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terça-feira, 2 de junho de 2026

Os Implacáveis


 Considerado o último grande filme do astro Steve McQueen, “Os Implacáveis”, ou “The Getaway”, foi realizado por Sam Peckinpah um ano após ele entregar uma de suas obras-primas, “Sob O Domínio do Medo”. Em grande medida, pode-se apreender que Peckinpah tece um sutil diálogo entre esses dois trabalhos: Em ambos, há uma apurada observação do diretor sob os efeitos corrosivos que as escolhas eventuais (e justificadas por necessidades muito particulares) podem impor ao relacionamento de um casal. Claro que junto disso, Peckinpah orquestra um tratado de edição simultânea onde a ação do ser humano está em justaposição àquilo que ele pode fazer, aquilo que ele fará e o que poderia ter feito. É um jogo existencial (e certamente cruel) entre convicções, arrependimentos e reviravoltas infelizes. Mas, vocês já entenderão melhor...

Quando começa “The Getaway”, o protagonista de poucas palavras, Doc McCoy (Steve McQueen, sempre marrento e supino), se encontra encarcerado numa prisão, e a montagem simultânea, inteligente e instintiva de Peckinpah almeja, já ali, demonstrar o que se passa no âmago em ebulição desse personagem inicialmente tão impassível e inabalável. Após quatro anos e várias tentativas negadas de liberdade condicional, Doc está farto: Ele pede à esposa, a dedicada Carol (Ali MacGraw, de “Love Story”), que entre em contato com Jack Beynon (Ben Johnson), um figurão do crime, para que mexa seus pauzinhos e o tire da prisão –favor que, Doc sabe, terá de pagar com algum serviço sujo.

As engrenagens desse mundo do crime assim esboçado por Peckinpah (e roteirizado por Walter Hill, a partir do livro de Jim Thompson) não tardam a se movimentar: Doc ganha a liberdade e, com isso, deve encabeçar um pretensioso assalto a banco, de onde haverão de ser roubadas as reservas financeiras de uma refinaria de petróleo. Os capangas que irão auxiliá-lo na operação (além da própria Carol) são o jovem e errático Frank (Bo Hopkins, de “Meu Ódio Será A Sua Herança”) e o cruel e indiferente Rudy (Al Lettieri, de “Desafiando O Assassino”). Durante o assalto a afobação de Frank quase põe tudo a perder enquanto Rudy, por sua vez, não deixa de tentar um previsível ato de traição –terminando alvejado por Doc.

O pior, contudo, é o inesperado: Doc descobre que Beynon exigiu de Carol favores sexuais para que ele fosse libertado, e com isso, ela e Beynon tinham um arranjo no qual deixavam Doc para trás na intenção de ficar com o dinheiro. Na hora da revelação, Carol até se volta contra Beynon e o mata a tiros, entretanto, já é tarde: A descoberta já minou completamente a confiança que Doc tinha nela e comprometeu seriamente a possibilidade de ficarem juntos. Isso será uma sombra agourenta que haverá de pairar sobre o casal protagonista até o desfecho de “The Getaway”.

Assim sendo, por mais que tenham em seu encalço o ensandecido Rudy (que, ainda ferido, consegue sequestrar um casal e levar os dois à conduzi-lo atrás dos personagens principais), e o irmão de Beynon, Cully (Roy Jenson, de “Ouro É O Que Vale”), todos dispostos a vingarem-se e a ficar com o dinheiro, esses muitos percalços (e outros tantos que ainda virão) servem como reflexos do abalo periclitante sofrido pela relação de Doc e Carol. O protagonista, por sua natureza truculenta, machista e, hoje, certamente antiquada, não suporta conviver com o fato de que sua esposa deitou-se com outro homem, e isso haverá de atormentá-lo.

Ainda que imperfeita, a manutenção dos elementos de “The Getaway” por seu diretor Peckinpah (elementos estes que em grande medida definem seu cinema) permite enxergarmos o filme como uma grande alegoria sobre o relacionamento a dois – o casal protagonista composto pela machão (subitamente confrontado com a ilusão de sua masculinidade infalível) e a mulher (o indivíduo disposto a se sacrificar, se ferir e sangrar em nome do casal, mas sem necessariamente levar em conta as convicções do próprio marido) precisa alcançar o fundo do poço – representado, com mais ênfase, na escapada a bordo da caçamba de um caminhão de lixo, um ciclo de derrocada e redenção – para então emergir de lá renovados e reunidos sob essa nova concepção de quem um é para o outro.

Na década de 1990, “The Getaway” foi refilmado tendo o mesmo roteirista original, Walter Hill, a frente do argumento; aqui  no Brasil saiu com o título “A Fuga”, e foi estrelado por Alec Baldwin e Kim Basinger –tratava-se de uma produção que modernizou muito do enredo criminal esboçado já no livro de Thompson, mas que também agregou elementos do cinema comercial de então –mais sangue, mais violência, mais ação e uma desconcertante pitada de nudez e sexo –resultando numa obra até satisfatória, mais longe de ser memorável como este aqui.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A Última Sessão de Cinema


Já na cena inicial, a câmera percorre com desalento a poeirenta e solitária cidadezinha texana aonde toda trama irá se passar.
Este filme de Peter Bogdanovich (talvez, o melhor que ele já realizou) dedica-se a relacionar a condição imutável de uma cidade longínqua com a mais profunda sensação de desconforto –desse esforço surgiu até mesmo a decisão de filmá-lo em preto & branco drenando das imagens a beleza das cores.
Tão hábil, contudo, é o trabalho de Bogdanovich aqui que seu talento quase depõe contra seu objetivo: “A Última Sessão de Cinema” mostra-se tão incrivelmente envolvente e prazeroso que é preciso atenção para perceber que ele, lá no fundo, ele quer mesmo é incomodar.
O filme acompanha a trajetória de alguns personagens específicos –jovens em sua maioria –enfatizando o fato de que, cada um a sua maneira, eles se sentem presos àquela monotonia que corre o risco de engoli-los.
O jovem Sonny (Timothy Bottoms) houve a toda hora provocações acerca do desempenho lamentável do time escolar no qual joga. Ele não liga para isso, como também não liga para os amigos que encontra no bar de sinuca de Sam (o vencedor do Oscar de Coadjuvante Ben Johnson, formidável) e nem para a atual namorada que ocasionalmente lhe deixa bulinar os seios durante das sessões do cinema local.
Sonny, no entanto, encontra uma espécie de atalho para uma vida sexual mais satisfatória quando começa a se encontrar com Ruth (Cloris Leachman, também vencedora do Oscar de Coadjuvante), a negligenciada esposa do técnico da escola.
Entretanto, se há alguém que mexe com a libido de Sonny –assim como da maioria dos homens da cidade –é a bela Jacy (Cybill Shepherd, uma aparição!) que namora o melhor amigo dele, Duane (Jeff Bridges).
Se, em princípio, Jacy aparenta ter boas intenções ao defender o pobre Duane contra sua mão (Ellen Burstyn), que o rejeita como genro por ser pobre, logo descobrimos que a própria Jacy tem lá sua falta de escrúpulos: Ela engana Duane para ir a uma festa de adolescentes ricos da cidade onde sabe que todos ficarão nus.
Mais tarde, transa com um dos empregados de seu pai e, na seqüência –quando já se entediou de Duane e o deixou de lado –usa de sua beleza e sensualidade para seduzir Sonny apenas porque descobriu que ele estava se envolvendo com a quarentona Ruth.
De situação em situação, de personagem em personagem, acompanhando cada uma de suas angústias, o filme de Bogdanovich se desenvolve de maneira episódica, sublinhando com mais interesse os desdobramentos sexuais que enlaçam os indivíduos uns aos outros e observando com alguma poesia a deterioração acarretada pela amargura.
Tudo o que já não era muito bom se intensifica em sua desolação à medida que a trama avança; como a lamentável derradeira sessão no cinema local –a exibir um filme de John Ford, diretor que Bogdanovich emula com insuspeita devoção –que coincide, também, com a agridoce despedida de Sonny e Duane quando este último parte para lutar na Guerra da Coréia.
Ao capturar essa impressão consternada de um mundo cuja cultura e tradição se vêem no amargo limiar de mudanças irreversíveis (no caso, os anos 1950), Bogdanovich –talvez, não deliberadamente –refletiu o lamento para com as irreprimíveis mudanças que o próprio cinema experimentou naqueles idos de 1970 (quando uma nova geração buscava o pioneirismo rompendo com as formalidades) ao enaltecer aqui todas as características técnicas e artísticas presentes na geração anterior de cineastas, como Howard Hawks e o próprio John Ford.

sábado, 21 de julho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1972


Curioso como os filmes premiados pela Academia no início da década de 1970 refletiam pessimismo, crueza e desilusão.
A despeito de sua maestria, “Operação França”, de William Friedkin, o grande vencedor em 1972, era aquele que melhor ilustrava isso (ele ainda derrotou o inovador e caótico “Laranja Mecânica”, de Kubrick!).
Jane Fonda consagrou-se como Melhor Atriz por um papel denso e pesado no brutal “Klute-O Passado Condena” e ambos os coadjuvantes, Cloris Leachman e Ben Johnson vieram de um dos melhores filmes na competição, o magnífico “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich.

MELHOR FILME
"Operação França"

MELHOR DIREÇÃO
"Operação França", William Friedkin

MELHOR ATRIZ
Jane Fonda, "Klute-O Passado Condena"

MELHOR ATOR
Gene Hackman, "Operação França"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cloris Leachman, "A Última Sessão de Cinema"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ben Johnson, "A Última Sessão de Cinema"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Um Violinista No Telhado"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Jardim dos Finzi-Contini" (Itália)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Se Minha Cama Voasse"

MELHOR FIGURINO
"Nicholas & Alexandra"

MELHOR SOM
"Um Violinista No Telhado"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Nicholas & Alexandra"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Um Violinista No Telhado"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Theme From Shaft", de "Shaft"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Hospital"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Operação França"

MELHOR MONTAGEM
"Operação França"

terça-feira, 3 de julho de 2018

Cherry 2000


De um teor tão desigual que só poderia partir mesmo da década de 1980, esta mescla inusitada, curiosa e claudicante entre ficção científica ao estilo “Mad Max”, romance e drama erótico (!), se beneficia, acima de tudo, pela ótima presença de Melanie Griffith, numa personagem durona que chega a ser quase icônica, embora ela não seja a personagem-título.
Cherry 2000 é na verdade uma andróide que simula todas as características de um ser humano. Melhor: Ela simula todas as características de uma mulher perfeita. Bela, desejável, dócil, acessível e sempre no clima para transar (aspectos que a interpretação impessoal da bela Pámela Gidley parece ressaltar).
No futuro, ela é um produto que os usuários compram como um eletrodoméstico (e hoje, nos tempos politicamente corretos que vivemos, jamais caberia a concepção de uma premissa tão descaradamente machista, sexista e grosseira como a deste filme).
Seu proprietário em questão, Sam (o não muito eficaz David Andrews) se vê tão satisfeito em ter Cherry que sequer cogita relacionar-se com uma mulher de carne e osso. Mas, existem contratempos em apaixonar-se por uma máquina (e não estou falando das questões afetivas e metafísicas levantadas no mais recente e espirituoso “Ela”, de Spike Jonze): Ao molhar seus circuitos, Cherry entra em curto (!), e precisa ser substituída por uma réplica se Sam deseja que sua vida doméstica volte ao conto de fadas que era antes.
O problema é que um corpo andróide que tenha exatamente as mesmas características de sua preciosa Cherry não é tão fácil assim de achar: Sam precisa aventurar-se pela arenosa fronteira em busca das peças ideais e dos contatos certos entre os contrabandistas para não resvalar naqueles que representam perigo mortal (entre eles, um caricato e vilanesco Tim Thomerson, de “Trancers”). Para tanto, ele acaba contando com a ajuda de Edith Johnson (Melanie), uma mulher real habituada com a vida pouco civilizada nas imediações daquela terra sem lei.
O filme que já trazia elementos inesperados mesclados com uma percepção inusitada de humor, ao reunir esse incompatível casal protagonista fica ainda mais curioso: Avançando em ritmo de perseguição ao esboçar um mundo pós-apocalíptico que nunca ganha a mesma textura ou a mesma plausibilidade de um “Mad Max”, “Cherry 2000” se permite intercalar por elementos de comédia romântica (!), as únicas características com as quais relacionar os rompantes de imaturidade –sejam na questão do humor, da atração física ou do suspense –que cercam a relação atribulada entre Sam e Edith.
Prova do quão indiscriminado é esse seu abraço ao gênero, “Cherry 2000” até se permite, na meia hora final, todas as passagens clichês onde o protagonista volta atrás em busca da mulher que sempre amou, mas não sabia; aspectos que fazem dele um descerebrado passatempo dos anos 1980, caracterizado por concessões improváveis, por meio das quais os expectadores podem levar a namorada para assistir.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Meu Ódio Será A Sua Herança

Sam Peckinpah foi um daqueles grandes e incompreendidos cineastas que atreveram-se a usar a luz projetada na tela de cinema para trabalhar angústias e inquietações inerentes a sua própria natureza. Profundamente ligado à um modo de vida mais rústico e rural, ele identificava-se particularmente com as tramas de honra e sacrifício saídas do gênero faroeste. 
Lá, ele concebeu alguns trabalhos de primeira grandeza. Este é, por muitos, tido como o seu melhor. 
Após um violento tiroteio em plena praça pública, um bando de foras-da-lei já vislumbrando uma aposentadoria da vida de tiros e morte, toma o rumo para o México, um tanto divididos por discórdia e desentendimentos. No seu encalço está um veterano xerife, com contas a acertar, inclusive, com o líder do grupo, por quem nutre conflitantes sentimentos de adversidade e camaradagem. 
Este foi o último faroeste do diretor Sam Peckinpah, e para tanto, ele tingiu seus personagens com tintas ambíguas apagando as linhas divisórias entre mocinhos e bandidos, obtendo assim o único tom que julgava adequado ao narrar uma crepuscular história sobre caminhos que chegam ao seu fim. 
No processo, ele encheu esta espécie de requiem com cenas pródigas de violência e sanguinolência, como forma de contrastar o romantismo dos faroestes do passado com a visceralidade realista que só chegando perto do fim, os homens são capazes de entender. A preencher a tela, durante esse ínterim, temos suas magníficas cenas em câmera lenta, onde Peckinpah dissecava os momentos de violência com sua apurada dispersão de tempo, obrigando o expectador a olhar a perversidade dos pequenos detalhes de momentos terríveis que compunham o gênero tão apreciado e idolatrado. 
Uma violência que regurgitava a própria violência. 
Poucos foram os visionários que lograram obter uma forma de arte assim, tão pura no entendimento de seu propósito, tão precisa na incisão cirúrgica de sua discussão: Spielberg em seu “O Resgate do Soldado Ryan”, certamente Stanley Kubrick em seus “Glória Feita de Sangue”, “Laranja Mecânica” e “Nascida Para Matar”, Martin Scorsese, sem sombra de dúvida, com seu “Taxi Driver”, Oliver Stone nos seus bons momentos (leia-se, em “Platoon”, “Salvador-O Martírio de Um Povo” e “Nascido Em 4 de Julho”), e certamente o mestre maior, Akira Kurosawa, com “Ran”, “Os Sete Samurais”, “Trono Manchado de Sangue” e “Kagemusha-A Sombra do Samurai”. 
É portanto, em boa companhia, que Sam Peckinpah e seus faroestes desmistificadores estão.