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segunda-feira, 23 de março de 2020

Alita - Anjo de Combate

O diretor mexicano Robert Rodriguez sobe adaptar sua personalidade e seu ímpeto criativo às mais diversas parcerias ao longo de sua carreira: Ele realizou um belo exemplar de terror e ficção científica para adolescentes nos anos 1990 junto do roteirista Kevin Williamson (“Prova Final”); fez uma adaptação de histórias em quadrinhos revolucionária em termos visuais e narrativos ao lado de Frank Miller (“Sin City-A Cidade da Pecado”); ele moldou, com Quentin Tarantino, uma das mais desiguais tentativas em formato cinematográfico de peitar o mainstream hollywoodiano (“Projeto Grindhoude”).
Aqui, desta vez, Rodriguez trabalha sob a produção de James Cameron, e o resultado do encontro entre dois notáveis estilo de se fazer cinema é um filme arrojado, cheio de humanidade e uma certa acidez para com os rumos convencionais que assombram sua trama.
Desde os anos 1990, a adaptação dos quadrinhos japoneses, “Alita”, de autoria de Yukito Kishiro, vinha sendo o projeto acarinhado por James Cameron –ele chegou até mesmo a criar a série de TV “Dark Angel” (que revelou Jessica Alba) para testar vários conceitos que seriam manejados em “Alita”.
O tempo passou e o período cada vez maior de produção e pós-produção adotado por Cameron entre seus projetos inviabilizou a possibilidade dele dirigir “Alita” –no momento, Cameron trabalha a onze anos (!) nas continuações de seu sucesso “Avatar” –o que o levou a assumir a produção e deixar a direção do projeto a cargo de Robert Rodriguez.
Não obstante a experiência de Rodriguez com produções de baixo orçamento –em contraponto, à Cameron cujas produções sempre são hiperlativas –“Alita” exigia um certo desembaraço na lida com os efeitos digitais: Uma das razões pelo longo tempo de maturação do projeto foi a espera para que a tecnologia fosse capaz de materializar em cena a protagonista do modo com que ela é no mangá –Alita é uma síntese entre humano e máquina, e essa característica está em seu designer desafiador no qual ela é expressiva e vívida sugerindo ao mesmo tempo uma, digamos, artificialidade sintética em seu aspecto.
Estamos no futuro, mais necessariamente no ano de 2563. A gigantesca e futurista cidade de Zalem flutua muito acima da superfície. Nela há uma espécie de ralo por onde caem dejetos de tecnologia descartados. Todos vão parar no aterro da Cidade de Ferro, uma gigantesca favela high-tech surgida à sombra de Zalem povoada de pessoas que alimentam a vã esperança de um dia subir à cidade voadora.
Em meio a esses escombros, o cientista Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz) encontra a carcaça de uma andróide de uma tecnologia avançada e perdida. Ele a repara, dando-lhe próteses cibernéticas e batizando-a de Alita (nome de sua filha que morreu).
Inteligência cibernética extremamente avançada dotada de um cérebro humano, Alita (vivida por meio de captura de performance pela jovem Rosa Salazar, de “Maze Runner”) não retém as lembranças de quem um dia foi; ela é, em vez disso, uma criança: Absorve e aprende com assombro e inocência tudo o que se passa a sua volta.
Contudo, ela aprende rápido: Logo descobre que seu pai, um benevolente e caridoso consertador de ciborgues defeituosos de dia, é um dos muitos caçadores de recompensas que patrulham as ruas à noite, a procura de perigosos bandidos com a cabeça à prêmio.
Ao descobrir isso –e no processo descobrir também a formidável aptidão que possui para lutar –Alita almeja ser uma caçadora de recompensas também, mas, isso não dura muito; convencido pelo namoradinho Hugo (Keean Johnson), ela resolve se tornar uma jogadora de Motorball, um esporte violento e brutal, no qual os campeões estão entre os raros indivíduos agraciados com a chance de ascender para Zalen.
No decurso de descoberta de suas origens e de se firmar nesse admirável novo mundo, Alita chama a atenção de alguns homens poderosos e influentes nesse mundo tecnológico a que ela pertence, como é o caso de Vector (o fantástico Mahershala Ali), financiador do Motorball, e o misterioso Nova, provavelmente grande vilão do filme e até mesmo das vindouras continuações, se elas chegarem a serem produzidas...
De fato, são muitos os elementos em comum entre “Alita” e as inúmeras obras marcantes de filmografia de James Cameron: Uma protagonista feminina extraordinariamente carismática, uma visão espetacular do futuro rica em textura e minimalismo; uma premissa que, a sua maneira, coloca a personagem central no cerne de um embate que pode mudar os rumos do mundo; um arranjo emocional e humano para dar algum tempero; e uma conjugação perfeita e impactante entre o espetáculo da ação e o arrojo dos efeitos visuais.
A esse sedutor cardápio de escapismo hollywoodiano, o diretor Robert Rodriguez acrescenta seu próprio e instigante estilo e reserva espaço para deixar o material bastante fiel à sua fonte, uma história tipicamente cyberpunk, como é habitual em realizações oriundas de mangás como “Akira” ou “Ghost In The Shell”.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Machete Kills


Na continuação de seu trailer-falso tornado um longa-metragem real –derivado, por sua vez, do projeto “Grindhouse” –Robert Rodriguez incrementou ainda mais a mescla de referências, influências e tendências que caracterizava o primeiro “Machete” e dele fazia quase um Tour de Force narrativo: A iniciar esta quase experiência de imersão em tudo o que o cinema-poeira setentista tinha de mais desavergonhado e popularesco, temos (veja só!) mais um trailer falso –antecedido por aquelas vinhetas retrô que tanto Rodriguez quanto Quentin Tarantino adoram colocar em seus filmes –de uma produção intitulada “Machete Kills Again... In The Space” (!).
O filme propriamente dito começa logo depois: Na esteira do final de sua aventura anterior, onde vemos o vingador Machete Cortez (Danny Trejo, mais casca-grossa do que nunca) pegar a estrada ao lado de sua agora parceira Sartana (Jessica Alba), testemunhamos uma ação do próprio Machete ao lado dela tentando desbaratar um cartel munido de armas fornecidas pelos militares –o bandidinho da vez que surge nesse prólogo é interpretado por Freddy Rodrigues, de “Garotas Sem Rumo”, que o próprio Robert Rodriguez (nenhum parentesco) dirigiu em “Planeta Terror”.
Após perder a mulher que ama nessa sequência, Machete, sedento de vingança é despachado numa missão de suma importância pelo presidente dos EUA em pessoa, vivido por Charlie Sheen (que aqui adota seu nome real, Carlos Estevez!), na qual deve encontrar o poderoso líder do cartel, Marcos Mendez (Demian Bichir) e, conforme a circunstância, mata-lo.
Seu contato na tumultuada fronteira EUA/México –e que, nessa tresloucada realidade alternativa concebida por Rodriguez, inclui uma muralha megalomaníaca a separar os países –vem a ser deliciosa e insinuante Miss San Antonio (Amber Heard) cujo disfarce de ganhadora de sucessivos concursos de beleza só reforça o colorido vibrante e esfuziante com o qual o diretor caracteriza seu filme.
E a jornada de Machete segue assim na construção de uma aventura descerebrada, evocativa do cinema mirabolante que suscita, fazendo de seu protagonista uma versão latina, sangrenta e truculenta de James Bond transfigurada por todos os vícios que acompanham seu contexto: Eis que Mendez, o tal vilão, tem lá um plano mirabolante –os batimentos de seu coração estão conectados à um míssil que será disparado contra o solo americano (!). Para desarmar tal engenhoca, Machete, portanto, precisa mantê-lo vivo e atravessar com ele a fronteira. Contudo, a cabeça de Machete está a preço de ouro e isso atrai a atenção de pelo menos um oponente ameaçador: O lendário assassino de aluguel Camaleão –que, honrando o nome, se metamorfoseia em nada menos do que quatro intérpretes ao longo do filme, entre eles, Walton Goggins, Cuba Gooding Jr. e Lady Gaga (participações espetaculares que só um diretor de natureza descolada e cult como Rodriguez é capaz de atrair).
E “Machete Kills” não se acomoda nessa premissa: Quando achamos que as peças do tabuleiro estão estabelecidas, eis que o verdadeiro vilão do filme se revela; o ardiloso Luthor Voz, incorporado por Mel Gibson –e não deixa de ser uma tremenda e brilhante inversão de valores proporcionada por Rodriguez o fato de que, neste e no primeiro filme, o calejado Danny Trejo (sempre relegado à papéis coadjuvantes ou de vilões devido à sua compleição física) tem a chance de ser protagonista tendo como vilões dois dos mais celebrados astros de ação do passado; o próprio Gibson e Steve Segal (no filme anterior).
Após uma série de perseguições, tiroteios e batalhas onde as implausibilidades se equilibram à moda das obras que o diretor quer homenagear, eis que a história culmina num gancho desavergonhado para um próximo filme –e que, então descobrimos, acaba sendo justamente o filme mostrado no trailer do começo: “Machete Kills Again... In The Space” (cujo título já diz tudo) é, pois, a continuação de “Machete Kills” que, no senso de humor referencial e sarcástico de Rodriguez, pode acabar nem sendo feito (a repercussão deste filme foi bem menor que a do primeiro), tornando-se assim o que era para ser desde o começo, um trailer falso.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Machete


De tudo o que englobava o projeto “Grindhouse” era visto que o trailer-falso “Machete” era o que tinha mais potencial para virar um longa-metragem de fato.
Num hábito que lhe era até comum, Robert Rodriguez dividiu a direção de sua obra com Ethan Maniquis, que ocupou a função de montador em “Planeta Terror” e exerceu inúmeras outras colaborações com ele –foi, por exemplo, editor de efeitos visuais na trilogia “Pequenos Espiões” e em “Era Uma Vez No México” e ator em “Sin City”.
Pois, com seu auxílio, Rodriguez arregaçou as mangas e transformou –com sucesso discutível –a premissa que funcionava às mil maravilhas enclapsulada num trailer, em um filme de cento e cinco minutos de duração com todas as características que definiam o projeto que o próprio Rodriguez levou a cabo ao lado de Quentin Tarantino (marcas na imagem que simulam o envelhecimento da película; sangue e certa escatologia como apelo comercial; e toda atmosfera de produção B da época dos filmes-poeira).
Apelidado de Machete por sua predileção por armas brancas em detrimentos às armas de fogo, o personagem-título vivido com presença indubitável por Danny Trejo é, no prólogo que abre o filme determinando muito bem seu estilo, um agente federal no México.
Ao tentar libertar uma jovem coagida à prostituição (a deliciosa Mayra Leal que já de início, escancara sua nudez gratuita), ele cai numa cilada arquitetada pelo vilão Torrez (Steve Segal, pernicioso em sua canastrice) e termina destituído de seu cargo, com sua família assassinada e quase morto.
Anos mais tarde, Machete –agora levando a vida na fronteira dos EUA com o México –acaba contratado pelo milionário Michael Benz (Jeff Fahey) a fim de provocar um atentado contra um senador (Robert De Niro) cuja campanha se baseia na discriminação de parte da sociedade americana aos imigrantes latinos. A exemplo da cena inicial, essa também é mais uma cilada elaborada para fazer de Machete um bode expiatório que o levará a defrontar-se com Torrez outra vez.
Porém, Machete não é mais tão ingênuo e seu plano de vingança é, também ele, elaborado.
A despeito da crítica contumaz e algo rabugenta de que “Machete” de fato funcionava mais como trailer do que como longa-metragem, Robert Rodriguez exercita sua paixão pelas películas descerebradas dos anos 1970 e 80, valendo-se aqui de uma trama que se ramifica em dezenas de outros personagens, adquirindo desdobramentos inesperados conforme seu avanço –entre eles, a rasteira reflexão de denúncia sobre a imigração mexicana.
No fim das contas é pouco eficaz e até contraditório o fato de que ele dispõe de todo esse esforço para culminar num filme assumidamente sangrento, implausível e despretensioso.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Prova Final


Já no final da década de 1990, o roteirista Kevin Williamson quase conseguiu se tornar uma estrela com seu roteiro para “Pânico”, de Wes Craven, em 1996.
Soou como uma nova coqueluche no cinema comercial norte-americano aquela fusão de referências cinematográficas auto-conscientes e exaltação dos paradigmas (para não dizer, dos clichês!) do gênero terror.
Certamente, uma obra que pegou carona nessa repercussão foi “Prova Final”, que uniu Kevin Williamson ao diretor Robert Rodriguez, recém-saído de “Um Drink No Inferno”, sua primeira colaboração com Quentin Tarantino, o que em si já proporcionava uma curiosa junção de estilos e propostas distintas do emergente cinema jovem de então.
Iniciando ao som da banda “Offspring”, a trama introduz em duas cenas típicas de terror seus antagonistas: O treinador de futebol americano interpretado por Robert Patrick (o T-1000 de “Exterminador doFuturo 2”) que, se já era irascível antes, se torna intoleravelmente antagônico ao longo do filme; e os professores, entre os quais a diretora bonitona (Bebe Neuwirth), são tomados por entidades ainda desconhecidas.
Em seguida, o filme trata de introduzir seus heróis: Os alunos –que parecem saídos de um pastiche de John Hugues –tais como Casey (Elijah Wood, pouco antes de “O Senhor dos Anéis”), vítima constante dos valentões, o traficante metido a inteligente Zeke (Josh Hartnett), a patricinha arrogante Delilah (a brasileira Jordana Brewster, de “Velozes e Furiosos”), o capitão do time da escola Stan (Shawn Hatosy), a jovem deslocada Stokely (Clea DuVall) e a novata na escola Marybeth (a gatinha Laura Harris).
Todos eles, à sua própria maneira vão descobrir que os incidentes mostrados nas cenas iniciais deflagraram uma espécie de invasão alienígena no colégio, a começar pelo grupo dos professores (entre os quais, Famke Janssen, anos antes de ser a Jean Grey de “X-Men” e a enfermeira vivida pela então atriz-assinatura de Rodriguez, Salma Hayek) e estendida, mais tarde, para os alunos, depois os pais e, por consequência, o mundo.
Ninguém acredita em nenhum deles quando tentam alertar sobre essa situação –nesse sentido, um de seus momentos maravilhosos é, por conta de seu contexto, a cena em que é tocada a emblemática “Another Bick In The Wall”, do grupo Pink Floyd.
E apesar dessa alegoria do desajuste adolescente em contraponto à incompreensão adulta se encaixar com perfeição na premissa, o diretor Robert Rodriguez não está nem um pouco interessado nela; seu interesse está no clima, na tensão, no ritmo e na atmosfera persecutória que caracteriza esse tipo de filme.
O teor referencial que caracteriza os roteiros de Kevin Williamson até demora aparecer, mas quando o faz é com intensidade: Acontece, mais necessariamente na cena da biblioteca, um diálogo entre Elijah Wood e Clea DuVall onde é citada a referência primordial e incontornável do filme, “Vampiros de Almas” ou mesmo sua refilmagem “Invasores de Corpos” (com os quais, se você não notou, a história é bastante parecida!) e é levantada uma série de interessantes teorias de que o gênero das ficções científicas sobre invasões alienígenas (tão avidamente aproveitada no cinema) seria uma forma de distrair e banalizar o público para o real perigo.
Conforme a ação se afunila levando os acuados protagonistas a um beco sem saída, o roteiro e a direção se mostram hábeis em homenagear algumas obras cultuadas do nicho que resgatam em cenas notáveis que remetem à “A Noite dos Arrepios” (na cena em que confrontam seu professor de biologia, e vermes saídos de seu corpo ameaçam entrar pela boca dos desavisados!), “O Enigma do Outro Mundo” (em especial, no momento em que uma das professoras tem sua cabeça arrancada num acidente e ela cria pernas de aranha) e até mesmo “Força Sinistra” (quando a deliciosa Laura Harris caminha, nua e ameaçadora, pelo vestiário da escola).
Hoje, merecidamente dono de um lugar muito especial na memória afetiva de cinéfilos que se formaram durante os anos 1990, “Prova Final” preserva sua diversão na forma de sua tensão descontraída e de seu corre-corre agitado, fruto do apurado traquejo comercial que tanto Kevin Williamson, como Robert Rodriguez ostentavam então.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A Balada do Pistoleiro


Nos anos 1990, tendo surpreendido toda a classe cinéfila dos festivais com uma estréia promissora, “El Mariachi”, na qual concebeu um filme palpitante e atrevido de ação com um dos mais irrisórios orçamentos que já se teve notícia (e conquistar o feito de romper o bloqueio do circuito comercial, o quê tornou seu trabalho ainda mais conhecido), o jovem diretor Robert Rodrigues tratou de dar continuidade à saga daquele personagem, por assim, dizer fazendo este novo filme que, embora ainda uma produção pequena, era infinitamente mais endinheirado que o anterior.
“A Balada do Psitoleiro” não é nem uma continuação, nem uma refilmagem, nem uma reinvenção de “El Mariachi”, mas, é um pouco disso tudo.
Não procura estabelecer conexões narrativas mais profundas com aquele outro filme, mas o respeita na medida do possível.
E Rodrigues, aqui, se pode dar ao luxo de ter Antonio Banderas como protagonista –que, com a mexicana Salma Hayek, compôe um casal explosivo!
A trama é daquelas onde importa menos o conteúdo do que o estilo; do personagem principal mal sabemos o nome. Sabemos que ele é Banderas no auge de seu vigor, seu carisma e sua afinação para personagens marrentos e cheios de pomba (com frequência, ele consegue passar a impressão de ser perfeito para o papel). E sabemos, também que ele quer vingança. E tem, em sua habilidade com as armas de fogo, bem escondidas sob um disfarce de descontraído violeiro (e assim chamada Mariachi), os meios para perpetrá-la.
O alvo de sua vingança é um barão do crime local (o português Joaquim de Almeida) e até chegar nele, o Mariachi tem que ultrapassar os obstáculos de seus comparsas armados.
E pronto.
Ciente de suas limitações não apenas orçamentárias, mas também artísticas, Rodrigues impõe ao ritmo e a narrativa aquilo que pressupõe que seu público irá querer: ação.
E o modo com que ele orquestra essas sequências impressiona pelo número baixo de recursos que ele tinha à disposição, e que não o impediram de moldar uma obra pulsante.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sin City - A Dama Fatal

Durante muito tempo o público se perguntou quando o diretor Robert Rodrigues iria enfim revisitar o mundo noir criado por Frank Miller nos quadrinhos e vertido por ele num belíssimo filme, visual e narrativamente falando, que pegou muita gente desprevenida em um já longínquo 2005.
A resposta, um bocado tardia, veio em 2014 com o lançamento de “Sin City-A Dama Fatal”. Mais do que perder o timing de uma continuação que todos aguardavam, o filme pareceu ter perdido o brilho que a primeira produção ostentava com tanto fulgor. Uma das razões era possivelmente o fato de Rodrigues deixar que Frank Miller produzisse material original para o novo filme. Se na obra anterior, Rodrigues foi cirúrgico na seleção de contos dispersos nos quadrinhos que representavam o melhor de toda a criação de Miller, neste ele contentou-se com uma das grandes histórias do selo “Sin City” –no caso, “A Dama Fatal” que dá nome ao filme –(e mesmo assim realizada com pouco empenho) e dois outros contos menores, nitidamente concebidos por um Frank Miller já distante de seu auge criativo.
Na primeira história, o ex-detetive Dwight (vivido por Clive Owen no filme anterior e por Josh Brolin, neste daqui) se vê enredado numa trama de traição e morte elaborada por uma autêntica femme fatalle: A irresistível e sensual Ava (a francesa Eva Green, ocasionalmente nua num papel durante muito tempo relacionado à Angelina Jolie) que, ao seduzi-lo, o conduzirá ao assassinato de seu marido, colocando-o da mira da polícia.
O problema do filme de Rodrigues já começa quando percebemos que nem mesmo a história principal consegue funcionar a contento como nas HQs: As frases feitas, costumeiras nos roteiros de Miller, se sucedem com exagero e desleixo e as cenas transcorrem repetitivas e sem inspiração.
Já não há muito ânimo, portanto, quando chegamos na segunda história, e passamos a acompanhar as desventuras de um jovem golpista (Joseph Gordon-Levitt, que até se esforça, mas não tem um personagem bom o suficiente) tentando acertar as contas com seu verdadeiro pai, o corrupto e amoral senador Roark (Powers Booth, oriundo do filme original).
O pior de tudo, porém, é quando finalmente chegamos na terceira trama e o novo filme de Rodrigues e Miller vai além do simples pecado de ser um filme ruim e consegue realizar algo imperdoável: Manchar o ótimo filme original!
O mesmo senador Roark, na última parte, é alvo da vingança da bela stripper Nancy (Jessica Alba, bela e fraquinha como sempre), que não consegue se esquecer dos desdobramentos ocorridos no ótimo episódio do filme anterior no qual ela era uma das protagonistas, e que graças a Roark, levaram a morte do homem que ela amava, o ex-policial Harttigan (Bruce Willis, reaparecendo aqui numa patética versão “Gasparzinho-O Fantasminha Camarada” de seu personagem).
Nada em “Sin City-A Dama Fatal” remete ao ímpeto inventivo que definia “Sin City-A Cidade do Pecado”, nem mesmo o irrelevante reaproveitamento do personagem Marv (vivido por Mickey Rourke) que aqui se oferece como ajudante, de forma banal, para os protagonistas de cada um dos episódios, ou as substituições por outros intérpretes de personagens que funcionaram muito bem antes e aqui soam tediosos e desinteressantes –além de Brolin substituindo Owen, no papel do capanga Mamute, antes do saudoso e fantástico Michael Clarke Duncan, entrou o pouco carismático Dennis Haysbert (das primeiras temporadas da série “24 Horas”), e tomando o lugar de Devon Aoki como a hábil assassina Miho, ficou a mais bela, porém menos adequada Jamie Chung (de “Sucker Punch-Mundo Surreal”).
O visual acachapante em preto & branco e as intenções do primeiro filme continuavam lá, mas faltou brilhantismo narrativo para equiparar sua audaz qualidade cinematográfica.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um Drink No Inferno

Foi provavelmente na amizade com Robert Rodrigues que Quentin Tarantino achou –e identificou-se com –a verve mais popularesca do cinema que vinha realizando (e que, nas obras de então, “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction-Tempo de Violência”, encontrava uma vibração mais autoral e elitista com referências à Antonioni, Fellini e Godard), o que culminou, mais tarde, em obras que flertavam com as produções cultuadas dos anos 1970 e 1980 que ambos tanto amaram quando mais jovens, como “Kill Bill” e o projeto “Grindhouse”.
O primeiro passo nessa direção foi possivelmente este “Um Drink No Inferno” que, embora não seja um exemplar dos mais competentes e hábeis de cinema, é muito mais significativo dos rumos artísticos que Tarantino e Rodrigues tomariam daqui para frente.
O roteiro, a cargo que Quentin Tarantino, acompanha dois irmãos criminosos (Tarantino e George Clooney, então um galã televisivo do seriado “Plantão Médico”) que, nas estradas do Texas até o México, vão provocando um rastro de roubos e assassinatos.
Sua primeira metade parece fazer alusão aos filmes sarcásticos, politicamente incorretos e sangrentos da exploitation dos anos 1970, ao acompanhar psicopatas inescrupulosos num rastro implacável de crimes o que também remete à “Assassinos Por Natureza”, de Oliver Stone, roteirizado (veja só) pelo próprio Tarantino.
A segunda parte, contudo, dá uma guinada brutal, quase se tornando outro filme, ao centrar seus acontecimentos numa taverna de beira de estrada, aonde os dois protagonistas e outros incautos personagens vão parar (um padre, vivido por Harvey Keitel, uma família, entre os quais, uma garota interpretada por Juliette Lewis). O lugar vem a ser um reduto de vampiros –um de suas mais emblemáticas figuras é a stripper vampira Satanico Pandemonium (Salma Hayek, no auge da formosura) –e a espera até o sol nascer será, para todos eles, um verdadeiro pesadelo.
A combinação do roteiro referencial e detalhadamente ácido de Tarantino com a direção efervescente de Rodrigues gerou um filme incomum, vibrante, sangrento e vulgar, tão asqueroso quanto divertido e, apesar de franco candidato a cult-movie, um prato cheio também para os eventuais detratores dos dois cineastas.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sin City - A Cidade do Pecado

Por incrível que possa parecer, em 2005, ainda não se tinha aquela proliferação de adaptações de histórias em quadrinhos que vemos no circuito comercial de cinema atual –claro, haviam os filme do Batman (no caso, “Batman Begins”, primeiro filme da aclamada trilogia de Christopher Nolan, foi lançado naquele ano), haviam os filmes do Homem-Aranha (a primeira trilogia, de Sam Raimi, estava no segundo exemplar) e haviam os filmes dos X-Men (o terceiro, ainda com o elenco original e antes da reformulação em “Primeira Classe”, sairia só no ano seguinte), além de uma ou outra adaptação.
Ou seja, em 2005, além de não terem se consolidado como uma tendência do mercado, as adaptações de HQ, ainda tateavam em busca da linguagem ideal por meio da qual as narrativas da nona arte seriam transpostas para a sétima.
Êxito já tinha sido obtido, certamente, mas muita coisa ainda estaria por vir –a Marvel Studios só lançaria “Homem de Ferro” e iniciaria a construção de sua supremacia em 2008.
Nesse sentido –no de explorar possibilidades oferecidas nos quadrinhos que ampliassem a experiência cinematográfica em si –uma das mais notáveis produções a surgir em 2005 foi, sem sombra de dúvidas, “Sin City-A Cidade do Pecado”, de Robert Rodrigues e Frank Miller.
E não foi para menos...
A idéia no projeto de Rodrigues era adaptar três histórias extraídas da graphic-novel em preto e branco escrita e ilustrada por Frank Miller, uma coletânea de histórias de crime ao estilo pulp e noir, e que a despeito de serem quadrinhos, ignoravam os super-heróis.
Rodrigues foi ambicioso: Sua intenção era moldar uma adaptação absolutamente fiel em termos visuais e narrativos, capturando a opção estética das páginas (cujos desenhos apresentam um emprego ímpar do “chiaroscuro”). Era uma intenção de tal maneira definitiva que sequer há créditos, no filme, de montagem e direção de fotografia –em lugar disso, aparece nos créditos iniciais apenas “filmado e montado por Robert Rogrigues”.
Na primeira história, "Cidade do Pecado", o bruta-montes Marv (Mickey Rourke, fabuloso) jura vingança aos assassinos da única mulher na vida que teve coragem de fazer amor com ele, a enigmática garota de programa Goldie (a estonteante Jamie King).
Em seus percalços em busca dessa vingança –e de um mínimo de significado para o assassinato de Goldie –ele se depara com uma conspiração que envolve os políticos graúdos de Basin City, assim como um de seus mais respeitados sacerdotes e um jovem e estranho canibal. Isso tudo enquanto luta com os fantasmas ilusórios (e enganadores) de sua própria esquizofrenia.
Na segunda, "A Grande Matança", um mal-entendido protagonizado pelo foragido Dwight (Clive Owen), pela prostituta Gale (Rosário Dawson, vulcânica) e pela pequena ninja Miho (a ágil e surpreendente Devon Aoki) pode por em risco uma trégua milenar mantida entre os policiais e os moradores de um bairro chamado Cidade Velha.
Na terceira, "O Assassino Amarelo", acompanhamos o policial Hartigan (Bruce Willis, num papel perfeito para ele) que sacrifica sua vida, sua carreira e seu casamento para proteger a garotinha Nancy de um perverso assassino e maníaco sexual (Nick Stahl, fantástico) cujo fato de ser filho de um senador o torna blindado aos olhos da lei. Após tentar praticar justiça com as próprias mãos –e de amargar quinze anos na cadeia por isso –Hartigan deve encontrar Nancy (agora vivida pela bela Jéssica Alba) e salvá-la das garras desse psicopata.
Assim sendo, com essas três emblemáticas premissas (nada menos do que três contos extraídos da graphic-novel e escolhidos a dedo), Rodrigues concebeu essa transposição literal (em tom, enquadramento de câmera, e paleta de cores) do sensacional e inovador trabalho do quadrinista Frank Miller, que à propósito foi convidado a dividir com Rodrigues o crédito de direção: Mais uma prova do objetivo estóico de Rodrigues em manter-se completamente fiel à fonte de inspiração, uma postura em geral ignorada por outros realizadores.

Em tempo: Melhor amigo de Quentin Tarantino, Robert Rodrigues convidou-o para dirigir uma única cena do filme; trata-se da tensa, dúbia e surreal conversa banhada por luzes estroboscópicas entre Clive Owen e o personagem de Benicio Del Toro dentro de um carro em movimento.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Quentin Tarantino, Robert Rodrigues e o Projeto Grindhouse

Uma das idéias mais ambiciosas e insanas dos últimos tempos saiu, não por acaso, das mentes fervilhantes e ousadas de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues: Grindhouse.
Tratava-se de um projeto de 2007, no qual eles peitavam a estrutura padrão de filmes norte-americanos (e mundiais, já que os cinemas do mundo todo adotaram o formato multiplex).
A ideia era entregar um longa-metragem que, na verdade, era dois filmes em um: Num mesmo rolo a ser exibido nos cinemas de shopping center (e hoje quase só existem essas salas de cinema mesmo, com raras exceções), haveria dois filmes, “Planeta Terror” e “À Prova de Morte”, ambos de não mais que noventa minutos de duração, dirigidos por Rodrigues e Tarantino, respectivamente, que junto de outros ‘trailers falsos’ –dos quais já iremos falar –compunham uma experiência que simulava uma sessão de filmes B, o cinema poeira, o grindhouse dos anos 1970, cujos exemplares Tarantino tanto ama homenagear.
Eram filmes de baixo orçamento, de conteúdo por vezes popular e popularesco, que por serem de metragem enxuta, podiam ser exibidos em sessões duplas nos drive-ins.
Muitas dessas obras, tão cultuadas por Tarantino, se perderam, algumas na transição de mídia para o VHS, por que muitos estúdios e distribuidoras do período não lhe davam valor. Alguns desses filmes são cults, muitos deles pelo simples fato de serem raríssimos.
Os filmes idealizados por Rodrigues e Tarantino, imulam as características dos filmes daquele período, inclusive com ‘sujeiras na projeção’ e partes cortadas onde o ‘negativo se perdeu’. Disfarçando suas produções de filmes B, os realizadores propunham ao expectador uma espécie de viagem no tempo.
No primeiro deles, “Planeta Terror”, Robert Rodrigues exercita sua paixão pelos filmes de zumbi, com um pé na ficção científica barata.
Só assim para comprar a trama mirabolante em que uma pequena cidadezinha do Texas é subitamente assolada por uma praga de zumbis carniceiros e gosmentos. Os sobreviventes que se unem contra eles são uma coleção de personagens peculiares e cartunescos: o rapaz misterioso, bom de briga e de papo (Freddy Rodrigues, nenhum parentesco com o diretor), o xerife paternalista (Michael Biehn) e seus ajudantes ineptos e engraçados, o dono de lanchonete que protege sua receita secreta de churrasco como sua própria vida (Jeff Fahey), o médico sádico e sarcástico (Josh Brolin) que parece saído de um gibi, assim como sua esposa (Marley Shelton), e a heroína,a stripper que tem a perna amputada e em seu lugar recebe uma metralhadora! Interpretada por uma Rose McGowan sensualmente vulcânica, ela não só rouba o filme como é também a figura mais emblemática dos filmes Grindhouse.
Já, na obra de Quentin Tarantino, “À Prova de Morte”, Kurt Russel surge na pele de um personagem chamado Dublê Mike, um psicopata, que mata suas vítimas usando seu carro, todo equipado para protegê-lo das consequências mais sérias de acidentes automobilísticos –já que nas horas vagas, ele atua como dublê de cinema em cenas perigosas ao volante. Assim ele procura, em bares e estradas, por suas vítimas, em geral, mulheres, para deliberadamente arremessar seu carro sobre elas. Mas, Dublê Mike encontra um grupo de garotas, formado por Rosário Dawson, Zoe Bell e Tracie Thoms que vão fazê-lo se dar mal.
O filme de Tarantino possui mais qualidade, como cinema (desde o roteiro mais elaborado à condução da atuação do elenco), do que o filme de Rodrigues, mas isso nem chega a ser uma novidade. Como é de praxe no cinema de Tarantino, os personagens destilam uma prosa desconcertante em brilhantes atuações. Ao fim, as mulheres são redimidas pelas três protagonistas que parecem surgir para subverter a então misoginia da narrativa.
Intercalando os dois filmes, uma série de trailers falsos (ou seja, não eram filmes reais!) cujo objetivo era, de fato, dar uma idéia e um “sabor” de como eram as impressões passadas pelos filmes e propagandas do período. São eles:
“Machete” –O mais sensacional deles, realizado pelo próprio Rodrigues, e que anos depois, de fato, tornou-se um longa-metragem, ganhando até uma continuação. “Machete” mostra a história de um policial federal mexicano (Danny Trejo) envolvido numa aloprada trama de vingança (e absolutamente nada disso deve ser levado à sério!).

“Thanks Giving” –Sobre um suposto filme slasher de terror (aqueles de contagem de corpos, estilo “Sexta-Feira 13”), mas que faz referencia ao que talvez seja o único feriado americano ainda pouco explorado por filmes de terror: O Dia de Ação de Graças. Esse trailer foi criado e dirigido por Eli Roth, chapa de Tarantino (fez até uma participação em “Bastardos Inglórios” como ator) e diretor de “Cabana do Inferno” e “O Albergue”.

“Werewolf Women of SS” –Na trama... bem, na verdade, nem existe trama, afinal, é um trailer falso! Mas, a idéia discorre sobre os filmes de nazi exploitation (produções cheias de violência e nudez envolvendo nazistas torturando mulheres que compunham o repertório dos grindhouses e, para variar, eram adoradas por Quentin Tarantino), mostra um cientista (Bill Moseley) fazendo experiências em mulheres, que terminam virando lobisomens, é dirigido por Rob Zombie (“A Casa dos 1000 Corpos”) e tem até uma aparição de Nicolas Cage ao final, como Fu-Manchu (!?!).

Don’t! –Quase um teaser dos tempos de antigamente, onde o espirituoso diretor Edgar Wright (de “Todo Mundo Quase Morto”) adotava o mesmo estilo com que eram feitos os trailers de produções inglesas de terror: Os trailers eram todos narrados, omitindo cenas de diálogos para que o público não percebesse o sotaque dos atores (!).
Pode parecer uma proposta radical demais para produtores e exibidores de cinema, e de fato era! Tanto que, logo, esse projeto foi redesenhado: Salvo algumas salas nos EUA, eles foram lançados divididos em dois filmes mesmo, “Planeta Terror” (junto com o trailer de “Machete”) e “Á Prova de Morte”, e essa lógica foi seguida, mais tarde, para o lançamento em DVD.

Vale lembrar que as cópias canadenses de “Grindhouse” tiveram um adendo: Foi feita uma espécie de seleção, na qual fãs enviaram seus próprios ‘trailers falsos’ para um fosse escolhido e ganhasse a honra de integrar o projeto. O trailer escolhido foi “Hobo With Shotgun” que contava a alucinada trama de um indigente que, ao juntar uma grana cortando grama na cidade, resolve usar o dinheiro para comprar uma espingarda calibre 22 e sair pela rua matando a bandidagem. Anos depois, assim como ocorreu com “Machete”, “Hobo With Shotgun” tornou um longa-metragem de fato, estrelado por Rutger Hauer, e lançado aqui no Brasil em DVD com o título “O Vingador-Fazendo Justiça A Cada Bala”. O filme, paupérrimo ao extremo, possuía todo um clima precário de filme trash evidenciando o amadorismo de seus realizadores.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

10 Melhores Adaptações de Histórias Em Quadrinhos Fora do Eixo Marvel/DC Comics

WATCHMEN
Numa realidade paralela, o mundo de 1985 é completamente diferente daquele que conhecemos devido à influencia direta de vigilantes mascarados no dia-a-dia das pessoas normais. Os EUA, ainda presididos por Richard Nixon estão a beira de uma guerra nuclear, e os vigilantes, agora aposentados começam a aparecer assassinados pelo que parece ser uma conspiração. Os desdobramentos desses fatos levam diretamente a decisão da própria guerra,e do destino final dos heróis mascarados, sobretudo o onipotente Dr. Manhatan.
Esplêndida obra de ficção científica e histórica, adaptado da quintessencial graphic-novel escrita por Alan Moore, e até hoje tida como um dos grandes trabalhos das HQs.
O trabalho de adaptação é igualmente brilhante, seja no elenco, no roteiro ou na direção.
KICK ASS
O nerd Dave Lizewski passa seus dias se perguntando porquê todo mundo quer ser Paris Hilton e ninguém quer ser o Homem-Aranha.
Com esse estado de espírito, ele decide ser o primeiro super-herói do mundo real, veste uma roupa colante colorida e sai para a rua a fim de dar porrada na bandidagem. Quebra quase todos os ossos do corpo na primeira tentativa... e vira um verdadeiro fenômeno do youtube, na segunda!
Na sua cola, surgem outros personagens incomuns como o solícito (e duas caras) Red Mist, e principalmente a violenta dupla de vigilantes, Big Daddy e Hit Girl.
A partir dos quadrinhos escritos por Mark Millar, o diretor Matthew Vaughn elaborou um dos mais divertidos, eufóricos e surpreendentes filmes de ação dos últimos anos.
300
Na Grécia Antiga, a cidade de guerreiros de Sparta recebe a nefasta notícia de que hordas monumentais do imperador Xerxes, vindas da Pérsia, virão invadir seu continente pelo estreito das Termópilas. Sozinho em sua cruzada, o rei espartano, Leonidas, conduz trezentos soldados selecionados a fim de executar uma estratégia arriscada: valer-se da geografia afunilada das Termópilas para minimizar sua desvantagem numérica enquanto esmagam sistematicamente legião após legião de seus inimigos.
O diretor Zack Snyder (que depois viria a fazer "Watchmen") recria a pulsante e hipnótica graphic-novel de Frank Miller valendo-se das mesmas paletas de cores e enquadramentos desiguais que lhe davam tanta personalidade.
BATALHA REAL
Num futuro próximo, o governo japonês se vê diante de um impasse. O aumento cada vez maior da incidência de adolescentes, maioria esmagadora da população. Para controlar isso é aprovado o Programa de Sobrevivência Batalha Real, segundo o qual, uma classe de 40 alunos é levada a uma ilha onde recebem mapas, roupas, mantimentos, armas e uma espécie de bomba presa como coleira aos seus pescoços. Ao fim de três dias as bombas explodirão matando a todos, a não ser que sobre apenas um.
Assim, os amigos terão que se matar uns aos outros num jogo complicado de resistência e sorte. Cult japonês do final da década de 90 e influência para infindáveis filmes posteriores. É um prodígio de ritmo e originalidade.
V DE VINGANÇA
Já resenhada aqui, a adaptação da magnífica obra de crítica política de Alan Moore, escrita pelos irmãos Wachowsky e dirigida com surpreendente segurança pelo novato James McTeiger, foi uma das grandes surpresas cinematográficas do ano de 2005.
SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO
Apaixonado repentinamente pela misteriosa e charmosa Ramona Flowers, Scott Pilgrim não economiza artifícios para conquistá-la (chega a ponto de fazer uma encomenda aleatória na Amazon -onde ela trabalha como entregadora -apenas para vê-la baterà sua porta).
A tarefa, contudo, não é fácil: Para conseguir ser seu namorado, Scott deve enfrentar os sete ex-namorados malignos que Ramona teve e, como num videogame, cada um é mais poderoso que o anterior.
A HQ de Bryan O'Malley (assim como este filme cheio de inventividade e sentimento que saiu dela) é uma brilhante transfiguração dos novos tempos, onde a vida é dividida em fases como num jogo de videogame.
SIN CITY - CIDADE DO PECADO
Três histórias extraídas das sórdidas revistas em quadrinhos noir escritas e ilustradas pelo mestre Frank Miller, ganham tradução cinematográfica literal (e à época inovadora!) do diretor Robert Rodriguez: "Cidade do Pecado" acompanhamos a trajetória de Marv, brutamontes que, em retribuição à única verdadeira noite de amor que já teve, irá caçar os assassinos de seu objeto do desejo, a stripper assassinada Goldie.
"A Grande Matança" coloca o misterioso Dwight às voltas com um mal-entendido capaz por um fim à uma trégua milenar entre os policiais e as protitutas da Cidade Velha.
E "O Assassino Amarelo" mostra o duro sacrifício do íntegro policial Hartigan, que vê sua vida e carreira serem destruídas para poder proteger uma garotinha de um psicótico.
AZUL É A COR MAIS QUENTE
A jovem Adele sente uma inesperada atração por Emma, garota militante, artista e atraente, que ostenta inusitadas madeixas azuis.
Opondo-se contra família, amigos e sociedade em geral, Adele inicia um romance com ela, que atravessará, ao longo dos anos em que estarão juntas, uma série de provações e mudanças.
Outra obra já resenhada por aqui.
KINGSMAN - SERVIÇO SECRETO
Eggsy não tem muita expectativa de sucesso. Morador do gueto, orfão de pai, e constantemente acuado pelo perverso padrasto, ele recebe uma proposta que pode mudar tudo: integrar o rigoroso treinamento para ser um agente da Kingsman, uma agência ultra-secreta, da qual seu pai já foi um agente (e que, inclusive, morreu em uma missão).
Mais uma vez uma HQ carregada de espirituosidade de Mark Millar, e mais uma vez, a direção sempre precisa de Matthew Vaughn. Não tinha como dar errado.
OLD BOY
Oh Dae Soo quer vingança. Mais do que isso, ele quer saber por quê! Há quinze anos, ele foi trancafiado, sem qualquer explicação num quarto vagabundo de hotel, onde passou todo esse tempo alimentando um ódio irracional contra seus captores. No processo, perdeu toda a família. Ao ser libertado (também sem qualquer explicação) ele decide fazer de seu objetivo de vida descobrir quem fez aquilo com ele. E vingar-se da forma mais cruel e dolorosa que puder conceber.
O grande diretor Chon Wook Park foi buscar, para fazer o capítulo do meio de sua prestigiada "trilogia da vingança", inspiração na HQ homônima, e fez com ela um filme poderoso, perverso e profundo sobre os anseios e pulsões do ser humano.
Um jovem clássico.