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sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Loki - 1ª Temporada


 O Loki que vemos como protagonista desta primeira temporada de sua série individual, lançada em 2021 pela Marvel Studios, não é o Loki que vimos nos três primeiros filmes do Thor (embora ainda brilhantemente interpretado pelo mesmo ator Tom Hiddleston); aquele Loki morreu pelas mãos de Thanos, como visto em “Vingadores-Guerra Infinita”. Este Loki, na verdade, trata-se de uma variante (um termo que a série usará à exaustão) –uma outra versão vinda de uma realidade alternativa. Melhor esclarecendo: A trama paralela deste Loki (que os seis episódios sensacionais desta primeira temporada tratam de descortinar) se inicia na cena de “Vingadores-Ultimato” na qual, quando Tony Stark se atrapalha e deixa o Cubo Cósmico cair aos pés de um Loki aprisionado logo após os eventos de “Vingadores”, este junta a Jóia do Infinito do chão e, num piscar de olhos, consegue escapar, dando origem assim à premissa desta série.

Eu posso apenas supor a confusão com que adentraram, aqui, expectadores que não chegaram a assistir os filmes anteriores da Marvel, que explicam detalhadamente toda a trajetória que levou Loki à protagonizar sua própria série –embora seja bastante improvável hoje haverem pessoas no público completamente alheias aos filmes da Marvel Studios... Uma vez em liberdade, Loki –sempre lembrando, este personagem não acompanhou os eventos presentes em “Thor-O Mundo Sombrio” ou “Thor-Ragnarok” –descobre que é uma anomalia, uma variante. Sua escapadela originou uma nova linha temporal, e existem seres incumbidos de corrigir esse tipo de lapso, são os agentes da AVT (Autoridade de Variância Temporal) que vivem patrulhando o fluxo do tempo impedindo que eventos improváveis deem origem à novas realidades alternativas, preservando assim uma única e sagrada linha do tempo.

Uma vez capturado na AVT, Loki ganha uma inesperada chance de redenção: Ir além do ingrato destino que é perecer nas mãos de Thanos e, de repente, até conhecer cara à cara os misteriosos Guardiões do Tempo (criadores onipotentes da AVT), se colaborar com o Agente Mobius (Owen Wilson, em ótima sintonia com Hiddleston) numa investigação. Ao que parece, uma variante do próprio Loki –uma versão estrategista, obstinada e feminina, vivida por Sophia Di Martino (de “Yesterday”) –está criando problemas para a AVT, disposta a sabotar a linha temporal sagrada. Em sua astúcia, somente um Loki, presume Mobius, é capaz de achar o paradeiro de outro Loki.

É claro que, como todo enredo a reunir elementos de investigação e mistério (ainda que temperados com a fantasia e a ficção científica peculiares da Marvel), em “Loki” nada é aquilo que parece, e os rumos das investigações de Mobius e Loki irão revelar segredos obscuros guardados dentro da própria AVT, muitos deles personificados na sisudez ameaçadora da Juíza Renslayer (a excelente Gugu Mbatha-Raw, de “Nos Bastidores da Fama”). Também irão revelar que não é exatamente a personagem de Sophia Di Martino a antagonista da série, mas sim o enigmático personagem de Jonathan Majors, chamado Aquele Que Permanece.

Contratado pela Marvel Studios, como todo mundo bem sabe, para dar vida à Kang, O Conquistador, o novo vilão que desempenhará, nesta nova fase, o papel feito por Thanos nas fases anteriores, Jonathan Majors não surge, aqui, como o antagonista definitivo que dará as caras dentro em breve (ele reaparece, como Kang, de fato, em “Homem-Formiga & Vespa-Quantumania”), mas sim como uma variante devidamente posicionada à fim de manter um mínimo de controle diante da ameaçadora possibilidade de um multiverso emergir de um descuido na manutenção do tempo. A série “Loki”, portanto, como se pode perceber, é fundamental para os pontos de partidas de muitos acontecimentos que se sucedem nas obras posteriores da Marvel –entre elas, “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” e “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, ambos a tratar das complexidades do multiverso. Diferente do contexto mais simples a envolver Thanos, este personagem traz consigo toda uma circunstância intrincada e fascinante que aparenta se estender para inúmeros filmes futuros, e o ator Jonathan Majors não nega fogo entregando uma atuação minimalista, raivosa, cheia de petulância e inteligência.

Honorável presença entre as melhores obras entregues pela Marvel Studios desde que se aventuraram também no formato televisivo das séries “Loki” termina num caos instigante e inquietante, deixando pontas soltas e possibilidades palpitantes para sua já anunciada segunda temporada. É certamente mérito da interpretação humana, melindrosa, carismática e precisa de Tom Hiddleston que um vilão relativamente comum tenha adquirido tal envergadura –e predileção do público –a ponto de sair da sombra de seu heróico irmão e ganhar uma série própria de TV; e nesse processo deixar de ser o vilão relativamente comum que era e migrar para o status de anti-herói incomum.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Amantes Eternos

Ao lado de “O Vício”, de Abel Ferrara, “Amantes Eternos”, de Jim Jamursch é um dos filmes de vampiros mais originais e peculiares do cinema.
Isso porque, na concepção de Jarmusch absolutamente desinteressada dos tópicos de obras de terror, o conceito do que quer que seja um vampiro passa pela consciência de uma eternidade mergulhada nos mesmos questionamentos filosóficos que assolaram o subconsciente da humanidade por séculos e séculos; seres imortais, portanto, presentes em cada uma dessas etapas de lento, doloroso e aterrorizante aprendizado teriam uma maneira distinta de absorver as impressões do mundo.
Quão diferente, então, seriam esses seres, em seu comportamento e em sua mentalidade, dos humanos mortais e normais, em sua inércia de uma vida fugaz e finita?
“Amantes Eternos” se ocupa de refletir sobre essa pergunta; o que não necessariamente significa que, ao fim, ele a tenha respondido.
Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Winton) são dois vampiros –e, nos nomes adotados para esses personagens não apenas fica explícita a simbologia religiosa como em mais de um momento Jarmusch brinca com a sugestão de poderem ser eles o Adão e a Eva originais descritos na Bíblia (!); criaturas que carregam em si o peso imponderável de incontáveis séculos de vida.
Adam vive recluso em Detroit nos EUA. Eve mora em Tânger, no Marrocos.
Ambos, porém, são (ou foram) casados.
Ele passa suas noites fazendo encomendas excêntricas ao jovem Ian (o saudoso Anton Yelchin) que lhe providencia mimos como guitarras de fabricação raras para sua coleção.
Ela tem a ocasional companhia de Kit (John Hurt), vampiro veterano de aspecto envelhecido que seria Christopher Marlowe, revolucionário poeta do Século XVI –e para tanto, Jamursch o leva a declamar profundas considerações sobre o mundo e suas mudanças desde então.
Os vampiros retratados por Jamursch não são os assassinos caçadores que estamos acostumados a ver nos dias atuais –e também não são os despropositados românticos que brilham no sol, não se preocupe! –fazer uma vítima a cada noite não é uma atitude prudente; assim, Adam e Eve criaram métodos específicos para obtenção de sangue. Ele, por exemplo, visita um banco de sangue onde tem um acordo com o clínico-geral (Jeffrey Wright) e consegue litros de O positivo.
Assim, sem a necessidade de preencher seu tempo com perseguições às vítimas eventuais o que fazem os vampiros? Para Jamursch, eles usam de seu tempo vasto para absorver o que de melhor existe na cultura humana: A arte.
Daí a fascinação de Adam por relíquias musicais que ele empilha em sua casa, e sua obsessão com música, fotos antigas e outras coisas; Eve, por sua vez, imerge na literatura (sua velocidade de leitura é algo sobrehumano!) o que lhe proporcionou, ao longo dos séculos uma prosa reflexiva que vai das elucubrações quânticas de Albert Einstein aos humores instáveis de gênios da literatura em questão de poucas palavras.
Os vampiros de Jamursch são, pois, quase como filósofos de botequim que contemplam o melhor e o pior da humanidade do alto de uma existência longeva.
Não quer dizer que, em algum momento, eles não terão seus contratempos bem mundanos: Quando Eve volta aos EUA para ficar um tempo com Adam, logo em seguida aparece sua inconveniente irmã, Ava (Mia Wasikowska), também vampira, porém mais jovem, mais inconsequente e mais ávida por sangue a ponto de afrontá-los com sua imprudência. Os atos de Ava acabam obrigando Adam e Eve a regressarem a Tânger, onde outros percalços da vivência de um vampiro os aguarda.
Os mais rabugentos para com o cinema de Jim Jamursch afirmaram que ele se vale do tema dos vampiros apenas para fornecer uma moldura diferencial para seus questionamentos filosóficos de sempre, embasados por posturas underground típicas de seu cinema, no entanto, há que se reconhecer, não somente a corajosa manutenção das mesmas inquietações que fazem seu estilo desde que se dedicou a um cinema independente e autoral, como também a precisão com que sua técnica e seu modo de filmar combinam tão bem com o interessante universo concebido para este roteiro repleto de belas ideias e de pertinentes propostas.
Um grande trabalho –dentro do sub-gênero dos vampiros, talvez, o melhor da década.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Thor - Ragnarok

A Marvel Studios sempre naquela rotina de entregar ótimos filmes de entretenimento baseados em seus heróis de histórias em quadrinhos vive em um tênue equilíbrio. De um lado os detratores afirmam que sua escala de produção impede que diretores mais autorais expressem sua personalidade nas obras, do outro –quando a própria Marvel busca corresponder a essas críticas –eles reclamam que os filmes descaracterizam seus heróis; ataque dirigido, por exemplo, à “Homem de Ferro 3”.
É bem provável que este sensacional “Thor-Ragnarok” encontre ressalvas desse tipo, visto que ele de fato promove uma desconstrução do personagem Thor.
Carregando a alguns anos a ingrata pecha de protagonista de alguns dos mais fracos filmes da Marvel Studios –e, realmente, tanto “Thor”, de Kenneth Brannagh, quando “Thor-O Mundo Sombrio”, de Alan Taylor, estão entre os mais formulaicos –isso se refletiu fazendo de Thor, em meio às reuniões de todos os heróis nos filmes dos Vingadores, um dos personagens cujos elementos e cujo intérprete (o eficiente Chris Hemsworth) foram menos explorados.
Mas, a Marvel tinha plena consciência de que estava mudando as coisas quando chamou Taika Waititi para a direção deste terceiro filme solo do personagem.
Esperto, objetivo, capaz e perspicaz, Waititi de início –de início mesmo, já nos quinze primeiros minutos! –estabelece algumas mudanças profundas na abordagem que diferem seu filme dos anteriores. A primeira delas e mais pertinente, que define o filme a partir daqui: Na qualidade de protagonista, Thor é também tornado pelo roteiro e pela direção o personagem mais interessante em cena (Tom Hiddleston, como Loki, continua excelente, mas ele já não mais rouba a cena, pelo simples fato de que ele não é central à premissa).
A segunda: O humor –dono de um senso de humor tão irresistível quanto peculiar, Waititi encoraja o improviso e a descontração de seu elenco, evidenciando com isso o impecável timing cômico até então não aproveitado de Chris Hemsworth, e aproximando o tom de seu filme muito daquela deliciosa e divertida sensação de matinê que James Gunn soube imprimir ao seu “Guardiõesda Galáxia”. Até mesmo a concepção visual desses dois filmes, a partir de um determinado momento ganha similaridades.
A terceira diz respeito à própria habilidade de Waititi como diretor, e ela surge em momentos nos quais muitos o subestimavam, como as magníficas seqüências de ação já no início, quando vemos Thor, numa espécie de cruzada investigativa pelo universo, desde que ele se prestou a essa tarefa no final de “Vingadores-A Era de Ultron”.
Isso explica porque ele se manteve tanto tempo ausente de Asgard. Quando retorna o que ele encontra –como pôde ser visto ao fim de “Mundo Sombrio” –é Loki comandando Asgard no lugar que seria de Odin (Anthony Hopkins).
Uma rápida vinda à Terra (que abre espaço para uma participação sensacional de Benedict Cumberbath como “Doutor Estranho”) e eles encontram Odin exilado, temeroso do retorno de Hella, a deusa da morte (a bela e veemente Cate Blanchett), o quê pode deflagrar o Ragnarok, ou fim do mundo, em Asgard.
Em seu primeiro embate com Hella, Thor é exilado no planeta Sakar, de onde passará boa parte do filme tentando partir. E aí começam os esforços de Waititi em promover a tal da desconstrução do personagem. Thor perde seu poderoso martelo Mjolnir (isso não é spoiler, pois já é visto num dos trailers), tem suas longas madeixas cortadas e seu figurino radicalmente alterado, e isso não é nada perto do que se passará em Asgard até o final do filme –até chegar lá, todas as características do personagem que em muito o definiam (e tidas antes por intransformáveis) assim como sua mitologia de modo geral, terão sido chacoalhadas de modo irreversível por Waititi.
Como o grande diretor que é, ele aproveita cada instante desse processo para moldar cenas antológicas: Em Asgard, uma divertidíssima encenação teatral de eventos de “O Mundo Sombrio” coloca numa mesma participação Matt Damon e Sam Neil (!). Em Sakar, após ser capturado por Valkiria (a fabulosa Tessa Thompson), Thor deve se provar valoroso como gladiador aos olhos do Grão Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e derrotar seu campeão que é, ninguém mais ninguém menos do que o Hulk –que recebe uma breve e eficiente explicação para seu desfecho nebuloso em “A Era de Ultron”.
A participação do Hulk –assim como de Bruce Banner que Mark Ruffalo interpreta de forma igualmente brilhante –é das mais suculentas em todos os filmes da Marvel: O gigante verde é essencial à narrativa contribuindo não só para as espetaculares cenas de ação, mas para a trama também, e ainda protagoniza a primeira cena de nudez da Marvel Studios (!).
Em outras palavras, eis um filme que exemplifica com propriedade a disposição da Marvel em criar cinema de verdade e entretenimento de primeira a partir de seus produtos.
Divertido, espetacular e, por que não, mágico.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Kong - A Ilha da Caveira

Habitante do imaginário popular desde 1933, quando o filme clássico de Merian C. Cooper foi lançado, King Kong apareceu em várias versões na cultura pop além dos três conhecidos longa-metragens para cinema; até mesmo um encontro com o monstro nipônico Godzilla foi arranjado!
Nessa nova personificação, “Kong-A Ilha da Caveira”, o macaco gigante surge embalado por uma veia comercial extremamente atrelada aos tempos de hoje –onde uma franquia só vale a pena comercialmente quanto tem um “universo compartilhado”.
Por isso, a trama apresenta ligeiras modificações em relação àquelas dos filmes anteriores. Ainda há –é claro! –uma assim chamada Ilha da Caveira, onde as mais inacreditáveis monstruosidades se criaram longe do testemunho humano. Como também ainda há aqueles impelidos por um desejo quase inconseqüente de ir até lá, e descobrir seus segredos, mesmo que isso custe toda a vida de uma incauta equipe que irá acompanhá-los. E aqui, tal personagem ganha vida nas mãos de John Goodman, um estudioso obcecado em descobrir a Ilha da Caveira (identificada por meio de fotos de satélite), e que convence, ao lado de outro companheiro (Corey Hawkins) um senador de Washington (ponta de Richard Jenkins) a financiar uma expedição à ilha antes dos russos (eram anos 1970, e vivia-se a realidade da Guerra Fria). Ele é só o primeiro de muitos que virão.
Finda a Guerra do Vietnam, a esquadrilha de soldados e helicópteros chefiados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson, o Nick Fury de “Os Vingadores”, da Marvel Studios) recebe assim a missão de escoltar os cientistas até o longínquo lugar –a conversão gradual e nada sutil do personagem de Jackson num estereótipo de militar intempestivo, irredutível e explosivo é infelizmente dos pontos baixos do filme.
Além deles, está também o mercenário e aventureiro de aluguel Conrad (Tom Hiddleston, o Loki de “Thor”, da Marvel Studios) e a fotógrafa de guerra Mason Weaver (Brie Larson, protagonista do ainda vindouro filme da “Capitã Marvel”, da Marvel Studios).
Na ilha, além dos perigos eventuais e da portentosa presença de King Kong (vivido, na captura de performance, pelo ator Toby Kebbel), eles encontram também um piloto perdido da época da Segunda Guerra Mundial, Marlow (John C. Reilly que foi coadjuvante em “Guardiões da Galáxia”, da Marvel Studios).
E, como se pode notar pelos créditos do elenco, se há um molde pelo qual esta produção se baseia, ele está menos no clássico “King Kong” de Merian C. Cooper e Ernest Schoedsack e mais nos bem-sucedidos filmes da Marvel que compartilham o mesmo universo entre si. Este filme também trás uma vibração assim: E isso se percebe na presença da subdivisão Monarch –também ela presente em “Godzilla”, de Gareth Edwards –mostrado aqui como um departamento ainda embrionário, capitaneado por Randa (o personagem de Goodman) e que é uma boa dica do que ainda virá. Se mesmo assim o público não se convencer, certamente a cena pós-créditos (tal como faz a Marvel Studios) o fará: Pois eis que agora é Hollywood, com seus efeitos especiais grandiloquentes e megalomaníacos, quem quer, afinal, reeditar o encontro de Kong com Godzilla e outros gigantescos monstros ilustres do passado!
Até lá, no entanto, é possível se entreter, e muito bem, com o regozijo cinematográfico que o diretor Jordan Vogt-Roberts consegue extrair de todas as cenas, desde que se releve um ocasional exagero na sinergia de algumas seqüências e na pressa do andamento –fruto, entre outras coisas, de um roteiro que ao mesmo tempo em que apresenta dezenas de personagens, exige ritmo em sua condução.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Cavalo de Guerra

Steven Spielberg sempre nutriu uma grande paixão pelo cinema da Velha Hollywood –visível nas referências que povoam a maioria de seus filmes –daí não ser exatamente uma surpresa o fato dele dirigir, com tanto zelo e cuidado, uma produção que representa, essencialmente, uma emocionante homenagem àquele tipo de cinema executado antigamente.
Como nos filmes antigos, “Cavalo de Guerra” é feito de rara sutileza e sensibilidade, enaltecendo valores que parecem antiquados nos blockbusters cínicos de hoje, mas que soam (e sempre haverão de soar) de salutar significado –aliás, outra característica quase onipresente nas demais obras de Spielberg.
“Cavalo de Guerra” começa e termina em duas emblemáticas cenas de leilão –é como se o diretor quisesse reafirmar o ímpeto competitivo que contamina o homem, e que, em última instância, conduz à guerra.
Em ambos os leilões (encenados com genialidade), estará a figura almejada do potro que, no início, é arrematado pelo humilde fazendeiro Ted (o extraordinário Peter Mullan). Seu filho, Albie (o expressivamente adequado Jeremy Irvine), um jovem fazendeiro inglês no início do século XX criará um elo de carinho e amizade com esse potro chamado Joey –o protagonista de fato do filme de Spielberg, que ganha personalidade graças a um trabalho primoroso de cenas.
Quando eclode a Primeira Guerra Mundial, entretanto, ambos, o garoto e seu cavalo são separados quando Joey é enviado para frente de batalha como montaria.
Ele inicialmente serve a um capitão benevolente do exército inglês (Tom Hiddleston, em ótima participação), que termina morto por alemães; em seguida, passando de dono em dono, o potro vive aventuras conduzido por um jovem desertor alemão (David Kross, de “O Leitor”) e, mais tarde, sob os cuidados de um fazendeiro francês (Niels Arestrup, magnífico) e sua netinha.
Eventualmente, Joey perde-se em meio ao conflito, enquanto Albie ingressa como combatente pela Inglaterra, para poder procurá-lo nas trincheiras.
Habilidoso como poucos, Spielberg pinça seu dramático épico sobre amizade ambientado na Primeira Guerra Mundial com tintas clássicas visando essa homenagem aos filmes que tanto o fascinaram em sua juventude –o trabalho de cor que ele obtém com o registro das câmeras  é um deslumbre encantador, mas provavelmente seu grande mérito, neste filme é o trabalho minucioso, admirável, feito com muito carinho, dedicado aos animais; tão expressivos quanto os seres humanos, sem que seja necessário lançar mão de artifícios como dar-lhes uma voz humana, ou renegar o realismo do filme.
Pela própria proposta para com a inocência resgatada de produções de outrora (e por isso mesmo, propositadamente datado), não se compara aos melhores trabalhos de Spielberg, mas é uma obra de visual belíssimo, repleta de momentos emocionantes e edificantes.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Thor - O Mundo Sombrio

Dentre os filmes da Marvel Studios, aqueles que mais encontraram certa dificuldade para se impor como entretenimento de qualidade e ao mesmo tempo obra notável de cinema, foram os protagonizados pelo Deus do Trovão, Thor.
Não havia nada de errado com o ator (Chris Hemsworth, com freqüência perfeito no papel), mas provavelmente com o tom: Oriundo de sua mitologia própria –fortemente inspirada nas lendas escandinavas –Thor pedia uma abordagem criteriosa, minuciosa para com suas extensões narrativas que envolviam não apenas seus inúmeros personagens secundários, e suas ambientações de natureza cósmica, mas que também se conectariam com outras linhas narrativas (a do Homem de Ferro, a do Capitão América...) que tinham por eixo uma orientação mais realista/científica.
O primeiro “Thor”, dirigido por Kenneth Brannagh, como filme de origem, saiu-se relativamente bem preparando o terreno para aquilo que o público de fato queria ver: O filme dos Vingadores.
Passado esse vendaval, contudo, a Marvel Studios sabia qual seria seu desafio: Voltar aos filmes-solo (e às narrativas individuais) de cada um de seus personagens, porém, desta vez com a pressão de que, agora, havia um alto patamar qualitativo pelo qual seriam comparados –“Os Vingadores”, de Joss Whedom.
E, se “Homem de Ferro 3”, escrito e dirigido por Shane Black –o primeiro filme lançado depois da reunião da equipe –havia passado pelo crivo de público e crítica dividindo opiniões, a Marvel não desejava que o mesmo (ou algo ainda pior!) ocorresse com Thor, uma vez que seu primeiro filme não era nenhuma unanimidade.
A fim de garantir o tom épico que eles almejavam desde o começo, a Marvel chamou inicialmente a diretora Patty Jenkins (de “Monster-Desejo Assassino” e que, atualmente, dedica-se ao filme da “Mulher Maravilha”), e diante de uma recusa, optou por um diretor dos mais apropriados: Alan Taylor, que assinou vários episódios da cultuada série de fantasia medieval “Game Of Thrones”.
O resultado, ligeiramente mais satisfatório como entretenimento do que o filme anterior de “Thor”, ainda o nivela por baixo, se comparado à outros trabalhos do Marvel Studios.
Após os eventos espetaculares de "Os Vingadores", Thor, o filho de Odin, leva Loki (Tom Hiddleston, ocasional ladrão de cenas dos filmes) seu irmão traidor para seu julgado em Asgard por seu pai (Anthony Hopkins, em solene piloto automático), mas a tranqüilidade dura pouco tempo.
Seres de uma maldade ancestral, os elfos negros e seu senhor, Malekith (Christopher Eccleston, de “Jude”, um vilão padrão), são despertados com a aproximação de um fenômeno cósmico conhecido por "convergência". Isso obriga Thor a voltar para a terra, onde reencontra a jovem astrônoma Jane Foster (Natalie Portman, cujo cacife de estrela a faz adquirir desnecessária relevância neste filme) que, devido a uma série de contratempos, torna-se fundamental para a solução dessa crise.
De certa forma, dando continuidade a todo o universo cinematográfico da Marvel –seus desdobramentos se referem não só ao filme anterior de Thor com ao dos Vingadores, e vários outros –este “Mundo Sombrio” promove um aumento de escopo, não há dúvidas (as ações de Thor têm imbricações quase galácticas!), mas o diretor Taylor padece de um mal óbvio: Sua direção não exibe uma personalidade própria, mas, hesitante, parece querer emular o estilo de Joss Whedon em “Vingadores”, mais perceptível em sua nem sempre adequada propensão para o humor –piadinhas que já não combinaram com Thor no outro filme –transformando o núcleo de personagens humanos (Natalie Portman, a charmosa Kat Dennings, o amalucado Stellan Skarsgaard) num alívio cômico quase indigesto.
O resultado ainda é divertido, embora irregular, deixando possível perceber, dessa forma, as tentativas de evolução que a Marvel Studios perscrutava –e que seriam sensivelmente mais bem sucedidas nos excelentes exemplares posteriores, “Capitão América-O Soldado Invernal” e “Guardiões da Galáxia”.
A Marvel ainda está tentando. O próximo filme do personagem, “Thor-Ragnarok”, trás a mais audaciosa e empolgante escolha de diretor já feita pelo estúdio: Taika Waititi, realizador do genial “O Quê Fazemos Nas Sombras”.
Que ele finalmente ganhe a produção épica que merece!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os Vingadores

Guardados alguns casos à parte (e que também mostraram-se interessantes) a Marvel Studios sempre compreendeu, em suas adaptações cinematográficas, que o gênero de super-heróis é, em grande e significativa medida, uma fonte de inspiração. E não de introspecção.
Seus trabalhos assim, primavam pelo senso de humor, pela descontração (vide o emblemático filme do Homem de Ferro). Passam, enfim, longe de serem obras sombrias.
E a Marvel Studios deu-se muito bem com isso.
O sexto filme realizado por eles, após seu estúdio de cinema ser consolidado, foi justamente aquele que reunia todos os personagens introduzidos separadamente nas produções anteriores, e atendia pelo título de “Marvel’s Avengers”, ou simplesmente chamado “Os Vingadores” –foi também aquele mais cercado de expectativa.
Era, afinal, uma cartada e tanto aquela que a Marvel estava dando (e tão bem sucedida ela foi que hoje, com vários estúdios correndo atrás para fazer a mesma coisa, fica difícil imaginar que, em 2012, isso ainda era um projeto sem precedentes): Convergir todo um leque de narrativas paralelas para unir vários personagens protagonistas num filme só.
Uns imaginavam algo parecido com “Onze Homens e Um Segredo”; outros um reflexo com mais pompa daquilo que Bryan Singer já fazia em “X-Men” (o mero surgimento de um grupo de heróis, afinal). O risco de fracasso, se pararmos para avaliar, era imenso.
Mas, a Marvel surpreendeu meio mundo demonstrando aquilo que, como estúdio, ela sempre demonstrou: Bom senso.
Eles chamaram Joss Whedon para roteirizar e dirigir o projeto e, embora à época, o filme mais famoso dele fosse o divertido e despretensioso “Serenity”, Whedon revelou-se a escolha adequada: Seu senso de humor convulsivo na construção narrativa combinava perfeitamente com a proposta da Marvel; seu conhecimento nato dos meandros das histórias em quadrinhos (das quais ele mesmo foi roteirista durante algum tempo) veio a calhar ao juntar inúmeras narrativas vindas dos filmes antecessores, e ele ainda soube ser absolutamente fiel ao material original das HQs, além de construir um filme, propriamente dito, pulsante, empolgante e vibrante por si só.
E ainda fez parecer que era algo simples e fácil de ser feito.
Retomando muito de seu gancho dramático deixado ao filme de “Thor”, descobrimos, já na cena de abertura do filme, que Loki (Tom Hiddleston, ótimo), o deus da trapaça, roubou das sedes secretas da S.H.I.E.L.D. o artefato poderoso conhecido como Tesseract (visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador”).
Como provavelmente ele será usado para criar um portal que possibilite uma invasão alienígena à Terra, o diretor-chefe da S.H.I.E.L.D., Nick Fury (Samuel L. Jackson), dá início ao "Projeto Vingadores", que consiste em reunir num único grupo o gênio e playboy Tony Stark (Robert Downey Jr.), trajando sua poderosa armadura de Homem de Ferro; Steve Rogers (Chris Evans), o super-soldado conhecido como Capitão América; o deus do trovão –e irmão de Loki –Thor (Chris Hemsworth); e o cientista Bruce Banner (Mark Ruffalo), capaz de se transformar na criatura Hulk; além dos agentes, Natasha Romannof, a Viúva negra (Scarlet Johansson) e Clint Barton, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Juntos, esses seres tão distintos e igualmente poderosos formarão um grupo em defesa da humanidade.
O filme que Whedon constrói a partir dessa premissa é um exemplo de como o entretenimento pode ser empregado com maestria, sem que se perca, com isso, a qualidade artística. A um só tempo, espetáculo visual (praticamente metade do filme é uma grande e brilhantemente filmada seqüência de batalha), roteiro equilibrado e afinado (com exceção de um único furo, quando Thor desaparece sem menores explicações em uma cena fundamental), e grande obra de cinema (há pelo menos três grandes cenas específicas que ficam em nossa mente depois do filme), “Os Vingadores” coroou a iniciativa da Marvel Studios em moldar um universo composto por linhas narrativas conectadas, a exemplo do que já existia a quase cinco décadas nos quadrinhos, e entregou ao público a mais satisfatória e extasiante aventura que se pôde saborear no cinema em muito tempo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Thor

A Marvel Studios foi só cuidados quando moldou as versões cinematográficas de seus personagens; um dos mais complicados era certamente Thor, uma vez que ele representava também a introdução de todo um contexto mitológico e fantástico em contraponto à tecnologia que definia a essência do Homem de Ferro, o único personagem até então a ganhar, não um, mas dois filmes.
Foi com muita perspicácia que a Marvel agradou fãs e críticos fazendo a inusitada escolha do ator Kenneth Brannagh para dirigir este filme.
Famoso pela opulência e suntuosidade de suas adaptações de Shakespeare para as telas de cinema (como “Henrique V” e “Hamlet”), Brannagh adotou uma postura um pouco similar em sua abordagem para o mundo fantasioso de Asgard: Havia necessidade de uma percepção teatral, imprescindivelmente artística, para fazer com que um mundo novo (e os personagens que nele habitavam) não soasse fora de contexto.
Filho do todo poderoso Odin (Anthony Hopkins), senhor de Asgard, Thor (Chris Hemsworth, uma ótima escolha), o deus do trovão não se contenta em herdar o trono de seu pai. Ele quer também provar seu valor como guerreiro, no que é encorajado por seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston, sensacional no papel), o deus da trapaça. Suas artimanhas levam Thor a desobedecer Odin e, no atrito entre pai e filho, Thor é exilado no planeta Terra, sem poderes, sem seu martelo, Mjolnir, e sem permissão para retornar a Asgard. Aqui na Terra, entretanto, Thor aprenderá a humildade, o valor da vida, e outras lições (incluindo o amor por uma terráquea, a astrônoma Jane Foster, vivida por Natalie Portman, recém-saída de “Cisne Negro”) que uma vez mais o tornarão digno de seu vasto poder.
É uma adaptação requintada e descontraída de um personagem da Marvel que termina por representar outras facetas do Universo Marvel que, vale lembrar, ainda estava criando corpo naquela época (meados de 2011). Na cronologia de histórias do estúdio, este filme é antecedido por “Homem de Ferro 2” (com o qual a trama se interliga graças à sua cena pós-crédito e ao personagem do Agente Coulson) e sucedido pelo primeiro filme solo do Capitão América –ambos já traziam pistas bastante significativas a respeito da trama do ainda vindouro filme que viria a reunir os Vingadores.

sábado, 9 de julho de 2016

Meia Noite Em Paris

Como toca a todo protagonista de um filme de Woody Allen –e que, a rigor, sabemos tratar-se de uma variação do próprio Woody Allen em si –o jovem escritor interpretado por Owen Wilson, é um personagem que surge, desde sua primeira cena, assolado por suas inseguranças de praxe. Nada do que cerca lhe ajuda: Acompanhado da noiva perdulária (Rachel McAdams) que pouco (ou nada) lhe dá de atenção durante a viagem de férias que fazem em para Paris, ele se vê em companhias fúteis e arrogantes que não lhe agradam.
Apesar de passivo na maior parte do tempo, ele se lança numa de suas solitárias andanças noturnas, e acaba sendo conduzido no tempo, até os anos 1920. Lá, ele cruza-se com folclóricas figuras da arte e da literatura daquele período como Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Scott e Zelda Fitzgerald, Luis Buñuel, Salvador Dali e outros.
Quem lhe chama a atenção porém é uma linda e desconhecida modelo de Picasso, fascinada pelo passado (no caso a "belle epóque"-meados de 1890) por quem ele se apaixona.
Saudado, com mérito, como um dos melhores filmes de Woody Allen dos últimos tempos, esta descontraída e espirituosa comédia consegue reunir, com habilidade, o melhor da verve de seu autor: Estão ali os gatilhos emocionais para todas as neuroses e inseguranças da vida afetiva, como o rival sedutor e superior, e o desdém indiferente das pessoas mais próximas, tudo potencializado com um bom humor que proporciona uma leveza contagiante; há também o inquestionável conhecimento intelectual de Allen acerca das artes, que aqui ele tem a oportunidade de discorrer de uma forma como a muito tempo uma história sua não abria espaço; a encenação ligeira e sucinta, propícia para atores de tino cômico e muita típica de um autor ainda apaixonado pelo teatro.
Todos esses elementos, que Allen manipulou tão bem ao longo de sua carreira, sem jamais deixar de colocá-los como parte significativa de seu personalidade artística, mas ao mesmo tempo sem nunca soar repetitivo, convergem para elaborar uma agridoce e apaixonada reflexão sobre a eterna insatisfação do presente, abrilhantada por um grande elenco que só um diretor do gabarito de Woody Allen, em geral é capaz de reunir: Lá estão, Adrien Broody, Kathy Bates, Michael Sheen, Tom Hiddleston e Lea Seydoux, além do pouco conhecido Corey Stoll, extraordinário como Hemingway. Apesar de não ser reconhecido como grande intérprete, Owen Wilson está entre os atores que melhor captaram os trejeitos de Allen num alter-ego, contudo, quem realmente se destaca é a inebriante Marion Cotillard.

quinta-feira, 17 de março de 2016

A Colina Escarlate

Dizer que Guilhermo Del Toro é um gênio sempre me pareceu precipitado, por mais que eu tenha adorado “A Espinha do Diabo” e “O Labirinto do Fauno”, provavelmente seus melhores trabalhos até então. Parece sempre haver um empecilho em seus filmes, algo que os impede de atingir a excelência.
E isso torna a acontecer em “A Colina Escarlate”, o filme no qual Del Toro homenageia o terror gótico italiano em geral, e o diretor Mario Bava, em particular.
Na trama, ambientada no século XIV, uma jovem aristocrata americana cai de amores por um jovem nobre inglês. Após se casarem, ela muda-se para sua residência, uma mansão decadente localizada em uma colina remota, imersa numa lama vermelha como sangue, onde ele vive com sua taciturna irmã mais velha. A medida que as noites vão se passando, a jovem presencia estranhos e alarmantes acontecimentos enquanto vai elucidando alguns segredos que envolvem os dois irmãos, e que podem significar uma ameaça à sua vida.
Na verdade, Del Toro faz um trabalho todo ele referencial, remetendo aos filmes da produtora inglesa Hammer (especializada nos filmes de terror que fizeram a alegria de sua infância) e, especialmente, à “Queda da Casa de Usher” de Roger Corman, envolvendo tudo isso num acachapante acabamento visual, de tal beleza que chega a oprimir a narrativa. Não obstante, há momentos de relapso, nos quais o realizador se deixa seduzir pelos traquejos de um gênero que ele ama incondicionalmente.

E este é mesmo um problema: Os fantasmas, quando aparecem, vêem tão cheios de detalhes digitais que parecem caprichados demais para causar medo. Some a isso o fato de que a protagonista, Mia Wasikowska, não tem carisma, nem empenho e nem solidez interpretativa para dar conta do recado. Tudo isso, quem tem é Jessica Chastain como a antagonista, o quê acaba criando um desequilíbrio prejudicial na dinâmica entre as personagens.