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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Mistérios da Carne


 Uma obra intimista de conotações sexuais das mais ultrajantes, “Mysterious Skin” é a realização de repercussão mais expressiva, por assim dizer, do canadense Gregg Araki –um diretor de estilo visualmente peculiar cuja filmografia traz um enfoque na disfuncionalidade e nos desvios comportamentais obscuros ocultos na normalidade da classe média. O que torna “Mysterious Skin” um filme tão incômodo, perturbador e, no final das contas, profundamente triste é seu tema central e sua despudora e audaciosa execução.

Para melhor entender essas circunstâncias vamos à história: Adaptado do livro de Scott Heim, “Mysterious Skin” acompanha a trajetória paralela –ou seja, durante muito tempo, nunca se cruzam –de dois jovens protagonistas, ambos com oito anos de idade: O retraído Brian, péssimo em beisebol e, por isso, alvo de imenso desprezo do pai; e o mais descolado Neil, por sua vez, o melhor atleta do mesmo time de beisebol. Brian vive com o pai (Chris Mulkey, de “The Hidden-O Escondido”) e a mãe (Lisa Long, de “Do Que As Mulheres Gostam”); Neil mora apenas com sua mãe promíscua (Elisabeth Shue) e acaba fazendo do treinador (Bill Sage, de “Tudo Por Um Sonho”) inicialmente uma espécie de figura paterna. Entretanto, o que de fato entrelaça os dois meninos é –como afirma o título –um mistério que assim, misterioso, permanecerá durante quase todo o filme: Quando contava apenas oito anos (interpretado então pelo pequeno George Webster), Brian teve um lapso de memória. Cerca de cinco horas simplesmente desapareceram de sua mente, quando então ele apareceu em casa com o nariz todo ensanguentado –esse detalhe, e mais desmaios súbitos e pesadelos estranhos envolvendo alienígenas e abduções passam a ser recorrentes para Brian nos dez anos seguintes (!). Já, a situação de Neil (vivido na fase infantil pelo ótimo Chase Ellison) é bem mais explícita: Fica claro logo de imediato que, ao se tornar uma visita frequente na casa de seu treinador –em parte, devido à negligência materna –Neil é abusado sexualmente.

A forma com que o diretor Araki expõe o ato é, provavelmente, o elemento mais desestabilizador do filme: As cenas, realizadas com certa naturalidade e numa atmosfera onírica de delírio, usual ao estilo do diretor, incluem as próprias crianças interpretando o sinistro desenlace sexual, sempre com a câmera em close em seus rostos –nada acontece factualmente para que vejamos, mas, consequentemente a encenação deixa absolutamente exposto e inquestionavelmente sugerido o terrível horror que se sucedeu.

Anos se passam, Brian e Neil seguem trajetórias diferentes, embora, igualmente transfiguradas pela experiência do abuso: Brian cresce recluso, introspectivo e anti-social, obcecado por aparições de O.V.N.I.s, crente de que foi algo assim que lhe acometeu na infância. Neil se torna, de livre e espontânea vontade, uma espécie de garoto de programa, numa busca não muito disfarçada por auto-destruição, ou uma deterioração gradual de si mesmo. Já crescidos (e interpretados respectivamente por Brady Corbet e Joseph Gordon-Levitt), Brian e Neil têm suas trajetórias prestes, enfim, à se encontrar –e disso, a narrativa de Gregg Araki parece fazer a grande fonte de expectativa e de certo suspense a partir da metade do filme até seu final, protelando esse encontro até o ponto do intolerável; ao observar uma foto antiga do time de beisebol, após conversas com uma garota, também ela certa de que foi abduzida por alienígenas (Mary Lynn Rajskub, de “Pequena Miss Sunshine”), Brian descobre que Neil é o garoto que surgia junto com ele nos breves lampejos misteriosos daquilo que lhe aconteceu.

Quando finalmente encontra a casa de Neil, Brian descobre que ele mudou-se, no mesmo dia, para Nova York, onde foi morar com a melhor amiga Wendy (Michelle Trachtenberg, de “Eurotrip-Passaporte Para A Confusão”), e lá começa a trabalhar como michê. Ao longo do ano que se segue, enquanto Araki alimenta a expectativa do público pelo encontro dos dois protagonistas, Brian se aproxima do melhor amigo de Neil, Eric (Jeff Licon), enquanto o próprio Neil encontra parceiros sexuais cada vez mais sórdidos nas noites de Nova York –entre eles, um HIV positivo e carente interpretado por Billy Drago (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) e um homossexual truculento e homofóbico.

Deprimente e desconfortável, esta obra de Gregg Araki tem o mérito dúbio de mostrar os efeitos e consequências da sexualidade em crianças –algo raro no cinema norte-americano, mas comum em obras européias de décadas passadas –num trabalho que será indigesto para inúmeros públicos. É necessário estar em sintonia com a pra lá de desigual filmografia de Gregg Araki para compreender (e de repente até antecipar) os rumos assombrosos tomados para esta contundente realização.

segunda-feira, 14 de março de 2022

10 Coisas Que Eu Odeio Em Você


 "A Megera Domada" de William Shakespeare já rendera uma série de curiosas adaptações –como o faroeste “Quando Um Homem É Homem”, ou a telenovela brasileira “O Cravo e A Rosa” (!) –o que só corrobora a incrível contemporaneidade e relevância na obra do bardo. Nos primórdios da década de 2000, a peça –que, vale lembrar,  já guardava traços, digamos, juvenis –ganhou uma descontraída versão adolescente que, indicativo do material hábil e volátil de Shakespeare e da sua compreensão dos relacionamentos e da dualidade humana, encaixava-se à perfeição ao manancial de comédias românticas predominantes da época. No fim da década de 1990 e início da década seguinte, os gênero de consumo para o público jovem de então basicamente resumiam-se a filmes de terror ao estilo “Pânico” e comédias românticas adolescentes –não por acaso, jovens astros e estrelas do período podiam ser encontrados em projetos de ambas as categorias.

Com efeito, no caso deste “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você”, grande parte da descontração e do divertimento do filme podem ser atribuídos ao elenco jovem, com alguns dos atores e atrizes mais talentosos dessa nova geração, como Joseph Gordon-Levitch (“500 Dias Com Ela”), no papel do jovem Cameron, apaixonado pela menina mais linda e graciosa da escola, Bianca (Larissa Oleynik). A saída para Cameron finalmente ganhar uma chance com sua amada será atacar de cupido: O pai dela, antiquado, decidiu que ela só poderia namorar depois de sua irmã mais velha, Katherine (Julia Stiles, de “AIdentidade Bourne”), garota geniosa de quem todo mundo foge.

O recurso é Cameron "contratar" então o único garoto da escola que toparia encarar essa fera: Patrick, o rapaz com fama de desajustado, interpretado com bela presença de cena pelo falecido Heath Ledger (o Coringa de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”). Ironicamente, de briga em briga, de conflito em conflito, Patrick começa a se apaixonar de verdade pela moça.

Simples –e eficaz justamente por conta disso –esbanjando simpatia, e feito claramente sem pretensões além de simplesmente divertir, “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você” preserva, ainda hoje, sua capacidade para agradar o público justamente pela postura do diretor Gil Junger, em identificar as qualidades em sua produção –resumidas à ótima química de seu elenco –e ao enfatizar a força perene presente na simplicidade da premissa afiada e enxuta, bolada por Shakespeare a pelo menos dois séculos antes e, mesmo todo esse tempo depois, ainda capaz de capturar, em minúcia e perfeição, os altos e baixos do relacionamento amoroso.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Entre Facas e Segredos


 Após a polêmica recepção de “Star Wars-OsÚltimos Jedi” –que apesar de suas elevadas qualidades, dividiu os fãs –o roteirista e diretor Rian Johnson dedicou-se a um projeto capaz de acomodar sem estranhezas suas qualidades como realizador: Um suspense pontuado de enigmas a serem desvendados, no melhor estilo Aghata Christie.

Nele podemos, portanto, notar a grande especialidade de Johnson: Compor uma história cheia de mistérios e guinadas súbitas, onde cada elemento contribui para a manutenção de um suspense ferino, irônico e eficiente.

Uma semana depois que o escritor de best-sellers Harlan Thrombey (Christopher Plummer, sempre maravilhoso) é encontrado morto, sua jovem e dedicada enfermeira, Marta (Ana De Armas, sensacional) é chamada à mansão da família para uma nova rodada de interrogatórios. Desta vez, quem presta consultoria à polícia –já ávida por encerrar o caso dando a morte como suicídio –é o detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig, magnífico com um estudado sotaque do Kentuchi) que fora contratado por um misterioso cliente anônimo.

De imediato, Blanc identifica o ninho de cobras (e a coleção de suspeitos em potencial) que é a família do falecido: A indulgente filha mais velha, Linda (Jamie Lee Curtis), além de casada com o infiel Richard (Don Johnson), tem como filho o almofadinha Ramson (Chris Evans); o filho caçula, Walt (Michael Shannon), despido de qualquer talento, nada mais faz do que gerenciar de modo medíocre a fortuna produzida pelo pai; e a nora, Joni (Toni Collete), viúva do filho do meio, é uma socialite que procura extorquir dinheiro do milionário usando a faculdade da filha (Katherina Langford) como justificativa.

Na noite em que Harlan apareceu morto, todos tiveram seu tapete puxado pelo patriarca –e todos, portanto, tinham razões para matá-lo.

Contudo, o detetive Blanc identifica na humilde Marta uma peculiaridade que pode ajudá-lo em sua investigação: Por uma curiosa condição fisiológica, Marta vomita toda a vez que tenta mentir –entretanto, ainda assim, ela tem lá seus segredos à esconder!

A trama de “Entre Facas e Segredos” é um novelo que o roteiro não se furta de tornar ainda mais intrincado a medida que vai avançando sua narrativa (ou regressando, visto que muito dela se abastece de flashbacks que revitalizam algumas informações e, não raro, oferecem percepções opostas de informações previamente fornecidas); o que só denuncia o talento inquestionável de Johnson no equilíbrio de inúmeros elementos que regem o gênero, e no manejo hábil e esperto de detalhes que num momento parecem meros adereços, para no instante seguinte revelarem-se peças cruciais de suas imprevistas reviravoltas.

Um corpo inusitado no cinema norte-americano por sua inteligência e sagacidade, “Entre Facas e Segredos” faz o expectador vibrar de tempos em tempos com as guinadas magistrais de sua premissa, e com o teor incrivelmente envolvente de sua investigação, além de brindar o público com um elenco vasto, talentoso e estelar.

Um filmaço.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Stop Loss - A Lei da Guerra


 O termo “stop-loss” se refere ao soldado americano reescalado para servir na Guerra do Iraque mesmo após ter cumprido seu período voluntário. Dirigido por Kimberly Peirce, mesma realizadora do contundente “Meninos Não Choram”, este drama de guerra, ao tratar justamente das circunstâncias um tanto massacrantes do “stop-loss” parece inicialmente fazer uma espécie de propaganda patriótica ao Exército Norte-Americano, embora, no decorrer de seus acontecimentos termine por se revelar exatamente o oposto –um trabalho, na verdade, até anti-belicista e anti-militarista.

Produzido pela Paramount Pictures em colaboração com a MTV Films –sendo, portanto, um filme para a TV –“A Lei da Guerra” acompanha três amigos em missão no Iraque: Brandon (Ryan Phillippe, também presente em “A Conquista da Honra”), Steve (Channing Tatum) e Tommy (Joseph Gordon-Levitch), todos vindos da cidade de Brazoz, no Texas.

Ao fim do longo período de 11 anos como soldados, os três regressam para suas famílias e sua cidade-natal, não sem antes serem submetidos à excruciantes experiências em combate –uma delas, uma emboscada nas ruas de uma cidadezinha iraquiana, é mostrada no prólogo em sangrentos e exasperantes detalhes.

De volta, todos eles tentam se adaptar à nova vida. Não conseguem; Steve tenta estabelecer um convívio com Mich (a bela Abbie Cornish, de “Sucker Punch-Mundo Surreal”), sua noiva à cinco anos, mas os severos surtos de stress pós-traumático galgam para a violência doméstica; Tommy, de casamento marcado, põe a perder seu futuro matrimônio (e sua permanência no exército) graças à sua propensão ao alcoolismo.

Já, Brandon, que almejava uma vida tranquila depois de cumprido seu dever, tem um ingrata surpresa: Devido à uma ordem presidencial, ele é um dos “stop-loss”; tão admirável foi seu desempenho em combate que o exército não aceita sua dispensa e, praticamente à revelia dele próprio, decide enviá-lo de volta para o Iraque. Sua excelência como soldado foi a razão para mantê-lo preso à guerra da qual já queria se desvencilhar.

Essa faceta profundamente crítica para com esse determinado procedimento militar –cujos números e estatísticas (ao menos, os que estão disponíveis) são enunciados com realismo nos créditos finais –é o que diferencia “A Lei da Guerra”, uma vez que ele começa aparentando-se quase como uma variação de “O Franco Atirador” –onde jovens regressam para casa tendo de conviver com os revezes do conflito –inserido na Guerra do Iraque.

Na verdade, a lida psicológica com o trauma do Iraque pode ser vista como a fonte de um sub-gênero à parte entre os filmes de guerra norte-americanos (tal e qual o Vietnam) em meados da década de 2000: Houve entre outros o drama “Soldado Anônimo”, o suspense “No Vale das Sombras” e o premiado “Guerra Ao Terror”.

“A Lei da Guerra” se insere nesse conjunto em partes... pois, a partir de determinado ponto, ele muda, convertendo-se num quase road movie onde Brandon, agora desertor, negando-se ceder às exigências autoritárias do exército, se torna uma espécie de fugitivo, ao lado de Mich, agora afastada de Steve –inclusive, com uma promessa de triângulo amoroso pairando no ar; a diretora Peirce, entretanto, parece sensata o bastante para não ceder ao convencionalismo.

Embora bem interpretado, bem conduzido, e envolvente na maior parte do tempo, “A Lei da Guerra” carrega o problema de jamais ir até o fim nos inúmeros objetivos que se propõe: Sua crítica ao exército não se eleva em conclusões relevantes de fato (até porque o desfecho, nesse sentido, é bastante conciliatório e desanimado) e os dramas de seus personagens assim desenvolvidos (o alcoolismo de Tommy, a amizade entre Steve e Brandon e, sobretudo, o envolvimento platônico, mas certamente afetivo, entre esse último e a jovem Mich) jamais chegam num encerramento que possa sugerir redenção, resolução ou término.

A despeito da competência e do profissionalismo com que tudo é realizado, nem sempre esses sublimes adjetivos conseguem contornar a frustração por esses lapsos do roteiro.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Vigaristas


 O estilo de Rian Johnson encontra certa similaridade com o de Martin McDonagh, embora seja despido, diferente dele, de um contumaz fatalismo.

Johnson tem um apreço fora do comum pelos rumos quase sempre imprevistos que um roteiro é capaz de dar à narrativa e, sob a luz dessa percepção, praticamente todos os seus filmes são construídos –inclusive o incompreendido “Star Wars-Episódio VIII-Os Últimos Jedi”.

Datado de 2008, “Vigaristas” acompanha as peripécias de dois irmãos, Stephen (o inspiradíssimo Mark Ruffalo) e Bloom (Adrien Brody) por um mundo muito parecido com o nosso em suas características humanas, sociais, intelectuais e culturais.

Contudo, há uma série de elementos que conspiram a favor da ideia de que tal mundo onde transcorre a história é outro que não o real: Nele, os personagens dialogam numa verve poética e despojada, onde sentimentos e considerações insólitas fazem parte corriqueira do ato de interagir; e algumas leis da física e da ciência se aplicam com curiosa ambiguidade, contribuindo para o caráter deliberadamente inesperado da história.

O ofício de Stephen e Bloom nada mais é que aplicar golpes que provêm um certo meio de vida aos dois, e à Bang Bang (Rinko Kikuchi), a intrigante garota japonesa que os acompanha quase sempre como ajudante.

Stephen planeja tais golpes com a astúcia desigual de sua mente aguçada e Bloom, com suas feições de inocência crônica, trata de camuflar os embustes.

Mas, essa característica de Bloom não é fingimento: Ele realmente encontra certa perplexidade no ato do irmão enganar a tudo e a todos sistematicamente; e um sentimento de remorso o ronda toda vez que acontece.

À esse sentimento, somam-se uma série de outros mais, quando os dois irmãos decidem enganar a jovem Penelope Stamp (Rachel Weisz, luminosa) para dela usufruir da fortuna; a ideia é que Bloom, com seu jeitão de bom-moço, seduza a garota.

Entretanto, se isso vem a acontecer –inclusive, porque Penelope é, também ela, astuta e cheia de truques –o sentimento é recíproco: Bloom encontra em Penelope alguém por quem se importar, e ele não deseja vê-la prejudicada por mais um dos golpes do irmão.

Na atenção sempre interessada e interessante dessa dinâmica, o filme de Johnson passeia por verdades e inverdades, mentiras e golpes armados que fascinam pela forma sempre inesperada com que acabam se descortinando ao público, oferecendo contínuo atrativo à narrativa.

Nessa direção cheia de esperteza e segurança de Johnson, o brilho de Weisz e Brody é inconteste, mas é Mark Rufallo e seu vigarista a um só tempo perigoso e apaixonante, afetuoso e nada confiável, que torna antológica a experiência de ver o filme.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Garotas Sem Rumo


Em sua estréia num longa-metragem de ficção a premiada documentarista Bárbara Kopple fez um notável e dramático estudo de comportamento no qual procurou honrar a idéia de uma amiga: A argumentista original, Jessica Kaplan (a quem o filme é dedicado) faleceu enquanto o projeto ainda se achava em pré-produção.
Dessa forma, o roteiro acabou ganhando um polimento luxuoso. Stephen Gaghan, o premiado roteirista de “Traffic”, deu continuidade à concretização da trama e dos personagens a partir do esboço inicial e da intenção de Kaplan, e o resultado desse esforço é insidioso e em alguns momentos excessivamente indulgente para com os jovens da geração que retrata. Não falta neles –como fica especialmente patente na protagonista vivida por Anne Hathaway –inteligência, esclarecimento e auto-consciência das mazelas do mundo e seu papel na sociedade.
Nada disso impede, contudo, que essa jovem experimente uma espécie de vazio existencial, que em argumentos propensos ao drama, costuma sempre ser o gatilho para o questionamento.
Como suas amigas, ela é uma garota da classe-alta, moradora do bairro chique de Palisades, em Los Angeles. E como elas, busca no despojamento uma atitude que a faça existencialmente confortável com sua condição.
No entanto, ao que tudo indica isso não basta.
Na busca por algo que tire o tédio de sua rotina, ela e sua melhor amiga (Bijou Phillips) acabam se envolvendo com rapazes pobres da periferia latina, que têm de traficar droga para obter dinheiro. A proximidade do perigo as excita, mas evidentemente ameaça suas vidas. Logo, elas envolverão amigos, amigas, pais e namorados, num conflito inevitável.
Apesar dos predicados, este filme é lembrado como o filme em que Anne Hathaway (de "O Diário da Princesa") parece pela primeira vez nua.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sin City - A Dama Fatal

Durante muito tempo o público se perguntou quando o diretor Robert Rodrigues iria enfim revisitar o mundo noir criado por Frank Miller nos quadrinhos e vertido por ele num belíssimo filme, visual e narrativamente falando, que pegou muita gente desprevenida em um já longínquo 2005.
A resposta, um bocado tardia, veio em 2014 com o lançamento de “Sin City-A Dama Fatal”. Mais do que perder o timing de uma continuação que todos aguardavam, o filme pareceu ter perdido o brilho que a primeira produção ostentava com tanto fulgor. Uma das razões era possivelmente o fato de Rodrigues deixar que Frank Miller produzisse material original para o novo filme. Se na obra anterior, Rodrigues foi cirúrgico na seleção de contos dispersos nos quadrinhos que representavam o melhor de toda a criação de Miller, neste ele contentou-se com uma das grandes histórias do selo “Sin City” –no caso, “A Dama Fatal” que dá nome ao filme –(e mesmo assim realizada com pouco empenho) e dois outros contos menores, nitidamente concebidos por um Frank Miller já distante de seu auge criativo.
Na primeira história, o ex-detetive Dwight (vivido por Clive Owen no filme anterior e por Josh Brolin, neste daqui) se vê enredado numa trama de traição e morte elaborada por uma autêntica femme fatalle: A irresistível e sensual Ava (a francesa Eva Green, ocasionalmente nua num papel durante muito tempo relacionado à Angelina Jolie) que, ao seduzi-lo, o conduzirá ao assassinato de seu marido, colocando-o da mira da polícia.
O problema do filme de Rodrigues já começa quando percebemos que nem mesmo a história principal consegue funcionar a contento como nas HQs: As frases feitas, costumeiras nos roteiros de Miller, se sucedem com exagero e desleixo e as cenas transcorrem repetitivas e sem inspiração.
Já não há muito ânimo, portanto, quando chegamos na segunda história, e passamos a acompanhar as desventuras de um jovem golpista (Joseph Gordon-Levitt, que até se esforça, mas não tem um personagem bom o suficiente) tentando acertar as contas com seu verdadeiro pai, o corrupto e amoral senador Roark (Powers Booth, oriundo do filme original).
O pior de tudo, porém, é quando finalmente chegamos na terceira trama e o novo filme de Rodrigues e Miller vai além do simples pecado de ser um filme ruim e consegue realizar algo imperdoável: Manchar o ótimo filme original!
O mesmo senador Roark, na última parte, é alvo da vingança da bela stripper Nancy (Jessica Alba, bela e fraquinha como sempre), que não consegue se esquecer dos desdobramentos ocorridos no ótimo episódio do filme anterior no qual ela era uma das protagonistas, e que graças a Roark, levaram a morte do homem que ela amava, o ex-policial Harttigan (Bruce Willis, reaparecendo aqui numa patética versão “Gasparzinho-O Fantasminha Camarada” de seu personagem).
Nada em “Sin City-A Dama Fatal” remete ao ímpeto inventivo que definia “Sin City-A Cidade do Pecado”, nem mesmo o irrelevante reaproveitamento do personagem Marv (vivido por Mickey Rourke) que aqui se oferece como ajudante, de forma banal, para os protagonistas de cada um dos episódios, ou as substituições por outros intérpretes de personagens que funcionaram muito bem antes e aqui soam tediosos e desinteressantes –além de Brolin substituindo Owen, no papel do capanga Mamute, antes do saudoso e fantástico Michael Clarke Duncan, entrou o pouco carismático Dennis Haysbert (das primeiras temporadas da série “24 Horas”), e tomando o lugar de Devon Aoki como a hábil assassina Miho, ficou a mais bela, porém menos adequada Jamie Chung (de “Sucker Punch-Mundo Surreal”).
O visual acachapante em preto & branco e as intenções do primeiro filme continuavam lá, mas faltou brilhantismo narrativo para equiparar sua audaz qualidade cinematográfica.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

500 Dias Com Ela

Para além da aparência de comédia romântica genérica que possui, “500 Dias Com Ela” é um filme que desperta interessantes reflexões no expectador.
Realizado por Marc Webb logo antes de ser chamado para reiniciar a franquia do Homem-Aranha (desta vez, com Andrew Garfield), o filme dá uma idéia bastante interessante do que os executivos vislumbraram na trabalho de Webb, almejando algo assim para os novos filmes do escalador de paredes –uma pegada romântica carregada de inteligência e vivacidade.
Uma pena que Webb terminou não entregando nada disso, mas essa é uma outra história...
Tom (Joseph Gordon Levitt, perfeito e adequado ao papel) é um rapaz romântico e, até certo ponto, ingênuo. Quando o filme começa, já imerso em memórias que vêem e que vão, sabemos que ele conhece Summer (Zooey Deschanel, o grande achado do filme), uma garota maravilhosa e cativante, por quem ele logo se apaixona. O relacionamento dos dois se desenrola ao longo de exatos quinhentos dias, desde a sutil aproximação, a consumação da paixão, os planos de ficarem juntos e o conseqüente afastamento.
Ao abordar uma trama romântica sobre o ponto de vista variante da rejeição, Webb não realizou somente um filme divertido e delicioso (características que logicamente predominam na primeira parte cheia de encanto e descoberta), mas também dolorosamente realista; inclusive para com o próprio viés fantasioso que a dinâmica dos relacionamentos é, em geral, abordada nessas comédias românticas: Dessa forma, a analogia contundente e graciosa que a narrativa estabelece entre o filme “A Primeira Noite de Um Homem” e as conseqüências dos atos e das reações do protagonista representa a grande e pertinente mensagem do filme –a de que a vida real não é uma comédia romântica, e de que possui muito mais complexidade, e momentos de desânimo e tristeza que pode sonhar nossa vã esperança por um final feliz.
Essas observações aparecem em diversos momentos, nas entrelinhas poderosas dos acontecimentos finais, nas afirmações sensatas da assustadoramente madura irmã menor de Tom (vivida por Chloe Grace Moretz, pouco antes de explodir como a Hit-Girl de “Kick Ass”) e certamente na narração séria e paradoxalmente divertida, mais absolutamente circunspecta que Webb atribui ao filme.
São elementos inesperados, cuja soma deixa evidente que este grande fenômeno de público e crítica é mais do que uma simples comédia romântica: Ao contar sua história numa ordem não linear, indo e vindo no tempo, o diretor Marc Webb relata incisivamente os momentos em que a pequena distância entre o casal virou um verdadeiro abismo, contrapondo as personalidades distintas de Tom e Summer numa condução espirituosa e particularmente cativante. O que resta, assim, é a observação acerca da personagem da encantadora Zooey Deschanel ser ou não a grande vilã do filme (afinal, ela fez o garoto se apaixonar por ela para em seguida largá-lo, fazendo-o sofrer), coisa que ela definitivamente não é: De um jeito muito particular, o filme de Webb quer lançar certo olhar para a forma com que a cultura pop ensinou toda uma geração (exemplificada em Tom) a olhar o romantismo de uma maneira torpe, distorcida e totalmente desprovida das imbricações reais. E, para tanto, Webb faz um filme que é, ele próprio, essencialmente pop, pontuado por inebriantes canções que falam sobre a embriaguez do romance e por uma sucessão de cenas brilhantes: As mensagens de cartões que ganham cada vez mais inspiração a medida que o amor dos dois jovens evolui; a bela seqüência musical que começa com uma piscadela de Han Solo (!); as constantes menções de filmes clássicos.
Tom não enxerga em Summer aquilo que ela é, mas sim o que ele idealiza que ela seja –e, por ser maravilhosa, ela é bem sucedida em fazê-lo crer na maior parte do tempo que corresponde aos seus anseios –todavia, mais cedo ou mais tarde, um relacionamento precisa se amparar na realidade, sobretudo, quando se espera dele alguma longevidade. Não à toa, uma das cenas mais famosas do filme mostra justamente a tela dividir-se entre Expectativa e Realidade, mostrando assim a dolorosa desilusão de Tom com Summer paralelo aos sonhos pouco plausíveis que ele nutria em relação a ela.
Um filme com uma contagiante faceta divertida, mas também com uma válida e preciosa faceta de tristeza.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Origem

E chegou então a hora de falar sobre o filme que virou um fenômeno no ano de 2011, e que na opinião de muitos é o único capaz de rivalizar com “Batman-O Cavaleiro das Trevas” como melhor filme da filmografia de Christopher Nolan.
“A Origem” guarda mesmo elementos de sobra para manter seu fascínio perene. A começar pelo notável (e, em princípio, intrigante) personagem de Leonardo Dicaprio, o torturado Dom Cobb, um ladrão de sonhos!
Sua especialidade é infiltrar-se na mente de certas pessoas enquanto dormem (através de uma tecnologia nunca, de fato, detalhada pela narrativa), e dentro de seus sonhos, roubar-lhes segredos e informações valiosas –e aí, mais do que o processo fantástico pelo qual se dá a ida para o mundo dos sonhos, é no rigoroso conjunto de fatores, regras, condições e pequenos detalhes que está o verdadeiro ponto de interesse da narrativa de Nolan.
Uma vez dentro dos sonhos existe toda uma cadeia de importâncias a ser respeitada e seguida: Se morrer no sonho, a pessoa desperta. O subconsciente pode oferecer perigo para o sonhador e seus “turistas”. Há uma forma específica de saber se você está sonhando ou não (e isso diz respeito aos “totens”). O tempo, no sonho, corresponde a um período muito breve na nossa realidade.
Tal arte, aparentemente, Dom Cobb domina como poucos.
Entretanto, em sua vida desperta Cobb é um homem torturado, afastado de seus filhos (que moram com o avô interpretado por Michael Caine) e injustamente acusado da morte da mulher que ama (Marion Cotillard, uma femme fatale extraordinária, que surge nos seus sonhos como um elemento tão sensacional quanto desestabilizador).
É quando surge então um milionário chamado Saito (o brilhante Ken Watanabe, com um personagem tão essencial à trama quanto Dicaprio), com uma proposta irrecusável: ter seu nome inocentado em troca de uma última missão. Só que desta vez, ao invés de tirar informações, ele deve inserir uma idéia numa determinada mente, o quê é muito mais difícil, talvez impossível.
Cobb monta uma nova equipe para essa arriscada tarefa –Arthur, seu braço direito, vivido por Joseph Gordon-Levitt, um “falsificador” (capaz de personificar diferentes personagens dentro do sonho) interpretado por Tom Hardy, um “arquiteto” (aquele que constrói o elaborado cenário dentro do qual o sonho irá se passar) na pele da jovem Ellen Page (de “Juno”), e um “químico” (que administra os efeitos do sedativo que fará a vítima dormir), vivido por Dileep Rao –afinal a mente humana (incluindo a do próprio Cobb) é um lugar desconhecido e cheio de armadilhas e a "inserção" requer um plano complexo.
É patente, como se pode perceber, que Nolan gosta de mesclar gênero que ele tem por inspiração –os filmes de assalto popularizados nos anos 1960, neste caso –e à eles conceder uma roupagem fantástica e, não raro, mirabolante. As influências cinematográficas de Nolan surgem quanto não se espera: Imagina-se que ele vá fazer alusão a algum grande diretor, ou grande filme, que tenha por base o mundo dos sonhos, como David Lynch, mas essas relações só aparecem por acaso; “A Origem”, em sua concepção desconcertante, busca remeter a obras como “O Golpe de John Anderson” (na sua estrutura de filme de assalto), ou “007 Na Mira dos Assassinos” (na forte referência que envolve cenas de ação na neve). Nota-se então o gênero a que “A Origem” quer realmente pertencer e aprimorar: A ação.
E a direção de Nolan dedica minucioso aparato de técnica e inventividade a fim de moldar cenas de ação singulares: Sendo a luta em gravidade zero provavelmente seu exemplo mais exuberante.
É o desfecho, contudo, que garante ao filme sua permanência na memória: Quando Cobb, redimido e prestes a reaver os filhos, tenta usar seu próprio “totem” (um pequeno peão que gira indefinidamente quanto é sonho, e para logicamente de girar quando é realidade), a fim de garantir se o que está se passando é real ou não. As crianças o chamam, e ele por fim ignora o peão que roda sem parar. A câmera de Nolan permite que seu protagonista vá embora, fixando-se no peão (e na expectativa de que ele logo caia), mas desafia o expectador, encerrando o filme antes de qualquer resposta.
Está aí o fator que fez de “A Origem” um dos filmes mais discutidos de 2011.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Looper - Assassinos do Futuro

Realizador do ainda vindouro “Star Wars-Episódio VIII” e de alguns episódios da série "Breaking Bad", além do curioso filme “Vigaristas”, Rian Johnson constrói este surpreendente conto de ficção científica lembrando muito o estilo rocambolesco e fascinante de Christopher Nolan, oferecendo uma percepção inusitada do tempo e de suas manipulações ocasionadas por esse tipo de trama.
A verdade é que Johnson tem uma visão incomum sobre os elementos paradigmáticos que regem um gênero e, se já foi prazeroso vê-lo brincar com isso em “Vigaristas”, aqui é incrível testemunhar os caminhos inesperados com os quais ele dá solidez ao seu roteiro.
2044. No universo de criminalidade urbana concebido por Johnson, os personagens (à um passo da marginalidade) convivem com uma realidade tão inacreditável quanto paradoxal: Nos trinta anos à frente as viagens no tempo serão uma possibilidade, ainda que ilegal. Dessa forma, execuções são realizadas enviando os condenados ao passado para serem eliminados por atiradores denominados "loopers".
E nada mais proveitoso, rentável e tranquilo do que lucrar com a morte de alguém que não necessariamente morreu “ainda”...
Assim, os “loopers” enriquecem obedecendo a mais rígida e banal das disciplinas: Matam quem se teleporta vindo do futuro no horário e lugar estabelecido, livram-se do corpo e vão colher os frutos de uma missão cumprida.
Mas a carreira dos "loopers" é também fugaz. Mais cedo ou mais tarde, eles recebem a si mesmos, vindos do futuro, para exterminar, evento que costuma encerrar suas carreiras, permitindo que passem a aproveitar os anos que lhes resta de vida.
Providencialmente, um desses “loopers”, Joe (o ótimo Joseph Gordon-Levitt, ator que, de uma forma ou de outra, sempre aparece nos filmes de Rian Johnson), falha em executar seu "eu futuro" (personificado, por sua vez, por Bruce Willis, num interessante trabalho de equivalência de trejeitos com Gordon-Levitt) que agora se encontra a solta, disposto ao que tudo indica, a cumprir uma missão a fim de alterar o futuro. Missão essa que parece relacionada a um misterioso garotinho vivendo numa fazenda com sua jovem mãe (a bela Emily Blunt).
Dessa maneira, é justo e correto dizer que não é um, mas vários os filmes que se descortinam em “Looper-Assassinos do Futuro”.
Há o filme inteiramente centralizado na figura de Gordon-Levitt, e que joga interessante luz sobre o dia-a-dia dos “loopers”, com personagens inclusive que, à despeito de se mostrarem curiosos, serão meio que descartados no segmento seguinte, o segundo filme que “Looper” é, e que inicia-se com a chegada de Bruce Willis. Um novo filme, que joga uma luz interessante sobre os eventos expostos no começo, e parece atrair ainda mais a atenção do expectador: Então, este não é mais um filme de ação genérico, como a enganosa presença de Willis poderia, em princípio, sugerir.
O terceiro filme dentro de “Looper” –e que responde por seu terço final –é o mais incomum de todos. Johnson joga fora a ambientação urbana e coloca seus personagens, assim como o elaborado conceito fantástico que os cercam, em uma fazenda (!), onde escolhas atrozes e surpreendentes terão de ser feitas.

Eis aqui, portanto, uma prova e tanto de que pode ser este cara, Rian Johnson, a fazer o melhor de todos os “Star Wars”!

domingo, 12 de junho de 2016

Lincoln

Daniel Day-Lewis escreveu seu nome na história do cinema como o primeiro intérprete a conquistar três Oscar de Melhor Ator na carreira: Por "Meu Pé Esquerdo", em 1989, por "Sangue Negro", em 2007, e por este "Lincoln" em 2012. O quê acaba sendo um fator que contraria a máxima de que é Robert De Niro o grande ator vivo da atualidade...
Todavia, vamos falar um pouco do filme de Steven Spielberg: Segunda colaboração sua com o roteirista e dramaturgo Tony Kushner (a primeira foi "Munique"), este trabalho ressalta a personalidade poderosa de seu escritor; mais do que Speilberg, é perceptível o olhar agudo, humano e minucioso de Kushner, e seu marcado estilo, na trama que se desenrola em ambos os filmes.
Neste, o ano é 1865. Abraham Lincoln acaba de ser reeleito para seu segundo mandato como presidente dos EUA enquanto a Guerra Civil Norte-Americana vai para seu quarto ano. Mas o presidente reeleito tem específicas ambições para sua nova gestão: não só deseja conseguir a paz de uma guerra da qual todos estão cansados, como planeja obter no Congresso a aprovação da 13ª Emenda, abolindo a escravatura de todos os Estados Unidos, uma manobra complicada, uma vez que a questão do abolicionismo é o cerne da própria guerra. O presidente Lincoln irá valer-se de sua capacidade de dissuasão e engenhosas manobras políticas para obter os votos no congresso, como os quais visa conseguir a paz e a liberdade.
A ironia captura pelo texto de Kushner, e tao bem emoldurada pelo talento superlativo de Spielberg, mostra que o presidente Lincoln, tão puro de intenções e tão imaculado na imagem que é feita dele para o mundo, lançou mão de propinas e corrupção para alcançar seu objetivo: A sequência da histórica votação no congresso da 13ª Emenda é, ela própria, uma aula de cinema em todos os ângulos que possam ser imaginados.
E aí, volta-se sempre à mesma questão, inevitável quando se fala desse filme: Daniel Day-Lewis.
O filme certamente não funcionaria se Spielberg não tivesse achado o ator ideal para o papel, e Day-Lewis faz muito mais que isso: Ele dá uma dimensão preciosa, minimalista e estudada de Lincoln, rica em detalhes e maneirismos que só são notados na segunda ou terceira vez que se assiste ao filme: Com o perdão dos dois ótimos trabalhos anteriores nos quais ele ganhou o Oscar, é este daqui onde Daniel entrega aquela que é sua obra-prima! Fica até sem graça falar do restante do elenco, todos espetaculares, em especial Tommy Lee Jones, mas cujo brilho empalidece diante de seu magnifico protagonista.
 O fato de ser excessivamente político e dialogado não lhe tira brilho algum, por sinal, este primoroso filme de Steven Spielberg, agraciado com a atuação magistral de Daniel Day-Lewis, merece ser descoberto por todo e qualquer expectador avesso à filmes políticos por pensar que são todos "chatos".

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Travessia

Se neste “A Travessia” o diretor Robert Zemeckis logrou fazer uma experiência sensorial para seu público, então, certamente a sensação mais objetizada é a da vertigem. Todas as escolhas parecem levar à essa finalidade, desde os conflitos presentes em sua dramaturgia, até o uso propriamente dito dos efeitos digitais, o que Zemeckis executa, aliás, como um mestre. 
O resultado pode não ser tão certeiro como em “O Vôo”, afinal, aqui ele não dispõe de um craque como Denzel Washington, nem tampouco o roteiro consegue ter todo aquele polimento e excelência de seu trabalho anterior, mas ainda assim, Zemeckis entrega uma obra bela e plena cheia de significados e de boas intenções. 
Há de se levar em conta o tom de fábula que ele emprega no ínicio, e que dali até o final, irá soar desnecessário ao expectador (talvez, como forma de imolar certos aspectos lúdicos do cinema francês, o quê, à propósito, os franceses o sabem fazer muito melhor...), para contar a história do jovem Phillipe Petit (o bom Joseph Gordon-Levitt), que desde cedo pegou gosto pelas apresentações acrobáticas de rua e que o levou a uma desafiadora travessia na corda bamba da catedral de Notre Dame, culminando no plano ousado de atravessar, dessa mesma forma, as recém-inauguradas torres do World Trade Center. 
Toda a história que Zemeckis quer contar converge para esse momento, e tão claro isso fica, que muito do que se passa antes dos genuinamente sensacionais vinte minutos finais, parece uma mera distração, seja a presença sempre notável de Ben Kingsley como o mentor Papa Rudy, seja a gaita primeira parte onde se tenta ensaiar uma quase biografia de Petit, seja o entrecho central, tomado pelos preparativos sempre precários para realizar o audacioso plano. No final, depois de tanta elaboração ao armar o cenário para seu ato principal, Zemeckis entrega a cena na qual tanto suspense fez para chegar, e ela aparece com todos os predicados e recursos que se poderia dispor, firmando-se como uma bela homenagem de seu diretor Robert Zemeckis ao ato travesso de Petti como uma reafirmação da arte, e principalmente, à cidade de Nova York. Os movimentos de câmera e os efeitos em 3D colocam o expectador ali, sob aquela corda bamba, com todas as intensas sensações de vertigem à que se tem direito, e nesse sentido, o êxito do diretor acaba sendo completo.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Algumas previsões para o Oscar 2016...

Curioso notar que, com sua alardeada previsibilidade, parece que faltam surpresas na cerimônia do Oscar. Quando o vencedor é anunciado é sempre em um clima de "já sabia...".
É curioso também notar que, horas antes do mesmo anúncio, não é tão fácil assim apontar os verdadeiros ganhadores (prova disso são os bolões de apostas que não são vencidos por todo mundo).
Pela minha experiência, nesta época do ano, nós provavelmente, já ouvimos falar do filme que sairá com a cobiçada estatueta em mãos: Nessa mesma época, em 2014, já se falava de "Birdman", assim como em 2013, já havia algum murmúrio sobre "12 Anos de Escravidão". Ninguém, porém, sabia que seriam exatamente ESSES filmes que ganhariam o Oscar...
Dessa forma, com esse espírito especulativo, vou falar de alguns filmes ainda vindouros, que têm algumas chances, na minha humilde opinião, de disputar o prêmio.
Selecionei cinco, embora hajam muitos mais:

The Hatefull Eight

Quentin Tarantino. Esse nome já explica muito do hipe que já se forma em torno desse filme.Não é pra menos. Os dois últimos trabalhos de Tarantino figuraram entre os indicados ao Oscar, e "Django Livre" venceu os de Ator Coadjuvante, para Christoph Watz, e de roteiro original! Aqui, Tarantino volta a fazer western, com uma trama que resgata muitos elementos de seu sensacional filme de estréia, "Cães de Aluguel". Na história, acompanhamos oito estranhos, isolados em uma cabana no meio de uma nevasca nas montanhas. Um deles, não é quem diz ser, e o caçador de recompensas, interpretado por Kurt Russel não pretende deixar que esse traidor em potencial, colabore na fuga de sua prisioneira, interpretada com fúria por Jennifer Jason Leight.
O trailer, lançado na última semana, é pra animar qualquer um, e a data de lançamento (Natal deste ano) coloca o filme em um momento estratégico para ser lembrado pelos membros da Academia.

Divertida Mente

Já com presença garantida em toda e qualquer lista dos melhores filmes do ano por qualquer pessoa com bom senso, o novo e genial trabalho da Pixar é, talvez, a aposta mais garantida desta pequena lista.
Deve ganhar o Oscar de Melhor Longa de Animação, mas a exemplo dos sensacionais "Toy Story 3" e "Up - Altas Aventuras", deve figurar também entre os indicados a Melhor Filme.
O motivo para isso é bem simples: A Pixar, uma vez mais, conseguiu criar uma obra prima da animação com a magnífica história de uma garotinha, cuja mente é guiada por cinco distintas emoções (Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo) que ganham representações brilhantes. A própria geografia do cérebro humano criada na animação é algo digna, no mínimo, de aplausos.
Isso sem falar nas mais emocionantes sequências do ano, até agora.

A Travessia

Faz tempo desde que o diretor Robert Zemeckis ganhou seu Oscar (com "Forrest Gump" num já distante 1994!), de lá para cá, ele enveredou pela tecnologia de captura de perfomance, criando animações como "Expresso Polar", "A Lenda de Beowulf" e "Os Fantasmas de Scrooge" que não chegaram a causar muita celeuma. Seu retorno aos filmes com atores de verdade seu deu com o elogiado "O Vôo".
Este ano, Zemeckis surge com um projeto que parece ser certeiro: A história romanceada de Phillip Petit, equilibrista francês que, no fim dos anos 1970, início dos anos 1980, empreendeu uma tentativa clandestina de cruzar, numa corda bamba, o World Trade Center, na época, os edifícios mais altos do mundo.
A mesma história foi relatada no magistral documentário "O Equilibrista", que à propósito, ganhou o Oscar da categoria em 2008.
Ao lado do ator Joseph Gordon Levitt, como Petit (papel que pode ajudá-lo a emplacar sua primeira indicação), o diretor Zemeckis tem tudo para fazer uma obra espetacular com sua habilidade em manipular efeitos especiais em 3D.

Perdido em Marte

O mais arriscado dos meus palpites, "Perdido em Marte", ou "The Martian" é adaptado de um livro escrito por Andy Weir cuja história surpreende do início ao fim. Uma mistura muito bem urdida de "Gravidade", "Apollo 13" e "Náufrago", o filme conta a jornada até inacreditável, mas ancorada em verdades científicas perfeitamente plausíveis, de Mark Whatney (Matt Damon), que acidentalmente, é deixado para trás por seus companheiros, que o dão como morto, numa missão em Marte. Ao longo do tempo que se segue, o astronauta Mark deve usar de sua inventividade para fazer com que o oxigênio, a comida, a água e a energia que dispõe em quantias limitadas, não acabem antes de encontrar uma solução para seu apuro.
A direção desta trama fascinante ficou a cargo de Ridley Scott, que quando quer sempre entrega um filmaço, sobretudo quando cisca no terreno da ficção científica, vide seus seminais "Alien" e "Blade Runner".

Joy - O Nome do Sucesso 

Por último, mas não menos importante, uma das barbadas no próximo Oscar. Também com estréia agendada para o fim do ano, este filme trás, além da direção de David O' Russel (cujos três últimos trabalhos foram todos indicados ao Oscar!) a presença da fantástica Jennifer Lawrence (presença assídua nos filmes de O' Russel) como Joy Mangano, uma personagem real, cujo talento para invenção a tornou uma milionária, numa época em que as mulheres tinham de lutar ainda mais para conseguir seu espaço.
Não só o filme aparece como certo em muitas apostas do vindouro Oscar, como Jennifer Lawrence é dada como certa na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz, que ela já ganhou, é bom lembrar, por "O Lado Bom da Vida", um filme também dirigido por O' Russel.