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terça-feira, 7 de junho de 2022

Top Gun - Maverick


 A carreira do astro Tom Cruise ascendeu de fato com “Top Gun-Ases Indomáveis” em 1986. De lá para cá, o filme curiosamente resistiu ao teste do tempo de uma forma um tanto quanto estranha: Ele se revela datado no que diz respeito a muitos de seus quesitos técnicos (embora as sequências aéreas sigam empolgando), seu romantismo soa por vezes descabido na justaposição da atitude impávida e atrevida de seu protagonista, e o resultado da soma de suas partes é a um só tempo brega, estiloso, extravagante e arrojado –características que o tornaram um “prazer culposo” na opinião que grande parte de público e crítica. Entretanto, ninguém consegue esquecer “Top Gun”. Nem seu astro Tom Cruise.

Prova de uma qualidade quase indefinível que ele ostentou todo esse tempo é o fato dele ganhar edições especiais em outras mídias, e ser lembrado em várias listas que apontam os filmes mais relevantes e/ou famosos de Tom Cruise. E “Top Gun” não tardou a ser cogitado quando diversos revivals apareceram no cinema hollywoodiano para resgatar narrativas dos anos 1980 com remakes, reboots ou continuações.

Após alguns anos de atraso de seu lançamento original por conta da pandemia, eis que enfim o público teve a chance de descobrir como é a continuação de um filme que, a rigor, não necessitava de continuação alguma –tanto é que o próprio Tom Cruise jamais envolveu-se em qualquer projeto para uma sequência ao longo dos anos, construindo uma sólida carreira com produções novas e inéditas.

“Maverick”  reflete as circunstâncias que definem seu protagonista dentro e, sobretudo, fora das telas: Em 1986, Tom Cruise era um jovem astro emergente, e “Top Gun” foi a prova cabal que ele deu a Hollywood de sua capacidade para hipnotizar o público e carregar um filme inteiro nas costas. Agora, em 2022, ele é um dos maiores, senão o maior astro hollywoodiano, e conduz uma carreira de produtor desde 1996, com “Missão Impossível” –ele assina “Maverick” também como produtor e a ficha técnica do filme é um reflexo claro de escolhas feitas por ele próprio. No lugar do diretor original, Tony Scott, falecido em 2012, entra Joseph Kosinski que dirigiu Cruise em “Oblivion”, e demonstrou plena capacidade de potencializar e atualizar narrativas dos anos 1980 com “Tron-O Legado”. Entre os roteiristas, salta aos olhos o nome de Christopher McQuarie, diretor dos quatro últimos filmes da franquia “Missão Impossível”, e escritor especializado em melhorar e valorizar a qualidade do material que tem em mãos. Todas essas decisões levam ao belíssimo filme que chegou ao cinema, trazendo um alívio bem-vindo ao público, já desiludido com um baixo nível de qualidade nesta temporada.

Quando reencontramos o personagem icônico de Tom Cruise, o piloto de caça Pete “Maverick” Mitchell, já se passaram trinta e seis anos desde a última vez que o vimos. Contudo, ele permanece sendo o mesmo piloto intrépido e indomável de antes, o que justifica o porque de, apesar de colecionar feitos louváveis em combate, ele se mantém no posto de capitão –no início do filme, ele desafia a autoridade de um almirante da Força-Aérea (ponta de Ed Harris) para provar que pilotos humanos ainda são relevantes numa época em que os drones com inteligência artificial começam a substituir o instinto humano.

Dessa enrascada, ele é resgatado por ninguém mais, ninguém menos do que o Almirante “Iceman” Kazansky –o retorno de Val Kilmer para esse personagem é, inclusive, um dos momentos mais comentados pelo público, pelo bonito gesto de Tom Cruise em lutar para ter Val Kilmer (acometido de um câncer na garganta que, em 2020, o levou a uma traqueostomia) e proporcionar a ele uma chance de brilhar, mesmo que inserindo sua voz na pós-produção com recursos digitais. Além disso tudo –e do bom ator que ele sempre foi –o personagem de Kilmer, ainda que breve, tem uma importância vital: É com a autoridade de almirante que Iceman leva Maverick a ser escolhido como instrutor para os novos cadetes do curso conhecido como ‘ases indomáveis’, o mesmo que ambos disputaram no passado.

A tarefa de Maverick é espinhosa e complicada: Seu trabalho é treinar para uma missão tão complexa quanto suicida (o bombardeio sincronizado a uma fábrica subterrânea com poucas chances de retorno seguro) um grupo de jovens pilotos de caça competitivos, rebeldes e narcisistas. E não deixa de ser curioso o fato de que esta produção, deliberadamente ou não, acabe fazendo alusão, em sua premissa, à um elemento que existia na trama de “Águia de Aço” –o desafio dos caças-aéreos seguir por um cânion apertadíssimo em com sérios riscos de colisão –justamente um dos filmes B imitando “Top Gun” que afloraram nos anos 1980; tanto que seu apelido pejorativo era “Top Gun dos pobres” (!) Para dificultar a situação de Maverick, há um detalhe pessoal envolvido; um dos competidores é “Rooster” Bradshaw (Miles Teller), filho do melhor amigo de Maverick, Gooze, morto em uma das missões do filme anterior.

Diferente, portanto, do filme original, “Maverick” alcança seu protagonista num outro ponto de sua vida. Agora um veterano, Maverick tenta equilibrar sua ousadia com a necessidade de ser mentor de toda uma nova geração de pilotos, enquanto tenta estabelecer um vínculo afetuoso com seu passado. Nessa jornada de auto-descoberta, o fator romântico acaba ainda mais negligenciado que antes –a linda e oscarizada Jennifer Connelly, substituindo adequadamente Kelly McGillis, tem uma personagem de pouca ou quase nenhuma influência dentro da trama. No entanto, a direção de Kosinski transforma “Top Gun-Maverick” num espetáculo visual e cinético crucial para ser visto em cinema: A mescla dos efeitos práticos, tomadas digitais, sequências aéreas reais e a tenacidade notória do astro Tom Cruise transformaram as cenas de combate no ar em passagens prodigiosamente impactantes que, diferente dos trechos no filme original, dificilmente serão sobrepujadas pelo tempo.

Contrariando a máxima de que continuações nunca repetem o fascínio do primeiro filme –ainda mais sendo esse primeiro filme um cult de características peculiares e valor singular intrínseco na cultura pop –“Maverick” se mostra um primor de acabamento técnico (as referências ao marcante estilo visual e musical do primeiro filme são um show à parte), um roteiro ponderado e sensato (se não é genial em sua construção, ele corresponde perfeitamente ao que se espera de sua premissa) e um resgate digno e empolgante, mesmo para os saudosistas, de uma das mais envolventes narrativas comerciais da década de 1980.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O Dia Em Que A Terra Parou


 Antes da impressão um tanto razoável de que o diretor Scott Derikson estava a adentrar território sagrado refilmando o clássico da ficção científica de 1951, é preciso lembrar que o filme original, dirigido então por Robert Wise, já é antigo o bastante para permitir uma repaginada bastante promissora, sobretudo no que tange aos seus aspectos técnicos; elemento sempre importante no gênero da ficção científica.

E Derikson ainda faz um esforçado dever de casa: Ele capricha no trabalho de condução e direção, ciente da oportunidade preciosa que ganhara (após o surpreendente sucesso de seu “O Exorcismo de Emily Rose”), e seu roteiro, para além da trama de simplicidade alegórica anti-belicista que definia o original, acrescenta elementos que se fazem pertinentes, especialmente na primeira parte, em que seu fôlego narrativo ainda se mostra ávido.

As coisas já começam interessantes no prólogo, a mostrar um alpinista (Keanu Reeves) tendo um contato imediato com um ser de outro mundo numa longínqua montanha gélida: Eis, portanto, a origem, por assim dizer, do corpo terreno do alienígena Klaatu.

Corta então para a atualidade, para a personagem da belíssima Jennifer Connelly, Dra. Benson, recrutada em seu próprio lar, na calada da noite e em circunstâncias nebulosas, para integrar um time de especialistas numa operação sem precedentes: Um objeto voador não identificado está vindo do espaço com rota fixada em Londres. E os indícios mais recentes, de desacelaração e manobra aérea, indicam que não é um meteoro ou um asteróide qualquer e sim uma nave tripulada.

É curioso como filmes envolvendo extraterrestres têm, na primeira parte de sua premissa, os momentos mais sugestivos e instigantes: Observe como a mesma coisa acaba acontecendo em “Independence Day”, do qual o filme de Derikson acaba, invariavelmente, pegando alguns elementos emprestados –a atmosfera iminentes de fim do mundo, o retrato algo clichê da relação cientistas/militares, a postura sempre relapsa das autoridades (representada aqui por uma pouco aproveitada Kathy Bates) e, certamente, a confiança desmesurada depositada nos efeitos visuais de ponta.

É logo em seguida, contudo, que o novo “O Dia Em Que A Terra Parou” mostra um de seus maiores trunfos: Quando, já na iminência do contato entre os humanos perplexos e os alienígenas visitantes, o ser do espaço se revela numa familiar aparência humana, interpretado assim por Keanu Reeves –sempre um bom ator que, pelo perfil camaleônico de toda sua filmografia e pela postura algo questionadora com que sempre guiou sua carreira, acaba caindo como uma luva no papel do alienígena Klaatu!

Pena que não demora muito –logo depois que Klaatu resolve fugir do confinamento onde as autoridades terrenas tentam colocá-lo, na companhia da Dra. Benson, o único humano sensato que achou pela frente –para o filme engatar uma marcha mais desanimadora, rumo a um sem-fim de cenas que estiveram em quase todas as obras do gênero a tratar de invasão alienígena nos últimos tempos: O poder incontrolável que ameaça toda a raça humana (na forma do robô Gort, sabiamente mantido em suas características memoráveis do filme anterior); a gradual descoberta do alienígena de que a humanidade merece, sim, ser poupada apesar de seus erros que comprometeram o ecossistema da Terra (o que responde pela demagógica participação de John Cleese); e até mesmo a relação um tanto forçada (certamente o aspecto mais enfadonho do filme) entre o alienígena e o garotinho, filho adotivo da Dra. Benson, vivido sem a menor inspiração por Jaden Smith, filho do próprio Will Smith.

Há menos inocência nesta refilmagem em comparação com o clássico antibélico de Robert Wise –o antigo “O Dia Em Que A Terra Parou” requer cumplicidade do expectador atual para ser devidamente compreendido e aproveitado –mas, a tensão política, a reflexão ecológica (uma conclusão bastante óbvia) e as imagens visualmente recauchutadas para uma nova geração não chegam a ser tão marcantes quanto o foram nos anos 1950; talvez nem seja culpa do filme mediano que Derikson entregou: Os expectadores de hoje em dia se habituaram a não se surpreender com nada e a se incomodar com tudo.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Requiem Para Um Sonho


 Para uns a ideia da revisão de um filme tão extenuante, impactante e incômodo como “Requiem Para Um Sonho” pode parecer loucura; para mim, contudo, significa a chance de rever e redescobrir uma das mais sensacionais obras de cinema realizadas nos anos 1990 –até então ainda o melhor trabalho de Darren Aronofsky –relembrar o porque de minha obcecada paixonite por Jennifer Connelly durante aqueles idos (plenamente justificada neste filme e em outros projetos excelentes) e profundar-me ainda mais nos códigos e detalhes subliminares que proporcionam novas impressões da obra. Sim, pois embora seja comum afirmar que alguns filmes devem ser revistos de tempos já que eles mudam, minha opinião é outra: Somos NÓS que mudamos. Nossa bagagem cultural e sentimental muda, nos tornando capazes de perceber nuances que já estavam lá, mas não nos foi possível apreender.

E não tenham dúvidas, isso acontece com “Requiem Para Um Sonho”, desde seu prosaico início, numa cena em tela dividida que lembra as experimentações de Brian De Palma, quando vemos o viciado Harry (Jared Leto, melhor que no oscarizado “Clube de Compras Dallas”) tomar, pela enésima vez, a televisão da mãe (Ellen Burstyn) a fim de vendê-la e usar o dinheiro para comprar drogas.

Adaptado do livro de Hubert Shelby Jr. o filme de Aronofsky divide-se em três capítulos graduais, incisivos e inevitáveis: “Verão”, “Outono” e “Inverno”, qual as estações do ano. Neles, testemunhamos a derrocada dos quatro protagonistas –Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly e Marlon Mayans –deflagrada pelo vício.

Em “Verão”, acompanhamos Harry e Tyrone (Mayans) colhidos no êxtase de seu consumo de cocaína, na empolgação radiante em tornarem-se, de usuários para fornecedores, no fascînio de, em princípio, ver esse plano dando certo.

Acompanhamos também a linda Marion (Jennifer Connelly, e bota linda nisso!), namorada de Harry, às voltas com seu romance, com os pais ricos dos quais ela buscou se desvencilhar, com o sonho de abrir uma loja de roupas. E ainda há Sara, a mãe de Harry, cujo vício era até então apenas sua compulsão em ver TV –mais especificamente um programa picareta de compras e vendas.

O sonho de Sara –de aparecer, ela própria nesse programa –parece magicamente querer realizar-se quando ela recebe um inesperado telefonema dos negociadores de participações no programa. A ideia arrebatadora de ver-se na TV logo acende em Sara o desejo de entrar num antigo vestido vermelho no qual ela não cabe mais. Sara decide emagrecer. E após as penosas tentativas de fazer regime, ela cede à sugestão das amigas para tomar anfetaminas receitadas por um médico.

Em “Outono”, a espiral de tormento começa a dar as caras nas trajetórias de todos. Harry e Tyrone já não conseguem manter a prosperidade de antes, e uma guerra de gangues nos arredores de Coney Island torna as drogas que consomem escassas nas ruas, obrigando a própria Marion a fazer alguns sacrifícios que não queria, entre eles, pedir dinheiro ao sórdido e libidinoso personagem vivido por Sean Gullette (protagonista de “Pi”, o filme anterior de Aronofsky) a um custo doloroso e ultrajante. Sara, por sua vez, vai se tornando cada vez mais dependente das anfetaminas –a medida que o efeito desejado por elas vai rareando –sem notar as mudanças comportamentais e fisiológicas que as drogas prescritas lhe infligem.

Em “Inverno”, vemos tudo desandar. Harry e Tyrone resolvem ir para a Flórida negociar com os próprios fornecedores de drogas, mas jamais chegam lá de fato: Acabam encarcerados antes disso, sobretudo, Harry cujo braço já ostentava uma terrível pústula, resultado de frequentes picos de heroína sem qualquer prevenção. Marion, por fim, acaba se prostituindo como única maneira de prover o vício que lhe consome as entranhas. E Sara, perde em definitivo a sanidade –no que pode ser visto como um filme de terror sem os elementos do terror –singrando alucinada e decadente pelas ruas até ser internada e submetida a eletrochoques.

Na crítica corrosiva e implacável que traça da desumanização dos programas televisivos para com a própria audiência que alicia, e dos médicos negligentes que prescrevem drogas lícitas (mas não menos nocivas) aos pacientes mal tendo lhes examinado, o filme de Aronofsky se impõe como uma das mais corajosas e poderosas narrativas de denúncia do final da década de 1990, estabelecendo conceitos arrojados que demorariam ainda um bom tempo para serem assimilados pelo cinema mainstream. Não é intenção de Aronofsky ser necessariamente realista –embora muitos presumem que aqui ele o seja –seu filme é mais uma fábula transfiguradora da realidade, a capturar um horror subjetivo na inocência maculada de quatro personagens bem escritos, magnificamente bem dirigidos e interpretados, todos, de maneira comovente.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Sete Minutos No Paraíso


 O cinema de cada década possui seus próprios esforços cinematográficos para entender a juventude de seu período, como “Juventude Transviada” (anos 1950), “O Clamor do Sexo” (anos 1960) ou “Os Embalos de Sábado À Noite” (anos 1970), mas é inegável que a década de 1980 trouxe novas percepções a essa faceta tão interessante da arte cinematográfica.

Se por um lado haviam realizadores criados a partir de um amplo espectro referencial que abarcava outras grandes obras de cinema (ao contrário das gerações anteriores de cineastas que precisaram descobrir seu próprio caminho), por outro lado, a juventude dos anos 1980 apresentava idiossincrasias e sensibilidades inéditas na comparação com os jovens de outrora, nascidos e crescidos em condições históricas, culturais e sociais bem distintas.

Tudo isso, para falar de um filme que, no fim das contas, quase deixa todas essas questões de relevância um pouco de lado, ao quase afundar num pedantismo água-com-açucar: O pequeno clássico da sessão da tarde “Sete Minutos No Paraíso”.

Mais lembrado pela presença já magnética de uma belíssima e iniciante Jennifer Connelly do que por qualquer outra coisa, o filme começa com seus três protagonistas adolescentes, moradores da cidade de Cincinnati, e seus dramas de trajetórias entrecruzadas uns com os outros. Há Natalie (personagem de Jennifer), uma garota comportada e responsável na maior parte do tempo –ela procura passar, para o pai e para as outras pessoas, a imagem mais madura possível, numa forma de disfarçar a falta da mãe, falecida desde que ela era pequena. Há também Jeff (Byron Thames), garoto da mesma idade, enfrentando contratempos em casa: A mãe constantemente fica do lado do padrasto quando ele e Jeff têm algum atrito; e isso o leva à eventual ‘fuga de casa’.

Uma vez que o pai de Natalie fará uma viagem de algumas semanas, hospedar-se temporariamente na casa dela –que insistiu ser capaz de ficar sozinha em casa –torna-se a saída perfeita para os apuros de Jeff (!).

A terceira protagonista –e a mais irritante dos três –é Polly (Maddie Corman, de “Uma Manhã Gloriosa” e “Mesmo Se Nada Der Certo”), cujos objetivos, por falta de algo mais o que fazer, é descobrir os segredos do sexo –antes que seja a última dentre suas amigas a fazê-lo!

São as alegrias e tristezas desses três amigos que compõem a narrativa durante o recorte de tempo em que o filme dirigido por Linda Feferman se dispõe a acompanhá-los: Morando improvisadamente sob o mesmo teto, Natalie e Jeff estabelecem uma rotina tumultuada, sobretudo, quando a garota adquire seu primeiro namoradinho (Alan Boyce), um craque esportivo da escola pouco disposto a fazer dela seu interesse romântico exclusivo; ao mesmo tempo, uma iminente viagem para Washington acirra os ânimos de Natalie.

De sua parte, Polly salta de uma paixonite injustificada para outra: Primeiro, ela se apaixona pelo esquisito Zoo Knudsen (Billy Wirth, de “Os Garotos Perdidos”), jogador de beisebol famoso com quem ela teve um breve, travesso e gracioso encontro –os “sete minutos no paraíso” como ela diz, dando assim nome ao filme –e, a esse romance idealizado, segue-se inevitavelmente à desilusão. Em seguida, Polly se apaixona por um fotógrafo mais velho que lhe deu abrigo durante uma inconsequente viagem à Nova York.

O trabalho da diretora Linda Feferman neste singelo compêndio de aventuras e desventuras adolescentes exala certa sensibilidade (prova de seu olhar profundamente pessoal é a atenção muito maior dedicada às duas garotas, ainda que de personalidades bem opostas, e menos ao garoto que surge quase como alívio cômico), entretanto, Feferman não tem a mesma compreensão intrínseca ostentada por John Hugues naquele mesmo período, além de ser também prejudicada por algum amadorismo; seu filme, com frequência, confunde delicadeza com enfado, e os acontecimentos transcorridos a centrar seus três protagonistas se dispersam tanto na sutileza empregada, soam tão amenos em sua tranquilidade que isso drena do filme qualquer capacidade para se fazer memorável.

Há certa sinceridade em “Sete Minutos No Paraíso” –e ela parece mais perceptível quando Jennifer Connelly, a mais hábil e capaz dentre seus jovens intérpretes está em cena, a despeito de uma personagem pouco elaborada –contudo, no limitado fôlego narrativo de sua diretora, essa premissa construída em torno de três amigos às voltas com amores, família e crescimento soa como uma fugaz distração para uma fase mais importante que virá depois; tanto para os personagens, como para nós mesmos.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Alita - Anjo de Combate

O diretor mexicano Robert Rodriguez sobe adaptar sua personalidade e seu ímpeto criativo às mais diversas parcerias ao longo de sua carreira: Ele realizou um belo exemplar de terror e ficção científica para adolescentes nos anos 1990 junto do roteirista Kevin Williamson (“Prova Final”); fez uma adaptação de histórias em quadrinhos revolucionária em termos visuais e narrativos ao lado de Frank Miller (“Sin City-A Cidade da Pecado”); ele moldou, com Quentin Tarantino, uma das mais desiguais tentativas em formato cinematográfico de peitar o mainstream hollywoodiano (“Projeto Grindhoude”).
Aqui, desta vez, Rodriguez trabalha sob a produção de James Cameron, e o resultado do encontro entre dois notáveis estilo de se fazer cinema é um filme arrojado, cheio de humanidade e uma certa acidez para com os rumos convencionais que assombram sua trama.
Desde os anos 1990, a adaptação dos quadrinhos japoneses, “Alita”, de autoria de Yukito Kishiro, vinha sendo o projeto acarinhado por James Cameron –ele chegou até mesmo a criar a série de TV “Dark Angel” (que revelou Jessica Alba) para testar vários conceitos que seriam manejados em “Alita”.
O tempo passou e o período cada vez maior de produção e pós-produção adotado por Cameron entre seus projetos inviabilizou a possibilidade dele dirigir “Alita” –no momento, Cameron trabalha a onze anos (!) nas continuações de seu sucesso “Avatar” –o que o levou a assumir a produção e deixar a direção do projeto a cargo de Robert Rodriguez.
Não obstante a experiência de Rodriguez com produções de baixo orçamento –em contraponto, à Cameron cujas produções sempre são hiperlativas –“Alita” exigia um certo desembaraço na lida com os efeitos digitais: Uma das razões pelo longo tempo de maturação do projeto foi a espera para que a tecnologia fosse capaz de materializar em cena a protagonista do modo com que ela é no mangá –Alita é uma síntese entre humano e máquina, e essa característica está em seu designer desafiador no qual ela é expressiva e vívida sugerindo ao mesmo tempo uma, digamos, artificialidade sintética em seu aspecto.
Estamos no futuro, mais necessariamente no ano de 2563. A gigantesca e futurista cidade de Zalem flutua muito acima da superfície. Nela há uma espécie de ralo por onde caem dejetos de tecnologia descartados. Todos vão parar no aterro da Cidade de Ferro, uma gigantesca favela high-tech surgida à sombra de Zalem povoada de pessoas que alimentam a vã esperança de um dia subir à cidade voadora.
Em meio a esses escombros, o cientista Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz) encontra a carcaça de uma andróide de uma tecnologia avançada e perdida. Ele a repara, dando-lhe próteses cibernéticas e batizando-a de Alita (nome de sua filha que morreu).
Inteligência cibernética extremamente avançada dotada de um cérebro humano, Alita (vivida por meio de captura de performance pela jovem Rosa Salazar, de “Maze Runner”) não retém as lembranças de quem um dia foi; ela é, em vez disso, uma criança: Absorve e aprende com assombro e inocência tudo o que se passa a sua volta.
Contudo, ela aprende rápido: Logo descobre que seu pai, um benevolente e caridoso consertador de ciborgues defeituosos de dia, é um dos muitos caçadores de recompensas que patrulham as ruas à noite, a procura de perigosos bandidos com a cabeça à prêmio.
Ao descobrir isso –e no processo descobrir também a formidável aptidão que possui para lutar –Alita almeja ser uma caçadora de recompensas também, mas, isso não dura muito; convencido pelo namoradinho Hugo (Keean Johnson), ela resolve se tornar uma jogadora de Motorball, um esporte violento e brutal, no qual os campeões estão entre os raros indivíduos agraciados com a chance de ascender para Zalen.
No decurso de descoberta de suas origens e de se firmar nesse admirável novo mundo, Alita chama a atenção de alguns homens poderosos e influentes nesse mundo tecnológico a que ela pertence, como é o caso de Vector (o fantástico Mahershala Ali), financiador do Motorball, e o misterioso Nova, provavelmente grande vilão do filme e até mesmo das vindouras continuações, se elas chegarem a serem produzidas...
De fato, são muitos os elementos em comum entre “Alita” e as inúmeras obras marcantes de filmografia de James Cameron: Uma protagonista feminina extraordinariamente carismática, uma visão espetacular do futuro rica em textura e minimalismo; uma premissa que, a sua maneira, coloca a personagem central no cerne de um embate que pode mudar os rumos do mundo; um arranjo emocional e humano para dar algum tempero; e uma conjugação perfeita e impactante entre o espetáculo da ação e o arrojo dos efeitos visuais.
A esse sedutor cardápio de escapismo hollywoodiano, o diretor Robert Rodriguez acrescenta seu próprio e instigante estilo e reserva espaço para deixar o material bastante fiel à sua fonte, uma história tipicamente cyberpunk, como é habitual em realizações oriundas de mangás como “Akira” ou “Ghost In The Shell”.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Círculo de Paixões

Este drama romântico juvenil lançado nos anos 1990 pouco consegue fazer para evitar a sensação de que sua premissa e toda sua produção se centralizam no casalzinho formado, inclusive na vida real, por Joaquim Phoenix e Liv Tyler, dois jovens astros proeminentes do período.
Ele, irmão do falecido poucos anos antes (e também muito promissor) River Phoenix, vindo de uma participação extremamente aclamada em “Um Sonho Sem Limites”, de Gus Van Sant.
Ela, uma badalada modelo, filha do vocalista do Aerosmith, Steve Tyler (havia até participado do videoclipe “Crazy” da banda do pai), em auspiciosa tentativa de emplacar como atriz.
Joaquim vive Doug Holt. Liv vive Pamela Abbott. E o romance entre os dois é tão óbvio quanto os obstáculos que também haverão de comparecer para impedir que seu amor se concretize, no melhor estilo “Romeu & Julieta” –obra que surge como a referência maior em meio à trama, situada na segunda metade da década de 1950.
No raso comentário social que o filme se presta, a cidadezinha de Haley tem seus aristocratas de praxe que inspiram admiração em uns e inveja em outros. Tais aristocratas são a Família Abbott composta do pai, Lloyd (Will Patton), da mãe, Joan (Barbara Williams) e das três irmãs, a abnegada Alice (Joanna Going), a intransigente Eleanor (a espetacular Jennifer Connelly) e a bem-comportada Pamela.
Certamente é esse misto de fascínio e amargura com o qual elas são vistas pelo jovem Jacey Holt (Billy Crudup) a ponto delas tornarem-se uma obsessão que o consumirá ao longo de todo o filme –até porque há uma nebulosa ligação entre os Abbott e sua família que será gradativamente elucidada ao longo do filme.
Contudo, não é pelos olhos de Jacey que acompanhamos a histórias, mas, sim pelos de Doug, seu irmão mais novo que, desde o início, luta para não alimentar o mesmo sentimento negativo que intoxica o irmão.
Se jacey, de início busca seduzir a mais rebelde as Irmãs Abbott, Eleanor, Doug até tenta evitar, mas não consegue desvencilhar-se dos percalços que sempre o aproximam de Pamela.
A despeito das intrigas familiares que os cercam –uma fofoca maldosa envolvendo sua mãe (Kathy Baker, de “Edward-Mãos deTesouras”) e o senhor Lloyd; os motivos mal-explicados que envolvem o acidente que matou o pai deles e as mentiras do próprio Jacey –Doug e Pamela parecem construir tímida e inocentemente um vínculo amoroso genuíno e puro.
Entretanto, como bem observa a direção algo padronizada de Pat O’ Connor (do estranho “O Calendário da Morte”), todos os demais personagens que rodeiam o casal protagonista parecem gravitar em uma ciranda de sordidez: Após um caso escandaloso com Eleanor (que a leva a ir embora de Haley), o obcecado Jacey volta suas atenções para Alice cujo casamento arranjado pelos pais atravessa uma fase ruim, perfeita para o aparecimento de sedutores ocasionais.
A narrativa, numa aparente falta do que fazer, justapõe os dois irmãos (vividos por bons atores, é preciso dizer) e suas personalidades incompatíveis –o rancoroso e, no fim, inescrupuloso Jacey, e o ingênuo e bem-intencionado Doug –para, no final das contas, empregar isso como uma mera lição de moral, sem maiores aprofundamentos.
O livro de Sue Miller, do qual se inspira, certamente trazia uma miríade narrativa muita mais rica para ser examinada diante de tantos personagens unidos numa mesma trama, mas a produção preguiçosamente não explorou nenhuma dessas possibilidades, focando única e exclusivamente no apelo do casal central junto ao público jovem daquela época.
No final, por uma ironia suprema, nem isso acabou sobressaindo: “Círculo de Paixões”, quando muito, é hoje mais lembrado por uma breve e transcendental cena de nudez de Jennifer Connelly do que por qualquer outra coisa!

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Um Conto do Destino

A carreira de Akiva Goldsman tem vários altos e baixos: Se por um lado foi responsável pelo roteiro de “Batman & Robin”, de Joel Schumacher, um dos piores filmes já lançados na década de 1990, por outro, ele conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por seu bom trabalho no elogiado “Uma Mente Brilhante”, de Ron Howard.
Os acertos de sua trajetória, certamente mais do que os erros, o encorajaram a estrear também como diretor neste filme cuja trama, baseada no livro de Mark Helprin, ele cultivou por muito tempo. Sua longeva experiência na indústria arregimentou cintilantes participações de famosos para a produção –presenças que saltam aos olhos ao longo do filme.
Num prólogo que já deixa claro o tráfego da história por distintas épocas, descobrimos que o jovem orfão Peter Lake (Colin Farrell) é um ladrão na Nova York de 1916.
Perseguido pelo gangster que fora seu antigo contratador, Pearly Soames (Russell Crowe, demoníaco), ele tem a vida salva de modo bastante surreal por um cavalo branco (!) –é necessário que o expectador aceite de antemão a atmosfera mágica que envolve os desdobramentos de todo o filme a partir daí, caso contrário, corre o risco de ficar muito irritado.
Em sua fuga de Nova York, o reduto de Pearly, Peter encontra a jovem Beverly Penn (Jessica Brown Findlay, tão embriagada pela natureza lúdica da personagem que parece interpretar sob efeito de alucinógenos) e por ela se apaixona.
Mas, Beverly está morrendo de tuberculose. Em sua esperança, Peter anseia por um milagre, no entanto, os recursos satânicos de Pearly –que negocia com o próprio Lúcifer interpretado por Will Smith –sabotam as chances de seu amor por Beverly acontecer.
Ela morre, o que mergulha Peter numa amnésia que o transforma num mendigo sem identidade em Nova York ao longo de quase 100 anos (!).
Até que suas memórias são reavivadas por uma garotinha que padece de câncer. A mãe dela, Virginia (Jennifer Connelly), uma jornalista, passa a ajudar Peter na tentativa de compreender as razões, um tanto incompreensíveis, do porque sua existência desafia o tempo –e do porque ele ainda tem uma tarefa a cumprir.
Munido de um produção requintada –na qual a passagem do tempo é registrada, sobretudo, numa direção de arte prodigiosa –Akiva Goldsman moldou um drama romântico de elementos fantásticos que nunca se harmonizam ou fazem sentido em algum momento. As referências para com a religião embutidas nas caracterizações de santos e demônios (nunca, porém, denominados assim) supostamente seriam o incremento da faceta sobrenatural da narrativa, mas nada disso, nem o capricho técnico, nem o ostensivo elenco, ajudam a tornar envolvente seu ritmo lento e monótono, culpa da completa limitação de seu diretor.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Phenomena

Após ter sido o responsável por estabelecer as linhas gerais do sub-gênero giallo –que durante toda a década de 1970 foi largamente explorado na Itália –o diretor Dario Argento chegou, na década de 1980, em fase criativa na qual seu estilo pulsava na direção de outras experimentações.
Curioso notar que, como todo autor apegado a um tema e a uma inquietação específica, Argento valia-se dessas experimentações para modificar facetas do que era tão somente a variação de outras premissas que ele mesmo já havia executado.
Já em seu início, “Phenomena” lembra um bocado “Suspiria” ao mostrar a chegada da jovem Jennifer Corvino à Escola Interna Richard Wagner para Moças, na Suíça.
Não é apenas com “Suspiria” que a obra de Argento dialoga: Na presença inebriante e exalando pureza de Jennifer Connelly como a jovem protagonista o filme remete à “Labirinto-A Magia do Tempo” (ainda que tenha sido realizado depois), e com isso a um indissolúvel aspecto de contos de fadas –o misto de juventude pubescente, capacidade interpretativa precoce e beleza incomum capaz de afetar até mesmo homens adultos levou Jennifer Connelly a despertar o interesse de diretores europeus interessados nessa síntese intrigante entre fábula e história macabra, vide “Étoile”, de Peter Del Monte –certamente, também enxergamos a inevitável influência do próprio giallo; a trama de “Phenomena” se estrutura, por assim dizer, pelo recurso básico dos assassinatos cometidos em série, e da convulsiva dúvida acerca de quem os perpetra.
O mundo surreal e encantado de Jennifer Corvino (além de linda e imaculada, ela é filha de um ator famoso, e tem mal explicados poderes que permitem se comunicar com insetos) se choca, portanto, com o filme de terror característico de Argento quando ela, durante uma crise de sonambulismo, presencia um dos assassinatos, tornando-se a partir daí, alvo do assassino.
Na gramática de Argento, a entrada no contexto sinistro de sua trama se dá por meio do que por vezes define o conceito de cinema (o sonho) e sua permanência nele (a investigação subsequente) ocorre através do que define a própria filmografia de Argento: A sensação contínua de que se testemunhou algo vital sem no entanto ter certeza do que foi.
Argento é um realizador cheio de imperfeições: Ele relega inúmeras de suas participações coadjuvantes à irrelevância (como Donald Pleasence, Daria Nicolodi e o próprio antagonista da trama) em prol da atmosfera e das guinadas de ordem dramática; e se mostra negligente até mesmo com elementos que parece enaltecer (os poderes sobre os insetos da heroína nunca chegam a ter importância fundamental de fato na narrativa).
Mas, ele compartilha com o expectador uma fascinação genuína pelas conclusões morais e éticas que obtém através de suas miscelâneas visuais.
Aqui, ele leva a um extremo sanguinolento e grosseiro os impulsos corruptíveis do ser humano, para então deixar que sua protagonista encontre refúgio de tanta sordidez na natureza.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

9 - A Salvação


Indicado ao Oscar 2006 de Melhor Curta-Metragem de Animação, o jovem diretor Shane Acker ganhou inesperados entusiastas de sua obra –os diretores Timur Bekmanbetov (de “Guardiões da Noite”) e Tim Burton –que se apresentaram a ele, como produtores dispostos a viabilizar uma expansão de seu trabalho em forma de um longa-metragem de animação.
Assim surgiu este curioso e notável “9-A Salvação”, lançado em 2009.
Corajosamente contrariando a proposta do curta –cuja trama se desenvolve se diálogos baseada em gesto e pantomina –o longa agrega vozes de atores famosos aos seus personagens o quê atribui a cada um deles as características humanas e particulares de seus dubladores.
O protagonista 9 (voz de Elijah Wood) é, como todos os outros, uma mescla de boneco de brinquedo com andróide. Sua lembrança é de acordar num laboratório em meio a um mundo devastado.
E a recriação desse mundo –uma espécie de universo cyberpunk pós-apocalíptico retrô –sinaliza mais à percepção dos adultos que à das crianças: A narrativa de Shane Acker não esconde o fatalismo e as consequências contundentes da guerra.
No contexto em que o curioso robozinho está inserido, o mundo –numa cronologia situada provavelmente nos anos 1940 –sucumbiu por completo à guerra. Os homens projetaram armas (inclusive biológicas) com tanto afinco para combater uns aos outros que, em algum momento, esses maquinários adquiriam autonomia e se voltaram contra os humanos.
O mundo no qual o pequenino 9 acorda já não tem mais seres humanos –quando muito, são cadáveres que surgem corajosamente em meio aos escombros sem fim.
Logo, 9 descobre outros andróides como ele: O primeiro a encontrar é o sábio 2 (voz de Matin Landau), em seguida, ele conhece toda uma comunidade controlada pelo paranóico e irritadiço 1 (voz de Christopher Plummer) sob o jugo truculento de seu braço-direito 8 (Fred Tatasciore) e os delírios inexplicáveis de 6 (voz de Crispin Glover).
Quando 2 é capturado por uma das tenebrosas máquinas de destruição que patrulham a terra, 9 parte ao lado de 5 (voz de John C. Reilly) para salvá-lo. Acaba descobrindo os renegados restantes de sua espécie: A corajosa e intrépida 7 (voz de Jennifer Connelly) e os inteligentes ainda que ininteligíveis 3 e 4.
Junto as informações que cada um tem –e buscando sempre escapar do encalço mortal da grande máquina que os persegue –os pequenos andróides tentam elucidar o grande mistério de sua origem e de como isso pode representar a última esperança para a Terra num plano elaborado pelo cientista que os criou.
Uma alternativa bastante interessante às animações genéricas, festivas e pueris, carregada de um estilo incomum e bem administrado.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Construindo Uma Carreira

Embora quase sempre talentoso, o cineasta John Hugues costumava construir alguns de seus filmes em cima de fórmulas. Se dava sucesso, não havia porque não ir lá e repetir o feito, afinal. E, após “Curtindo A Vida Adoidado” –talvez, seu melhor trabalho –no qual ele não só teve êxito como também criou um dos mais sensacionais personagens adolescentes do cinema (o Ferris Bueler, de Matthew Broderick), eis que Hugues resolve se arriscar a fazer outro grande personagem, tentando lançar outro nome entre os jovens atores do período.
O personagem em questão era Jim Dodge e o ator que o vivia, o então jovem Frank Whaley (de “The Doors” e pouca coisa mais expressiva depois disso). Jim Dodge é um protagonista sonhador e petulante até nas bravatas que dele declama sobre si mesmo, em relação ao que (supostamente) vai fazer e ao que (dissimuladamente) já fez. O que ele diz de si é inverso à sua realidade medíocre: Jim trabalha sozinho como uma espécie de vigia noturno numa loja de departamentos.
É, de fato, um personagem construído nos moldes de Ferris Bueler (e, como ele, cheio de planos, do atrevimento da juventude e de um idealizado encanto que essas características inspirariam no público), mas, ao contrário de Bueler, não há toda essa empatia em Jim; e isso é culpa tanto da insuficiência do ator que o interpreta quanto do roteiro indeciso e do filme algo equivocado a que ele pertence –que, diga-se, é dirigido por Bryan Gordon, mas quem manda mesmo é John Hugues, atuando como produtor e como roteirista.
Pois, como em “Curtindo A Vida...”, Hugues coloca esse personagem numa situação específica, ilustrativa de um período de tempo também específico: Ao lado da patricinha Josie (Jennifer Connelly, a razão pela qual fui atrás do filme), Jim acaba confinado dentro da loja de departamentos onde trabalha. Ele só sairá de lá ao amanhecer (passa a noite toda lá dentro desfrutando de todo o tipo de utensílios), e como ela fugiu de casa e ali se escondeu (a cena em que ela constrange o pai é muito bem feita por Jennifer, ainda que roteirizada com um pouco de nonsense), ambos terão a companhia um do outro durante toda a noite –as portas são fechadas e só são abertas de manhã.
E assim, como também fez –numa orientação mais dramática –em “O Clube dos Cinco”, Hugues contrapõe as duas personalidades jovens: O rapaz de classe média baixa, mas cheio de ímpeto e sonhos e a garota de classe alta, linda, desejada e popular, mas imbuída de insuspeita atitude constestadora.
É óbvio que, também, o diretor não deixará de aproveitar a oportunidade para esboçar ali um romance, daqueles adoráveis aos olhos dos jovens dos anos 1980, onde uma mulher deslumbrante e impossível (Josie) se torna acessível para um cara normal e possível (Jim).
Se a intenção era lançar algumas luzes sobre Frank Whaley da forma como ocorre com Matthew Broderick, o efeito sofre um reverso aqui: É Jennifer Connelly quem rouba a cena de todo o filme, quase sem o menor esforço.
Além disso, Hugues introduz também uma dupla de ladrões apalermados que invadem a loja (os irmãos na vida real Kieran e Dermot Mulroney) e se tornam eventuais e engraçadinhos antagonistas do casal –são uma espécie de experiência inicial para a adorável dupla de ladrões que Hugues criou, anos depois, para “Esqueceram de Mim”.
Da forma como é, este “Career Opportunities” –o título original é de sua exibição na ‘sessão da tarde’ uma vez que jamais foi lançado em cinema ou homevideo no Brasil –une assim uma série de inspirações e idéias de John Hugues (como num inventário), as quais ele empregou com mais criatividade e talento em outros filmes.
Mas, Jennifer Connelly vale cada minuto!

sábado, 16 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2002

A cerimônia de 2002 recebeu uma enxurrada de grandes trabalhos a começar pelo espetacular “O Senhor dos Anéis-A Sociedade doAnel”, ponto de partida da famosa saga que chegou exigindo respeito e reconhecimento. Como é de hábito, a Academia o preteriu em função de um exemplar mais de acordo com seu anacronismo e sua visão tradicional –ainda que “Uma Mente Brilhante” seja, de fato, excelente.
Além deles, houveram os sensacionais “Amnésia”, de Christopher Nolan, “Falcão Negro Em Perigo”, de Ridley Scott, “Cidade dosSonhos”, de David Lynch e até mesmo “A.I. Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg.
Entretanto, em meio à primeira premiação da nova categoria de Melhor Longa-Metragem de Animação (que viu “Shrek” tirar o prêmio de “Monstros S.A.”, da Pixar), o grande destaque foi ver dois intérpretes negros, Denzel Washington e Halle Berry, terem seus grandes talentos reconhecidos.

MELHOR FILME
"Uma Mente Brilhante"

MELHOR DIREÇÃO
"Uma Mente Brilhante", Ron Howard

MELHOR ATRIZ
Halle Berry, "A Última Ceia"

MELHOR ATOR
Denzel Washington, "Dia de Treinamento"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jennifer Connelly, "Uma Mente Brilhante"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jim Broadbent, "Iris"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Murder On A Sunday Morning"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Thoth"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Terra de Ninguém" (Bósnia)

MELHOR SOM
"Falcão Negro Em Perigo"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR FIGURINO
"Moulin Rouge"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Pearl Harbor"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Moulin Rouge"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"If Didn’t Have You", de "Monstros S.A."

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Assassinato Em Gosford Park"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Uma Mente Brilhante"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Shrek"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"For The Birds"

MELHOR MONTAGEM
"Falcão Negro Em Perigo"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"The Accountant”

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Um Local Muito Quente

Michael Mann. Curtis Hanson. Irmãos Coen. Lawrence Kasdan. Muitos foram os renomados cineastas contemporâneos que, ao seu modo, tentaram dar uma roupagem moderna ao film noir. À eles pode-se incluir o nome do astro e também diretor Dennis Hopper, com seu “The Hot Spot”.
O cinema de Dennis Hopper em geral caracterizava-se por excessos –a exceção é justamente o equilíbrio do filme que viabilizou sua carreira como diretor, o memorável e contracultural “Sem Destino” –refletidos quase sempre na violência e na tensão de seus trabalhos.
O noir, na perspectiva de Hopper ganha, com a modernidade, em lascívia e sordidez; elementos que ele até compartilha com outros de seus colegas que se aventuraram no gênero. Sob seu olhar, o gênero em si é convulsivo com suas próprias regras, agregando uma série de novas angústias a medida que a permissividade do tempo a que pertence determina o vislumbre das facetas brutais, desonestas e disfuncionais do seu universo.
E Hopper, neste filme, se esbalda em enumerá-las.
Ele lança mão de duas deslumbrantes atrizes que não parecem se intimidar com as cenas de nudez que o roteiro cobra delas: A morena jovem e estarrecedoramente linda Jennifer Connelly, e a loira tentadora e vulcânica Virginia Madsen.
Elas representam os dois extremos entre os quais pende o protagonista Don Johnson.
Seu personagem, Maddox, chega numa escaldante cidadezinha do sul dos EUA e logo impõe-se como bom vendedor de carros na loja do Sr. Harshaw (Jerry Hardin). Suas ambições, contudo, vão além: Ele elabora o que parece ser, em princípio, um crime perfeito; rouba o banco local durante um incêndio forjado –quando os funcionários se ausentam por serem bombeiros voluntários –e, logo depois, procura garantir que muitos o vejam salvando alguém em meio ao próprio incêndio.
Isso não o impede de tornar-se suspeito dos policiais –que são mostrados pelo roteiro com procedimentos sem nexo e descabidos –acusação da qual só consegue se livrar graças à intervenção de Dolly Harshaw (Virginia Madsen), que apesar de ser esposa de seu patrão torna-se sua amante.
A outra ponta do triângulo amoroso é Gloria Harper (Jennifer Connelly, num de seus primeiros papéis adultos e já com uma cena reveladora!), moça que o filme coloca como o perfeito oposto de Dolly –é inocente, aparentemente pura e de uma beleza quase angelical –embora ela também tenha lá seus segredos.
O diretor Hopper, assim, constrói uma teia de criminalidade, de mentiras e de segredos sórdidos a envolver seus personagens tão mais sufocante devido à ambientação abafada, ensolarada, e ao clima de luxúria que se impõe; na sua concepção, ele está levando o noir à um novo patamar, mas na realidade está apenas ousando nos aspectos gráficos que os realizadores de outrora não podiam. Seu filme carece de uma série de deficiências: A natureza de sua proposta nunca parece se harmonizar com sua moral torpe, nem tampouco com o final ambíguo e pretensamente sarcástico à que ela leva.
Consegue entreter, é verdade, mas os nomes citados no início deste texto criaram outras obras infinitamente mais relevantes do que esta.

sábado, 10 de junho de 2017

Étoile

Dentre os filmes estrelados pela belíssima Jennifer Connelly, certamente, um dos mais difíceis de se achar é o drama de balé com conotações sobrenaturais “Étoile”.
Lançado com timidez no circuito comercial já em sua época (meados de 1988), quando Jennifer tinha filmado “Labirinto-A Magia do Tempo” em 1986 e então ficado um ano sem filmar, esta produção desapareceu quase que por completo, restando poucos que ainda se recordam dela –um destino injusto que se abateu, inclusive, sobre outra obra do mesmo diretor Peter Del Monte, o interessante “Pequenas Chamas”.
As similaridades de “Étoile” com a premissa e a proposta de “Cisne Negro”, de Daren Aronofski, de 2011, são inúmeras e beiram o constrangedor, não só pela semelhança entre a condução narrativa, as manobras da história (na qual também são trabalhadas as dicotomias artísticas e psicológicas entre o cisne branco e o cisne negro) e sua predisposição visual para alguma transgressão (um dos pôsteres de “Étoile”, para se ter idéia, mostra Jennifer como a jovem bailarina, deitada debaixo de um... cisne negro!), mas também pelo fato da obra de Aronofski ganhar larga consagração e este trabalho dos anos 1980 passar praticamente despercebido por aqueles que deveriam ter algum conhecimento.
Na trama, Jennifer Connelly é Claire Hamilton uma jovem americana cujo talento como bailarina a leva a se tornar aluna de um renomado instrutor italiano numa academia européia. Na escola onde passa a estudar e a conviver com outras alunas, ela toma conhecimento de uma lenda centenária sobre uma talentosa bailarina morta no auge da sua carreira. Dizem que o seu fantasma ainda perambula pelos corredores à procura do corpo ideal para que sua alma transtornada possa experimentar a sensação plena de bailar graciosamente outra vez.
Tudo indica que Claire é a vítima perfeita para tal maldição, devido ao seu talento, e também a sua grande beleza.
Por meio da narrativa de “Étoile” se percebe uma sutil influência do romantismo gótico no trabalho do diretor, aparentemente muito interessado em materializações fantásticas de diferenciada natureza emocional; isso permite também entender melhor as próprias influências de Aronofski em seu “Cisne Negro”, e a opção de sua curiosa roupagem de drama europeu. A atuação de Jennifer Connelly embora seja facilmente relacionada às orientações que ela demonstra no anterior “Phenomena”, de Dario Argento (também ele uma produção européia), contém muitas das potencialidades dramáticas que Natalie Portman soube administrar com eficiência e ímpeto no filme de Aronofski –o quê lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Cidade das Sombras

É curioso comparar o trailer deste filme de ficção científica de Alex Proyas lançado nos anos 1990 e o trailer de “Matrix”, lançado poucos anos depois: As cenas que se sucedem são idênticas!
Isso e mais o fato de que muitos nomes da equipe técnica vieram a se repetir nos dois filmes são indicativos do quanto o cultuado trabalho dos Irmãos Wachowsky (hoje, irmãs...) bebeu da fonte deste filme obscuro, atualmente bastante desconhecido, mas com freqüência, dono de uma inesperada genialidade.
O diretor Alex Proyas ainda estava na ressaca da agridoce repercussão de “O Corvo” –que, embora tenha se tornado um cult nos anos 1990, gerou uma curiosidade mórbida em torno da trágica morte do astro Brandon Lee durante as filmagens –quando abraçou este projeto desigual, com muitos elementos temáticos em comum com as obra dos Wachowsky (ambientação sombria, manipulação da realidade, alienação humana, superpoderes), porém um tanto menos comercial, com um roteiro algo desafiador.
O estilo evidente e inconfundível do diretor Proyas (no qual os Wachowsky muito se basearam) se percebe logo nas primeiras cenas que apresentam um travelling noturno de câmera exatamente igual ao que ocorria em “O Corvo”.
Desta vez, ao invés do apartamento onde vive o personagem de Brandon Lee, as câmeras de Proyas nos levam para dentro de um quarto de hotel carregado de elementos retro que remetem a época dos film noir. Lá dentro, numa banheira, está John Murdoch (Rufus Sewell, cuja falta de carisma é um dos poucos equívocos do filme). Ele desperta aflito e perplexo sem conseguir lembrar de nada. Pior: Há pessoas muito estranhas em seu encalço (seres albinos que vestem uniformes negros e ostentam uma natureza fantasmagórica!).
Procurado por esses estranhos e pela polícia (sobretudo, um detetive interpretado por William Hurt) em razão de uma série de crimes atribuídos a ele (e que ele crê piamente que não cometeu), John precisa decifrar uma série de inusitados mistérios (Por que ninguém lembra de ter visto o nascer do sol? De onde vêem a misteriosa capacidade que ele desenvolve de mover objetos com a mente? E por que ocorrem determinados momentos em que todos naquela metrópole desconhecida desmaiam, exceto John?), e no processo salvar a vida daquela que acredita ser a sua esposa, Emma (Jennifer Connelly, como sempre absurdamente linda!).
As respostas podem estar com um médico cheio de intrigantes cacoetes vivido com bastante minúcia por Kiefer Sutherland, que parece trabalhar a serviço dos homens misteriosos.
O desenlace desse novelo aparentemente indecifrável (mas, no fim até que plausível) é bastante surpreendente e, embora flerte abertamente com o absurdo, o roteiro calibrado com equilíbrio por David S. Goyer (um especialista em plots rocambolescos e mirabolantes) e a direção convicta de Alex Proyas não deixam que a mistura desande, por mais exótica que pareça sua receita: A paixão do diretor pelos elementos visuais de “Metrópolis” (já evidente em “O Corvo”) se mescla aqui com um futurismo retro com nítida influência de histórias em quadrinhos alternativas.
Mais cul-movie que isso, impossível!