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quinta-feira, 17 de julho de 2025

Superman


 Há uma sensação curiosa e até deliberada a tomar conta do expectador já nos primeiros minutos de “Superman”: A de que a história que começamos ali a acompanhar já está em progresso e de que a pegamos, por assim dizer, ‘com o bonde andando’. Essa sensação provavelmente é um objetivo proposital da parte do diretor e roteirista James Gunn –como este filme em si é o ponto de partida de mais uma nova empreitada na tentativa de consolidar um Universo DC Comics nos cinemas, à exemplo do Universo Marvel Cinematográfico (a empreitada anterior, capitaneada por Zack Snyder foi um desfile de fracassos), o protagonista já chega habitando um mundo povoado de superseres –os chamados ‘metahumanos’ –alguns dos quais comparecerão sem cerimônia e sem timidez neste filme mesmo.

Detentora dos direitos dos personagens da DC Comics (a maior concorrente da Marvel nos quadrinhos), a Warner Bros Estúdios, na ânsia de finalmente acertar não hesitou em ciscar no terreno do vizinho –e não foi nem a primeira vez: Assim como em 2008, quando chamou o diretor de “X-Men”, Bryan Singer, para realizar “Superman-O Retorno”, a Warner prontamente contratou James Gunn (que na Marvel Studios foi responsável por toda a ótima Trilogia “Guardiões da Galáxia”) não só para encarregar-se deste novo filme do Superman, mas para ser a mente criativa por trás de todo um novo esforço para materializar um Universo DC a partir do zero, a começar, portanto, por seu mais emblemático superherói.

O conceito com o qual Gunn inicia seu filme é arrojado: Ele simula a impressão de ler uma história em quadrinhos real, na qual encontramos um herói já estabelecido (sem histórias de origem por aqui) e cujos percalços já flagramos em andamento. Não há exatamente um início e a miríade de narrativas que aqui parecem se deflagrar certamente não encontrarão, tão cedo, um desfecho. O maquiavélico Lex Luthor (Nicholas Hoult, num registro austero que felizmente deixa para trás tentativas pífias de agregar humor ao personagem) tem a intenção de minar a popularidade de Superman (o ótimo David Corenswet) para aí então matá-lo. Nos primeiros minutos de filme ele já alcança esse intento: Do alto de seus espantosos poderes, Superman acaba derrotado por um adversário que Luthor encomendou, um certo Martelo da Borávia.

No entanto, os planos de Luthor vão mais longe: Ele quer encontrar o esconderijo de Superman (neste caso, no Ártico, onde a Fortaleza da Solidão alberga os resquícios da tecnologia kriptoniana), voltar a opinião pública (que, por enquanto, o adora) contra ele, para aí então, confiná-lo numa prisão especial onde planeja tirar sua vida com sadismo.

O Superman, por sua vez, faz o que todas as encarnações anteriores do personagem buscaram fazer: Praticar o bem e salvar o máximo de pessoas –a diferença é que, desta vez, esses objetivos não parecem distorcidos por maneirismos de estilos ou por vícios de linguagem.

É bem verdade que a narrativa se atropela e ameaça se perder em meio à tantas informações, tantas idas e vindas e tantos personagens com considerável background a se desenvolver, entretanto, James Gunn é hábil o suficiente para nunca perder o foco no cerne da questão narrativa, a rixa existencial e pessoal entre Superman e Lex Luthor, bem como a relação, ainda cautelosa e hesitante, entre o próprio Superman e sua identidade civil, Clark Kent, com a repórter Lois Lane (a linda Rachel Brosnahan). Assim, chega até a ser chocante que justamente o elemento que torna este Superman tão diferenciado em relação às últimas transposições para o audio-visual seja justamente aquele elemento que sempre deveria ser atrelado à ele: A luz, a esperança e a inspiração que, como herói, o Superman sempre representou. No papel de Superman/Clark Kent, David Corenswet se ampara mais na lição primordial deixada pelo saudoso Christopher Reeve e menos na amargura inapropriada com a qual Henry Cavill foi obrigado a carregar seu Superman. Aqui, por diversos meios e pelos mais variados fatores, Superman volta a ser símbolo de tudo o que almejamos como seres humanos –e essa mensagem se vê muito bem contextualizada num filme que não omite seus desdobramentos políticos (Superman acaba mal visto publicamente por tentar parar um guerra SEM as devidas autorizações governamentais), suas complexidades factuais (diante de outros heróis com poderes, ele precisa se posicionar e se provar enquanto um defensor da justiça) e nem a ambiguidade de suas ideologias (desvencilhando-se do perigo de enaltecer um ser supremo, o diretor retrata Superman, mesmo com seus poderes, nas mais diversas circunstâncias de vulnerabilidade).

O resultado desta demonstração íntegra e intrínseca de pleno conhecimento do material-fonte (os quadrinhos) é um filme vibrante, colorida, esperançoso, agitado e francamente promissor. Ao contrário de 1979, hoje em dia, não basta Superman provar que o homem pode voar, ele precisa mostrar que seus valores e tudo aquilo que representa (e que faz dele o maior de todos os superheróis) são convicções inabaláveis retradas pelos mais talentosos e sinceros artesãos de cinema.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Guardiões da Galáxia - Especial de Natal


 Pouco antes de sua última aparição nos cinemas –no excelente “Guardiões da Galáxia Vol. 3” –e depois de suas participações em “Vingadores-Ultimato” e em “Thor-Amor & Trovão”, a equipe de heróis espaciais tornados memoráveis graças ao talento do diretor e roteirista James Gunn deu o ar da graça neste média-metragem especial, exclusivo da plataforma Disney Plus. Esperto, James Gunn –uma verdadeira enciclopédia viva de referências à cultura pop –resgatou a lembrança, não tão honorável assim, do “Star Wars-Especial de Natal”, que George Lucas lançou em 1978, com toda a trupe de seu sucesso cinematográfico reunida para pagar um mico desgraçado. Varrido para debaixo do tapete pela vergonha dos fãs perante a mitologia vasta em longa-metragens, animações e afins, aquele filme televisivo é relembrado aqui, por James Gunn, com um certo carinho agridoce. Entretanto, se Gunn relembra sua existência, ele evita por completo seus equívocos: Este média-metragem é uma piscadela aos fãs feita para explorar o carisma de seus personagens, estender com muito bom humor um pouco mais sua mitologia e, lá no fundo, favorecer o conteúdo exclusivo do streaming da Disney, com um irresistível apelo aos inúmeros expectadores do MCU.

Instalados em Luganhenhum, a cabeça decepada de um Celestial, desde que o lugar fora devastado por Thanos, os Guardiões da Galáxia descobrem que na Terra, o planeta-natal de Peter Quill (Chris Pratt), está sendo comemorada a época do Natal –festividade completamente ignorada pelos outros membros, alienígenas. Todavia, como lembra Kraglin (Sean Gunn) na sequência animada que abre o filme (na qual figura o personagem de Michael Rooker, Yondu, em participação especial) os natais de Quill, passados durante sua infância entre os rudes Saqueadores Espaciais, não foram dos mais calorosos.

Para Manthis (Pom Klementieff) –que lembra do fato de que ela e Quill são meio-irmãos, já que foi criada por Ego, o pai dele –há uma certa importância em resgatar tal data, já que Quill anda desolado devido à perda de Gamora, ocorrida em “Vingadores-Guerra Infinita”. Com isso em mente –e com uma visão ligeiramente deturpada do quê é o Natal e sua troca de presentes –ela e Drax (Dave Bautista) veem até a Terra, na intenção de providenciar para Peter o melhor presente possível: O seu ídolo em pessoa, o ator Kevin Bacon –numa participação especial das mais hilárias!

Na Terra, confusões usuais se seguem –no humor recorrente e espontâneo da Marvel Studios –quando Manthis e Drax descem em plena Los Angeles, intoxicada pelo usual culto às celebridades: O que leva personagens tão exóticos quanto os dois a se misturar até que bem à fauna esquisita e alienada de pessoas que ganham dinheiro com a curiosidade dos turistas (!). Após um tumulto considerável na mansão de Kevin Bacon –onde, por razões óbvias, tiveram um atrito com a polícia (!!) –Manthis e Drax seguem de volta à Luganenhum para surpreender Peter. Ainda que a surpresa termine não sendo como eles esperavam.

Descontraído, mais espirituoso do que de fato divertido, este “Especial de Natal” é certamente recomendado aos fãs mais incondicionais dos Guardiões da Galáxia, que haverão de apreciar o filme pela sempre envolvente interação de seus personagens –um aspecto singular em suas criações do qual a Marvel Studios sempre soube se beneficiar. Aos expectadores mais casuais, ele é uma obra curta, ligeiramente vaga e sem muita razão de ser (exceto pelos pequenos detalhes de informação que acrescenta como a aproximação entre Manthis e Drax e entre Rocket Racoon e Nebula) que serve como uma modesta ponte entre os demais filmes e o derradeiro (e brilhante!) “Guardiões da Galáxia-Vol. 3”.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Guardiões da Galáxia Volume 3


 Já dissera Tony Stark (Robert Downey Jr.) em “Vingadores-Ultimato”: O fim faz parte da jornada. Pois é exatamente isso que vem reiterar este terceiro volume da trilogia concebida por James Gunn, também ela dentro do Universo Marvel Cinematográfico, cujo mérito maior talvez seja o de ter provado, perante toda a indústria, que sim, personagens outrora obscuros e absolutamente desconhecidos, quando tratados com refinamento, talento e uma equipe competente à frente e atrás das câmeras podem converter-se em ícones pop de tanto ou mais sucesso que os personagens já famosos e estabelecidos. “Volume 3” representa, em inúmeros aspectos, o fim da jornada. É o fim dessa equipe que conduziu fãs e expectadores casuais pelos recônditos do espaço sideral do MCU, e é, acima de tudo, uma despedida do próprio James Gunn à esses personagens –aos quais ele não deixa de declarar em cada instante de filme um amor incondicional –prestes à assumir a importante função de chefe da DC Studios, concorrente da Marvel.

Para tanto, vindo todos esses personagens de dois longa-metragens anteriores –e da expressiva participação em pelo menos outros dois filmes dos “Vingadores” –“Volume 3” acaba tendo assim muitas pontas soltas para unir. Existe, por exemplo, a situação romanticamente incerta entre Peter Quill (Chris Pratt) e Gamorra (Zoe Saldana), ela assassinada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita”, mas, tendo retornado como uma versão alternativa (e nada benigna) de si mesma de outra realidade –e, portanto, sem qualquer vínculo com a equipe que antes virou sua família e sem qualquer memória do romance que construiu, aos trancos e barrancos, com o apaixonado Quill; há também a situação de Adam Warlock (Will Poulter), ser poderoso ainda que ingênuo, criado pela alienígena Ayesha (Elizabeth Debicki), como nos foi mostrado numa das cenas pós-crédito do “Volume 2”, com o intuito inicial de vingança contra os Guardiões da Galáxia. Mas, acima de tudo, há Rocket Racoon (voz de Bradley Cooper), o guaxinim humanóide e cibernético que, ao lado do homem-árvore Groot (voz de Vin Diesel), é um dos personagens favoritos dos fãs desde o primeiro filme. James Gunn foi providencial ao reservar toda a triste e dolorosa história de origem de Rocket para este último capítulo: É seguro afirmar, Rocket é o coração de “Guardiões da Galáxia-Volume 3”.

Sua história –contada em pontuais flashbacks que revelam sua criação pelas mãos do cruel, detestável e poderoso Alto-Evolucionário (Chukwudi Iwuji, num dos mais odiosos vilões da Marvel) –é de uma tristeza, uma angústia e um desamparo que chega a espantar quem está habituado à galhofa e ao humor constante de James Gunn. Mal dá pra acreditar que um personagem praticamente gerado por computador em sua íntegra seja capaz de comover de tal maneira. Rocket precisa de ajuda. Para salvá-lo, os Guardiões da Galáxia –que, mais que um grupo, se consolidaram praticamente como uma família –formados por Quill, Nebula (Karen Gillan), Drax (Dave Bautista), Manthis (Pom Klementieff) e Groot, partem, de seu reduto em Luganenhum, para a Contra-Terra, planeta-laboratório onde o Alto-Evolucionário conduz seus experimentos atrozes brincando de Deus com a vida de incontáveis criaturas inocentes, tendo uma delas sido Rocket, no passado.

Contudo, o tempo mostrou que Rocket é mais do que um experimento imperfeito como seu criador acreditava: Sua inteligência evoluiu, diante da necessidade de viver e de sobreviver, tornando-o algo mais do que o Alto-Evolucionário almejava. Agora, porém, ele quer Rocket de volta, pois, na ânsia de trilhar o caminho de sonhou, apesar de todas as suas perdas e decepções, Rocket foi capaz de evoluir –e o Alto-Evolucionário não sabe como ele o fez, nem como repetir isso em suas outras criações; só sabe que irá dissecar cada fibra de Rocket para descobrir.

No caminho para tentar salvar a vida de Rocket –infectado por uma espécie de vírus plantado nele por Adam Warlock num ataque –os Guardiões da Galáxia, obviamente, vão se cruzar com Gamorra, agora aliada aos Saqueadores, piratas espaciais liderados por Stakar (Sylvester Stallone, numa ponta de puxo), cujos laços com Quill (como namorada) e com Nebula (como irmã) podem, quem sabe, serem restaurados nesse percurso.

É claro que, sendo este o alardeado Volume Final, espera-se deste filme, sobretudo, em sua parte final, as imprevistas guinadas definitivas que haverão de selar o desfecho da maior parte dos personagens (e a Marvel Studios já se provou capaz de fazê-lo com emoção e contundência em “Ultimato”) e, possivelmente, até mesmo uma morte impactante a marcar este como o encerramento da história que começou no primeiro filme. Hábil, travesso e inteligente, James Gunn –em estado de graça, seja no roteiro, seja na direção –brinca, inclusive, com isso o tempo todo. Ele nos leva de uma emoção à outra, saltando com inédita e elevada habilidade do casual e confortável bom humor à emoção incontida e inebriante, e revela, neste terceiro trabalho com os Guardiões, uma nova faceta: A capacidade de realizar uma obra inesperadamente tensa.

Elaborado com a usual e reconhecida profusão de efeitos visuais que a Marvel Studios habitualmente entrega, e para tanto, dono de uma amplitude técnica invejável, “Guardiões da Galáxia-Volume 3” tem uma trama recheada de idas e vindas frenéticas, ora divertidas, ora atordoantes, e vale-se brilhantemente do fato –um trunfo sem igual para a Marvel –de que já conhecemos esses personagens, nos importamos com eles, sentimos com mais empatia e eficácia suas agruras e lamentamos com muito mais autenticidade suas tristezas, e isso faz com que sua última aventura seja, afinal, uma despedida nossa também. Uma emoção verdadeira, da qual partilhamos com imenso prazer.

Obrigado pela aventura, Guardiões.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Esquadrão Suicida


 Os percalços que levaram às telas esta nova versão de O Esquadrão Suicida são um exemplo das voltas que o mundo dá: Sucesso de público e fracasso de crítica (um fenômeno muito mais comum do que pode parecer), “Esquadrão Suicida”, dirigido por David Ayer, foi um dos muitos filmes que comprometeram a viabilidade do Universo Compartilhado da DC Comics almejado pela Warner Studios.

Era consenso geral que o trabalho de Ayer foi incapaz de capturar o sarcasmo necessário aos personagens –um grupo de heróis formado por vilões –o que transformou o filme numa sucessão de incoerências e frustrações, longe da intenção inicial de fazer dele uma espécie “Guardiões da Galáxia” da Distinta Concorrência. Contudo, quis o destino que James Gunn, justamente o cérebro por trás da originalidade palpitante daquele filme da Marvel Studios, ficasse em maus lençóis com os executivos da Disney devido ao aparecimento de twits polêmicos que ele escrevera muitos anos atrás. Demitido (por pouco tempo, já que foi recontratado), James Gunn ficou assim disponível para ser recrutado pela própria Warner Bros, que não pestanejou diante da oportunidade de ciscar no terreno do vizinho.

E assim, Gunn incumbiu-se de dirigir e roteirizar um novo “Esquadrão Suicida” que a um só tempo é continuação, reinvenção, derivado e reformulação do filme anterior (a única modificação no título é o acréscimo do artigo “O”). Sob muitos aspectos, ele deixa aquele filme completamente de lado para alçar voo próprio diante das possibilidades instigantes que descobre. Roteirista e diretor brilhante (anos-luz à frente de David Ayer, diga-se), James Gunn é um conhecedor intrínseco de histórias em quadrinhos, logo, ele compreende o contexto, a proposta e a dinâmica dos personagens reunidos em “O Esquadrão Suicida” de uma forma que David Ayer jamais conseguirá. E, como diretor, possuir também uma apurada percepção de cinema também ajuda muito.

Arrojado que só, “O Esquadrão Suicida” já começa num enquadramento de câmera absolutamente audacioso, mostrando Savant (Michael Rooker), um prisioneiro que, nos moldes dos personagens do filme anterior, é recrutado pela impiedosa Amanda Waller (Viola Davis que aqui não rouba a cena porque simplesmente todos estão sensacionais) para integrar o Esquadrão Suicida –um grupo de força-tarefa cujos membros, na falta de heróis superpoderosos, são escolhidos entre os vilões mesmo.

Único personagem minimamente nobre entre eles é o Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), oriundo do filme anterior –também são de lá o ardiloso Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e, claro, a doce e psicótica Arlequina, personagem que, à essa altura, a australiana Margot Robbie já tornou tão antológica quanto indissociável dela própria.

O grupo é despachado para a republiqueta sul-americana de Corto Maltese (nome que, em si, já representa uma das muitas e sensacionais referências plantadas por Gunn na trama) para um missão algo nebulosa e, logo na chegada, são atacados. E eis que a obra de Gunn revela, já aí, toda a coragem, habilidade e excelência que faltou no outro filme: Salvo Rick Flag e Arlequina todos os outros personagens acabam mortos –até mesmo o personagem de Michael Rooker, até então sugerido pela narrativa como os olhos do público!

É só o começo, literalmente –tudo isso ocorre antes mesmo dos créditos iniciais!

Em “O Esquadrão Suicida”, mais que qualquer coisa, James Gunn exercita sua capacidade de se fazer imprevisível. O andamento da trama, as mortes que se sucederão ou não, e a guinada de roteiro seguinte são elementos que dificilmente os expectadores serão capazes de prever.

Um pouco longe dali, um segundo grupo também foi recrutado e enviado, grupo este composto pelo Sanguinário (o ótimo Idris Elba), o Pacificador (John Cena, de "Bumblebee", cada vez melhor), o Homem-Bolinhas (David Dastmalchian, de “Homem-Formiga”), a Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) e o simultaneamente fofo e amedrontador Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone).

Com habilidade insuspeita, o diretor James Gunn conduz a trama alternando esses dois grupos a medida que vai revelando algumas surpresas referentes à missão incumbida. Isso permite à Gunn explorar o termo ‘suicida’ presente em seu título –o desapego com que o diretor descarta muitos personagens ao longo do filme acrescenta um toque inesperado de suspense às situações de perigo –e operar com uma liberdade que não usufruía nem mesmo na Marvel Studios –produtora de filmes bem comportados, para todos os públicos, muito diferentes deste daqui onde Gunn enche a boca de seus personagens com impropérios e palavrões, pisa no acelerador no quesito da violência e emprega sanguinolência num nível similar somente ao que ele havia feito na produtora Troma em seu início de carreira.

De fato, “O Esquadrão Suicida” tem tudo isso; ação, violência, pancadaria, tiros e mortes, mas, é também um filme cheio de poesia: Na concepção irretocável em termos de um maior requinte cinematográfico, na escolha sublime e primordial das músicas que integram a trilha sonora (milagre que ele já havia executado em “Guardões da Galáxia”), na construção finalmente apropriada, ácida e vibrante dos personagens politicamente incorretos que tem em mãos, James Gunn finalmente mostra como fazer um filme de verdade com o Esquadrão Suicida, e de quebra entrega uma das melhores produções baseadas em histórias em quadrinhos de todos os tempos.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Para Maiores

Eis um filme que, em sua incontornável ruindade, é um caso para estudo. Afinal de contas, ainda assim, foi reunido, ao longo de seus esquetes, não só um elenco de fazer inveja a qualquer superprodução, mas também um time de diretores que se responsabilizam por cada, digamos, episódio que vai de nomes notáveis como Peter Farrelly (aqui arriscando a direção sem seu irmão Bobby), James Gun (de “Guardiões da Galáxia”), Steve Carr (de “Segurança de Shopping”), Griffin Dunne (astro de “Depois de Horas”, de Scorsese e diretor de “Da Magia À Sedução”), Bret Ratner (de “A Hora do Rush” e “X-Men O Confronto Final”) e outros! –e todos, sem exceção, passam uma tremenda vergonha em todas as seqüências deste filme cujo nível de mau gosto chega às raias do inacreditável.
Reza a lenda, que o produtor Charles B. Wessler (realizador dos filmes dos Irmãos Farrelly) conseguiu arregimentar tantos atores graças à sua influência e a um curta-metragem previamente gravado em 2009 com Hugh Jackman e Kate Winslet –quando o filme foi lançado em 2013, tal curta, por sinal, foi incluído como o trecho que inicia esta sucessão de absurdos intermináveis!
É uma antologia cômica calcada nas características pesadíssimas da comédia vulgar juvenil que aflorou nos anos 1980 e que ganhou, com as décadas que vieram, mais e mais escatologia. Uma exaltação do politicamente incorreto.
Sua trama une engenhosidade e grosseria de forma desconcertante: A fim de pregar uma peça de 1º de abril num garotinho metido a hacker, dois adolescentes pra lá de imbecis lhe distraem com a missão de procurar um filme na internet, difícil de achar por ter sido banido, cujo conteúdo é um mistério –o "Movie 43", que dá o título original à produção.
O problema é que durante a busca o tal filme revela-se real, e nos sucessivos vídeos que eles vão descobrindo surgem tramas curtas que, de uma maneira geral, destroem com o modo de vida norte-americano com um humor politicamente incorreto radical até mesmo para os padrões extremos que o gênero tem tomado atualmente (como "Ted").
No primeiro esquete –supostamente aquele que iniciou tudo! –uma moça (Kate Winslet) vai jantar em um restaurante com um solteirão charmoso e boa-pinta (Hugh Jackman), para descobrir, do pior jeito possível, porque ele continua solteiro: De alguma forma ridícula e mirabolante, ele possui os testículos no pescoço (acredite, isso já dá uma boa idéia do nível extremo de absurdo, escracho e nojeira que se seguirá a partir daqui!).
Noutro, o casal na vida real Naomi Watts e Liev Schreiber vive a mãe e o pai de um rapaz educado em casa –como é costume em alguns locais do EUA –entretanto, a fim de proporcionar ao filho uma educação com todas as variações de uma experiência escolar completa, eles decidem submeter seu filho até mesmo ao bullying impiedoso que seus colegas praticariam: Eles organizam festas e não o convidam (!), seu pai exerce forte tortura psicológica nas aulas de educação física (!), e sua mãe, na falta de outra, flerta com ele para ensinar-lhe as minúcias da rejeição (!!). O resultado é ultrajante.
Numa adaptação mambembe e debochada da “Liga daJustiça”, anos antes do filme de Zack Snyder e Joss Whedon, vemos em um restaurante, Robin (Justin Long) tentar se dar bem num encontro com a Supergirl (Kristen Bell), apesar das constrangedoras intromissões do inconveniente Batman (Jason Sudeikis) e, mais tarde, da espalhafatosa Mulher Maravilha (Leslie Bibb) e de uma neurótica Lois Lane (Uma Thurman).
Já, o casal formado por Chris Pratt e Anna Faris resolve temperar sua vida sexual quando a esposa faz uma inesperada proposta ao marido: Defecar nela (!!!).
A preparação para esse momento tão... especial (!) envolve o uso de um laxante poderoso que vai colocar o marido numa situação aflitiva.
Também em um encontro marcado num restaurante, Halle Berry e o comediante Stephen Merchant resolvem brincar de ‘desafio ou conseqüência’, o quê os leva a atitudes inacreditáveis.
Richard Gere faz o executivo de uma empresa cujo produto mais rentável, o I-Babe (um dispositivo que grava músicas em tamanho real e formato de uma mulher nua!) está levando compradores adolescentes à mutilação (!) por uma razão bem peculiar: No lugar onde seria a vagina fica uma hélice para ventilação (!!!).
Num dos episódios mais estranhos e non-sense, Emma Stone faz uma namorada impaciente e incompreensível disposta a discutir a relação com o namorado (Kieran Culkin), mesmo que seja na caixa de supermercado onde ele trabalha (!).
Um encontro catastrófico é o que experimenta a jovem Chloe Grace Moretz ao ir à casa do namoradinho e lá passar pela infelicidade de ter sua primeira menstruação (!), para o pânico de seu irmão mais velho, Christopher Mintz-Plasse.
Numa cabana, Johnny Knoxville e Seann William Scott encontram um ‘leprechaum’ –num registro deliberadamente destoante de efeitos visuais, do ator Gerard Butler –que não é exatamente aquilo que eles esperavam.
Um time de basquete composto por negros recebe de seu treinador, Terrence Howard, uma instrução bastante simples (e racista) para conseguir ganhar do time composto por brancos.
E por fim, no episódio escondido nos créditos finais, Elizabeth Banks tenta manter a harmonia de seu relacionamento com o namorado dos sonhos, Josh Duhamel, mas isso é perturbado pelo gato dele (um CG ainda mais porco que o do ‘leprechaum’), uma versão distorcida, psicopata e homossexual de Garfield (!!).

É bem provável que hajam até mesmo outros episódios além desses que consegui lembrar, mas a experiência de passar por este filme é tão desconcertante e perturbadora que vou ficar só nestes mesmos!

domingo, 30 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Volume 2

O primeiro filme dos Guardiões da Galáxia já aparece com freqüência nas listas de melhores filmes da Marvel Studios, e é bem provável que esta sua continuação direta passe, também ela, a integrar o apanhado de filmes mais prestigiados dessa editora tornada estúdio de cinema.
A razão é simples: James Gunn, roteirista e diretor do primeiro filme e deste também, retoma a trama e seus personagens com uma espontaneidade que poucas continuações têm.
Se no filme anterior, o terráqueo Peter Quill (Chris Pratt) auto-denominado Senhor das Estrelas, havia assumido para si a tarefa de gerenciar o grupo improvável formado por ele, a guerreira Gamorra (Zoe Saldana), o mercenário Drax (Dave Bautista), o guaximin Rockett (voz de Bradley Cooper) e a árvore ambulante Groot (que, nesta seqüência, é uma hilária e adorável versão bebê do personagem adulto com voz de Vin Diesel), nesta nova trama, esse objetivo se revela mais complicado do que parecia: Rockett, num ímpeto habitual, resolve roubar baterias alienígenas de um povo conhecido como Soberanos –baterias estas que deveriam salvaguardar de uma criatura.
Perseguidos pelos Soberanos, os Guardiões da Galáxia terminam encontrando Ego (Kurt Russell, sempre sensacional), um ser cósmico que se revela o verdadeiro pai de Peter (que ele procura desde o filme anterior), e o leva até seu planeta –na verdade, ele próprio É o planeta! –para lhe elucidar sua origem (e do porque, na realidade, ele é uma ameaça para todo o universo!).
Ao mesmo tempo, Rockett e Groot envolvem-se numa enrascada ao lado de Yondu (Michael Rooker, num dos melhores personagens deste novo filme), quando este sofre um motim promovido por seus piratas espaciais ao lado de Nebulosa (Karen Gillan), a vingativa irmã de Gamorra.
Entre os novos personagens que marcam presença estão a empara Manthis (Pom Klementieff), que os leitores de quadrinhos sabem que passará a integrar a equipe –e já demonstra aqui uma química hilariante com Dave Bautista –e rápidas aparições de Starhwak (Sylvester Stallone, que infelizmente não divide nenhuma cena com Kurt Russell para reeditar a parceria de “Tango & Cash”) e de outros saqueadores espaciais (vividos por Wing Rhames, Michelle Yeoh e Michael Rosenbaun), personagens que podem vir sem sombra de dúvidas a integrar uma nova equipe de heróis cósmicos da Marvel no futuro.
Ainda mais engraçado, vibrante e pontual em suas referências à cultura pop (assim como na primeira produção a seleção de canções da trilha sonora, com clássicos dos anos 1970, é de uma deleite espetacular) do que o filme anterior, este roteiro de Gunn volta seu olhar aos laços afetivos e familiares que unem seus interessantes personagens e explora maravilhosamente bem suas dinâmicas, obtendo sucessivas cenas que flutuam com naturalidade entre o humor, o drama, a tensão e a ação.

domingo, 25 de setembro de 2016

Guardiões da Galáxia

Até 2014, podia-se dizer que o Universo Marvel Cinematográfico vivia em sua zona de conforto: Os filmes individuais de seus heróis, fizeram sucesso e tiveram muito êxito em estabelecer os fundamentos desse universo, refletindo a mesma estrutura dos quadrinhos, culminando no filme “Os Vingadores”, onde todos se juntaram. A partir daí, eles podiam investir em intermináveis continuações, como pôde ser conferido com os divertidos, mas relativamente reciclados “Homem de Ferro 3” e “Thor-O Mundo Sombrio”, lançados em 2013.
No ano seguinte, contudo, a Marvel Studios mostrou que não estava para brincadeiras, e lançou dois projetos que estabeleciam muito bem os planos de aprimoramentos e melhoramentos almejados pelo estúdio –o espetacular “Capitão América-Soldado Invernal” e este “Guardiões da Galáxia”.
De longe, o projeto mais ousado já executado pela Marvel, “Guardiões...” não apenas era baseado em personagens completamente desconhecidos do grande público, como também –devido ao fato de ser uma aventura nos confins do espaço sideral –não oferecia muitas oportunidades para construir uma conexão imediata com os heróis mais famosos, além do detalhe desafiador de que dois de seus personagens principais eram um guaxinim falante e uma árvore ambulante (!).
O escolhido para capitanear a empreitada (e que recebeu relativa liberdade criativa da Marvel para tal) foi o diretor e roteirista James Gunn (de filmes díspares, independentes e inusitados como a ficção “Seres Rastejantes” e a comédia “Super”) que soube acrescentar à bem-sucedida receita de bons filmes da Marvel uma salutar irreverência.
A trama se inicia no ano de 1988 quando, ainda criança, o terráqueo Peter Quill é abduzido por uma nave alienígena que o leva da terra na mesma noite em que perde sua mãe. Vinte e seis anos depois, ele é um caçador de recompensas em outra galáxia auto-denominado ‘Senhor das Estrelas’ (personificado com excelência e bom humor por Chris Pratt), cujas atividades ilícitas o fazem prisioneiro ao lado de outras figuras inusitadas como a assassina verde Gamorra (Zoe Saldana, ótima), o tal guaxinim falante citado acima, Rocket (na voz de Bradley Cooper), seu melhor amigo Groot (por sua vez, a arvora ambulante, cuja voz de Vin Diesel diz apenas uma frase todo o filme: “Eu sou Groot!”), e o anti-social Drax (o ex-lutador Dave Bautista). Juntos pelo acaso, eles acabam compondo uma equipe que deverá salvar toda a galáxia do maligno Ronan, o Acusador (Lee Pace), cujos planos de grandeza envolvem apoderar-se do Orbe, uma das Jóias do Infinito, cobiçadas também pelo poderoso Thanos (Josh Brolin, afiando as garras para um personagem que deve ser um dos grandes antagonistas de um filme vindouro dos Vingadores).
O resultado foi um sucesso estrondoso, prova de que a Marvel tinha plena consciência de que haviam limites ainda não testados para a evolução (e direção) na qual os filmes adaptados de quadrinhos poderiam seguir, e muito desse êxito se deve ao tom contagiante e descontraído adotado pelo ótimo elenco.