Um conto peculiar de crime urbano perpetrado por Bertrand Tavernier ainda em meados da década de 1990 que, em si, serve como um espelho das tendências pós-modernas do cinema francês de então, “L’Appât” é uma obra que abraça o clima de estranheza que persiste durante boa parte de sua duração – até, pelo menos, ser substituído pela urgência dramática de um mergulho cada vez maior na crueldade humana – certamente, fruto de uma forte inclinação ao improviso que moveu muitas obras europeias.
A começar o filme, temos a personagem vivida
por Marie Gillain (vencedora do Kikito de Melhor Atriz no Festival de Gramado
1995), Nathalie, uma jovem que não se furta em tentar ascender socialmente em
Paris usando de sua beleza e juventude; ela guarda consigo uma lista de homens
proeminentes e abastados que, noite após noite, encontra para flertes que nunca
dão em nada. Nathalie – sem muita certeza do que de fato quer – se equilibra
entre uma certa permissividade e uma vontade de preservar sua dignidade e não
ceder por completo à prostituição.
Contudo, Nathalie mora com um rapaz – ou
melhor, com dois! Ela vive no mesmo apartamento que Eric (Olivier Sitruk) e,
junto deste, sempre está seu melhor amigo Bruno (Bruno Putzulu) – Eric mora com
Nathalie, mas Bruno é tão onipresente na relação que praticamente mora com eles
também.
De início não fica muito clara a dinâmica –
resultado muito provavelmente do fato de que o roteiro, escrito pelo próprio
Bertrando Tavernier, foi sendo concebido aos poucos, à medida que os
realizadores foram compreendendo e moldando os personagens (ainda que mais
tarde tenham declarado que a trama foi inspirada no ‘Caso Valérie Subra’, um
crime muito comentado à época) – mas, a impressão inicial é a de que Eric e
Bruno são dois amigos gays (um casal, talvez) que vivem com Nathalie. Ela até
mesmo fica nua de maneira desinibida na frente deles, que agem com indiferença.
Contudo, logo notamos: Nathalie é, na verdade, namorada de Eric que, aos poucos
se mostra mais violento e truculento, diferente do que demonstrava no começo –
ainda que ele e Bruno sejam flagrados assistindo “Scarface” de forma quase
hipnotizada (um indício, de repente, da predisposição dos personagens).
Alimentando a ambição de ir para os EUA e lá
abrir uma boutique – onde acreditam piamente que irão prosperar – Eric e Bruno
têm a ideia de levantar capital o mais rápido possível a fim de custear a
viagem deles e a de Nathalie: Roubando.
Não demora para que eles percebam, na lista
elaborada por Nathalie, uma forma ideal para procurar alvos em potencial. Em
teoria, o discurso de Eric faz a ideia parecer bastante simples: Nathalie
telefona para uma das vítimas e marca um encontro, de preferência, na
residência do dito-cujo. Aproveitando-se de um momento de distração, Nathalie
destranca a porta para que Eric e Bruno (devidamente mascarados) possam entrar,
fazendo-se passar por assaltantes aleatórios, sem qualquer relação com
Nathalie, que fingirá surpresa enquanto eles saqueiam o que houver de mais
valioso no local – dinheiro escondido, de preferência.
Entretanto, o plano que eles acreditavam com
tanta certeza que funcionaria logo demonstra suas fragilidades. Cada casa,
mansão ou residência é diferente – ora têm um alarme que pode acionar a
polícia; ora tem algum convidado capaz de aparecer no momento mais inoportuno,
ou qualquer outra coisa – oferecendo algum imprevisto aos jovens criminosos.
Quando enfim eles conseguem concluir as
invasões planejadas, outro contratempo: Suas vítimas em geral, os homens de
meia-idade que ostentavam um padrão de vida elevado aos olhos de Nathalie, não
são assim tão ricos – quanto têm dinheiro, têm em contas bancárias somente; ou
usufruem de algum patrimônio, não necessariamente possuindo riqueza dentro de
casa.
É parte dessa frustração (além do medo de
preservar testemunhas de suas ações) que leva Eric e Bruno a adotar cada vez
mais violência para com suas vítimas – o que leva à alguns homicídios, trazendo
para eles a atenção da polícia.
Nathalie não deixa de notar um beco sem saída
surgir diante de si – conforme as mortes se multiplicam sem, no entanto, não
acarretar um ganho financeiro de fato, a circunstância vai deixando Eric ainda
mais instável, explosivo e perigoso – embora ela siga servindo de isca para as
desafortunadas vítimas.

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