi).
O problema é que para obter o mais impecável desempenho, Fletcher lança mão dos metodos mais cruéis, que deixam seus alunos em frangalhos, física e psicologicamente. Neiman está embarcando assim num verdadeiro pesadelo ao submeter-se a esse crivo esmagador para conseguir nada menos que a perfeição.
O desconhecido Damien Chazzelle dirige este trabalho brilhante com insuspeito primor, dando à narrativa a cadência e a força do instrumento que a simboliza: a bateria.
 No cerne desta obra sensacional, brilham as atuações magníficas de Miles Teller e do assustador e fantástico J.K. Simmons (Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante).