Mostrando postagens com marcador Cybill Shepard. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cybill Shepard. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A Musa


Embora situado na Costa Oeste americana –mais precisamente em L.A., Hollywood –e, por isso mesmo, uma oportunidade nem um pouco desperdiçada para uma sátira ao mundo do cinema, o humor realizado pelo ator e diretor Albert Brooks, em toda sua verve loquaz e sua observação auto-irônica, está fadado à injusta comparação com a obra de Woody Allen.
É bem verdade que ele não faz nada para ajudar: Numa série do que parecem ser reflexos condicionados, ele escala a si mesmo como protagonista; num personagem que ainda por cima, na reflexão sobre os dilemas da criação lhe é um perfeito alter-ego; cria diálogo intelectualizados em tom de galhofa; e discorre em seu roteiro um sem-fim de incertezas e neuroses acerca do processo criativo e, em última instância, da relação entre homens e mulheres.
Do jeito como está, Albert Brooks parece, portanto, clamar por ser visto como um herdeiro de Woody Allen.
Seu personagem é Steven Phillips, roteirista que acabou de receber um prêmio humanitário pela carreira em Hollywood –prêmio este apresentado por Cybill Sheperd.
Nem tudo, porém são flores: Já na manhã seguinte, Steven descobre o pouco interesse que seu nome desperta nos figurões de Hollywood. Seu último roteiro foi recusado por sua absoluta falta de graça e ele corre o risco de não conseguir mais emprego para sustentar sua mulher (Andie MacDowell) e seus filhos.
Ao procurar por um amigo (Jeff Bridges) para chorar suas pitangas, ele recebe uma sugestão improvável e estranha: Recorrer aos serviços de uma musa (!), uma mulher dotada de capacidades indescritíveis de inspirar outros indivíduos, descendente direta das nove musas da mitologia grega.
Interpretada por Sharon Stone com a exuberância de quem sabe ser a estrela do filme, a musa Sarah Little vai de encontro com o que se imagina dela: Já chega requisitando regalias como um luxuoso quarto de hotel, mordomias de superstar e extravagâncias culinárias dignas dos mais arrojados restaurantes.
Steven, que tem lá suas incredulidades em relação à musa sugerida pelo amigo, tem medo de que realmente sua inspiração não volte, e por isso submete sua predisposição a ser pão duro aos caprichos da musa –o que a leva, da suíte caríssima de hotel, a hospedar-se na casa dele próprio (!). Ironicamente, a presença da musa acaba inspirando a mulher de Steven que, incentivada pelos elogios aos seus biscoitos inicia uma bem-sucedida parceria com o chef de cozinha de um restaurante.
Acertando no gracioso quando mirava no ferino, o filme de Albert Brooks não destila a acidez contra o meio cinematográfico que ele gostaria (as pontas de Rob Reiner, James Cameron e Martin Scorsese são ilustrativas do deboche absolutamente inocente que ele faz), além de tratar a questão da “musa” de modo superficial, embora até guarde uma surpresa um pouco divertida em seu desfecho.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Céu Se Enganou


Existe uma curiosa relação entre esta saborosa produção dos anos 1980, realizada por Emile Ardolino (diretor de “Dirty Dancing-Ritmo Quente” e “Mudança de Hábito”) e um filme bem mais contemporâneo dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), com Nicole Kidman, “Reencarnação”.
O ponto de partida da premissa básica de ambos é o mesmo, guardadas as devidas proporções (enquanto este é uma comédia romântica, o filme de Glazer é, até certo ponto, um suspense dramático levado relativamente a sério): Na trama, uma bela e apaixonada mulher perde seu marido que retorna anos depois reencarnado em alguém mais jovem.
Tudo a mais nos dois filmes acaba sendo diferente –o que pode fazer com que muitos expectadores refutem a comparação, mas outra coisa também os iguala: O desfecho no qual os realizadores abrem mão completamente de fazer um desenlace mais corajoso.
E aqui, esse pequeno lapso é até minimizado porque os realizadores foram hábeis.
Corinne (Cybill Shepperd, abusando de ser linda!) é casada com Louie (Christopher McDonald, de “Thelma & Louise”). Os dois têm em Phillip (Ryan O’ Neal) seu melhor amigo –tanto que ele é sincero, já na primeira cena, em reconhecer para Louie que é apaixonado por Corinne; e isso durante a cerimônia de casamento deles!
Naquele ano de 1963, todos são felizes até que um acidente tira a vida de Louie que vai parar no céu. Lá, seus protestos o fazem parar numa fila para pessoas dispostas a voltar imediatamente à terra, reencarnados em bebês prestes a nascer. Na pressa de reencontrar Corinne, Louie não recebe uma espécie de injeção que drena dele todas as memórias da vida anterior e assim, quando ele nasce no corpo de Alex Finch (Robert Downey Jr., ainda jovem e extraordinariamente promissor), sua vida corre normal até os vinte e três anos, quando conhece a jovem Miranda (Mary Stuart Masterson), e descobre ser ela a filha de Louie, o que lhe traz de volta todas as memórias da vida pregressa, inclusive a lembrança de seu amor avassalador por Corinne.
A junção desse conceito metafísico com os expedientes de comédia romântica nem sempre se mostra perfeita: Em relação à Alex (que, na verdade é Louie), Corinne por exemplo vai de implicante à apaixonada sem trilhar o caminho da sutileza.
Ao nomear como cerne para seu enredo um tema complicado como a reencarnação, o filme de Emile Ardolino se arrisca numa direção à qual não consegue se posicionar. Exatamente como o “Reencarnação” de Jonathan Glazer: Aqui Alex e Corinne não terminam juntos, mas pelo menos os realizadores foram inteligentes ao dar ênfase do início ao fim da narrativa ao personagem de Ryan O’ Neal que, negligenciado durante boa parte do filme, acaba sendo pontual para a escolha mais conciliatória e menos audaz (certamente insatisfatória para alguns expectadores) feita pelo roteiro no final.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A Última Sessão de Cinema


Já na cena inicial, a câmera percorre com desalento a poeirenta e solitária cidadezinha texana aonde toda trama irá se passar.
Este filme de Peter Bogdanovich (talvez, o melhor que ele já realizou) dedica-se a relacionar a condição imutável de uma cidade longínqua com a mais profunda sensação de desconforto –desse esforço surgiu até mesmo a decisão de filmá-lo em preto & branco drenando das imagens a beleza das cores.
Tão hábil, contudo, é o trabalho de Bogdanovich aqui que seu talento quase depõe contra seu objetivo: “A Última Sessão de Cinema” mostra-se tão incrivelmente envolvente e prazeroso que é preciso atenção para perceber que ele, lá no fundo, ele quer mesmo é incomodar.
O filme acompanha a trajetória de alguns personagens específicos –jovens em sua maioria –enfatizando o fato de que, cada um a sua maneira, eles se sentem presos àquela monotonia que corre o risco de engoli-los.
O jovem Sonny (Timothy Bottoms) houve a toda hora provocações acerca do desempenho lamentável do time escolar no qual joga. Ele não liga para isso, como também não liga para os amigos que encontra no bar de sinuca de Sam (o vencedor do Oscar de Coadjuvante Ben Johnson, formidável) e nem para a atual namorada que ocasionalmente lhe deixa bulinar os seios durante das sessões do cinema local.
Sonny, no entanto, encontra uma espécie de atalho para uma vida sexual mais satisfatória quando começa a se encontrar com Ruth (Cloris Leachman, também vencedora do Oscar de Coadjuvante), a negligenciada esposa do técnico da escola.
Entretanto, se há alguém que mexe com a libido de Sonny –assim como da maioria dos homens da cidade –é a bela Jacy (Cybill Shepherd, uma aparição!) que namora o melhor amigo dele, Duane (Jeff Bridges).
Se, em princípio, Jacy aparenta ter boas intenções ao defender o pobre Duane contra sua mão (Ellen Burstyn), que o rejeita como genro por ser pobre, logo descobrimos que a própria Jacy tem lá sua falta de escrúpulos: Ela engana Duane para ir a uma festa de adolescentes ricos da cidade onde sabe que todos ficarão nus.
Mais tarde, transa com um dos empregados de seu pai e, na seqüência –quando já se entediou de Duane e o deixou de lado –usa de sua beleza e sensualidade para seduzir Sonny apenas porque descobriu que ele estava se envolvendo com a quarentona Ruth.
De situação em situação, de personagem em personagem, acompanhando cada uma de suas angústias, o filme de Bogdanovich se desenvolve de maneira episódica, sublinhando com mais interesse os desdobramentos sexuais que enlaçam os indivíduos uns aos outros e observando com alguma poesia a deterioração acarretada pela amargura.
Tudo o que já não era muito bom se intensifica em sua desolação à medida que a trama avança; como a lamentável derradeira sessão no cinema local –a exibir um filme de John Ford, diretor que Bogdanovich emula com insuspeita devoção –que coincide, também, com a agridoce despedida de Sonny e Duane quando este último parte para lutar na Guerra da Coréia.
Ao capturar essa impressão consternada de um mundo cuja cultura e tradição se vêem no amargo limiar de mudanças irreversíveis (no caso, os anos 1950), Bogdanovich –talvez, não deliberadamente –refletiu o lamento para com as irreprimíveis mudanças que o próprio cinema experimentou naqueles idos de 1970 (quando uma nova geração buscava o pioneirismo rompendo com as formalidades) ao enaltecer aqui todas as características técnicas e artísticas presentes na geração anterior de cineastas, como Howard Hawks e o próprio John Ford.

domingo, 31 de julho de 2016

Taxi Driver

   É preciso louvar o pessoal que estava à frente daquele movimento chamado Nova Hollywood. Embora “Taxi Driver” não tivesse sido realizado e lançado naqueles primeiros anos, era óbvio que o grande Martin Scorsese, com seu brilhantismo autoral e inquieto, reunia todos os predicados que eram almejados por aquela galera.
   Vindo de uma espetacular estréia, também ela protagonizada por Robert De Niro, no pulsante “Caminhos Perigosos”, e de experimentações na área do drama contemporâneo, como “Alice Não Mora Mais Aqui”, Scorsese debruçou-se sobre o roteiro afiadamente reflexivo de Paul Schrader, acrescentando à visão niilista e despojada do colega um tratamento audaz e poderoso que não tolerava nada menos que a liberdade total de seus realizadores: Uma definição através da qual o próprio cinema independente norte-americano pode aflorar.
   Travis Birkle (De Niro, fenomenal) é um veterano do Vietnam. Carregando uma série de neuroses herdadas da guerra, ele arruma emprego de taxista noturno nas ruas escuras de Nova York, a fim de contornar sua incapacidade de dormir. Mas os seus problemas de convívio vão se acentuando cada vez mais, ressaltados na relação conflituosa com uma bela auxiliar de campanha política (Cybill Shepard) e na sua curiosidade pela vida sofrida de uma garota de programa menor de idade (uma bem jovem Jodie Foster, já notável).
   Concebido por um autor de tantas obras brilhantes como Scorsese, “Taxi Driver” consegue se destacar em meio à sua exuberante filmografia, como um dos mais hábeis, contundentes e fascinantes retratos já feitos sobre a violenta vida noturna de Nova York e, num nível mais íntimo, sobre a dilaceração psicológica de uma mente torturada, que se espatifa num surto psicopata, culminando assim no primoroso banho de sangue registrado em sua cena final.

domingo, 29 de maio de 2016

Um Amor A Cada Esquina

Houve um tempo (há muito tempo atrás, mais precisamente nos anos 1970, época do movimento da Nova Hollywood) em que o diretor Peter Bogdanovich era uma das grandes promessas do cinema: Filmes assinados por ele, como “Na Mira da Morte”, “A Última Sessão de Cinema” ou “Lua de Papel” eram (e até hoje ainda são) revelações de um talento inquestionável. Cinéfilo inveterado, seus filmes faziam referências e homenagens aos grandes mestres do passado; John Ford, Alfred Hichtcook, Jacques Tourneur e muitos outros.
Nos anos 1980, contudo, o mundo viu essa chama meio que se apagar e Bogdanovich não emplacou mais nenhum grande trabalho. Algo, pensando bem, um pouco parecido com o quê ocorreu, anos depois, com Win Wenders, cuja carreira começou promissora e genial mas afundou-se em filmes pretensiosos e pouco relevantes.
“Um Amor A Cada Esquina” é um dos poucos filmes realizados por Peter Bogdanovich, nos últimos tempos, a aportar nas salas de cinema (a maioria de seus trabalhos tem se concentrado na televisão).
Percebe-se porém que ele nem mudou tanto assim: Há muita perícia em sua encenação, talento na direção de atores e, sobretudo, um amor pelo cinema que pulsa em quase todo as cenas, impondo uma proximidade com as comédias antigas dos anos 1930 (o letreiro inicial e a narração são típicos), com o clássico “Bonequinha de Luxo” , de Blake Edwards, fartamente referenciado, e até mesmo com alguns trabalhos de Woody Allen (embora talvez a referência mais pontual e significativa seja “O Pecado de Cluny Brown”, ao qual o filme paga até um tributo em suas cenas finais).
A atriz principal, com mérito e ênfase, é a inglesa Imogen Poots (que aqui faz um bizarro e estranhamente sedutor sotaque americano), belíssima e competente e que, depois desse filme, torço para que apareça em muitos outros mais: Entre tanta gente muito boa que Bogdanovich colocou em seu filme, ela é quem consegue mais impressionar.
Acompanhamos assim a jornada de uma jovem tentando um lugar ao sol na disputada e impiedosa Nova York (Imogen Poots, maravilhosa e divertida ao narrar com espirituosidade sua própria história). Ela precisa de início trabalhar como garota de programa, e dessa forma acaba conhecendo o diretor de teatro interpretado por Owen Wilson (e suas cenas cômicas, às voltas com situações constrangedoras, emulam com perfeição os filmes de Woody Allen). Acontece que, logo depois, ela resolve fazer um teste para a mesma peça que ele está dirigindo. Ela é contratada como atriz principal, mas, como a esposa dele (Kathryn Hahn) também faz parte do elenco, as confusões estão só começando.
Outros qüiproquós: Um velho juiz, cliente obcecado pela moça, à persegue o tempo todo, chegando a contratar um veterano detetive particular. Esse detetive vem a ser pai do dramaturgo autor da peça (Will Forte), ele cai de amores pela jovem que tenta ocultar sua profissão de todos. O juiz e a garota de programa, sem saber, freqüentam a mesma e temperamental terapeuta (Jennifer Anniston) que, por sua vez, é namorada do dramaturgo (!).
Uma ciranda de coincidências e confusões nem sempre harmoniosa, mas que diz muito sobre o tipo de cinema pelo qual Peter Bogdanovich é interessado.
Gostar ou não de seu filme depende muito de comprar sua idéia e ignorar alguns excessos que perturbam ocasionalmente a narrativa, mas é uma tarefa muito fácil quando ele coloca em cena uma jovem tão linda e hipnótica quanto Imogen Poots.