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quarta-feira, 10 de junho de 2026

1975 - O Ano do Colapso


 Narrado por Jodie Foster, este documentário produzido pela Netflix e dirigido por Morgan Nevile observa os acontecimentos de ordem social, política e existencial que cercaram os EUA naquele ano específico colocando em pauta os reflexos dessas mudanças nos filmes lançados em cinema na época, e até algumas séries que passaram na TV.

A verdade é que 1975 foi um ano no qual convergiram diversos tópicos que a América vinha enfrentando e que, naqueles anos, mudaram radicalmente a sociedade; nunca transformações de valores e de comportamentos se sucederam num período tão curto de tempo – e isso tudo refletiu-se num período de turbulência, onde o povo norte-americano se viu tão perdido quanto desiludido.

E, à sua maneira, tudo isso se refletiu no cinema.

Se havia um ator que parecia encapsular a efervescência desses novos tempos, esse ator era Jack Nicholson. Revelado anos antes em “Sem Destino” – um dos tantos filmes que contribuiu para uma nova visão dos EUA – Nicholson, logo alçado à condição de astro, se encontrava presente em três obras ressonantes para o público e a crítica: O inconformista “A Última Missão” (cujas características representavam bem a postura questionadora da Nova Hollywood de então), o fenomenal “Chinatown” (que, embora fosse um neo-noir passado nos anos 1950, ostentava uma melancolia emblemática na qual as plateias identificavam as tramas arrojadas de então, onde a justiça não era capaz de prevalecer sobre certas facetas da vilania) e o brilhante “Um  Estranho No Ninho” (uma audaz produção que mostrava um abusador confinado num manicômio e encontrando todo o tipo de aborrecimento ao tentar colidir com as regras vigentes; por sinal, o filme premiado com o Oscar no início do ano seguinte).

Os EUA estavam ainda a processar os traumas do Escândalo de Watergate e da Guerra do Vietnam. Do primeiro, surgiu o magnífico “Todos Os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, no qual os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein (Robert Redford e Dustin Hoffman) desmascaravam as tramoias do presidente Richard Nixon – as paranoias e o medo de confiar em demasia nas instituições haviam contaminado o cidadão norte-americano e isso era mostrado em filmes como “Três Dias do Condor”, de Sydney Pollack (também com participação de Redford) e no formidável “A Conversação”, de Francis Ford Coppola.

Já o trauma do Vietman ainda demoraria para começar a render produções de cinema: O primeiro filme sobre o Vietnam, “Os Boinas-Verdes”, de 1968, com John Wayne, havia sido execrado pela opinião pública por sua iludida e irreal postura pró-governo. No entanto, falava-se sobre o Vietnam (ainda que alegoricamente) em obras como “M.A.S.H.”, a série de TV baseada no filme de 1970 (cujo roteiro disfarçava com uma nada convincente ambientação na Guerra da Coréia), e no pungente “Taxi Driver”, de Martin Scorsese (nele, Travis Birckle, um ex-combatente do Vietnam, é um indivíduo cujas neuroses se acumulam e culminam na violenta busca por redenção simbolizada na personagem de uma ainda jovem Jodie Foster e na catarse sangrenta que termina sendo sua cena final).

O presidente norte-americano que ocupou o lugar deixado por Nixon, Gerard Ford, não revelou-se alguém capaz de corresponder aos anseios norte-americanos, abrindo assim as portas para a ascensão da campanha do republicano Ronald Reagan, que não surtiu efeito imediato nas eleições do ano seguinte, mas resultou em sua candidatura nos anos 1980.

Muitos ideais atingiram um ápice de desilusão crônica: A luta pelos direitos civis que, pelo menos na cultura pop levou aos filmes da blaxploitation e ao estrelado do indomável comediante Richard Pryor, encontrava seus extertores em comentários carregados de certo cinismo na série de TV “Família Às Avessas” –logo depois, a mesma TV começou a investir na nostalgia com a série “Dias Felizes”, uma prática que dentro em breve, chegaria ao cinema. Este, ainda buscava a relevância das novas configurações sociais e familiares, como é o caso de “Alice Não Mora Mais Aqui”, um emblemático estudo da situação da mulher naqueles novos tempos, dirigido também por Martin Scorsese, que do alto de seus oitenta e poucos anos aparece prestando seus depoimentos.

Até mesmo a ficção científica trazia um registro futurista visando comentar o presente: O estranho suspense “Mulheres Perfeitas” que logo dá espaço para um pesadelo tecnológico onde as mulheres eram substituídas por seres automatizados.

Houve em 1975, a audácia narrativa de “Nashville” (um mergulho numa América fragmentada e perdida), a onda dos filmes-catástrofes “Inferno Na Torre” e “O Destino do Poseidon” (reflexos de um pavor recorrente onde o americano médio não sentia-se mais seguro), o magistral e contundente “Rede de Intrigas” (uma observação demolidora e honesta de toda a indignação do público) e o pulsante “Um Dia de Cão” (sobre um sequestro num assalto à banco que expunha as inversões de valores acarretadas por insatisfação política e causas sociais falidas).

Mas, como foi dito, tudo estava para mudar. Em 1976, os cinemas receberiam o filme “Rocky-Um Lutador”, uma obra comercial na contramão de toda aquela crítica social traduzida em desilusão que, em vez disso, oferecia uma catarse ao público (ao qual Scorsese e outros críticos se opunham com veemência) e ainda naquele período o cinema veria um sucesso sem precedentes na forma do seminal “Tubarão” de Steven Spielberg, a obra inaugural do fenômeno que depois passou a ser conhecido como blockbuster, e que teria, em 1977, sua pedra fundamental com a estréia avassaladora de “Star Wars”.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2024


 Mal nos acostumamos com a ideia de que o frenesi de 2023 entrou em sua reta final, e já temos entre nós a lista dos indicados ao Globo de Ouro do ano que vem! O que já confirma algumas previsões para uma certa estatueta dourada; e aponta para algumas surpresas também. Eis, portanto, os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

Elementos

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Suzume

Wish

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Folhas de Outono (Finlândia)

Io Capitano (Itália)

Vidas Passadas (Estados Unidos)

Society of the Snow (Espanha)

Zona de Interesse (Reino Unido/Estados Unidos)

MELHOR FILME DE DRAMA

Anatomia de Uma Queda

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Zona de Interesse

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Air

American Fiction

Barbie

The Holdovers

Segredos de um Escândalo

Pobres Criaturas

A categoria de animação tem, em “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, seu maior favorito, com a boa repercussão de “Super Mario Bros” e o fascínio recente provocado por “Suzume” colocando-os logo atrás. Na categoria dos estrangeiros, curiosamente, dois filmes produzidos (e, portanto, representando) os EUA concorrem a Melhor Filme em Língua Não Inglesa, tratam-se de “Vidas Passadas”, produzido pela A4 e falado, em sua maior parte no idioma sul-coreano, e o britânico “Zona de Interesse”, dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), cuja trama é toda falada em alemão. Além disso, esses dois e mais o francês “Anatomia de Uma Queda” concorrem também na categoria maior de Melhor Filme de Drama. Contudo, nessas categorias principais, apesar da presença intimidadora da grande obra de Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores”, quem reina supremo são “Oppenheimer” (em Drama, com 8 indicações) e “Barbie” (em Comédia e Musical, com 9, o recordista!), mostrando que a dobradinha nos cinemas ocorrida no meio do ano ainda está a fascinar público e crítica. Interessante será vermos para qual deles a predileção do Oscar irá pender, uma que vez que lá os filmes concorrerão todos numa só categoria.

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Bradley Cooper (Maestro)

Leonardo DiCaprio (Assassinos da Lua das Flores)

Colman Domingo (Rustin)

Barry Keoghan (Saltburn)

Cillian Murphy (Oppenheimer)

Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Annette Bening (NYAD)

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)

Greta Lee (Vidas Passadas)

Carey Mulligan (Maestro)

Cailee Spaeny (Priscilla)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Nicolas Cage (Dream Scenario)

Timothée Chalamet (Wonka)

Matt Damon (Air)

Paul Giamatti (The Holdovers)

Joaquin Phoenix (Beau Tem Medo)

Jeffrey Wright (American Fiction)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Fantasia Barrino (A Cor Púrpura)

Jennifer Lawrence (Que Horas Eu Te Pego?)

Natalie Portman (Segredos de um Escândalo)

Alma Pöysti (Folhas de Outono)

Margot Robbie (Barbie)

Emma Stone (Pobres Criaturas)

Entre os atores, até agora ninguém parece mais relacionado ao prêmio do que o irlandês Cillian Murphy, embora Cooper e Dicaprio tenham chances de crescer ao longo da temporada. Na categoria de intérprete cômico, em meio à nomes de grande estatura como o sempre amado pelo público Nicolas Cage, o ótimo Timothée Chalamet e os sempre competentes Paul Giamatti e Matt Damon, além de Joaquim Phoenix, surpreendentemente indicado pelo terror “Beau Tem Medo” (há quem lamente ele não concorrer em Ator Dramático por “Napoleão”, eu certamente não sou uma dessas pessoas), o favoritismo acabou indo para Jeffrey Wright por seu trabalho em “American Fiction”, premiado no Festival de Toronto e, recentemente, no People’s Choice Awards.

Entre as atrizes, muitos torcem por uma vitória da excelente Lily Gladstone na categoria de drama, ela que é uma das forças maiores do filme de Scorsese, a despeito da forte concorrência de Annette Bening; na categoria de comédia, podemos perceber que Jennifer Lawrence, nem fazendo uma comédia chula e vulgar consegue perder a predileção do público e da crítica (embora o seu filme também seja realmente bom), mas ela tem de enfrentar a franca favorita ao prêmio, Margot Robbie, a Barbie em pessoa!

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe (Pobres Criaturas)

Robert de Niro (Assassinos da Lua das Flores)

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

Ryan Gosling (Barbie)

Charles Melton (Segredos de um Escândalo)

Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt (Oppenheimer)

Danielle Brooks (A Cor Púrpura)

Jodie Foster (NYAD)

Julianne Moore (Segredos de um Escândalo)

Rosamund Pike (Saltburn)

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

MELHOR DIREÇÃO

Bradley Cooper (Maestro)

Greta Gerwig (Barbie)

Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

MELHOR ROTEIRO

Greta Gerwig & Noah Baumbach (Barbie)

Tony McNamara (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Eric Roth & Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

Seria esta a grande chance de Robert Downey Jr. (inclusive para chegar ao Oscar como forte favorito)? É o que, até aqui, está parecendo. Entre as coadjuvantes mulheres, Jodie Foster parece destacar-se soberana, entretanto, os trabalhos de Julianne Moore e Da’Vine Joy Randolph (de “Cidade Perdida”) têm tempo para crescerem até a premiação.

Na categoria de diretores, temos a disputa que parece monopolizar as atenções entre Christopher Nolan e Greta Gerwig (com ligeira vantagem para Nolan em vista da natureza mais séria de seu filme), com Martin Scorsese correndo, por enquanto, por fora. É de se supor que a Imprensa Estrangeira compense, entre Nolan e Gerwig, aquele que perder em Direção com o prêmio de Roteiro.

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Jerskin Fendrix (Pobres Criaturas)

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

Joe Hisaishi (The Boy and The Heron)

Mica Levi (Zona de Interesse)

Daniel Pemberton (Homem-Aranha Através do Aranhaverso)

Robbie Robertson (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Addicted to Romance, Bruce Springsteen (She Came to Me)

"Dance the Night", Mark Ronson, Andrew Wyatt, Dua Lipa, Caroline Ailin (Barbie)

"I'm Just Ken", Mark Ronson, Andrew Wyatt (Barbie)

"Peaches", Jack Black, Aaron Horvath, Michael Jelenic, Eric Osmond, John Spiker (Super Mario Bros)

"Road to Freedom", Lenny Kravitz (Rustin)

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Guardiões da Galáxia Vol. 3

John Wick 4

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1

Oppenheimer

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Taylor Swift: The Eras Tour

A categoria Conquista Cinematográfica e de Bilheteria é uma das duas novas categorias criadas pelo Globo de Ouro para esta nova edição –e franca favorita para deixar de existir já no ano que vem... –aparentemente feita para premiar o desempenho na bilheteria de projetos que levam o público às salas nesses tempos de streaming (o que justifica a presença, entre os indicados, do show de Taylor Swift). Nesse sentido, nenhum deles merece mais a ovação do que “Barbie”, a grande bilheteria de 2023.

A entrega dos prêmios e revelação dos ganhadores será realizada no domingo, dia 7 de janeiro de 2024.

domingo, 17 de maio de 2020

O Quarto do Pânico

Já dizia Alfred Hitchcock: “Depois de uma obra-prima, faça um filminho encantador.”
Seguindo essa orientação existencial, o diretor David Fincher, após abalar os alicerces do cinema hollywoodiano com “Clube da Luta” engatou uma marcha mais comercial e moderada e trouxe este “O Quarto do Pânico”, despido das mesmas intenções revolucionárias de sua obra cult e mais definido por orientações convencionais –o que não significa que, nas mãos de um grande artesão como Fincher, isso não tenha rendido um ótimo filme.
Divorciada do marido rico, a nova-iorquina Meg Altman (Jodie Foster, instigando a plateia com a união da atriz de “O Silêncio dos Inocentes” e o diretor de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) não tem outra coisa a fazer senão usufruir da gorda pensão que recebeu junto da filha adolescente Sarah (Kristen Stewart, antes do estrelato por “Crepúsculo”).
Alugam assim, um belo apartamento com três andares nas redondezas do Central Park –e prodigioso em sua direção de arte como só no cinema algumas moradias são capazes de ser!
O imóvel tem uma peculiaridade: Vem com um cômodo especial denominado ‘quarto do pânico’, um luxo proporcionado por ricaços paranóicos que constroem uma divisão em seus quartos, blindada de aço, repleta de monitores que registram o movimento em todos os cômodos da casa e, em caso de invasão, uma pequena fortaleza inexpugnável.
Na primeira noite na casa nova, Meg e Sarah vão precisar desse recurso: Tendo a residência invadida por três indivíduos aparentemente desesperados –o relativamente sensato Burnham (o fabuloso Forest Whitaker), o errático e instável Júnior (Jared Leto, antes do Oscar por “Clube de Compras Dallas” e do Coringa de “Esquadrão Suicida”) e o potencialmente perigoso Raoul (o cantor-country Dwight Yoakam) –as duas se refugiam no ‘quarto do pânico’ a fim de proteger-se. O problema: Os três estão à procura de uma fortuna deixada lá pelo morador anterior, e tal fortuna está escondida justamente dentro do ‘quarto do pânico’!
Com essa premissa extremamente básica e sucinta (a cargo do roteirista David Koepp, um especialista em premissa básicas e sucintas), o diretor Fincher dá o seu melhor (o que jamais foi pouco!) na condução narrativa: Ele constrói tomadas de câmeras formidáveis que exploram ângulos e movimentações dos mais improváveis ao longo de toda a geografia do apartamento (a rigor, o único cenário do filme), e impõe ritmos e atmosferas palpitantes conforme as circunstâncias de mãe e filha confinadas no quarto vão se acirrando –as horas passam enquanto as protagonistas se defrontam com situações que visam escapar da armadilha em que estão, enquanto os antagonistas lançam mão de novas maneiras de ludibriá-las.
Passa longe de ser um argumento original e Fincher sabe disso: Para contrabalancear a previsibilidade escapista do roteiro, ele enxuga todo e qualquer tempo morto no frenesi de seu pequeno conto de acuamento urbano e valoriza a ambiguidade no personagem de Whitaker; um ladrão de bom coração, preocupado com a segurança de suas potenciais vítimas, mas disposto a ir até o fim para livrar-se de  suas insatisfações proletárias.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Um Novo Despertar


Consagradíssima vencedora de dois Oscar de Melhor Atriz (por “Acusados” e por “O Silêncio dos Inocentes”), a atriz Jodie Foster já experimentou em algumas ocasiões a função de diretora –com o ótimo drama “Mentes Que Brilham”, a comédia “Feriado Em Família” e com este filme aqui, onde administra muito bem os elementos dramáticos, cômicos e absurdos da trama dando-lhe equilíbrio e delicadeza.
Outro nome a ser citado é o do astro Mel Gibson –que então passava por uma fase turbulenta na carreira devido à alguns escândalos; amigos desde os tempo em que dividiram a cena em “Maverick”, Jodie e Mel se reencontram neste filme (inclusive em cena, já que interpretam marido e mulher) que aborda com um sabor de drama familiar uma neurose que progride para um esboço de loucura.
Profundamente afetado pela depressão, o empresário Walter Black (Mel Gibson) abandona a casa, esposa e filhos para morar num motel onde, em desespero, tenta o suicídio.
Após fracassar, um fantoche de castor assume uma persona que o confronta e o incentiva a encarar sua vida (!).
Walter retorna ao lar e ao convívio com a família, sempre "representado" pela persona do castor, que aos poucos passa a controlar toda a sua vida, inclusive no âmbito profissional.
Realizado com a delicadeza habitual de atores que se arriscam na direção –e que por isso enfatizam as sutilezas da atuação –o filme de Jodie Foster, no entanto, abre mão da graciosidade que parece se ensaiar em sua primeira parte, optando por um desfecho de ordem mais realista. Responsável direto pelo equilíbrio que a narrativa conquista entre esses dois pólos quase extremos, Mel Gibson sai-se muito bem num papel bastante complexo de homem comum incitado pelo desprendimento de um fantoche (que, diga-se, ele mesmo interpreta), um trabalho que, se fosse feito por um ator menos visado do que ele, certamente teria rendido uma indicação ao Oscar.
P/S: Chega a ser estranho ver Jennifer Lawrence, hoje tão estrela, num papel de coadjuvante vivendo a namoradinha do filho do protagonista, vivido pelo saudoso Anton Yelchin.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Deus da Carnificina


É notável o fôlego para com este teatro filmado que demonstra o veterano Roman Polanski.
Sua proposta não poderia ser mais árida e ele não tenta convencer o público do contrário: A primeira e a última cena (ambas captadas do mesmo enquadramento) serão a únicas tomadas externas do filme.
Tudo o mais se desenvolverá dentro de uma apartamento de Nova York onde se reúnem dois casais de aspectos respeitável e amigável.
Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster) são os moradores, e são também os pais do menino que aparece sendo atingido no rosto na primeira cena. Eles recebem em sua residência, Alan e Nancy Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet), pais do garoto que cometeu a agressão.
Mestre do desconforto, Polanski já evidencia ali, no engatilhar da cena, que todos querem seguir seus devidos caminhos; os visitantes ensaiam sua saída, os moradores iniciam seus protocolos de despedida.
Todavia, como numa variação mais realista (porém, igualmente absurdista) de Buñuel em “O Anjo Exterminador”, toda a vez que Nancy e Alan parecem conseguir uma brecha para sair porta afora ocorre um incidente ou uma situação que os obriga a ficar um pouco mais –pequenos detalhes de civilização que nos atrelam à circunstâncias desagradáveis, como uma ligação no celular que ocupa a atenção de uma das pessoas (e leva as demais a ficar em suspense); um tópico da conversa que surge inesperadamente e leva a discussão por outro caminho; uma menção inesperada a um café (ou a um bolo, ou a um copo de uísque).
Incapazes de se desvencilhar dessa situação, os quatro personagens tão forçosamente adultos, responsáveis e educados vão aos poucos abandonando suas bases de civilização a medida que a encenação primorosa de Polanski os confronta com impressões primitivas de fato como a perda, o repúdio, o asco e o ultraje.
Uma amostra de como são frágeis os indicativos de civilização do ser humano, concebida por Polanski com uma curiosa proximidade temática e estilística com Michael Haneke: Tanto a cena do prólogo e do epílogo fazem lembrar o trabalho magnífico de composição de quadros em movimento que o mestre austríaco realizou em “Caché”, assim como a natureza do enredo embutido nesse debate tem muito a ver com obras como “A Fita Branca” ou “O Video de Benny”.
O resultado, embora inacessível para boa parte do público, prima pelo notável uso que Polanski faz do humor negro em suas mais profundas considerações.

sábado, 17 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1989

Curioso o fato de que, na última cerimônia realizada na década de 1980, o grande vencedor (o drama sobre autismo “RainMan”) tenha sido o menos festejado dos indicados; também pudera, concorrendo com obras esplêndidas como “Mississipi em Chamas” (na opinião de muitos especialistas, o filme que deveria ter sido premiado), “O Turista Acidental”, “Uma Secretária de Futuro” e “Ligações Perigosas”, essa conclusão era inevitável.
Que o diga Steven Spielberg, cujo roteiro de “Rain Man” –também ele premiado –ele recusou-se a dirigir.
Por esse filme, aliás, Dustin Hoffman levou seu segundo Oscar de Melhor Ator (sob alegações, de novo, de que o prêmio deveria ter ficado com Gene Hackman, por “Mississipi...”), enquanto que Jodie Foster, por “Acusados”, arrebatou o prêmio das mãos de pelo menos duas concorrentes de peso: As sensacionais Melanie Griffith (por “Uma Secretária de Futuro”) e Sigourney Weaver (por “Nas Montanhas dos Gorilas”).
Entre os coadjuvantes, Kevin Kline levou a única estatueta conferida ao ótimo “Um Peixe Chamado Wanda” e Geena Davis, mais que merecida por “O Turista Acidental”, superou os bons trabalhos de Sigourney Weaver –indicada em duas categorias num mesmo ano! –e Joan Cusack, as duas concorrendo por “Uma Secretária de Futuro”.
A despeito disso tudo, o filme mais inovador do ano, a fusão primorosa entre live-action e animação chamada “Uma Cilada ParaRoger Rabbit” reinou nas categorias técnicas.

MELHOR FILME
"Rain Man"

MELHOR DIREÇÃO
"Rain Man", Barry Levinson

MELHOR ATRIZ
Jodie Foster, "Acusados"

MELHOR ATOR
Dustin Hoffman, "Rain Man"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Geena Davis, "O Turista Acidental"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kevin Kline, "Um Peixe Chamado Wanda"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Mississipi em Chamas"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Pelle-O Conquistador" (Dinamarca)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Uma Cilada Para Roger Rabbit"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Uma Cilada Para Roger Rabbit"

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"Ligações Perigosas"

MELHOR SOM
"Bird"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Rebelião em Milagro"

MELHOR TRILHA SONORA
“Rebelião em Milagro"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Let The River Run", de "Uma Secretária de Futuro"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Rain Man"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Ligações Perigosas"

MELHOR MONTAGEM
"Uma Cilada Para Roger Rabbit"

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1992

Entre inovações louváveis como o primeiro desenho em longa-metragem indicado ao Oscar de Melhor Filme –no caso, o magistral “A Bela e A Fera”, dos Estúdios Disney –e um filme pioneiro de um movimento de empoderamento feminino que só seria adotado de fato décadas depois –o ótimo “Thelma & Louise” –a Academia reconheceu o quê de fato era o melhor filme dentre todos os indicados em qualquer uma das categorias: A indiscutível obra-prima “O Silêncio dos Inocentes”, concedendo a ele a honraria de ganhar os cinco Oscar principais (Jodie Foster levou o de Melhor Atriz naquela que devia ser a mais disputada de todas as categorias e Anthony Hopkins, com sua atuação antológica, tirou o favoritismo de Nick Nolte por “OPríncipe das Marés”), feito conquistado até então por apenas dois grandes filmes, “Um Estranho No Ninho”, em 1976, e “Aconteceu Naquela Noite”, em 1935.
Filmes como “Bugsy” ou “JFK-A Pergunta Que NãoQuer Calar” que chegaram ostentando certa predileção tiveram de se contentar com alguns prêmios técnicos, se bem que, nesse quesito, quem reinou foi “OExterminador do Futuro 2”, de James Cameron, ganhador de quatro estatuetas.

MELHOR FILME
"O Silêncio dos Inocentes"

MELHOR DIREÇÃO
"O Silêncio dos Inocentes", Jonathan Demme

MELHOR ATRIZ
Jodie Foster, "O Silêncio dos Inocentes"

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins, "O Silêncio dos Inocentes"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mercedes Ruehl, "O Pescador de Ilusões"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jack Palance, "Amigos, Sempre Amigos"

MELHOR FOTOGRAFIA
"JFK-A Pergunta Que Não Quer Calar"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"In The Shadows of The Stars"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Deadly Deception-General Eletric, Nuclear Weapons and Our Environment"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Mediterrâneo" (Itália)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"O Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"O Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final"

MELHOR FIGURINO
"Bugsy"

MELHOR SOM
"O Exterminador do Futuro 2-O Julgamento Final"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Bugsy"

MELHOR TRILHA SONORA
“A Bela e A Fera"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Beauty and The Beast", de "A Bela e A Fera"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Thelma & Louise"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Silêncio dos Inocentes"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Manipulation"

MELHOR MONTAGEM
"JFK-A Pergunta Que Não Quer Calar"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Session Man”

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Maverick

A primeira cena já é calibrada a perfeição para capturar o interesse do expectador: Brett Maverick (Mel Gibson, incrivelmente carismático) está amarrado sob um cavalo, o pescoço preso à forca de uma árvore e o animal na iminência de uma disparada em razão das cobras que foram atiradas ao chão.
Com o protagonista nessa tremenda encrenca, o filme realiza seu providencial flashback, por meio do qual tratará de revelar à platéia como ele foi parar lá.
Lances inspirados de roteiro não poderiam mesmo faltar à esta adaptação cinematográfica de uma famosa série de TV, uma vez que escalado para escrevê-la está o renomado William Goldman, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro justamente por “Butch Cassidy” –a manobra, contudo, soa mais como uma forma de atrair interessados num faroeste novamente roteirizado por Goldman do que um plano para agregar qualidade de fato ao projeto: Há realmente bons momentos, no entanto, eles convivem com seqüências que beiram o constrangedor na falta de graça de algumas piadas, ou no excesso de frases feitas que poluem os diálogos.
Jogador de pôquer, pistoleiro e ocasional fora-da-lei, Brett Maverick tem um plano com o qual deseja lucrar o suficiente para um bom período de descanso da vida atribulada de golpista: Vencer um campeonato disputadíssimo de pôquer cujo ingresso custa 25 mil dólares –uma fortuna nos tempos do Velho Oeste!
Efetivamente, cruzam-se em seu caminho, no decurso de tumultuadas aventuras, a charmosa falsária Annabelle (Jodie Foster, numa inusitada personagem que exige mais de suas habilidades cômicas, além de ostentar insuspeita sensualidade) e o xerife intransigente Zane Cooper (James Garner, veterano intérprete do Maverick televisivo), bem como o carrancudo pistoleiro Angel (Alfred Molina).
Todos exemplos do tratamento irônico que o filme espertamente dá à alguns ícones do faroeste: Um dos trechos mais engraçados é o encontro de Maverick com o chefe indígena Joseph, velho companheiro de falcatruas tão cheio de lábia interpretado por Graham Greene, de “Dança Com Lobos”, que nem seu velho amigo escapa de sua malandragem.
Conseqüência de uma série de tendências do cinema norte-americano dos anos 1990 de então (uma tentativa de restabelecer o faroeste após a consagração de “Os Imperdoáveis”; uma nova série de TV ganhando as telas de cinema após o sucesso de “O Fugitivo”; e uma nova parceria do diretor Richard Donner e do astro Mel Gibson após “Máquina Mortífera”) “Maverick” vai, pelo menos, na contramão dos exemplares densos e dramáticos dos novos faroestes que foram produzidos no período, como “Wyatt Earp”, ostentando uma descontração e uma diversão que remetem ainda mais à “Butch Cassidy” –e o roteirista Goldman, deveras não resiste à tentação de introduzir, numa cena, uma referência ao clássico passeio de bicicleta daquele filme.
Se no final das contas, “Maverick” oscila entre seqüências divertidas e outras insatisfatórias (sobretudo, perto do fim quando sua duração começa a se revelar excessiva), ele tem em contrapartida o mérito de ficar na memória como um bom e bem-humorado entretenimento.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Contato

“Vocês humanos são uma espécie interessante, uma mistura incomum; são capazes de sonhos tão lindos e de pesadelos tão horríveis.”
A cena que abre “Contato” já é arrebatadora: A câmera sai do planeta Terra enquanto podemos ouvir música e, logo mais, transmissões radiofônicas envolvendo fatos do século XX. A medida que essas transmissões se convertem em ruídos (e, por fim, em silêncio), vamos deixando para trás todo o Sistema Solar, depois toda a Via Lactea e finalmente o Universo, para então a câmera sair de dentro da pupila de Jena Malone que interpreta, na infância, a personagem que será de Jodie Foster durante todo o restante do filme.
Ela é Ellie Arroway, cujo fascínio pelas estrelas –e pela possibilidade de vida inteligente em meio a elas –a levou a tornar-se astrônoma na vida adulta. Em prol dessa ideologia, Ellie sacrificou até mesmo sua ambição profissional, que ela sempre disputou com o prepotente David Drumlin (Tom Skerrit): Ela não apenas negligencia seu romance com o teólogo Palmer Ross (Matthew McConaughey), que depois de torna conselheiro espiritual na Casabranca, como termina monitorando sons captados no espaço em uma base de gigantescas antenas no México.
Tudo muda, contudo, na noite em que ela capta sinais de vida inteligente vindos de algum lugar da estrela Veja –são informações numéricas, cifradas e que, mais tarde, revelarão também como construir uma nave a ser ocupada por um único ser humano.
A situação levanta questionamentos de ordem mundial e, sobretudo, cria uma disputa para se encontrar a pessoa ideal a representar a Humanidade, e entre seus candidatos estão Ellie e Drumlin.
Adaptado de um livro escrito pelo falecido e renomado astrônomo Carl Sagan (o célebre apresentador da série “Cosmos”), este filme realizado com extremo cuidado e precisão por Robert Zemeckis (empregando aqui, com ainda mais propriedade, todos os méritos técnicos e artísticos que o levaram a ganhar o Oscar por “Forrest Gump”) traz a mesma visão imbuída de humanismo, poesia e fascínio sobre a Humanidade e o Universo que Sagan discorreu, em ensaios, livros e em sua série, ao longo de toda a vida.
Os poucos detratores que esta obra magnífica pode encontrar poderiam argumentar que sua última meia hora é pontuada por argumentos mais abstratos do que cartesianos, mas o otimismo, a esperança e a fé no futuro (e em nós mesmos) têm por definição a imprecisão de crer no que ainda está por vir, e é difícil conter e emoção quando uma mensagem assim tão poderosa é entregue por meio de uma interpretação tão emocionante e emocionada como a de Jodie Foster.
Um filme para ver e rever sempre.

domingo, 31 de julho de 2016

Taxi Driver

   É preciso louvar o pessoal que estava à frente daquele movimento chamado Nova Hollywood. Embora “Taxi Driver” não tivesse sido realizado e lançado naqueles primeiros anos, era óbvio que o grande Martin Scorsese, com seu brilhantismo autoral e inquieto, reunia todos os predicados que eram almejados por aquela galera.
   Vindo de uma espetacular estréia, também ela protagonizada por Robert De Niro, no pulsante “Caminhos Perigosos”, e de experimentações na área do drama contemporâneo, como “Alice Não Mora Mais Aqui”, Scorsese debruçou-se sobre o roteiro afiadamente reflexivo de Paul Schrader, acrescentando à visão niilista e despojada do colega um tratamento audaz e poderoso que não tolerava nada menos que a liberdade total de seus realizadores: Uma definição através da qual o próprio cinema independente norte-americano pode aflorar.
   Travis Birkle (De Niro, fenomenal) é um veterano do Vietnam. Carregando uma série de neuroses herdadas da guerra, ele arruma emprego de taxista noturno nas ruas escuras de Nova York, a fim de contornar sua incapacidade de dormir. Mas os seus problemas de convívio vão se acentuando cada vez mais, ressaltados na relação conflituosa com uma bela auxiliar de campanha política (Cybill Shepard) e na sua curiosidade pela vida sofrida de uma garota de programa menor de idade (uma bem jovem Jodie Foster, já notável).
   Concebido por um autor de tantas obras brilhantes como Scorsese, “Taxi Driver” consegue se destacar em meio à sua exuberante filmografia, como um dos mais hábeis, contundentes e fascinantes retratos já feitos sobre a violenta vida noturna de Nova York e, num nível mais íntimo, sobre a dilaceração psicológica de uma mente torturada, que se espatifa num surto psicopata, culminando assim no primoroso banho de sangue registrado em sua cena final.