quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A Isca


 Um conto peculiar de crime urbano perpetrado por Bertrand Tavernier ainda em meados da década de 1990 que, em si, serve como um espelho das tendências pós-modernas do cinema francês de então, “L’Appât” é uma obra que abraça o clima de estranheza que persiste durante boa parte de sua duração – até, pelo menos, ser substituído pela urgência dramática de um mergulho cada vez maior na crueldade humana – certamente, fruto de uma forte inclinação ao improviso que moveu muitas obras europeias.

A começar o filme, temos a personagem vivida por Marie Gillain (vencedora do Kikito de Melhor Atriz no Festival de Gramado 1995), Nathalie, uma jovem que não se furta em tentar ascender socialmente em Paris usando de sua beleza e juventude; ela guarda consigo uma lista de homens proeminentes e abastados que, noite após noite, encontra para flertes que nunca dão em nada. Nathalie – sem muita certeza do que de fato quer – se equilibra entre uma certa permissividade e uma vontade de preservar sua dignidade e não ceder por completo à prostituição.

Contudo, Nathalie mora com um rapaz – ou melhor, com dois! Ela vive no mesmo apartamento que Eric (Olivier Sitruk) e, junto deste, sempre está seu melhor amigo Bruno (Bruno Putzulu) – Eric mora com Nathalie, mas Bruno é tão onipresente na relação que praticamente mora com eles também.

De início não fica muito clara a dinâmica – resultado muito provavelmente do fato de que o roteiro, escrito pelo próprio Bertrando Tavernier, foi sendo concebido aos poucos, à medida que os realizadores foram compreendendo e moldando os personagens (ainda que mais tarde tenham declarado que a trama foi inspirada no ‘Caso Valérie Subra’, um crime muito comentado à época) – mas, a impressão inicial é a de que Eric e Bruno são dois amigos gays (um casal, talvez) que vivem com Nathalie. Ela até mesmo fica nua de maneira desinibida na frente deles, que agem com indiferença. Contudo, logo notamos: Nathalie é, na verdade, namorada de Eric que, aos poucos se mostra mais violento e truculento, diferente do que demonstrava no começo – ainda que ele e Bruno sejam flagrados assistindo “Scarface” de forma quase hipnotizada (um indício, de repente, da predisposição dos personagens).

Alimentando a ambição de ir para os EUA e lá abrir uma boutique – onde acreditam piamente que irão prosperar – Eric e Bruno têm a ideia de levantar capital o mais rápido possível a fim de custear a viagem deles e a de Nathalie: Roubando.

Não demora para que eles percebam, na lista elaborada por Nathalie, uma forma ideal para procurar alvos em potencial. Em teoria, o discurso de Eric faz a ideia parecer bastante simples: Nathalie telefona para uma das vítimas e marca um encontro, de preferência, na residência do dito-cujo. Aproveitando-se de um momento de distração, Nathalie destranca a porta para que Eric e Bruno (devidamente mascarados) possam entrar, fazendo-se passar por assaltantes aleatórios, sem qualquer relação com Nathalie, que fingirá surpresa enquanto eles saqueiam o que houver de mais valioso no local – dinheiro escondido, de preferência.

Entretanto, o plano que eles acreditavam com tanta certeza que funcionaria logo demonstra suas fragilidades. Cada casa, mansão ou residência é diferente – ora têm um alarme que pode acionar a polícia; ora tem algum convidado capaz de aparecer no momento mais inoportuno, ou qualquer outra coisa – oferecendo algum imprevisto aos jovens criminosos.

Quando enfim eles conseguem concluir as invasões planejadas, outro contratempo: Suas vítimas em geral, os homens de meia-idade que ostentavam um padrão de vida elevado aos olhos de Nathalie, não são assim tão ricos – quanto têm dinheiro, têm em contas bancárias somente; ou usufruem de algum patrimônio, não necessariamente possuindo riqueza dentro de casa.

É parte dessa frustração (além do medo de preservar testemunhas de suas ações) que leva Eric e Bruno a adotar cada vez mais violência para com suas vítimas – o que leva à alguns homicídios, trazendo para eles a atenção da polícia.

Nathalie não deixa de notar um beco sem saída surgir diante de si – conforme as mortes se multiplicam sem, no entanto, não acarretar um ganho financeiro de fato, a circunstância vai deixando Eric ainda mais instável, explosivo e perigoso – embora ela siga servindo de isca para as desafortunadas vítimas.

Em algum lugar dessa obra febril, juvenil, cheia de energia e estranheza, o diretor Tavernier consegue ressaltar, como seu tópico mais contundente, a banalização do mal, ancorando essa reflexão na identificação do público com sua protagonista: Embora sua personagem principal seja amoral e egocêntrica, a atriz que a interpreta, Marie Gillain (de “Inferno” e “Caixa Preta”), consegue ser cativante o suficiente para conduzir o filme de ponta a ponta e ainda conquistar algum interesse do expectador.

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