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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Vizinhos 2


 Dois anos após “Vizinhos” ter se tornado um sucesso –sobretudo, por seu desempenho em homevideo –o ator Seth Rogen (também roteirista e produtor) e o diretor Nicholas Stoller retomaram os mesmos personagens para uma nova história. Diante do fato de que o primeiro filme quase mal se sustentava por si, a pergunta que fica é: Por que?

E “Vizinhos 2” se esforça de todas as maneiras tentando respondê-la com dignidade, reaproveitando parte do mote do filme anterior, esbanjando (em alguns momentos até demais) a inclinação de seu elenco ao improviso, e introduzindo a não tão pertinente personagem de Chloe Grace Moretz, a fim de dar um elemento representativo à trama –no caso, o respaldo feminista que faltou ao primeiro filme.

Desta vez, o casal Mac e Kelly (Seth Rogen e Rose Byrne) esperam mais um bebê. Com a segunda filha a caminho, a decisão deles é vender a casa e adquirir uma outra, melhor e mais espaçosa para o aumento da família.

Entretanto, a venda será sob o sistema de caução, ou seja, seus compradores têm trinta dias para avaliar o lugar e mudar de ideia até que o acordo seja fechado. No mesmo período, uma celeuma inesperada ocupa a casa ao lado, que no filme anterior abrigou as festas de arromba da fraternidade Delta Psi: Agora, tal casa será ocupada pela fraternidade Kappa Nu, presidida pela jovem Shelby (Chloe Grace Moretz), desejosa de criar sua própria fraternidade ao descobrir que as confrarias femininas, diferente das masculinas, não podem dar festas.

Para Shelby, é uma questão de honra que garotas tenham tanto direito de festejar quanto garotos –e de promover as festas que quiserem em seus próprios termos, sem sexualização.

O problema é que, apesar das boas intenções, Shelby e suas amigas não fazem ideia de como administrar uma fraternidade. Entra em cena então o garotão Teddy Sanders (Zac Efron) que, como referendaram os acontecimentos mostrados no primeiro filme, não evoluiu muito: Enquanto seus amigos se formaram e arrumaram empregos adultos, Teddy –cuja aptidão eram mesmo as festas espetaculares –seguiu em sub-empregos, sem muito lugar onde morar (era hóspede do amigo gay vivido por Dave Franco), numa espécie de crise de meia idade prematura. Quando seu amigo resolve se casar com o namorado, Teddy recebe um ultimato: Procurar outro lugar para morar. E é assim que seu caminho se cruza com o das garotas Kappa Nu.

Agora, como ‘consultor administrativo’ das garotas, Teddy retoma a mesma dinâmica do filme original, em que elaborava festas e mais festas de um lado, enquanto de outro, Mac e Kelly bolavam suas abiloladas sabotagens.

Tudo neste segundo filme é mais idiota, mais raso e mais irritante que no filme anterior –síndrome de sequência da qual este filme mais padece.

E todas as ideias (até que promissoras) para torná-lo melhor não encontram um resultado à altura: Caso do, digamos, idealismo igualitário da personagem de Chloe Grace Moretz, um discurso muito bonito no papel e que, em teoria, engrandeceria o filme, mas, cujo roteiro é incapaz de aprofundar essa circunstância, e a personagem Shelby, que poderia acrescentar camadas ao filme, acaba completamente desperdiçada.

O mesmo vale para a repentina homossexualidade do personagem de Dave Franco (condição inexistente no filme anterior e que aqui soa arbitrária e nada relevante) e para a discussão em torno da eterna imaturidade de Teddy, seu grande elemento de vulnerabilidade do filme anterior (e também lá um pouco negligenciado) que afasta-o do papel óbvio de vilão para lhe conferir uma química inesperada e válida com o personagem de Seth Rogen –se no primeiro filme a sensação de desperdício para com essa possibilidade interessante já assombrava o trabalho dos atores que o diga neste daqui, mais interessado nas gags sucessivas, de humor ocasionalmente grosseiro, que fracassam justamente naquilo que uma comédia não deveria fracassar: Ter graça.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Acima das Nuvens

Este filme de Olivier Assayas chamou a atenção de público e crítica ao conquistar, em 2014, o prêmio César de Melhor Atriz Coadjuvante para Kristen Stewart, pela primeira vez concedido a uma atriz norte-americana; por isso mesmo, foi um dos grandes responsáveis por ajudar sua carreira a se desvencilhar da sombra pejorativa da “Saga Crepúsculo”, fazendo o público voltar a enxergá-la como uma boa e promissora atriz.
No entanto, não é Kristen (embora o pareça em inúmeros momentos) o cerne de “Acimas das Nuvens”: É a protagonista complexa, vulnerável e cheia de camadas interpretada pela linda e formidável Juliette Binoche, encantadora do alto de seus 50 anos.
Maria Enders é uma já veterana estrela de cinema; Valentine (Kristen) é sua leal assistente, dedicada desde o início do filme à atravessar o pântano lamacento do excesso de compromissos a serem agendados, a perseguição nem sempre lisonjeira da mídia e as batalhas de ego ocasionais da vida de uma celebridade. Valentine é também, pelo tempo decorrido de já trabalharem juntas, uma grande amiga, a despeito da diferença de idade.
É Valentine quem mais ajuda Maria a superar a notícia do falecimento do escritor Wilhelm Melchoir, um amigo íntimo e quase um caso amoroso de seu início de carreira. Ele é também autor de uma célebre peça teatral, “Maloja Snake”, cuja adaptação cinematográfica foi a grande responsável para consolidar o estrelato de Maria.
Agora, todavia, em função do falecimento, ganha as manchetes de jornais a notícia de que uma nova montagem da mesma peça chegará aos palcos –e a trama de “Maloja Snake” é a seguinte: Num competitivo âmbito profissional, duas mulheres, Sigrid e Helena (a primeira, jovem, calculista e ávida; e segunda, calejada, presunçosa e maternal) se defrontam numa guerra de personalidades (não desprovida de alguma atração velada) que resulta na ascensão de Sigrid (outrora a personagem que Maria interpretou) e na derrocada de Helena.
O diretor dessa nova peça (Lars Eidinger) almeja, passados vintes anos, que agora Maria interprete Helena, numa espécie de fechamento de um ciclo. O papel de Sigrid foi ocupado por uma jovem e conturbada atriz norte-americana (Chloe Grace Moretz), presença constante em tabloides de escândalos.
Inicialmente relutante, Maria aceita participar da peça –porque deseja, de alguma forma, honrar o autor falecido, porque Valentine enxerga na peça todo um sentido cíclico que ela não deseja ver, e porque sabe que, lá no fundo, o subtexto da peça traz alguns demônios que ela precisa encarar (sem muita certeza se irá superá-los).
Hospedada na bela casa de campo onde Melchior escreveu “Maloja Snake” –na qual, em meio às paisagens montanhosas, se pode perceber o fenômeno climático denominado “Serpente de Maloja” que dá nome à peça –Maria se dedica à encenar e reencenar o texto com Valentine, desta vez não mais no papel de Sigrid (que Maria compreende à perfeição), mas no de Helena (no qual ela identifica as fragilidades da escrita e se ressente pelos rumos ingratos reservados à personagem e, em última instância, a si própria).
Em algum momento desses ensaios aparentemente banais, as personalidades de Maria e Valentine se confundem com as de Helena e Sigrid –o embate geracional de opiniões e sentimentos; a relação de mágoas e posturas profissionais, a proximidade que leva a interesses que escapam à esfera profissional.
No brilhante cinema de contornos intimistas que realiza –amparado no talento de duas atrizes espetaculares –Assayas faz reverência e referência, sobretudo, às inquietações muito habituais ao cinema de Ingmar Bergman, em especial, seu incisivo “Persona”, também ele um mergulho sem ressalvas nas disfunções de psicologia na mente de duas mulheres.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Suspiria - A Dança do Medo

A refilmagem do filme tido como a obra-prima do cineasta Dario Argento e visto, portanto, como um marco do gênero de terror, esteve por muito tempo relacionada ao diretor David Gordon Green (das comédias “Segurando As Pontas” e “Sua Alteza”), até o impedimento da produção, por inúmeros contratempos, adiar sua realização por anos, quando então o italiano Lucas Guadagnino, alçado ao status de celebrado autor após a tremenda aclamação de público e crítica obtida por seu “Me Chame Pelo Seu Nome”, se propôs, em seu projeto seguinte, a essa ousada manobra.
Em função do bom-senso de Guadagnino, as similaridades entre o seu “Suspiria” e o de Argento são básicas: Restringem-se à premissa inicial na qual uma jovem novata chega em uma famosa escola de dança em Berlim, na Alemanha então ainda dividida pelo Muro –o filme se ambienta no mesmo período do filme original, 1977, embora naquele a cidade seja Friburgo.
Provando uma relevante disposição para experimentar desafios distintos em relação à “Trilogia Cinquenta Tons de Cinza”, onde ficou famosa, a jovem Dakota Johnson surge aqui interpretando Suzy Bannion, protagonista que, no filme original, foi interpretada por Jessica Harper. Vinda dos EUA, Suzy se apresenta na célebre Escola de Dança Moderna Tanz, e ganha uma vaga de modo relativamente fácil para um lugar tão seletivo quanto diziam.
O motivo de sua rápida admissão parece ter sido o desaparecimento de uma aluna (Chloe Grace Moretz), deixando tal vaga em aberto: Esses e outros indícios parecem apontar para algo de muito tenebroso se passando naquele lugar.
Ao comprometer-se com o ato de refilmagem, o filme de Guadagnino defronta-se assim com um de seus primeiros dilemas: Preservar o mesmo mistério mantido no filme original até o fim (subestimando assim a inteligência do público daquele filme, a quem supostamente este seria dirigido, e que já sabe de antemão do que seu plot se trata), alterar drasticamente os desdobramentos da história (descartando assim os própositos pelos quais se revisitaria o enredo e os personagens desse clássico) ou entregar as informações já sabidas de imediato, seguindo por uma nova proposta diante da manutenção dos mesmos elementos –parece ter sido a terceira opção a escolhida pelo roteiro e pela direção aqui.
Assim, ainda no primeiro terço de filme já sabemos que a escola de dança é fachada para um conciliábulo de bruxas, e que tais entidades estão entre as professoras e a junta da diretoria do lugar, e que, não duvide, estão envolvidas no desaparecimento da bailarina e em outros acontecimentos macabros que se sucedem.
Dividido em seis episódios e um epílogo, o filme de Guadagnino atinge inacreditáveis cento e cinquenta e dois minutos de duração, dispersos numa trama que acompanha a progressão da consciência da protagonista do contexto assombroso em que está inserida (num dos lances que, deveras, mais distanciam esta obra do filme original de Argento), a percepção do plano derradeiro das bruxas (a reunião flagrada no sexto episódio é um momento absolutamente antológica em seu preciosismo visual), o desenlace algo existencial da maioria dos desdobramentos mostrados ou mencionados (memorável a cena onde as personagens de Mia Goth e Elena Fokina sofrem uma espécie de represália sobrenatural das bruxas), e uma inclusão cheia de pretensões históricas, metafóricas e alegóricas em relação à Segunda Guerra Mundial e o extermínio de judeus –para tanto há um personagem, o Dr. Klemperer, que protagoniza toda uma sub-trama paralela que infelizmente não leva a lugar nenhum, e cuja serventia acaba sendo a de alongar o argumento principal, um desserviço uma vez que faria um bem danado ao seu clima aterrorizante o filme manter-se mais sucinto e objetivo.
Ao menos há um mérito nesse artifício: O Dr. Klemperer, bem como outras duas personagens importantes (a professora Madame Blanc e a asquerosa Markus, líder das bruxas), são interpretados pela mesma e surpreendente Tilda Swinton, que se sai magnificamente bem em todos esses diferenciados personagens.
Se Dario Argento transformou sua realização numa orgia visual com cores projetadas em cenas e cenários a engolir o filme num caleidoscópio sensorial, o trabalho de Luca Guadagnino segue uma direção deliberadamente inversa: Ele se constrói de cores saturadas e frias, evocando as opressões do ambiente implícitas na trama, deixando o choque visual para momentos gráficos que quando chega a entregar o faz com propriedade inquestionável. A lamentar apenas o fato de que o diretor, ao priorizar facetas demais, não soube desapegar-se do desnecessário para manter seu filme realmente enxuto, e com isso, assustador e válido.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Deixe-Me Entrar

O diretor Matt Reeves –que até então era conhecido pelo curioso filme de monstro em ‘founf footage’ “Cloverfield” –jamais foi um realizador medíocre (que o diga o magistral “Planeta dos Macacos-A Guerra” que ele lançou em 2017), todavia, ele correu um risco muito grande ao encarar esta refilmagem norte-americana da obra-prima sueca "Deixe Ela Entrar", pela simples razão de que não havia muitas maneiras de se aperfeiçoar (ou mesmo de recriar) o brilho ímpar com o qual Thomas Alfredson compôs sua obra.
Diante dessa constatação, era inevitável que algo se perdesse na comparação daquele trabalho único com esta versão mais anêmica e pasteurizada –o quê fez deste filme um forte argumento dos puristas que defendem a superioridade indiscutível dos originais sobre as refilmagens. Uma bobagem já que obras aclamadas como “Ben-Hur”, “Os Dez Mandamentos” ou “SeteHomens e Um Destino” são refilmagens.
A trama, como era de se esperar, trocou a ambientação sueca pela norte-americana e a narrativa de Reeves pulsa de boas intenções, ainda que elas sempre fiquem à sombra de seus equívocos. A época continua a mesma, meados dos anos 1980, e seu protagonista também: Um solitário e calado menino, aqui chamado Owen (interpretado com autenticidade por Kodi Smit-McPhee, o garotinho de “A Estrada”), vítima do bullying na escola, e da indiferença materna em casa –um dos recursos interessantes que salientam a solidão infantil é o fato de nunca mostrarem o rosto dos adultos, mesmo nas cenas em que estão presentes, fazendo-os surgir assim com uma severidade anônima ainda mais intensa.
Owen conhece certa noite a estranha menina Abby (Chloe Grace Moretz que nem por um decreto se iguala ao primor de Lina Leanderson no original), a nova moradora, ao lado de um senhor que aparenta ser seu pai (o ótimo Richard Jenkins), de um dos apartamentos do gelado condomínio em que moram.
Abby é sozinha, não tem amigos, surge no playground para brincar apenas à noite e, embora faça frio, não demonstra senti-lo, sempre usando vestes finas.
Aos poucos os dois jovens, cada qual mergulhado num tipo específico de exclusão profunda, vão construindo uma terna amizade, abala pela estarrecedora descoberta de que Abby é, na realidade, uma vampira!
A lembrança do filme original é algo que incomoda, e muito, a apreciação das cenas deste filme aqui. Um bom exemplo é a cena inicial, decalcada de “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, onde o diretor se esforça para incrementar a abertura do filme sueco com o uso da trilha sonora de Michael Giacchino (normalmente tão hábil e certeiro) que acaba se mostrando intrusiva, contrastando com o primor silencioso das cenas do original.
Outro caso é uma das cenas de ataque da pequena vampira, justamente aquela que, no filme original, vislumbramos um comovente relance de humanidade na personagem, mas que aqui, na falta de compreensão da personagem, é reduzida a um banal ataque vampiresco, mais atenta aos efeitos especiais que inexistem no original.
Claro que Matt Reeves aproveita a produção cheia de recursos que tem, e até mesmo o fato de ser posterior ao filme sueco –e, portanto, copiá-lo quando lhe convém, e incrementá-lo quando lhe é oportuno. Entretanto, não há, simplesmente não há condições, mesmo que com todo o orçamento do mundo, de igualar a genialidade artística presente do grande e memorável momento de “Deixa Ela Entrar”: A clássica cena da piscina.
Reeves tenta mudá-la, enchê-la de cortes rápidos onde antes não havia, e uma iluminação soturna (que atrapalha seu entendimento) e termina resumindo nesta cena a conclusão que vale para todo o seu filme: O mérito de ser bem produzido ele tem, mas a comparação com o grande trabalho original lhe evidencia toda a redundância e a mediocridade.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Kick Ass 2

Era inevitável que o surpreendente e divertido “KickAss-Quebrando Tudo” ganhasse uma continuação. O problema foi, talvez, ela ter perdido um certo timing para acontecer.
Perdeu outra coisa também: O competente diretor do filme anterior, Matthew Vaughn, que não retornou –e que tinha até outro dia o hábito de não dar continuidade a nenhum de seus trabalhos: Assim como em “Kick Ass”, ele também dirigiu o ótimo “X-Men Primeira Classe” e não retornou para fazer sua aguardada continuação. Ele só rompeu com esse ciclo ao realizar a seqüência do bem-sucedido “Kingsman-Serviço Secreto”.
No lugar de Matthew Vaughn, foi chamado o diretor Jeff Wadlow (que realizou um bom trabalho no filme de pancadaria “Quebrando Regras”), dono de uma sólida percepção para as cenas de ação, porém, burocrático no trato para com os personagens e a graça genuína que pulsava de suas dinâmicas.
Após os acontecimentos do primeiro filme, Mindy (a Hit-Girl, que Chloe Grace Moretz agora uma adolescente e não uma garotinha interpreta com vigor e personalidade) abandonou a vida de vigilante e passou a freqüentar a mesma escola que Dave (Aaron Taylor Johnson, ótimo no papel) –este ainda atua ocasionalmente como Kick-Ass.
Sozinho, ele termina unindo-se a um certo grupo auto-intitulado Justiça Eterna, capitaneado pelo ligeiramente desajustado Coronel Estrelas e Listras (uma ponta especialíssima de Jim Carrey), e formado por diversos pretendentes a heróis uniformizados, todos inspirados pelo próprio Kick-Ass.
No entanto, o vingativo Chris Dammicco (Christopher Mintz-Plasse, impagável), agora abandonando sua identidade de Red Misty e assumindo sua persona vilanesca como Motherfucker, retorna e ladeado por todos os capangas truculentos e brutais que seu dinheiro é capaz de pagar –incluindo aí uma certa Mama Rússia (Olga Kurkulina) cuja expectativa pelo embate contra Hit-Girl a narrativa faz questão de preparar com todo o cuidado e minúcia.
Os atos perigosos e inconseqüentes de Motherfucker e sua gangue irão obrigar não só Mindy a rever sua decisão de abandonar o vigilantismo (tarefa para a qual ela tem excelência inquestionável), como também colocará Dave –e todo um exército de heróis mascarados e voluntários aos quais ele próprio deu origem –em rota de colisão com seu arquiinimigo.

É nítida a constatação de que esta seqüência do inesperado sucesso não vem agraciada com a mesma química do filme anterior (conseqüência, sem dúvida, da troca de diretores), contudo, o resultado ainda é plenamente divertido, ultra-violento e debochado.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

500 Dias Com Ela

Para além da aparência de comédia romântica genérica que possui, “500 Dias Com Ela” é um filme que desperta interessantes reflexões no expectador.
Realizado por Marc Webb logo antes de ser chamado para reiniciar a franquia do Homem-Aranha (desta vez, com Andrew Garfield), o filme dá uma idéia bastante interessante do que os executivos vislumbraram na trabalho de Webb, almejando algo assim para os novos filmes do escalador de paredes –uma pegada romântica carregada de inteligência e vivacidade.
Uma pena que Webb terminou não entregando nada disso, mas essa é uma outra história...
Tom (Joseph Gordon Levitt, perfeito e adequado ao papel) é um rapaz romântico e, até certo ponto, ingênuo. Quando o filme começa, já imerso em memórias que vêem e que vão, sabemos que ele conhece Summer (Zooey Deschanel, o grande achado do filme), uma garota maravilhosa e cativante, por quem ele logo se apaixona. O relacionamento dos dois se desenrola ao longo de exatos quinhentos dias, desde a sutil aproximação, a consumação da paixão, os planos de ficarem juntos e o conseqüente afastamento.
Ao abordar uma trama romântica sobre o ponto de vista variante da rejeição, Webb não realizou somente um filme divertido e delicioso (características que logicamente predominam na primeira parte cheia de encanto e descoberta), mas também dolorosamente realista; inclusive para com o próprio viés fantasioso que a dinâmica dos relacionamentos é, em geral, abordada nessas comédias românticas: Dessa forma, a analogia contundente e graciosa que a narrativa estabelece entre o filme “A Primeira Noite de Um Homem” e as conseqüências dos atos e das reações do protagonista representa a grande e pertinente mensagem do filme –a de que a vida real não é uma comédia romântica, e de que possui muito mais complexidade, e momentos de desânimo e tristeza que pode sonhar nossa vã esperança por um final feliz.
Essas observações aparecem em diversos momentos, nas entrelinhas poderosas dos acontecimentos finais, nas afirmações sensatas da assustadoramente madura irmã menor de Tom (vivida por Chloe Grace Moretz, pouco antes de explodir como a Hit-Girl de “Kick Ass”) e certamente na narração séria e paradoxalmente divertida, mais absolutamente circunspecta que Webb atribui ao filme.
São elementos inesperados, cuja soma deixa evidente que este grande fenômeno de público e crítica é mais do que uma simples comédia romântica: Ao contar sua história numa ordem não linear, indo e vindo no tempo, o diretor Marc Webb relata incisivamente os momentos em que a pequena distância entre o casal virou um verdadeiro abismo, contrapondo as personalidades distintas de Tom e Summer numa condução espirituosa e particularmente cativante. O que resta, assim, é a observação acerca da personagem da encantadora Zooey Deschanel ser ou não a grande vilã do filme (afinal, ela fez o garoto se apaixonar por ela para em seguida largá-lo, fazendo-o sofrer), coisa que ela definitivamente não é: De um jeito muito particular, o filme de Webb quer lançar certo olhar para a forma com que a cultura pop ensinou toda uma geração (exemplificada em Tom) a olhar o romantismo de uma maneira torpe, distorcida e totalmente desprovida das imbricações reais. E, para tanto, Webb faz um filme que é, ele próprio, essencialmente pop, pontuado por inebriantes canções que falam sobre a embriaguez do romance e por uma sucessão de cenas brilhantes: As mensagens de cartões que ganham cada vez mais inspiração a medida que o amor dos dois jovens evolui; a bela seqüência musical que começa com uma piscadela de Han Solo (!); as constantes menções de filmes clássicos.
Tom não enxerga em Summer aquilo que ela é, mas sim o que ele idealiza que ela seja –e, por ser maravilhosa, ela é bem sucedida em fazê-lo crer na maior parte do tempo que corresponde aos seus anseios –todavia, mais cedo ou mais tarde, um relacionamento precisa se amparar na realidade, sobretudo, quando se espera dele alguma longevidade. Não à toa, uma das cenas mais famosas do filme mostra justamente a tela dividir-se entre Expectativa e Realidade, mostrando assim a dolorosa desilusão de Tom com Summer paralelo aos sonhos pouco plausíveis que ele nutria em relação a ela.
Um filme com uma contagiante faceta divertida, mas também com uma válida e preciosa faceta de tristeza.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Para Maiores

Eis um filme que, em sua incontornável ruindade, é um caso para estudo. Afinal de contas, ainda assim, foi reunido, ao longo de seus esquetes, não só um elenco de fazer inveja a qualquer superprodução, mas também um time de diretores que se responsabilizam por cada, digamos, episódio que vai de nomes notáveis como Peter Farrelly (aqui arriscando a direção sem seu irmão Bobby), James Gun (de “Guardiões da Galáxia”), Steve Carr (de “Segurança de Shopping”), Griffin Dunne (astro de “Depois de Horas”, de Scorsese e diretor de “Da Magia À Sedução”), Bret Ratner (de “A Hora do Rush” e “X-Men O Confronto Final”) e outros! –e todos, sem exceção, passam uma tremenda vergonha em todas as seqüências deste filme cujo nível de mau gosto chega às raias do inacreditável.
Reza a lenda, que o produtor Charles B. Wessler (realizador dos filmes dos Irmãos Farrelly) conseguiu arregimentar tantos atores graças à sua influência e a um curta-metragem previamente gravado em 2009 com Hugh Jackman e Kate Winslet –quando o filme foi lançado em 2013, tal curta, por sinal, foi incluído como o trecho que inicia esta sucessão de absurdos intermináveis!
É uma antologia cômica calcada nas características pesadíssimas da comédia vulgar juvenil que aflorou nos anos 1980 e que ganhou, com as décadas que vieram, mais e mais escatologia. Uma exaltação do politicamente incorreto.
Sua trama une engenhosidade e grosseria de forma desconcertante: A fim de pregar uma peça de 1º de abril num garotinho metido a hacker, dois adolescentes pra lá de imbecis lhe distraem com a missão de procurar um filme na internet, difícil de achar por ter sido banido, cujo conteúdo é um mistério –o "Movie 43", que dá o título original à produção.
O problema é que durante a busca o tal filme revela-se real, e nos sucessivos vídeos que eles vão descobrindo surgem tramas curtas que, de uma maneira geral, destroem com o modo de vida norte-americano com um humor politicamente incorreto radical até mesmo para os padrões extremos que o gênero tem tomado atualmente (como "Ted").
No primeiro esquete –supostamente aquele que iniciou tudo! –uma moça (Kate Winslet) vai jantar em um restaurante com um solteirão charmoso e boa-pinta (Hugh Jackman), para descobrir, do pior jeito possível, porque ele continua solteiro: De alguma forma ridícula e mirabolante, ele possui os testículos no pescoço (acredite, isso já dá uma boa idéia do nível extremo de absurdo, escracho e nojeira que se seguirá a partir daqui!).
Noutro, o casal na vida real Naomi Watts e Liev Schreiber vive a mãe e o pai de um rapaz educado em casa –como é costume em alguns locais do EUA –entretanto, a fim de proporcionar ao filho uma educação com todas as variações de uma experiência escolar completa, eles decidem submeter seu filho até mesmo ao bullying impiedoso que seus colegas praticariam: Eles organizam festas e não o convidam (!), seu pai exerce forte tortura psicológica nas aulas de educação física (!), e sua mãe, na falta de outra, flerta com ele para ensinar-lhe as minúcias da rejeição (!!). O resultado é ultrajante.
Numa adaptação mambembe e debochada da “Liga daJustiça”, anos antes do filme de Zack Snyder e Joss Whedon, vemos em um restaurante, Robin (Justin Long) tentar se dar bem num encontro com a Supergirl (Kristen Bell), apesar das constrangedoras intromissões do inconveniente Batman (Jason Sudeikis) e, mais tarde, da espalhafatosa Mulher Maravilha (Leslie Bibb) e de uma neurótica Lois Lane (Uma Thurman).
Já, o casal formado por Chris Pratt e Anna Faris resolve temperar sua vida sexual quando a esposa faz uma inesperada proposta ao marido: Defecar nela (!!!).
A preparação para esse momento tão... especial (!) envolve o uso de um laxante poderoso que vai colocar o marido numa situação aflitiva.
Também em um encontro marcado num restaurante, Halle Berry e o comediante Stephen Merchant resolvem brincar de ‘desafio ou conseqüência’, o quê os leva a atitudes inacreditáveis.
Richard Gere faz o executivo de uma empresa cujo produto mais rentável, o I-Babe (um dispositivo que grava músicas em tamanho real e formato de uma mulher nua!) está levando compradores adolescentes à mutilação (!) por uma razão bem peculiar: No lugar onde seria a vagina fica uma hélice para ventilação (!!!).
Num dos episódios mais estranhos e non-sense, Emma Stone faz uma namorada impaciente e incompreensível disposta a discutir a relação com o namorado (Kieran Culkin), mesmo que seja na caixa de supermercado onde ele trabalha (!).
Um encontro catastrófico é o que experimenta a jovem Chloe Grace Moretz ao ir à casa do namoradinho e lá passar pela infelicidade de ter sua primeira menstruação (!), para o pânico de seu irmão mais velho, Christopher Mintz-Plasse.
Numa cabana, Johnny Knoxville e Seann William Scott encontram um ‘leprechaum’ –num registro deliberadamente destoante de efeitos visuais, do ator Gerard Butler –que não é exatamente aquilo que eles esperavam.
Um time de basquete composto por negros recebe de seu treinador, Terrence Howard, uma instrução bastante simples (e racista) para conseguir ganhar do time composto por brancos.
E por fim, no episódio escondido nos créditos finais, Elizabeth Banks tenta manter a harmonia de seu relacionamento com o namorado dos sonhos, Josh Duhamel, mas isso é perturbado pelo gato dele (um CG ainda mais porco que o do ‘leprechaum’), uma versão distorcida, psicopata e homossexual de Garfield (!!).

É bem provável que hajam até mesmo outros episódios além desses que consegui lembrar, mas a experiência de passar por este filme é tão desconcertante e perturbadora que vou ficar só nestes mesmos!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Kick Ass - Quebrando Tudo

   Em obras de argumento mais raso, o gatilho narrativo que impulsiona a trama e a leva a acontecer se dá por meio de ímpetos nem sempre justificados da parte de seus personagens, todavia, neste belo trabalho, o gatilho narrativo que leva um nerd adolescente a honrar os heróis de quadrinhos que tanto admira tornando-se um deles, é impecável, cortesia do antenado e coerente roteirista Mark Millar que, assinando um punhado de obras um bocado originais, deu um sopro de renovação aos quadrinhos.
   É esse mesmo sopro que o perspicaz diretor Matthew Vaughn é particularmente feliz em recriar nesta sua frenética adaptação para cinema.
   Começando sua carreira com produtor dos filmes ingleses de Guy Ritchie –quando alguns já afirmavam, um pouco injustamente, ser ele o verdadeiro gênio da dupla –Vaughn migrou para a direção com o efusivo “Nem Tudo É O Que Parece” (um ágil trhiller gângster nos moldes de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch-Porcos e Diamentes”), mas mostrou quais eram suas inclinações quando realizou a adaptação da HQ de Neil Gailman, “Stardust-O Mistério da Estrela”. Após realizar este ótimo “Kick Ass”, ele foi fazer o melhor filme dos X-Men até então, “X-Men Primeira Classe”.
   Não há dúvidas, contudo, que é “Kick Ass” que reúne de maneira bastante eficiente suas mais variadas características como contador de histórias.
   Estão lá a preocupação com a modernidade e a forma como suas ramificações afetam a consciência do “ser” um super-herói (inquietações plenamente compartilhadas com Mark Millar); assim como o registro refinado, violento e virulento, cheio de graça de virtuosismo cinematográfico da própria criminalidade, que ele realizou tão bem em “Nem Tudo É...” e nas obras que produziu, dirigidas por Ritchie. O gangster Damicco (magnificamente personificado por Mark Strong) é uma extensão desses personagens, trazendo os trejeitos e a cultura com a qual foram trabalhados nas obras anteriores de Vaughn –e todos possuem uma perceptível e declarada reverência –e referência! –à Martin Scorsese.
   Mas, ao contrário do que costuma acontecer, são os heróis o elemento mais admirável de “Kick Ass”: Não apenas o perplexo e encantadoramente humano protagonista vivido por Aaron Taylor-Johnson (com quem o roteiro é pródigo em levar o expectador a se identificar), mas principalmente os vigilantes uniformizados, Big Daddy (Nicolas Cage, em sua melhor aparição num bom filme em anos!) e a pequenina Hit Girl (Chloe Grace-Moretz, a personagem que rouba praticamente todo o filme).
  Eles representam o núcleo emocional do filme –quem acompanhamos e por quem torcemos. Num trabalho de caracterização e minúcia de um capricho e carinho desiguais; e é exatamente por isso que a opção gráfica do diretor Vaughn por uma violência acentuada acaba tendo um significado muito mais surpreendente e alarmante: Ainda que em registro deliciosamente cômico, a violência de “Kick Ass” é entregue num nível intenso, para se fazer pensar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Invenção de Hugo Cabret

Dentre os grandes cineastas em atividade, poucos são tão cinéfilos quanto Martin Scorsese –ele provavelmente compete pau a pau com Quentin Tarantino!
Todavia, enquanto Tarantino, de uma outra geração de expectadores, enaltece obras dos anos 1970 (leia-se algumas já assinadas pelo próprio Scorsese), filmes de artes marciais, cinema poeira e outras pérolas dos seus tempos de jovem frequentador de videolocadora, as orientações e inspirações cinematográficas de Scorsese dizem mais respeito à época áurea do cinema e, certamente, às obras que são hoje vistas como pioneiras.
Realizando um qüiproquó dos mais curiosos com a produção que com ele disputou o Oscar de Melhor Filme em 2011, “O Artista” –um filme francês que homenageava o cinema mudo norte-americano –este “A Invenção de Hugo Cabret” é, portanto, uma homenagem norte-americana ao cinema francês em geral e à obra de George Mélies (o célebre realizador de “Viagem À Lua”) em particular.
É na Paris da década de 30 que vive o pequeno orfão Hugo Cabret (Asa Butterfiled, adequado e cativante). Ele tem por objetivo elucidar o propósito de um autômato legado à ele por seu pai (Jude Law) pouco antes de morrer: De alguma forma, ele sabe que consertá-lo está relacionado com o velho Papa Georges (Ben Kingsley, maravilhoso), o desiludido dono de uma relojoaria localizada na estação de trem em que Hugo vive clandestinamente.
Em busca das respostas de seu passado, ele encontra também a própria história do cinema.
Num de seus primeiros trabalhos longe dos contemporâneos retratos da violência urbana, Martin Scorsese urge uma emocionante, pulsante e vívida homenagem à Sétima Arte, em especial ao pioneiro Georges Mélies cujos experimentos deram o pontapé inicial à concepção dos efeitos visuais no cinema (e parece ser então apropriado que um dos prêmios Oscar que esta obra sem igual conquistou seja o de Melhores Efeitos Visuais).
Composto de cenas esplêndidas com os recursos tecnológicos de 3 dimensões –e no topo da lista, ao lado do deslumbrante “Avatar”, de raríssimos filmes que conseguiram elevar a experiência 3D de cinema a um novo patamar –este lindo trabalho recebeu outros cinco Oscars que, entretanto, não parecem bastar para premiar a magnitude técnica deste filme inesquecível.