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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Uma Batalha Após A Outra


 Tal como “Vício Inerente”, este novo projeto do diretor Paul Thomas Anderson é baseado num livro de Thomas Pynchon, o romance “Vineland”. Se a obra anterior era voltada para uma narrativa de mistério e de idas e vindas ao sabor de muitos delírios psicodélicos, aqui reflete-se sobre a paranóia e as consequências morais de se dedicar integralmente (e cegamente) a uma causa.

A distopia na qual Anderson ambienta seu filme coloca um grupo organizado de resistência, intitulado French 75, em busca de uma revolução em plenos EUA mais xenófobos do que nunca –uma clara alusão à América de Trump ainda que o olhar de Anderson não se furte de mostrar também os revolucionários como partidários de uma causa que facilmente resvala para o terrorismo. Não interesse, deveras, ao diretor dizer quem está certo ou errado; interessa, sim, contemplar os personagens desiguais e intrigantes que desse caldo emergiram.

Entre eles, está Ghetto Pat (Leonardo Dicaprio, excelente), um especialista em explosivos e traquitanas tecnológicas que adere à causa por razões um tanto prosaicas, e por razões prosaicas haverá também de abandoná-la, mais a frente. Ele se envolve com a belíssima Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor, vibrante), uma revolucionária afro-descendente selvagem e indomada. Em algum ponto, entre as noites de atentados planejados e os discursos inflamados, Perfidia engravida –e não tarda a ressentir-se do papel convencional de mãe que a situação lhe impôs.

No entanto, Perfidia, numa manobra carregada de ambiguidade do filme, envolveu-se também com o militar Steven J. Lockjaw (Sean Penn, também excelente, como aliás estão excelentes todos os integrantes deste elenco), um violento inimigo do outro lado do conflito –e, por isso mesmo, um amante de possibilidades ainda mais excitantes e transgressoras para Perfidia.

Tanto Ghetto Pat quanto Lockjaw correm, portanto, o risco de serem pais da filha de Perfidia. Ghetto Pat a cria com amor, e não pestaneja em deixar a French 75 tão logo as circunstâncias se tornem ameaçadoras para sua família. Contudo, algo ainda pior acontece: Durante uma operação, Perfidia é capturada e, favorecida pelo amante Lockjaw por baixo dos panos, acaba delatando boa parte de seus companheiros, obrigando Ghetto Pat à fugir com sua filha, e assumir uma outra identidade.

Dezesseis anos depois, Ghetto Pat agora com o nome de Bob Fergunson cria a filha adolescente Willa (Chase Infiniti, fantástica) na cidade de Baktan Cross, uma cidade santuário que flexibiliza as leis de imigração nas proximidades da fronteira com o México. Tudo segue com tranquilidade até que Lockjaw, agora sob a patente de coronel, obtêm a sonhada chance de ingressar num restrito clube de supremacistas brancos, os Aventureiros Natalinos. No entanto, as regras do clube são severas e segregacionistas –não são toleradas interações com pessoas de outra raça.

A fim de conquistar a chance de ser um dos Aventureiros Natalinos, o Coronel Lockjaw precisa varrer para debaixo do tapete todos os indícios do caso que teve com Perfídia no passado (ela que, por sinal, fugiu do programa de proteção à testemunha e nunca mais foi vista), o que inclui a possibilidade dele ser pai de Willa.

Sob esses pretextos um tanto torpes –e justificados oficialmente por outros mais torpes ainda! –o Coronel move um destacamento de soldados de elite para Baktan Cross, a fim de matar Bob Fergunson e capturar Willa tão logo obtêm a informação do paradeiro deles e da identidade que assumiram.

O que se segue, na sequência, é um filme brilhante, magistralmente equilibrado entre um fino senso de humor (repare na sensacional trilha sonora, a cargo de Jonny Greenwood, do “Radiohead”, que comenta ora com sarcasmo, ora com urgência cada uma das cenas), um afiado drama humano sobre os desdobramentos práticos de uma oposição ao sistema e uma costura fina da trajetória de personagens construídos e interpretados com primazia, uma produção digna de um dos mais habilidosos diretores da atualidade.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sicario - O Dia do Soldado


O diretor Stefano Sollima segue uma estrutura parecida com a do grande filme de Dennis Villeneuve do qual é continuação, embora, no final das contas, este acabe sendo um filme bastante diferente.
Agora sem a personagem de Emily Blunt –uma espécie de bússola moral no filme –o roteiro também de Taylor Sheridan se concentra nos personagens um tanto ambíguos de Josh Brolin e Benicio Del Toro, permitindo ao filme um mergulho sem ressalvas nos meandros mais sórdidos da politicagem que norteia as decisões a pairar nas operações militares da fronteira EUA/México. Este certamente era um dos propósitos do filme anterior e, se era também aqui, ele se dilui um pouco na intenção de moldar, antes de tudo, um grande filme de ação.
O agente federal Matt Graver (Josh Brolin) tem como missão incumbida diretamente pelo novo ministro de defesa norte-americano (Matthew Modine) deter os ataques terrorista –com o emprego de homens-bomba e tudo –que veem se deflagrando na fronteira, a exemplo das ocorrências mais relacionadas ao Oriente Médio.
A solução de Graver espelha em muito a política usada pelos EUA lá: Incitar uma guerra entre os cartéis para que não haja hegemonia e nem união. Graver conta então com seu homem de confiança, Alejandro (Benicio Del Toro) que, desde que obteve parte de sua vingança no filme anterior tornou-se uma espécie de agente infiltrado, para sequestrar a filha do líder traficante Carlos Eyes, a jovem Isabela (Isabela Moner), e plantar indícios de que fora o cartel rival.
Entretanto, contratempos acontecem: Eles encenam o resgate dela de um cativeiro e quando tentam negociar sua devolução acabam atacados por policiais mexicanos corruptos, o quê acrescenta caos e imprevisibilidade ao plano.
Isabela se perde no deserto, enquanto Alejandro assume a tarefa de encontra-lo e tentar devolvê-la ao lar (ou ao lugar onde estiver mais segura). Nesse interim, a representante do governo dentro da malfadada missão (Catherine Keener) exige uma queima de arquivo, desejosa de apagar a relação do governo com uma missão tão controversa que encerrou-se catastroficamente –e isso significa colocar Graver diante do dilema de neutralizar Alejandro em definitivo.
Paralelamente a esses percalços cada vez mais aflitivos, a narrativa acompanha a vagarosa inclusão de um jovem latino de classe baixa no mundo do tráfico; caminho este que será cruzado com o de Alejandro e Isabela nos palpitantes quarenta minutos finais de filme.
Em meio à crítica nada disfarçada da postura prepotente do governo dos EUA em relação aos imigrantes, o filme realiza uma bela execução técnica de suas sequências de ação e suspense construindo, neste segundo filme, uma estrutura narrativa que demanda um terceiro episódio, sinalizado de maneira explícita em seu final aberto e algo inconcluso.
A despeito de suas imperfeições é uma produção que se eleva muito acima da média do gênero.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Os Suspeitos

“O grande truque do Diabo foi convencer o mundo de que ele não existia.”
“The Usual Suspects” revelou ao mundo, por meio da liberdade criativa plena do cinema independente, o diretor Brian Singer e o roteirista Christopher McQuarrie: O primeiro, um jovem cineasta depois estabelecido e reconhecido por sua contribuição aos filmes da saga “X-Men” que definiram o padrão de qualidade para as adaptações de quadrinhos no início dos anos 2000; o segundo, um escritor de hábil noção narrativa (e que, por este trabalho, levou o Oscar de Melhor Roteiro Original) muito famoso hoje por recuperar vários roteiros para a indústria: O trabalho de McQuarrie é notável, por exemplo, na série “Missão Impossível”, com Tom Cruise, cujo roteiro do 4º filme, “Protocolo Fantasma”, ele poliu até a perfeição, e o 5º (e melhor de todos), “Nação Secreta”, ele não só roteirizou como também dirigiu.
“The Usual Suspects” também deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante à Kevin Spacey, iniciando ali uma premiada carreira –pelo menos, até ele ser deixado de lado, devido à recentes denúncias de abuso sexual...
Muitos argumentam que Kevin merecia o Oscar de fato por “Seven-Os Sete Crimes Capitais” do mesmo ano, pelo qual ele não foi indicado porque seu personagem representava ao filme uma reviravolta que não devia ser divulgada.
Há também muitas reviravoltas aqui, porém, de outra natureza: O filme de Singer começa no cais de Nova York, quando a polícia se defronta com um barco transformado em palco de uma verdadeira chacina ocorrida entre criminosos. As cenas que abrem o filme –e que introduzem não só o protagonista Keaton (Gabriel Byrne) como também um importante e misterioso personagem –já deixam bem clara a referência noir que será fundamental ao filme, e a iminência de um flashback que haverá de rever aqueles fatos.
Movendo uma investigação imediata, o detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri, sensacional) descobre, por meio da única testemunha sobrevivente, o manco e assustado Verbal (Kevin Spacey, magnífico), que o massacre pode estar relacionado com o lendário Keiser Soze.
Ele vem a ser o personagem misterioso que vislumbramos naquele início, e também fonte da grande questão que atravessa o filme. Quem é esse imperador do crime de características quase folclóricas que parece manipular todos os personagens? Quem é Keiser Soze?
Munidos dessas objetivas dúvidas –e atento a fazer delas o cerne em torno do qual toda a narrativa irá girar –Singer e McQuarrie não têm qualquer pudor em fazer desse personagem-fantasma um dos vilões mais intrigantes e memoráveis do cinema.
Nunca, contudo, a polícia esteve tão perto de decifrar a identidade de Keiser Soze; e para tanto, o depoimento do hesitante Verbal é imprescindível. Reconstituindo o modo como ele, Keaton e seus outros amigos (MacManus, vivido por Stephen Baldwin; Hoeney, interpretado por Kevin Pollak; Fenster, interpretado por Benicio Del Toro) se envolveram na situação, o detetive (e o público) desvenda uma trama movida por um grupo de trapaceiros que acabaram esbarrando onde não deviam.
O grande trunfo do filme é certamente seu argumento magistral, bem como a condução consciente e bem amarra do diretor conseguindo o mérito insuspeito de surpreender a cada cena, a cada nova informação e ainda reservando, ao final, uma revelação desconcertante que fez desta produção uma das mais comentadas nos anos 1990.

P/S: Não confundir este “Os Suspeitos” com o filme homônimo lançado em 2013, dirigido por Denis Vileneuve –e igualmente sensacional!

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O Lobisomem

A figura do lobisomem, da maneira como é conhecido no cinema, teve diversas incorporações: “O Lobisomem de Londres”, de 1935, com Henry Hull; “O Lobisomem”, de 1941, com Lon Chaney Jr.; o oitentista “Um Lobisomem Americano Em Londres”, de 1981 –o primeiro filme a ganhar o recém-instaurado Oscar de Melhor Maquiagem –e “Lobo”, de 1994, com Jack Nicholson, entre outros.
Há um pouco de cada um desses trabalhos na versão de 2009 do diretor Joe Johnston (de “Capitão América”) para este famoso monstro da Universal, mas, sobretudo, do filme de 1941 cujo protagonista Lawrence Talbot (Benicio Del Toro, todo manhoso), renomado ator do teatro britânico e afastado de casa a cerca de 20 anos, regressa a sua terra natal –uma pequena aldeia nos confins da Inglaterra vitoriana –a fim de esclarecer a misteriosa morte do irmão, assassinado pelo que parece ser uma criatura monstruosa e selvagem.
Lawrence retoma o convívio com a aflita cunhada Gwen (Emily Blunt, encantadora) e com o pai excêntrico e distante (Anthony Hopkins, no piloto automático) e, na calada da noite, sai ao encalço da misteriosa fera, mal conseguindo sobreviver ao seu ataque. Logo, sua maldição passará para ele, que se transformará no mesmo ser bestial durante a lua cheia.
O diretor Jonhston, pode-se afirmar, pegou o bonde andando nesta reformulação do clássico: O roteiro de Andrew Kevin Walker (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”), a exemplo do que ele já havia feito com o enredo de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, agrega elementos detetivescos ao conhecido tormento da dicotomia entre o homem bom e a fera selvagem que vive dentro dele, como o investigador Frederick Abberline (Hugo Weaving) extraído diretamente do caso verídico de Jack, O Estripador. Essas características foram inicialmente trabalhadas pelo diretor Mark Romanek (de “Retratos de Uma Obsessão” e “Não Me Abandone Jamais”) cuja visão excessivamente autoral deve ter entrado em conflito com as intenções do estúdio.
Johnston, de estilo mais maleável e comercial –e completamente distinto do de Romanek –assumiu o projeto para terminar o que o outro começou.
O resultado justamente por isso dispõe de qualquer rompante de personalidade em sua narrativa, embora salte aos olhos o fato de que os realizadores adotaram um sedutor estilo de horror gótico –enfatizado no primor técnico de seu desenho de produção –afastando-se do terror juvenil e do ‘torture-porn’, tendências então predominantes em meio às produções blockbusters.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2001

Um ano com algumas curiosidades como a dupla indicação à Melhor Diretor para Steven Sodenbergh por “Erin Brockovich-UmaMulher de Talento” e “Traffic” –culminando na vitória por esse último –e o reconhecimento inédito de um filme estrangeiro nas dez indicações para “O Tigre e O Dragão” (que acabou vencendo quatro merecidos prêmios).
Foi uma premiação bem distribuída, com o grande vencedor da noite sendo o magnífico “Gladiador”, de Ridley Scott, e embora seu astro, o ótimo Russell Crowe tenha levado também a estatueta de Melhor Ator, muitos acreditavam que esse prêmio seria mais justo nas mãos de Tom Hanks, por “Náufrago”.
Entre os cinco principais indicados, contudo, a grande pergunta era o quê “Chocolate” fazia ali, havendo grandes obras como “Quase Famosos”, “Garotos Incríveis”, “Contos Proibidos do Marquês De Sade”, “Billy Elliot” e até mesmo “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, para figurar em seu lugar.

MELHOR FILME
"Gladiador"

MELHOR DIREÇÃO
"Traffic", Steven Sodenbergh

MELHOR ATRIZ
Julia Roberts, "Erin Brockovich-Uma Mulher de Talento"

MELHOR ATOR
Russell Crowe, "Gladiador"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Marcia Gay Harden, "Pollock"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro, "Traffic"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Tigre e O Dragão"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Into The Arms of Strangers-Stories of the Kindertransport"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Big Mama"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Tigre e O Dragão" (Taiwan)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"U-571 A Batalha do Atlântico"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Gladiador"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Grinch"

MELHOR FIGURINO
"Gladiador"

MELHOR SOM
"Gladiador"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Tigre e O Dragão"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Tigre e O Dragão"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Things Have Change", de "Garotos Incríveis"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Quase Famosos"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Traffic"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Father and Daughter"

MELHOR MONTAGEM
"Traffic"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Quiero Ser”

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Traffic

Após uma década inteira na qual explorou uma infinidade de gêneros e estilos, sempre evitando o cinema mainstream e conformista com projetos diferenciados como “O Inventor de Ilusões” ou “Schizopolis”, o diretor Steve Sodenbergh chegou num ponto da carreira em que tinha plena autonomia criativa e respaldo profissional para encarar uma obra com as exigências de “Traffic” que adaptava, num roteiro sucinto e pontual de Stephen Gagham, uma elogiada minissérie inglesa para o cinema.
É o épico de Sodenbergh sobre a guerra contra as drogas, mas, como é inerente ao seu cinema, nele as cenas de embate entre policiais e criminosos perdem toda a importância –são as imbricações pessoais de personagens direta ou indiretamente envolvidos na questão aquilo que de fato desperta a atenção do diretor.
Tratam-se de três tramas paralelas que expõem as complexas mazelas dessa guerra na fronteira entre o México e os EUA. Na primeira, um policial mexicano (Benicio Del Toro, no papel que lhe deu um merecido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante; embora muitos afirmem, com certa razão, que ele é o ator principal do filme) busca manter seus princípios enquanto trabalha na fronteira, onde o tráfico e os cartéis –que lutam uns contra os outros –compram o auxílio da própria polícia.
Na segunda, um juiz da suprema corte (Michael Douglas) é nomeado o "novo czar das drogas", com a intenção de sanar o problema enfrentado nos EUA, mas não percebe que a própria filha (Erika Christensen) é viciada.
Na terceira, uma jovem grávida (Catherine Zeta-Jones) descobre que o marido é um barão das drogas no mesmo dia em que ele é preso e se vê obrigada a assumir os negócios da família.
Para distinguir cada uma dessas tramas –magnificamente encilhadas umas às outras pela primorosa montagem premiada com o Oscar –o diretor usa de um filtro que enfatiza três cores específicas para cada núcleo: A aridez do amarelo na primeira história, o azul formal dos escritórios em Washington, da segunda, e a normalidade cromática das ruas na terceira.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Selvagens

Entre seus trabalhos voltados para uma abordagem algo pessoal de fatos históricos (que, conforme ele envelhece, foram adquirindo cada vez mais intervalos de tempo entre si), o diretor Oliver Stone costuma encaixar um ou outro filme menor, mais despretensioso, no qual ele se encarrega somente de testar sua desenvoltura para relatos ficcionais –sem nunca esquecer sua asséptica tendência para o sensacionalismo.
Grandes amigos, Ben (Aaron Taylor-Johnson) e Chon (Taylor Kistch) não só dividem a mesma mulher, a esfuziante O (Blake Lively, num papel que quase foi de Jennifer Lawrence), como também o mesmo negócio como pequenos traficantes de drogas na Costa Oeste dos EUA. Mas sua prosperidade, bem como a qualidade de seu produto, chama a atenção do Cartel de Baja, cujos bandidões (retratados, sobretudo, na figura curiosa, paradoxalmente ameaçadora e doméstica da personagem de Salma Hayek) sequestram O para coagir os dois a tornarem-se seus empregados.
Eles elaboram um plano explosivo para reavê-la, que envolve o corrupto agente do FBI vivido por John Travolta e o pernicioso capanga interpretado por Benicio Del Toro.
Despido de suas ideologias políticas discursivas, mas não de seu estilo áspero e ácido para contar uma trama de crime e ação repleta de excessos, Stone arquiteta este relato quase banal –ainda que não destituído de seu costumeiro impacto e choque –onde, como sempre, ele se esbalda na exposição contínua da imoralidade de seus personagens.
Tão mais pecaminosos eles são (e nesse sentido, os personagens de Travolta e Hayek são exemplares), mais paradoxalmente indulgente e sádico é o castigo que Stone para eles elabora.
Pode divertir o espectador que não se incomodar com esses exageros.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os Chefões

Abel Ferrara chega a parecer, em “Os Chefões”, uma versão mais modesta e menos suntuosa de Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), Sergio Leone (“Era Uma Vez Na América”), ou até mesmo Martin Scorsese (“Caminhos Perigosos” e “Os Bons Companheiros”), influências das quais seu trabalho tira muito emprestado.
E, talvez, por sua natureza ítalo-americana, seu registro gangster das angústias que remetem a tradições cuja cultura está do outro lado do oceano, é notável, até mesmo a restrição orçamentária comum ao tipo de cinema independente que Ferrara realiza nos anos 1990 lhe confere charme.
Nesta obra cheia de personalidade, a vida tumultuada de três irmãos envolvidos com negócios escusos da máfia –o mais velho e austero Ray (Christopher Walken), o imprevisível Chez (Chris Penn, em grande atuação), e o mais jovem e inconseqüente Johnny (Vincent Gallo) –é colocada em perspectiva durante o funeral deste último, que foi assassinado.
O universo mafioso da década de 1930 é descortinado com ênfase nas entrelinhas mais viscerais, nos personagens que disfarçam psicopatia com requinte (além de Chris Penn, chama muito a atenção a composição de Benicio Del Toro, antes do Oscar por “Traffic”, para um coadjuvante de muita relevância) e nos comportamentos propensos à auto-destruição, uma característica que desperta especial interesse em Ferrara (algo que ele compartilha com o diretor alemão Werner Herzog. Não foi, definitivamente, por acaso, que Herzog quis, portanto, refilmar um dos mais cultuados trabalhos de Ferrara, “Vício Frenético”, mas essa é uma outra história...).
O diretor Abel Ferrara investiga, com pompa e circunstância, as trajetórias mundanas de crime e castigo fazendo a narrativa oscilar no tempo e intercalar variados e complementares flashbacks, sempre acrescentando em sua obra os simbolismos religiosos –essencialmente católicos –que pontuam sua filmografia.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sin City - A Cidade do Pecado

Por incrível que possa parecer, em 2005, ainda não se tinha aquela proliferação de adaptações de histórias em quadrinhos que vemos no circuito comercial de cinema atual –claro, haviam os filme do Batman (no caso, “Batman Begins”, primeiro filme da aclamada trilogia de Christopher Nolan, foi lançado naquele ano), haviam os filmes do Homem-Aranha (a primeira trilogia, de Sam Raimi, estava no segundo exemplar) e haviam os filmes dos X-Men (o terceiro, ainda com o elenco original e antes da reformulação em “Primeira Classe”, sairia só no ano seguinte), além de uma ou outra adaptação.
Ou seja, em 2005, além de não terem se consolidado como uma tendência do mercado, as adaptações de HQ, ainda tateavam em busca da linguagem ideal por meio da qual as narrativas da nona arte seriam transpostas para a sétima.
Êxito já tinha sido obtido, certamente, mas muita coisa ainda estaria por vir –a Marvel Studios só lançaria “Homem de Ferro” e iniciaria a construção de sua supremacia em 2008.
Nesse sentido –no de explorar possibilidades oferecidas nos quadrinhos que ampliassem a experiência cinematográfica em si –uma das mais notáveis produções a surgir em 2005 foi, sem sombra de dúvidas, “Sin City-A Cidade do Pecado”, de Robert Rodrigues e Frank Miller.
E não foi para menos...
A idéia no projeto de Rodrigues era adaptar três histórias extraídas da graphic-novel em preto e branco escrita e ilustrada por Frank Miller, uma coletânea de histórias de crime ao estilo pulp e noir, e que a despeito de serem quadrinhos, ignoravam os super-heróis.
Rodrigues foi ambicioso: Sua intenção era moldar uma adaptação absolutamente fiel em termos visuais e narrativos, capturando a opção estética das páginas (cujos desenhos apresentam um emprego ímpar do “chiaroscuro”). Era uma intenção de tal maneira definitiva que sequer há créditos, no filme, de montagem e direção de fotografia –em lugar disso, aparece nos créditos iniciais apenas “filmado e montado por Robert Rogrigues”.
Na primeira história, "Cidade do Pecado", o bruta-montes Marv (Mickey Rourke, fabuloso) jura vingança aos assassinos da única mulher na vida que teve coragem de fazer amor com ele, a enigmática garota de programa Goldie (a estonteante Jamie King).
Em seus percalços em busca dessa vingança –e de um mínimo de significado para o assassinato de Goldie –ele se depara com uma conspiração que envolve os políticos graúdos de Basin City, assim como um de seus mais respeitados sacerdotes e um jovem e estranho canibal. Isso tudo enquanto luta com os fantasmas ilusórios (e enganadores) de sua própria esquizofrenia.
Na segunda, "A Grande Matança", um mal-entendido protagonizado pelo foragido Dwight (Clive Owen), pela prostituta Gale (Rosário Dawson, vulcânica) e pela pequena ninja Miho (a ágil e surpreendente Devon Aoki) pode por em risco uma trégua milenar mantida entre os policiais e os moradores de um bairro chamado Cidade Velha.
Na terceira, "O Assassino Amarelo", acompanhamos o policial Hartigan (Bruce Willis, num papel perfeito para ele) que sacrifica sua vida, sua carreira e seu casamento para proteger a garotinha Nancy de um perverso assassino e maníaco sexual (Nick Stahl, fantástico) cujo fato de ser filho de um senador o torna blindado aos olhos da lei. Após tentar praticar justiça com as próprias mãos –e de amargar quinze anos na cadeia por isso –Hartigan deve encontrar Nancy (agora vivida pela bela Jéssica Alba) e salvá-la das garras desse psicopata.
Assim sendo, com essas três emblemáticas premissas (nada menos do que três contos extraídos da graphic-novel e escolhidos a dedo), Rodrigues concebeu essa transposição literal (em tom, enquadramento de câmera, e paleta de cores) do sensacional e inovador trabalho do quadrinista Frank Miller, que à propósito foi convidado a dividir com Rodrigues o crédito de direção: Mais uma prova do objetivo estóico de Rodrigues em manter-se completamente fiel à fonte de inspiração, uma postura em geral ignorada por outros realizadores.

Em tempo: Melhor amigo de Quentin Tarantino, Robert Rodrigues convidou-o para dirigir uma única cena do filme; trata-se da tensa, dúbia e surreal conversa banhada por luzes estroboscópicas entre Clive Owen e o personagem de Benicio Del Toro dentro de um carro em movimento.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Vício Inerente

Não é fácil encarar uma obra de Paul Thomas Anderson. Filmes como “Sangue Negro” ou “O Mestre” são herdeiros diretos da filosofia de Stanley Kubrick na qual os enredos corrosivos servem à uma sondagem impiedosa do homem e de suas pulsões.
Desde “Jogada de Risco”, Anderson dedica o olhar de sua câmera à essa dramaturgia tão particular, por meio da qual resgata valores e códigos para estudá-los até que ponto são capazes de definir seus personagens.
Para Anderson as influências mais positivas têm, ainda sim, um poder de corrupção.
Vejamos, por exemplo, o protagonista de “Vício Inerente”, o detetive particular (e maconheiro incorrigível nas horas vagas) Larry ‘Doc’ Sportello, vivido por Joaquim Phoenix. Passando mais tempo sobre o efeito do êxtase da maconha do que lúcido, Sportello se incumbe de uma investigação toda ela pontuada por princípios pessoais: A mulher que ele ama, Shasta (Katherine Waterston, vista este ano em “Animais Fantásticos e Onde Habitam”) desapareceu quase que de forma mirabolante, e esse mistério vem cercado por ocorrência nebulosas e fatos suspeitos que ligam Sportello à um violento policial com tendências homossexuais (Josh Brolin) e ao amante da jovem (Eric Roberts), um ricaço por quem ela o trocou.
Durante boa parte da lisérgica e confusa trajetória à procura de respostas –na qual, paradoxalmente, são as perguntas que mais se multiplicam –Sportello se defronta com inúmeros outros personagens bastante indicativos não só do gênero noir com o qual o filme –e certamente o dificílimo livro de Thomas Pinchon, no qual se baseou –busca uma irmanação e também uma revisão, mas também da época à qual pertencem, anos 1970, suas inusitadas posturas intelectuais e ideologias, e do estilo sempre rocambolesco, denso, desconcertante e humano imposto por seu diretor. Para tanto –e para que tal trajetória tenha um mínimo de empuxo no que concerne à narrativa –Anderson transforma as breves aparições de Katherine Waterston em instantes tão belos e surreais, quanto sensuais, quase tem-se a impressão –e Anderson é bom nisso! –que a cena seguinte ao surgimento dela será o despertar de algum sonho do protagonista.
O elenco de rostos tão talentosos quanto conhecidos que Anderson reúne para ilustrar essa via crusis onde a necessidade de inteligibilidade e dedução se colide com a indiferença e a ausência de austeridade que caracterizou aqueles tempos é de fazer inveja à qualquer superprodução: Benicio Del Toro como um advogado cheio das manias; Reese Whiterspoon como uma procuradora sujeita à algumas ‘fraquezas da carne’; Owen Wilson como um homem desaparecido que aparece em todo lugar (!); Martin Short como um dentista amoral e pernicioso.
Tudo isso molda um filme muito estranho, primoroso na forma com que seu diretor registra o drama humano que transcorre na tela, mas absolutamente disperso, perdido e tortuoso na definição do quê, afinal de contas, esse drama humano está a relatar.

domingo, 25 de setembro de 2016

Guardiões da Galáxia

Até 2014, podia-se dizer que o Universo Marvel Cinematográfico vivia em sua zona de conforto: Os filmes individuais de seus heróis, fizeram sucesso e tiveram muito êxito em estabelecer os fundamentos desse universo, refletindo a mesma estrutura dos quadrinhos, culminando no filme “Os Vingadores”, onde todos se juntaram. A partir daí, eles podiam investir em intermináveis continuações, como pôde ser conferido com os divertidos, mas relativamente reciclados “Homem de Ferro 3” e “Thor-O Mundo Sombrio”, lançados em 2013.
No ano seguinte, contudo, a Marvel Studios mostrou que não estava para brincadeiras, e lançou dois projetos que estabeleciam muito bem os planos de aprimoramentos e melhoramentos almejados pelo estúdio –o espetacular “Capitão América-Soldado Invernal” e este “Guardiões da Galáxia”.
De longe, o projeto mais ousado já executado pela Marvel, “Guardiões...” não apenas era baseado em personagens completamente desconhecidos do grande público, como também –devido ao fato de ser uma aventura nos confins do espaço sideral –não oferecia muitas oportunidades para construir uma conexão imediata com os heróis mais famosos, além do detalhe desafiador de que dois de seus personagens principais eram um guaxinim falante e uma árvore ambulante (!).
O escolhido para capitanear a empreitada (e que recebeu relativa liberdade criativa da Marvel para tal) foi o diretor e roteirista James Gunn (de filmes díspares, independentes e inusitados como a ficção “Seres Rastejantes” e a comédia “Super”) que soube acrescentar à bem-sucedida receita de bons filmes da Marvel uma salutar irreverência.
A trama se inicia no ano de 1988 quando, ainda criança, o terráqueo Peter Quill é abduzido por uma nave alienígena que o leva da terra na mesma noite em que perde sua mãe. Vinte e seis anos depois, ele é um caçador de recompensas em outra galáxia auto-denominado ‘Senhor das Estrelas’ (personificado com excelência e bom humor por Chris Pratt), cujas atividades ilícitas o fazem prisioneiro ao lado de outras figuras inusitadas como a assassina verde Gamorra (Zoe Saldana, ótima), o tal guaxinim falante citado acima, Rocket (na voz de Bradley Cooper), seu melhor amigo Groot (por sua vez, a arvora ambulante, cuja voz de Vin Diesel diz apenas uma frase todo o filme: “Eu sou Groot!”), e o anti-social Drax (o ex-lutador Dave Bautista). Juntos pelo acaso, eles acabam compondo uma equipe que deverá salvar toda a galáxia do maligno Ronan, o Acusador (Lee Pace), cujos planos de grandeza envolvem apoderar-se do Orbe, uma das Jóias do Infinito, cobiçadas também pelo poderoso Thanos (Josh Brolin, afiando as garras para um personagem que deve ser um dos grandes antagonistas de um filme vindouro dos Vingadores).
O resultado foi um sucesso estrondoso, prova de que a Marvel tinha plena consciência de que haviam limites ainda não testados para a evolução (e direção) na qual os filmes adaptados de quadrinhos poderiam seguir, e muito desse êxito se deve ao tom contagiante e descontraído adotado pelo ótimo elenco.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sicario - Terra de Ninguém

Desde os primeiros takes já é possível perceber a força narrativa de Denis Villeneuve, o seu comprometimento singular com cada enquadramento, cada elemento que surgirá em cena, e o modo único como isso tudo fortalece seu registro cinematográfico à exemplo do que ele já fez nos poderosos “Incêndios” e “Os Suspeitos” (embora o “Homem Duplicado” também tenh alguns elementos admiráveis). 
Esse vigor é uma das muitas características notáveis que se percebe neste, e em todos os seus filmes. Aqui, acompanhamos uma jovem policial do departamento de narcóticos (Emily Blunt, maravilhosa no papel e no registro contido e sisudo que a personagem exige) tentando fazer a lei num território inóspito: as áreas fronteiriças dos EUA com o México. Logo na primeira cena a descoberta estarrecedora que ela faz não só determina os rumos da história, mas impõe o próprio tom do filme: Denso, cru, pesado e sem concessões. 
Na sequencia, a personagem de Emily é incluída em uma força-tarefa liderada por um oficial de objetivos e intenções ambíguas (Josh Brolin, administrando o tom exato de loquacidade e casualidade para ocultar suas facetas realmente perigosas). Mas o personagem verdadeiramente intrigante vem logo depois: Alejandro, interpretado com brilhantismo tétrico e sucintos tons de cinza por Benicio Del Toro. Misterioso, ele é quem catalisa as atenções da trama e do próprio expectador durante boa parte do filme. 

Para resumir, pode-se dizer que “Sicario” é um mergulho nas trevas sufocantes e escaldantes de um território sem lei e sem esperança, onde a violência surge como uma forma de expressão. O filme só empalidece nos momentos em que fica clara, às vezes explícita, a intenção de referenciar e até superar o que Steven Sodenbergh fez em “Traffic” não só em termos temáticos (e partindo disso, percebemos então o quanto é significativa a presença de Benicio Del Toro), mas também no tratamento de cena a cena, sobretudo o momento final que, tal como na obra de Sodenbergh, volta sua atenção para um jogo aleatória entre meninos. Não fosse esse fantasma a assombrar o filme de Villeneuve, ele teria feito um trabalho tão grande quanto os anteriores já citados.

domingo, 25 de outubro de 2015

21 Gramas

Quando o corpo humano morre, ele perde 21 gramas. 
O que se vai com esse peso?A alma humana? 
Por meio de três histórias que se entrelaçam através de uma tragédia o diretor Alejandro Gonzales-Iñaritu tenta responder a essa pergunta, em sua primeira produção norte-americana após a premiada carreira de seu trágico e corrosivo "Amores Brutos"; que só não levou o Oscar 2001 de Melhor Filme Estrangeiro porque tinha pela frente "O Tigre e O Dragão", de Ang Lee.
Por meio de um pungente roteiro de Guilhermo Arriaga (que, durante algum tempo, compreendeu como ninguém as inquietações do diretor), Iñaritu conta a história de Paul Rivers (Sean Penn), um matemático que tem um problema cardíaco e definha enquanto está a espera de um coração para transplante, com baixíssimas chances de sucesso.
No outro lado do espectro narrativo (cuja cronologia embaralhada nos desafia a organizar mentalmente os eventos) está Christina Peck (Naomi Watts, fantástica) outrora esposa dedicada e mãe de família que agora sofre com a perda de seus entes queridos e é uma ex-viciada em drogas.
Há também Jack Jordan (Benicio Del Toro), um ex-presidiário que agora busca seu caminho pela religião, mas vive com a sombra do seu passado.
Em todos esses casos, testemunhamos essas pessoas numa espécie de 'antes' e 'depois', e é esse contraste que dá corpo não apenas ao drama superlativo que Iñaritu conduz tão bem, mas nos leva a questionar o rumo que tais pessoas tomaram para chegarem em desenlaces tão aflitivos: A grande sacada no cinema de Iñaritu e Arriaga, portanto, não está em cultivar surpresas almejadas pela grande maioria dos cineastas convencionais, mas sim ostentar ao público uma jornada tortuosa e certamente dilacerante cujos rumos ele já sabe, mas não os percalços que até lá conduziram. 
Todos os personagens aqui mostrados terão em algum momento seus destinos entrecruzados na construção deste impactante drama, e assim sendo não é nenhuma novidade o fato de sua estrutura narrativa muito se assemelhar ao trabalho anterior (e aclamado) de Iñaritu (o próprio "Amores Brutos") e vir a ser mais uma vez aproveitada no seu filme seguinte, "Babel".
Enquanto foram colaboradores, Iñaritu e Arriaga estabeleceram para si uma fórmula dramatúrgica que, durante o tempo que puderam, utilizaram para forjar dramas de altíssimo nível.
É provável que este possa ser considerado assim, o seu melhor exemplar.