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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Homem-Aranha - Um Novo Dia


 Em “A Brand New Day”, vemos  finalmente Peter Parker lidando com as complicadas circunstâncias nas quais foi colocado ao fim de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”: Desprovido de todo o repertório de utensílios e facilitadores tecnológicos que vinham lhe acompanhando desde “De Volta Ao Lar” – o que, na opinião de alguns fãs, não tinha muito a ver com o personagem – apagado da memória do mundo inteiro (graças a um feitiço do Dr. Estranho), incluindo seus entes mais próximos, a namoradinha M.J. (Zendaya) e o amigo Ned (Jacob Batalon), e tirado tragicamente da companhia de sua Tia May (Marisa Tomei). Em suma, completamente sozinho.

Hábil diretor de contos centrados na melancolia e em sentimentos menos falados e mais interiorizados (como atestam obras como “Temporário 12” e “O Castelo de Vidro”), Destin Daniel Cretton demonstrou alguma desenvoltura visual com a elaboração de belas e fluídas cenas de ação em “Shang-Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, sua estréia na Marvel Studios. Agora, com este “A Brand New Day”, ele ganha uma espécie de promoção e assume, no lugar de Jon Watts (diretor dos três longas anteriores do Homem-Aranha), um personagem de maior estatura dentro do MCU.

E o resultado corre o sério risco de ser o melhor filme protagonizado pelo Homem-Aranha de Tom Holland até o momento.

Vivendo mais como Homem-Aranha do que como Peter Parker, o herói, agora quase sem nenhum vínculo afetivo, passa seus dias enfrentando as constantes dificuldades que se abatem sobre a cidade de Nova York. Todavia, lá no íntimo, ele não consegue esquecer M.J. e Ned que seguiram em frente, morando juntos, estudando e, agora, prestes a se formarem. Essa angústia parece se manifestar na fisiologia de Peter: Ele é acometido de dores de cabeça e do que parecem ser mutações nas quais o lado aracnídeo de seu organismo começa a se manifestar de maneira monstruosa sobre sua persona humana.

É a fim de inibir as consequências mais imprevisíveis desse processo que Peter acaba procurando pelo Dr. Bruce Banner (Mark Rufallo), certamente um especialista em conter o monstro dentro de si (o Hulk, no caso).

Paralelamente a essas mudanças – mas, servindo de perfeito reflexo a elas a partir de um determinado ponto – está  o mistério que ocupa boa parte do enredo do filme: Uma entidade – que parece ‘possuir’ pessoas por toda a Nova York com o nebuloso objetivo de invadir a fortificada sede do Controle de Danos – está à solta e, enquanto nem Peter, nem a polícia, compreende seus propósitos e suas motivações, essa ameaça precisa ser parada.

Mais disposto a enfatizar os dilemas de jovem adulto do protagonista do que Jon Watts (que deu prioridade à euforia juvenil), Destin Daniel Cretton salienta com mais evidência e minúcia a evolução do personagem rumo a um Homem-Aranha muito mais condizente com seu retrato nos quadrinhos, o que, em si, já é suficiente para eleger este filme como um provável favorito dos fãs, no entanto, ele ainda não está completamente livre de lapsos, em especial, no que diz respeito à condição sócio-econômica do herói (nunca fica claro, afinal, do quê Peter Parker vive e em que trabalha, visto que só o vemos atuar como Homem-Aranha) ao staff do Controle de Danos (uma herança que ainda repercute de “Vingadores” e das tantas manobras a incluir laços com o Universo Marvel) e a premissa assim esboçada da mutação aracnídea – que parecia ser central no trailers, mas que, aqui, embora muito pertinente no princípio vai dando gradualmente lugar a um outro plot twist até por fim perder completamente sua importância.

Felizmente, “A Brand New Day” é aquele tipo de filme que os acertos compensam amplamente seus erros: A dinâmica entre Peter, M.J. e Ned enfim rende emoções genuínas depois de quatro filmes, e a participação do Justiceiro é uma oportunidade e tanto para conferirmos a química sem igual entre Jon Bernthal e Tom Holland. Contudo – sem revelar spoilers – o nome que, aqui, aponta de forma promissora para o futuro da Marvel nos cinemas é a jovem Sadie Sink, compondo com excelência uma personagem cuja identidade foi aguardada às sete chaves até o lançamento do filme nos cinemas e que representa uma das tantas gratas surpresas da produção – e que, ao fim, deixa o público com um entusiasmado gostinho de quero mais.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Pobres Criaturas


 Desde “A Favorita”, houve uma ligeira mudança no cinema de Yorgos Lanthimos. Ele se tornou mais acessível, mais comercial, ainda que preservasse uma aura diferenciada de estranheza –uma junção que, naquele caso e neste daqui, fascinou muito mais em relação às suas obras anteriores voltadas à atroz inadequação do ser humano e as consequências trágicas de seu desencaixe com o mundo.

Existe uma observação subliminar assim em “Pobres Criaturas”, no entanto, este filme surpreende e encanta como nenhum outro antes perpetrado pelo realizador de “O Sacrifício do Cervo Sagrado”.

“Pobres Criaturas”, adaptado do livro de Alasdair Gray, é um reaproveitamento da premissa de “Frankenstein”, onde um cientista maluco dá vida à uma criatura reavivando um corpo outrora cadavérico. O cientista maluco em questão é o Dr. Godwin Baxter (Willien Dafoe, com o rosto transfigurado por impressionante maquiagem) e sua criatura, uma mulher suicida que se achava grávida (!), retorna a vida, digamos assim, com o cérebro transplantado da criança que esperava em seu útero (!!).

Batizada de Bella Baxter (vivida com um minimalismo primoroso por Emma Stone), o produto de sua experiência tem a aparência e o corpo de uma bela mulher adulta, mas a mente propensa a aprender de uma criança em desenvolvimento. A fim de acompanhar com mais detalhamento esse progresso, o Dr. Baxter –que, ao longo da trama, não esconde de ninguém seu complexo de Deus, chegando a insistir no apelido God (Deus) como um diminutivo de duplo sentido de Godwin –recruta o jovem cirurgião Max McCandles (o humorista Ramy Youssef) para que registre os avanços físicos e psicológicos de Bella desde a estaca zero.

Entretanto, não tarda a Bella, despida das restrições comportamentais impostas pela sociedade, descobrir anseios muito pessoais e, de certa forma, também muito universais: Ela quer sair para o mundo e descobrí-lo, ciente de que há muito mais para além das janelas da mansão onde logo se descobre prisioneira. A chance para tal intento surge na figura de Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), um advogado escroque e labioso que a convence a partir em viagem junto dele.

Bella parte, prometendo um dia voltar e desposar Max, porém, as circunstâncias não a impedem de experimentar, durante todo o primeiro trecho da viagem, intensas rodadas de sexo com Duncan –e é realmente surpreendente a entrega de Emma Stone à essa sucessão de cenas ousadas. Juntos, eles vão para Lisboa –onde Bella se depara com a conduta de boas maneiras a se chocar com sua predisposição livre e sem amarras –e de lá, para um navio com destino à Athenas –no qual as primeiras fissuras na relação com Duncan começam a aparecer –e, depois, em Alexandria –onde Bella conhece a Sra. Von Kurtzroc (a veterana Hanna Schygulla) e seu acompanhante Harry Astley (Jerrod Carmichael, de “O Artista do Desastre”) que lhe abrem os olhos para a filosofia, a ambiguidade moral e as celeumas incuráveis do mundo –para então, mais tarde, quando o dinheiro se esvai completamente, ela e Duncan serem deixados ao léu em Paris.

Neste ponto, quando a relação com Duncan já deteriorou de tal forma que o fulgor sexual do princípio se converteu num turbilhão imaturo de ressentimentos da parte dele, Bella toma a decisão sem quaisquer preconceitos de contornar a falta de dinheiro trabalhando como prostituta –ocupação que, em sua indiferença para com valores morais irrelevantes, ela via como algo absolutamente normal.

Essa mescla desigual de características realizada por Lanthimos, tais como visual estilizado e arrojado (na magnífica fotografia de Robbie Ryan, entre outras coisas, o filme em preto & branco adquire cores a partir do momento em que Bella inicia sua jornada mundo afora), argumento desconcertante e personagens a um só tempo pouco usuais e tratados com insuspeita profundidade (temos a sutil transformação de Duncan, de um confiante cafajeste para um homem frustrado e ressentido; a serenidade gradualmente encantadora do sempre apaixonado Max; e a revelação do grotesco Dr. Godwin Baxter, das experiências hediondos que sofreu na mão do próprio pai, o que transforma um personagem inicialmente vilanesco num indivíduo machucado e identificável), tudo isso não tarda a trazer à memória o efervescente cinema de Peter Greenaway, no qual também as imagens assombrosas (a lembrar obras de arte da pintura) emolduram tramas que questionam, através do despojamento das cenas de sexo e do despudor de comportamentos fora dos padrões, as condutas hipócritas de nosso mundo.

No trecho final, a jornada de Bella Baxter para além de um mundo desconhecido e de volta a confronta com uma outra jornada, desta vez mais íntima, onde ela toma conhecimento de sua vida anterior ao suicídio, o que ressalta o grande trabalho executado pelo roteiro (de Tony McNamara) e o brilhante arco dramático de amadurecimento embutido na perspicaz interpretação de Emma Stone.

Acertos mais do que felizes, que transformam “Pobres Criaturas” em um achado.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Mulher-Hulk - Defensora de Heróis


 Quando a Disney lançou sua plataforma de streaming, o Disney Plus, era inevitável que seus produtos exclusivos aproveitassem, e muito, o material vasto de que a empresa dispunha, sendo que o mais rentável deles é, sem sombra de dúvidas, as obras oriundas da Marvel Studios. Por meio disso, os fãs viram o que antes era uma sequência de filmes prolongada por pouco mais de dez anos –o assim chamado MCU –ser expandido para a mídia televisiva em formato de séries e minisséries. Personagens adaptadas dos quadrinhos, habitantes do mesmo universo compartilhado onde vimos o Homem-de-Ferro e o Capitão América, agora surgiam também em séries para a TV, na medida do possível, produzidas com o mesmo esmero e qualidade almejados no cinema, mas com a duração estendida de série, o que possibilitava aprofundamento de personagens e, em geral, a chance de adaptar com ainda mais fidelidade arcos inteiros dos quadrinhos. Muito aguardada, a série da “Mulher-Hulk” foi um desses casos, entretanto, pode-se dizer que ela padeceu por diversas circunstâncias inesperadas.

Acometida de um acidente automobilístico, a advogada Jennifer Walters (a ótima Tatiana Maslany) tem seu sangue acidentalmente misturado com o de seu primo que, à propósito é Bruce Banner (Mark Ruffalo), o Hulk em pessoa. Ao converter-se numa versão turbinada, forte e esverdeada de si mesma, Jennifer recebe de Bruce a explicação que o DNA da família deles cria, de alguma forma, uma compatibilidade com a mutação provocada pela radiação gama, o que transforma ambos em ‘Hulks’. Contudo, se Bruce levou anos para dominar a fúria de seu alter-ego, Jennifer não tem esse problema: Sua personalidade permanece sempre a mesma a despeito da capacidade de oscilar entre dois corpos tão diferentes.

É claro que, ao tentar retomar a vida como advogada, essa nova condição não passa despercebida e Jennifer se torna uma espécie de celebridade conhecida como Mulher-Hulk (ou “She-Hulk”, no original) passando a usar de seus conhecimentos em advocacia para ajudar pessoas envolvidas com problemas diretamente relacionados aos superheróis.

O que se sucede com “Mulher-Hulk”, a série, a partir daí é uma infestação de personagens classe C e D da Marvel nos quadrinhos, como a vilã Titania (Jameela Jamil) que tenta passar um golpe na heroína ao processá-la pelo uso indevido da própria marca “She-Hulk” registrada por ela, e algumas participações um pouco mais ilustres, como Emil Blonski, o Abominável (Tim Roth) cuja participação em “Shang-Chi A Lenda dos Dez Anéis”, lutando contra Wong (Benedict Wong, que também aparece!) é esclarecida aqui quando requisita os serviços da Mulher-Hulk para ser liberado pela condicional (!).

Outros tópicos da série (cujos desdobramentos se estendem por nove episódios) incluem uma tentativa virtual e tóxica de sabotar a vida de Jennifer (um reflexo de comportamentos nocivos e muito reais dos tempos atuais) e sua já tumultuada vida amorosa que ganha um viés de dubiedade a partir do momento em que Jennifer tem a oportunidade de escolher entre duas personas distintas –a Jennifer Walters comum e sem maiores atrativos que, por uma questão de princípios ou de auto-afirmação, ela insiste em manter no controle de sua vida, ou a poderosa, exótica e atraente Mulher-Hulk capaz de personificar o tipo impraticável de mulherão que até então ela era incapaz de ser, mas que traz a reboque atribulações com as quais ela não tem certeza se consegue lidar.

O time de hábeis roteiristas e diretoras (entre elas, Kat Coiro, Jessica Gao, a criadora do programa, Francesca Gailes, Jacqueline J. Gailes, Melissa Hunter, Dana Schwartz, Kara Brown, e outras) reunidas para esta série compreende as variações dessa dicotomia, e as expõe com humor afiado e ritmo audaz, fazendo da série um deleite para ser apreciado. Os últimos episódios ainda brindam o público com a participação sensacional e pra lá de especial de Matt Murdock (Charlie Cox, fantástico), o Demolidor, também ele, um herói da Marvel que age como advogado em sua vida civil. A sintonia entre Tatiana e Charlie, por sinal, possui a mais perfeita química de toda a Fase 4 da Marvel.

Nos quadrinhos –e a versão em série de TV é admiravelmente fiel à eles, diga-se –a Mulher-Hulk também vem a ser prima de Bruce Banner ganhando poderes iguais aos do seu primo e virando algo que, em diversos momentos na existência da personagem, ameaçou fazer dela uma mera ‘versão feminina’; rótulo do qual sua equipe criativa (composta por várias mulheres talentosas) tenta e consegue se desvencilhar. Também pudera: Nos quadrinhos mesmo, a Mulher-Hulk, ou melhor, Jennifer Walters, ganhou originalidade e personalidade própria graças aos esforços do escritor e roteirista John Byrne que fez dela um título notável empregando humor e, para sua época, uma inovadora quebra da quarta parede: A personagem, em suas histórias SABIA estar dentro de uma história em quadrinhos, e isso rendia histórias divertidas, espirituosas e diferenciadas. Esta série da Mulher-Hulk segue uma linha bastante parecida –seria mesmo um desperdício não adotar um estilo tão interessante –mas, é curioso que isso tenha desagrado muitos ‘fãs’: Ao colocar um mulher empoderada e supina como protagonista de uma série com propostas relativamente inéditas, os produtores provocaram a ira de expectadores incapazes de enxergar personagens femininas com a mesma iniciativa arrojada que se vê em personagens masculinos.

Dois exemplos muito difundidos pela internet são patentes: No primeiro, um meme resultado de uma das cenas pós-créditos em um dos episódios (a série tem várias), onde a Mulher-Hulk faz uma dancinha ao lado da cantora Megan The Stallion, irritou alguns expectadores. Robert Downey Jr. pode dançar à vontade no papel de Tony Stark, isso só enfatiza o quanto ele é charmoso, seguro de si e cool, já uma mulher... bem, na opinião de muitos internautas, uma mulher não pode (!). No segundo exemplo, a já mencionada postura da personagem de quebrar a quarta parede, e dirigir-se para a câmera conversando com o público –e, no processo, estabelecer, uma interessante metalinguagem ao assumir que a protagonista compreende estar numa série de TV –também desagradou parte do público; outro personagem da Marvel, o “Deadpool”, já fizera algo assim em seus dois filmes para cinema, e tal manobra (não destituída de mérito) foi aplaudida e festejada, mas, no caso da Mulher-Hulk fazer isso, para alguns, soou forçado.

Em resumo, “Mulher-Hulk” conquistou o desagrado de parte da audiência, não por seus supostos defeitos, mas, por muitas de suas virtudes, denunciando assim um certo machismo institucionalizado infelizmente ainda vigente no subconsciente de alguns expectadores. Para aqueles que não selecionarem seu entretenimento a partir de considerações tão mesquinhas, esta divertida série da Marvel Studios será um satisfatório, vívido e pulsante passatempo, plenamente capaz de entreter e cativar com seu humor descompromissado e com sua interessante protagonista.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Shang-Shi e A Lenda dos Dez Anéis


 Conhecido nos quadrinhos como Mestre do Kung-Fu, o personagem Shang-Chi, da Marvel, é mais antigo do que pode parecer: Introduzido neste filme, o primeiro provavelmente a adentrar a nova fase da Marvel Studios, iniciada após o retumbante “Vingadores-Ultimato” e o gracioso “Homem-Aranha Longe de Casa” –“Viúva Negra” não conta visto que a trama retrocede em outro ponto da cronologia –o protagonista chega tardiamente ao Universo Marvel Cinematográfico quando outros heróis igualmente antigos nas HQs, como Capitão América, Thor ou Homem de Ferro, já estavam pra lá de estabelecidos.

Surgido em meados dos anos 1970, quando as artes marciais viraram uma coqueluche graças ao sucesso de Bruce Lee, o personagem girava em torno de influências que iam desde as criações literárias do escritor Sax Rohmer (criador original do vilão Fu Manchu) até seriados de kung-fu. Fruto de outra época, de outros anseios criativos e de outras inspirações artísticas, a versão moldada para cinema difere consideravelmente daquela contraparte dos quadrinhos; e nesse ensejo, a Marvel manuseou uma série de interessantes ideias a fim de harmonizar ainda mais seu universo compartilhado nos cinemas.

Agora não mais filho de Fu Manchu –os direitos autorais do personagem há tempos já não estavam mais com a editora –Shang-Shi (vivido pelo carismático Simu Liu) agora vem a ser (como, aliás, o próprio título do filme já sugere) filho do vilão conhecido como Mandarim, ou quase isso...

O Mandarim era sempre relacionado ao Grupo Terrorista dos Dez Anéis, que marcou presença no primeiro filme da Marvel Studios, “Homem de Ferro”, num já longínquo 2008. O Mandarim propriamente dito deu as caras em “Homem de Ferro 3”, interpretado por Ben Kingsley, numa manobra narrativa que gerou polêmica entre alguns fãs: O diretor e roteirista daquele filme, Shane Black, resolveu a delicada questão em torno do fato do vilão ser uma caricatura racista com um pouco de galhofa e desprendimento. Os fãs mais xiitas, porém, acharam inadequada a brincadeira e a Marvel Studios, em resposta, ventilou a existência do verdadeiro Mandarim num curta-metragem “Todos Saúdem O Rei”, de 2014. Existência esta que este longa-metragem, agora, vem a ratificar, explicar e justificar em seu enredo.

Mas, por que eu falei tanto sobre o Mandarim (que aqui, sequer é chamado por essa alcunha) se o personagem principal é Shang-Shi? Simples: Numa manobra bastante espirituosa, os realizadores, tendo transformado aquele vilão no pai de Shang-Shi em lugar no inadequado Fu Manchu, e sendo ele interpretado pela lenda-viva Tony Leung, conferem ao personagem, de nome Wenwu, uma dimensão trágica, um propósito e um respaldo que além de dissipar qualquer suspeita de  estereótipo racista, o iguala em importância ao próprio protagonista.

Portanto, “Shang-Shi and The Legend of The Ten Rings” é, no fundo, sobre uma problemática relação de pai e filho –temática na qual o diretor Destin Daniel Cretton já trabalhara em “Castelo de Vidro” –contrapondo então Wenwu e Shang-Shi. O pai corrupto e corruptível cuja aura lendária esmaga o filho, desejoso, por inúmeras razões de sair de sua sombra, e de trilhar um caminho que não o desvirtue. Apesar de trazer um prólogo bastante explicativo, a cena de dá o estopim à este filme é uma referência bastante explícita e inteligente ao primeiro “Homem de Ferro”: A câmera circunda um carro de luxo para mostrar seu ocupante (que no filme original era o próprio Tony Stark) e então, num movimento inesperado, foca no manobrista ao fundo da cena; e, este sim, trata-se do protagonista Shang-Shi (!). trabalhando em sub-empregos nos EUA, Shang-Shi busca ficar longe da influência paterna, sendo Wenwu um lendário chefe de organização criminosa no Oriente, controle este garantido por cinco ‘anéis’ (estão mais para argolas, na verdade, uma das traduções possíveis para rings) dotados de poder místico que ele trás em seus braços –e que lhe conferem imortalidade.

Perseguido e ameaçado junto de sua amiga Kate (a divertida Awkwafina, de "Oito Mulheres e Um Segredo", numa personagem que com frequência se resume a ser o alívio cômico do filme), Shang-Shi deve procurar sua irmã (Meng'er Zhang), para tentarem descobrir quais são as intenções de seu pai –o que incluem, certamente, o acesso, há tanto tempo almejado, à vila mítica de Tai Lo.

Inerente à sua proposta, o filme de Destin Cretton incorpora ao seu invariável catálogo de cenas de ação (algo no qual a Marvel procura se superar a cada projeto) o manejo hábil das artes marciais, com coreografias que, ao longo dos anos graças à obras como “O Tigre e O Dragão” e “O Clã das Adagas Voadoras”, foram se tornando cada vez mais complexas e elaboradas. À esse repertório, a produção agrega também um característico acabamento visual herdado desses filmes citados, evocando um Oriente belíssimo, mitológico e estilizado. Esses predicados emolduram uma trama sobre laços familiares que introduz um personagem bastante interessante (e representativo) entre as fileiras do Universo Marvel; ao lado dos personagens já reconhecidos e ainda disponíveis (sem falar de outros mais que ainda virão), Shang-Shi deve protagonizar algumas aventuras individuais e coletivas no futuro.

Pode apostar.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Colateral


 Max Durocher (Jamie Foxx, entregando um grande trabalho no mesmo ano em que arrebatou o Oscar de Melhor Ator por “Ray”) é um motorista de táxi de Los Angeles, assalariado em um trabalho que não lhe satisfaz, que vive planejando abandonar, embora no fundo, esteja apenas se enganado; a ocupação ‘temporária’ de taxista já tomou uma década inteira de sua vida! Numa noite desafortunada, ele é coagido por Vincent (Tom Cruise, num compenetrado e eficiente papel de antagonista), um assassino de aluguel, para quem dá carona em seu veículo, a acompanhá-lo e guiá-lo durante toda a noite aos locais da cidade em que deve fazer cada um de seus cinco "serviços".

O pobre motorista está convicto de que seu perigoso passageiro não o deixará terminar a noite vivo, e por isso planeja fazer algo para impedi-lo, e parar com os assassinatos.

Paralelamente, a circunstância em que se torna choffer do assassino leva Max e Vincent a estabelecer uma curiosa relação entre suas próprias perspectivas.

O excelente roteiro de Stuart Beattie chegou a parar nas mãos do brasileiro Fernando Meirelles (de “Cidade de Deus”), que enxergou na premissa um filme de comédia, até ser realizado e conduzido com brilhantismo pelo sempre competente diretor Michael Mann, que dele extraiu um conto espetacular sobre desilusão e urgência.

Para tanto, sua técnica assimilou maneirismos orgânicos das filmagens digitais –que ele empregou também em seu épico de gangsteres “Inimigos Públicos” –criando um expectro de luz e sombra para as filmagens que conferia ao registro da ação uma aura e uma impressão equilibradas entre o documental e o ligeiramente onírico; características que determinam com primor a natureza de sua trama.

Há um esforço tão nítido quanto admirável de Tom Cruise em conceder textura e profundidade reais ao seu primeiro papel de vilão, o que se sobressai, porém, é a magnífica composição de Jamie Foxx que, aliás, concorreu ao Oscar de Coadjuvante.

A dinâmica entre Max e Vincent, nas mãos desses dois grandes atores, no prisma formidável do inspirado roteiro e na condução peculiar e inteligente da direção, acaba sendo muito mais do que um duelo de egos antagônicos que culmina no incontornável embate físico: É também uma observação audaz sobre os vícios da vida moderna, sobre a corrupção que nos rodeia e sobre os empuxos drásticos e inesperados do destino.

Nesse exercício de gêneros sempre impecável que Michael Mann parece realizar a cada filme –mesclando concepções distintas de ação, mas sempre voltando à mesma categoria pela qual é apaixonado, o filme policial –ele vislumbra o cinema, tal como os grandes autores, como um laboratório onde se está em análise e experimentação a própria existência, o fluxo interminável de todas as coisas, transformando com isso uma premissa ameaçada de resultar banal numa obra tão inquisitiva, profunda, crua e reflexiva quanto “Clube da Luta”, de David Fincher.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

A Última Fortaleza


 Outrora um crítico de cinema, Rob Lurie estreou na direção com dois trabalhos indicativos de sua imensa atenção para com as orientações a definir uma narrativa. Se em “A Conspiração”, seu primeiro filme, as engrenagens denunciavam sua compreensão das convulsões do drama em conflito constante com as motivações –e ele soube empregar isso numa trama de incisivas observações políticas –em sua segunda empreitada, este “A Última Fortaleza”, sua habilidade foi usada na busca por uma expressão ainda mais pulsante e vigorosa de cinema. Uma conjugação brutal e masculina de suspense e ação.

Aqui, tudo se passa dentro de uma penitenciária militar –e a introdução de seu protagonista se dá homenageando, de cara, o que o diretor Lurie não nega ser o melhor filme de cadeia do cinema, o primordial “Um Sonho de Liberdade”: Na cena em questão, um ônibus chega à prisão (o cenário predominante de toda a trama) trazendo seu personagem principal, e a câmera acompanha sua chegada num arrojado ângulo em travelling. Se em “Um Sonho de Liberdade” essa sequência notável serve de senha para todo o filme fascinante que virá dali para frente, aqui, em “A Última Fortaleza” –realizada com um pouco menos de inspiração –a mesma sequência serve para qualificar e justificar a cinematografia que Rob Lurie usará no restante da produção, na qual o registro empolgante e visceral da ação terá por objetivo impedir que o cenário restritivo do filme engesse seu ritmo.

Interpretado pelo veterano Robert Redford (que, vez ou outra, consegue surpreender em algum filme), o Tenente-General Eugene Irwin chega à Prisão Estadual do Tennessee sob a sombra de sua fama: Ele foi um oficial do exército americano de tal forma lendário e condecorado que desfruta de admiração até mesmo da parte do diretor da penitenciária onde vai parar, o Coronel Winter (James Gandolfini).

Entretanto, Winter é instável, irascível e, na opinião de Irwin, um comandante relapso –o choque entre esses dois antagonistas é inevitável e, na narrativa cheia de urgência e tensão da qual o diretor Lurie se esbalda, sua intensidade vai num crescendo insuportável de sentenças e punições.

O diretor da prisão tortura seu novo encarcerado na mesma medida em que sua liderança entre os detentos vai aumentando. Os prisioneiros –todos soldados que cometeram alguma infração no código militar, como o próprio Irwin –estão proibidos de se portar como os militares que outrora foram; não podem, por exemplo, prestar continências.

A partir daí, e da intenção de todos em manter sua dignidade, esse crescendo de tensão entre os objetivos conflitantes dos guardas de Winter (conter a carceragem) e os prisioneiros liderados por Irwin (assumir o controle da prisão), o filme de Lurie caminha de forma implacável para a espetacular sequência de rebelião que ocupa  seu terço final.

Embora vez ou outra “A Última Fortaleza” caia na armadilha banal de tornar-se um filme corriqueiro de ação (a sua construção do suspense sugere e promete a chegada de cenas melhores do que aquelas que termina entregando) , ele assim consegue se fazer memorável na maior parte do tempo –sempre quando deposita as esperanças de sua narrativa nos ombros confiáveis de seus dois atores principais, Redford e Gandolfini, que constroem um belo duelo de tensões e personalidades.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Vigaristas


 O estilo de Rian Johnson encontra certa similaridade com o de Martin McDonagh, embora seja despido, diferente dele, de um contumaz fatalismo.

Johnson tem um apreço fora do comum pelos rumos quase sempre imprevistos que um roteiro é capaz de dar à narrativa e, sob a luz dessa percepção, praticamente todos os seus filmes são construídos –inclusive o incompreendido “Star Wars-Episódio VIII-Os Últimos Jedi”.

Datado de 2008, “Vigaristas” acompanha as peripécias de dois irmãos, Stephen (o inspiradíssimo Mark Ruffalo) e Bloom (Adrien Brody) por um mundo muito parecido com o nosso em suas características humanas, sociais, intelectuais e culturais.

Contudo, há uma série de elementos que conspiram a favor da ideia de que tal mundo onde transcorre a história é outro que não o real: Nele, os personagens dialogam numa verve poética e despojada, onde sentimentos e considerações insólitas fazem parte corriqueira do ato de interagir; e algumas leis da física e da ciência se aplicam com curiosa ambiguidade, contribuindo para o caráter deliberadamente inesperado da história.

O ofício de Stephen e Bloom nada mais é que aplicar golpes que provêm um certo meio de vida aos dois, e à Bang Bang (Rinko Kikuchi), a intrigante garota japonesa que os acompanha quase sempre como ajudante.

Stephen planeja tais golpes com a astúcia desigual de sua mente aguçada e Bloom, com suas feições de inocência crônica, trata de camuflar os embustes.

Mas, essa característica de Bloom não é fingimento: Ele realmente encontra certa perplexidade no ato do irmão enganar a tudo e a todos sistematicamente; e um sentimento de remorso o ronda toda vez que acontece.

À esse sentimento, somam-se uma série de outros mais, quando os dois irmãos decidem enganar a jovem Penelope Stamp (Rachel Weisz, luminosa) para dela usufruir da fortuna; a ideia é que Bloom, com seu jeitão de bom-moço, seduza a garota.

Entretanto, se isso vem a acontecer –inclusive, porque Penelope é, também ela, astuta e cheia de truques –o sentimento é recíproco: Bloom encontra em Penelope alguém por quem se importar, e ele não deseja vê-la prejudicada por mais um dos golpes do irmão.

Na atenção sempre interessada e interessante dessa dinâmica, o filme de Johnson passeia por verdades e inverdades, mentiras e golpes armados que fascinam pela forma sempre inesperada com que acabam se descortinando ao público, oferecendo contínuo atrativo à narrativa.

Nessa direção cheia de esperteza e segurança de Johnson, o brilho de Weisz e Brody é inconteste, mas é Mark Rufallo e seu vigarista a um só tempo perigoso e apaixonante, afetuoso e nada confiável, que torna antológica a experiência de ver o filme.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Foxcatcher - Uma História Que Chocou O Mundo


 Adeptos de histórias reais –e, não raro, dramas de orientação contundente –o diretor Bennett Miller lança seu olhar para os percalços que conduziram a um crime que chocou o mundo do esporte no final da década de 1980, munido de uma percepção que, se não modifica em nada o roteiro e a possível fidelidade aos fatos, vale-se de impressões subliminares para tentar sugerir uma possível justificativa a uma atrocidade virtualmente injustificável.

Competidor olímpico de luta greco-romana, o americano Mark Schultz (Channing Tatum) vive resignado e à sombra do irmão mais velho, Dave (Mark Ruffalo), também ele medalhista da mesma modalidade: É uma rotina que, em sua subjetividade, o diretor Miller não se furta de mostrar depressiva (a exemplo do que ele já fizera em “Capote” e “O Homem Que Mudou O Jogo”): O filme que acompanha Mark é silencioso, deprimente e triste.

Se Mark é soturno, Dave é carismático e exuberante –adjetivos que parecem despertar um ressentimento no irmão mais novo (características estas que, é bom lembrar, nunca são explicitadas no roteiro, mas evidenciadas na direção).

Mark recebe um telefonema do milionário John du Pont (Steve Carrell, tão competente na seriedade quanto o é no humor) e, ao ser convidado por ele para integrar sua equipe olímpica e morar em sua mansão, introduz um novo elemento nessa estranha dinâmica.

John du Pont é o tipo de personagem difícil de despertar empatia ou identificação: Egocêntrico em sua bipolaridade e na evidente indiferença para com sentimentos alheios (exceto pela opinião nunca positiva da mãe, vivida por Vanessa Redgrave), John é rodeado de indivíduos tornados subservientes por sua riqueza.

A dinâmica entre ele e seu séquito é estabelecida com clareza no filme: John é rico e financia com seu poder todas as operações à sua volta, em troca, seus apadrinhados lhe dedicam implausível enaltecimento, e ignoram a mediocridade em seu comportamento.

Ao trazer Mark Schultz para perto de si, John somente o transforma em um desses; ainda que, em seus desengonçados discursos motivacionais, John reafirme sua intenção de honrar o sonho americano, inspirar valores e ajudar o próximo.

Mark enxerga nessa oportunidade a chance de realizar suas aspirações e encontrar um meio de brilhar sem ser ofuscado pelo irmão.

Mas, Dave também está no radar de John.

Assim, o filme de Bennett Miller se fragmenta em dois filmes distintos,  conforme as interpretações: Um, é o filme que assistimos (onde Mark e John desenvolvem uma relação de amizade quase unilateral que vai migrando para uma dinâmica mais abusiva ao sabor das personalidades de ambos e suas idiossincrasias, o que ganha contornos mais complicados e mais desequilibrados quando Dave resolve se juntar à equipe, acirrando a tensão reprimida nos relacionamentos de dominação moral assim construídos); O outro é o filme que poderia ter sido feito, e que surge nas entrelinhas não tão evidentes deixadas por Miller. O fato é que a verdade em torno de um acontecimento –sobretudo, de natureza trágica como este –é, com frequência, algo movediço e escorregadio. Compreendendo esse detalhe, e sabendo de antemão que, dentre suas fontes de depoimentos pessoais, nem Dave Schultz e nem John du Pont (falecido em 2010) podem fornecer suas versões, restando somente o taciturno, arredio e nada inteligível Mark para lhe esclarecer os detalhes minimalistas da situação, o diretor Miller montou uma narrativa que, em parte, lembra a do filme “Teoria de Tudo” –onde as opiniões do biografado estão a interferir o tempo todo na veracidade da biografia –e assim faz de Mark o protagonista calado que, essencialmente, atravessa o filme com sua dignidade aparentemente intacta.

É nas impressões subjetivas, e nada óbvias, entretanto, que Miller deposita as possíveis e verdadeiras conclusões acerca do que pode ter ocorrido: Não à toa, “Foxcatcher”, à despeito do incômodo perene que evoca no expectador, foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor, e não ao de Melhor Filme –uma dica de que é a impressão que se tem da trama, e não seus pontos factuais, o verdadeiro relato a ser apreendido.

Um competente trabalho defino por percepções e considerações subliminares, emoldurado numa climática e introspectiva realização ao estilo do drama independente norte-americano, cujo resultado, em sua deliberada imprecisão existencial, acaba sendo perturbador.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Uma Noite Fora de Série


O humor excessivamente norte-americano dos comediantes Steve Carell e Tina Fey é baseado na circunstância da ‘saia justa’, da vergonha alheia. Quando acertam, eles conseguem extrair pérolas cômicas de algumas situações. Quando não, o constrangimento passa facilmente para quem assiste.
Dirigido por Shawn Levy, um especialista em musicais, comédias e filmes inofensivos, “Uma Noite Fora de Série” oscila entre esses dois extremos qualitativos.
É na totalidade de sua duração um programa familiar, com uma ligeira intervenção de situações um pouco mais escabrosas que deixam a dúvida se os realizadores optaram por esse humor mais pesado momentaneamente ou se foi um lapso.
Tina e Carell são Phil e Claire Foster, um casal suburbano de meia idade enfrentando uma crise de monotonia que acomete várias relações; paira sobre eles, o fantasma da separação de um casal de amigos (vividos por Mark Ruffalo e Kristen Wiig, as primeiras das inúmeras participações estelares que estão por vir) e o medo de que tal desfecho pode ocorrer a eles também.
Dispostos e ter uma noite revigorante de sexta-feira, eles vão a um badalado restaurante e, enfastiados da lista de espera para uma mesa, resolvem se passar por um outro casal que fez reserva perante a recepcionista (Olivia Munn) –e a partir dessa artimanha gaiata, a premissa dá seu ponto de partida.
Como numa caricatura de Hitchcock, eles são confundidos com misterioso casal (que descobrem ser, mais tarde, James Franco e Mila Kunis) cuja identidade travessamente resolveram assumir. Entretanto, como logo descobrirão, esse casal está sendo perseguido por policiais corruptos (Common e Jimmi Simpson) a serviço da máfia (o gangster maioral é ninguém menos que Ray Liotta) por conta de revelações comprometedoras.
Além disso, cruzam-se com a policial honesta vivida por Taraji P. Henson e com o casal interpretado por Mark Wahlberg e uma Gal Gadot “pré-Mulher Maravilha”.
Eu mencionei Alfred Hitchcock, mas na verdade, tão logo as confusões começam a se empilhar uma após a outra levando o desafortunado casal a uma noite infernal, é outra referência que acaba vindo à mente: “Depois de Horas”, de Martin Scorsese.
Como naquele filme, os protagonistas se vêem tão aturdidos quanto o expectador, mergulhados numa trama que nem eles mesmos entendem, impedidos, situação após situação de simplesmente voltar para casa –e ainda por cima, com o ostensivo cenário da noite nova-iorquina como pano de fundo.
Contudo, se o filme de Scorsese tinha na comédia uma salutar reflexão sobre valores e solidão, o filme com Steve Carell e Tina Fey só tem a intenção de extrair algumas risadas do expectador –saldo que, mesmo despretensioso, quase acaba no vermelho.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.

sexta-feira, 16 de março de 2018

A Última Fortaleza

O ex-crítico de cinema, Rob Lurie, ao lançar-se na carreira de diretor jamais tentou esconder as influências para as quais pendia o seu gosto pessoal: Lurie é um diretor que aprecia tramas que envolvem o embate, seja ideológico, seja físico, entre antagonistas que representam também doutrinas muito específicas acerca de suas posturas. E o fator que define a vitória de um sobre o outro, com freqüência, se revela a tenacidade, a rigidez de princípios, o orgulho –um cinema que remete muito à masculinidade latente das obras de Sam Peckinpah, Don Siegel e Samuel Fuller.
“A Última Fortaleza”, a despeito da discutível equiparação a obras potencialmente melhores do próprio Lurie, é o mais significativo para com essa atitude como contador de histórias. Ambientando seu filme num presídio –e, dessa forma, irmanando-o a toda uma tradição de grandes obras como “Alcatraz-Fuga Impossível” e “Rebeldia Indomável” –Lurie urgiu um trabalho notável que embora respira diversas referências cinematográficas traz um dinamismo próprio.
O veterano Robert Redford interpreta Eugene Irwin, um lendário general do exército americano, condenado a prisão por motivos que nunca ficam muito claros. Ele é encaminhado a uma penitenciária militar, e sua chegada se dá através de uma cena que nitidamente reverencia “UmSonho de Liberdade” –o audaz movimento de câmera panorâmico que acompanha o ônibus que leva detentos até ele chegar ao seu destino.
Recebido inicialmente com respeito e admiração acarretados pelo folclore em torno de seu nome e sua famosa percepção de tática e estratégia, Irwin parece indiferente à bajulação que vem, inclusive, do diretor do lugar (James Gandolfini). Ele deseja apenas cumprir sua pena, passando despercebido entre os detentos como mais um indivíduo de lá.
Não conseguirá.
Logo, sua postura o fará entrar em atrito com o diretor, e a narrativa de Lurie irá valer-se dessa estrutura de roteiro para emular vários outros filmes de prisão pelos quais nutre tanto apreço.
Após a descoberta de atitudes inumanas e inadmissíveis para com seus detentos, Irwin decide fazer aquilo que os inúmeros encarcerados já esperam dele; Liderá-los. O frágil equilíbrio de forças leva então ao planejamento de um motim, e Irwin poderá mostrar ao diretor do presídio toda sua habilidade em estratégia (e o diretor Lurie, sua desenvoltura no manejo de seqüências de ação) numa rebelião implacável e eletrizante que consome o trecho final do filme.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Onde Vivem Os Monstros

Embora em sua aparência “Onde Vivem Os Monstros” dê a impressão de ser destinado às crianças, o diretor Spike Jonze moldou na verdade um filme profundamente poético e sombrio sobre os inescapáveis detalhes lúgubres da infância.
Essa percepção já surge imediatamente quando acompanhamos a melancólica rotina do jovem Max (o pequeno e notável Max Records), de oito anos, um garotinho que por vezes se ressente de sua condição de criança incapaz e ignorada, na casa, onde mora com a irmã mais velha e a mãe divorciada e atarefada (Catherine Keener, meio que revelada pelo próprio Spike Jonze em “Quero Ser John Malkovich).
Como toda criança carente de atenção, Max se enfeza e se entristece por motivos que, aos olhos desavisados, parecem birra de criança. Após um desentendimento com a mãe, ele ensaia uma fuga, noite adentro ainda trajando a roupa de lobo que tanto gosta. O filme de Jonze assume então um ar lúdico que deixa indistinguível o que pode ser um sonho do que pode ser realidade –um dos detalhes fascinantes do filme –e vemos Max tomar um barco e, rumar oceano afora. Ele chega então numa ilha habitada por monstros grandalhões e falantes, que, de início querem devorá-lo –e que nada mais são senão reflexos de pulsões emocionais do próprio Max (o menino, portanto, na iminência de ser devorado pelas próprias emoções às quais não tem controle).
Contudo, os monstros ostentam uma ingenuidade e uma inocência em contrapondo à crueldade e ferocidade que desejam expressar, e talvez por conta disso, Max os sobrepuja com a promessa de que é um rei e que sua presença lhes trará felicidade. Assim, na condição de "rei dos monstros", Max fica seus dias junto deles onde partilha de suas inseguranças e peculiaridades muito humanas.
Os monstros brigam, discordam, questionam uns aos outros, às vezes, com uma imaturidade que simula as próprias relações humanas.
Por um tempo, aquela convivência supre, para Max, as experiências que ele tinha em casa –não mais negligenciado, ou subestimado, ou deixado de lado, ele se satisfaz com o fato de possuir um papel de relevância entre aquelas criaturas. Mas, como o diretor Jonze trata de avaliar em todos os seus filmes, as dinâmicas sempre sofrem, acima de tudo, com a saturação proporcionada pelo passar do tempo: Como o computador de “Ela”, como os gêmeos vividos por Nicolas Cage em “Adaptação” e como o homem no corpo de John Malkovich em “Quero Ser John Malkovich”, o pequeno Max percebe, quando a situação ganha os contornos do tédio e da rotina, que a condição que vive é, em última instância, insatisfatória em relação à vida que tinha. E então decide partir, deixando para trás uma ilha de monstros implorando para que fique.
Certamente, a concepção do pouco usual Spike Jonze para uma fantasia infantil é desafiadora para as convenções, soando melancólica a reflexiva em excesso. É algo até natural, portanto, que esta produção incomum e profundamente pessoal não tenha encontrado seu público.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ensaio Sobre A Cegueira

Certamente, a obra de José Saramago se presta a infindáveis analogias da parte de quem a lê e, com efeito, o filme que Fernando Meirelles criou a partir dela preserva essa mesma carga filosófica.
Por quê as pessoas ficam cegas? Parece ser a pergunta –de cunho muitas vezes metafórico –que ele parece fazer e deliberadamente evita responder. Como num Buñuel pós-moderno, um mal imprevisto acomete os cidadãos comuns em suas medíocres circunstâncias, nivelando-os mesmo quando eles ainda encontram justificativas para se diferenciar.
É um surto de cegueira coletiva que assola a humanidade sem a menor explicação. Os infectados são todos isolados em quarentena. Uma mulher (Julianne Moore), aparentemente imune a essa epidemia finge-se de cega para poder ficar junto do marido (Mark Ruffalo), um médico dos primeiros a ser infectado.
Dentro desse complexo hospitalar (no qual uns dois terços do filme se passarão) que nada mais é que uma versão atual do “Vale dos Leprosos” –sem qualquer infra-estrutura e largados ao léu –alguns, os mais prepotentes entre eles, almejarão criar uma hierarquia; e como todo autor de tal plano, munidos da intenção de se colocar no topo da pirâmide.
A mulher do médico (cujo dom, prodigioso ali, de ainda enxergar ela procura não usar como vantagem sobre ninguém) e o sórdido Rei da Ala 6 (Gael Garcia Benal) antagonizam-se.
Meirelles usa transgressões típicas de realizadores europeus (não fazia muito tempo que Gaspar Noé havia lançado seu perturbador “Irreversível”, abalando público e crítica) sem, no entanto, ir a fundo no objetivo de chocar a platéia –a cena do estupro coletivo é um exemplo de sua difícil e estóica tentativa de se manter num equilíbrio entre o naturalista e o elegante.
Isolados do mundo, os indivíduos acometidos pela cegueira vão, portanto, regredindo aos estágios mais primários da civilização, assistidos e às vezes auxiliados pela mulher do médico.
Saído de um trabalho de aclamação sem precedentes (“Cidade de Deus”) e de uma aplaudida produção no cinema americano (“O Jardineiro Fiel”), Fernando Meirelles optou por uma escolha ousada neste projeto, não fugindo do teor contundente proposto no livro de Saramago e fazendo um filme poderoso, denso e difícil. Suas cenas, um tanto fortes para serem vistas por expectadores desavisados, esmiúçam a fragilidade das convicções morais humanas quando colocadas à prova diante de um realidade que soa cruel e absurda em igual medida: A perda da visão, na concepção de muitos dos personagens, significa a perda das amarras éticas (ninguém está vendo...), e tão mais intensa essa decadência ocorre quando não há uma explicação plausível para tal fato –no terço final, quando enfim saem de dentro do complexo para o mundo exterior, eles descobrem que a cegueira tomou conta das grandes cidades e das ruas. Não há mais lei ou ordem, somente caos e desolação. Os cegos pegam o que querem e o que precisam para suas necessidades básicas, indiferentes à presença de outrem. A violência é uma linguagem quase natural que adotaram.
Mesmo o grupo de personagens protagonistas (que ainda incluem Alice Braga e Danny Glover), liderados pelo médico e sua esposa, não fogem a um certo flerte com o que antes (quando viam) seria impróprio ou inadequado, na sugestiva –ainda que tímida –cena do banho feminino coletivo.
No desfecho, Meirelles parece remeter vagamente à Píer Paolo Passolini, em “Teorema”, quando restitui a visão aos personagens –da mesma forma como o italiano remove o sedutor misterioso do seio da família burguesa cujos membros foram seduzidos por ele –ao fim da euforia comemorativa que se segue virá a pergunta, “E agora?”.
Meirelles encerra seu filme com a expressão algo melancólica de Julianne Moore a contemplar todo o remorso e a ressaca moral que virá junto com a resposta.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Mesmo Se Nada Der Certo

Após a bem-sucedida mescla de cinema, música e improvisação chamada “Apenas Uma Vez”, o diretor John Carney ganhou aval para uma produção mais elaborada com direito à astros do primeiro time de Hollywood: Além dos protagonistas, Mark Ruffalo e Keira Knightley, há James Corden, Catherine Keener, a talentosa Hailee Steinfield (a menina de “Bravura Indômita”) e ilustres pontas de Adam Levine e Cee Lo Green.
Todavia, o que John Carney fez, em melodia e intenção, foi algo muito parecido com seu trabalho anterior beneficiado desta vez de valores consistentes de produção o quê tira dele, para o bem ou para o mal, aquela crueza que “Apenas Uma Vez” tinha.
Dan já teve melhores dias como produtor musical, mas agora amarga a decadência profissional, a relação pouco amigável com a esposa (Catherine Keener) e o afastamento da filha (Hailee Steinfield), tudo isso levando-o ao cume do alcoolismo –e, de início, falta alguma exatidão na atuação improvisada de Mark Ruffalo, que vai melhorando pouco a pouco e se firmando no papel ao longo do filme. É um ponto de virada então quando ele se encontra com Gretta (Keira Knightley, buscando escolhas interessantes que a afastem dos papéis de mocinha do início de sua carreira), e nela descobre um daqueles talentos singulares e brutos que marcam a indústria musical.
Esse encontro, enunciado numa série de flashbacks, já dá uma idéia da sofisticação que o orçamento mais generoso propiciou ao diretor, assim como na belíssima cena em que Keira canta só em um barzinho e, na ótica do personagem Dan, é vista cercada por instrumentos de acompanhamento que tocam sozinhos.
Dan e Gretta –que também tem lá seu drama, tendo sido largada em Nova York pelo namorado (Adam Levine), e agora se vê meio sem rumo –decidem produzir um álbum de forma independente, sem gravadora ou estúdio de som, o quê significa gravar as músicas nas ruas com toda a cacofonia da cidade e os incidentes eventuais interferindo no resultado.
É mais uma vez, portanto, uma ode de John Carney à arte dos cantores de rua como havia sido em “Apenas Uma Vez”, e como ele tornou a fazer depois deste filme em “Sing Street”, todas obras onde ele usa a música como um intermediário no fluxo de emoções complicadas (como o amor) entre pessoas igualmente complicadas: Aqui, como em seus outros trabalhos, Dan e Gretta se entendem, se ajudam e se compreendem, e na inevitabilidade da lida com sentimentos à flor da pele que a música inspira, vêem então o amor florescer. Ainda assim, Carney, como em seu filme anterior, opta por não mergulhar nesse oceano: Em seus filmes o romance apenas imbrica timidamente por frestas diminutas que as escolhas narrativas do diretor (Dan é casado; Gretta tem lá suas pendências com o namorado; e a idade de ambos não é muito compatível) não permitem aflorar plena e escancaradamente –é uma opção que ele faz, mas é uma pena desperdiçar casal de química tão nítida e encantadora como Mark Ruffalo e Keira Knightley.

“Mesmo Se Nada Der Certo” é mais hollywoodiano, mais melindroso, mas Carney é feliz em usar os recursos que dispõe a mais para elaborar um belo filme.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Thor - Ragnarok

A Marvel Studios sempre naquela rotina de entregar ótimos filmes de entretenimento baseados em seus heróis de histórias em quadrinhos vive em um tênue equilíbrio. De um lado os detratores afirmam que sua escala de produção impede que diretores mais autorais expressem sua personalidade nas obras, do outro –quando a própria Marvel busca corresponder a essas críticas –eles reclamam que os filmes descaracterizam seus heróis; ataque dirigido, por exemplo, à “Homem de Ferro 3”.
É bem provável que este sensacional “Thor-Ragnarok” encontre ressalvas desse tipo, visto que ele de fato promove uma desconstrução do personagem Thor.
Carregando a alguns anos a ingrata pecha de protagonista de alguns dos mais fracos filmes da Marvel Studios –e, realmente, tanto “Thor”, de Kenneth Brannagh, quando “Thor-O Mundo Sombrio”, de Alan Taylor, estão entre os mais formulaicos –isso se refletiu fazendo de Thor, em meio às reuniões de todos os heróis nos filmes dos Vingadores, um dos personagens cujos elementos e cujo intérprete (o eficiente Chris Hemsworth) foram menos explorados.
Mas, a Marvel tinha plena consciência de que estava mudando as coisas quando chamou Taika Waititi para a direção deste terceiro filme solo do personagem.
Esperto, objetivo, capaz e perspicaz, Waititi de início –de início mesmo, já nos quinze primeiros minutos! –estabelece algumas mudanças profundas na abordagem que diferem seu filme dos anteriores. A primeira delas e mais pertinente, que define o filme a partir daqui: Na qualidade de protagonista, Thor é também tornado pelo roteiro e pela direção o personagem mais interessante em cena (Tom Hiddleston, como Loki, continua excelente, mas ele já não mais rouba a cena, pelo simples fato de que ele não é central à premissa).
A segunda: O humor –dono de um senso de humor tão irresistível quanto peculiar, Waititi encoraja o improviso e a descontração de seu elenco, evidenciando com isso o impecável timing cômico até então não aproveitado de Chris Hemsworth, e aproximando o tom de seu filme muito daquela deliciosa e divertida sensação de matinê que James Gunn soube imprimir ao seu “Guardiõesda Galáxia”. Até mesmo a concepção visual desses dois filmes, a partir de um determinado momento ganha similaridades.
A terceira diz respeito à própria habilidade de Waititi como diretor, e ela surge em momentos nos quais muitos o subestimavam, como as magníficas seqüências de ação já no início, quando vemos Thor, numa espécie de cruzada investigativa pelo universo, desde que ele se prestou a essa tarefa no final de “Vingadores-A Era de Ultron”.
Isso explica porque ele se manteve tanto tempo ausente de Asgard. Quando retorna o que ele encontra –como pôde ser visto ao fim de “Mundo Sombrio” –é Loki comandando Asgard no lugar que seria de Odin (Anthony Hopkins).
Uma rápida vinda à Terra (que abre espaço para uma participação sensacional de Benedict Cumberbath como “Doutor Estranho”) e eles encontram Odin exilado, temeroso do retorno de Hella, a deusa da morte (a bela e veemente Cate Blanchett), o quê pode deflagrar o Ragnarok, ou fim do mundo, em Asgard.
Em seu primeiro embate com Hella, Thor é exilado no planeta Sakar, de onde passará boa parte do filme tentando partir. E aí começam os esforços de Waititi em promover a tal da desconstrução do personagem. Thor perde seu poderoso martelo Mjolnir (isso não é spoiler, pois já é visto num dos trailers), tem suas longas madeixas cortadas e seu figurino radicalmente alterado, e isso não é nada perto do que se passará em Asgard até o final do filme –até chegar lá, todas as características do personagem que em muito o definiam (e tidas antes por intransformáveis) assim como sua mitologia de modo geral, terão sido chacoalhadas de modo irreversível por Waititi.
Como o grande diretor que é, ele aproveita cada instante desse processo para moldar cenas antológicas: Em Asgard, uma divertidíssima encenação teatral de eventos de “O Mundo Sombrio” coloca numa mesma participação Matt Damon e Sam Neil (!). Em Sakar, após ser capturado por Valkiria (a fabulosa Tessa Thompson), Thor deve se provar valoroso como gladiador aos olhos do Grão Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e derrotar seu campeão que é, ninguém mais ninguém menos do que o Hulk –que recebe uma breve e eficiente explicação para seu desfecho nebuloso em “A Era de Ultron”.
A participação do Hulk –assim como de Bruce Banner que Mark Ruffalo interpreta de forma igualmente brilhante –é das mais suculentas em todos os filmes da Marvel: O gigante verde é essencial à narrativa contribuindo não só para as espetaculares cenas de ação, mas para a trama também, e ainda protagoniza a primeira cena de nudez da Marvel Studios (!).
Em outras palavras, eis um filme que exemplifica com propriedade a disposição da Marvel em criar cinema de verdade e entretenimento de primeira a partir de seus produtos.
Divertido, espetacular e, por que não, mágico.