Considerado o último grande filme do astro Steve McQueen, “Os Implacáveis”, ou “The Getaway”, foi realizado por Sam Peckinpah um ano após ele entregar uma de suas obras-primas, “Sob O Domínio do Medo”. Em grande medida, pode-se apreender que Peckinpah tece um sutil diálogo entre esses dois trabalhos: Em ambos, há uma apurada observação do diretor sob os efeitos corrosivos que as escolhas eventuais (e justificadas por necessidades muito particulares) podem impor ao relacionamento de um casal. Claro que junto disso, Peckinpah orquestra um tratado de edição simultânea onde a ação do ser humano está em justaposição àquilo que ele pode fazer, aquilo que ele fará e o que poderia ter feito. É um jogo existencial (e certamente cruel) entre convicções, arrependimentos e reviravoltas infelizes. Mas, vocês já entenderão melhor...
Quando começa “The Getaway”, o protagonista de
poucas palavras, Doc McCoy (Steve McQueen, sempre marrento e supino), se
encontra encarcerado numa prisão, e a montagem simultânea, inteligente e
instintiva de Peckinpah almeja, já ali, demonstrar o que se passa no âmago em
ebulição desse personagem inicialmente tão impassível e inabalável. Após quatro
anos e várias tentativas negadas de liberdade condicional, Doc está farto: Ele pede
à esposa, a dedicada Carol (Ali MacGraw, de “Love Story”), que entre em contato
com Jack Beynon (Ben Johnson), um figurão do crime, para que mexa seus
pauzinhos e o tire da prisão –favor que, Doc sabe, terá de pagar com algum
serviço sujo.
As engrenagens desse mundo do crime assim
esboçado por Peckinpah (e roteirizado por Walter Hill, a partir do livro de Jim
Thompson) não tardam a se movimentar: Doc ganha a liberdade e, com isso, deve
encabeçar um pretensioso assalto a banco, de onde haverão de ser roubadas as
reservas financeiras de uma refinaria de petróleo. Os capangas que irão
auxiliá-lo na operação (além da própria Carol) são o jovem e errático Frank (Bo
Hopkins, de “Meu Ódio Será A Sua Herança”) e o cruel e indiferente Rudy (Al
Lettieri, de “Desafiando O Assassino”). Durante o assalto a afobação de Frank
quase põe tudo a perder enquanto Rudy, por sua vez, não deixa de tentar um
previsível ato de traição –terminando alvejado por Doc.
O pior, contudo, é o inesperado: Doc descobre
que Beynon exigiu de Carol favores sexuais para que ele fosse libertado, e com
isso, ela e Beynon tinham um arranjo no qual deixavam Doc para trás na intenção
de ficar com o dinheiro. Na hora da revelação, Carol até se volta contra Beynon
e o mata a tiros, entretanto, já é tarde: A descoberta já minou completamente a
confiança que Doc tinha nela e comprometeu seriamente a possibilidade de
ficarem juntos. Isso será uma sombra agourenta que haverá de pairar sobre o
casal protagonista até o desfecho de “The Getaway”.
Assim sendo, por mais que tenham em seu encalço
o ensandecido Rudy (que, ainda ferido, consegue sequestrar um casal e levar os
dois à conduzi-lo atrás dos personagens principais), e o irmão de Beynon, Cully
(Roy Jenson, de “Ouro É O Que Vale”), todos dispostos a vingarem-se e a ficar
com o dinheiro, esses muitos percalços (e outros tantos que ainda virão) servem
como reflexos do abalo periclitante sofrido pela relação de Doc e Carol. O
protagonista, por sua natureza truculenta, machista e, hoje, certamente
antiquada, não suporta conviver com o fato de que sua esposa deitou-se com
outro homem, e isso haverá de atormentá-lo.
Ainda que imperfeita, a manutenção dos
elementos de “The Getaway” por seu diretor Peckinpah (elementos estes que em
grande medida definem seu cinema) permite enxergarmos o filme como uma grande
alegoria sobre o relacionamento a dois – o casal protagonista composto pela
machão (subitamente confrontado com a ilusão de sua masculinidade infalível) e
a mulher (o indivíduo disposto a se sacrificar, se ferir e sangrar em nome do
casal, mas sem necessariamente levar em conta as convicções do próprio marido)
precisa alcançar o fundo do poço – representado, com mais ênfase, na escapada a
bordo da caçamba de um caminhão de lixo, um ciclo de derrocada e redenção –
para então emergir de lá renovados e reunidos sob essa nova concepção de quem
um é para o outro.

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